terça-feira, dezembro 15, 2009

O governo, sem o Lula da propaganda, é um desastre

Adelson Elias Vasconcellos


É chegado o tempo da gorda safra de pesquisas de opinião. No próximo ano, elas se tornarão a coqueluche dos debates em todo o país. Muitos se sentirão contrariados, ou mais aliviados, outros preocupados, outros irritados, e assim por diante. Haverá que conteste alguns resultados, outros dirão que eles são manipuladores da opinião pública, outros sequer lhe darão imp0ortância alguma.

Mas o início desta avalanche já nos faz refletir sobre alguns resultados que, olhados com certa superficialidade, parecem ser contraditórios. Examinados mais sob o ângulo do contexto político-institucional refletem bem a nossa realidade.

Por hoje, vou me deter em analisar alguns aspectos da recente pesquisa do IBOPE. E não sobre as preferências do eleitorado quanto aos candidatos a candidatos na corrida presidencial. Afinal, o índice de votos indecisos ainda é bastante expressivo para serem determinantes de tendências.

Vou me ater isto sim, ao modo como o eleitorado analisa e conceitua o governo Lula.

Semana passada, postamos artigo do cientista político Murilo Aragão, publicado no blog do Noblat. E é dele, do resumo bem apanhado que fez dos resultados da pesquisa, que iremos nos valer para os nossos comentários.

Começo pela aprovação do presidente Lula, que pulou de 81 para 83%. E a confiança saltou de 76 para 78%.

Ora, diante de resultados tão expressivos, seria de se esperar que os resultados produzidos pelo governo Lula refletissem indicadores melhores do que na realidade encontramos. Não, não refletem. Como ainda seria de esperar que as avaliações individualizadas, por setores de atuação como saúde, segurança, educação, programas sociais (a joia da coroa), se alinhasse ao mesmos índices de aprovação da figura do presidente, o que justificaria tanto os 83% de aprovação quanto os 78% de confiança. Mas não é isso que ocorre.

Há uma enorme distância entre o presidente, e o seu governo.l É como se um estivesse divorciado do outro, apesar de serem consequentes.

Vamos lá: a aprovação do governo no combate à fome e à pobreza, por exemplo, caiu de 68% para 60%, em segurança pública, o índice caiu de 42% para 38%, em saúde, a desaprovação aumentou de 54% para 57% e em educação, de 39% para 43%.

Parece ou não contraditório o resultado do IBOPE, quando se compara Lula com seu governo? Por incrível que pareça, tais indicadores tão díspares, a figura DO Presidente, distante do resultado DO governo, explica muita coisa.

Quando o eleitor é consultado sobre a figura presidencial, ele está imaginando o Lula do discurso e da propaganda, se vê diante da ilusão que lhe é vendida, aprecia a figura humana do ex-operário, sarcástico no palanque, e descompromissas do dos erros que ele próprio comete. Tanto o discurso quanto a propaganda insinuam ao eleitor que as virtudes do governo, de 2003, são obras de Lula, e os defeitos são culpa dos outros. E, se a gente for observar que, menos de 5% da população brasileira pode ser, minimamente, considerada como informada, então começa a fazer sentido o resultado da pesquisa do IBOPE. E, nisto, louve-se a competência tanto do discurso quanto da propaganda oficial. Conseguiram separar Lula de seu próprio governo. Com que objetivo? Está claro que o resultado que o governo produz é bom e bem aceito pela população, Lula imediatamente se apropria das ações como méritos seus. Mesmo que não sejam, como veremos. Quando o resultado, porém, é negativo, ele invariavelmente empurra a culpa para os outros, principalmente, é claro, para sua obsessão principal:  FHC.

Agora, quando a pesquisa começa a centrar perguntas em relação às ações do governo de forma específica, como saúde, educação, segurança, etc., aí o eleitor já vota com a consciência daquilo que lhe atinge todo o santo dia, e como tais ações são ruins, a pesquisa acaba revelando a ruindade do governo. É contraditório ? Claro que é, mas se explica justamente pela forma como Lula se comporta nos palanques e como a propaganda induz o eleitor ao catecismo vagabundo das esquerdas, que vou chamar aqui de idolatria.

Presentemente, estou lendo um livro chamado DOSSIÊ HITLER, do jornalista Sérgio Pereira Couto, e sobre o qual falarei mais em outro artigo. É uma obra pequena, de fácil leitura, mas de alguma profundidade. Em especial, poderia, por ora, destacar um capítulo, aquele em que o Sérgio aborda o método de propaganda praticado pelo nazismo, cuja figura central foi Joseph Goebbels, o homem que consagrou como máxima a frase “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”. Nele, se descreve de forma resumida o método com que o Nazismo se infiltrou na sociedade alemã, e se apoderou do país e suas instituições.

Lendo-se a relação que Hitler mantinha com Goebbels, vê-se atuação idêntica em Franklin Martins, o homem de comunicação do governo Lula e seu chefe. Engana-se quem pensa que alguma coisa saia de dentro do governo, ou até nos discursos, exalando espontaneidade: sempre ocorre prévio estudo estratégico. Tudo é feito e pensado para produzir um determinado resultado. E, com efeito, é assim que tem acontecido.

Por isso, nove vezes fora a propaganda sobre os índices de aprovação de Lula – presidente, prefiro me ater aos resultados indicativos da ação de seu governo sobre o sentimento das pessoas. E, neste sentido, muito pouca coisa fica em pé.

Na série de artigos que postaremos a partir de hoje, vocês perceberão a ruindade suprema da ação de governar destes sete anos de governo Lula. E, muito mais do isso, se surpreenderão entre a enorme diferença de sua aprovação pessoal, com o resultado final de seu trabalho à frente do executivo federal.

Por isso, a preocupação central da propaganda oficial é centrada a partir da figura carismática de Lula com vistas à sua idolatria. Por quê? Porque de um lado, este sentimento pervertido, escamoteia a ruindade das ações práticas de um governo ruim. E, de outra parte, servem para conceder salvo conduto aos governistas para golpearam as instituições democráticas, as liberdades e direitos individuais, e substituir o interesse do Estado, pelo interesse do partido. Método característica e marcantemente esquerdista, aliás modelo e método já em implantação por Chavéz, na Venezuela.

Retornemos aos índices individualizados do governo e vocês verão que muito menos da metade são aprovados pela população.

Mas, claro, não é apenas a propaganda que justificativa os 83% de aprovação, a começar pela ausência de oposição. Até agora não disse a que veio. Continua sem achar o ritmo, sem oferecer um discurso minimamente razoável, continua enfeitando o governo adversário com uma omissão dolorosa. Há, também,  as questões econômicas, que Lula, inteligentemente, soube preservar como herança do governo de FHC. Fato este, por sinal, que recentemente a revista britânica The Economist, e o jornal espanhol El País, souberam identificar. No jornal espanhol, em um perfil assinado pelo próprio primeiro-ministro da Espanha, José Luis Zapatero, este mesmo afirma: “Pelas mãos deste homem (Lula), seguindo o caminho aberto por seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, o Brasil, em apenas 16 anos, deixou de ser o país de um futuro que nunca chegava para converter-se em uma formidável realidade, com um brilhante futuro e uma projeção global e regional cada vez mais relevante".

Ou seja, lá fora, onde a propaganda vigarista não consegue enganar, o reconhecimento ao Brasil começa a partir do governo de Fernando Henrique, do qual Lula é herdeiro direto dos benefícios lá plantados. Não se enxerga o Brasil apenas a partir de Lula, como internamente se tenta vender, e como o própria se apresenta. Até porque, economicamente, o Brasil não sairia do atoleiro em que estava quando Fernando Henrique assumiu em 1995, num exíguo espaço de 7 anos.

