domingo, junho 17, 2007

Congresso Ordinário

Por Adriana Vandoni, Prosa & Política
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Mesmo condenando a fala do ditadorzinho da Venezuela que chamou o Congresso Nacional de papagaio, temos que admitir, a atual legislatura é primorosa. Talvez seja a composição mais ordinária que o Brasil já teve.

Dias atrás vi um deputado federal de primeiro mandato dizendo ser contra o fim das emendas por entender ser a distribuição delas a função dos parlamentares. O cara não sabe nem para quê foi eleito. Verdade seja dita, nenhum deputado ou senador, salvo raras exceções, sabe a função do parlamento. O Congresso Nacional, diferente de ser papagaio, é pato. Quase anda, quase nada e quase voa. Mas anda mal, voa mal e nada mal.

Age como executivo quando define obras que devem ser executadas, grande parte superfaturada para tirar uma graninha extra. Pensa agir como legislador quando aprova Medidas Provisórias, depois de “negociar” o voto com o poder executivo, geralmente com liberação das verbas para suas emendas. E agora imagina que trabalha quando cria CPIs, sem um pingo de conhecimento, competência ou interesse para investigar alguma coisa.

Concordo com o líder do PT na Câmara quando diz que o Congresso não pode abrir uma CPI para cada Operação da Polícia Federal, não por receio do que será descoberto, como é a razão do PT, mas por entender que assuntos urgentes devem ser discutidos, reformas devem ser votadas até para minimizar as oportunidades de corrupção. Além disso, faltarão deputados para tantas CPIs com tantos casos de corrupção.

Mas parece que as aventuras sexuais de Renan Calheiros são mais republicanas que uma reforma trabalhista, são mais essenciais que uma reforma política. O foco está errado. Claro que é uma fofoca e tanto saber como o Presidente do Senado queima calorias, mas o importante é saber se ele quebra o decoro parlamentar para pagar suas personals trainers. Mais promíscua que as relações sexuais de Renan Calheiros, ou seja lá qual for o parlamentar, são as relações do Congresso Nacional com as empreiteiras. Isso é que deve ser rompido acabando com as emendas parlamentares no orçamento.
Renan é um trouxa, um presidente do Senado que agiu como aquele jogador de futebol boçal que cai no conto da “maria-chuteira”. Esses homens são uns panacas mesmo. Se achou o máximo traindo a mulher, se achou gostoso quando na verdade é “gastoso” como bem disse o recém herói nacional Roberto Jefferson: “o bobo do Renan não fez vasectomia e dançou”. É isso, dançou!
Quanto à Monica Veloso, bem, ela já trabalhou em Mato Grosso. Conversei com alguns ex-colegas da moça e eles foram unânimes ao dizer que ela é uma promessa concretizada. Muito bem relacionada, sempre gostou de travar - no sentido bíblico - amizades com pessoas influentes. Uma moça bem relacionada, eu diria.

Ao Renan, o que ele merece mesmo é que sua esposa, Verônica, saia dessa situação vexatória que o marido a colocou e lhe dê uma boa surra de toalha molhada, como fazia sua conterrânea Denilma Bulhões ao então marido Geraldo Bulhões, ex-governador de Alagoas. Já que no lugar de “quebrar o decoro do marido”, isto é, ao invés de cortar o mal pela raiz ela preferiu engordar vinte quilos, que lhe dê agora uma bela surra.

Sai dessa, mulher! O Brasil vai amar! Talvez até a eleja Senadora em 2010, afinal, o brasileiro adora fazer escolhas esdrúxulas.

Qualquer coisa será melhor que este Congresso ordinário que nós temos hoje.

Adriana Vandoni é economista, especialista em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas/RJ, professora do curso de pós-graduação em Gestão de Cidades. Site: www.prosaepolitica.com

A conselheira dos flagelados

Augusto Nunes, Jornal do Brasil

A garota dos tempos do Colégio Sion ficaria ruborizada se topasse com um palavrão rabiscado na porta do banheiro. Marta Tereza Smith de Vasconcellos aprendera ainda no berço que não há espaço para vulgaridades no vocabulário das moças de boa família, sobretudo se filhas da velha aristocracia paulista.

A socióloga especialista em assuntos sexuais, liberada de algemas conservadoras pela maioridade e pelo casamento, aprendeu a expor teses atrevidas, às vezes chocantes, sem jamais recorrer a dialetos de bordel. Quando Marta Tereza Smith de Vasconcellos Matarazzo Suplicy aparecia na tela da TV, os pais sabiam que a conversa ficaria apimentada. Mas não tiravam as crianças da sala. A bonita balzaqueana sabia que nem tudo pode ser dito com todas as letras.

Nesta semana, o país constatou que, das marcas de origem, restaram o jeito mandão, a impaciência da menina mimada, a voz besuntada de arrogância e o gestual aperfeiçoado em cursos de etiqueta. A ministra Marta Suplicy já não consegue distinguir o cutucão desbocado da frase grosseira.

No meio da tarde de quarta-feira, terminada a festa de lançamento do Plano Nacional de Turismo, um grupo de jornalistas perguntou à ministra, no saguão do Planalto, se tinha algo a dizer sobre o apagão aéreo. Tinha, por exemplo, algum conselho a endereçar aos flagelados dos aeroportos?

