quinta-feira, abril 25, 2013

Manter bandidos no Congresso ameaça a institucionalidade


Adelson Elias Vasconcellos


Genoíno e Paulo Cunha: usam os mandatos para retaliarem o STF

 Ainda não havia movimento por uma lei ficha limpa no país, e neste espaço defendemos  a necessidade de negar registro de candidaturas a pessoas condenadas. Uma espécie de SPC político. Depois do nome limpo, o sujeito poderia voltar a ter crédito na praça, no caso, poderia voltar a concorrer a cargos eletivos.  O arquivo mantém registro destas sugestões feitas ainda em 2006.

Ora, se para simples registro de uma candidatura é preciso ter a ficha de antecedentes criminais limpa, quanto mais para quem já ocupa  um cargo eletivo. Razão pela qual não se pode entender a teimosia do Congresso em querer manter em seus postos parlamentares condenados, tanto pela justiça comum quanto pelo STF. Agora imaginem condenados pelo STF por crime de corrupção, ativa ou passiva, pouco importa!!!! 

O resultado é que o espírito de porco e de corpo de alguns parlamentares “aliados” (ou seriam cúmplices?), acaba sempre escorregando para ações de de represália. De alguma forma, tentarão impor alguma sanção legal àqueles que os condenaram. 

Tudo ia muito bem até o Ministério Público começar a desarticular as gangues de bandidos de diferentes cores com mandato legislativo. A vingança está construindo através de uma PEC pretendendo-se retirar do Ministério Público autoridade  para investigar.  De certa forma, até porque os petistas flagrados nas operações do MP são peixes pequenos, há alguma resistência em levar adiante a tal PEC.

No caso dos mensaleiros condenados pelo STF, onde os peixes são verdadeiros tubarões, a coisa vai ficando cada dia pior. José Dirceu, político estrategista em guerrilhas, treinado e formado pela Cuba do regime tirânico dos irmãos Castro, não apenas foi condenado por corrupção, mas também o foi por formação de quadrilha e declarado como o chefe da turma que tentou dar um golpe às instituições e à democracia.

Mexeu com ele, cutucou a onça com vara curta. Desde que foi condenado, Dirceu desencadeia uma campanha difamatória   contra o STF, dirigindo seus petardos contra Joaquim Barbosa e Luiz Fux. Mas seu movimento não se restringe em difamar, se utilizando da rede montada pelo PT em parte da imprensa, alimentada com o capilé oficial das publicidades tanto do próprio governo  quanto das estatais. 

Seu último ataque foi encontrar um laranja que se reabaixasse às ordens do guerrilheiro para apresentar uma PEC contra a autoridade do Supremo Tribunal Federal. Pelo projeto,  pretende-se submeter as decisões do STF ao crivo do Congresso, onde o PT e seus aliados gozam de imensa e folgada maioria. Ou seja, sempre que alguma decisão do STF desagradasse aos bruxos, ela seria imediatamente cassada pela quadrilha. Não é bonitinho? 

Duas coisas: por definição consagrada mundialmente pelo menos em países democráticos e sérios, a Suprema Corte sempre foi entendida como a última instância da Justiça. Na jabuticaba inventada pelo guerrilheiro e sua tropa de cúmplices e servos imbecilizados,  quer se criar uma instância superior à Corte Suprema, no caso, o Congresso. Ou seja, a se aprovar tamanha aberração, a própria casa em que se votam as leis do país, teria poderes  para tornar o STF irrelevante, uma espécie de subalterna na ordem institucional. O Congresso teria desta forma, mais poder que os demais. 

Mas não para por aí a cretinice inventada pelos delirantes bruxos da esculhambação.  Querem-se  o poder até para mudar o regimento interno do STF, alterando o quórum das votações daquele colegiado.  

O tal projeto esdrúxulo, se aprovado, é um perigoso precedente para no Brasil se instalar, à moda tupiniquim, a mesma anarquia institucional que temos assistido na Venezuela.  Querem ver?

O PT goza, como se sabe, de imensa maioria congressual. Mas é o Executivo quem detém a caneta que libera as verbas e os cargos que alimenta o apetite vigarista dos maus políticos que vicejam no país. Ora com tal poder, hoje mesmo, o Executivo já submeteu o Congresso aos seus desmandos. Aprovando-se o absurdo pretendido pelos petistas, tirando completamente a autoridade do STF e passando-a para o Congresso,   que hoje já se ajoelha aos caprichos e desmandos do Executivo, mesmo que de maneira disfarçada,   o país estaria perigosamente flertando com uma ditadura. Numa democracia, nenhum dos poderes constituídos é soberano. 

Contudo, por aqui tal equidade de forças estaria completamente destroçada. O STF, no modelo padrão de   uma democracia decente, não apenas é a instância máxima do Judiciário. Ele é também o verdadeiro guardião da Constituição do país, poder ou autoridade esta que se tornaria nula caso vingue o monstrengo em gestação no Congresso. 

E sabem os senhores quem aprovou, inicialmente esta estupidez? Simplesmente, a tal Comissão de Constituição e Justiça, não por coincidência onde tem assentos os senhores José Genoíno e João Paulo Cunha, ambos do PT, e ambos, também, condenados pelo STF na ação penal 470, ou mensalão para os íntimos. 

Assim, de maneira colorida e totalmente enfeitada, as esquerdas veriam triunfar, finalmente, o projeto de ditadura de esquerda que elas alimentam para o Brasil desde a década de 60, na época e, em tempo, abortada por outra ditadura, mas com viés de direita, pelos militares. Seria a consagração de José Dirceu que ainda alimenta o sonho de grandeza de ser o senhor absoluto do regime. 

Mas tanto a castração do Ministério Público, quanto a que se desenha para o STF, estejam certos, serão abandonadas caso o STF decida reduzir as penas de Dirceu e sua quadrilha, os petistas principalmente,  e de preferência fazendo um novo julgamento para inocentá-lo de vez.

O ministro Marco Aurélio Mello ressaltou que, no sistema brasileiro, a palavra fina é do Judiciário. Para ele, a PEC fere o princípio constitucional de separação dos poderes.

Mas a PEC, segundo criticou o ministro Marco Aurélio, é muito mais do que isso. Não se trata apenas de ato de represália às decisões do STF sobre o mensalão.  A última vez que se criou uma aberração do tipo, foi em 1937, com o ditador Getúlio Vargas, que embutiu na constituição não a submissão do Judiciário ao Legislativo, mas sim ao Executivo. Há um ranço autoritário por detrás deste e de outro movimentos assemelhados.   Este o partido que mente asquerosamente de haver lutado contra a ditadura militar pela redemocratização do país.  No fundo, muitos de seus componentes, lutaram foi por instalaram a sua ditadura, a ditadura das esquerdas, dentro do melhor figurino cubano. Não por outra, as ligações do partido com os irmãos Castro sempre foram viscerais, umbilicais, estivesse eles na oposição ou, agora, de donos do poder. 

