domingo, outubro 31, 2021

Metade não come e a outra metade não dorme no Brasil de Bolsoguedes

 Xico Sá

El Pais

Nos 75 anos do clássico “Geografia da Fome”, a voz de Josué de Castro puxa o coro dos desvalidos na cidade mais rica do país 

ANDRÉ COELHO (EFE)

Voluntários entregam marmitas para pessoas em situação de rua, no Rio de Janeiro.

Assim como a morte era representada pela Velha da Foice, a fome, no imaginário das vidas secas, sempre foi a Velha do Chapelão. As duas criaturas se acostumaram a andar de parelha, sertões e subúrbios adentro. Do golpe de 2016 para o bolsoguedismo brabo de 2021, avista-se —como em um filme de terror expressionista— a sombra da dupla a cada beco ou encruzilhada.

Não precisa ir ao semiárido nordestino ou ao fundão da ZS, zona sul de SP, basta entrar em um supermercado da área central paulistana para sentir como o sombreiro persegue legiões de famílias. Os famintos, crianças na linha de frente, pedem comida a cada gôndola. Há um cerco. Ainda pacífico. E um milhão de nutrientes longe do alcance. No que salta o médico, escritor e cientista pernambucano Josué de Castro (1908-1973), com o megafone sempre em punho: “Metade da humanidade não come; e a outra metade não dorme, com medo da que não come.”

Pão de Açúcar, avenida Alfonso Bovero, quase esquina com a Pompeia, reduto de classe média, outubro de 2021. Tente ignorar que existe um cinturão de necessitados que intima para a urgência urgentíssima. Impossível, mesmo sob efeito de anestesia geral e completa. Com ou sem culpa por ter ajudado a trazer o país a esta bagaceira, a Velha do Chapelão ri do teu privilégio amarelo. Não adianta se declarar apenas como um limpinho e meritocrata eleitor de Amoedo (Novo). Ela te manja nessa coreografia entre o medo e a torneira de Pilatos.

Josué avisou ainda no “Geografia da Fome”, livro que completa 75 anos de lançamento: não adianta culpar Deus, a chuva, o destino ou o acaso, só existe faminto por causa da buraqueira social e a falta de um governo de sustança. E olhe que ele nem sabia ainda que o Brasil se tornaria o país do agro é pop, tampouco imaginaria que teríamos a fila do osso justamente em uma época de recorde nos índices de produção de alimentos.

Agora na vitrola, pela milésima vez peço bis, a pedagogia do vinil mangue bit: “Ó Josué eu nunca vi tamanha desgraça/ quanto mais miséria tem/ mais urubu ameaça”. Repete, ao infinito, Nação Zumbi & Chico Science. Até furar o disco com o free jazz do ronco denunciador das tripas.

Dos últimos dias de Pompeia vamos ao centro, na babilônica cidade mais estribada do país. Bom e didático enxergar a fome não apenas na viciadíssima pauta jornalística do calango do Nordeste. De cara, fico com a imagem repetida pelo padre Júlio Lancelotti, meu candidato ao Nobel da Paz. Ele sempre legenda o cenário sem arrodeios ou amaciantes sociológicos: isso é crise humanitária. O resto é chilique chique de madame palaciana ou dos mimados edipianos da extrema-direita.

O centrão babilônico virou um campo de refugiados do seu próprio país. Os punks sabem disso e tampouco esquecem os “crucificados pelo sistema”. Lá está o casal Vivi Torrico e João Gordo (Ratos de Porão) distribuindo marmitas na maloca. Punks não morrem, punks not dead.

Agora dobre mais um quarteirão nas imediações da Cracolândia, entre no Museu da Língua Portuguesa e veja que Miró da Muribeca —esse tem a verve dos lixões e dos morros Guararapes— havia previsto o cardápio do osso e a carestia até de um copo d´água. O museu ecoa, mas não guarda língua de poeta beatnik arruaceiro, Miró sai do totem e segue soprando tabus nos ouvidos dos passantes e das putas crepusculares da Estação da Luz.

À sombra do Minhocão, os desviventes de Futurama não aplaudem o sol, como no Arpoador carioca. Eles fedem à vera, são paulistanos ou novos baianos na contramão da locomotiva, abalroados por um condutor da Terceira Via bandeirante que berra “Non Ducor Duco” —sai do meio bando de peste desmerecida. Para seguir nessa viagem, favor fazer baldeação no livro “O riso dos ratos”, de Joca Reiners Terron. Próxima estação: Desesperança. Até os bilheteiros sumiram.

E lá vem de novo aquela sombra do chapelão expressionista nos seguindo como um vira-lata mordido pelo afeto. Quando olhamos para trás, o sol ilumina a ferrugem nos dentes de uma criança. Ela ainda não comeu hoje.

Xico Sá, escritor e jornalista, é autor de “Big Jato” (editora Companhia das Letras), entre outros livros.


Fim do ministro liberal? Economistas veem guinada 'eleitoral' de Paulo Guedes

 Shin Suzuki

BBC News Brasil em São Paulo

 CRÉDITO,REUTERS

Chamado de 'Posto Ipiranga' por responder sobre o projeto econômico de Bolsonaro, ministro Paulo Guedes se mostrou alinhado com as perspectivas eleitorais do presidente ao apoiar aumento do valor do Auxílio Brasil

Apresentado na campanha do então candidato à Presidência Jair Bolsonaro como o nome que garantiria políticas e reformas pró-mercado, Paulo Guedes declarou na semana passada que é a favor de estourar o limite de gastos do governo para alcançar um valor maior do Auxílio Brasil, novo programa social que vai substituir o Bolsa Família.

O anúncio do ministro, que contrariou expectativas de saída do cargo por discordar dos rumos econômicos do Planalto, foi interpretado como o fim de seu compromisso com princípios de responsabilidade fiscal e de sinalização de alinhamento com as perspectivas eleitorais do presidente.

"Depois de sexta-feira está mais do que claro que o que interessa para o Guedes é a reeleição do Bolsonaro. Se a economia vai sair machucada disso ou não, não me pareceu ter muita preocupação sobre isso", afirmou Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados.

Os técnicos do Ministério da Economia sugeriram que o Auxílio Brasil ficasse em R$ 300. Guedes disse que atenderia o desejo do presidente de fixar o valor em R$ 400 e pediu "uma licença" para gastar R$ 30 bilhões fora do teto de gastos. Com a PEC dos Precatórios, que prevê uma mudança no cálculo do reajuste do teto de gasto, o governo deve abrir um espaço de ao menos R$ 83,6 bilhões a mais para gastar em ano eleitoral.

Guedes negou que seja um "fura-teto", sustentou que a proposta do benefício está "muito longe de afetar a sustentabilidade fiscal" e declarou que, se Bolsonaro fosse populista, "teria pedido R$ 600, R$ 700" para o auxílio.

O ministro também citou a necessidade de assistência à população. "Nós entendemos a política que diz o seguinte: 'Olha, o teto é um símbolo de austeridade, é um símbolo de compromisso com as gerações futuras'. Mas nós não vamos deixar milhões de pessoas passarem fome para tirar 10 em política fiscal e tirar zero em assistência aos mais frágeis."

Em defesa de suas credenciais econômicas, Guedes citou na entrevista coletiva o Prêmio Nobel Milton Friedman, um dos maiores expoentes do neoliberalismo e que defendeu em 1962 uma espécie de renda básica, o "imposto de renda negativo".

"Não existe essa antítese entre o liberal e o social. Quem inventou a renda mínima foi Milton Friedman, quem trouxe para o Brasil foi o [ex-senador Eduardo] Suplicy e quem apoia a renda básica familiar é o presidente Bolsonaro."

Na visão de Vale, da MB Associados, "a população está passando fome, o governo precisa dar esses recursos. Mas do jeito que foi feito é um tiro no pé e vai causar um efeito negativo para a própria população: mais taxa de câmbio, mais inflação, mais juros e menos crescimento. Então se dificulta a própria vida dos mais pobres e mais ainda o resto da população que não vai receber esses recursos".

A BBC News Brasil entrou em contato com o Ministério da Economia sobre as críticas feitas a Paulo Guedes na condução do ministério, mas não obteve resposta.

Superministro

 CRÉDITO,REUTERS

Bolsonaro e Guedes em entrevista coletiva na última sexta-feira (22/10)

Paulo Guedes começou o governo Bolsonaro com o status de "superministro". Conseguiu o comando de uma nova e poderosa estrutura que reuniu pastas como Fazenda, Planejamento, Previdência e Indústria com o objetivo de executar um programa que passaria por privatizações de grandes estatais e a realização de um pacote de reformas para conter o crescimento da dívida pública. Ainda na campanha, ele disse que seria possível zerar o déficit fiscal já no primeiro ano do governo.

No entanto, o ministro saiu derrotado em diversos episódios na gestão Bolsonaro e teve colocada em dúvida a capacidade de cumprir o seu projeto inicial — e a do país de reverter o déficit nas contas públicas.

"A questão fiscal já estava sendo descontruída ao longo de muito tempo. O que aconteceu nos últimos dias foi o ponto culminante de toda uma condução muito errática e mal feita ao longo desses quase três anos", disse Vale.

"As intenções lá atrás já mostravam um candidato a ministro que não tinha muita noção de onde estava indo. Havia, talvez, uma confiança excessiva no potencial do governo Bolsonaro para reformas. Aquelas ideias de vender R$ 1 trilhão em privatizações eram parte de um plano mirabolante que não fazia sentido econômico. Ficou mais do que provado que era um plano de voo muito limitado e falsamente liberal, com pouquíssimas propostas e reformas de peso."

Ainda na campanha presidencial, o futuro ministro disse que poderia ser arrecadado R$ 1 trilhão na privatização de estatais "peixe grande" e também citou o objetivo de obter R$ 1,1 trilhão em vendas de imóveis da União. Críticos e técnicos do governo afirmaram que as propostas do ministro tinham, na realidade, potenciais de arrecadação mais modestos. E Guedes admitiu no fim do mês passado que "não andamos no ritmo que gostaríamos" dentro do programa de desestatização.