O recado aos passageiros estava na ponta da língua. Com a desenvoltura de um gigolô argentino, Marta resumiu em três palavras a recomendação obscena: "Relaxem e gozem". Achou dispensável a ressalva que antecede o conselho: "Quando o estupro é inevitável...". Todos a conhecem.

Divertida com os vincos de espanto nos rostos de jornalistas, a ministra incorporou a sexóloga. "É como a dor do parto", comparou. "A gente sofre, mas depois esquece os transtornos". O sorriso de Dia dos Namorados avisava que Marta, relaxada, já prelibava os prazeres da noitada.

Viajaria para São Paulo a bordo de um jatinho da FabTur. Como não existe apagão no céu dos ministros, chegaria a tempo de maquiar-se sem pressa para o jantar com o maridão. Foi surpreendida pela barulheira dos brasileiros indignados. A tribo dos que não capitulam nunca foi numerosa. É diminuta em países reduzidos a viveiros de abúlicos. Mas sempre estridente.

O som da fúria induziu-a a divulgar uma nota em que pede desculpas pela "frase infeliz". Infeliz, mas sincera: a ministra pelo menos admite a existência de uma crise que, apesar das dimensões monstruosas, Lula finge não enxergar. Infeliz, mas reveladora. Marta deixou claro que o apagão chegou para durar - o estupro é inevitável, e pode tornar-se rotineiro. Que o governo não tem soluções para a crise. Nem se comove com o calvário imposto aos viajantes.Restam aos estuprados duas opções. Uma é recuperar a vergonha perdida em algum lugar do passado, reaprender a manifestar-se nas ruas e enfrentar os estupradores. A outra é seguir o conselho de Marta e render-se aos agressores.

Uma violência estúpida contra crianças

...e adolescentes em São Caetano
Reinaldo Azevedo

Matéria no jornal Diário de São Paulo desta sexta-feira, assinada por Guilherme Russo, expõe a estupidez a que chegamos. Reproduzo um trecho:
“Os cerca de 15 mil alunos das escolas estaduais e municipais de São Caetano do Sul, no ABC Paulista, começaram a receber questionários que abordam a sua sexualidade. As crianças de 1ª à 4ª série têm de responder se dormem com alguém na cama ou se tomam banho sozinhas. Há perguntas ainda mais constrangedoras como: “Alguém já tocou no seu bumbum?”. Ou “você já tocou no bumbum de alguém?” Já os adolescentes têm de escolher entre duas respostas sobre orientação sexual: “Você é heterossexual ou homossexual?”

O texto foi elaborado pelo Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de São Caetano do Sul, e aprovado pela Vara da Infância e da Juventude do município

Pois é, leitores. Abaixo, seguem algumas perguntas feitas para crianças da 1ª à 4ª série:
- Você viu alguém pelado? Quem?
- Alguém já mexeu no seu ______ ou na sua _____ ou no seu bumbum? Quem foi?
- Você já mexeu no ____ ou no bumbum de alguém? De quem?
- Alguém beija você na boca? Quem?
- Você dorme sozinho na cama?
- Você toma banho sozinho?

Eis algumas questões para alunos do 2º grau:
- Qual sua orientação sexual? Homossexual ou heterossexual?
- Você já sofreu algum tipo de discriminação por ser gay ou lésbica?
- Você já usou drogas, crack, ecstasy?
- Tem pessoas na sua casa que usam drogas?
- Que drogas essas pessoas usam na sua casa?

É uma barbaridade. Cadê o Ministério Público? Essa gente tem de ser processada. O mais lamentável é que o juiz Eduardo Rezende Melo, da Vara da Infância e da Adolescência de São Caetano, disse não ver nada de errado: “Não vi absolutamente problema nenhum na aplicação dos questionários. Não vejo ilegalidade”, disse ele ao Diário de São Paulo.

Revolta
Os pais, com justiça, se indignaram com os questionários e protestaram. A Prefeitura suspendeu a sua aplicação. Só uma observação: a indignação já existia, sem que ninguém tomasse qualquer providência. A medida só veio depois que o assunto foi parar na imprensa.

O SPTV fez uma reportagem a respeito. Uma senhora, do tal conselho, com ar aparvalhado, perguntava: “Será que especialistas fariam um questionário que não fosse adequado”. Ah, minha senhora, fariam, sim. Fizeram.

Barbaridade
Por onde começar? No que concerne à questão propriamente psíquica, trata-se, obviamente, de uma violência. Crianças entre 6 e 10 anos — que, é fato, têm uma sexualidade — estão sendo é estimuladas a se interessar por práticas inadequadas à sua idade. Mais: nessa idade, a realidade e a fantasia ainda se misturam. Será que o episódio da Escola Base, que destruiu a vida de pessoas inocentes, ainda não ensinou nada a ninguém? Nos Estados Unidos, há até associações de pais vítimas da falsa memória do incesto, acreditem...

