domingo, setembro 23, 2012

Nem todo o aliado é patife


Adelson Elias Vasconcellos



Gente do PDT e do PMDB reagiram inconformados com a nota que Lula exigiu de seus “amigos”aliados. Os partidos até podem ser aliados, sim, mas nem todos os seus integrantes  são canalhas, e nem todos se alinham com a falta de caráter e de vergonha. Muitos seguem aliados, mas por interesse partidário ou por conveniência. Mas não são robóticos, sem vontade e amor próprios, não se curvam perante um deus com pés de barro e de lama. 

A tal ponto reagiram a tal nota patética e ridícula que Lula encomendou e ordenou, que o PDT chegou a emitir uma contranota como se desculpando pela canalhice inventada por Lula.

A reação há alguns meses de Eduardo Campos contra o mandonismo de Lula, impondo pelo seu partido um candidato à Prefeitura de Recife, contra a suprema vontade do chefão da máfia petista, que queria obrigá-lo a engolir o candidato lulista, demonstra que há uma resistência contra esta tirania de Lula de achar que é dono do Brasil, dono da vontade das pessoas e que todos devem à ele reverência. Uma ova. Há gente neste país que ainda não se dobra, que acha certo pensar diferente do que o chefe da quadrilha deseja impor a qualquer título, a qualquer preço, se considerando o rei do pedaço.

Antes mesmo de entregar o posto da presidência à Dilma previ que as pessoas iam se cansar de Lula e por uma razão principal: o cara não evolui, mantém as mesmas atitudes, trata a todos como vassalos, é grosseiro, vulgar, mesquinho. O ser humano até pode aceitar a servidão por algum tempo, mas nunca durante todo o tempo. Se Lula fosse menos preguiçoso e tivesse estudado um pouco de história ao menos, encontraria centenas de exemplos desta verdade. Este ser que deixa aprisionar, um dia desejará libertar-se, soltar-se das amarras, desvencilhar-se dos açoites e grilhões do senhor da senzala.

Claro que Lula ainda conta com imenso batalhão de robóticos que deliram diante dele, se curvam, beijam-lhe as mãos e os pés. São os baba-ovo que se vendem por qualquer migalha. Para estes, não existisse Lula, tratariam de entregar sua alma a qualquer diabo, desde que não lhes faltasse o maná miserável que os  alimenta.

Não, os seres humanos dignos, conscientes de si, esclarecidos pelos mais sagrados valores morais e virtudes éticas, estes resistem ao apelo fácil da subserviência.  Estes, nem que Lula se pintasse de dourado o corpo todo, e não só o cabelo e o bigode de pretos, ele conseguiria vencer-lhes e dobrá-los. Daí seu ódio, sua raiva, seu recalque, seu rancor doentio e tresloucado. É o destino dos neuróticos tiranos que se enchem de raiva contra esta resistência que não conseguem vencer.

Ninguém, já disse isto aqui e repito, ninguém quer destruir aquilo que se destrói sozinho.  Na presidência, Lula quis dar as costas ao PMDB e, juntamente com José Dirceu, procurou uma forma de ter maioria no Congresso. Daí nasceu o mensalão e justamente com os partidos menores. O fato, senhores, é que o STF que está julgando os mensaleiros, os está condenando não movidos por algum complô contra Lula e o PT, ou pressionado pela opinião pública, e sim calçados em perícias técnicas, em provas documentais, em testemunhos idôneos e com total credibilidade. Aonde Lula vê golpe, o que há é justiça.  E na justiça que Lula requer para si e companheiros, o que há é a busca pela eterna impunidade.  Lula já foi longe demais nesta palhaçada e o melhor que lhe poderia acontecer foi não ter sido arrolado para ocupar, também ele, ao lado dos companheiros, o banco dos réus. A sua tentativa torpe de melar a justiça, as leis e a democracia acabará servindo-lhe de sepultura.  

Disse Lula em na sua página do facebook: ““Há mais de 30 anos unindo pessoas por um Brasil melhor”. Mentira.Há 30 anos que Lula luta para dividir o Brasil: ricos contra pobres, brancos contra negros, nordeste contra o sul, heteros contra homoafetivos, patrões contra empregados, produtores rurais contra movimentos de sem terra, sindicatos contra governo. Foi assim que ele cresceu politicamente, dividindo, segmentando, fracionando, provocando uma profunda cisão no seio da sociedade, porque entendia que pobres, negros, nordestinos, sem terra, homoafetivos e sindicatos poderiam converter-se na sua massa de manobra para chantagear a sociedade, constrangê-la, acuá-la, sentir-se impotente em relação a si mesma. Não, definitivamente, Lula jamais ergueu a mão ou dirigiu uma única palavra no sentido de união. Eduardo Campos justificou-se na assinatura da tal nota patética em defesa de lixo, dizendo que precisava solidarizar-se “...a um grande líder, um grande brasileiro, com enorme serviço prestado à redemocratização do país”.

Líder sim, mas jamais prestador de serviço à redemocratização do país. Não sei que idade tinha o governador pernambucano em 1988, mas Lula ordenou que seu partido não assinasse a constituição, símbolo maior da nossa redemocratização. E quem de seu partido assinou, ele os expulsou. Proibiu que algum deles participasse do colégio eleitoral que elegeu Tancredo Neves, passo inicial da redemocratização. Volte no tempo, governador, e tente se informar melhor. Isto não é uma questão de opinião, mas fatos históricos que Lula jamais poderá negar. Está registrado e, de  tal modo, que não há  “comissão da verdade” que mude isto.

É bom Lula e os petistas rezarem para não aparecer alguém batendo com a língua nos dentes e externando fatos que o grande público ainda desconhece, sobre tudo que aconteceu no submundo da política petista. Será o fim do seu legado de crimes e atentados ao estado de direito. 

É bom que todos saibam: esta história não termina aqui. Pessoas como Lula não racionam  como o comum dos mortais. São cegos sobre si mesmos, sobre o seu pode tudo, se consideram infalíveis e invencíveis. Porém, assim como a semeadura é livre, a colheita, faça o que fizer, é sempre obrigatória.  Ela é inexorável, virá cedo ou tarde. Mas o certo é que virá. 

Lula, sabe todo o Brasil, esperneou o quanto pode para impedir que o mensalão fosse julgado antes das eleições municipais de outubro próximo. Não conseguiu e se desesperou por conta disso. Mas se parasse para refletir, pondo de lado seu ódio obsessivo e rancor truculento, veria que a coisa poderia ter sido muito pior, com enorme prejuízo para ele, para os companheiros que são réus e para o próprio partido.  O julgamento poderia acontecer em ano de eleição presidencial, e aí o PT correria o risco de perder a presidência e/ou a folgada maioria de que desfruta atualmente no Congresso. Agradeça a Deus, Lula, porque, até 2014,  muita gente terá esquecido o julgamento do Mensalão... 

Esquisito é o partido aliado a Sarney, Renan, Jader Barbalho, Maluff, Collor & Cia achar que tem moral para chamar os outros de “conservadores”. O PT é tão conservador que conservou as conquistas sociais e econômicas de Fernando Henrique... Só mudou o nome, mas as políticas são, rigorosamente,   as mesmas. 

A classe média de mentirinha –
Nesta semana ainda, voltaremos ao tema “nova classe média brasileira” para expor, novamente, e com números, a grande farsa armada pela Secretaria de Assuntos Estratégicos que, na falta do que fazer de útil, resolveu aplicar a maior mentira que esta república já conheceu em termos de estatística. Aliás, bem que a soberana, se tivesse um mínimo de compromisso com a verdade, poderia ter mandado sua turma refazer aqueles cálculos. Dizer que a pessoa que recebe R$ 291,00, isto é, menos da metade do já baixo salário mínimo do país, pertence a classe média, é vergonhoso, soberana!  

Gritos presidenciais não ocultam fracassos


Marco Antônio Villa 
Folha de S. Paulo 

A oposição viu em Dilma uma estadista que até romperia com Lula. Era fantasia. Lá está ela, demitindo ministro para ajeitar eleição, economia pífia ao fundo

O sonho acabou. Sonho ingênuo, registre-se. Durante quase dois anos, a oposição -quase toda ela- tentou transformar Dilma Rousseff em uma estadista, como se vivêssemos em uma república. Ela seria mais "institucional" que Lula. Desejava ter autonomia e se afastar do PT. E até poderia, no limite, romper politicamente com seu criador.

Mas os fatos, sempre os fatos, atrapalharam a fantasia construída pela oposição -e não por Dilma, a bem da verdade.

Nunca na história republicana um sucessor conversou tanto com seu antecessor. E foram muito mais que conversas. A presidente não se encontrou com Lula para simplesmente ouvir sugestões. Não, foi receber ordens, que a boa educação chamou de conselhos.

Para dar um ar "republicano", a maioria das reuniões não ocorreu em Brasília. Foi em São Paulo ou em São Bernardo do Campo que a presidente recebeu as determinações do seu criador. Os últimos acontecimentos, estreitamente vinculados à campanha municipal, reforçaram essa anomalia criada pelo PT, a dupla presidência.