Claro que, para Lula e os governistas, os 83% falam mais alto, eles exibem isto a todo o momento como um troféu que justifica o processo de idolatria em curso. Porém, quando se buscam questões mais práticas e objetivas da própria ação de governar, fica claro, e isto a população não esconde e reconhece, que se está muito longe do país maravilhoso que só a propaganda apresenta. É neste sentido que devemos avaliar e analisar o governo Lula que, como se vê, não consegue enganar a ninguém, nem mesmo os desinformados habituais.

Eis aí um caminho amplo para debate na campanha de 2010: mostrar que o governo ruim, de 2003 para cá, pertence a Lula, e a ninguém mais.

O terrorismo dos ambientalistas

Adelson Elias Vasconcellos


Repararam que até agora não tocamos aqui no assunto que agita o mundo de uns 10 dias para cá? Estou, claro, me referindo a tal conferência do clima que se realiza em Copenhague, na Dinamarca. Mas depois de ouvir e ler tanto sobre o que se passa, já é possível concluirmos alguma coisa.

É impressionante como o terrorismo do aquecimento tomou conta do mundo! Falo em “terrorismo” porque há sim, um movimento brusco e violento de se falar em aquecimento como ciência determinante dos destinos do mundo. Porém, basta que alguém se aventure em contestar os pseudos - cientistas do fim dos tempos, e pronto!, terá tornado sua vida um inferno. Sim, porque o alarmismo com que doutos conhecedores da ciência e estudiosos trombeteiam suas profecias, calam fundo no coração e mente das pessoas muito mais pelo barulho que produzem do que por sua sensatez científica.

Na década de 70, ao contrário, e eu já estudava na PUC em Porto Alegre, as profecias eram bem outras. Lembro bem de que os cientistas do tempo e os milhares de estudiosos esparramados pelos cinco continentes, reverberavam a cantilena da proximidade de uma nova era glacial. É só conferir. Tem muito arquivo de jornais da época com longas e extensas reportagens e entrevistas do que se vaticinava como o futuro do planeta. Interessante notar que estes “especialistas” traziam tabelas, gráficos, apontamentos e levantamentos históricos para comprovarem suas teorias. Igual ao que se faz hoje, só que em sentido inverso e, claro, na década de 70, havia menos tecnologia. Al Gore que o diga com seu Oscar na mão!

Assim, sem que ninguém consiga explicar a mágica, as tabelas históricas que indicavam a proximidade de nova era glacial, em tão poucos anos, sofreram um reviravolta e passaram a apontar para o aquecimento, etc e tal.

Não, não estou descrendo de ninguém que defende o planeta, o meio ambiente, a natureza. Pelo contrário, acho necessário e saudável que se eduque a humanidade a ser menos consumista, a ter mais respeito para com os animais, a não sujarem os rios, os mares, as ruas, as praças, etc. Sou visceralmente contra às queimadas por empobrecerem o solo e tornar o ar das cidades próximas irrespirável. Contudo, não faço coro ao catastrofismo com que se debate o assunto. Até porque o mundo já viveu um aquecimento idêntico na Idade Média, e nem por isso a vida acabou, o planeta se desmanchou e a civilização humana deixou de existir. Foi um acontecimento natural e, contra o qual nada se pode fazer. Provavelmente, iremos viver um novo período, mas mesmo que o ser humano nada fizesse para contribuir em um décimo por cento na elevação da temperatura do planeta, ainda assim não se poderia evitar que as temperaturas subissem em determinadas partes do mundo.

Portanto, apesar de defensor extremado da natureza, não posso aceitar certas teorias e nem tampouco as atitudes terroristas de certos teóricos justamente por ferirem o bom senso.

Que a atividade humana provoque aumento de temperatura até pode ser. A civilização do automóvel escravizou o ser humano e emporcalhou o meio ambiente. Nas grandes cidades e metrópoles ao redor do mundo, há momentos em que se torna difícil respirar. Isto sim nos prejudica. Também nos são prejudiciais as guerras, e a difusão pelo planeta de armamento nuclear coloca-nos em risco direto de extinção, bastando um maluco qualquer apertar um botão.

O desmatamento inconsequente também altera o comportamento natural dos ecossistemas onde este desmate acontece. Enfim, toda atividade humana provoca alterações no meio, e isto, irá repercutir-se no comportamento do clima.

No Brasil, que possui o maior gado bovino do mundo, agora os coitados passaram também a ser vilões do tal “aquecimento”. Pelo menos há um estudo indicativo deste desastre. O que se irá fazer, matar a boiada a pancadas e enterrá-la para não impregnar o ar que respiramos? Chega a ser ridículo.

Onde quero chegar? É que apesar disto tudo ser perfeitamente válido como estudo, nada infere que o planeta esteja em vias de entrar em ebulição. Como movimento ele é importante na medida em que nos colocará a pensar e criar novos meios de tornar a nossa vida melhor. Mas toda a solução tem preço a pagar, tem prós e contras. O que não se pode é condenar o progresso humano porque ele nos permitiu sair das trevas para uma vida mais saudável, a menos, é claro, para aqueles que defendem a ideia de que todos devemos comer capim, viver de trevas e praticar nossas necessidades fisiológicas na casinha...Se alguém quiser adotar o primitivismo para si, está liberado para fazê-lo, mas não tem o direito de querer impor sua barbárie ao restante da humanidade.

O progresso humano não é um acontecimento determinado a partir da industrialização como outros estudiosos estão apregoando. É fruto de um longo processo de evolução. A cada nova dificuldade de sobrevivência, soubemos buscar na criatividade inteligente que carregamos, as soluções e os meios de superação. Se os combustíveis fósseis são poluidores, tratemos de buscar novas fontes alternativas de produção de energia, bem menos agressivas. E isto é o que se está fazendo. Lembram-se do apagão no Brasil em 2001? Como consequência positiva, vimos que o povo brasileiro aprendeu a consumir apenas o necessário, a desperdiçar menos energia. E este princípio vale para tudo: todas as crises nos deixam lições importantes. Provocam mudanças de hábitos. O padrão de comportamento passa a ser mais racional, menos embrutecido, mais inteligente. Enfim, passamos a adotar posturas mais adequadas à própria existência e sobrevivência da espécie. Este germe vem embutido na gênese de cada de um de nós.

Agora, se ouve que os países ricos são responsáveis diretos pelo “aquecimento”, sendo assim, devem entregar parte de suas riquezas aos demais países. Ora, bem ou mal, todos são culpados de uma forma ou de outra pela poluição que nos atormenta, pobres ou ricos. Sou favorável a que se minore a fome que mata milhares ao dia ao redor do mundo, África principalmente. Aí concordo que os ricos devam ser compelidos a pagar. Já em relação ao clima, o custo deve ser global, e não apenas de uns poucos. Porque de um lado é forçoso reconhecer que, enquanto exploravam seus recursos naturais para proporcionar melhor qualidade de vida para seus povos, também é verdade que o restante da humanidade acabou beneficiada pelos progressos e avanços obtidos, e sem terem pago coisa alguma por isso.

Portanto, se o problema é global, todos devem contribuir para benefício de todos. Uns mais, outros menos. Mas o ônus deve ser compartilhado.

Lá no início falamos do terrorismo que se pratica sobre o tal aquecimento, e referimos o risco de quem não advoga das mesmas teses obscurantistas algumas, mas todas certamente longe de serem determinantes. Reparem que sempre há um enorme hiato de tempo entre a previsão e seus previdentes, e os acontecimento catastróficos que aniquilarão o planeta. E se tais previsões não se concretizarem, de quem se irá cobrar daqui duzentos anos os erros premonitórios? É fácil defender teses e jogar as consequências para cinquenta, cem ou até duzentos anos á frente. Acaba que não se tem compromisso algum com a verdade.

Exemplo disto são os profetas de ano novo. Sempre predizem o futuro do ano que entra com incrível precisão. Um ano depois, os previdentes sempre recorrem ao escapismo fajuto e vigarista para justificarem seus erros. E, nem por isso, eles deixam de tentar adivinhar o futuro.