De maneira inepta, o questionário invade o ambiente das famílias. Eu não aprovo — é uma questão de educação apenas — que adultos fiquem nus na frente das crianças. Não era um padrão da minha família; não é um padrão que eu siga em casa. Mas há pais que não vêem mal nenhum nisso — e não se trata, obviamente, de qualquer desvio de comportamento. O tal questionário induz a que uma família mais liberal nos costumes seja vista como potencialmente molestadora.

Parece-me razoável que um pai ou uma mãe dêem banho no filho ou na filha de seis anos, ocasião em que, certamente, tocam no seu “bumbum” ou na sua _____ ou no seu _____. Entrarão para a lista dos suspeitos?

Conheço mães e pais que dão os tais “selinhos” em seus filhos. Isso é “beijo na boca”? Ou o conselho e o juiz vão querer saber se é ou não beijo de língua? Uma criança de seis ou sete anos que tenha tido um pesadelo salta para a cama dos pais. Isso é “dormir junto?” Crianças têm curiosidade sobre a sexualidade adulta e tendem a misturar fato com imaginação. Como é que isso pode ser identificado num questionário como esse, inepto?

É INCONSTITUCIONAL, apenas isso, perguntar a alguém qual é a sua orientação sexual. Os adolescentes não podem ser submetidos a esse tipo de constrangimento. Mais: também não devem ser convertidos em policiais de seus pais ou de suas famílias.

A aplicação dos questionários já foi suspensa, mas quem será punido? Se molestamento infantil é um problema sério, certamente a solução não é essa: inepta, estúpida, pautada pela brutalidade politicamente correta. Mais: eu desconfio seriamente da sanidade das pessoas que os elaboraram. Não sei até onde não há nas perguntas um quê de manifestação voyeurista; não sei até onde elas não traduzem mais as obsessões de quem indaga do que atendem às necessidades supostas de quem responde. Por que um professor tem de perguntar a uma criança como ela chama o órgão pelo qual faz “xixi”?

No que diz respeito à psicologia e à educação, os questionários são um desastre. No que se refere à política propriamente, a coisa é ainda mais séria: entes do estado tentam desautorizar a família como a célula indivisível da sociedade. O Grande Irmão está querendo enfiar o pé na porta para dizer como devemos educar os nossos filhos.

Quem será punido?

Barões e Ladrões

Por Maria Lucia Barbosa , Alerta Total
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O presidente da República, sua cúpula governamental, os integrantes da mais alta hierarquia de seu partido, o PT, têm sempre um álibi quando a corrupção vem à tona envolvendo compadres e companheiros mais chegados: “Isto sempre existiu no Brasil”. E, esquecidos da promessa de que viriam para acabar com a devassidão pública por serem o único partido ético, justificam seus delitos invocando os do governo anterior, sejam eles falcatruas inventadas ou reais.

No poder, finalmente, o PT conclui que, se todo mundo faz não tem importância fazer também, e que a hora é de aproveitar e ir à forra. Assim, a classe dominante foi ao paraíso, inclusive, aos paraísos fiscais, como ilustrou Duda Mendonça em pleno Congresso Nacional ao depor numa daquelas CPIs, as famosas Comissões que fazem muito barulho por nada.

É verdade que a corrupção é nossa antiga companheira. Faz parte de nosso tecido social desde os primórdios coloniais. E, conforme escrevi em um dos meus livros, América Latina – Em Busca do Paraíso Perdido, referindo-me à vinda da corte para cá, “em 1808, instalaram-se de uma vez por todas nestas plagas as características do Estado português, que em terra nova não perderia sua tradicional essência patrimonialista.

Segundo Raymundo Faoro, em Os Donos do Poder: ‘Os reis portugueses governavam o reino como a própria casa, não distinguindo o tesouro pessoal do patrimônio público’. Era também um Estado corrupto na medida em que para tudo se dependia dele, do seu excessivo quadro de funcionários, da morosidade típica da burocracia, correndo soltas as propinas para aligeirar licenças, fornecimentos, processos, despachos, etc. Em toda parte das entranhas do desajeitado e ineficiente Leviatã conduzido por D. João VI, traficava-se influência, negociava-se a coisa pública em proveito próprio”.

Em artigo no Caderno Mais, da Folha de São Paulo, de 03/06/2007, a historiadora Isabel Lustosa mostra exemplo de grande corrupto na pessoa de Francisco Bento Maria Targini, visconde de São Lourenço, Tesoureiro-mor de D.João VI. A Targini foi dedicada a significativa quadrinha: “Quem furta pouco é ladrão/quem furta muito é barão/quem mais furta e mais esconde/passa de barão a visconde”. Isabel se refere também aos “pequenos corruptos, incultos e quase analfabetos, como o barbeiro Plácido”.

Do Império até os dias de hoje, “barões” e ladrões continuam a praticar a corrupção favorecidos pela impunidade, pelo Estado patrimonialista e excessivamente burocratizado, pela ausência de cultura cívica, pela plasticidade moral do brasileiro.

Entretanto, como gosta de dizer o presidente da República, “nunca, antes, nesse país”, se viu uma profusão tal de Targinis, de “barões”, de ladrões que se espalham por todos os Poderes Constituídos, que se esparramam pelas instituições, que usufruem da intimidade do “rei”. Quando se pensa que chegamos ao fundo, que neste governo começou a ser cavado por Waldomiro Diniz, os escândalos se multiplicam, assim como as inúteis CPIs e as espetaculares operações da Polícia Federal que expõem a podridão moral da coisa pública.

