Fernanda Allegretti
Veja
Empresários que enriqueceram com negócios relacionados à exploração petrolífera enfrentam um momento de indefinição que pode pôr em risco suas empresas – e o conforto a que estão acostumados
Eles viajam em jatos próprios ou fretados. Servem champanhe Veu¬ve Clicquot nas festas e nos petits comités em iates onde reúnem os amigos no fim de semana. Moram em casarões decorados com obras de artistas conceituados e podem trocar de carro por capricho. Além de hábitos caros e contas bancárias cheias de dígitos, esses brasileiros que ganharam um dinheirão com negócios ligados ao petróleo têm em comum o empreendedorismo, o espírito inovador e a obstinação.
A boa vida foi conquistada com muito trabalho e boas sacadas nos negócios. A maioria apostou no setor petroleiro bem antes de se falar em pré-sal – num período em que a economia do Brasil não dava indícios de que se tornaria a sexta maior do mundo. Hoje, apesar da estabilidade financeira, os barões do petróleo estão preocupados. O motivo é, justamente, o pré-sal.
Desde a posse da nova presidente da Petrobras, Maria das Graças Silva Foster, em fevereiro deste ano, o setor passa por um choque de realidade. As metas da empresa foram revistas e, com isso, os contratos com empresas fornecedoras de equipamentos e serviços – as companhias dos barões do petróleo – minguaram.
(Foto: Lailson Santos)
ALMOÇOS EM FAMÍLIA --
Às sextas-feiras, o curitibano Lauro Mathias Neto, de 51 anos, viaja para o litoral catarinense. Lá, ele navega uma lancha de doze lugares, na qual vez ou outra aprecia uma batida de coco. Ultimamente, ele tem tido dificuldade para se desconectar. "Estou com receio da desaceleração da Petrobras", diz. A empresa de Lauro, a Vetor Mathias, fabrica tanques de armazenamento e deslanchou graças a um sistema de construção de tanques com macacos hidráulicos que reduz o tempo de fabricação pela metade. Mesmo ocupadíssimo, Lauro não abre mão de fazer todas as refeições em casa. "Odeio quando marcam almoço ou jantar de negócios." Pela manhã, antes do café, ele caminha até a sacada da sala, que fica de frente para o campo de golfe do Graciosa Country Club, e observa o verde. "Quando toda essa indefinição passar, quero aprender a jogar golfe", diz
Os sinais de que os ventos mudaram vêm de longe. Há quase uma década a Petrobras não cumpre suas metas de produção. No segundo trimestre de 2012, contabilizou um prejuízo de 1,3 bilhão de reais. Foi o pior resultado desde 1999. No semestre, a queda foi de 64% em relação ao mesmo período do ano passado.
Na opinião dos especialistas, o pré-sal foi usado como bandeira política pelo ex-presidente Lula. “O discurso era que a nova descoberta resolveria os problemas do Brasil, e a Petrobras prometeu o que não podia”, diz o economista Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura. “Esse cenário não se sustentou, e agora vamos ter de lidar com a realidade”, acrescenta o advogado tributarista Cláudio Araújo Pinho, autor do livro Pré-Sal: História, Doutrina e Comentários às Leis.
