José Fucs, Revista Época
A notícia inusitada de que um calote na dívida pública brasileira seria menos provável que na americana gerou euforia em Brasília na semana passada. Entusiasmado com a boa-nova, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, exaltou “a solidez da economia brasileira e a confiança do mercado”. Contou também que a presidente Dilma Rousseff havia ficado “muito satisfeita”. O ufanismo tem origem na variação do preço de uma espécie de seguro contra calotes em títulos públicos, conhecido pela sigla CDS (em inglês, credit default swap). Na terça-feira 14, a taxa de CDS com validade de um ano para os papéis brasileiros chegou a 38,9 pontos, 10 abaixo dos americanos. Isso significa que o investidor pagaria 0,1 ponto porcentual a menos pelo seguro contra um calote brasileiro. Algo inimaginável no passado.
Infelizmente, a realidade não é exatamente da cor que o ministro procurou pintá-la. Primeiro, porque o indicador usado por Mantega baseava-se apenas nas operações de um ano, que refletem a percepção de curto prazo do investidor. Segundo, porque as operações desse tipo são raras. A maior parte dos investidores prefere seguros com prazo mais longo. “Nos últimos anos, o país melhorou, mas daí a dizer que o risco Brasil é menor que o dos Estados Unidos há uma longa distância”, diz o economista Fernando Fix, da Votorantim Wealth Management.
De acordo com Fix, a evolução da taxa do CDS reflete mais um problema conjuntural da economia americana que uma mudança de percepção em relação ao Brasil. A questão é a gigantesca dívida federal dos EUA. Em maio, ela alcançou o teto legal de US$ 14,3 trilhões, um recorde histórico. E, até o final do ano, deverá chegar a US$ 15,2 trilhões, superando a marca de 100% do PIB pela primeira vez desde 1946. Para aumentar o limite da dívida, o governo depende agora de autorização do Congresso. E a maioria republicana na Câmara joga duro com o presidente Barack Obama, do Partido Democrata, e rejeitou um novo limite. Diante do veto recente do Congresso, a insegurança do investidor cresceu, a especulação aumentou e a taxa do CDS de curto prazo também.
Com as negociações em curso, ninguém espera que os parlamentares declarem a moratória americana. Nos últimos 50 anos, o limite da dívida federal foi aumentado 78 vezes, dez delas desde 2001. “Isso deverá ser resolvido logo”, afirma o economista Octavio de Barros, do departamento de pesquisa do Bradesco.
A percepção de que se trata de um problema temporário apoia-se na taxa dos CDS de cinco anos, os mais negociados. Eles tinham, na terça-feira passada, taxa de 109,9 pontos para papéis brasileiros e 51,6 pontos para papéis americanos. Outros indicadores de risco soberano mostram a mesma tendência. Embora tenha recebido o grau de investimento, em reconhecimento à melhoria do ambiente econômico do país, o Brasil ainda está apenas um degrau acima de países cujos títulos são considerados podres. Os EUA mantêm a classificação AAA, a mais alta. O otimismo exagerado do governo é um sinal de que Brasília prefere viver num mundo de ilusões.
Acredite, se quiser
Desde 20 de maio, custa mais caro se proteger contra um calote na dívida pública americana que na brasileira¹ – em pontos