Os casos escabrosos são tantos e tantos os personagens neles envolvidos, que a opinião pública vai sendo anestesiada e, numa inversão de valores, passa a conceber o que era errado como certo. Na esteira dos acontecimentos sobrepõe-se de tal modo os Targini, que vai se apagando da memória coletiva até as mais recentes personagens envolvidas na rapinagem.

Diante da operação Xeque Mate, que comprometeu irmãos do presidente da República, vão caindo no esquecimento as “façanhas” de companheiros e compadres presidenciais como José Dirceu, Antonio Palocci, Luiz Gushiken, Delúbio Soares, José Genoino, Paulo Okamoto, Osvaldo Bargas. Jorge Lorenzetti, Freud Godoy e tantos outros. Até Zuleido e Renan Calheiros vão escapando pela fresta da amnésia popular. Aos brasileiros mais conscientes e atilados fica a impressão de que o governo ora em curso é uma mistura de máfia, circo e bordel.

É verdade que desde que o ex-deputado Roberto Jefferson tocou sua “trombeta de Jericó”, derrubando até o todo-poderoso José Dirceu, nunca, antes, nesse país tinham vindo à tona tantos “barões”. Mas, proporcionalmente, nunca houve tanta impunidade, pois os Targini continuam livres, leves e soltos. São muitas ações e poucas condenações. Muitas CPIs e raríssimas cassações de mandatos.

Em meio à sordidez reinante, sobrepõe-se emblematicamente, como o barbeiro redivivo do Império, o irmão dileto do presidente da República, Genival Inácio da Silva, vulgo Vavá, a quem Roberto Jefferson certamente chamaria de “petequeiro”, pois o bondoso mano oferece malandramente por pequenas quantias, até aos compadres do submundo do crime, seus serviços que não são entregues. Seria ele também ‘a cara do povo”?

Pode ser. Afinal, não é o próprio povo que escolhe malandros, trambiqueiros e mafiosos para representá-lo? Portanto, não há do que se queixar. Nem mesmo do prejuízo anual de R$ 40 bi que a corrupção causa ao País.

Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.

TRAPOS & FARRAPOS...

O ANÚNCIO CAPENGA DO PIB
Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia

O IBGE divulgou o resultado do PIB no primeiro semestre de 2007, e claro, o fez em grande estilo: 4,3%.

A notícia a seguir, da Redação do Terra, deve estar mexendo com as cabeças coroadas da república, e tem gente ensaiando discurso cretinos para os próximos dias. As, prestem bem atenção porque há detalhes curiosos na informação passada pelo IBGE, e o sobre os quais comentaremos depois.

PIB cresce 4,3% no primeiro trimestre, diz IBGE
Fonte: Redação Terra, Com Reuters
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A economia brasileira cresceu 4,3% no primeiro trimestre deste ano, em relação ao mesmo período do ano passado, e sinalizou força dos investimentos. Segundo os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados nesta quarta-feira, a expansão frente aos últimos três meses de 2006 foi de 0,8%.

Em valores nominais, o PIB brasileiro nos três primeiros meses do ano somou R$ 596,1 bilhões, ante R$ 539,3 bilhões no mesmo período do ano passado.

"O dado do trimestre chega a 3,2% se anualizado, que é bem em linha com o PIB potencial do país e, com isso, não muda o cenário de inflação", afirmou Alexandre Lintz, estrategista-chefe do BNP Paribas Brasil.

O setor de serviços teve o melhor desempenho na comparação entre o primeiro trimestre e os últimos três meses de 2006, com avanço de 1,7%. A indústria, na mesma comparação, cresceu 0,3%, enquanto a agropecuária caiu 2,4%.

A formação bruta de capital fixo, uma medida de investimentos, cresceu 7,2% em relação a igual período do ano passado. O avanço foi explicado, principalmente, "pelo aumento da produção e da importação de máquinas e equipamentos", segundo o IBGE.

Investimento
A taxa de investimento do País ficou em 17,2% do PIB no primeiro trimestre deste ano, a mesma do primeiro trimestre de 2006.

A taxa de poupança nos primeiros três meses deste ano alcançou 17,4% do PIB, a mais alta desde o primeiro trimestre de 2004.

Muito bem, quem lê a manchete já imagina o país crescendo um monte, não é mesmo ? Mas vamos devagar, que a coisa não é bem assim. Primeiro, que esta medição do IBGE já é feita pelo novo sistema de cálculo do PIB empregado pelo IBGE a partir deste ano. Portanto, tende a ser maior, em razão do cálculo mais conservador de antes. Segundo, e aí é que mora o detalhe, vejam lá na informação do terceiro parágrafo: quando anualizada, a taxa de crescimento bate na casa de 3,2%, o que fica dentro da média de crescimento, considerando-se já a média recalculada pela nova metodologia empregada. Se considerarmos ainda que os crescimentos dos PIBs dos demais países emergentes, em igual período, foi superior a 4,5% na média, chega-se a conclusão de que ainda estamos patinando. Claro que o presidente tratará deste número com o maior carinho, vai cantar loas a política econômica do governo, que nunca dantez na história deste país, que o PAC aqui, o pac acolá, etc, etc, etc. Ora, o pac continua onde sempre esteve até aqui: empacado, não saiu do lugar. Portanto, nenhum número de crescimento, seja para mais ou para menos, terá sentido efeito de algo que sequer saiu do papel. Mais: o crescimento anualizado de 3,2% pouco acrescenta à média do ridículo crescimento do período Lula. E claro, vamos aguardar um pouco mais para ver os números apresentados pelos demais emergentes, porque aí sim, poderemos traçar um comparativo mais adequado quanto ao número que o IBGE anunciou.