Na abertura da COP15, os debates se tornaram acalorados por conta dos e-mails dos doutores do clima de East Anglia, que é um braço direto do IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, divulgados por um grupo de hackers, nos quais ficava claro a chutometria elevada à máxima potência para tornar o quadro de terror ainda mais sombrio. Claro, claro, eles, os cientistas malucos mas não menos vigaristas, encontraram mil desculpas para a sua esperteza. Tentam no grito, e no terrorismo, ganhar a parada.

A questão do aquecimento não é e nem nunca foi unanimidade dentre os diferentes cientistas. Há quem conteste os vaticínios apocalípticos. Um deles, por sinal é brasileiro. Trata-se do meteorologista da Universidade Federal de Alagoas, Luiz Carlos Molion, que concedeu uma entrevista bastante interessante para o UOL. Além de contestar sobre os tais efeitos na emissão de CO2 e a devastação que se diz causar, Molion vai em sentido bastante oposto ao da maioria barulhenta: Molion assegura que o homem e suas emissões na atmosfera são incapazes de causar um aquecimento global, afirma que há manipulação dos dados da temperatura terrestre e garante que a Terra vai esfriar nos próximos 22 anos. Uauuu! E não pensem que Mollion está sozinho nesta crença. Tem muitos outros ao redor que compartilham da mesma teoria.

A entrevista está publicada no post abaixo. Vale sua leitura e, principalmente, sua reflexão profunda. Além desta entrevista, uma reportagem da revista mensal AVENTURAS NA HISTÓRIA, editada pela Abril Cultural, na sua edição de setembro de 2009, traz um esclarecedor artigo sobre o aquecimento natural do planeta, ocorrido a partir do ano 800 da era cristã. Em outra reportagem, publicada na revista Superinteressante, em abril, completa a lista de leituras que entendemos conveniente para nos manter sabiamente informados, e não incorporarmos, pela desinformação, o espírito destrutivo que nos querem impingir. Somos culpados, mas nem tanto a ponto de comprometer a vida do planeta.

Mesmo sem contestarem a teoria do aquecimento provocado pela ação humana, servem para por um pouco de ordem no caos sobre o tema. Tratar a questão com um pouco de informação e lucidez não faz mal nenhum. Pelo contrário. E, as reportagens deixam claro que, a teoria do aquecimento, não é consenso no mundo científico. É bom que se diga que, dentre os céticos, não existem ativistas, como ocorre do lado dos apocalípticos. É gente séria e que fala com profundo conhecimento de causa.

Existem outros tantos estudiosos de renome mundial contestadores da teoria de final dos tempos com que se debatem os ambientalistas. Ao contrário destes, tais estudiosos são menos acalorados no debate, fazem e provocam menos ruído, mas tem o bom senso de não serem deterministas ou intolerantes. Preferem o debate civilizado, no campo das ideias, das teorias e do resultados de outros tantos estudos a comprovarem a muita picaretagem que se está praticando.

Menos mal: saber que há quem conteste, e o faz com inteiro conhecimento de causa, pelo menos desanuvia este clima perverso que tentam sufocar a opinião pública mundial. E devolve o bom senso que tem faltado lá em Copenhague nas dúzias de eventos, seminários e palestras.

O que se deseja, e este é o objetivo deste artigo e com as leituras abaixo que o acompanha, não é definir com quem está a razão. Na verdade, cada um traz à tona questões que atinge e interessam a todos. Não se pode, porém, é ignorar os críticos do aquecimento ser causado pelo ser humano, dado que, mesmo entre os que defendem que o aquecimento global é real, nem todos convergem nas causas que o provocam.

No fundo, cada lado tem suas razões. A discussão séria, sem exaltação ou emocionalismos vagabundos, é que abrirá luzes sobre o tema. A intolerância, e mais do que isso, a intolerância praticada com violência, nada esclarece. E a oportunidade é excelente justamente para se discutir à exaustão se o aquecimento é real ou não, e em sendo, até onde efetivamente é provocado pela ação do homem. E, dentro deste contexto, procurar caminhos para corrigir a rota ou ao menos minorar as danosas consequências que poderão trazer à vida humana no planeta.

Um último recado: você é capaz de assegurar que as previsões do tempo, para amanhã, em todo o Brasil, feito pelos metereologistas, irá se realizar? Pois é, se no Brasil, já é difícil prever o dia seguinte, o que se dirá em relação ao planeta para daqui cinquenta ou cem anos? Pensem nisso, enquanto os neo terroristas do ambiente proclamam suas profecias!!!!

“Não existe aquecimento global”, diz representante da OMM na América do Sul

Por Carlos Madeiro, UOL

Com 40 anos de experiência em estudos do clima no planeta, o meteorologista da Universidade Federal de Alagoas Luiz Carlos Molion apresenta ao mundo o discurso inverso ao apresentado pela maioria dos climatologistas. Representante dos países da América do Sul na Comissão de Climatologia da Organização Meteorológica Mundial (OMM), Molion assegura que o homem e suas emissões na atmosfera são incapazes de causar um aquecimento global. Ele também diz que há manipulação dos dados da temperatura terrestre e garante: a Terra vai esfriar nos próximos 22 anos.

Em entrevista ao UOL, Molion foi irônico ao ser questionado sobre uma possível ida a Copenhague: “perder meu tempo?” Segundo ele, somente o Brasil, dentre os países emergentes, dá importância à conferência da ONU. O metereologista defende que a discussão deixou de ser científica para se tornar política e econômica, e que as potências mundiais estariam preocupadas em frear a evolução dos países em desenvolvimento.

UOL: Enquanto todos os países discutem formas de reduzir a emissão de gases na atmosfera para conter o aquecimento global, o senhor afirma que a Terra está esfriando. Por quê?
Luiz Carlos Molion: Essas variações não são cíclicas, mas são repetitivas. O certo é que quem comanda o clima global não é o CO2. Pelo contrário! Ele é uma resposta. Isso já foi mostrado por vários experimentos. Se não é o CO2, o que controla o clima? O sol, que é a fonte principal de energia para todo sistema climático. E há um período de 90 anos, aproximadamente, em que ele passa de atividade máxima para mínima. Registros de atividade solar, da época de Galileu, mostram que, por exemplo, o sol esteve em baixa atividade em 1820, no final do século 19 e no inicio do século 20. Agora o sol deve repetir esse pico, passando os próximos 22, 24 anos, com baixa atividade.

UOL: Isso vai diminuir a temperatura da Terra?
Molion: Vai diminuir a radiação que chega e isso vai contribuir para diminuir a temperatura global. Mas tem outro fator interno que vai reduzir o clima global: os oceanos e a grande quantidade de calor armazenada neles. Hoje em dia, existem boias que têm a capacidade de mergulhar até 2.000 metros de profundidade e se deslocar com as correntes. Elas vão registrando temperatura, salinidade, e fazem uma amostragem. Essas boias indicam que os oceanos estão perdendo calor. Como eles constituem 71% da superfície terrestre, claro que têm um papel importante no clima da Terra. O [oceano] Pacífico representa 35% da superfície, e ele tem dado mostras de que está se resfriando desde 1999, 2000. Da última vez que ele ficou frio na região tropical foi entre 1947 e 1976. Portanto, permaneceu 30 anos resfriado.

UOL: Esse resfriamento vai se repetir, então, nos próximos anos?
Molion: Naquela época houve redução de temperatura, e houve a coincidência da segunda Guerra Mundial, quando a globalização começou pra valer. Para produzir, os países tinham que consumir mais petróleo e carvão, e as emissões de carbono se intensificaram. Mas durante 30 anos houve resfriamento e se falava até em uma nova era glacial. Depois, por coincidência, na metade de 1976 o oceano ficou quente e houve um aquecimento da temperatura global. Surgiram então umas pessoas - algumas das que falavam da nova era glacial - que disseram que estava ocorrendo um aquecimento e que o homem era responsável por isso.

UOL: O senhor diz que o Pacífico esfriou, mas as temperaturas médias Terra estão maiores, segundo a maioria dos estudos apresentados.
Molion: Depende de como se mede.