Para Sergio Vale, "havia um excesso de otimismo, completamente exagerado, que não olhava a realidade e que acabou se optando por uma solução que não tinha como dar certo". E diz que o fator Bolsonaro não foi levado em conta.

O presidente, durante seus mandatos como deputado federal, votou contra a aprovação do Plano Real e contra reformas administrativa e previdenciária na década de 1990. Por esse histórico de Bolsonaro como parlamentar, economistas liberais disseram desconfiar da carta branca dada a Guedes quando se uniu à campanha bolsonarista. O ministro era chamado de "Posto Ipiranga" por ser a voz autorizada para responder sobre o desenho econômico do governo.

"Na verdade, o projeto do Guedes e do próprio Bolsonaro era um projeto anti-PT. O mercado queria qualquer coisa que não fosse o PT", afirma.

Na visão da consultora econômica Zeina Latif, "qualquer que seja o pensamento do Paulo Guedes lá atrás, ele perdeu uma batalha política. A política econômica não está na mão dele. Na hora que ele fala 'a gente vai flexibilizar', ele está seguindo a decisão tomada pelo Centrão com o presidente. Ele perdeu o controle da agenda".

Ela concorda com a ideia de que o projeto de reformas liberalizantes de Guedes não estava bem alicerçado.

"Tivemos a reforma da Previdência, tivemos algumas coisas importantes, mas não se enxergava um programa mais estruturado na verdade. Tinha ali grandes defesas de alguns temas, mas isso nunca se traduziu numa agenda de forma concreta. A própria Previdência foi um caminho que já vinha sendo trilhado pelo governo (Michel) Temer e que encontrou condições favoráveis no Congresso."

As reformas tributária e administrativa propostas pelo governo ainda estão em tramitação no Congresso.

Declarações e desculpas 

CRÉDITO,REUTERS

Em 2019, Guedes afirmou que os brasileiros 

deveriam 'se acostumar' com o câmbio mais alto

Paralelo a um desempenho que frustrou expectativas do mercado, foi revelado no começo do mês que Paulo Guedes tem uma empresa offshore nas Ilhas Virgens Britânicas, um conhecido paraíso fiscal, com saldo de US$ 8 milhões.

Em nota enviada à BBC News Brasil, a assessoria do ministro afirmou que as atividades privadas dele anteriores à sua posse como ministro foram informadas aos órgãos competentes.

Guedes também se notabilizou por declarações públicas que resultaram depois em explicações ou retratações.

Em fevereiro de 2020, comparou servidores públicos a "parasitas" e o governo a um "hospedeiro" ao defender a reforma administrativa: "O hospedeiro está morrendo, o cara (o funcionário público) virou um parasita, o dinheiro não chega no povo e ele quer aumento automático".

Poucos dias depois, ao defender que a alta do dólar era favorável ao país, Guedes ironizou que empregadas domésticas iam à Disneylândia na época de baixa da moeda norte-americana.

"Não tem negócio de câmbio a R$ 1,80. Vou exportar menos, substituição de importações, turismo, todo mundo indo para a Disneylândia. Empregada doméstica indo pra Disneylândia, uma festa danada."

Dias depois, declarou que pedia "desculpas, se puder ter ofendido" as empregadas domésticas.

Para o economista e professor da Unicamp Luiz Gonzaga Belluzzo, "Paulo Guedes tem restrições culturais muito graves, uma visão, um horizonte bastante estreito das transformações da economia".

"Na verdade ele assumiu um teto fiscal que já estava lá e ele veio com a proposta das reformas que estão encontrando dificuldades [de serem aprovadas] pelo fato de que a economia, tal como ela existe hoje, não se conforma mais ao modelo das reformas liberais."

No entanto, o professor da Unicamp critica a busca do cumprimento do limite de despesas como norte econômico em meio ao quadro social e às dificuldades econômicas causadas pela pandemia de covid-19. "Essa corrida em torno do teto de gastos não pode fazer as pessoas morrerem de fome ou elas vão buscar a comida do lixo."


A OCDE e o atraso brasileiro

 Editorial

Gazeta do Povo

Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

Praça dos Três Poderes e Esplanada dos Ministérios, em Brasília| 

Em 1961, foi fundada a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que congrega 38 países-membros, basicamente países desenvolvidos e alguns emergentes, cuja finalidade é estabelecer diálogos, analisar políticas e medidas econômicas, políticas e sociais com vistas a definir e implantar ações para estimular o crescimento econômico, o comércio internacional, a cooperação entre as nações e a melhoria nas condições de vida. Em meados deste outubro de 2021, a OCDE produziu um relatório sobre o desempenho previsto para os 38 países até o ano 2060, usando como teto de comparação a renda por habitante nos Estados Unidos.

O trabalho verificou o porcentual de renda per capita de cada país hoje em relação aos Estados Unidos, previu o crescimento nos próximos 40 anos e chegou ao novo porcentual em 2060. Como exemplo, o relatório afirma que a renda por habitante na Índia atualmente é 10,8% da renda nos Estados Unidos e, em 2060, deverá ser de 28,1%, considerada a previsão de crescimento da Índia. Outro caso é a China, cuja renda per capita atual equivale a 29,1% da norte-americana, mas chegará a 51% em 2060. O Brasil também está analisado e a conclusão é pessimista, prevendo que o padrão de vida do brasileiro andará beirando a estagnação nos próximos 40 anos.

Com as mesmas instituições e estruturas econômicas de agora, a riqueza natural abundante não fará o Brasil sair do atraso da pobreza e do atraso até 2060

Segundo o relatório, a renda por habitante brasileira equivale a 23% da norte-americana e não passará dos 27% em 2060 – um crescimento medíocre que manterá a pobreza e o atraso relativo, caso o país não consiga fazer as reformas estruturais das quais todos os governos falam e não executam. Como sempre, muitos contestarão o relatório e dirão que se trata de meras especulações, mas vale lembrar que a OCDE é uma organização cujos trabalhos gozam de credibilidade e são levados em consideração. Mesmo não sendo membro efetivo da instituição, o Brasil participa de comitês de trabalho, projetos, discussões e tem boa relação com a organização. Tentar desmerecer os estudos e as conclusões da OCDE é um equívoco a ser evitado.

Há tempo o mundo econômico e político internacional vem chamando a atenção para a incapacidade do Brasil em fazer reformas, modernizar suas instituições, superar os obstáculos ao crescimento econômico de curto prazo e preparar o país para crescer de forma sustentado nas próximas décadas. Vale citar a matéria feita em 2013 pela prestigiada revista The Economist, reconhecendo as fragilidades da economia brasileira após um período de crescimento; a capa daquela edição trazia a expressão “estragou tudo”, referindo-se ao Brasil. Apesar de ter sido criticada por autoridades governamentais e políticos, a matéria foi profética, pois em 2015 e 2016 o governo Dilma Rousseff protagonizou a mais dura recessão econômica dos últimos 100 anos. A revista britânica esperou até 2016, quando, em nova reportagem, se vingou das críticas, estampando na capa a palavra “traição” e afirmou que, de economia promissora, o Brasil passara a um caso de decepção, sem que se pudesse dessa vez jogar a culpa na situação internacional.

O Brasil tornou-se um país de estrutura estatal enorme, com 5.570 prefeituras, 27 governos estaduais e governo federal inchados. A estrutura estatal é decisiva para alavancar ou atrasar o desenvolvimento nacional – e, no Brasil, ela é gigantesca, nos três poderes. Infelizmente, na vida política e administrativa do país, a ação cotidiana dos governos e dos políticos tornou-se um sistema de fisiologia, predomínio de interesses pessoais miúdos, eternas brigas partidárias, eleições a cada dois anos e um festival de discursos e debates de precário nível intelectual com predomínio de assuntos pequenos, enquanto as grandes questões nacionais, a exemplo das reformas estruturais, ficam à margem e em segundo plano. A julgar pelo que inunda o noticiário político, econômico e administrativo de todos os dias, parece que os políticos e os governantes têm até um certo tédio em tratar dos temas mais relevantes. A palavra “reforma” é usada o tempo todo fora do contexto e longe de seu significado maior e fundamental para o destino da nação.

Para ilustrar, cabe perguntar qual foi o destino das 35 propostas consideradas prioritárias (26 projetos econômicos e nove referentes à pauta de costumes) da lista que o presidente da República enviou ao Congresso Nacional no início do ano. As propostas podem ser boas ou não, conclusão que depende de discussão e análise. O fato é que boa parte delas morreu nas gavetas do parlamento, enquanto um sem-número de assuntos menores e de interesses pessoais toma as manchetes diariamente. As propostas de reformas como a administrativa e a tributária patinam; boas reformas feitas no passado, como a instituição do teto de gastos, estão ameaçadas; tudo isso no momento em que análises internacionais vêm alertando para a possibilidade de, nos próximos 40 anos, o Brasil nem chegar a ser uma economia livre de mercado verdadeira, com infraestrutura física adequada, educação de bom nível e redução da corrupção. O resumo é: com as mesmas instituições e estruturas econômicas de agora, a riqueza natural abundante não fará o Brasil sair do atraso da pobreza e do atraso até 2060.

Para Douglass North, prêmio Nobel de Economia de 1993, a qualidade das instituições pode ser medida pelo funcionamento do Poder Legislativo, Poder Executivo e sistema judicial, pela estabilidade da moeda, estabilidade política, funcionamento do livre mercado, entre outros aspectos, tendo como consequência a confiança das pessoas, investidores e agentes de mercado na eficiência, rapidez e moralidade das instituições nacionais. Para ele, a confiança em sentido geral é fator decisivo para o estímulo ao empreendedorismo e ao espírito de livre iniciativa tão necessários à expansão da economia e ao crescimento econômico sustentado. Sendo assim, confiança e reformas estruturais são dois fatores que, não estando presentes, impedirão o país de superar a miséria e a pobreza. A boa notícia é que há tempo suficiente para fazer as mudanças que impedirão a previsão da OCDE de se tornar realidade; a má notícia é que isso exigirá um senso de urgência e responsabilidade que os três poderes e representantes eleitos nas três esferas de governo têm falhado em exibir até agora.