Mas não pensem que o projeto desta quadrilha se restringiria a capar a autoridade do Ministério Público do Superior Tribunal Federal.  Esta tropa de dementes morais não descansará enquanto  seu maior sonho de consumo que é impor censura aos meios de comunicação, cujo conteúdo ficaria sob a guarda do partido. Seria a verdadeira cereja do bolo da ditadura por eles idealizada. 

Vamos ficar atentos a estes movimentos de usurpação dos fundamentos basilares do regime democrático e do estado de direito, bem como, de que forma irá se comportar o STF diante desta chantagem vergonhosa que querem lhe impor. 

Viveremos, com certeza, dias de muita apreensão, resultado de se manter no Congresso, bandidos condenados preservando-lhes o mandato parlamentar. Sem dúvida, fica consagrado o verdadeiro governo organizado para o crime. 

O jornalista Ricardo Setti, da Veja online, está coberto de razão ao definir a ação de se tentar subjugar o STF ao Legislativo: trata-se de um verdadeiro golpe de estado.  Juntando-se esta insanidade ao Pacote de Abril 2.0, fica claro que o tal espírito democrático desta tropa de indecentes  é só papo de palanque. Na prática e no fundo,  são o que sempre foram: autoritários e tirânicos. É o que resulta de se manter no Congresso condenados pela Justiça.

QUE ABSURDO! A Câmara aprovou hoje um golpe de Estado! Nada menos do que isso!


Ricardo Setti
Veja online

(Foto: Agência Câmara) 

O plenário do Congresso Nacional: 
os parlamentares decentes dos diferentes partidos precisam barrar
 a aberração imoral que se quer aprovar contra os direitos dos cidadãos 

É uma barbaridade!

A Comissão de Justiça da Câmara dos Deputados — justamente a comissão de JUSTIÇA — aprovou hoje um projeto de emenda à Constituição que, se levado adiante, representará nada menos do que um golpe de Estado.

Contrariando uma multissecular tradição profundamente enraizada no Ocidente, contrariando o espírito da Constituição, contrariando o bom senso e as regras elementares da democracia, a emenda à Constituição pretende submeter ao Congresso decisões da Justiça que declare leis como inconstitucionais.

Isso ocorrerá – se essa loucura prosperar – sempre que o Supremo Tribunal Federal julgar procedentes as chamadas Ações Diretas de Inconstitucionalidade (Adin) propostas por vários órgãos legalmente autorizados a isso (veja quais na lei que regula as Adins, parágrafo 2º).

Ou seja, deputados e senadores serão quem decidirão, em última instância, se vale ou não vale o que eles próprios aprovaram. Nesses casos, serão os juízes de si mesmos — em detrimento dos direitos e garantias individuais dos cidadãos, cuja garantia é a Justiça.

O Legislativo, sempre controlado, como os demais Poderes, pelo Judiciário nas nações civilizadas e decentes, será seu próprio controlador em determinados casos — e se colocará acima do Poder Judiciário.
É um escândalo, é uma imoralidade.

Se aprovada a emenda, haverá exceções, e exceções gravíssimas, ao princípio constitucional de que todo ato praticado por agente público — e não apenas esses, mas todo ato que gere consequências jurídicas — tem a GARANTIA de ser ou não, em última análise, referendado pelo Judiciário.

É o Judiciário, nos países civilizados, o supremo guardião das garantias constitucionais, que compreendem todos os direitos e garantias individuais — o direito de ir e vir, o direito à livre manifestação, o direito à livre expressão do pensamento, o direito de associação… Todos os fundamentos de uma sociedade livre e civilizada.

É o Judiciário, nos países civilizados, pelo menos desde os primórdios da República fundada nos Estados Unidos no século XVII, quem exerce o controle da constitucionalidade das leis.

Em certos países, como os próprios Estados Unidos, o papel cabe à Suprema Corte. Outras nações democráticas e civilizadas, como a Alemanha ou a Espanha, mantêm um Tribunal Constitucional específico, ao lado de uma Corte Suprema, que determina se leis aprovadas pelo Legislativo estão ou não de acordo com a Carta de Garantias, a Constituição.

(Foto: Beto Oliveira / Agência Câmara) 

O autor da emenda autoritária e imoral 
é o desconhecido deputado Nazareno Fontenele (PT-PI) 

De todo modo, esse papel nobre cabe sempre ao Judiciário, um dos Poderes independentes do Estado.

A emenda propõe mais barbaridades, entre as quais:

* Sobe para quatro quintos o quórum para o Supremo declarar uma lei inconstitucional.

* Proíbe que ministros do Supremo concedam liminares em mandado de segurança para suspender — até o julgamento final pela Corte — a eficácia de emendas constitucionais.

* Determina que as súmulas de jurisprudência vinculantes (mecanismo editado pelo STF que deve ser seguido por todas as instâncias do Judiciário, com base em decisões repetidamente adotadas pela corte — mecanismo destinado a agilizar a Justiça)) também serão submetidas ao crivo do Congresso antes de entrar em vigor.

Como ocorre com muitos dos trabalhos “sujos” no Congresso, a emenda foi originalmente apresentada por um deputado medíocre, obscuro, de quem ninguém nunca ouviu falar — um certo Nazareno Fonteles, do Piauí (e do PT, é claro!). Ele alcançará, agora, seus 15 minutos de fama, exercendo esse triste papel.

Como a base parlamentar aliada ao governo Dilma está apoiando essa monstruosidade, parece, mesmo, ser a retaliação contra o Supremo prometida pelo ex-presidente da Câmara Marco Maia (PT-RS).

Querem castrar o Supremo!

Querem amordaçar a Justiça!

Querem se vingar pelo fato de a corte ter cumprido a Constituição e as leis e enviado os mensaleiros para a cadeia.

Já dominam o Legislativo com os métodos que todos conhecemos. Agora, querem que esse Legislativo, que controlem, dominem também o Judiciário.

A democracia estará ameaçada com esse golpe de Estado branco se ele seguir adiante no Congresso.

Os homens de bem da Câmara e do Senado, de todos os partidos — e, não tenham dúvida, eles existem — estão com a obrigação cívica de se oporem a esse ato ditatorial.

Brincando com fogo: Comissão aprova proposta que submete decisões do STF ao Congresso


Eduardo Bresciani 
O Estado de S.Paulo

De acordo com o texto do deputado Nazareno Fonteles (PT-PI), parlamentares poderão vetar determinadas deliberações dos ministros da Corte; projeto segue para colegiado especial

A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara aprovou na manhã desta quarta-feira, 24, Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que submete ao Congresso decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre inconstitucionalidade de emendas à Carta Magna e súmulas vinculantes. Na prática, os parlamentares passam a ter o direito de derrubar decisões do Judiciário sobre o tema.