UOL: Mede-se errado hoje?
Molion: Não é um problema de medir, em si, mas as estações estão sendo utilizadas, infelizmente, com um viés de que há aquecimento.

UOL: O senhor está afirmando que há direcionamento?
Molion: Há. Há umas seis semanas, hackers entraram nos computadores da East Anglia, na Inglaterra, que é um braço direto do IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática], e eles baixaram mais de mil e-mails. Alguns deles são comprometedores. Manipularam uma série para que, ao invés de mostrar um resfriamento, mostrassem um aquecimento.

UOL: Então o senhor garante existir uma manipulação?
Molion: Se você não quiser usar um termo tão forte, digamos que eles são ajustados para mostrar um aquecimento, que não é verdadeiro.

UOL: Se há tantos dados técnicos, por que essa discussão de aquecimento global? Os governos têm conhecimento disso ou eles também são enganados?
Molion: Essa é a grande dúvida. Na verdade, o aquecimento não é mais um assunto científico, embora alguns cientistas se engajem nisso. Ele passou a ser uma plataforma política e econômica. Da maneira como vejo, reduzir as emissões é reduzir a geração da energia elétrica, que é a base do desenvolvimento em qualquer lugar do mundo. Como existem países que têm a sua matriz calcada nos combustíveis fósseis, não há como diminuir a geração de energia elétrica sem reduzir a produção.

UOL: Isso traria um reflexo maior aos países ricos ou pobres?
Molion: O efeito maior seria aos países em desenvolvimento, certamente. Os desenvolvidos já têm uma estabilidade e podem reduzir marginalmente, por exemplo, melhorando o consumo dos aparelhos elétricos. Mas o aumento populacional vai exigir maior consumo. Se minha visão estiver correta, os países fora dos trópicos vão sofrer um resfriamento global. E vão ter que consumir mais energia para não morrer de frio. E isso atinge todos os países desenvolvidos.

UOL: O senhor, então, contesta qualquer influência do homem na mudança de temperatura da Terra?
Molion: Os fluxos naturais dos oceanos, polos, vulcões e vegetação somam 200 bilhões de emissões por ano. A incerteza que temos desse número é de 40 bilhões para cima ou para baixo. O homem coloca apenas 6 bilhões, portanto a emissões humanas representam 3%. Se nessa conferência conseguirem reduzir a emissão pela metade, o que são 3 bilhões de toneladas em meio a 200 bilhões?Não vai mudar absolutamente nada no clima.

UOL: O senhor defende, então, que o Brasil não deveria assinar esse novo protocolo?
Molion: Dos quatro do bloco do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), o Brasil é o único que aceita as coisas, que “abana o rabo” para essas questões. A Rússia não está nem aí, a China vai assinar por aparência. No Brasil, a maior parte das nossas emissões vem da queimadas, que significa a destruição das florestas. Tomara que nessa conferência saia alguma coisa boa para reduzir a destruição das florestas.

UOL: Mas a redução de emissões não traria nenhum benefício à humanidade?
Molion: A mídia coloca o CO2 como vilão, como um poluente, e não é. Ele é o gás da vida. Está provado que quando você dobra o CO2, a produção das plantas aumenta. Eu concordo que combustíveis fósseis sejam poluentes. Mas não por conta do CO2, e sim por causa dos outros constituintes, como o enxofre, por exemplo. Quando liberado, ele se combina com a umidade do ar e se transforma em gotícula de ácido sulfúrico e as pessoas inalam isso. Aí vêm os problemas pulmonares.

UOL: Se não há mecanismos capazes de medir a temperatura média da Terra, como o senhor prova que a temperatura está baixando?
Molion: A gente vê o resfriamento com invernos mais frios, geadas mais fortes, tardias e antecipadas. Veja o que aconteceu este ano no Canadá. Eles plantaram em abril, como sempre, e em 10 de junho houve uma geada severa que matou tudo e eles tiveram que replantar. Mas era fim da primavera, inicio de verão, e deveria ser quente. O Brasil sofre a mesma coisa. Em 1947, última vez que passamos por uma situação dessas, a frequência de geadas foi tão grande que acabou com a plantação de café no Paraná.

UOL: E quanto ao derretimento das geleiras?
Molion: Essa afirmação é fantasiosa. Na realidade, o que derrete é o gelo flutuante. E ele não aumenta o nível do mar.

UOL: Mas o mar não está avançando?
Molion: Não está. Há uma foto feita por desbravadores da Austrália em 1841 de uma marca onde estava o nível do mar, e hoje ela está no mesmo nível. Existem os lugares onde o mar avança e outros onde ele retrocede, mas não tem relação com a temperatura global.

UOL: O senhor viu algum avanço com o Protocolo de Kyoto?
Molion: Nenhum. Entre 2002 e 2008, se propunham a reduzir em 5,2% as emissões e até agora as emissões continuam aumentando. Na Europa não houve redução nenhuma. Virou discursos de políticos que querem ser amigos do ambiente e ao mesmo tempo fazer crer que países subdesenvolvidos ou emergentes vão contribuir com um aquecimento. Considero como uma atitude neocolonialista.

UOL: O que a convenção de Copenhague poderia discutir de útil para o meio ambiente?
Molion: Certamente não seriam as emissões. Carbono não controla o clima. O que poderia ser discutido seria: melhorar as condições de prever os eventos, como grandes tempestades, furacões, secas; e buscar produzir adaptações do ser humano a isso, como produções de plantas que se adaptassem ao sertão nordestino, como menor necessidade de água. E com isso, reduzir as desigualdades sociais do mundo.

UOL: O senhor se sente uma voz solitária nesse discurso contra o aquecimento global?
Molion: Aqui no Brasil há algumas, e é crescente o número de pessoas contra o aquecimento global. O que posso dizer é que sou pioneiro. Um problema é que quem não é a favor do aquecimento global sofre retaliações, têm seus projetos reprovados e seus artigos não são aceitos para publicação. E eles [governos] estão prejudicando a Nação, a sociedade, e não a minha pessoa.

Aquecimento medieval

José Sérgio Osse, Revista Aventuras na História, Ed. 74/Set.09


Há 1.200 anos, um período de altas temperaturas mudou o mundo

Não sobram muitas dúvidas de que, nas últimas décadas, nosso planeta ficou mais quente. Mas os efeitos reais do aquecimento global sobre a humanidade ainda são debatidos. De um lado, há quem espere o apocalipse. De outro, os mais céticos dizem não acreditar em mudanças radicais até o fim do século.

Para entender melhor o que o futuro nos reserva, pode ser muito útil olhar para o cenário de 1.200 anos atrás. A partir do ano 800, o mundo experimentou o último grande ciclo de aquecimento antes do atual.

Foram nada menos que 500 anos de aumento geral de temperatura. Pouco se sabia sobre esse período (em geral, só é possível conhecer o clima do passado com total segurança apenas do século 18 em diante). Mas a constatação de que o mundo ficou mais quente naquele momento surgiu nos últimos anos, a partir de medições em anéis de arvores centenárias, registros de corais e marcas em icebergs. Esses dados foram cruzados com o uso de softwares de climatologia pelo especialista Brian Fanagan, antropólogo da Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara.

De acordo com Fanagan, essa mudança climática provocou longas secas em diversas do globo enquanto outras regiões frias ficaram mais habitáveis e mares congelados se tornaram acessíveis. Tais alterações drásticas ajudaram a mudar os destinos dos mais diversos povos daquela época – dos mongóis até os maias, passando pelos índios da América do Norte e pelos moradores das grandes cidades europeias.

Efeito planetário: as principais transformações provocadas pelo calor
Vikings com esquimós – As temperaturas menos geladas no Mar do Norte aumentam o alcance dos vikings, que chegam à Groenlândia em 985 e fazem contato com tribos americanas. Compram presas de morsas. Em troca, presenteiam os índios com ferro.