Dilma transformou seu governo em instrumento político-eleitoral. Cada ato está relacionado diretamente à pequena política. Nos últimos meses, a eleição municipal acabou pautado suas ações.

Demitiu ministro para ajeitar a eleição em São Paulo. Em rede nacional de rádio e televisão, aproveitou o Dia da Independência para fazer propaganda eleitoral e atacar a oposição. Um telespectador desavisado poderia achar que estava assistindo um programa eleitoral da campanha de 2010. Mas não, quem estava na TV era a presidente do Brasil.

É o velho problema: o PT não consegue separar Estado, governo e partido. Tudo, absolutamente tudo, tem de seguir a lógica partidária. As instituições não passam de mera correia de transmissão do partido.
Dilma chegou a responder em nota oficial a um simples artigo de jornal que a elogiava, tecendo amenas considerações críticas ao seu antecessor. Como uma criatura disciplinada, retrucou, defendendo e exaltando seu criador.

O governo é ruim. O crescimento é pífio, a qualidade da gestão dos ministros é sofrível. Os programas "estruturantes" estão atrasados. O modelo econômico se esgotou.

Edita pacotes e mais pacotes a cada quinzena, sinal que não tem um consistente programa. E o que faz a presidente? Cercada de auxiliares subservientes e incapazes, de Lobões, Idelis e Cardozos, grita. Como se os gritos ocultassem os fracassos.

O Brasil que ainda cresce é aquele sem relação direta com as ações governamentais. É graças a essa eficiência empresarial que não estamos em uma situação ainda pior. Mas também isso tem limite.

O crescimento brasileiro do último trimestre, comparativamente com os dos outros países dos Brics (Rússia, Índia e China) ou do Mist (México, Indonésia, Coreia do Sul e Turquia), é decepcionante. E o governo não sabe o que fazer.

Acredita que elevar ou baixar a taxa de juros ou suspender momentaneamente alguns impostos tem algum significado duradouro. Sem originalidade, muito menos ousadia, não consegue pensar no novo. Somente manteve, com um ou outro aperfeiçoamento, o que foi organizado no final do século passado.
E a oposição? Sussurra algumas críticas, quase pedindo desculpas.

Ela tem no escândalo do mensalão um excelente instrumento eleitoral para desgastar o governo, mas pouco faz. Não quer fazer política. Optou por esperar que algo sobrenatural aconteça, que o governo se desmanche sem ser combatido. Ao renunciar à política, abdica do Brasil.

(*) Marco Antonio Villa, é historiador e professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)

Sabor jabuticaba


Dora Kramer  
O Estado de S.Paulo

O voto em urna eletrônica e a transmissão ao vivo de julgamentos do Supremo Tribunal Federal são daquelas questões polêmicas na teoria, mas de resultado comprovadamente positivo.

Inovações brasileiras, ambas suscitam debate. Hoje muito menos do que quando surgiram. Sobre o voto eletrônico aplicado pela primeira vez em 1996, persiste aqui e ali o seguinte senão: sem possibilidade de registro por escrito, o sistema daria margem a fraudes por impossibilitar a conferência.

O sistema reconhecido nacional e internacionalmente como bem-sucedido, na prática desmente os temores. Há muito não se ouve falar em fraude eleitoral e a eficácia da apuração é incontestável.

Já as transmissões diretas das sessões de julgamentos do STF são menos pacíficas. Há restrições até entre os ministros da Corte, embora a maioria seja a favor por se coadunar perfeitamente à transparência exigida da administração pública pela Constituição.

Ainda assim, restam as críticas: as transmissões teriam influência sobre o comportamento dos ministros que, acompanhados "online", tenderiam a votar conforme os desejos da opinião pública, deixando-se conduzir por fatores extrajudiciais, cedendo à tentação de se transformar em figuras de grande aceitação popular.

Seria verdade?

Os dez anos de existência da TV Justiça não dizem isso. Além das diversas ocasiões em que o tribunal foi criticado por tomar decisões na contramão do senso comum, se vigilância precisasse haver sobre a conduta dos ministros as câmeras e os microfones mais ajudam que atrapalham. Aliás, não atrapalham em nada.

Há a opinião do público leigo, mas há também o acompanhamento da chamada comunidade jurídica. Nesse tempo todo, se tivesse havido distorção do papel do Supremo por causa das transmissões ao vivo isso teria sido detectado e denunciado.

O que se tem, na realidade, é justamente o oposto: cada ministro se vê obrigado a fundamentar muito bem seus argumentos nas doutrinas e na legislação em decorrência da exposição total e permanente.

A reação mais recente contra a sistemática das transmissões teve como porta-voz o secretário de Comunicação do PT, deputado André Vargas, que apontou "risco à democracia" nas sessões ao vivo.

Incongruente, a posição. Pois se o PT vive denunciando que a "mídia" distorce no noticiário, caso não houvesse transmissão o público saberia do julgamento só por intermédio dos resumos feitos pelos veículos de comunicação ditos "golpistas".

De onde a transparência se comprova como a maior garantia de fidelidade aos fatos.

Mais em cima. 
A última pesquisa Datafolha não é ruim para Fernando Haddad, que não tem nada a perder. Era praticamente um anônimo político quando virou candidato e hoje tem a intenção do voto de 15% do eleitorado de São Paulo.

A pesquisa é ruim para Lula, Dilma Rousseff e Marta Suplicy. O primeiro empenhou o mito, a segunda pôs no jogo a solenidade do cargo e a terceira hipotecou a força na periferia.

Se a esperada deslanchada não acontecer, será um caso de resultado que não faz jus ao patrimônio empregado.

O mesmo raciocínio poderá ser aplicado ao restante do País se o desempenho do PT nas urnas confirmar as pesquisas nas capitais.

Socialização. 
O PT sempre disse que saiu inadimplente das eleições de 2002 e por isso procurou socorro no Rural e no BMG.

Ocorre que o partido foi o avalista dos empréstimos sem dispor de lastro para tanto. Portanto, o fiador de fato era o aparelho de Estado.

Em miúdos: o PT ficou com o benefício e dividiu com a sociedade o prejuízo.

Na lua. 
Chama-se Odilo Scherer e não Aloísio, como publicado ontem, o cardeal arcebispo metropolitano de São Paulo.

Os fatos depois do apagão ou, as mentiras que Dilma conta


Comentando a Notícia

O texto a seguir é da jornalista Miriam Leitão, do jornal O Globo, e serve para por ordem no boteco. 

A soberana imperial, nesta semana, rebateu a menção feita pelo ministro Joaquim Barbosa a uma declaração dada por ela, em depoimento prestado à Justiça sobre o Mensalão. 

Da mesma forma como o fizera neste depoimento, sua nota insiste na mentira sobre o apagão vivido pelo país no governo FHC. Seguindo a linha da canalhice explícita de seu antecessor, Dilma talvez esteja revivendo seus momentos de terrorista da Val Palmares, quando mentir era fácil e não produzia efeitos negativos. 

O diabo que dona Dilma sendo presidente do país, poderia um pingo de respeito à verdade, à história e aos fatos. 

Não, quando Lula assumiu já não havia apagão e tampouco o setor elétrico estava quebrado. Mesmo que não se tivesse criado marco algum, apenas dando sequência iniciado por Pedro Parente, assessorado por inúmeros especialistas, a energia elétrica brasileira iria de vento em popa.  Infelizmente, com seu marco, serviu para atrapalhar aquilo que estava certo. 

Interessante notar que, no apagão elétrico em 2001, governo FHC, não se sabe que alguém tenha morrido por economizar e racionar energia. Já no apagão aéreo, em pleno governo petista, contabilizou-se mais de 300 cadáveres. Qual apagão foi pior, dona Dilma? 

Mas leiam o texto da Miriam Leitão. Muita história mal contada pela soberana ali é desmascarada.  Aliás, bem que dona Dilma poderia assumir uma postura mais de acordo com a instituição da presidência. É muito feio para alguém, na sua idade, sendo avó e governando o Brasil mentir de maneira tão leviana e irresponsável.

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O Brasil não estava sob ameaça de apagão em 2003. Quem disse isso, na época, foi a então ministra das Minas e Energia, Dilma Rousseff. O apagão de 2001 foi o pior momento do governo Fernando Henrique, mas a gerência da crise pelo então chefe da Casa Civil, Pedro Parente, construiu a solução que está sendo usada na atual seca: a de pôr as termelétricas como geração complementar.

A presidente Dilma disse recentemente que o governo Lula começou sob essa ameaça iminente. Voltou a dizer ontem. Havia muito a fazer na área energética, mas o risco imediato havia sido afastado. Tanto que as suas Medidas Provisórias só foram enviadas ao Congresso em dezembro de 2003, onze meses depois que ela assumiu o Ministério das Minas e Energia.

Em setembro de 2003, perguntada pelo jornal O GLOBO sobre o risco de apagão, ela respondeu: “Falar de risco de apagão é não prestar atenção na atual conjuntura. Não corremos risco de racionamento, nem de apagão. Fizemos um levantamento e podemos garantir que não há risco.