Estavam presentes durante a votação os deputados José Genoino (PT-SP) e João Paulo Cunha (PT-SP), condenados pelo STF no processo do mensalão. Apesar de a votação ser simbólica, Genoino fez questão de registrar sua posição favorável à matéria. A votação ocorreu com a presença de cerca de 20 deputados no plenário. A comissão tem 68 membros titulares, mas como não houve pedido de verificação de quórum a PEC seguirá adiante. O próximo passo é a criação de uma comissão especial para analisar o tema.

O projeto é de autoria do deputado Nazareno Fonteles (PT-PI). Ele propõe que decisões do STF de editar súmulas vinculantes e declarar inconstitucionais emendas à Constituição tenham de ser submetidas ao Congresso antes de ter validade. Somente se o Legislativo não analisar o tema em 90 dias a decisão do STF passaria a vigorar. A proposta ainda altera o quórum necessário para proferir essas decisões para quatro quintos, o equivalente a 9 dos 11 ministros na formação total do STF. Atualmente esse quórum é de 7 votos.

Na justificativa da proposta, Fonteles afirma que o alvo é o chamado "ativismo judiciário". Ele cita decisões como a da fidelidade partidária e do aumento do número de vereadores como decisões que seriam rediscutidas pelo Congresso no caso de o projeto estar em vigor. "Há muito o STF deixou de ser um legislador negativo, e passou a ser um legislador positivo. E diga-se, sem legitimidade eleitoral. O certo é que o Supremo vem se tornando um superlegislativo", argumenta Fonteles.

A proposta tem apoio ainda da bancada evangélica. O relator na CCJ foi o deputado João Campos (PSDB-GO), coordenador da frente parlamentar. Ele repete o argumento sobre o ativismo. "Importa salientar que o quadro atual é, sem dúvida, de exacerbado ativismo judicial da Constituição", diz Campos em trecho do voto. Ele afirma ainda que a medida impediria uma "hipertrofia" do STF.

O projeto não é o primeiro aprovado pela CCJ que opõe o Congresso ao Supremo. No ano passado a mesma comissão aprovou outra proposta de Fonteles que permite ao Legislativo sustar ato do Judiciário. Essa proposta ainda aguarda a criação de uma comissão especial para debatê-la.

Ministros do STF criticam PEC que submete decisões ao Congresso


Carolina Brígido 
 O Globo

“Última palavra não cabe ao setor político, cabe ao Judiciário”, diz Marco Aurélio Mello

Foto: STF
Estado Novo: para Gilmar Mendes, emenda lembra situação vivida 
no país em 1937, quando Getulio Vargas podia revogar decisões do STF 

BRASÍLIA - Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) criticaram duramente a Proposta de Emenda Constitucional 33 de 2011, aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara nesta quarta-feira, que submete algumas decisões tomadas pela Corte ao Congresso Nacional. Para o ministro Gilmar Mendes, a ideia remete à Constituição de 1937, conhecida por “polaca”, que dava ao presidente da República – à época, Getúlio Vargas – o poder de cassar decisões do STF e confirmar a constitucionalidade de leis derrubadas pela Corte. Ele afirmou que não acredita que a Câmara aprove a emenda no plenário.

- Na nossa memoria constitucional isso evoca coisas tenebrosas. Nós temos precedente na Constituição de 1937, em que o presidente da República podia cassar decisões do Supremo e confirmar a constitucionalidade de leis declaradas inconstitucionais. Acredito que não é um bom precedente, a Câmara vai acabar rejeitando isso - declarou.

O ministro também criticou a exigência pela PEC de mais votos no STF para declarar uma lei inconstitucional ou para aprovar súmula vinculante. Para Gilmar, se aprovada, a proposta inviabilizaria a atuação do tribunal.

- Nós temos uma composição de onze e, se temos que decidir por maioria absoluta, muitas vezes temos dificuldade. Acredito que isso acaba por inviabilizar - opinou.

Gilmar ressaltou que, em geral, esse tipo de proposta ocorre quando há contrariedade do meio político em relação a alguma decisão do tribunal:

- Em geral, essas reações são marcadas por decepções, frustrações imediatas. É preciso ter muito cuidado com esse tipo de interação e acredito que, em geral, tem se sabido valorizar a democracia, o Estado de Direito. Acredito que será assim que a Câmara encaminhará.

A PEC altera a quantidade mínima de votos de membros do tribunal para declaração de inconstitucionalidade de uma lei, passando de seis para nove. A aprovação de uma súmula vinculante também precisaria de nove dos onze votos dos ministros. O efeito vinculante teria de ser confirmado, por maioria absoluta, em sessão conjunta no Congresso Nacional. Atualmente, as súmulas são aprovadas por oito ministros. A proposta foi aprovada nesta quarta-feira pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, mas ainda precisa ser submetida por uma comissão especial e por dois turnos de votação no plenário da Casa.

O ministro Marco Aurélio Mello ressaltou que, no sistema brasileiro, a palavra fina é do Judiciário. Para ele, a PEC fere o princípio constitucional de separação dos poderes.

- Nós temos um sistema em que se verifica o primado do Judiciário. A última palavra não cabe ao setor político, cabe ao Judiciário. O órgão de cúpula, o guarda da Constituição é o Supremo. Essa proposta implica o afastamento de uma cláusula pétrea, que é a separação dos poderes da República, harmonia e separação dos poderes da República. Não creio que, para a sociedade brasileira, para o almejado avança cultural, essa submissão dos atos do Supremo seja boa. Ao contrário, é perniciosa - avaliou o ministro.

O ministro afirmou que a PEC soa como retaliação, mas não cogitou a hipótese de ser uma reação às condenações no processo do mensalão. Assim como Gilmar, ele disse que não acredita na aprovação da proposta na Câmara.

- No contexto, a essa altura, na quadra vivenciada, ressoa inclusive como uma retaliação. Uma retaliação que estaria sendo promovida. E eu não acredito que as duas casas do Congresso brasileiro assim se pronunciem, estaria sendo promovida por políticos. Quando o Supremo vota atendendo os anseios da maioria, muito bom. Mas ele tem um histórico de decisões contra majoritárias. Nesse caso não, porque a sociedade aplaudiu o julgamento da AP 470 (processo do mensalão). Agora, não há espaço para esta mesclagem, a meu ver imprópria, que é a submissão das decisões do Supremo a um órgão político - disse.

Marco Aurélio também criticou o aumento do número de votos para declarar uma norma inconstitucional.

- O legislador ordinário previu um quórum de oito votos. Aí teríamos nove, quem sabe a utopia, a unanimidade. Teríamos que ouvir o Nelson Rodrigues no que dizia que toda unanimidade é burra - alfinetou.

O vice-presidente do STF, ministro Ricardo Lewandowski, evitou comentários sobre a PEC:

- Eu entendo que os poderes são independentes e harmônicos entre si. Quando for o caso, se for o caso, o STF vai examinar a constitucionalidade da proposta. Não quero me pronunciar sobre uma PRC que nem foi aprovada ainda.

O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, disse que a PEC provoca “perplexidade”:

- À primeira vista, é algo que causa perplexidade do ponto de vista constitucional. Eu diria que a primeira impressão é de uma perplexidade. Porque, na verdade, aí se está vendo algo que não parece casar muito bem com a harmonia e independência entre os poderes.