O fim dos maias – A península de Yucatán sofre secas longas e severas. Para os maias, cuja vida é regulada pelas chuvas, a mudança provoca uma grave crise de abastecimento que acelera o fim dessa civilização.

Êxodo dos nativos – Na região onde agora ficam Califórnia, Nevada, Utah, Oregon e Idaho, a seca acaba com a economia dos indígenas.

Crescimento das cidades – O Velho Continente desfruta de invernos mais amenos e verões mais longos. Isso se traduz rapidamente em uma produção maior de alimentos e no aumento da população. A nova demanda por serviços especializados facilita o desenvolvimento das cidades.

Avanço mongol - Dependent4es do cavalo para buscar alimentos em regiões distantes entre si, os mongóis vivem no norte durante o verão e no sul quando chega o inverno. A seca na Ásia Central interrompe este ciclo. Em busca de melhores terras, os asiáticos invadem a Europa.

Massacre em Leignitz - Os mongóis invadiram a Europa pela primeira vez em 1237. Quatro anos depois, após destruir Kiev, chegaram perto de Viena e Veneza. O avanço alcançou o auge depois da Batalha de Leignitz. Com 20 mil homens, os asiáticos bateram 25 mil europeus. Pouco depois, as divisões internas iriam parar o domínio mongol no Velho Continente.

Por que você deve desconfiar de tudo (ou quase tudo) que ouve e lê sobre o aquecimento global

Pedro Burgos, Revista Superinteressante


Só se fala nas tais mudanças climáticas. Todos, de cientistas a ascensoristas, se convenceram de que, se o homem não parar de castigar o planeta,o apocalipse virá em forma de inundações, furacões e outras pragas. Será que esse consenso é tão absoluto assim?

Ninguém escapa dele, esteja em São Paulo, na Amazônia, na China ou na Antártida. O aquecimento global – estamos falando do assunto, não do fenômeno climático – saiu há mais ou menos duas décadas dos fechados círculos acadêmicos para ganhar a atenção de ativistas, da imprensa e de pessoas de qualquer grau de instrução. Parte da culpa é do ex-vice-presidente americano Al Gore, que aborda a questão de maneira clara e direta em seu documentário Uma Verdade Inconveniente. Mas a faísca que incendiou de vez os debates de boteco sobre aquecimento global foi a estrondosa divulgação do quarto relatório (AR4) do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), órgão das Nações Unidas que reuniu cientistas e políticos de 116 nações para analisar o tema. Ele criou, com base em 5 anos de pesquisa, o que é quase impossível na ciência: um consenso. Pelo menos aos olhos do público.

Com que virtualmente todo mundo concorda: o mundo está realmente ficando mais quente. Desde 1850, quando começaram a medir de maneira mais con-fiável a temperatura, não víamos os termômetros marcar números tão altos. Ondas de calor, furacões mais intensos e derretimento das geleiras nos pólos são alguns resultados desse aquecimento já percebidos – que devem se agravar, pelas projeções dos cientistas do IPCC apresentadas em abril na segunda parte do AR4. (O relatório é divulgado em 3 etapas: uma trata das causas científicas do fenômeno, outra faz projeções e a terceira aborda medidas para mitigar, ou suavizar, a curva de aquecimento.)

Se o aquecimento é uma certeza, sobram dúvidas e opiniões conflitantes em quase tudo o que diz respeito a ele. O que exatamente está fazendo o planeta aquecer tanto? Qual é o impacto real das ações humanas? O que acontecerá no futuro? Que atitudes precisamos tomar agora?

Existe mesmo um consenso?
O IPCC diz que é “muito provável” (veja exatamente o que isso significa na pág. anterior) que a elevação acelerada da temperatura na Terra nos últimos anos (0,13 °C por década) seja resultado da ação humana. O motivo, pela teoria amplamente aceita, é que nós lançamos CO2, CFC, metano e outros gases na atmosfera. Esses gases compõem um tipo de manto, que retém a radiação solar que normalmente seria refletida de volta ao espaço. É o chamado efeito estufa (que não é essencialmente mau, pois sem ele a temperatura média seria 30 °C mais baixa que hoje, impossibilitando a vida).

Bem antes de o homem aparecer no pedaço, esses gases já eram produzidos pela decomposição de seres mortos, vulcões, queimadas espontâneas e outros fenômenos. O problema, dizem os cientistas, é que estamos lançando CO2 demais na atmosfera, aumentando o efeito estufa e aquecendo o planeta. Os reponsáveis por esse estrago todo seriam a queima de petróleo e carvão, a destruição de florestas e a pecuária extensiva (sim, são as flatulências bovinas).

As tais emissões antropogênicas, nome que os cientistas dão para a nossa interferência na atmosfera, aumentaram muito desde a Revolução Industrial, no século 18. A concentração de CO2 na atmosfera quase duplicou: de 200 ppm (partes por milhão) para 383 ppm. Essa é a principal causa do aquecimento global, do ponto de vista dominante entre os cientistas que elaboraram o AR4.

Mas há um grupo de cientistas, conhecidos genericamente por céticos, que desconfia da tese que aponta o homem como o principal vilão: para vários deles, essa variação na concentração de CO2, apesar de grande, não seria suficiente para explicar a maior parte das mudanças climáticas, como faz o IPCC. “Partes por milhão”, como o nome diz, é coisa pouca em relação ao todo. Na prática, a poluição humana mexeu em menos de meio por cento da composição atmosférica nesses 150 anos. Para os céticos, as alterações climáticas são comuns na história do planeta, e causas naturais, como variantes na atividade solar, atividade vulcânica e correntes marítimas, que foram responsáveis por mudanças no passado, continuariam sendo as maiores responsáveis hoje.

Do outro lado, os cientistas do consenso dizem que a atmosfera sempre esteve num equilíbrio muito sensível e tênue, e qualquer alteração, por mínima que aparente ser, provoca reações em cadeia e pode acarretar mudanças drásticas e mais aceleradas no clima. Testes de laboratório mostram que uma variação pequena na quantidade de CO2 da atmosfera seria efetivamente suficiente para causar um aumento na temperatura, e modelos cada vez mais apurados indicam uma relação diretamente proporcional entre o aumento dos gases do efeito estufa e a intensificação do aquecimento. Ponto para o consenso.

Mas esse não é um argumento vencedor para os céticos, que afirmam que testes de laboratório dificilmente conseguem prever outras variáveis para o equilíbrio da temperatura na Terra, como as nuvens e a radiação solar. “Sempre mostramos que existe uma variabilidade natural do clima. Sem medo de exagerar, é possível dizer que o clima da Terra é o resultado de tudo que acontece no Universo – a radiação solar e até a explosão de uma estrela milhões de anos atrás pode mudar a temperatura aqui”, afirma o climatologista Luis Carlos Molion, da UFAL, um dos brasileiros que defendem com mais ardor a bandeira dos céticos.

Pesquisas indicando o aumento na temperatura de Júpiter, Marte e Plutão nos últimos anos dão força à tese de que o aquecimento na Terra seja resultado da maior atividade solar nos últimos 1 000 anos. E a discussão esquenta ainda mais quando o lobby cético saca da manga indícios de que um período de aquecimento global na Idade Média, por volta do ano 1000, foi mais severo que o de hoje.

Paulo Artaxo, climatologista da USP, que participou do relatório do IPCC, joga água fria nos argumentos ardentes dos céticos. Para ele, essas alegações estão ultrapassadas. O último grande estudo sobre a radiação solar, por exemplo, já tem 16 anos, sofreu muitas críticas e foi invalidado por vários centros de pesquisa desde então – apesar de citado até hoje como um dos mais fortes argumentos contra a causa humana. O AR4 define que o Sol tem apenas 7% da responsabilidade pelo aquecimento em curso.

Artaxo diz que o consenso sobre a culpa do homem é quase inabalável. “Não há 100% de certeza porque não existe isso em ciência”, afirma. “Mas tudo que contribui para a mudança da temperatura foi pesado e atribuído no relatório, e passado por um escrutínio enorme e rigorosíssimo.”