A nota da presidente ontem foi motivada pela referência a uma declaração sua, de surpresa da rapidez na aprovação das MPs 144 e 145, no voto do ministro Joaquim Barbosa. O que a presidente quer é afastar qualquer ilação de que a rapidez tenha algo a ver com os estranhos fatos políticos da época.

Entende-se que a presidente esclareça a natureza da sua declaração. Difícil aceitar é a repetida tendência de mudar os fatos históricos sobre a crise no setor energético. A aprovação rápida deve ter sido mesmo fruto do trauma que ficou com o apagão, mas, para repor os fatos, foi assim que aconteceu: o governo Fernando Henrique não investiu o suficiente no setor, a economia cresceu muito no ano 2000 e houve uma enorme seca em 2001.

Essa mistura de um ano de crescimento bom e uma seca incomum foi o bastante para provocar a pior crise energética do país.

A solução com as térmicas, como garantia em momentos de escassez hídrica, foi montada na época e tem servido ainda hoje. Este ano, o Operador Nacional do Sistema está “despachando”, como se diz no jargão do setor elétrico, a energia das térmicas.

Além disso, houve enorme engajamento da população na época em reduzir e racionalizar o consumo. Quando a então ministra Dilma assumiu o setor de energia, o país estava passando por um período de excedente de oferta.

Dilma fez várias mudanças: reduziu os poderes da agência reguladora, criou a empresa para o planejamento energético e mudou a regulação do mercado livre. Algumas das suas decisões provocaram períodos de paralisia de investimentos. Sua gestão teve méritos, mas ela também cometeu erros.

Dilma desprezou a energia eólica quando estava claro que essa fonte ficaria mais importante e mais barata em inúmeros países. A energia solar, que é outra fonte que se torna cada vez mais importante, também tem sido desprezada.

Chegaram a ser licenciadas térmicas a carvão e a ideia era fazer um grande leilão dessa fonte no final de 2009, quando Dilma era ministra-chefe da Casa Civil e candidata do ex-presidente Lula. Foi a Conferência do Clima de Copenhague que abriu os olhos do governo para o fato de que carvão numa hora dessas seria ir na contramão mundial.

O projeto da presidente na área de geração é excessivamente concentrado numa única ideia: hidrelétrica na Amazônia. Os custos ambientais não tem sido considerados; os riscos de desequilíbrio social têm sido ignorados. Os sinais de problemas institucionais não estão sendo previstos.

O preço exato da opção tem sido escondido através de subsídios e da presença maciça de estatais e fundos de pensão de estatais, como em Belo Monte.

Fora de tom e de hora


Eliane Cantanhêde
Folha de São Paulo

BRASÍLIA - Não deixa de ser hilária uma nota de condenação às "forças conservadoras" assinada por Marcos Pereira (PRB e Iurd), Valdir Raupp (PMDB) e Carlos Lupi (PDT), afastado do Ministério do Trabalho pela presidente Dilma Rousseff.

Articulada pelo presidente do PT, Rui Falcão, a nota foi assinada ainda pelos do PC do B, Renato Rabelo, e do PSB, Eduardo Campos, que anda às turras com os petistas e com o principal alvo da manifestação de apoio -o ex-presidente Lula.

Lembrando Getúlio Vargas, de 1954, e João Goulart, de 1964, a nota de seis partidos governistas é contra os três que restaram na oposição -PSDB, PPS e DEM- e diz que as tais forças conservadoras "revelam-se dispostas a qualquer aventura", até "pressionam o STF (...) para golpear a democracia" e, de quebra, "reverter as conquistas que marcaram a gestão do presidente Lula".

Eu, hein?! A oposição, tão mirrada, está tentando promover um golpe à la Getúlio e à la Jango? É capaz de pressionar a mais alta corte de Justiça do país? O Supremo seria passível de pressões de tucanos, de demos e do PPS, se 8 dos 10 ministros foram indicados em gestões petistas? PSDB, DEM e PPS são responsáveis pela não entrevista (não citada no texto) em que Marcos Valério joga Lula na fogueira do mensalão?

Não dá para entender nada, a não ser que o julgamento do mensalão, a candidatura empacada de Fernando Haddad em São Paulo e as dificuldades em outras capitais estão subindo à cabeça não só de Lula, mas igualmente da atual cúpula do PT.

Como não deu para entender a exclusão dos partidos de parlamentares condenados no mesmo dia pelo relator do mensalão, Joaquim Barbosa: PTB, PR (antigo PL) e PP. Paulo Maluf, aliado dos governos Lula e Dilma e da campanha de Haddad, deve estar magoado pela discriminação.

Sem falar que PT e PRB assinam a nota juntos, mas quem está derrotando Haddad é Celso Russomanno.

Sorria, aqui é tudo alegria.


Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Se o caro leitor não puder almoçar seu arroz com feijão, salada, bife e sobremesa, resolva o problema com uma folha de alface, duas ervilhas e um grão de milho. Pode não ser satisfatório, mas o caro leitor não deixou de almoçar. Se o caro leitor ganha muito pouco e está abaixo da linha da pobreza, resolva o problema com as estatísticas do Governo Federal: de acordo com a Secretaria de Assuntos Estratégicos da presidente Dilma Rousseff, quem ganha mais de R$ 291 mensais integra a classe média. Assim foi possível fazer com que 35 milhões de brasileiros se alçassem à classe média nos dez anos de Governo petista.

É simples assim: uma pessoa não precisa ganhar mais de dez reais por dia para entrar na classe média. Um casal que ganhe, em conjunto, R$ 582 mensais será também de classe média. 

Pronto: no Brasil, só é pobre quem quer.

Mas há limites para ser de classe média. Quem ganhar a partir de R$ 1.019,10 por mês será de classe alta. A história de achar que classe alta é coisa para Eike Batista está errada: neste país em que se plantando tudo dá (especialmente notícias), até professor, mesmo ganhando o que ganha, pertence à classe alta. O pessoal que tem recursos para comprar deputado mensaleiro, dar carona de jatinho a quem toma decisões sobre concorrências, fotografar a esposa usando sapatos de sola vermelha, esse nem chega a ter classificação. Político corrupto, dos que trocam apoios por Ministérios, está tão alto que a verdade se restabelece sozinha: este não tem classe, nem categoria. 

A classe média (de verdade) paga a conta.

Os autogolpistas
A manifestação de políticos governistas em favor de José Dirceu tem alguns aspectos interessantíssimos a ressaltar:

1 - duas ausências importantes: a de Paulo Maluf, que comanda o PP, partido integrante da base governista e celeiro de réus do Mensalão, e a de Fernando Haddad, candidato do PT à Prefeitura de São Paulo, aliado de primeira hora de Maluf e Dirceu (que ingratidão, deixar de manifestar-se em favor de seu guru!) 

2 - Usa a lógica invertida: acusa o Supremo de estar a serviço do golpe da oposição, quando oito em dez ministros foram nomeados pelo Governo petista. E, se depender da oposição para cair, o PT sabe que nunca mais sairá do Governo.

3 - Discrimina os réus do Mensalão conforme o interesse partidário. Enquanto a arraia miúda era condenada, fez-se um tonitruante silêncio. Na hora do julgamento dos peixes grandes, há até manifesto com abaixo-assinado e tudo.

Punição exemplar
O deputado distrital Benício Tavares, acusado pela Procuradoria Geral da República de corrupção passiva e lavagem de dinheiro no Mensalão do DEM em Brasília, foi cassado pela Justiça por compra de votos e perdeu os direitos políticos. Veja o caro leitor como o ex-Excelência foi cruelmente punido: reassumiu o cargo de Técnico Legislativo no Senado, trabalha na liderança do PTB com o senador Gim Argello e tem Regime Especial de Frequência, sem precisar bater ponto. O salário fica por volta de R$ 16 mil. 

Aqui se faz, aqui se é pago.

A culpa do eleitor
Que delícia! Bastou o candidato petista Carlinhos Almeida consolidar sua ampla vantagem sobre o tucano Eduardo Blanco, que tem o apoio do atual prefeito, para que a primeira-dama de São José dos Campos, SP, abrisse fogo - mas não contra os adversários. Rosana Dalla Torre, esposa do atual prefeito Eduardo Cury, do PSDB, alveja os eleitores, a quem considera ingratos. "Estou indignada, triste e inconformada com essas pesquisas eleitorais", escreveu a primeira-dama em sua página no Facebook. "Como as pessoas são ingratas e têm memória curta!" Na opinião de Rosana, o PSDB transformou São José dos Campos num exemplo para o país, e os eleitores agora querem jogar fora o que já foi feito.

Excelente ideia
Um projeto de emenda constitucional que merece todo o apoio: proíbe que os Governos façam qualquer publicidade que não seja de utilidade pública. O projeto, elaborado pelo deputado federal tucano Walter Feldman, de São Paulo, já tem 186 assinaturas na Câmara, e com isso pode começar a tramitar. Se aprovado, anúncios do tipo "fez estradas", "construiu hospitais", promoção pessoal com o dinheiro público, com nosso dinheiro, vão desaparecer: só entrará publicidade de campanhas de vacinação, ou educação no trânsito, coisas desse tipo. Ótimo - até mesmo para a publicidade. Essa besteira de "eu fiz", "eu vou fazer", além de falsa (quem faz é a administração), castra a criatividade. Já cansou.