Um Senado para rir e chorar

Ruth de Aquino
Revista ÉPOCA

Como deve se sentir um senador que finge falar para uma multidão, diante de cadeiras vazias? 

Nenhum programa de humor me provocou mais risos na semana passada que a história protagonizada por um senador e um garçom, ambos de Tocantins. O senador João Costa, do Partido da Pátria Livre (PPL), preparou um discurso de 14 páginas sobre o aborto. Ao chegar à tribuna, uma surpresa: o plenário estava vazio. Que fazer? Como falar para cadeiras, ainda mais em sessão transmitida pela TV Senado? Em vez de cancelar o discurso, ele decidiu sentar-se no lugar do presidente e recriou a realidade, encenando uma sessão patética.

O senador João chamou o garçom Johnson Alves Moreira para fazer figuração. Não sabemos se Johnson posou de senador falso por pena ou se ganhou uma gratificação de João. Deveria. Johnson ficou em pé por meia hora, mexendo a cabeça em tom de aprovação, com a câmera focando em sua calvície e suas costas, numa tentativa de dar credibilidade às palavras do senador. João abriu o discurso assim: “Senhor presidente, senhores senadores, senhoras senadoras, senhores e senhoras presentes, e aqueles que acompanham esta sessão pela rádio e TV Senado...”. Na plateia, só Johnson.

A história foi relatada em detalhe pela repórter Maria Lima, do jornal O Globo. A foto também é assinada por ela. Um pequeno texto primoroso, por expor o ridículo de uma Casa que paga regiamente senadores para não fazer nada ou quase nada, além de queimar nosso dinheiro na fogueira das vaidades. Segundo o relato, o “garçom-senador virou motivo de piadinhas dos seguranças, que sugeriram que ele fizesse um aparte”. Johnson disse ter gostado da “experiência”.

O senador João encerrou seu discurso sobre “os direitos do nascituro” com outra simulação, como se houvesse uma fila de senadores para falar: “Considerando a exiguidade do tempo e o número de oradores, solicito que as peças do pronunciamento sejam dadas como lidas. Obrigado pela atenção”. Só faltou a claque.

As dúvidas são: para seus colegas senadores, João Costa não passa de um João ninguém e, por isso, não interessa sua posição sobre o aborto? Ou há outros dias de gazeta institucionalizada no Senado, além de segunda e sexta-feira? Como se sente um senador que finge falar para uma multidão, diante de cadeiras vazias? A sessão João & Johnson ficará nos anais do Senado como o “dia do garçom”.

***
Nenhum tema político me causou mais asco na semana passada que a aposentadoria de Roseana Sarney como servidora do Senado. Ela entrou para o Senado em 1974, aos 21 anos de idade, sem prestar concurso público, num “trem da alegria”, chamado por sua assessoria de “processo seletivo”. Ela só trabalhou como servidora durante três anos, entre 1982 e 1985, quando o pai, José Sarney, já era senador. O Senado informa que contratou Roseana em novembro de 1984 e que, agora, a aposentou do cargo de “Analista Legislativo”. É de chorar.

Em 1985, Roseana pediu licença do Senado para acompanhar o pai na Presidência da República, até 1990. Voltou como senadora e saiu depois como governadora. Continuou a contribuir para o RPPS, a previdência dos servidores. Isso é que é visão de futuro... Agora, pediu aposentadoria integral e ganhou. Roseana, em nota, afirmou que a “aposentadoria ocorre 38 anos depois” de ter começado a “trabalhar” para o Senado. Simples assim. E legal, ainda por cima.

Roseana receberá por mês, de aposentadoria, R$ 23.859,34. Como governadora do Maranhão, ganha R$ 15.409,95. O Maranhão, capitania dos Sarneys, é o Estado com o segundo pior IDH do Brasil – perdeu a primazia para o Estado de Renan Calheiros, Alagoas. Se Roseana quisesse, poderia acumular três aposentadorias quando deixasse o cargo atual: como ex-governadora, ex-senadora e ex-servidora. Porque são fontes diferentes. É o motivo oficial. No país do rombo na Previdência, calcula-se que 67% dos aposentados pelo INSS recebam o equivalente ao salário mínimo: R$ 678. Um sistema de castas duro de engolir, impossível de explicar.

Roseana teve escola particular de enriquecimento com o pai, que acumulou todas as fontes de renda possíveis – como o auxílio-moradia embolsado irregularmente. Há dois anos, o site Congresso em Foco divulgou que José Sarney recebia um supersalário de R$ 62 mil por mês: a soma do subsídio de quase R$ 27 mil do Senado aos R$ 35 mil de duas aposentadorias, no governo no Maranhão e no Tribunal de Justiça estadual.

Ao contrário do pai, Roseana prometeu “devolver aos cofres públicos” a parte dos rendimentos que ultrapassar o teto do funcionalismo, R$ 28 mil. Não sabemos como fará isso. Para o Senado, ela não pode devolver nada. Depositará na conta do Tesouro? Fará um requerimento abrindo mão de quase um terço de sua remuneração mensal de R$ 39 mil? Doará para a Fundação Sarney? Vamos esperar para ver. Prometo divulgar seu ato de generosidade, Roseana.


Que tal lembrar certos fatos que o lulopetismo esconde, envergonhado


Ricardo Setti
Veja online

(Foto: veja.abril.com.br) 

Dirceu, na época em que era braço de ouro do então presidente Lula: 
a memória do PT é muito seletiva. Cabe à oposição, se quer mesmo
 fazer oposição, começar apor lembrá-las

Ao exigir no Congresso que o governo envie à Justiça os resultados do inquérito administrativo que apurou as bandalheiras de que é acusada Rosemary Noronha, a “Rose”, amigona do ex-presidento Lula que fez do gabinete da Presidência em São Paulo uma central de tráfico de influências, a oposição começa a parecer que quer mesmo fazer oposição.

Neste caso específico, ficou faltando o maior partido da oposição, o PSDB, mas, de qualquer forma, o presidenciável Aécio Neves vem aumentando o tom de críticas ao governo lulopetista desde que, em fevereiro, criticou o que considerou os 13 principais fracassos do governo.

Mas ainda é pouco para uma oposição de verdade.

Como modesta contribuição ao banco de ideias da oposição, este blog sugere que a oposição, para deixar de ser “oposicinha”, comece por refrescar a memória coletiva brasileira, que é curta — enquanto a de boa parte dos lulo-petistas extremamente seletiva –, lembrando aos cidadãos que Lula e sua turma, ALÉM DO ESCÂNDALO TENEBROSO DO MENSALÃO, entre outros episódios que mencionarei futuramente…

*… foram contra a eleição de Tancredo Neves como presidente da República em 1985, ato que encerraria a ditadura militar, dando lugar a um regime civil que restauraria as liberdades públicas e a democracia.