O fracasso de um ministro

 Eudes Lima

Revista ISTOÉ

Ciro Nogueira chegou como tentativa de solução para um governo que não tinha poder de articulação, mas, apesar da grande influência no Centrão, ele não consegue emplacar as pautas do Planalto e acumula seguidas derrotas, especialmente no Senado

 (Crédito: Mateus Bonomi)

OLHARES Reencontro entre os ministros Paulo Guedes e 

Ciro Nogueira (à dir) ficou marcado pelo constrangimento 

O senador Ciro Nogueira (PP-PI) imaginou que teria uma estadia na chefia da Casa Civil apenas de glórias. O presidente Bolsonaro tinha uma dificuldade enorme de articulação política e precisava de alguém para domar o Centrão. Os antecessores não mostraram habilidade para negociar com o Congresso. Nomeado em julho, Nogueira acabou se transformando em um grande fiasco e acumula uma extensa ficha de derrotas. Seu calcanhar de Aquiles é o Senado, inexplicavelmente. Na Casa, de onde está licenciado, se esperavam os melhores resultados, mas os reveses são acintosos. Na Câmara, o pragmátismo governamental, do toma lá dá cá, é melhor, mas as vitórias são atribuídas ao presidente Arthur Lira (PP-AL). A interlocução no Supremo Tribunal Federal (STF) também é falha. O ministro não consegue emplacar a política desenhada pelo Planalto. A deputada Joice Hasselmann (PSDB-SP) disse à ISTOÉ que o mais hábil político não dará jeito nesse governo. “Nem o experiente Ciro consegue articular com sucesso para essa gestão caótica liderada por um presidente oligofrênico”.

 (Crédito:Ueslei Marcelino)

RIVAL Filiado ao PSD, o senador Rodrigo Pacheco pode ser

 candidato à Presidência: pedra no sapato da Casa Civil 

Conspiração guedes

Fora da correlação de forças com as outras esferas de poder, Nogueira fez uma jogada política bem arriscada e somou seu maior fracasso. Ele organizou uma ofensiva ao ministro da Economia. Para tanto, contou com a colaboração dos ministros João Roma (Cidadania) e Flávia Arruda (Secretaria de Governo). Eles queriam convencer Bolsonaro a pressionar Guedes para romper o teto de gastos, a qualquer custo, e anunciar o Auxílio Brasil de R$ 400. Na pauta também estava a busca por um nome alternativo para substituir Guedes caso ele não cedesse. Ao que tudo indica o presidente acenou para que o plano tivesse andamento. O interlocutor nessa estratégia foi o banqueiro André Esteves, do BTG Pactual. Com um projeto ardiloso, os ministros queriam que o BTG cedesse seu executivo Mansueto de Almeida para o Ministério da Economia no lugar de Guedes. Não contavam com a boa relação do ministro com o mercado, além da negativa do próprio Mansueto, que não quis manchar seu currículo voltando para um governo embaraçado. A conspiração malfadada de Nogueira teve consequências. Guedes saiu fortalecido e Bolsonaro ganhou fôlego para tocar a reeleição: deve se filiar ao PL e não mais ao PP de Ciro.

Pesa contra Nogueira, sobretudo, os resultados negativos para conter a CPI da Covid. O ministro não impediu que o presidente fosse indiciado em nove crimes. A minirreforma trabalhista saiu derrotada por 27 votos a favor e 47 votos contrários ao governo. O pedido de impeachment do ministro Alexandre de Moraes não prosperou. A MP que limitava a remoção de fake news das redes sociais foi devolvida ao governo. Todas essas derrotas ocorreram no Senado, onde ele gozaria de prestígio, mas mostrou-se incapaz. Na Câmara, tem melhor sorte. O governo aprovou a Privatização dos Correios, a reforma do Imposto de Renda e a flexibilização de licença ambiental. Mas todos esses projetos estão engavetados ou caminhando lentamente no Senado. A queda de braço entre o senador Rodrigo Pacheco, filiado ao PSD e possível candidato à Presidência da República em 2022, pode justificar parte das derrotas. Ainda na Câmara, o retorno do voto impresso não passou e a PEC da Vingança, que limitaria o poder de investigação dos procuradores, foi derrotada.

A fragilidade de Nogueira é exposta no episódio da carta escrita pelo ex-presidente Michel Temer. Nogueira não teve o protagonismo esperado de um chefe da Casa Civil. Correligionários do governo seguem presos e o ex-advogado-geral da União André Mendonça ainda não foi sabatinado para a vaga na Corte. No Congresso, se esperava que sob o auxílio do ministro, Bolsonaro pudesse ser contido — outra derrota. A questão a responder é se tantas perdas são fruto de falta de habilidade ou oriundas de desinteresse. A cientista política Juliana Fratini enxerga uma mistura de tudo isso. No tema sobre a rasteira que tentou passar em Guedes a derrota mostra que Nogueira deu um passo em falso. “O chefe da Casa Civil queria mostrar sua capacidade de influência”. Entretanto, o interesse é puramente fisiológico. “Nogueira foi base dos governos Lula e Dilma e seu partido costuma apoiar em troca de cargos”, afirma Juliana. De fato, o Centrão pode continuar dando as cartas no próximo governo, seja qual for.

Derrotas de Ciro

No senado, Nogueira não teve poder de articulação para barrar as investigações da CPI da Covid. Amarga a derrota da minirreforma trabalhista. Ainda viu a devolução da medida provisória que limitava a remoção de conteúdo nas redes sociais.

• Na Câmara, o maior desejo do presidente era ver aprovado o retorno do voto impresso, mas o ministro não conseguiu reverter o quadro. Também falhou na tentativa da PEC da Vingança, que limitaria o poder de investigação dos procuradores.

• No STF, o próprio Bolsonaro precisou articular com o ex-presidente Michel Temer para que houvesse uma trégua. Correligionários do governo seguem presos e André Mendonça ainda não foi sabatinado para a vaga na Corte.


“Brasil não perde a oportunidade de perder uma boa oportunidade”, dizia Roberto Campos

 Merval Pereira, O Globo

Tribuna da Internet

Diante da crise que a cada dia se aprofunda no país, favorecida pela irresponsabilidade fiscal do presidente Bolsonaro e pela submissão das convicções do ministro da Economia Paulo Guedes às ambições políticas, tem importância didática relembrar as disputas da equipe que implantou o Plano Real com as forças políticas e econômicas que sustentavam a hiperinflação brasileira àquela altura.

É o que faz o economista Edmar Bacha, membro da Academia Brasileira de Letras, em seu recém lançado livro “No País dos Contrastes”, do selo História Real. Como dizia outro economista de renome, Roberto Campos, “o Brasil nunca perde a oportunidade de perder uma boa oportunidade”, frase citada por Bacha ao relembrar o Programa de Estabilização enviado ao Congresso no final de 1993 quando Fernando Henrique era ministro da Fazenda, que propunha uma série de reformas na revisão constitucional que estava prevista para cinco anos depois da promulgação da Constituição de 1988.

TEMAS INCONCLUSOS – Constavam lá temas que ainda hoje estão inconclusos, como o “federalismo fiscal”, o “realismo orçamentário”, a “reforma tributária”, a “reforma administrativa”, eliminação dos monopólios estatais e reservas de mercado, reforma previdenciária.

Houve avanços, como o fim do monopólio da Petrobras ou o início da reforma da Previdência, ainda hoje inconclusa. Mas perdemos quase 30 anos sem dar solução definitiva a questões que já eram conhecidas, e ainda hoje esbarram em interesses corporativos ou fisiológicos.

Outro ponto a se destacar no livro de Edmar Bacha é a negociação parlamentar para se chegar ao Plano Real. Apelidado de “senador”, pelo tempo que dedicava a conversas com parlamentares no próprio Congresso, Bacha revela detalhes de enfrentamentos delicados resolvidos com recuos e avanços, sem que tenham sido necessárias trocas de favores não republicanos, como assistimos já há algum tempo, com o Centrão envolvido em mensalões, petrolões e outros escândalos. 

ALGUMAS FRASES – Ele relembra algumas frases que ouviu durante essas negociações que revelam muito bem o pensamento médio do parlamentar brasileiro. Desde “você é PHD e coisa e tal, mas não ache que pode nos enganar. Aqui, o mais bobo foi eleito” a “na barganha política, o relógio zera todo dia. Nada dê hoje para obter algo em troca somente no dia seguinte”.

Outro membro da equipe do Plano Real, o economista Winston Fritsch, que foi Secretário de Política Econômica, escreveu um belo artigo recentemente no Globo (“A única via”) em que analisa as causas da perda de governabilidade do presidencialismo de coalizão, e o que chama de “irrelevância da fulanização da discussão da sucessão”.

Para ele, a solução passa por um pacto de governabilidade entre, citando o ex-ministro da Fazenda Rubem Ricupero, “o centro socialmente progressista e a esquerda democraticamente renovada”.

PACTO MAIS DIFÍCIL – Winston Fritsch admite, porém, que esse pacto é de difícil consumação “pois o que diluiu os partidos tradicionais no mundo pós-moderno foi exatamente a perda da representatividade política dos agentes tradicionais que definiam o espectro político real entre centro-direita democrática e esquerda, e a consequente volta da direita, num mundo ainda crescentemente desigual mesmo nos países ricos”.

O pacto que exemplifica a vitória da política é o de Moncloa, na volta da Espanha à democracia depois da ditadura de Franco, mas Fritsch ressalta que ele se baseava num “mundo de sindicatos e patrões dos anos 70”. Um Pacto de Moncloa 2.0 teria que ser inventado, mas ele acha que fazer uma versão “à brasileira” é mais fácil, pois “a agenda da governabilidade aqui é infinitamente mais simples do que o original. Moncloa tinha 700 páginas. O nosso caberia em uma”.