O que vai acontecer, então?
Se os céticos em relação às causas do aquecimento global são minoria, não faltam cientistas com um pé atrás em relação às previsões sobre os impactos das mudanças climáticas.

Este ano, acompanhando os relatórios do IPCC, chegou ao público uma quantidade enorme de informações alarmistas – e muitas vezes conflitantes. Jornais e revistas trouxeram montagens com grandes cidades debaixo d’água, número de pessoas afetadas pela seca e fome, espécies de animais em extinção e todo tipo de cenário apocalíptico.

Parte do pessimismo tem razão de ser: o CO2 lançado na atmosfera nos últimos séculos ficará lá por mais de 100 anos; O CFC, poluente relacionado a sprays e geladeiras, demora mais de 1 milhão de anos para se dissipar. Então, mesmo que parássemos milagrosamente de poluir agora, enfrentaríamos as conseqüências neste século (considerando verdadeira, é claro, a hipótese de que esses gases são os principais vilões).

Entretanto, uma leitura atenta do levantamento da ONU mostra que ele é cauteloso ao trazer uma escala de confiabilidade de cada projeção, além de considerar diversos cenários possíveis. Ninguém lerá no relatório que um número específico de espécies será extinto, como chegou a ser dito na imprensa. Sobre isso, o AR4 diz que “aproximadamente de 20 a 30% das espécies de animais e plantas estudadas provavelmente estarão em um risco de extinção maior se a temperatura exceder 1,5 a 2,5 °C no próximo século”.

“Acho que o público e a imprensa já estão à frente da ciência em termos de previsões catastróficas, fazendo conexões que ainda não estão nos dados”, afirmou o britânico Martin Parry, co-presidente do grupo de trabalho que apresentou a segunda parte do relatório do IPCC. Parry e boa parte da comunidade científica receiam que o bombardeio de anúncios apocalípticos, que inicialmente seria positivo por chamar a atenção da população para o problema, possa acarretar insensibilidade por superexposição.

Para fazer as previsões, os cientistas inserem o maior número de variáveis possíveis em modelos matemáticos que rodam em supercomputadores, projetando o comportamento esperado do clima com base em dados climáticos do passado. Para o relatório do IPCC, foram usados mais de 20 modelos – todos tinham resultados diferentes, alguns com uma discrepância razoável. “As incertezas são muito grandes, os modelos são reconstruções não instrumentais, funcionam mais como indicadores. Ainda temos dúvidas em relação ao passado”, afirma José Marengo, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Após uma palestra de apresentação dos dados do IPCC na USP, em abril, o geó¬grafo Aziz Ab’ Saber fez duras críticas justamente à falta de dados sobre o passado climático da Terra. “Já houve um período naturalmente quente, o Ótimo Climático, entre 5 000 e 6 000 anos atrás, quando aconteceu a retropicalização do Brasil”, afirmou. “O mar chegou a subir quase 3 metros, as correntes marítimas mudaram. Se não considerarmos isso, não podemos dizer que vai ser maléfico para a Amazônia.”

Um dos 4 brasileiros a participar do painel da ONU, o climatologista Carlos Nobre, também do Inpe, não desaprova o escarcéu midiático. Ele pensa que as previsões são, muitas vezes, catastróficas de fato. “Uma pesquisa entre cientistas da área feita pela revista Nature perguntou qual era a probabilidade do derretimento completo das geleiras da Groenlândia nos próximos 100 anos. Cerca de 10% dos entrevistados acreditam nessa hipótese”, disse. Nobre reconhece que o número é baixo, mas o julga importante demais para ser descartado porque, se 90% dos especialistas estiverem errados, 100% da humanidade estará numa enorme encrenca. “É por isso que devemos ter precaução máxima. Senão, corremos o risco de passar o ponto de não retorno.”

As pesquisas são neutras?
Discordâncias e incertezas na ciência são normais e saudáveis, afinal é isso que move as descobertas. Mas alguns defendem que, no caso do aquecimento global, há mais em jogo que simples pontos de vista diferentes. Muito se falou, não raro com razão, que a indústria do petróleo financiava os céticos. Em 1998, o Instituto Americano do Petróleo (API), poderosa organização que congrega as maiores empresas do ramo nos EUA, tentou arregimentar cientistas que pudessem ir a público e falar das falhas das teo-rias sobre as causas do aquecimento global. O jornal The New York Times descobriu a tramóia e os céticos começaram a ser vistos com desconfiança.

Por outro lado, seria injustiça dizer que todos os negacionistas sejam vendidos, como os tacha a maioria dos cientistas que defendem a hipótese antropogênica. “Aquecimento global virou uma religião. Falar algo contra a corrente dominante virou heresia”, afirma Nigel Calder, ex-editor da revista New Scientist, ele mesmo um “herege” assumido.

Calder é um dos principais personagens do documentário The Great Global Warming Swindle (“A Grande Farsa do Aquecimento Global”, inédito no Brasil, mas que você vê no site da Super), que foi ao ar na TV inglesa em março. O filme defende uma tese controversa: da mesma maneira que há empresas interessadas em negar o impacto da poluição humana na mudança climática – como as de petróleo, carvão e automóveis –, há pessoas, empresas e grupos de pressão que não se dariam mal com a histeria em torno do aquecimento global.

Essas seriam, diz o documentário, as diversas ongs ambientalistas, que receberiam mais fundos, os países que vendem tecnologias de geração de energia renovável (como alguns da Europa) e lucrariam com a substituição das fontes de energia, e, principalmente, cientistas que estão sendo atraídos para o tema por causa de abundantes linhas de financiamento para pesquisas na área.

A tese tem alguma base. Segundo Carlos Nobre, cresceram os fundos para estudos sobre mudanças climáticas, mas por uma razão trivial. “Existe uma percepção de que é um problema sério. Esse consenso tem de aparecer na forma de financiamento”, afirma. O climatologista, porém, diz acreditar que há espaço para qualquer teoria. Richard Lindzen, climatologista do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos EUA, discorda. No polêmico documentário, ele dispara: “Cientistas que não aceitam o alarmismo têm visto seus fundos desaparecer, seus trabalhos alterados, e eles mesmos são tachados de fantoches da indústria”.

Como, para o bem e para o mal, o aquecimento é a moda, a coisa acontece no Brasil também. “Se eu disser que vou fazer um estudo para contestar o aquecimento global, dificilmente vou conseguir financiamento”, admite Ercília Steinke, professora de Climatologia Geral da UnB. “O cientista tem de seguir o fluxo.”

Chris de Freitas, professor de ciência ambiental na Universidade de Auckland, Nova Zelândia, é um dos céticos mais combativos da atualidade. Ainda assim, ele considera benéfica a maior parte dos interesses que movem as causas verdes. “O problema da mudança climática ganhou vida própria”, escreveu em um artigo publicado no jornal New Zealand Herald. Segundo ele, além da grana para a pesquisa estão em jogo a qualidade do ar, o consumo de recursos não renováveis, a eficiência energética, a redução da dependência do petróleo estrangeiro, o zelo pelo ambientalismo e a geração de riqueza por taxas ambientais.

O que precisamos (não) fazer?
A sabedoria popular diz que, na dúvida, é melhor prevenir. Então, se há a possibilidade de mudanças climáticas extremas, não temos muito a perder em fazer o mundo menos poluído, certo? A coisa não é tão simples assim. Para diminuir a emissão de gases poluentes, temos de mudar hábitos, buscar novas formas de energia e substituir as antigas, reciclar o lixo, plantar árvores e outras medidas de mitigação do impacto humano. O custo disso tudo é difícil de prever. O terceiro relatório do IPCC estima algo entre ¬US$ 78 bilhões e mais de US$ 1 trilhão por ano – o que vem a corresponder a entre 0,2 e 3,5% da soma dos PIBs de todas as nações do mundo.