Foto: Dedoc / Editora Abril 
Tancredo Neves discursa já como presidente eleito para restaurar 

a democracia no Brasil, em 1985: o PT não apoiou sua eleição 

Os então deputados petistas que votaram em Tancredo – Ayrton Soares (SP), Bete Mendes (SP) e José Eudes (RJ) — foram expulsos do partido.

*… não participaram da solenidade de homologação da nova Constituição democrática, a 5 de outubro de 1988, e deixaram claras suas “ressalvas” ao texto aprovado por todos os deputados e senadores de todos os partidos.

Os petistas assinam a nova Constituição, porque era uma formalidade inescapável, mas o próprio Lula, então deputado constituinte, pronunciou um longo discurso 12 dias antes da promulgação, a 23 de setembro de 1988, dizendo, com todas as letras: “O partido [PT] vota contra o texto, e amanhã, por decisão do nosso Diretório – decisão majoritária – assinará a Constituição, porque entende que é o cumprimento formal da sua participação nessa Constituinte”.

* … defenderam em 1989 o calote da dívida externa brasileira, com Lula candidato à Presidência – seria derrotado no segundo turno por Fernando Color –, medida que levaria o Brasil à bancarrota e à desgraça, faria secar os investimentos externos por tempo indeterminado e transformaria o país em pária internacional.

* … recusaram-se num momento de gravíssima crise institucional, no final de 1992, a colaborar com o vice Itamar Franco, que assumiu em definitivo a Presidência com o afastamento de Fernando Collor e, no Planalto, tentou fazer um governo de grande acordo nacional — que o PT não quis — para tirar o país do caos econômico e da derrocada moral a que o levara seu antecessor.

A ex-prefeita petista de São Paulo Luiza Erundina, uma exceção, cometeu o “crime” de cooperar com o presidente Itamar como ministra da Administração e viu-se obrigada a deixar o PT.

* … combateram radicalmente, sem tréguas, o Plano Real, classificando como “eleitoreiro” o mais bem sucedido programa de estabilização da moeda da história econômica do país, concebido por equipe reunida pelo ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, e bancado pelo presidente Itamar.

Foto: Dedoc / Editora Abril 

O então ministro da Fazenda Rubens Ricupero e o Presidente Itamar Franco
com as primeiras cédulas do Real, em 1994: o plano que estabilizou a economia
 foi ferozmente combatido pelos petistas -- cujos governos, depois, tanto se beneficiaram dele

Sem o Plano Real, como se sabe, os proclamados êxitos econômicos do lulalato não existiriam.

* … se opuseram ferozmente a todas as privatizações que, durante os dois mandatos de FHC (1995-2003), dinamizaram e modernizaram a economia do país, aumentaram a arrecadação de impostos, diminuíram o peso do Estado, melhoraram a competitividade do Brasil no mercado internacional e tornaram o país terreno fértil para investimentos estrangeiros.

A oposição do lulo-petismo, que não esteve alheio à participação ematos de hostilidade e mesmo da agressão física a empresários e autoridades durante leilões na Bolsa de Valores, incluiu a da telefonia, que permitiu entre outros resultados que o país pulasse em menos de duas décadas de 800 mil celulares para os mais de 200 milhões que tem hoje.

* … manifestaram-se em 1999 inteiramente contra a adoção de um dos três pilares da estabilidade do país – a política de câmbio flutuante.

No mesmo ano, declararam-se contrário ao segundo deles, a política de metas de inflação.

No ano seguinte, combateram e votaram contra o terceiro pilar do tripé que, ironicamente, propiciaria um governo extremamente favorável ao próprio Lula – a Lei de Responsabilidade Fiscal .

Uma vez no poder, os três pilares — elogiados por integrantes da equipe econômica petista — serviram para Lula, beneficiado pelos preços internacionais dos principais produtos de exportação do país, deitar e rolar.

* … inventaram e propagaram uma campanha de teor golpista e antidemocrática, o “Fora FHC”, tão logo o presidente iniciou em 1999 o segundo mandato, para o qual, derrotando Lula, foi eleito por MAIORIA ABSOLUTA dos eleitores brasileiros, e no PRIMEIRO TURNO.

* combateram e criticaram, a partir de 2001, várias medidas da chamada “rede de proteção social” estabelecida pelo governo FHC, como o Bolsa Escola, o vale-alimentação, o vale-gás, o auxílio a mulheres grávidas que fizessem todos os exames do pré-natal e o auxílio a famílias que evitassem o trabalho infantil de seus integrantes.

Os distintos programas que Lula e seus seguidores, na oposição, consideravam “esmola” e parte de uma suposta ação eleitoreira viriam a ser unificados durante o lulalato e transformados em sua principal vitrine: o Bolsa Família — utilizado, como todos sabemos como O instrumento eleitoreiro por excelência.

É evidente que muita gente, no Brasil, se lembra disso — mas muitíssimos se esqueceram, e muitos eleitores jovens mal souberam ou jamais se inteiraram desses fatos.

Então, para um começo de conversa, a oposição poderia lembrar uma vez por semana, em discursos ou entrevistas, essas verdades da vida que o lulopetismo escondeu, envergonhado.

Já seria um começo.

País do faz de conta


Zuenir Ventura 
O Globo

O Brasil é mais impressionista do que um quadro de Monet. Está sempre dando a impressão de uma coisa, quando é outra. Como escreveu Merval Pereira ontem, citando o ministro Joaquim Barbosa, é o nosso jeito de “não fazer as coisas fingindo que está fazendo”. É o país do faz de conta.

Em certas áreas então, como na Justiça, a realidade é uma ilusão de ótica mais que enganadora. O nosso Código Penal, por exemplo, não permite que o “cumprimento das penas privativas de liberdade” seja superior a 30 anos, mas isso não impede que as pessoas sejam condenadas a 50, 100 anos de prisão e até mais.

O resultado na prática é que, além da clássica forma de impunidade, existe outra, essa original: condena-se com rigor excessivo, mas se pune com tolerância máxima, quando se pune.

O nosso mais famoso bandido, Fernandinho Beira-Mar, foi condenado recentemente a 80 anos, e suas penas somadas chegam a 200 anos de reclusão. Mas ele vai cumprir quanto do que deve? Com certeza, nem 10%, considerando-se os benefícios que em geral são concedidos.

O caso mais recente é o do júri do Massacre de Carandiru: dos 26 policiais julgados, 23 receberam sentenças de 156 anos de prisão pela morte de 13 dos 111 detentos daquela penitenciária de triste memória.

A pena impressionou os jornais estrangeiros. Que país rigoroso! Até a Anistia Internacional celebrou o resultado, recebendo-o como um sinal de que no Brasil a “Justiça não irá admitir abusos cometidos pela Estado contra a população carcerária”.

Claro que a condenação foi um dado positivo, inclusive porque contraria o pensamento bárbaro de parte da população, para quem “bandido bom é bandido morto”. Mas não se pode esquecer que depois de aguardarem o julgamento em liberdade por 20 anos, esses 23 réus ainda vão permanecer livres por muito tempo.