MENOS NACIONALISMO – Winston Fritsch acha que a emergência climática e outras ameaças de externalidades globais reais e urgentes, como pandemias, “impossíveis de serem tratadas sem cooperação multilateral, acabarão com o surto de nacionalismo que é a força de que se alimenta a direita pós-moderna, uma forma de tribalismo político revivido com a ajuda das novas redes de comunicação”.

Infelizmente, como os Bourbons, nossos políticos “não aprenderam nada, nem esqueceram nada”.


Amanhã, o país anda ou para?

 Carlos Brickmann

 

 Amanhã é o dia D: os caminhões param ou não param? Há profunda irritação dos caminhoneiros, autônomos ou donos de frota, com o Governo: as promessas do presidente Bolsonaro a eles jamais foram cumpridas. Tudo bem, não era possível cumpri-las: não há como estabelecer um piso para os fretes (sempre haverá alguém com o caminhão parado disposto a trabalhar por um pouco menos), nem subsidiar o diesel (de onde sairia o dinheiro?) ou obrigar a Petrobras a vender mais barato (seria lesar os acionistas, e é bom lembrar que a empresa negocia na Bolsa de Nova York – as indenizações lá são bem altas). Mas Bolsonaro fez as promessas. E, em todo o seu Governo, o ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, não parou de prometer o que não podia cumprir, tanto que a categoria não o aceita mais para negociar.

Num Brasil onde a navegação de cabotagem é pequena, onde ainda não há trilhos suficientes, o caminhão é que move as mercadorias. Paralisação de caminhoneiros paralisa o país, gera desabastecimento, provoca inflação e, o que mais dói em Bolsonaro, pode prejudicar sua tentativa de reeleição.

Aparentemente, o Governo não acredita na parada dos caminhões:  não mostrou nenhum esforço especial para apaziguar a categoria. Deve ter boas informações. Há entidades de caminhoneiros que se dizem revoltadas, mas acham que não é hora de parar. Enfim, o Brasil para ou não para? Num país em que até o passado é imprevisível, como prever o dia de amanhã?

A terra do vovô

O presidente Bolsonaro, aliás, nem está no Brasil: foi à Itália, participar da reunião do G-20, o grupo das vinte maiores economias do mundo. Mas só marcou um encontro – aliás, encontro protocolar, já que o presidente da Itália vai receber todos os participantes (o que não tem importância, já que o Governo italiano é chefiado pelo primeiro-ministro). Não aproveitará a presença dos dirigentes das maiores economias do mundo para conversar. Em compensação, visitou pontos turísticos de Roma, passará por Pistoia, onde o antigo cemitério, local de sepultamento dos soldados brasileiros mortos na luta contra o fascismo, foi transformado em ponto de homenagem à Força Expedicionária Brasileira, e irá a uma aldeia de Padua, Anguillara Veneta, de onde vieram seus antepassados, para ser homenageado.

Só passeio

Hoje, domingo, começa a Conferência do Clima em Glasgow, Escócia. Os dirigentes de 19 das 20 maiores economias do mundo foram direto de Roma para lá. Bolsonaro, não: preferiu ficar na Itália, junto com o Imposto Ipiranga, ministro Paulo Guedes. O clima da Itália é mais agradável que o da Escócia, a comida é melhor, o uísque que lá se consome é normalmente um escocês legítimo, só que em Glasgow o Brasil enfrentará problemas com os ambientalistas.

O general Mourão foi claro: em Glasgow, Bolsonaro, vilão do meio-ambiente, seria recebido com pedras nas mãos. As pedradas mudam de destino e serão atiradas no ministro do Meio Ambiente, que comanda a delegação brasileira. É ele que terá de explicar como é que, num mundo que reduziu em 7% a emissão de carbono, o Brasil emitiu mais 9%, e sem crescer.

A vida imita a arte

Um detalhe que vem passando despercebido no episódio em que o ator Alec Baldwin matou, com um tiro acidental, a diretora de fotografia Halyna Hutchin: o enredo do filme que estavam rodando, Rust (“Ferrugem”) trata exatamente de um tiro acidental e de suas consequências.

EUA x China 1

Os Estados Unidos deram 60 dias para a China Telecom Corporation interromper seus serviços no país. A medida foi tomada pela Comissão Federal de Comunicações, alegando o risco de que o Governo chinês possa usar a empresa para espionar ou interromper as telecomunicações nos EUA.

Importante: a medida mostra que o presidente Joe Biden, democrata, está mantendo a política de seu antecessor e adversário, Donald Trump, de limitar o acesso de empresas chinesas à tecnologia e ao mercado americano, por colocar em perigo a segurança nacional e pela cooperação dessas empresas com o Exército Vermelho. No Governo Trump, a China Telecom tinha sido proibida de operar no mercado americano de capitais.

EUA x China 2

A China Telecom e outra empresa chinesa, a China Unicom, operavam há vinte anos nos Estados Unidos. Em 2019, o Governo Trump rejeitou um pedido de operação no país de uma terceira operadora, a China Mobile.

De acordo com a Comissão Federal de Comunicações, “a propriedade e o controle da China Telecom pelo Governo chinês aumentam o risco para a segurança nacional”. Mais: “A conduta e comunicação entre a empresa e as agências governamentais dos Estados Unidos mostraram falta de franqueza, confiabilidade e credibilidade”. Os chineses informam que tomarão medidas para proteger suas empresas, mas ainda não se falou em retaliação.

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Governos que ferem instituições

 Zeina Latif

O Globo

Os presidentes Dilma Rousseff e Jair Bolsonaro colocaram em xeque balizadores fiscais como LRF e teto de gastos

Os marcos institucionais dos países visam a delimitar a ação dos indivíduos, de forma a afastar atitudes oportunistas que prejudiquem a coletividade, por exemplo, atrapalhando o crescimento sustentado.

Na economia, um exemplo é o regime de metas de inflação — um mecanismo que facilita o trabalho do Banco Central no controle inflacionário, desde que seu compromisso com o regime seja reafirmado repetidamente. Caso o BC sistematicamente descumpra as metas, a erosão de sua credibilidade demandará taxas de juros mais elevadas para conter a inflação adiante.

Outros marcos são as regras fiscais. As mais importantes são a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), de 2000, e a regra do teto, de 2016. A primeira estabelece, basicamente, que novas despesas não podem ser criadas sem indicação de fonte de recursos e a segunda limita o crescimento dos gastos do governo.

O fato de haver bons arranjos institucionais não significa, porém, que serão efetivos, pois isso depende da qualidade dos governantes. Muitos não exercem a necessária autocontenção e partem para buscar brechas ou criar exceções nas regras do jogo.

Visam ao seu benefício eleitoral de curto prazo, geralmente de forma pouco transparente, o que enfraquece as instituições, trazendo prejuízos à coletividade no médio e longo prazo.

Na gestão Dilma, a LRF e o regime de metas foram severamente atacados, por conta dos abusos na área fiscal, que pressionaram a inflação. Como agravante, havia a percepção — correta ou não — de que o Executivo feria a autonomia do BC ao não permitir a necessária alta dos juros.

Diferentemente dos governos anteriores, que compreendiam que a independência do BC (mesmo que não prevista em lei) eleva a eficácia do regime de metas, contribuindo para os juros serem mais baixos ao longo do tempo. Ao final daquele governo, mesmo com a Taxa Selic em 14,25% ao ano e a economia em recessão, a inflação não cedeu. Saiu cara a aventura.

O desrespeito à LRF — as pedaladas foram apenas parte do problema — foi ruim para as contas públicas, para o trabalho do BC e para o jogo eleitoral, pois o aquecimento artificial da economia gerou vantagem indevida para a ex-presidente na campanha de 2014. 

As instituições de controle ou tardaram a reagir, como o Tribunal de Contas da União, ou decidiram não tumultuar o quadro político, como o Tribunal Superior Eleitoral.

No governo Temer, veio a correção de rumos, e a inflação baixa abriu espaço para a saudável redução da meta em direção aos parâmetros mundiais. Houve avanço institucional.

A história se repete. O governo Bolsonaro promove retrocesso ao desrespeitar a regra do teto, senão formalmente, o seu espírito. Abusa-se da cláusula de escape que permite gastos em situação não esperada e, agora, pretende mudar a Constituição para flexibilizar a regra.

A razão é menos nobre do que parece, por várias razões: o Auxílio Brasil não vai além de 2022; o rombo no teto seria de R$ 98 bilhões, segundo Marcos Mendes, mais que o dobro do recurso extra necessário para o programa social, pois inclui benesses como as emendas do relator; e não há medidas compensatórias de contenção de gastos. De quebra, eleva-se o risco inflacionário e prejudica-se o mercado de trabalho, ambos penalizando os mais vulneráveis.

A ironia é que foi o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), que agora patrocina o furo do teto, quem deu andamento ao projeto de autonomia do BC. Aprovada a matéria, celebrou: “Um sinal claro de que o Brasil está avançando em sua governança e previsibilidade”. 

Ao final, palavras vazias, pois os gastos em excesso ferem, na prática, a independência do BC, pois reduzem sua capacidade de combater a inflação, e a almejada previsibilidade se esvai. Sabe-se lá qual será a taxa de inflação no ano que vem e em um eventual segundo mandato de Bolsonaro. O precedente aberto na PEC Emergencial se materializa agora. O que mais virá adiante?

Alguns criticam a regra do teto por não sobreviver a pressões políticas.Essa crítica não procede. Mesmo regras boas sucumbem diante de governantes irresponsáveis. Não há blindagem perfeita. A julgar pelo andar da carruagem, não se compromete apenas o teto, mas também a eficácia e a credibilidade do regime de metas. A reação do BC precisa ser enérgica para evitar o pior.

Insistimos em repetir erros do passado. Com a palavra, os órgãos de controle.


Mais uma vez esse papo sobre privatização da Petrobras?