Tiririca, o bom
Os jornalistas do Congresso elegeram Tiririca, do PR paulista, como um dos melhores parlamentares do país. Um erro: Tiririca teve compostura, compareceu assiduamente às sessões, comportou-se com toda a dignidade. Mas não se sabe até hoje, passados quase dois anos de sua posse, o que é que pensa; nem os temas pelos quais mais se interessa são conhecidos. 

Podia ser pior. Mas melhor não é.

Falou e disse
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, diz que o Governo tem "cuidado especial" com a inflação. 

É verdade: ela está crescendo que é uma beleza.

carlos@brickmann.com.br 
www.brickmann.com.br

Dilma erra


Cristovam Buarque

Com 27 pacotes ou minipacotes econômicos, a presidenta Dilma tem agido como equilibrista na crise econômica do presente, não como estadista para fazer o Brasil estar em sintonia com a economia global do futuro.

Os pacotes são corretas ações pontuais, com a redução de custos de produção, aumento da venda por redução de impostos, e associação com o capital privado para superar a obsolescência da infraestrutura, mas pouco ou nada tem sido feito para transformar o Brasil em uma nação inovadora.

Ser equilibrista no curto prazo é reduzir o Custo Brasil por meio de isenções fiscais ou desonerações na folha de pagamento.

Ser estadista é construir uma economia com alta competitividade, graças à inovação científica e tecnológica.

Equilibrista é aumentar a taxa de crescimento do PIB, estadista é mudar o PIB. Os pacotes editados desde 2011 podem recuperar parte do espaço perdido no “made in Brasil”, mas não darão o salto para o “created in Brazil”.

Vender mais carros no meio da crise mundial é um ato de equilibrista, de estadista seria criar centros de pesquisa e de produção voltados para o transporte de massas.

Seria fazer a revolução na Educação Básica, aliada a uma grande Refundação do Sistema Universitário Brasileiro, em colaboração com o setor privado e por meio da criação de um Sistema Nacional do Conhecimento e da Inovação, que permita ao Brasil passar a concorrer em condições de igualdade com os países líderes em Ciência e Tecnologia.

Ser equilibrista é conseguir recursos para aumentar o número de famílias com Bolsa Família; ser estadista é criar as bases para que todas as famílias tenham condições de obter suas próprias rendas, sem necessidade de bolsas, graças a um modelo econômico intrinsecamente distributivo e a uma educação de qualidade para todos.

Há meses arrastamos um debate sobre o Código Florestal tentando atender agronegócio e conservacionistas, sem um gesto estadista de mudança de rumo em direção a um novo modelo econômico com desenvolvimento sustentável.

Explorar o Pré-Sal é trabalho de um gestor equilibrista, de estadista seria preparar o Brasil para a economia pós-petróleo.

Ser equilibrista é construir viadutos para mais carros, ser estadista é reorganizar as cidades, a fim de torná-las pacíficas, humanizadas.

Com seus pacotes, a presidenta Dilma tem acertado como equilibrista, olhando onde colocar os pés em uma corda bamba suspensa. A qualquer momento, se um vento do Norte balançar a corda, o equilíbrio se desfaz, como se desfez em tantos países nos últimos anos.

Mas ela erra como estadista por não estar acenando e liderando o país para uma inflexão histórica no longo prazo: transformar o Brasil em uma sociedade moderna e com competitividade científica e tecnológica, com um modelo de crescimento estruturalmente distributivo e em equilíbrio com o meio ambiente.

O Brasil elegeu a Dilma esperando uma estadista para o futuro, mas ela está errando ao optar por ser apenas a equilibrista do presente.

O cabo Palocci


Sebastião Nery
Tribuna da Imprensa


Ademar e seu pacotinho

Na natureza nada se cria e nada se perde. Na política também. E na história. Esta já foi contada, mas volta agora muito atual. Tibúrcio era cabo do Palácio Bandeirantes quando Ademar era governador de São Paulo. Todo fim de mês, de manhã cedo, recebia um envelope fino, fechado, muito bem fechado, para entregar a um senhor gordo e estranho nos subúrbios da capital.

E trazia de volta, mandado pelo senhor estranho e gordo, um pacote grande, bem fechado. Um mês, dois meses, seis meses, todo dia 30, de manhã bem cedo, o cabo Tibúrcio levando o envelope fino e trazendo o pacote grande. Morria de curiosidade, mas não tocava o dedo. Estava ali cumprindo seu dever. E o segredo era o preço primeiro do dever.

CABO TIBÚRCIO
Um dia, o cabo Tibúrcio não se conteve. Abriu pela ponta, cuidadosamente, o pacote grande. Era dinheiro. Muito dinheiro. Tudo nota de mil. Dava uma cueca petista cheinha, cheinha. Resistiu à tentação, entregou o pacote inteiro, intocado. No mês seguinte, dia 30, deram-lhe de novo o envelope fino. Abriu. Era um cartão escrito à mão:

- 50 contos no bicho que der.

O cabo Tibúrcio não resistiu. Pegou uma caneta no botequim, emendou:

- 50 contos no bicho que der. Aliás, 55.

Nunca mais lhe deram o envelope fino nem o pacote grande. Foi demitido.

BURATTI
Rogério Buratti, advogado, secretário particular e chefe da Casa Civil do ministro Palocci nas duas administrações dele na Prefeitura de Ribeirão Preto, em depoimento à Polícia de São Paulo, em 2006, contou esta história:

1. “Palocci foi o personagem central do esquema de corrupção na prefeitura. Foi o próprio prefeito quem negociou o mensalão de R$ 50 mil com a Leão&Leão, da qual Buratti se tornou diretor, depois de deixar a prefeitura”.

2. “Embora a maior parte do dinheiro fosse repassada para o tesoureiro do PT Delúbio Soares, Palocci sempre reservava uma parcela para si”.

3. “Em troca da propina, Palocci organizou um sistema contábil fraudulento, pelo qual a empresa sempre ganhava da prefeitura valores maiores do que os fixados no contrato inicial de varrição de lixo. Mesmo depois de ser ministro, a propina de R$ 50 mil continuou a ser paga” (Veja).

Palocci é o cabo Tibúrcio de Ribeirão Preto.

RATÃO
Quando estourou o escândalo do mensalão, um dos primeiros deputados a pularem fora da Câmara, renunciando ao mandato para não ser cassado, foi o então líder governista do PMDB, José Borba, macaco-velho do Paraná, acostumado a pular de galho em galho e apanhado com a boca na gamela do Marcos Valério: embolsou R$ 2,1 milhões. Vejam o que se  publicava da CPI do mensalão em 2006:

1. “O publicitário Marcos Valério conta que o advogado Roberto Bertholdo, principal assessor de José Borba, distribuía o mensalão a 55 dos 81 deputados do PMDB. Todos os 55 pertenciam à base do governo”.

2. “Marcos Valério repassou dinheiro para que José Borba pagasse o apresentador Carlos Massa, o Ratinho, que, em troca, passaria a usar seu programa no SBT para promover o presidente Lula e a então prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, que se encontrava em campanha eleitoral”.

3. “O PT topou pagar: 5 paus (R$ 5 milhões). E o diretor-geral de Itaipu, o petista Jorge Samek, cobrou US$ 6 milhões de dólares de propina da empresa Siemens, para perdoar uma dívida (multa) de US$ 200 milhões” (Veja).

Não era um governo. É uma fábrica de cuecas e malas pretas.

Ridículo


Editorial
Folha de São Paulo

Nota de líderes partidários governistas sobre mensalão repete cinismo e contradições de um bando de políticos unidos pelo apego ao poder

Não deveria, mas suscita pouca estranheza o documento de líderes partidários governistas divulgado na quinta-feira. O presidente do PT e artífice da nota, Rui Falcão, já se notabilizara por reações tão previsíveis quanto destemperadas ao modo como se desenvolve o julgamento do mensalão no Supremo Tribunal Federal (STF).

Somam-se agora à ladainha outras figuras do bloco situacionista. Vão de Renato Rabelo (PC do B) ao coordenador da campanha de Celso Russomanno à Prefeitura de São Paulo, Marcos Pereira (PRB). O manifesto insiste no gênero de argumento ouvido desde as primeiras denúncias sobre o mensalão.

Quando Roberto Jefferson, presidente do PTB, narrou em entrevista à Folha as gestões de um publicitário mineiro, Marcos Valério, que resultavam em saques de dinheiro vivo beneficiando políticos da base governista, tudo o que se tinha eram denúncias. Provinham, aliás, do líder de um partido que acabava de ser envolvido num escândalo de propina nos Correios.

Foi só aos poucos, como lembrou ainda nesta semana Joaquim Barbosa, relator do processo no STF, que os nomes pronunciados por Jefferson, e os fatos a eles associados, se confirmaram nas investigações. Vieram as confissões daquilo que, pouco antes, se negava com máxima indignação.

O petismo não perdeu a empáfia. Ao lado da esfarrapada desculpa de que os recursos do mensalão correspondiam apenas a gastos de campanha, surgiu a mais desonesta e deslavada operação ideológica de que foram capazes os tartufos da moralidade pública e da igualdade social.