Vale a pena todo o custo e trabalho? Parece uma pergunta absurda, em se tratando do objetivo (salvar o planeta). Mas um dream team de economistas (alguns Prêmios Nobel) se reuniu há 3 anos com o desafio de eleger quais prioridades a humanidade deve ter na relação custo/benefício. O chamado Consenso de Genebra, como ficou conhecido o grupo, colocou a contenção do aquecimento global atrás de 9 outros desafios prioritários, como diminuição da fome e o combate à malária na África. Para efeito de comparação, os economistas calcularam em US$ 27 bilhões a despesa para prevenir que o HIV contaminasse 28 milhões de pessoas até 2010 – e os benefícios seriam 4 vezes maiores que o custo.

O próprio relatório do IPCC reconhece que os esforços para mitigar o aquecimento global não podem vir desacompanhados de outras políticas públicas. “O equilíbrio entre impactos positivos e negativos para a saúde irá variar de um lugar para outro, e mudará durante o tempo com as temperaturas aumentando”, lê-se no AR4, na parte de saúde. “Para enfrentá-los, serão criticamente importantes fatores que diretamente moldam a saúde da população, como educação, campanhas e infra-estrutura de saúde pública e desenvolvimento econômico.”

O que muitos dos céticos deixam de levar em consideração, ao calcular o alto custo de frear as emissões de gases poluentes, é a possibilidade de que o gasto seja, na verdade, um investimento. “É possível que os benefícios econômicos excedam os custos da mitigação”, diz o terceiro relatório do IPCC, datado de 2001. Geração de energia eólica ou solar, apesar do alto custo de implantação, tende a ser mais barata no futuro. A produção de carros mais econômicos e utilização de materiais recicláveis nas indústrias já são realidade, e têm trazido economia para grandes empresas. Na Europa, algumas companhias aéreas já oferecem a opção de passagens “verdes”, mais caras que as normais, mas que prometem ao passageiro que serão plantadas árvores em quantidade proporcional ao CO2 emitido na viagem. Por enquanto, a iniciativa tem sido um sucesso.

Mas, se as previsões mais sinistras se concretizarem, problemas como a falta d’água e o racionamento de energia provocarão mudanças sensíveis no comportamento das pessoas. “A maneira como consumimos até hoje, com todo esse desperdício, não poderá continuar”, avisa Artaxo. “Mas não é o fim do mundo. O ser humano tem condições de enfrentar o problema e conseguirá encontrar maneiras”, aposta o professor da USP.

E, para que possamos chegar a soluções sensatas tanto para diminuir as emissões de CO2 quanto para nos adaptar às novas condições climáticas, é preciso questionar as “verdades” impostas. É a opinião do escritor, médico e biólogo Michael Crichton, autor do livro Estado de Medo: “A ciência não tem nada a ver com consenso. Consenso é coisa de política. Os maiores cientistas da história são grandes justamente porque desafiaram o consenso”.

Homem X Sol
O consenso defende a culpa da humanidade pelo aquecimento global; céticos dizem que a radiação solar é a causa.

Verde X Petróleo
Para os defensores do consenso, os céticos são pagos pelas petrolíferas; os céticos falam numa conspiração verde.

Extinção X Adaptação
Alguns cenários nos reservam o triste destino dos dinossauros; em outros, nos adaptamos como baratas.

Ambiente X Capitalismo
Na dúvida, o que devemos priorizar: a salvação das baleias ou o fomento do crescimento econômico?

O voto a voto em favor da CENSURA!

Adelson Elias Vasconcellos

O resultado que ficou é a de que o STF consagrou a todo e qualquer juiz, de qualquer instância do judiciário, o poder de CENSOR da imprensa


Havíamos prometido que faríamos uma análise, voto a voto, dos ministros do Supremo Tribunal que, contrariando a Constituição e acórdão emanado poucos dias antes pelo próprio STF, os quais mantiveram a mordaça ao jornal O Estado de São Paulo, proibindo-o de divulgar os fatos relacionados à Operação Boi Barrica, a cargo da Polícia Federal e que envolvia nada menos do que o filho do senador pseudo democrata Sarney.

Ontem, aqui, mostramos o que se esconde por detrás da ação impetrada pelo clã Sarney: trata-se de uma atitude visivelmente de vendita contra o jornal que não se furtou e não se curvou em divulgar as malvadezas do senador Sarney e que estouraram no decorrer deste ano, arrancando toda a máscara com que o político maranhense se apresenta à sociedade para continuar dela se valendo em exclusivo proveito próprio.

Se a memória não me falha, ele já está no segundo mandato de senador pelo Estado do Amapá, e, fora o período de campanha eleitoral, acredito que não tenha visitado o estado que representa mais do que meia dúzia de vezes. Lembrando que o mandato de senador tem duração de 8 anos. Somando-se os três anos do atual, lá se vão mais de dez anos de representação, e Sarney não conseguiu somar a média de uma visita anual ao Amapá. Deprimente, não é mesmo? Coisas que só num país onde as leis são feitas sob o gosto e medida de políticos que se valem da representação parlamentar para uso e proveito pessoal e mesquinho, é possível haver.

Sobre a censura prévia que o STF consagrou, acho que o Brasil inteiro, e o mundo civilizado, também, custaram e custam a crer. A mais do que polêmica decisão, que podemos classificá-la como abominável, sequer examinou o mérito da reclamação feita pelo Estadão. E, paralelamente, ou em consequência dos votos proclamados por seis ministros, o resultado que ficou é a de que o STF consagrou a todo e qualquer juiz, de qualquer instância do judiciário, o poder de CENSOR da imprensa. Nem na ditadura militar tal iniciativa era concebida, ou sequer imaginada, como iniciativa do próprio STF.

Assim, segue-se a análise dos votos que consagraram a censura no país, ignorando solenemente a Constituição Federal.

Ministro Cezar Peluso: Voto confuso. A reclamação se dava justamente contra à CENSURA. E, de acordo com acórdão do próprio STF, o Estadão deveria recorrer ao próprio Supremo para derrubar a proibição imposta. Aliás, a decisão do TJ-DF tem relação direta com a Lei de Imprensa sim, porque o STF já a houvera derrubado. Neste caso, vale o que diz a Constituição e a decisão do TJ-DF simplesmente ignorou o texto constitucional.

Aliás, terá sido impressão minha apenas, ou o ministro Peluso, ao proclamar o resultado final e encerrar a sessão plenária, o fez de forma abrupta e com visível mau humor e contrariedade?

Ministro Gilmar Mendes - Quiçá o voto mais contraditório em relação ao pensamento que sempre tem externado em relação à liberdade de imprensa. Como bem lembrou o ministro Celso de Mello ao proclamar seu voto, não existe meia liberdade, ou ela vigora plenamente ou não. Claro que toda a liberdade é limitada, é relativa, já que seu exercício ela não poderá ferir e limitar a liberdade e os direitos de outrem. Contudo, e neste caso em particular, a publicação da investigação é apenas um ato consequente. Quem investigou e vazou as acusações foi a Polícia Federal e/ou Ministério Público. Ou de outra forma os repórteres teriam acesso às gravações? Portanto, e conforme já se disse aqui, quem feriu “liberdades” e “direitos” não foram nem os repórteres tampouco o jornal. Foram os agentes públicos que quebraram o principio do sigilo funcional a que estavam submetidos, seja pelo cargo que ocupam, seja até pelo sentido da própria operação que deveria seguir seu curso sob o rótulo de “segredo de justiça”. E, neste caso, não é o jornal quem deve ser punido. E, pelo teor das gravações que vazaram, quem violou a honra não foi a imprensa...Esta apenas se ocupou de DIVULGAR investigações sobre agentes públicos. E, sendo assim, reafirmo a posição que sempre defendi: as atitudes de agentes públicos, no exercício de cargos e mandatos públicos, é um direito da sociedade que o ESTADO se obrigue em divulgar e informar.