 Alexander Busch

Deutsche Welle

Bolsonaro fala em privatizar a Petrobras. Mas como privatizá-la no fim de um governo fraco? Quem terá interesse numa empresa na qual Brasília tem a palavra final nas decisões estratégicas, questiona Alexander Busch

    

 Jair Bolsonaro e Paulo Guedes durante coletiva de imprensa em Brasília

Às vezes me pergunto se o presidente Jair Bolsonaro e seu ministro da Economia, Paulo Guedes, acreditam nos anúncios que fazem em relação à economia.

O presidente chegou a anunciar nesta segunda-feira (25/10) que considera privatizar a Petrobras nos últimos meses de seu governo. "Isso entrou no nosso radar", disse Bolsonaro em entrevista para uma rádio. Era óbvio que o presidente queria acalmar a economia após a turbulência da semana anterior.

Havia sido uma semana negativa para o presidente: ele foi acusado de inúmeros crimes no relatório final da CPI da Pandemia, no Senado. Depois, Guedes declarou que o governo considera furar o teto de gastos para viabilizar o novo programa social do governo, o Auxílio Brasil.

Os investidores reagiram em pânico ao pacote duplo de más notícias: o mercado financeiro reagiu mal, e a bolsa acumulou queda de 7,28% na semana. A inflação provavelmente permanecerá na casa dos dois dígitos por um longo tempo, e parece que a economia brasileira pode não apenas estagnar no próximo ano, mas também entrar em recessão.

O presidente foi rápido em apontar que havia sido eleito "presidente reformista" pelo empresariado, na esperança de que o máximo possível de reformas e privatizações ocorresse em seu governo. Para dizer com cautela, as esperanças foram frustradas: Bolsonaro permaneceu leal ao Estado forte e aos interesses a ele associados, como em seus sete mandatos parlamentares anteriores. Nenhum sinal de um presidente reformista.

Mas mesmo Guedes – que assumiu o cargo de superministro neoliberal, vê o Chile da época de Pinochet como modelo e prometeu uma reviravolta após meio século de política de esquerda – se parece cada vez mais com seu antecessor Guido Mantega, que foi ridicularizado pelos empresários e que, sob Dilma Rousseff, era puramente um destinatário de ordens da presidente e sem qualquer margem de manobra própria.

O que Guedes então faz? Ele está feliz com a ótima sugestão de seu chefe de pensar na privatização da Petrobras e destaca que as ações da estatal subiram 6% após o presidente Jair Bolsonaro dizer que iria estudar meios de privatizá-la. "Em mais duas ou três semanas, são 15 bilhões de reais criados. Isso não existia, não é tirar do povo. É uma riqueza que estava destruída: bastou o presidente dizer que ia estudar [a privatização] que o negócio saiu subindo", frisou o ministro na segunda-feira (25/10).

Desejava-se que ele estivesse permanecido em silêncio. Afinal, como uma estatal como a Petrobras – que é fundamental para a economia, a política e a sociedade brasileira – pode ser privatizada nos últimos meses de governo de um presidente fraco? Essa é uma tarefa monstruosamente difícil, que o governo não conseguiu realizar nem com os Correios nem com a Eletrobras.

Além do mais, qual investidor estaria interessado em uma empresa petrolífera na qual o governo não apenas deseja determinar o presidente, mas também quer ter a palavra final em todas as decisões estratégicas através da chamada "golden share"?

Que fantasia Bolsonaro e Guedes queriam apresentar aos brasileiros é demonstrado pela reação seca da Petrobras: num comunicado, a empresa informou ao mercado que questionou formalmente o governo federal sobre a existência ou não de estudos para a privatização da empresa.

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Há mais de 25 anos, o jornalista Alexander Busch é correspondente de América do Sul do grupo editorial Handelsblatt (que publica o semanário Wirtschaftswoche e o diário Handelsblatt) e do jornal Neue Zürcher Zeitung. Nascido em 1963, cresceu na Venezuela e estudou economia e política em Colônia e em Buenos Aires. Busch vive e trabalha em São Paulo e Salvador. É autor de vários livros sobre o Brasil. Clique aqui para ler suas colunas.

O texto reflete a opinião do autor, não necessariamente a da DW.


É do populismo despudorado o papel de protagonista do governo Bolsonaro

 Ana Carla Abrão*, 

O Estado de S.Paulo

Ao rasgar a fantasia da responsabilidade fiscal, o governo escancara tudo aquilo que nunca foi e, mais ainda, o que é

  Foto: Sergio Lima/AFP - 25/10/2021

Ministério da Economia iria corrigir décadas de erros de política econômica.

 Ledo engano daqueles que acreditaram. 

O Bolsonarismo triunfou por uma combinação de ojeriza ao PT e seus vergonhosos casos de corrupção com a crença de que uma agenda liberal e reformista seria encabeçada por um presidente que se dizia a antítese do sistema. Esta última parte, além de incompatível com a trajetória retrógrada e corporativista do longevo deputado Jair Bolsonaro, vinha fantasiada de um discurso de humilde ignorância em Economia.

Inflou-se – no tamanho e no ego – um vistoso Ministério da Economia que levaria a cabo reformas e corrigiria décadas de erros de política econômica. Faríamos jus, finalmente, ao papel que a história nos reservava. Respeito à responsabilidade fiscal, privatizações de 1 trilhão, déficit público zerado, abertura comercial e choque de gestão. Além do fim da corrupção e dos conchavos políticos obscuros. Seria a redenção de um País que vivia havia gerações de joelhos. Seria a pátria revivida. Ledo engano daqueles que acreditaram.

Três anos depois, privatizações não houve, déficit zerado tampouco, reformas viraram contrarreformas e a abertura comercial ficou esquecida. Destacam-se solitárias e positivamente a agenda de modernização do sistema financeiro pelo Banco Central e sua autonomia. Mas uma andorinha só não faz verão. Ainda mais agora, sobrevoando sob chuva um mar repleto de tubarões.

Ao rasgar a fantasia da responsabilidade fiscal neste seu penúltimo novembro, o governo escancara tudo aquilo que nunca foi e, mais ainda, o que é. Alternando obsessão por um imposto de transações financeiras, reformas mal ajambradas e ideias esdrúxulas para driblar o teto de gastos, um Executivo federal cada vez mais sequestrado pelo Legislativo jogou nesse mar de tubarões a última das âncoras fiscais e com ela muito do que conquistamos com árduos e descontínuos avanços.

Agora é do populismo despudorado o papel de protagonista. Não há teto de gastos, planejamento ou orçamento. Os 90 bilhões de gastos adicionais visam à eleição de 2022, não à acomodação de gastos sociais. É desonesto dizer diferente. Assim como é desonesto afirmar que a reforma administrativa que aí está nos devolverá algum recurso. São as emendas de relator (e seus desvios), o fundo eleitoral (prevenindo a renovação política), os subsídios fiscais (sem avaliação de impacto) e várias outras benesses privadas distribuídas no varejo dos interesses individuais as motivações para o fim do teto. O governo não governa, o parlamento distribui para si o orçamento e o povo padece. Essa é a verdade neste País sem rumo.   


*ECONOMISTA E SÓCIA DA CONSULTORIA OLIVER WYMAN. 

O ARTIGO REFLETE EXCLUSIVAMENTE A OPINIÃO DA COLUNISTA


Um dia com três bombas contra Bolsonaro

 Matheus Leitão 

Veja online

O capitão acuado pelo judiciário, legislativo e o ‘Vale do Silício’, isso sem falar na economia

  Alan Santos/PR

HORIZONTE - Jair Bolsonaro 

O presidente Jair Bolsonaro sofre nesta terça-feira, 26, uma das situações mais difíceis do seu mandato. O capitão está suspenso de duas redes sociais, Youtube e Facebook, enquanto sofrerá praticamente dois julgamentos: um da CPI da Covid-19 e um no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Fato é que Bolsonaro ficará acuado o dia inteiro. Enquanto a CPI da Covid-19, por um lado, aprovará, em votação, o relatório no qual o presidente é acusado de vários crimes, incluindo este último de divulgação da fake news sobre vacina e o vírus HIV, Bolsonaro sofrerá também na esfera eleitoral.

Nesta terça-feira, 26, será a apresentado o relatório no TSE sobre os disparos em massa na campanha de 2018, em que o ministro Luis Felipe Salomão, corregedor da corte, deve dizer claramente que houve, sim, indícios de ilegalidades na campanha.

Ninguém espera, neste momento, que ele proponha a cassação da chapa, mas será um bombardeio de críticas a Bolsonaro e ao comportamento de seu staff na campanha de 2018 – um marco pensando no ano que vem.

Isso, fora a questão da vergonha de um presidente da República estar suspenso de redes sociais por divulgar essa última notícia falsa sobre a vacina. Já há um movimento para que Bolsonaro seja banido para sempre do Facebook e do Youtube. Não é impossível. Há precedente, como aconteceu com o presidente Donald Trump, no exercício do mandato.

O dia difícil de Bolsonaro – seja no judiciário, no legislativo e até com essas empresas privadas do vale do silício  – ainda incluiu o pedido do ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), para que a Procurador-Geral da República se pronuncie sobre a última fake news vergonhosa do presidente. É um dia que Bolsonaro tentará esquecer.

PS – Esse texto não acabou, leitores: a prévia da inflação ficou em 1,20% em outubro, o pior desde 1995, e atinge 10,34% em 12 meses. A informação foi divulgada há pouco. Mais uma notícia ruim para governo.



Às vezes simplificar as coisas ajuda a entendê-las melhor

 Philipp Lichterbeck

Deutsche Welle

Era uma vez um vilarejo atingido por uma doença. Os sábios sabiam o que fazer para frear o vírus. A maioria do vilarejo seguiu as orientações. Só o prefeito e seus seguidores trabalharam contra.

"O prefeito não tem noção de ciência, mas diz que é 

melhor ignorar o vírus e continuar agindo como antes"

Às vezes imagino que vivemos num vilarejo com cerca de 500 habitantes. Um dia, chega a esse vilarejo uma nova doença viral, contra a qual não há medicamentos. O vírus ainda não foi estudado e se espalha pela localidade. Algumas pessoas ficam tão gravemente doentes que o pequeno hospital do vilarejo logo fica lotado, e cada vez mais pessoas morrem. Outros também adoecem, mas apresentam apenas sintomas leves. Somente com o tempo se percebe que eles também podem sofrer consequências de longo prazo.