Claro que se deseja que o país cresça o mais que puder. Melhora o emprego, melhora a renda, a vida de todos fica melhor. Mas em nome desta expectativa não podemos também nos iludirmos e ver paraísos em cenários ainda insólitos. Sabemos que o país poderia e pode muito mais do que vem registrando, que a economia internacional abre uma estrada animadora e de expectativa e afirmação para um crescimento maior. Tanto é que a América Latina, como um todo, acusa crescimento bem maior do que o nosso. Os demais emergentes apresentaram médias de crescimento superiores quase o dobro da nossa. Temos riqueza, temos potencial e o mercado está receptivo. Além disto, e somente a partir do Plano Real, o Brasil realizou muito no campo de superar suas próprias dificuldades internas, atingiu a estabilidade seguindo um roteiro traçado ainda em 1994, e que Lula deu seguimento, e teve méritos nisto. Porém, o chão a percorrer ainda é muito longo. Apenas mudar a metodologia de cálculo do PIB, para que o número fique e pareça mais gordo, pode servir ai discurso demagógico do político oportunista perante seus eleitores, cuja imensa maioria não convive com os “detalhes” da informação, e sequer ^tem domínio das sutilezas da ciência econômica. Porém, para aquele bem informado, o número se pode parecer animador por dar mostras de que estamos perseguindo um alvo positivo, ainda é preocupante na medida em que na comparação com os demais países emergentes, parece estarmos perdendo oportunidades para fazer mais.

Portanto, antes foguetes, um pouco de cautela seria o mais prudente. Aguardemos as informações das taxas de crescimento dos demais países para melhor avaliação final. Só esta comparação nos permitirá deduzir se o cre4scimento é motivo de comemoração ou de preocupação. Isoladamente, ele provoca euforia apenas nos desavisados e oportunistas. Mas isto, como sabemos, não enche o nosso bolso.

A nova ditadura do “proletariado”

por Paulo Moura, cientista político, Blog Diego Casagrande

No Brasil as elites políticas, à esquerda e à direita, carregam fortes marcas da bagagem histórica herdada da formação política da nação. São patrimonialistas e vinculadas ao passado oligárquico e/ou ao populismo típicos da matriz urbano-industrial tardia que marca a economia nacional até a segunda metade do século XX. A formação da nova elite social, em ascensão no sistema político, é resultado da rápida transição do Brasil rural para o Brasil urbano, inaugurado por Getúlio Vargas e seqüenciado pelo ciclo de modernização que passou por JK e se completou com o regime militar de 1964. Lula é a cara emblemática da “nova classe”.

A base social dessa elite política que chegou ao poder após o recente ciclo de democratização, se compõe dos sindicalistas CLT, inventados por Getúlio; da corporação dos funcionários públicos do Estado balofo e falido e de um segmento de uma classe média, antes inexistente e ainda não mapeada pela sociologia tupiniquim, talvez ligada a pequenos negócios formais e informais na área do comércio e dos serviços. Todos vêem na política um caminho para o enriquecimento rápido. No caso do funcionalismo público a entrada na política é movida pelo interesse de estancar a decadência social provocada pela falência do Estado, agora incapaz de proporcionar-lhes as vantagens e privilégios de outrora.

Hoje, quem busca a função pública – com exceção do Poder Judiciário - não o faz sonhando com bons salários, pouco trabalho; aposentadoria rápida e tranqüila. O paletó no encosto da cadeira é o símbolo emblemático de um tipo de servidor público que aproveita o emprego sem patrão para dar uma escapada da repartição, pagar umas contas, levar as crianças na escola ou fazer umas comprinhas enquanto espera a aposentadoria integral paga pelo contribuinte ignorante e despolitizado. Hoje o emprego público, mesmo com baixos salários, é a salvação para quem tem dificuldades de encarar o ambiente competitivo da economia globalizada no mercado de trabalho instável e com relações flexíveis.

A tecnologia do alpinismo social de hoje não é mais a do concurso público. É o assalto descarado aos cofres do Estado, praticado por essa “nova classe”, que adentra o Estado através da política partidária. A nova elite política aprendeu com as elites oligárquicas decadentes, a desviar recursos públicos para bolsos privados de forma mais rápida e voraz. Sem pudores.