Associados, como o são cada vez mais, à direita religiosa, ao malufismo, a José Sarney e a Fernando Collor, os petistas recorreram aos trapos de um vocabulário de esquerda para iludir os que, sempre, querem manter-se iludidos.

"Golpismo", "aventura conservadora", "ataque à democracia": assim se qualificou o empenho de desvendar o desvio de recursos públicos e a corrupção de parlamentares, levando o caso à Justiça, com amplo direito de defesa e longos anos de contraditório, de recursos e protelações.

O PT, tantas vezes acusado de ser "denuncista" quando erguia as bandeiras do "Fora Collor" e do "Fora FHC", recorre ridiculamente à mesma tática, ao associar o desfecho do julgamento no STF à iminência das eleições municipais.

Os governistas de São Paulo não deveriam preocupar-se tanto. Oriundo de um partido (PRB) no qual sobrevive o PL, notoriamente envolvido no escândalo, Russomanno é o líder nas pesquisas.

O PRB assina, todavia, a nota contra o "golpismo". A contradição política deve importar pouco, entretanto, para um bando multipartidário que já se acostumou a contradizer-se na polícia.

O juízo fora dos trilhos


Sandro Vaia
Blog do Noblat

 Algumas coisas saíram dos trilhos na carruagem petista ultimamente e a mais importante delas parece ser o juízo.

O ataque de nervos provocado pelo julgamento do mensalão está desencadeando reações desproporcionais às que deveriam ser as reações de um partido adulto e amadurecido por uma importante inserção histórica na vida política brasileira no período pós redemocratização.

Todo mundo conhece a história birrenta do PT, sua negativa em apoiar o Colégio Eleitoral que elegeu indiretamente Tancredo Neves, sua negativa inicial em assinar a Constituição, em dar seu apoio à transição política possível e até mesmo em votar em medidas importantes que reinstitucionalizaram a história econômica do País a partir do Plano Real.

O “diferente de tudo que está aí” afinal de contas constitui-se no diferencial mercadológico que ajudou a plantar as raízes do partido no cenário político brasileiro.

O partido cresceu com isso, institucionalizou-se, chegou ao poder e acabou dando a sua contribuição, ainda que às vezes por linhas tortas, à consolidação democrática do País.

Está no terceiro mandato consecutivo no comando político da República e não têm mais motivos para portar-se como um diretório acadêmico de jovens rebeldes amalucados.

O episódio do julgamento do mensalão teve o efeito de mexer com a “húbris” de Lula, que as contingências da vida deveriam ter aplacado, quando era lícito acreditar que elas deixariam lições de sabedoria e tolerância em vez de açular o rancor.

Politicamente o partido instalou-se à beira de um ataque de nervos, impondo truculentamente a sua vontade a aliados e maltratando acordos a tal ponto que não consegue despontar como favorito nas eleições municipais em mais do que duas capitais do país - Goiania e Rio Branco.

E o que é pior: não consegue demonstrar força para juntar em apoio ao candidato que Lula impôs ao partido sequer metade do seu eleitorado cativo em São Paulo.

E mais grave ainda: vozes influentes como a do seu presidente Ruy Falcão, o secretário de comunicação André Vargas, o senador Jorge Viana e o presidente da Câmara Marcos Maia, saem em desatinadas agressões sem propósito confrontando o Poder Judiciário e agitando o espantalho de um doentiamente fantasioso “golpe das elites”contra o partido.

A agressividade do PT contra as instituições como a Justiça e a Imprensa, que estão trabalhando rigorosamente dentro das atribuições que lhe são garantidas pela lei, está passando dos limites, criando um clima artificialmente exacerbado de confronto que faz temer pela saúde da democracia.

E aquele que deveria ter a sabedoria do bombeiro prefere colocar a fantasia de incendiário.

Comparar Getúlio Vargas a Lula é um insulto à memória do presidente suicida


Augusto Nunes
Veja online

A nota oficial encomendada por Lula, redigida por Rui Falcão e subscrita por seis presidentes de partidos governistas comunica à nação, entre uma falsidade e uma safadeza, que está em curso uma trama política semelhante à que resultou no suicídio de  Getúlio Vargas. Conversa fiada. Só um ajuntamento de palermas, oportunistas e casos de polícia conseguiria vislumbrar conspiradores em ação nos três partidos oposicionistas mais dóceis da história.

Só um bando de cretinos fundamentais ousaria confundir Aécio Neves com Carlos Lacerda, Geraldo Alckmin com Afonso Arinos, ou tucanos em sossego no poleiro com militares sublevados nos quartéis. E até sócios remidos do clube dos cafajestes se recusariam a comparar Luiz Inácio Lula da Silva a Getúlio Dornelles Vargas. Coerentes com a folha corrida de cada um, os signatários do besteirol espancaram sem clemência, e sem vestígios de rubor na face, a memória do mítico gaúcho.

“Querem fazer comigo o que fizeram com Getúlio Vargas”, recitou o palanque ambulante, de novo, em agosto de 2011. “Assim foi em 1954, quando inventaram um ‘mar de lama’ para derrubar o presidente Vargas”, reincidiram nesta quinta-feira seis carrascos da verdade. Alguém precisa contar-lhes aos gritos que foi o próprio Getúlio quem usou pela primeira vez a expressão “mar de lama”. Alguém precisa ordenar-lhes aos berros que parem de estuprar os fatos para fabricar mentiras eleitoreiras.

Na versão malandra do PT e seus parceiros alugados, a procissão de escândalos que afronta os brasileiros honestos desde a descoberta do mensalão não passa de invencionice dos netos da UDN golpista, que se valem de estandartes moralistas para impedir que outro pai dos pobres se mantenha no poder. Se a oposição não sofresse de afasia medrosa, a confraria dos 171 já teria aprendido que não há qualquer parentesco entre os dois Brasis. E não se atreveria a inventar semelhanças entre figuras antagônicas.

Em agosto de 1954, Getúlio Vargas era sistematicamente hostilizado por adversários que negavam até cumprimentos protocolares ao ex-ditador que voltara ao poder pela rota das urnas. Não há uma única foto do presidente ao lado de Carlos Lacerda. Passados quase 60 anos, Lula e Dilma lidam com adversários que fizeram a opção preferencial pela covardia e inventaram a oposição a favor. Muitos merecem cadeiras cativas na Irmandade dos Amigos do Cara, dirigida por velhas abjeções que Lula combateu até descobrir que todos nasceram uns para os outros.

Há 58 anos, surpreendido por delinquências praticadas às suas costas, acuado pela feroz oposição parlamentar, sitiado por ódios decorrentes dos horrores do Estado Novo, desafiado por oficiais rebeldes, traído por comandantes militares, abalado pela deserção dos aliados, Getúlio preferiu a morte à capitulação humilhante. No Ano 10 da Era da Mediocridade, o Grande Pastor do rebanho lulopetista só é ameaçado pelo Código Penal, por um STF disposto a cumprir a lei e pela incapacidade de aceitar imposições do destino.

Neste começo de primavera, o que se vê é um populista incapaz de perceber a aproximação do inverno. Os truques do animador de comício não surpreendem mais ninguém. Tornaram-se enfadonhos. Lula é uma caricatura de si próprio. É uma lenda precocemente no ocaso. Daqui a muitos anos, será um asterisco nos livros de história que nunca leu.

Getúlio perdeu a disposição de resistir ao constatar que, sem saber, convivera com criminosos. Na última reunião do ministério, foi defendido por figuras como Oswaldo Aranha e Tancredo Neves. Lula defendeu a permanência de Antonio Palocci e José Dirceu no primeiro escalão infestado de corruptos. E tenta o tempo todo livrar da cadeia bandidos de estimação para mantê-los a seu lado. Depois de tentar inutilmente adiar o julgamento do mensalão, faz o que pode para pressionar ministros que nomeou, desqualificar a Justiça e impedir a consumação do castigo.

Há uma semana, o protetor de pecadores foi empurrado para o meio do pântano pelas revelações de Marcos Valério divulgadas por VEJA. Em vez de replicar às acusações e interpelar judicialmente o acusador, o mais loquaz dos palanqueiros emudeceu. Entre amigos, gasta a voz debilitada em insultos a ministros do Supremo, mensaleiros trapalhões ou advogados ineptos ─ e promete, de meia em meia hora, vinganças tremendas. Em público, pede votos para candidatos amigos e calunia concorrentes.

O suicídio de Vargas, reiterei há um ano, foi um ato de coragem protagonizado pelo político que errou muito e cometeu pecados graves, mas nunca transigiu com roubalheiras, nunca barganhou com assaltantes de cofres públicos nem foi coiteiro de ladrões. Lula fez da corrupção endêmica um estilo de governo e um instrumento de poder. O tiro disparado na manhã de 24 de agosto de 1954 atingiu o coração de um homem honrado. Um saiu da vida para entrar na história. Outro ficará na história como quem caiu na vida.

Getúlio matou-se por ter vergonha na cara. Lula morrerá sem saber o que é isso.