Há quem acredite que nem presos eles serão, pois haverá apelações e recursos a instâncias superiores. “Só para chegar ao Supremo”, calcula o diretor da ONG Conectas, Marcos Puchs, “esse caso levará dez anos”. Sem falar que a demora pode levar à prescrição dos crimes.

Moral da história: em certos casos, a presunção de inocência funciona em favor da impunidade até quando as provas já condenaram.

O governo já fez passar na Câmara, faltando o Senado, um projeto que seria para evitar a proliferação de partidos. De fato os temos demais — de aluguel, de venda, de fachada. Mas, fazendo de conta que é para moralizar a política, tudo indica que o expediente tem um alvo certo: Marina Silva. Sua pré-candidatura, segundo as pesquisas, é a que mais ameaça a de Dilma.

Um inferno cheio de boas intenções


José Nêumanne
O Estado de São Paulo 

A presidente Dilma Rousseff não compreendeu a evidência que emergiu das urnas venezuelanas na última eleição presidencial. A Venezuela é – sempre foi – um país dividido ao meio. Nos últimos anos, o carisma de Hugo Chávez, apoiado numa capacidade de comunicação e numa loquacidade similares às do compadre dele e padrinho dela Luiz Inácio Lula da Silva, fez a balança pesar mais para o seu lado. Mas sua morte restaurou o equilíbrio de antanho e de nada adiantaram os truques continuístas incorporados às instituições políticas e eleitorais do país pelo comandante bolivariano para evitar que a calamitosa situação econômica se refletisse nas urnas.

A pequena margem da maioria de Nicolás Maduro sobre Henrique Capriles e o fato de ela contrariar o resultado de pesquisas de boca de urna não caracterizam, por si sós, ter a contagem de votos sido fraudada. Mas também não faltaram evidências de uso abusivo da máquina pública em favor do presidente reeleito. Só o fato de ter ele feito propaganda partidária à véspera do pleito na televisão pública evidencia a quebra de um conceito elementar de uma disputa eleitoral numa democracia digna dessa denominação: a igualdade de oportunidades para quem dispute a preferência do eleitor.

Não dá para questionar a legitimidade da escolha de Dilma para presidir o Brasil. Mas a lisura dos resultados eleitorais brasileiros, que nunca foi posta seriamente em dúvida, não a autoriza a apoiar, em nome da Nação toda, nenhum dos lados numa eleição sobre a qual paire alguma dúvida. Até porque a votação foi parelha demais e a evidência dessa igualdade exige um mínimo de respeito democrático a quem optou pela substituição do escolhido por Chávez por um oposicionista. Dilma não é presidente apenas de quem a sufragou. Vigendo neste país uma democracia de fato, e ninguém tem o direito de duvidar disso, ela governa em nome de todos. Só que não deveria usar esse peso para ajudar um amigo ou parceiro de crença ideológica.

Ainda mais quando o amigo e companheiro apoiado levou a ferro e fogo até a última faísca a convicção que ela mesma já expressou, em plena campanha antecipada para continuar no poder, de que é lícito “fazer o diabo” para ganhar uma eleição. Felizmente, o Brasil não é a Venezuela. As instituições de nosso Estado Democrático de Direito não permitem a licenciosidade de que os bolivarianos lançaram e lançam mão no país vizinho para controlar Judiciário e Legislativo como se fossem não Poderes autônomos, mas instâncias subordinadas aos mandatários do Executivo. E, Dilma seja louvada, a livre comunicação nestas plagas impede que nossos governantes transgridam as leis.

Convém, no entanto, que as forças vivas da sociedade brasileira atentem para manobras, nem sempre muito sutis, às quais a aliança que sustenta o governo federal, com fome e força de leão, apela para não largar o osso suculento das presas da caçada institucional. Tudo tem sido feito no atual governo para assegurar à sua chefe a vitória – e sem ter de disputar segundo turno – no pleito federal do ano que vem. Diante da perspectiva de retirada do aliado histórico Eduardo Campos, presidente nacional do Partido Socialista Brasileiro (PSB) e governador de Pernambuco, a chefe do governo tratou de ampliar sua base de sustentação atraindo para o palanque o Partido Social Democrático (PSD), do ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab. E de manter a sociedade com o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), com direito ao bis de vice.

Para evitar deserções ela tratou ainda de jogar no lixo as abandonadas intenções de sanear a Esplanada dos Ministérios, trazendo de volta para lá os maiorais do Partido Democrático Trabalhista (PDT) e do Partido da República (PR), que haviam sido defenestrados em nome da decência cívica e da probidade administrativa.

E da mesma forma que abre mão de nobres princípios assumidos como bandeira no início de seu governo, Dilma Rousseff também recorre ao pretexto de uma providência necessária para reduzir o déficit de representatividade na democracia nacional apenas para atender ao mais deslavado oportunismo. Com a mesma desfaçatez com que cria ministérios para abrigar o maior número de partidos na base governista, a presidente levou a Câmara dos Deputados a aprovar a toque de caixa novas regras para impedir que ex-aliados e eventuais adversários no futuro inflem seus palanques. A lei aprovada na Câmara e encaminhada ao Senado modificando os critérios de distribuição das verbas do Fundo Partidário e dos segundos no horário da propaganda partidária no rádio e na televisão é a mais deslavada prova de acerto da filosofia avoenga segundo a qual “de boas intenções o inferno está cheio”. Prova-o o emprego de dois pesos e duas medidas no tratamento de sombra e água fresca dado ao futuro aliado Kassab, oposto à dieta de pão e água a que submeterá os ex-companheiros de jornada Eduardo Campos e Marina Silva. Com direito ao cínico comentário do ministro-chefe da Secretaria da Presidência, Gilberto Carvalho, que atrelou o expediente malandro de desfalcar desde já adversários prováveis de daqui a 18 meses ao preceito democrático da fidelidade partidária, corretíssima demonstração de respeito à soberana vontade da cidadania.

Ainda que o presidente do PSDB de Minas, deputado Marcus Pestana, exagere ao comparar a iniciativa de Dilma ao “pacote de abril”, que garantiu à ditadura militar a vitória eleitoral em 1977, mas não lhe assegurou a sobrevivência, o casuísmo continuísta excede em cuidados. Como a reeleição da presidente é muito provável, mesmo que só ocorra no segundo turno, essa pressa toda na corrida de sede ao pote deixa no ar um preocupante desapreço à igualdade de oportunidades, sem a qual a democracia é uma falsa ilusão enganosa e injusta.

Ilusão de ótica


Dora Kramer
 O Estado de S.Paulo

A inclusão do nome do presidente do Supremo Tribunal Federal na lista das 100 pessoas mais influentes do mundo escolhidas pela revista americana Time reabriu a série de homenagens a Joaquim Barbosa, bem como a temporada de especulações sobre a possibilidade de uma candidatura à Presidência da República em 2014.