Logo fica claro que existem métodos para desacelerar a disseminação do vírus. Assim, é possível ganhar tempo para desenvolver uma vacina. Quando as pessoas usam máscaras e mantêm distância umas das outras, o vírus tem menos chance de se espalhar, afirmam os sábios no vilarejo. Algo que para a maioria dos moradores faz sentido, e eles se atêm a isso.

Por algum motivo, somente o prefeito e seus apoiadores não estão satisfeitos. Embora não sejam a maioria no vilarejo, eles são capazes de fazer muito barulho e gostam de ser arruaceiros.

Eles reclamam que as novas regras restringem sua liberdade, e que o vilarejo caminharia para uma ditadura se todos usassem máscaras e mantivessem distância. Na visão dos sábios as medidas têm mais a ver com bom senso do que com ditadura, mas o prefeito e seus apoiadores desconfiam naturalmente da sabedoria e do bom senso.

Embora nada saiba sobre epidemiologia (é mais um especialista em armas de fogo, insultos e anticomunismo), sugere que seria melhor para todos ignorar o vírus e continuar como antes. E quanto aos mortos, não seria algo tão ruim, afinal, todos terão de morrer um dia. Isso faz sentido para seus apoiadores, pois, como em todos os lugares no mundo, também no nosso vilarejo há pessoas inteligentes e menos inteligentes. E em detrimento do mundo e também do vilarejo, vale a regra de que os inteligentes costumam ser os quietos, e os burros, os barulhentos.

Assim, o prefeito consegue dividir o vilarejo. Os moradores brigam cada vez mais entre si sobre o que se deve fazer, enquanto a doença se espalha e causa cada vez mais mortes. Mas o prefeito não gosta de falar sobre os mortos, em vez disso, ele reage com irritação ou faz piadas de mau gosto.

De repente, ele ouve falar que o prefeito do grande vilarejo vizinho supostamente tem uma cura milagrosa contra a doença. Todos os pesquisadores o contradizem, mas isso não importa ao nosso prefeito. Ele admira seu colega mais poderoso, que lhe mostrou como se vence uma eleição com mentiras e insultos. Ambos sabem como despertar os piores instintos nas pessoas, o que funciona brilhantemente com seus apoiadores. Também mentem, alegam tolices o dia todo e intimidam os outros moradores do vilarejo.

O vírus não parece se impressionar com tudo isso e continua a se espalhar. Cada vez mais pessoas vão parar no hospital, e o cemitério do vilarejo vai se enchendo.

Em algum momento, depois de vários meses de agonia, pesquisadores finalmente desenvolveram uma vacina contra o vírus. Mas o prefeito mais uma vez não está convencido e afirma que a vacina é perigosa. Por que ele faz isso, não está totalmente claro. Pode ser que tenha a ver com o fato de que, durante toda a sua vida, o prefeito tenha gostado do papel de sabotador o progresso. Outra razão pode ser que ele navega muito na internet e acredita em tudo o que vê ali.

E assim o prefeito simplesmente não compra vacina nenhuma para o vilarejo, apesar de receber ofertas. É realmente muito confuso. Pois, no começo, o prefeito tinha afirmado que o vilarejo não poderia parar. Mas agora que existe um meio para fazer as coisas andarem de novo, ele também não o quer e prolonga a paralisação e o sofrimento.

Felizmente, outras lideranças do vilarejo não entram mais nesse jogo e adquirem vacinas. A grande maioria dos moradores compreendeu que o imunizante é a melhor proteção contra o vírus e vai se vacinar. Cada vez menos pessoas ficam doentes, cada vez menos pessoas morrem.

Mas, como um pequeno menino chorão, o prefeito não está satisfeito. Ele continua a insistir que sua cura milagrosa é muito melhor do que a vacina. E inventa histórias fantasiosas de doenças que as pessoas contrairiam se fossem vacinadas. Mais uma vez não está bem claro por que ele faz isso, mas já não importa.

O que está claro é que o prefeito dividiu o vilarejo; que pessoas adoeceram e morreram devido à sabotagem dele; que ele só diz a verdade quando se cala; que ele pensa somente nele mesmo e não está nem aí para outras pessoas; que ele não está interessado em soluções, mas em conflitos.

Em última análise, o maior problema do vilarejo não era o vírus. O maior problema era e é o seu prefeito. O que se deve fazer com ele?

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Philipp Lichterbeck queria abrir um novo capítulo em sua vida quando se mudou de Berlim para o Rio, em 2012. Desde então, colabora com reportagens sobre o Brasil e demais países da América Latina para jornais da Alemanha,Suíça e Áustria. Ele viaja frequentemente entre Alemanha, Brasil e outros países do continente americano. Siga-o no Twitter em @Lichterbeck_Rio.

O texto reflete a opinião do autor, não necessariamente a da DW.


Privatização da Petrobras é 'sonho distante' e 'cortina de fumaça', avaliam bancos

 Beth Moreira, 

O Estado de S.Paulo

Venda da estatal tem sido tema de comentários de Jair Bolsonaro e Paulo Guedes após recentes reajustes nos combustíveis

  Foto: Sergio Moraes/ Reuters 

Na segunda-feira, 25, as ações da empresa subiram 7% depois que a imprensa nacional noticiou que o governo brasileiro estava considerando vender ações suficientes para abrir mão de seu controle acionário 

A privatização da Petrobras, tema que tem sido citado pelo presidente Jair Bolsonaro e pelo ministro Paulo Guedes, seria inviável em ano eleitoral, avaliam bancos, para quem a venda da estatal é um "sonho distante" e uma "cortina de fumaça". 

Para o BTG Pactual, esse não é o tipo de luta que se espera durante um ano eleitoral. "Os aspectos legais para tornar isso possível são árduos. Em nosso entendimento, a venda do controle da estatal poderia ser possível com um projeto de lei (exigindo apenas maioria simples) alterando a lei 9.478/97, que estipula que o governo federal deve possuir pelo menos 50% (+1) das ações da empresa", comenta. 

Em relatório, os analistas Pedro Soares, Thiago Duarte e Daniel Guardiola lembram que a Constituição do Brasil define que certas atividades, incluindo algumas exercidas pela Petrobras, são de competência apenas do estado, o que significa que uma privatização também pode exigir emendas à constituição e, portanto, dois terços de apoio do Congresso. "De qualquer forma, o capital político necessário para tornar isso possível seria enorme e, antes de um ano eleitoral, não esperamos que os políticos arrisquem sua popularidade em um tópico controverso", avaliam. Para o banco, a venda da estatal é um sonho distante neste momento.

Na segunda-feira, 25, as ações da empresa subiram 7% depois que a imprensa nacional noticiou que o governo brasileiro estava considerando vender ações suficientes para abrir mão de seu controle acionário. Nesta terça-feira, 26, as ações ON da companhia tinham queda de 0,14% às 13h. Segundo o BTG, embora nenhuma proposta tenha sido enviada ao Congresso, a ideia ainda preservaria certos poderes de veto ao governo. Os rumores vieram a público depois que a Petrobras anunciou aumento de 9,2% para o diesel e de 7 para a gasolina.  

"Não vemos isso como mera coincidência e acreditamos que o governo pode estar mais uma vez tentando convencer a sociedade de que o ônus da fixação dos preços dos combustíveis não deve estar sujeito à vontade, mas sim estabelecido sob uma dinâmica de preços de mercado e que uma Petrobras privatizada seria do melhor interesse do País. Embora isso seja obviamente positivo para as minorias, nossa sensação é que qualquer aposta na privatização da estatal nos próximos 12 meses deve ser feita com uma grande dose de ceticismo", afirmam os economistas.

Em última análise, avalia o banco, privatizar as refinarias do Brasil poderia ser suficiente, contribuindo fortemente para reduzir o risco do caso de investimento da Petrobras e desencadear uma potencial reclassificação sem o barulho criado pela privatização de toda a empresa. "O problema é que o desinvestimento das refinarias é atualmente um dilema do 'ovo e da galinha', no qual os compradores esperam por mais clareza devido aos riscos de interferência política, e os riscos de interferência política não são reduzidos até que uma parte relevante do parque de refinarias do Brasil seja vendida", afirma a equipe do BTG.

O banco reiterou recomendação neutra para os papéis da estatal e uma abordagem cautelosa em relação à privatização. "Embora não descartemos uma potencial venda de ações preferenciais do BNDES (com pouco ou nenhum impacto sobre o cenário de controle da empresa) devido à diminuição das resistências legais/regulatórias, pensamos que a principal fonte de vantagens de curto prazo é altamente dependente na distribuição de dividendos da empresa", afirmam.

Rumores sobre uma possível privatização a Petrobras são uma cortina de fumaça e uma realidade inviável, segundo avaliação da Genial Investimentos. Para a instituição, o formato provável deveria ser similar ao projeto da Eletrobras, com venda de ações ordinária, diluição via capitalização e, eventualmente, o estabelecimento de uma golden share (ação preferencial que garante à União o poder de veto em questões estratégicas).

"Não bastando o simbolismo da empresa, toda a modelagem para sua privatização tomaria muito mais de um ano - podemos pegar como exemplo o tempo que a privatização de Eletrobras e Correios estão tomando", destaca a Genial em comentário a clientes. Além disso, acrescenta, 2022 será um ano eleitoral, fazendo com que a agenda para um projeto dessa magnitude fique inviável.

Para a Ajax Capital, não há espaço para uma possível privatização da Petrobras no atual cenário macro e político do Brasil. "Hoje não vemos nem tempo nesse cronograma, nem espaço, nem disposição da classe política para uma privatização da Petrobras nesse curto prazo", avalia o sócio da Ajax, Rafael Passos, destacando que a agenda de reformas está estagnada.