Sociologicamente há quem chame essas práticas de neopatrimonialismo. Afinal, as velhas elites nacionais, desde 1500, recorreram a artifícios desse tipo, antes elitizados e hoje democratizadas. A passividade social de contribuintes que não sabem o que pagam para sustentar essa brincadeira explica o descaramento e a desfaçatez com que a corporação estadocrata “evoluiu” do patrimonialismo para o roubo puro e simples.

Do Império à República Velha a liderança política da nação era exercida pelas oligarquias rurais. Os antigos coronéis da Guarda Nacional, cujos “peões de estância” - como se diz aqui no sul - compunham a força militar de defesa nacional, fundiram política e armas, até que a criação de um exército profissional “modernizou” a tecnologia do poder. Não é a toa que a proclamação da República foi o primeiro de uma séria de golpes de Estado sob comando militar. Militares são funcionários públicos armados. Antiga guarda pretoriana das oligarquias rurais, os militares estiveram presentes sempre que necessário, para garantir os ciclos de modernização conservadora sob comando estatal, mesmo após o surgimento do segmento industrial da economia nacional, que financiou as primeiras fábricas com os ganhos da produção agrícola.

O regime militar de 1964 foi a ante-sala da libertação política da corporação dos servidores públicos, até então submissa às velhas oligarquias. Getúlio Vargas mostrou o caminho; fortaleceu a corporação dos servidores públicos, ampliando o número de funcionários e atrelando ao Estado, através dos sindicatos CLT, a nova classe trabalhadora; antes rural e a partir da década de 1930, urbano-industrial.

A esquerda brasileira, numericamente restrita e com origem na classe média urbana, leninista e gramsciana, aprendeu com os erros da luta armada das décadas de 19760/1970 e ensinou à corporação dos funcionários do Estado, sob liderança do sindicalismo CLT partidarizado, o caminho para a tomada do poder sem armas. Quando a conta do “milagre brasileiro” de 1964 chegou na forma de hiperinflação e a corporação dos funcionários públicos militares foi forçada a sair de cena, chegou a vez de a “nova classe” assumir a vanguarda da luta pelo poder de Estado. Em menos de vinte anos de democracia a empreitada se concretizou.

Max Weber já desmoralizara Karl Marx provando que a burocracia prussiana é quem comandava politicamente a sociedade alemã do século XIX, e não a burguesia, como dizia a cartilha comunista. Às portas do século XXI, quando o mundo evolui para a economia pós-industrial e para a redução do tamanho do Estado, o Brasil da modernização tardia confirma os escritos de Weber, sobre um fenômeno que na Alemanha, aconteceu no século XIX. Completou-se agora, sob o segundo reinado de Lula, o processo de hegemonia política das corporações do Estado sobre uma sociedade preponderantemente submissa ao poder autoritário dos governantes de plantão.

Os segmentos economicamente livres da escravidão do Estado são, no Brasil, uma ínfima minoria que não tem tempo nem gosto para a política, muito menos interesse e poder de influência sobre a maioria comprada pelas mesadas do Estado-pai. O discurso libertário não encontra eco num tecido social como esse. Nem poderia. O foco da maioria é arrumar uma teta no Estado. Lula, o ordenhador esperto, escolhe os incluídos e os excluídos: do Bolsa Família; do carguinho público, da licitação viciada.

A criação da Super Receita dará o golpe fatal nos poucos indivíduos livres do Estado-teta. Os grilhões do Estado-feitor serão garroteados ao bolso dos recalcitrantes, matando-nos por asfixia. Em breve, quando o serviço estiver completo, estará instituída a nova “ditadura do proletariado”. Não do proletariado de Marx, que não existe mais. A fórmula é a mesma da cartilha marxista, mas a “nova classe” no poder é corporação estadocrata.

Más intenções do PT?

Carlos Chagas, Tribuna da Imprensa

Num Congresso vazio por conta do feriado de 07.06, deixou de repercutir a nota do PT, solidarizando-se com Hugo Chávez e afirmando que na Venezuela há liberdade de imprensa. Conforme os petistas, o presidente daquele país agiu conforme a lei, não renovando a concessão para que a maior rede de televisão local continuasse a funcionar. Como brada aos céus raciocínio tão abominável, é preciso perscrutar porque o PT dispôs-se a torná-lo público. O perigo pode morar precisamente nessa nota oficial.

No mínimo, lê-se nas entrelinhas que se a lei permite absurdos lá em cima, por que deixaria de ser aplicada aqui embaixo? Traduzindo: o PT aventa a hipótese de a mesma iniciativa de Hugo Chávez ser aplicada no Brasil, porque a nossa lei também determina a renovação periódica das concessões de rádio e televisão. Sem ela, as emissoras perdem o direito de funcionar.

Estivesse o PT isento de más intenções diante da imprensa e esse raciocínio poderia sair pelo ralo, mas é bom lembrar que o partido do presidente já tentou garrotear a imprensa. A tal agência de comunicação proposta pelo Planalto foi obstada no Congresso. A Lei da Mordaça de quando em quando é ressuscitada. As razões para a implantação de rede pública de TV fundamentam-se na necessidade de o governo "defender-se" dos ataques da mídia. E vai por aí. É bom tomar cuidado com a solidariedade do PT ao presidente venezuelano. Pode ter azeitona nessa empada.