Nação em decomposição


Carlos Chagas
Tribuna da Imprensa


Com o PT puxando a fila, lambuzados também estão o PP, o PTB, o PR e o PMDB, em graus maiores ou menores, igualmente envolvidos no escândalo do mensalão. É o Supremo Tribunal Federal que acaba de concluir assim ao condenar até agora parlamentares e ex-parlamentares que exprimiram os referidos partidos, como João Paulo Cunha, Pedro Henry, Pedro Correia, Roberto Jefferson, Romeu Queirós, Waldemar da Cunha Neto, bispo Rodrigues e José Borba, entre outros.

Faltam muitos, pois só 12 dos 38 réus receberam sentenças. Logo virão condenações para antigos líderes de expressão como José Dirceu, José Genoíno, Delúbio Soares e Anderson Adauto. Surge até a acusação do operador Marcos Valério, também condenado, de que o ex-presidente Lula participava da trama. Mais de 350 milhões de reais foram desviados de cofres públicos e privados para a compra de votos e de apoio a um governo eleito em nome do povo menos favorecido.

Convenhamos, antes que o julgamento termine com mais surpresas, importa repetir a indagação: que país é este? Em que nação nos vamos transformando, a ponto de tudo continuar sem a reação de cada um e de todos diante de tamanha vigarice?

Porque não há indignação nas ruas, muito menos movimentos de rebeldia cívica ou coisa parecida. O povo brasileiro dá mostras de apatia completa diante dos malfeitos de seus governantes e de suas elites, quaisquer que sejam. Discute-se mais se Mano Meneses deve continuar ou ser mandado embora. Ou se a “Avenida Brasil” pode ser esticada por mais alguns capítulos.

O perigo é grave e iminente. Estamos nos dissolvendo e a responsabilidade não pertence apenas a quantos ladrões empalmaram o poder, certamente muito tempo antes da ascensão do PT. Passou a faltar ao povo brasileiro não apenas alma, mas espinha dorsal. Conteúdo, sangue nas veias, capacidade de reagir. A última vez em que essas demonstrações aconteceram foi na campanha das “Diretas Já”, clímax da derrocada da ditadura militar. Depois, começou a prevalecer a máxima do cada um por si. Com as exceções de sempre, estamos perdendo nossa identidade. Do menos favorecido ao grande potentado, importa-lhes saber que proveito poderão tirar do conjunto, em favor da individualidade.

É bom tomar cuidado. Pode estar em perigo aquilo que os portugueses garantiram por séculos, nossa unidade nacional e territorial. Um belo dia faltará a seiva que impediu a decretação da República do Piratini, da Confederação do Equador, do separatismo de São Paulo, da Amazônia ou do Contestado. Não havendo quem proteste nem quem fique indignado…

RETÓRICA EXAGERADA
Mesmo sem tomar qualquer atitude prática no sentido da limpeza de seus quadros, os partidos da base do governo exageraram nos termos da nota conjunta expedida quinta-feira, quando acusaram a oposição de prática golpista, desespero e golpe contra a democracia. Pura retórica sem conteúdo, quando cotejada com as sentenças que o Supremo Tribunal Federal vai produzindo.

A GRANDE DÚVIDA
Terça-feira a Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprecia a indicação do jurista Teori Zavascki para novo ministro do Supremo Tribunal Federal. O senador José Sarney marcou para um dia depois a votação em plenário, tendo-se a certeza da aprovação, mesmo se alguns oposicionistas votarem contra. Dependendo da vontade do indicado, ele poderá tomar posse imediatamente, integrando-se então à mais alta corte nacional de justiça e, na teoria, passando a participar do julgamento do mensalão.

Não estando familiarizado com os autos, duas possibilidades se abrem: julgar-se impedido ou pedir vistas do processo. Neste caso, haveria a interrupção dos trabalhos, sem prazo para a retomada, coisa que frustraria quantos acreditam no fim da impunidade no país. Como a decisão dependerá apenas de Zavascki, convém aguardar.

Dilma e sua lealdade


Merval Pereira
O Globo

A presidente Dilma mais uma vez deixou de lado a liturgia do cargo para responder diretamente ao relator do mensalão, ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa, que citou um depoimento seu ao tempo em que era ministra de Minas e Energia para confirmar sua tese de que houve compra de votos no mensalão.

Barbosa foi além do que a prudência exigiria em uma hora dessas, e atribuiu à “surpresa” manifestada pela então ministra Dilma Rousseff, no seu depoimento judicial, com a agilidade da aprovação das medidas provisórias de reformulação do setor elétrico, o caráter de uma confirmação tácita de que houvera algo mais que um simples acordo político naquela ocasião.

A presidente Dilma está certa ao rebater essa interpretação do relator, mas mais uma vez utilizou-se da forma errada, na minha opinião. Assim como quando rebateu as críticas do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, também desta vez a presidente não deveria ter respondido através de uma nota oficial da Presidência da República, colocando a questão como se fosse uma disputa entre os Poderes Executivo e Judiciário.

Bastaria que ela encarregasse o senador Delcídio do Amaral, que era o líder do governo à época, de desmentir a versão do relator, como, aliás, ele já fizera em declarações de iniciativa própria, confirmando que houve naquelas votações um acordo partidário diante da necessidade de reformas no setor elétrico depois dos problemas porque passara no final do governo de Fernando Henrique Cardoso.
Como na resposta ao ex-presidente, que classificara de “herança pesada” a deixada por Lula, juntando aos problemas econômicos uma especial referência às questões morais, também agora a presidente foi além do simples desmentido, aproveitando a ocasião para reafirmar sua lealdade ao antecessor, fazendo críticas ao governo de Fernando Henrique.

“Entre junho de 2001 e fevereiro de 2002, o Brasil atravessou uma histórica crise na geração e transmissão de energia elétrica, conhecida como ‘apagão’”, escreveu a presidente, já usando a terminologia com finalidades políticas, pois ela sabe que o país não passou por um “apagão”.

“Como disse no meu depoimento, em função do funcionamento equivocado do setor até então, ou se reformava ou o setor quebrava”, completou a presidente para justificar a tramitação rápida das medidas governamentais.

Nas duas ocasiões, procurou-se tirar vantagem das palavras e gestos de Dilma para colocá-la em dissidência com Lula, seu mentor e responsável maior pela chegada à Presidência.

Mesmo assim, o fato de a presidente ter se sentido devedora de uma explicação por escrito, ao que tudo indica sugerida por setores ligados a Lula, mostra não apenas o grau de subordinação partidária a que ela se submete, como a preocupação dos que cercam Lula com a repercussão do julgamento do mensalão sobre a sua biografia.

Sabe-se que já a nota expedida por cinco dos partidos da base aliada, repudiando as acusações contra Lula atribuídas a Marcos Valério, e denunciando um complô contra Lula fora insuflada pelo próprio, em busca de apoio público num momento em que sua influência política encontra resistências.

Agora, a nota da Presidência tem o objetivo de deixar claro publicamente que o depoimento da então ministra de Minas e Energia não insinuou, como o relator deu a entender, a existência do mensalão.

É compreensível que Dilma nutra por Lula um afeto e uma gratidão infinitos, mas a Presidência não pode ser usada para expressar esses sentimentos particulares. Também o fato de pertencer ao PT, embora não tenha suas raízes políticas no partido, não justifica uma atuação partidária tão desabrida quanto a que está tendo nessa campanha municipal, quando já anunciara que não entraria nas disputas regionais.

Com essas atitudes, Dilma deixa para trás uma postura republicana de equidistância das questões partidárias para usar a Presidência como moeda de troca, como fez ao nomear o senador Marcelo Crivella para o Ministério da Pesca, na ilusão de que o partido dos bispos apoiaria o candidato petista à prefeitura de São Paulo, e a senadora Marta Suplicy para a pasta da Cultura, na tentativa de desempacar a candidatura.

Mesmo que ao fim os esforços do “deus” Lula e seus seguidores deem certo, a Presidência de Dilma sairá diminuída. Se der errado, então...

O revisor revê sua posição


O Estado de S.Paulo

A tendência natural da imprensa é a de ressaltar como fica, a cada sessão do Supremo Tribunal Federal (STF), a situação dos réus do mensalão, com as condenações que já possam ter-se acumulado nos pareceres do relator do processo, Joaquim Barbosa, do revisor, Ricardo Lewandowski, e nas ainda poucas decisões tomadas pelo pleno da Corte. A cobertura do 26.º dia dos seus trabalhos, na quinta-feira, por exemplo, destacou que Barbosa concluiu a leitura do seu voto sobre as condutas dos incluídos no "núcleo político-publicitário", condenando por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e, eventualmente, formação de quadrilha 10 dos 11 políticos e operadores partidários acusados de terem recebido vantagem indevida do esquema de Marcos Valério, a mando do então tesoureiro petista Delúbio Soares. Apenas um ex-assessor do PL (hoje PR) saiu livre das três imputações.