"Não vemos clima político para avanço da agenda de privatização. Ainda mais em ano pré-eleitoral", diz. Para o profissional, embora positiva, é muito difícil acontecer no curto prazo. "O governo vai se ocupar com a PEC dos precatórios e ajustes na renda social para entregar o Orçamento do ano que vem", acredita.

Em avaliação preliminar, o Credit Suisse diz que um cenário com a Petrobras privatizada seria positivo para a estatal. "No entanto, o formato citado nas notícias com o governo mantendo a indicação do CEO e o poder de veto não é bom para os acionistas minoritários", avalia o banco. 


Dinheiro na mão é vendaval.

 Carlos Brickmann

 


Pagar R$ 400 reais por mês para famílias que correm o risco de morrer de fome é dificílimo, fura o teto de gastos, arrebenta o Orçamento federal. E, se houver aumento no auxílio, não haverá como honrá-lo.

Mas o ministro da Educação, Milton Ribeiro, quer dividir instituições de ensino superior já existentes para criar cinco universidades e cinco institutos técnicos. Não será criada nenhuma vaga para estudantes. Em compensação, serão criadas vagas para 2.912 novos funcionários, com gastos novos (pedido do Centrão): de acordo com o Ministério da Economia, R$ 500 milhões por ano. O Ministério da Educação diz que o custo será de R$ 147 milhões – só isso, e o ministro acha que não é muito. Muito é o auxílio de R$ 400 mensais.

Falta dinheiro para R$ 400 mensais. Mas para aluguel de prédios de luxo, que ficam em boa parte desocupados, o Governo tem. A AGU, Advocacia Geral da União, paga R$ 1,5 milhão de aluguel mensal, revela o colunista Cláudio Humberto – e acrescenta que boa parte do prédio está desocupada há pelo menos dois anos. Pelos cálculos de um advogado da União, citado pelo colunista, só o aluguel pago pelos espaços vazios da AGU cobriria o valor extra do auxílio para um milhão de pessoas. A Procuradoria Geral da Fazenda Nacional faz parte da AGU, mas ocupa outro prédio, também vazio em boa parte.

Cláudio Humberto completa: mais de 20 prédios locados ao Governo Federal têm uso inferior a 20%. Não há orçamento que aguente.

A fonte dos recursos

Pegue sua conta de luz. Este colunista pegou a conta de uma pessoa que mora sozinha. O custo está discriminado direitinho: valor total, R$ 203,57. De eletricidade, mesmo, a conta é de R$ 49,97. Impostos diretos e encargos, R$ 60,54 – você paga mais de imposto do que de energia. É daí que sai todo o dinheiro para as mordomias e luxos brasilienses.

Mas não é só isso que sai de seu bolso: serviço de distribuição, quase tanto quanto de luz: R$ 47,70. E serviço de transmissão, R$ 8,53. Algum especialista certamente saberá dizer qual a diferença entre distribuição e transmissão. Encargos setoriais, seja lá isso o que for, R$ 8,88. Perda de energia no caminho até sua casa, você paga: R$ 11,56. Há R$ 2,45 de bandeira amarela, R$ 6,03 de bandeira vermelha, mais R$ 15,89 de iluminação pública.

Como o caro leitor usa também a luz das ruas, vamos fazer a soma: R$ 49,97 mais R$ 15,89, total R$ 65,86. Mesmo assim, só o imposto quase duplica a conta. E, no final, são R$ 203,57.

Mas há despesas

Afinal de contas, é preciso pagar despesas inadiáveis, como as novíssimas universidades que só terão custos, mas não terão vaga para nenhum estudante. E para pagar coisas como a farra aérea do dia 21 de agosto. Damares Alves, ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, requisitou avião da FAB para viajar de Brasília a São Paulo com Michelle Bolsonaro, para assistir a um evento do programa Pátria Voluntária, coordenado pela primeira-dama.

Decreto do Governo Federal determina que a comitiva que acompanha a autoridade no avião deverá ser ligada à agenda a ser cumprida. Mas, apesar do decreto, o avião cujas despesas o caro leitor paga transportou sete parentes da primeira-dama, mais a esposa do ministro do Turismo, Sarita Pessoa, de carona. À noite, Damares e Michelle participaram da festa de aniversário do maquiador Agustín Fernandez. Na volta, Agustín Fernandez também pegou carona no voo, ao lado da filha mais velha, de três irmãos, de uma cunhada e de dois sobrinhos de Michelle, e de Sarita Pessoa.

Exemplo não seguido

Num país evidentemente muito mais pobre que o Brasil, a Alemanha, a primeira-ministra Angela Merkel passou as férias na Croácia, com o marido. Ela, por questão de segurança, viajou no avião oficial; o marido foi em voo comercial, ida e volta. E explicou: se viajasse no avião oficial, teria de pagar tarifa cheia de primeira classe, sem desconto. Preferiu economizar: voou em linha comercial, ida e volta, classe turística. Aliás, em recente entrevista, Angela Merkel disse que, nos 16 anos de poder, continuou morando em seu apartamento, sem empregada. Deixa o Governo sem precisar fazer mudança.

Pedra no caminho

Segunda-feira que vem é dia 1º, quando os caminhoneiros, tanto patrões como empregados, ameaçam entrar em greve. Wallace “Chorão” Landim, um dos líderes da paralisação de 2018, presidente da Associação Brasileira de Condutores de Veículos Automotores (Abrava), diz que não haverá recuo, a menos que o próprio Bolsonaro anuncie a mudança na política de preços de combustíveis da Petrobras. E não quer nem conversa com Tarcísio Gomes de Freitas, ministro da Infraestrutura, a quem acusa de ter feito promessas em nome do Governo sem jamais cumpri-las.

Ou Bolsonaro ou ninguém.

Mas...

Anteontem, a Petrobras anunciou nova alta na gasolina (7%) e diesel (9,1%). Com isso, só neste ano a gasolina subiu 73%, e o diesel 65,3%.


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Freio na bicicleta de Bolsonaro

 Vera Magalhães

O Globo


 A oposição parece ter acordado para o fato de que estava ajudando a pavimentar uma estrada até então esburacada para a reeleição de Jair Bolsonaro, com a trégua em várias frentes concedida ao presidente justamente no pior momento de seu governo.

Primeiro, foi a carta redigida por Michel Temer quando Bolsonaro ensaiou uma ruptura institucional.

Em seguida, a oposição, PT à frente, rumava decidida para chancelar o Auxílio Brasil de R$ 400, incluído numa grande pedalada que também contempla calote nos precatórios e que pode ser uma catapulta a tirar Bolsonaro do fundo do poço da viabilidade eleitoral.

Some-se a isso a grande probabilidade de que o aliado Augusto Aras sente em cima de boa parte do relatório final da CPI da Covid, e tem-se um presidente, o pior da História democrática brasileira, de novo com viabilidade eleitoral.

Para não repetir o erro de cálculo da oposição a Lula em 2006, que decidiu não levar adiante o impeachment no auge do mensalão, achando que o petista seria cachorro morto nas urnas, a esquerda parece começar a acordar.

O difícil será calibrar o discurso para justificar como votar contra a PEC dos Precatórios, em que foram embutidos todos os jabutis eleitorais de Bolsonaro — devidamente referendados por Paulo Guedes, sempre bom lembrar.

Para os partidos de esquerda, defender o teto de gastos e a austeridade fiscal em detrimento de aumento do aporte a recursos sociais não é uma opção. Por isso a decisão será justificada pelo estelionato travestido de benesse social.

“Se fosse só dinheiro para o social, votaríamos a favor. Mas não podemos ser a favor de calote em precatórios, de aumentar orçamento secreto e fundão eleitoral, que é o que está na mesa”, me explicou o líder da minoria na Câmara, Alessandro Molon (PSB-RJ).

Na outra ala da oposição, estão os partidos de centro e centro-direita que fazem o discurso da terceira via, mas abrigam em seu seio parlamentares quinta-coluna que vira e mexe votam com o governo.

Como se portarão PSDB, PSD, União Brasil, MDB e outros diante da ideia de rasgar o tão defendido teto de gastos? Nesse caso, a justificativa é diferente de PT e demais siglas de esquerda, mas também não podem ser favoráveis à PEC dos Precatórios, a maior pedalada fiscal já tentada.

Caso todos esses partidos, ainda que por caminhos opostos e razões diversas, percebam a urgência de frear a bicicleta eleitoreira de Bolsonaro, só o Centrão de Arthur Lira terá dificuldade de aprovar uma emenda à Constituição. E a manobra pode fracassar já na Câmara, antes mesmo de o Senado — comandado pelo agora presidenciável assumido Rodrigo Pacheco — ser o anteparo.

Todo mundo com sensibilidade social sabe da necessidade de garantir transferência de renda a quem mais precisa, ainda mais depois de uma condução desastrosa da pandemia pelo governo Bolsonaro, que retardou as vacinas e agravou as consequências sanitárias e econômicas da crise.

Usar isso como subterfúgio para resgatar do merecido limbo justamente o perpetrador dessa tragédia, que ainda hoje, com 605 mil mortos nas costas, segue proferindo declarações criminosas e mentirosas sobre vacinas e colocando em risco a vida das pessoas que deveria governar, é um daqueles planos diabólicos de cinismo político que de tempos em tempos mesmo as instituições e a oposição deixam ser levados adiante.

A CPI da Covid pode não resultar, de pronto, na justa e merecida condenação criminal de Bolsonaro e de seus asseclas pelos inúmeros e comprovados crimes cometidos em um ano e sete meses de horror. Mas foi fundamental para desnudar esses crimes perante o país.

Que se aproveite um momento de cochilo geral para dar justamente a esse presidente uma segunda chance é um daqueles vacilos que podem custar caro demais ao Brasil.


