terça-feira, dezembro 15, 2009

Aquecimento medieval

José Sérgio Osse, Revista Aventuras na História, Ed. 74/Set.09


Há 1.200 anos, um período de altas temperaturas mudou o mundo

Não sobram muitas dúvidas de que, nas últimas décadas, nosso planeta ficou mais quente. Mas os efeitos reais do aquecimento global sobre a humanidade ainda são debatidos. De um lado, há quem espere o apocalipse. De outro, os mais céticos dizem não acreditar em mudanças radicais até o fim do século.

Para entender melhor o que o futuro nos reserva, pode ser muito útil olhar para o cenário de 1.200 anos atrás. A partir do ano 800, o mundo experimentou o último grande ciclo de aquecimento antes do atual.

Foram nada menos que 500 anos de aumento geral de temperatura. Pouco se sabia sobre esse período (em geral, só é possível conhecer o clima do passado com total segurança apenas do século 18 em diante). Mas a constatação de que o mundo ficou mais quente naquele momento surgiu nos últimos anos, a partir de medições em anéis de arvores centenárias, registros de corais e marcas em icebergs. Esses dados foram cruzados com o uso de softwares de climatologia pelo especialista Brian Fanagan, antropólogo da Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara.

De acordo com Fanagan, essa mudança climática provocou longas secas em diversas do globo enquanto outras regiões frias ficaram mais habitáveis e mares congelados se tornaram acessíveis. Tais alterações drásticas ajudaram a mudar os destinos dos mais diversos povos daquela época – dos mongóis até os maias, passando pelos índios da América do Norte e pelos moradores das grandes cidades europeias.

Efeito planetário: as principais transformações provocadas pelo calor
Vikings com esquimós – As temperaturas menos geladas no Mar do Norte aumentam o alcance dos vikings, que chegam à Groenlândia em 985 e fazem contato com tribos americanas. Compram presas de morsas. Em troca, presenteiam os índios com ferro.

O fim dos maias – A península de Yucatán sofre secas longas e severas. Para os maias, cuja vida é regulada pelas chuvas, a mudança provoca uma grave crise de abastecimento que acelera o fim dessa civilização.

Êxodo dos nativos – Na região onde agora ficam Califórnia, Nevada, Utah, Oregon e Idaho, a seca acaba com a economia dos indígenas.

Crescimento das cidades – O Velho Continente desfruta de invernos mais amenos e verões mais longos. Isso se traduz rapidamente em uma produção maior de alimentos e no aumento da população. A nova demanda por serviços especializados facilita o desenvolvimento das cidades.

Avanço mongol - Dependent4es do cavalo para buscar alimentos em regiões distantes entre si, os mongóis vivem no norte durante o verão e no sul quando chega o inverno. A seca na Ásia Central interrompe este ciclo. Em busca de melhores terras, os asiáticos invadem a Europa.

Massacre em Leignitz - Os mongóis invadiram a Europa pela primeira vez em 1237. Quatro anos depois, após destruir Kiev, chegaram perto de Viena e Veneza. O avanço alcançou o auge depois da Batalha de Leignitz. Com 20 mil homens, os asiáticos bateram 25 mil europeus. Pouco depois, as divisões internas iriam parar o domínio mongol no Velho Continente.