O noticiário também salientou o contraste entre a severidade do relator e a propensão do revisor a matizar as suas conclusões. Examinando apenas dois réus do capítulo esgotado por Barbosa, frisaram os relatos, Lewandowski "já" absolveu um deles por inteiro, o ex-deputado federal Pedro Henry, do PP, e condenou o outro, o seu colega Pedro Correa, por corrupção passiva, mas não por lavagem de dinheiro. Os fatos foram esses mesmos. Mas, ao fixar-se predominantemente neles para atualizar o escore do mensalão e em busca de elementos adicionais que confirmariam a polaridade de enfoques entre revisor e relator, a mídia fixou as vistas nas árvores e perdeu de vista o que parecem ser novas e inesperadas movimentações do arvoredo. Essas mudanças, a se firmarem, não apenas serão decisivas para o desfecho do processo, mas poderão eliminar a diferença entre a paga de propina a parlamentar para trocar de partido e votar com o governo, capitulada no Código Penal como corrupção, e a movimentação de valores espúrios, dentro e entre as legendas, via caixa 2, que não passa de crime eleitoral.

Lewandowski, que há duas semanas votara pela absolvição do ex-presidente da Câmara dos Deputados João Paulo Cunha, por não estar convencido de que os R$ 50 mil que lhe repassara o valerioduto representavam um presente pela escolha de uma agência de Marcos Valério para cuidar da imagem da Casa - poderia ter sido dinheiro liberado pelo PT por ínvios caminhos para financiar pesquisas eleitorais nos seus redutos -, mudou da água para o vinho. Ele aceitou a "nova jurisprudência" do tribunal - instigada pela ministra Rosa Weber - de que a comprovação objetiva de que um agente público recebeu vantagens indevidas de terceiros dispensa investigar seja o motivo do recebimento, seja o destino dado aos valores recebidos. O ato em si caracteriza o crime de corrupção passiva.

A esta altura do julgamento, pode o revisor ainda abrigar as convicções íntimas que o levaram a ser leniente com João Paulo, na contramão da quase totalidade de seus pares. E pode ele, em dado momento de sua fala de anteontem, ainda ter indicado sotto voce que o dinheiro do mensalão fazia parte de acordos de "financiamento de campanha" - a tese do caixa 2 alegada pelo PT para minimizar o escândalo. Mas o essencial - o grande fato novo do julgamento - é ter ele admitido que se curvou ao entendimento dominante na Corte. A ponto de dizer, pouco depois, em entrevista, que a razão de ser do mensalão - compra de apoio parlamentar para o governo Lula, ou acertos financeiros com aliados presentes e futuros para quitar dívidas de campanhas e engordar os cofres para as disputas seguintes - tornara-se irrelevante. "Não há necessidade de entrar nesse tipo de elucubração", encerrou o assunto.

Daí se pode prever que Lewandowski só absolverá réus de corrupção passiva se entender que as acusações contra eles foram ineptas, como no caso de Pedro Henry. Com a mesma ressalva, terá de condenar os hierarcas do PT pelas operações de corrupção ativa executadas por Valério em parceria com a sua gente na banca mineira. Contra o tesoureiro Delúbio Soares, há provas e confissões. Contra o presidente José Genoino, assinaturas indeléveis em contratos de fancaria. Contra José Dirceu, o "domínio do fato" - o poder de mandar fazer.

Ministros discordam de nota do PT que os acusa de ação política


Folha de São Paulo

Integrantes do STF (Supremo Tribunal Federal) discordam de nota divulgada ontem pelo PT e por partidos aliados que dizia que a corte atuou de forma política e marcou o julgamento do mensalão para coincidir com as eleições.

A interlocutores o presidente do Supremo, Carlos Ayres Britto, tem relembrado que sempre defendeu marcar o início do julgamento na metade do primeiro semestre, em maio, para não interferir no processo eleitoral. Ayres Britto chegou a defender a realização de sessões em julho.

Outros ministros do STF também defendiam isso, entre eles, Gilmar Mendes. Ele chegou a acusar o ex-presidente Lula de pressioná-lo para adiar a análise do caso.

Sergio Lima/Folhapress
O presidente do Supremo, Carlos Ayres Britto, 
durante sessão de julgamento do mensalão

O julgamento, no entanto, somente foi marcado em agosto porque dependia da liberação do voto do ministro-revisor, Ricardo Lewandowski, o que só aconteceu na última semana de junho.

E as sessões não poderiam ficar para depois de 7 de outubro por causa do risco de prescrição (perda de validade) das penas.

Nos bastidores, Lewandowski reclamou diversas vezes de ter sofrido pressões de colegas para que liberasse seu trabalho rapidamente.

Ele iniciou sua revisão no início deste ano, logo após Joaquim Barbosa dizer, em dezembro de 2011, que seu relatório sobre o processo mensalão estava pronto.

GOLPISMO
Em nota divulgada anteontem, PT, PC do B, PSB, PMDB, PDT e PRB acusaram a oposição de golpismo ao usar politicamente o julgamento.

Segundo o texto, existe a tentativa de transformar o mensalão num "julgamento político, golpear a democracia e reverter as conquistas que marcaram a gestão do presidente Lula".

Apesar de atacar diretamente a oposição, o conteúdo da nota foi visto também como uma crítica indireta ao tribunal, por não ter se preocupado em marcar o julgamento no mesmo período das eleições municipais.

Para ministros ouvidos pela Folha, isso não teria ocorrido se Lewandowski tivesse liberado seu voto em maio. 

Valdo Cruz e Felipe Seligman

Mensalão: agora, Lula se cala - e o PT fica desnorteado


Daniel Pereira e Rodrigo Rangel
Veja online

O ex-presidente silencia diante das revelações do empresário Marcos Valério, que o colocou como chefe do esquema. PT, agora, diz que julgamento é golpe

 (Juliana Knobbel/Frame/Folhapress e Cristiano Mariz) 
TEORIA DA CONSPIRAÇÃO - 
Lula e Valério: as revelações seriam uma tentativa de “golpe das elites”
 com a participação dos ministros do Supremo

O PT fabricou uma manifestação de apoio a Lula por saber que as confissões de Valério podem ser investigadas. O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, considerou importantes as revelações e declarou que poderá analisar o envolvimento de Lula no mensalão

Na edição passada, uma reportagem de VEJA revelou com exclusividade parte das confissões feitas pelo empresário Marcos Valério, o operador financeiro do mensalão, sobre as engrenagens do maior escândalo de corrupção política da história do país. Além de confirmar a participação decisiva no suborno a parlamentares dos petistas José Dirceu e Delúbio Soares, que figuram como réus no processo em curso no Supremo Tribunal Federal (STF), Valério implicou o ex-presidente Lula no esquema -- e no papel de protagonista. Valério diz que Lula era o verdadeiro comandante da organização criminosa denunciada pelo Ministério Público. Afirma que a quadrilha do mensalão contava com um caixa de 350 milhões de reais, o triplo, portanto, do valor identificado pela Polícia Federal. Além disso, ressalta que desde a eclosão do escândalo, em 2005, teve Paulo Okamotto como interlocutor no PT.

Amigo do peito e pagador de contas pessoais do ex-presidente da República, Okamotto era fiador de um acordo que previa a impunidade em troca do seu silêncio. O empresário desabafou: “Não podem condenar apenas os mequetrefes. Só não sobrou para o Lula porque eu, o Delúbio e o Zé não falamos”.
Valério sempre ameaçou relatar em detalhes o funcionamento do mensalão. E sempre foi contido - segundo contou a pessoas próximas - pela promessa do ex-presidente e do PT de ajudá-lo na Justiça. Esse acordo se manteve de pé até o início do julgamento no STF. Já condenado por corrupção ativa, peculato e lavagem de dinheiro, crimes que podem resultar numa pena de mais de 100 anos de prisão, Valério resolveu compartilhar seus segredos com um grupo seleto de confidentes. 

A revelação dessas conversas por VEJA desnorteou o PT,conforme mostra reportagem publicada na edição desta semana. Lula, um notório entusiasta do debate em público, preferiu o silêncio ao ser confrontado com as novas informações. Não rechaçou o que Valério contou nem tentou desqualificá-lo. Dirceu e Delúbio seguiram o chefe. Não foi à toa. Segundo aliados, Lula não quer desafiar Valério, que não teria mais nada a perder. Além disso, teme que o empresário revele mais detalhes se provocado. Rebatê-lo agora, sem saber do arsenal à disposição de Valério, seria uma estratégia de altíssimo risco. A palavra de ordem é não comprar briga com o pivô financeiro do mensalão. Contra-ataques, só em cima dos alvos de sempre, aqueles aos quais os petistas recorrem, como uma conveniente muleta, toda vez que são pilhados em irregularidades.

Essa estratégia foi seguida à risca. Na segunda-feira, o PT divulgou uma nota conclamando a militância para “uma batalha do tamanho do Brasil” - no caso, a defesa do partido e do ex-presidente. O texto não faz menção às confissões de Valério. Ou seja: não explica do que Lula deve ser defendido. Na quinta-feira, outra nota foi publicada. Ela retoma a tese de que o mensalão e seus desdobramentos não passam de uma conspiração urdida pela oposição e por setores da imprensa para tirar o PT do comando do país por meio de um golpe. 