Ministra Ellen Gracie- Parece que a ministra votou no que não viu e ignorou o teor do caso em que deveria votar. Liberdade de imprensa não se conflita com direitos individuais. Se qualquer órgão de imprensa macular direitos de alguém como honra e reputação, há um Código Civil, em plena vigência, para ser aplicado em casos específicos e que preveem a plena reparação. A leitura que se faz da Constituição não é interpretativa. Nela não se lê exceções. Se há um conflito de direitos, a lei, e não a opinião pessoal do magistrado, é que deve se impor. Se ela não prevê restrições à liberdade de imprensa, em caso algum, não há porque uma interpretação pessoal prevalecer sobre o texto constitucional.

Ministro Ricardo Lewandovski – Talvez o mais corporativo dos votos, apesar de que o próprio Tribunal de Justiça do Distrito Federal já afastara o juiz Dácio Vieira, e o fez com base no pedido do jornal em declará-lo impedido ou sob suspeição.. E reparem nestes eventos: em 15 de setembro, o TJ-DF declarou Dácio Vieira impedido para decidir sobre o pedido de censura ao Estado. A decisão afastou o desembargador do caso. No mesmo dia foi indicado o novo relator, Lecir Manoel da Luz. Ora, o bom senso indicava que, se algum magistrado decide qualquer coisa contra quem quer que seja, e logo depois é afastado por ser considerado impedido de decidir, é natural que a decisão por ele proclamada seja anulada de pleno, porque não dispunha este mesmo magistrado da isenção necessária. Mas o que fez TJ-DF foi afastar o juiz por considerá-lo suspeito, sem, contudo, tornar nula sua decisão. Cadê a coerência? E mais: como castigo ao jornal, o TJ-DF determinou que a ação deveria ser remetida para o Tribunal de Justiça do Maranhão!!!

Ministro José Dias Toffoli – Primeiro que, se os senadores que aprovaram seu nome para ocupar a vaga deixada pelo falecimento do ministro Menezes Direito, cumprissem com dignidade seus mandatos, este senhor sequer seria ministro do STF. O compadrio e a falta de compromisso e responsabilidade da grande maioria dos parlamentares é que permite que alguém, com extensa folha corrida no ativismo partidário, tenha assento no STF. E o seu voto nada diferiu do script. Solenemente, ignorou acórdão do próprio STF, proclamado em 06 de novembro deste ano. O que dizia o referido acórdão? Ele permite que veículos de comunicação sob censura entrem com reclamação diretamente no STF. O texto também deixa claro que a Constituição garante à imprensa o direito de revelar "as coisas respeitantes à vida do Estado e da própria sociedade". A pergunta que cabe é a seguinte: se o próprio STF ignora um acórdão por ele emitido cerca de trinta dias antes, para quê redigi-lo, então, para fazer jogo de cena?

Ministro Eros Grau - Outro que ignorou o acórdão do STF. Aliás, o ministro Eros Grau consegue, na proclamação de seu voto, em qualquer circunstância, confundir os próprios ministros do STF, pois nunca se sabe se ele votou contra ou favor de determinada causa.

Já os ministros Celso de Mello e Carlos Ayres Brito e a ministra Carmem Lúcia foram direto ao ponto: que a decisão do TJ-DF, em todos os seus aspectos, viola flagrantemente a constituição, que o próprio STF já houvera discutido a questão quando derrubara a Lei de Imprensa, e que a decisão afronta decisões do próprio STF em outros casos semelhantes. Ponto final.

Agora, o Estadão, mantido sob censura já há de quatro meses, terá que buscar recorrer da decisão, o que, diante do calendário à frente, levará um século para ser apreciado novamente.

Quem perde e quem ganha neste caso? Quem perde, sem dúvida, é a própria sociedade que se vê impedida de ser informada sobre as ações ilegais de agentes públicos. Quem ganha são estes próprios agentes que permanecerão livres e impunes para se locupletarem e prevaricarem ainda mais. Mas, como instituição, por certo, quem perde credibilidade é o próprio Supremo Tribunal Federal, que já acumula, apenas em 2009, decisões não menos polêmicas e que o põem em cheque quanto a competência e isenção de alguns de seus ministros em aplicarem a justiça dentro do espírito máximo legal, representada pela constituição federal, a quem caberiam guardar e zelar.

O recado, deste modo, não poderia ser pior: o país está caminhando a passos largos em direção ao atraso institucional. Estamos voltando ao tempo em que os interesses maiores do país ficavam subjugados aos interesses mesquinhos dos oligarcas encastelados no Poder, e que se servem da sociedade, através de suas instituições, em proveito exclusivamente pessoal. Este é o quadro lamentável no qual a decisão do STF apostou.

Celso de Mello condena censura e critica abusos de magistrados

O Globo

‘Isso nos faz voltar ao passado colonial’

O ministro Celso de Mello fez uma longa e calorosa defesa da liberdade de imprensa. Sem citar casos específicos, ele criticou juízes que concedem liminares como a do TJ-DF, que censurou previamente o jornal "O Estado de S. Paulo". E lembrou arbitrariedades da ditadura militar com tal veemência que ministros que votaram contra o pedido do "Estado" — como Eros Grau e José Antônio Dias Toffoli — pediram a palavra para esclarecer que o faziam por mera questão técnica (Toffoli) ou para relembrar seu passado de luta contra a ditadura e a censura (Eros).

— Tem sido tão abusivo o comportamento de alguns magistrados e tribunais que, hoje, o poder geral de cautela é o novo nome da censura judicial no nosso país. E isso é muito grave, porque nos faz voltar ao passado colonial — disse Celso de Mello. — É grave e preocupante que ainda remanesçam no aparelho de Estado determinadas visões autoritárias que buscam justificar, por meio $poder geral de cautela, a prática de censura de livros, revistas, jornais.

Ele lamentou que o Supremo não tenha acolhido o pedido de liminar do "Estado" para sinalizar à sociedade a posição do tribunal em ações futuras:

— O julgamento tem efeito vinculante. Este julgamento permitiria reconhecer que esta Corte não admite qualquer forma de censura.

Celso de Mello disse que o AI-5, ato institucional do governo militar que escancarou a ditadura, no governo Costa e Silva, está prestes a completar 41 anos. Ele lembrou que, naquela época, morava no interior paulista e que sua família, assinante do "Estado", leu à época o editorial "Instituições em frangalhos".

Para jurista, Corte não deve adotar postura burocrática

Walter Fanganiello Maierovitch (*), Estadão

Uma decisão da qual me envergonho.

Quando em jogo a Liberdade de Imprensa - que assegura o desenvolvimento da vida democrática -, não se pode, numa Suprema Corte, adotar-se uma postura burocrática, como se estivéssemos ao tempo do direito sumular romano, em que a forma tinha mais importância do que o fundo.

Deixar de examinar o mérito da questão, a título da inadequação da via escolhida e quando de uma clareza solar a violação à liberdade de imprensa, coloca a nossa Suprema Corte entre as piores do planeta.

Afinal, nenhuma lesão a direito - e no caso era lesão a direito fundamental - pode ser excluída da apreciação do Judiciário. E o STF, pela maioria, deixou de examinar a lesão para se fixar em questão processual, de forma.

Quando se ouve, pela boca do ministro Eros Grau, que "aplicar a lei não é censura", preocupa sobremaneira. Até um rábula de porta de cadeia sabe que se aplicada mal a lei pode gerar censura.

Depois do voto de Eros Grau, voltei a lembrar o grande Mario Quintana, que afirmou: "A Justiça é cega. Isso explica muita coisa."

Em resumo. Houve censura. O STF, no entanto, preferiu entender que a roupagem, para se obter o seu reconhecimento, foi mal escolhida. Lamentável. E quando penso no segundo hábeas corpus concedido a Daniel Dantas, quando se rasgou a própria súmula e se pulou instâncias para atendê-lo, volto a pensar em Mario Quintana e acrescento: "me envergonho da decisão da mais alta Corte do meu país".

*Walter Fanganiello Maierovitch é jurista e professor