O alvo maior
Dúvidas inexistem de que indiciar um irmão e algemar compadres do presidente Lula exprime uma operação complexa da Polícia Federal. De início, nada a opor, porque, afinal, todos devem ser iguais perante a lei. Por ser parente um cidadão não pode ser considerado imune a investigações e acusações. A PF cumpre o seu dever, como disse o próprio Lula, lá do outro lado do mundo. O diabo é que mesmo elogiado por sua isenção, o presidente foi atingido. A acusação contra o seu irmão mais velho é de traficar influência e explorar prestígio. Contra seus amigos íntimos, parece mais grave: corrupção ativa e formação de quadrilha.

Não são isolados e nem os primeiros esses petardos explodindo nos jardins do Palácio da Alvorada. De Delúbio Soares a Silvio Pereira, de Jorge Lorenzetti, Osvaldo Bargas e Paulo Okamoto, de José Dirceu a Luiz Gushiken, Duda Mendonça, José Genoíno, as acusações de corrupção em maior ou menor grau igualam-se às agora atingindo Genival Inácio da Silva, Dario Morelli Filho e Nilton Servo. Todos se diziam amigos do presidente, a maioria com livre trânsito nos centros do poder federal. O círculo se fecha em torno do núcleo, coisa que a opinião pública acabará percebendo.

Parlamentarismo
Constituiu-se a Frente Parlamentarista, da qual seu inspirador, o senador Fernando Collor, maliciosamente preferiu não se tornar o presidente, mas o coordenador. Essa história de presidência, para ele, parece página virada, mesmo não sendo da República. Justiça se faça, mesmo quando no auge do poder, Collor defendia o parlamentarismo. Claro que só depois do término de seu mandato presidencialista, aliás, interrompido.O problema, no entanto, é que em dois plebiscitos o Brasil rejeitou o sistema parlamentar.

O presidencialismo, para muitos constitucionalistas, tornou-se cláusula pétrea, revogável só por uma Assembléia Constituinte ou por uma revolução. Acresce que o parlamentarismo contraria nossa tradição republicana. O brasileiro, por razões culturais, sempre deseja alguém para aplaudir ou vaiar, no exercício do poder.

Se o Congresso tivesse aprovado ontem a mudança, caberia ao partido com maior representação indicar o chefe do governo: PMDB. Quem seria primeiro-ministro? Geddel, Temer ou Eliseu Padilha? Presumindo-se que o PT formasse com o PMDB, quem indicaria os ministros? Apenas os partidos, sem a rede de proteção da moralidade, mesmo furada, que ainda funciona no presidencialismo de Lula.

O PTB decidiria por Roberto Jefferson para ministro da Defesa, o PT por José Dirceu para ministro da Fazenda e a ninguém seria dado divergir. Pode ser que no futuro o parlamentarismo seja adotado. É mais democrático, quando funciona num país institucionalmente mais avançado. Por enquanto, porém, de jeito nenhum.

A Justiça dá início à reforma política

Villas-Bôas Corrêa, Jornal do Brasil

Quem não faz, leva - é uma velha máxima do futebol que desdenha o empate, em especial o 0 x 0, que é a negação a disputa. Nem sempre. Uma partida entre dois grandes times pode provocar uma torrente de emoções, mesmo com que acabe com o placar em branco.

Mas, são rodeios que encaminham a conversa para a surpreendente decisão da brava juíza Mônica Jacqueline Sifuentes, da 3ª Vara Federal do Distrito Federal, determinando a suspensão do pagamento da indecorosa verba indenizatória de R$ 15 mil mensais para o ressarcimento das despesas dos senadores e deputados federais no fim de semana, em suas bases eleitorais e no aconchego dos lençóis domésticos.

Como era previsível, a turma estrilou, botou a boca no mundo para choramingar a pobreza dos felizardos, premiados pelo voto com um dos melhores empregos do mundo, com rendimentos mensais, somados os 14 subsídios anuais de R$ 16.512 mensais e o cacho de bananas de ouro das mordomias, vantagens, benefícios e prendas, acima dos R$ 100 mil.

Os presidentes das duas Casas do Legislativo botaram as barbas de molho e resistiram aos apelos para determinar o pagamento da bolada pelo menos este mês. Já suficientemente encrencado com o rumoroso episódio da relação extraconjugal com uma jornalista e o acerto de contas para o pagamento de pensão à filha de 3 anos, o senador Renan Calheiros, em parceria com o deputado Arlindo Chinaglia, presidente da Câmara, providenciou os recursos a serem encaminhados pelas Mesas para derrubar a decisão da juíza.

Não convém soltar foguete nem embarcar na leviandade dos palpites, antecipando a decisão dos tribunais superiores.

Mas duas linhas paralelas de comentários são de absoluta procedência.

De logo, salta aos olhos que a juíza Mônica Jacqueline Sifuentes puxou o tapete da crise ética que corrói a credibilidade do Legislativo e, em tacada de mestra, aplicou o corretivo exemplar ao denunciar a vexaminosa verba indenizatória, a mais pútrida mancha na desmoralização do Congresso recordista em escândalos e em absolvições no pagode da impunidade.