Em princípio, o quesito "condições objetivas" inscreve essa hipótese eleitoral na seara das miragens, para não dizer das simplificações impensadas. A eleição é "casada", de deputado estadual a presidente, passando pelas disputas à Câmara, ao Senado e aos governos dos Estados. Dependente, portanto, de estrutura partidária ou, como no caso do PSB, de coligações substantivas.

Barbosa não tem partido e os que detêm as condições acima expostas já têm candidatos. Nenhum deles estaria disposto a ceder seus espaços. Muito menos a alguém tão impermeável às transações típicas do modelo de governo lastreado em fisiologismo.

Difícil imaginar Joaquim Barbosa numa roda de discussão sobre o toma lá dá cá. Seria o "defeito" da qualidade que poderia fazer dele um excelente candidato em cenário (infelizmente?) fictício no cotejo com a realidade política.

Uma eleição é algo mais complexo que a comunhão de vontades, senso de oportunidade e construções hipotéticas. Em 1989, quando Fernando Collor decolou a bordo de um PRN inexistente, a eleição era "solteira"; só para presidente, podendo se dar em torno de uma personalidade.

Pela norma vigente, partidos precisam eleger o maior número possível de deputados para que tenham influência no Congresso e, com isso, mereçam a atenção do Executivo; prefeitos precisam "ter" parlamentares que defendam seus interesses em Brasília e, em troca, trabalham pela permanência deles no Congresso.

A dinâmica desenhada de maneira resumida é essa, e nela não se incorporam com suavidade fatores exógenos. Uma eventual candidatura do presidente do Supremo a presidente da República por esse critério se enquadra no terreno nas excentricidades.

O que não quer dizer que Joaquim Barbosa não seja objeto do desejo no mundo político. É, mas não como concorrente. Seu apoio seria algo extremamente bem recebido por qualquer candidato.

Sendo praticamente impossível obtê-lo de forma explícita, os políticos provavelmente o buscarão de maneira implícita, procurando estabelecer algum tipo de identificação com a pessoa ou com os valores representados por Barbosa.

Se vão conseguir são outros quinhentos. Pertencentes a uma história a ser contada de acordo com os parâmetros impostos pelo presidente do STF ao manejo político do simbolismo de austeridade moral que transmite à opinião pública.

Uva verde. 
Nas "internas" do governo e cada vez mais nas "externas" do PT, já se usa a expressão "bolha" em relação à possível candidatura de Eduardo Campos à Presidência. Emprestada da economia com o significado de inconsistência, o vocábulo tem o sentido de desqualificar a recepção positiva que o governador de Pernambuco vem tendo entre políticos e empresários.

Nome do jogo. 
O mote do discurso de campanha da oposição por ora é "inflação de alimentos". O senador Aécio Neves encaixa as três palavras em cada cinco de dez frases que fala sobre seus planos de construção da candidatura presidencial pelo PSDB.

Outro Pacote de Abril


Marcus Pestana

O Governo Dilma e o PT revelam que temem enfrentar Aécio Neves, Eduardo Campos e Marina Silva. E querem uma reeleição controlada

No tortuoso processo de transição para a democracia na década dos 70, o Pacote de Abril ocupou papel central. O regime militar, acossado pelo aumento da inflação e do endividamento externo, patrocinava a chamada abertura. Antes disso, Ulysses Guimarães à frente do MDB havia percorrido, em 1973, todo o País em sua heroica anticandidatura à Presidência da República, renovando o ânimo das oposições.

Em novembro de 1974, a sociedade responde silenciosamente pelo voto. Mesmo em ambiente de graves restrições à liberdade, o MDB elegeu 16 senadores, assustando o governo.

A crise econômica se agravava e o regime ziguezagueava, produzindo incertezas. O governo não tinha a maioria de 2/3 para introduzir mudanças constitucionais. Havia uma pedra no caminho. O receio eram as eleições de 1978.

Veio o Pacote de Abril. E as medidas casuísticas entraram em vigor: eleições indiretas para governador, um terço de "senadores biônicos", sublegendas, aumento de representação de estados menores, restrições na propaganda, ampliação do mandato presidencial. O regime queria ganhar, a qualquer preço, as eleições de 1978. Fecha o pano, vamos aos nossos dias.

Em 2013, o Congresso sepulta melancolicamente a possibilidade de uma verdadeira reforma política. Por falta de liderança da presidente Dilma e inoperância de sua ampla maioria naufragam as necessárias mudanças em nosso sistema político e eleitoral. Isto depois de estimularem e patrocinarem a criação de um novo partido para fragilizar a já amplamente minoritária oposição.

O STF reconheceu a este novo partido direito ao tempo de rádio e TV e ao fundo partidário, deslocados principalmente do espaço das oposições.

Diante disto, nas últimas semanas, Dilma, o PT e seus aliados aprovaram seu pequeno "Pacote de Abril" na Câmara dos Deputados. Simples e mortífero, mudando as regras no meio do jogo. O que valeu para o PSD de Kassab, não valeria para a Rede de Marina Silva, o Solidariedade de Paulinho da Força e para a fusão do PPS com PMN. O "Pacote de Abril" de Dilma quer, principalmente, aniquilar a candidatura de Marina Silva.

O Governo Dilma e o PT revelam que temem enfrentar Aécio Neves, Eduardo Campos e Marina Silva. E que querem, guardadas as devidas proporções, tal qual no Pacote de Geisel, uma reeleição "controlada", a partir do uso da máquina e de restrições casuísticas às oposições.

Dilma, o sol e a peneira


O Estado de S.Paulo

Com um despudor que daria inveja aos antigos coronéis da política brasileira, a presidente Dilma Rousseff nega que já esteja em campanha pela reeleição, "porque eu tenho obrigação durante 24 horas por dia de dirigir o Brasil". É de imaginar o que faria se estivesse. Abordada pela imprensa depois da abertura de uma exposição do músico Carlinhos Brown, anteontem no Palácio do Planalto - decerto uma pausa excepcional na sua inesgotável jornada de trabalho -, Dilma disse, ainda sem corar, que deve ser "a única pessoa que não tenha interesse em discutir o processo eleitoral na metade do seu governo".

Viagens e comícios disfarçados de solenidades pelo País afora, aparições no horário nobre, meticulosamente produzidas pelo seu marqueteiro João Santana, investidas recorrentes contra a oposição à maneira do seu patrono e mentor Lula - tudo isso, na versão da presidente, é "dirigir o Brasil". Na mesma categoria há de se enquadrar o casuísmo recoberto de suas digitais para limitar drasticamente o acesso dos novos partidos - a começar pela Rede Sustentabilidade da ex-ministra Marina Silva, em fase de coleta de assinaturas para a sua criação - ao horário de propaganda eleitoral e aos recursos do Fundo Partidário.