Esse golpe seria alimentado com a divulgação de denúncias sem provas. Quais denúncias? A redação petista não teve coragem, de novo, de citar as confissões de Valério, providencialmente esquecido. Fala de uma “fantasiosa matéria veiculada pela Revista Veja”. Fantasiosa, por ora, só a nota do PT. Ela foi elaborada pelo presidente da sigla, Rui Falcão. Em seguida, ele ligou para os presidentes de cinco partidos e pediu-lhes que subscrevessem o texto. Não se tratou de uma solidariedade espontânea. Muito pelo contrário. O presidente do PMDB, senador Valdir Raupp, assinou sem ler e nem sequer consultou seus correligionários -- entre eles, o vice-presidente da República, Michel Temer. “Não concordo com a nota, mas não podia recusar um pedido do presidente Lula”, revelou um dos signatários.

Tiago Queiroz/AE, Cristiano Mariz, Caio Guatelli/Folhapress
 DEGRADANTE - O mensalão cria constrangimentos à campanha do petista 
Fernando Haddad para a prefeitura de São Paulo, principalmente  diante da 
aproximação da data de julgamento do ex-ministro José Dirceu e 
do ex-tesoureiro Delúbio Soares. Os dois serão 
julgados pelo Supremo por corrupção ativa

O PT fabricou uma manifestação de apoio a Lula por saber que as confissões de Valério podem ser investigadas. O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, considerou importantes as revelações e declarou que poderá analisar o envolvimento de Lula no mensalão, tal qual relatado por Valério, depois do julgamento do processo no STF. Os petistas também esperam usar a nota assinada por presidentes de partidos aliados no horário eleitoral gratuito. A ideia é alegar que o PT está sendo vítima de uma conspiração de setores conservadores, os quais estariam pressionando o Supremo -- que teve sete dos seus atuais dez ministros nomeados pelo governo petista -- a condenar os réus do mensalão. O processo no STF tem influenciado de forma negativa o desempenho dos petistas nas disputas municipais. Imposto ao partido por Lula, Fernando Haddad está na terceira colocação na corrida pela prefeitura paulistana. Na semana passada, num recurso à Justiça Eleitoral, a equipe dele disse ser “degradante” a associação da imagem de Haddad à de Dirceu e Delúbio, como tem feito o PSDB. Mais sintomático dos efeitos do mensalão, impossível.

O PT sempre desdenhou dos impactos políticos do caso. Numa conversa com aliados dias antes do início do julgamento no STF, Lula disse que o processo teria “influência zero” sobre o partido e seus candidatos. Com a mesma confiança do líder messiânico que prometera aos réus livrá-los da condenação judicial, Lula lembrou que foi reeleito em 2006, um ano depois de ser acossado pela ameaça de um processo de impeachment, e fez de Dilma Rousseff sua sucessora em 2010. O mensalão seria uma mera “piada de salão”. Piadinha sem graça.

PT pós-mensalão começa e termina em Dilma


Josias de Souza

Surpreendidos com os primeiros veredictos que saltam do plenário do STF, os principais operadores do PT dividem-se entre a indignação e a perplexidade. Revoltam-se porque enxergam um quê de política no julgamento. Espantam-se porque se deram conta de que, ao subestimar o escândalo, não se prepararam para lidar com os danos.

Na base do improviso, o PT reage a esmo aos ataques da oposição, prepara a assimilação de eventuais prejuízos na eleição municipal de 2012 e olha para o itinerário de 2014 como uma oportunidade de rearranjo. Uma oportunidade que Dilma Rousseff cuida de aproveitar. Distanciando-se do problema, a presidente apresenta-se como solução.

Até os petistas que torcem o nariz para Dilma passaram a enxergar no sucesso do governo dela um bom recomeço para a fase pós-mensalão. A alternativa seria Lula. Mas ele já não exibe as condições físicas de antes e é tomado a sério quando diz que só um Apocalipse econômico o faria apresentar-se como re-re-recandidato. Menos por gosto e mais pelo desejo de evitar o ressurgimento da oposição.

De tanto referir-se ao mensalão como uma ‘lenda’, o PT tornou-se uma legenda que encontra paralelos mais adequados na ficção do que na realidade. Ernest Hemingway oferece boa matéria prima para comparações.

Ponto mais alto da África, uma montanha serviu de inspiração para Hemingway. Em ‘As Neves do Kilimanjaro’, o escritor anotou: “O seu pico ocidental chama-se ‘Ngàge Ngài’, a Casa de Deus. Junto a este pico encontra-se a carcaça de um leopardo. Ninguém ainda conseguiu explicar o que procurava o leopardo naquela altitude.”

O leopardo de Hemingway já foi usado como símbolo de muitas coisas –do espírito de aventura à busca do inatingível. Num instante em que o STF está prestes a condenar petistas do porte de José Dirceu e José Genoino, o leopardo de Hemingway também pode simbolizar o instinto suicida que levou o PT da defesa intransigente da ética à porta da cadeia.

Ao dissecar a carcaça do ex-PT, os ministros do Supremo já deixaram assentado: 1) o partido desviou verbas públicas para as arcas espúrias operadas pela dupla Marcos Valério-Delúbio Soares. 2) os pseudo-empréstimos do Banco Rural não passaram de transações simuladas destinadas a dar aparência limpa a um dinheiro que era sujo. 3) quem levou a mão à cumbuca incorreu em corrupção.

Diferentemente do PT, Dilma preparou-se para enfrentar a encrenca com método. Enxerga-se como uma parte boa do escândalo. Em 2005, nas pegadas da delação de Roberto Jefferson, foi deslocada da pasta de Minas e Energia para a Casa Civil para dar ao primeiro reinado de Lula uma cara diferente da máscara de José Dirceu.

Agora, Dilma toma distância do julgamento e dedica-se a evitar que seu governo vire o pesadelo econômico que frequenta o sonho dos seus potenciais antagonistas –um declarado: Aécio Neves (PSDB). Outro insinuado: Eduardo Campos (PSB). Dilma irritou-se com um comentário de Joaquim Barbosa que a fez desviar-se de seu plano original.

Dilma decidira que não diria palavra sobre o trabalho do STF. De repente, o relator do processo serviu-se de um depoimento prestado por ela em juízo, em 2009, para corroborar a tese de que houve compra de votos no Congresso. Barbosa leu o trecho em que Dilma declarou-se “surpresa” com a rapidez que o Legislativo imprimiu à tramitação do novo marco regulatório do setor energético proposto no alvorecer do primeiro mandato de Lula.

Abespinhada, Dilma viu-se compelida a manifestar-se. Em nota, esclareceu que sua surpresa deveu-se à rapidez com que as lideranças políticas, inclusive as da oposição, “compreenderam a gravidade do tema”. Evocando o apagão da Era FHC, que empurrara o país para um racionamento de energia, ela enfatizou: “Ou se reformava ou o setor quebrava. E, quando se está em situações limites como esta, as coisas ficam muito urgentes e claras”.

Sem entrar no mérito dos dois conceitos que estão em jogo no STF –caixa dois de campanha ou compra de apoio?— Dilma informou aos magistrados, à sua maneira, que eles devem tirar suas conclusões sem envolvê-la na confusão. Fez média com o PT sem dissociar-se do propósito de manter sua colher longe do caldeirão que ferve no Supremo.

Dilma está decidida a demonstrar que roda noutra sintonia. Olha para o parabrisa. Avalia que o retrovisor é problema de quem conduziu o leopardo ao suicídio da montanha gelada. Opera para tentar chegar a 2014 em triunfo. Recebe da área econômica dados alvissareiros.

Foi informada de que o PIB do terceiro trimestre de 2012 crescerá algo como 1% em relação aos três meses anteriores. Algo que projetaria uma taxa anualizada na casa dos 4% e esboçaria um início promissor para o ano pré-eleitoral de 2013.

Sem abrir mão da aposta na retomada do crescimento pela via da potencialização do consumo, Dilma diversifica o receituário. Supera os próprios limites ideológicos ao conceder empreendimentos de infraestrutura à iniciativa privada, promete baixar a conta de luz, abre guerra contra os juros bancários…

Tudo isso sem cair na velha tentação, tão comum na política, de tornar-se mais uma criatura que se volta contra o criador. Não dá um passo sem consultar-se com Lula. Os dois conversam pelo telefone amiúde. Encontram-se pelo menos uma vez por mês. A fidelidade da sucessora faz de Lula um entusiasta da reeleição dela. E converte o PT numa espécie de cultor do êxito daquela que, em 2010, teve de engolir a seco.

Dilma tornou-se protagonista do drama do seu partido. Ela representa o começo e o término do PT pós-mensalão. Oferece à legenda um horizonte para 2014. Mas a escassez de lideranças alternativas não permite ao petismo enxergar na fase seguinte senão o imponderável.

Supondo-se que Dilma consiga prevalecer sobre a crise econômica, terá boas chances de impedir que a oposição aniquilada por Lula faça do mensalão uma plataforma para a ressurreição. Nessa hipótese, afora a fadiga de material que o poder longe produzirá, o PT chegará a 2018 como um cemitério de velhos leopardos e líderes regionais. Gente que almeja a pompa mas tropeça nas circunstâncias.