Petrobras: privatização é sonho que esbarra em leis e regras

 Graziella Valenti

Exame,com

Lei do petróleo e extensa regulamentação tornam Petrobras a mais desafiadora de todas as privatizações

 (Sergio Moraes/File Phot/Reuters)

Sede da Petrobras, no Rio de Janeiro: 

pesquisas e achados devem ser levados à ANP 

Privatizar a Petrobras não é privatizar a Eletrobras, nem os Correios. É muito mais complexo e desafiador. O controle majoritário da União, isso é a posse de 50% do capital votante mais uma ação, pelo menos, é obrigação prevista em lei. Artigo 62 da Lei 9.478, de 1997, e parágrafo um do artigo 1º do estatuto social da petroleira.

Ocorre que essa é a mesma lei que define as diretrizes do monopólio da União sobre as reservas do país, sobre o regime de partilha que rege a exploração de todos os campos da estatal que não os do pré-sal (sob modelo de cessão onerosa) e a divisão dos royalties entre os governos federais e estaduais. Deu para entender o tamanho do vespeiro, em qual cumbuca o governo teria de colocar a mão? E lembrando: em ano de eleição.

O lema de 1948 "o petróleo é nosso" parece seguir mais vivo que nunca.

Portanto, essa lei e toda regulamentação atrelada, a mesma que cria a Agência Nacional do Petróleo (ANP), inclusive, precisaria ser revisitada se o presidente Jair Bolsonaro quisesse mesmo vender a estatal ao capital privado. A intenção oficialmente declarada não animou nenhum grande participantes do tal mercado — nem banqueiros, nem grandes gestores de carteira.

A energia pode ser produção, transmissão e distribuição; a entrega de correspondência é um serviço, mas o petróleo, um ativo. Já foi o ouro negro. Hoje, com valor cada vez mais em xeque diante da ascensão das preocupações com o futuro climático do planeta. Contudo, ainda parte relevante da matriz energética do mundo

Nada disso é novidade para ninguém. Mas, mesmo assim, pelo menos por hoje, as informações de que o governo considera colocar em marcha um processo nessa direção serviu muito bem para alguns movimentarem o dinheiro para lá e para cá.

As ações da estatal, ordinárias e preferenciais, subiram mais de 6%. Esse desempenho ajudou — e bastante — a fazer o Índice Bovespa terminar o dia com alta em torno de 2%, após toda a confusão da semana passada e em um dia em que começam as surgir as primeiras projeções de queda do PIB para 2022. Afinal, somadas as ações da Petrobras tem uma participação de quase 11% no Ibovespa.

Para seguir na conversa sobre os desafios, não custa lembrar que a petroleira é avaliada em mais de R$ 350 bilhões na B3. Aqui, tamanho é documento quando o que está sendo dito aos investidores é que seria uma operação de mercado, uma mistura de modelo Eletrobras com a antiga BR Distribuidora (hoje Vibra Energia).

A Eletrobras, por exemplo, vale menos de R$ 60 bilhões e a Vibra, está avaliada em R$ 25 bilhões. A bolsa brasileira movimenta, por dia, em sua totalidade cerca de R$ 34 bilhões a cada pregão, em dias normais — ou 10% do valor da Petrobras. E esse é só o começo.



O aviso do xerife de 2022

 Elio Gaspari

O Globo

Moraes sabe como funcionam as milícias e quem as financia e como rola o dinheiro

Um ano antes do pleito de 2022, o Tribunal Superior Eleitoral escreveu uma boa página de sua história. Livrou a chapa de Jair Bolsonaro da cassação e avisou aos interessados que se repetirem o golpe das notícias falsas e das milícias eletrônicas, pagarão pelos seus delitos. Nas palavras do ministro Alexandre de Moraes, que presidirá a Corte em 2022: “Irão para a cadeia”.

A decisão unânime do TSE acompanhou o voto de 51 páginas do corregedor Luiz Felipe Salomão. No ambiente envenenado da política nacional, Salomão apresentou uma peça redonda e cirúrgica na demonstração das malfeitorias cometidas e equilibrada na conclusão de que faltaram provas e as impressões digitais necessárias para justificar a cassação de uma chapa três anos depois de sua posse. O magistrado mostrou a letalidade do vírus e abriu o caminho para a advertência de Moraes.

Passados três anos do festival de patranhas de 2018, Alexandre de Moraes chegará à presidência do TSE em agosto, com a estrela de xerife no peito. Salomão fez sua carreira na magistratura; Moraes, no Ministério Público, com uma passagem pela Secretaria de Segurança de São Paulo. Além disso, na condução do inquérito das notícias falsas conhece as obras e pompas das milícias eletrônicas e mostrou-se rápido no gatilho ao mandar delinquentes para a cadeia. Zé Trovão, o caminhoneiro foragido, decidiu entregar-se à Polícia Federal. Na estrela de xerife de Moraes brilha o destempero com que Jair Bolsonaro investiu contra ele, chamando-o de “canalha”.

Moraes sabe como funcionam as milícias e quem as financia e como rola o dinheiro. Salomão, por seu turno, já firmou a jurisprudência que congela os recursos que as alimentam. As conexões internacionais dessas milícias, um fato que há três anos estavam no campo da ficção cibernética, hoje estão mapeadas. Se há um ano elas tinham o beneplácito do governo americano, hoje têm o FBI no seu encalço,

Com Moraes na presidência do TSE é possível prever que entre o início dos disparos propagadores de mentiras e a chegada dos responsáveis à carceragem passarão apenas dias ou, no máximo, poucas semanas. Basta ler o voto de Salomão e acompanhar as decisões de Moraes para se perceber que os reis das patranhas de 2018 são hoje sócios de colônias de nudismo. 

Esteves errou a conta

O banqueiro André Esteves lida com números. Noves fora outras impropriedades cometidas em sua fala aos clientes do BTG, ele disse que “no dia 31 de março de 1964 não teve nenhum tiro, ninguém foi preso, as crianças foram para escola, o mercado funcionou.”

O dia 31 de março, quando o general Olímpio Mourão Filho se rebelou em Juiz de Fora, foi relativamente normal, com umas poucas prisões. Como disse o marechal Cordeiro de Farias, “o Exército dormiu janguista”. Cordeiro, um revoltoso desde 1924, foi um patriarca das conspirações do século passado e sabia o que aconteceu naquelas horas. No dia seguinte, acrescentou o marechal, o Exército “acordou revolucionário”. Foram presas centenas de pessoas, entre as quais o governador Miguel Arraes, de Pernambuco, mandado para Fernando de Noronha. Estádios e navios foram usados como cadeias.

Mais: no dia 1º de abril morreram sete pessoas.

Para os padrões, foi um golpe incruento mas, como lembrou a Central Intelligence Agency ao presidente Lyndon Johnson na manhã de 7 de abril: “Cresce o medo, não só no Congresso, mas mesmo entre aliados da revolta, que a revolução tenha gerado um monstro.”

Não deu outra.

Ministros e meteoros

Em março de 2020, diante do estrago provocado pela pandemia, o ministro Paulo Guedes disse que “nós fomos atingidos por um meteoro”. Passou-se um ano e ele viu novamente um meteoro na conta de R$ 90 bilhões dos precatórios devidos pela União. 

A pandemia podia ser comparada a um meteoro, por natural e imprevisível. Já o espeto dos precatórios nada tem de natural e estava lá há anos. Mesmo assim, persistiu na teoria dos meteoros.

O último grande meteoro que atingiu o Brasil foi o Bendegó, achado no século XVIII. Tem cinco toneladas e não fez grandes estragos.

De lá para cá, o Brasil teve mais de cem ministros da Fazenda.

Alguns deles fizeram estragos maiores que os objetos caídos do céu.

Chamem o André

Durante seu piti ao responder às perguntas de André Marinho numa entrevista, Jair Bolsonaro repetiu seis vezes que “se o Marinho entrar mais uma vez na tela eu vou embora”. Como ele voltou, o capitão levantou-se e abandonou a cena.

Não se pode saber o melhor caminho para que Bolsonaro se vá, mas ele mostrou que se chamarem o André Marinho ele vai.

O verdadeiro fantasma

Gustavo Bebianno pode ter virado um fantasma assombrando Jair Bolsonaro, mas a verdadeira assombração que ronda o capitão está viva e atenta. É o general da reserva Carlos Alberto dos Santos Cruz, defenestrado da Secretaria de Governo nos primeiros meses do governo.

Santos Cruz fala pouco. Tornou-se um atento ouvinte de quase todos os generais da ativa que, tendo cometido a imprudência de se juntar ao capitão, viram-se tratados como cabos. 

Impunidade patriótica

Outro dia o ministro Tarcísio de Freitas, da Infraestrutura, tratou da famosa greve dos caminhoneiros de 2018 e disse o seguinte:

“A paralisação foi financiada por empresas de transporte, com o apoio do agronegócio”.

Até as pedras sabiam disso, mas o presidente Michel Temer e seu ministro da Defesa, Raul Jungmann, rosnaram e nenhum empresário pagou pelo que fez.

Quando o movimento já durava uma semana, com resultados catastróficos para a economia do país, o deputado Jair Bolsonaro, candidato a presidente disse o seguinte:

“Qualquer multa, confisco ou prisão imposta aos caminhoneiros por Temer ou Jungmann será revogada por um futuro presidente honesto e patriota.”

O atalho do Centrão

Quando o Centrão se mostra disposto a patrocinar uma emenda constitucional que dá cadeiras vitalícias (com imunidade) aos ex-presidentes, está pavimentando o caminho do seu desembarque.

O capitão iria para o Senado e o Centrão apoiaria o novo governo, seja qual for, como aconteceu em relação a todos os seus antecessores.

Pontes não é burro

O ministro Marcos Pontes, da Tecnologia, levou na esportiva o fato de seu colega Paulo Guedes tê-lo chamado de “burro”.

Ex-aluno do Instituto Tecnológico da Aeronáutica e coronel da reserva da FAB, é provável que burro ele não seja. 

Em abril do ano passado o doutor anunciou a descoberta de dois remédios com 94% de eficácia contra o coronavírus:

— No máximo na metade de maio, um momento crítico, nós teremos aqui uma solução de um tratamento.

Pontes não é burro, acha que os outros são.