Uma reforma política a sério, para valer, terá que começar obrigatoriamente pela poda dos galhos da amaldiçoada figueira do inferno. E, no embalo, cortar os ramos suspeitos, e que são muitos.

A conversa fiada de paliativos para enganar os trouxas, como o financiamento público de campanhas - que muitos renegam, com receio de perder a mamata das subvenções que abastecem o caixa 2 - ou o voto em lista, só deveriam ser debatidos depois da faxina em regra para retirar o lixo empilhado nos cantos.

O pranto dos parlamentares mais desinibidos é de uma desfaçatez que chega a comover. O presidente da Câmara, deputado Arlindo Chinaglia, sensibiliza-se com os pobres parlamentares "que vivem do salário e que dependem diretamente da verba para fazer o trabalho do mandato".

Até onde chegamos no aviltamento do mandato dos representantes do povo! Os parlamentares em todos os níveis, da monarquia até a ditadura militar de 21, sempre residiram nos seus locais de trabalho e pagavam as suas contas com os então modestos subsídios.

Semana útil de dois a três dias é novidade da mudança da capital para Brasília, em 21 de abril de 1960. E também os demais berloques que foram sendo anexados pelo vício deformante das mordomias: quatro passagens aéreas mensais, verba de gabinete de R$ 50.815 para a contratação de assessores, R$ 3 mil de auxílio para os que recusam os apartamentos funcionais, crédito de R$ 6 mil na gráfica para a impressão de livros e discursos, cota telefônica e de correio de R$ 4,2 mil. Deve estar faltando algum por fora.

Mordomia vicia. Aniquila a vontade de trabalhar, amolece o ânimo para enfrentar a dureza do batente.

E é um vício de cura difícil. Sobe à cabeça, enche o bolso e envenena o sangue.

Só um refresco

José Paulo Kupfer, NoMínimo

Ninguém gostou das medidas oficiais de ajuda a empresas afetadas pelo câmbio valorizado. Nem os setores beneficiados – que as consideraram insuficientes. O pacote de compensação seletiva do câmbio tem, de fato, inconvenientes para todos os lados.

Para começar, passa péssimas mensagens. Parece que o governo está dizendo que não há nada a fazer na política monetária para colocar o câmbio numa posição mais adequada a toda a economia e que, portanto, o negócio é ir quebrando galhos aqui e ali. Reforça também a idéia de que planejamento e longo prazo são expressões fora do dicionário oficial. E permite concluir que a regra da ação governamental é o cala-a-boca pontual e seletivo.

Além disso, do ponto de vista prático, não alivia os calos que realmente apertam o sapato do setor empresarial. O pacote abre umas linhas de crédito a taxas de juros subsidiadas para empresas de pequeno e médio portes, dá uma desonerada fiscal sob a forma de conversão de créditos de impostos em tempo mais curto do que o regulamentar, e facilita o investimento em máquinas e equipamentos de empresas exportadoras.

Política monetária compatível com um câmbio que estimule o exportador a ser competitivo, mas sem sufocá-lo, ao mesmo tempo em que obriga o produtor doméstico a competir com os importados, mas sem esmagá-lo – eis a receita preferencial, de caráter geral, que deveria ser aplicada. Na falta dela, eventuais arranjos pontuais, se de emergência, mesmo sob o risco da produzir discriminação e distorções setoriais, deveriam focar na desoneração da folha de pagamentos e no alívio fiscal.

Como veio, o pacote de compensação do câmbio, em resumo, refresca para uns tantos, sem mudar nada na paisagem enevoada por uma política macroeconômica teimosamente burra.

Pior que os outros, melhor que o Brasil do passado

Carlos Sardenberg, Portal G1
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Diz que uma vez perguntaram a Bertrand Russell: como vai sua mulher?

E ele, cabeça de lógico e matemático, hesita por alguns segundos e pergunta: mas comparando com quem ou com o quê?

Entender é comparar. Como comparar o resultado do PIB, divulgado hoje pelo IBGE?

Utilizando-se as diversas medidas, pode-se dizer que a economia brasileira, no primeiro trimestre deste ano, estava crescendo em um ritmo de 4% ao ano.Entre os países emergentes mais importantes, só é mais forte que o México (2,6%). Mais ou menos no mesmo ritmo que a gente estão Coréia do Sul, Tailândia, Taiwan e Arábia Saudita. Os demais crescem acima dos 5% anuais, a maioria acima dos 6%. No ponta de cima, estão China (11,1%) e Índia (9,1%). Nas previsões para o conjunto deste ano, o Brasil de novo só fica à frente do México.

Comparando o Brasil de hoje com o Brasil do passado recente, o momento atual é superior. Pode-se dizer que o crescimento acelerou do ano passado para cá, embora seja uma modesta aceleração. Em 2006, o PIB cresceu 3,7%. Neste momento, estamos a 4%, talvez já um pouquinho mais.

A conclusão é a seguinte: do jeito que está, com esse PAC e esses pacotinhos, o Brasil cresce acima dos 4%, mas abaixo dos 5%. Está melhor que o passado recente, mas pior do que conseguem os demais países.

Conclusão: estamos nos beneficiando da fantástica onda mundial, mas poderíamos estar fazendo melhor.