Na mesma terça-feira em que Dilma invocou as exaustivas obrigações que não lhe permitiriam "discutir o processo eleitoral", que dirá fazer campanha, a maioria governista na Câmara dos Deputados terminou de aprovar o projeto restritivo do deputado peemedebista Edinho Silva, ostensivamente encampado pelo Planalto. A proposta seria meritória, no combate à proliferação partidária, não fosse o seu objetivo reduzir o número de rivais da presidente nas urnas de 2014, para dar-lhe a vitória já no primeiro turno. É, por excelência, o caso de Marina. Na última disputa presidencial, concorrendo pelo nanico Partido Verde, ela amealhou perto de 20 milhões de votos, ou 19% do total.

Em si, a mudança das regras se justifica. As novas legendas não perdem o direito de arrebanhar quantos parlamentares queiram se filiar a elas, sem incorrer em infidelidade partidária. Descabido é o arranjo atual que facilitou a migração de dezenas de políticos para o PSD lançado em 2011 pelo então prefeito Gilberto Kassab. Isso porque, graças a uma insólita decisão do Supremo Tribunal Federal, ao arrepio da letra e do espírito da lei, eles puderam carregar na bagagem, como queria o governo, a parcela que lhes corresponderia de tempo de TV e dinheiro do Fundo, como se os seus mandatos lhes pertencessem e não às siglas pelas quais se elegeram.

Com a terceira maior bancada federal, a legenda cujo criador dizia não ser de esquerda, centro ou direita - mas assumidamente dilmista -, foi a quarta mais votada nas recentes eleições municipais. Agora, lado a lado com o PT e o PMDB, o PSD defende descaradamente a mudança da norma que o fez prosperar. As evidências que desnudam o oportunismo do projeto patrocinado pela presidente como parte de sua campanha são irrefutáveis. A primeira foi a rejeição, por 178 votos a 74, da emenda ao texto básico vitorioso na Câmara, semana passada, que adiaria para fevereiro de 2015 a sua entrada em vigor. A segunda é a sofreguidão da presidente em liquidar a fatura o quanto antes, em razão do que a base aliada no Senado dará à matéria regime de urgência, levando-a a plenário sem passar pelas comissões temáticas da Casa.

A terceira evidência foi a decisão da cúpula do PT de obrigar os seus senadores a votar na proposta como está, tão logo um deles, o próprio líder da bancada, Wellington Dias, fez saber que apoiava o adiamento da sua vigência para depois das eleições do ano que vem. A recém-surgida frente contra o casuísmo, aproximando os prováveis candidatos Aécio Neves, do PSDB, Eduardo Campos, do PSB, e Marina Silva, da Rede em formação, além de dissidentes do PMDB, não tem votos para prevalecer no Senado. Mas as suas denúncias, comparando o projeto ao "pacote de abril" baixado pela ditadura em 1977, que fechou temporariamente o Congresso, entre outras violências, são desmoralizadoras para Dilma. Assim também a sua patética tentativa de tapar o sol com a peneira.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Em matéria de cara de pau, Dilma só não consegue superar a de Lula que é  imbatível em termos de hipocrisia. Mas aguardem o dia 1° de Maio e reflitam sobre o discurso presidencial comemorativo à data. Segundo se informa, Dilma pretende capitalizar, politicamente, a recente lei aprovada pelo Congresso concedendo direitos  trabalhistas aos trabalhadores domésticos.  É o velho PT cumprimentando com o chapéu alheio. 

Quando da aprovação de emenda constitucional que instituiu a reeleição  para cargos executivos nas três esferas da administração, fui um dos concordaram com a medida. Entendia que apenas 4 anos era pouco tempo para se tentar mudar alguma coisa no país. 

Hoje, começo a me  alinhar à ideia de Aécio Neves, de quem, por sinal, não sou muito fã, de revogar tal medida e estendendo os mandatos executivos para 5 anos.  Dilma, na verdade, tentou governar o país em apenas meio mandato, dedicando a outra metade apenas visando sua reeleição. As reformas estruturais que tanto o Brasil precisa para dar um impulso novo e virtuoso ao seu desenvolvimento foram esquecidas, pelo temor de perder capital político.

Um estadista deve fazer o que é preciso e o que é certo em favor do país que dirige, e não apenas cuidar de seus currais eleitorais como tem sido praxe nos governos petistas. 

Oito anos para fazerem o que temos assistido é tempo demais para ser perdido na vala comum dos arranjos partidários em que o Palácio Planalto foi transformado. Hoje, não se governo “O” país, se governa “A” reeleição. Daí porque o governador Eduardo Campos, de Pernambuco, estar totalmente correto ao afirmar que dá para se fazer muito mais. Dá mesmo.      

Simon chama Dilma de 'marechala' e 'política vulgar'


Valor Online

Aos 83 anos de idade, o senador Pedro Simon (PMDB-RS) fez o discurso mais contundente contra a presidente Dilma Rousseff, durante a discussão do pedido de urgência, apresentado por governistas, para votar o projeto que dificulta o funcionamento de novos partidos políticos.

Contrário ao projeto, Simon chamou Dilma de "marechala presidente" e "política vulgar". Afirmou que a presidente está "perdendo a credibilidade" e "se deixou ludibriar pela paixão do cargo e para se manter no cargo, custe o que custar".

Simon classificou o projeto, que atrapalha a candidatura da ex-ministra Marina Silva a presidente, como "um pacote de abril de quinta categoria", comparando-o ao conjunto de leis editadas em 1977 pelo então presidente Ernesto Geisel, que, entre outras coisas, fechou temporariamente o Congresso. A diferença, disse o senador, é que naquela época o Brasil vivia uma ditadura. Agora, na democracia, "nos entregar é ato de covardia".

"Talvez tenhamos de nos referir à marechala presidente. Talvez, daqui a pouco, ela tenha de aparecer com um casaco diferente, que pode até continuar sendo vermelho, sua cor preferida, mas com estrelas. O pacote de abril da dona Dilma começou, e o pior é que quem começa não volta para trás e se acostuma."

Simon, que calou o plenário durante o inflamado discurso, afirmou que a popularidade de Dilma vai começar a cair, não só por causa da inflação, "que não é de mentirinha", à Petrobras, "que está se esvoaçando de uma maneira terrível" e não só aos juros, que começaram a subir de novo. "A presidenta está começando a perder a credibilidade. Já está começando a se ver que ela é uma política vulgar."

A presidente foi bombardeada pelos senadores, da tribuna, durante toda a sessão, pela pressão feita sobre a base para aprovação do projeto que impede que partido novo tenha tempo de televisão e recursos do fundo partidário relativos ao número de deputados que aderiram à sigla.

Poucos governistas subiram à tribuna para defender o projeto. Entre eles, Humberto Costa (PT-PE) e o líder do PT, Wellington Dias (PI). Da oposição, o líder do DEM, José Agripino (RN), foi o único a defender o projeto.

Planalto sofre revés em lei que barra siglas


Débora Álvares, João Domingos, Mariângela Gallucci e Ricardo Brito
O Estado de S.Paulo

Senadores da base foram pressionados a apreciar com urgência proposta, mas quórum caiu; no STF, ministro manda suspender votação

BRASÍLIA - O Palácio do Planalto foi duplamente derrotado na noite desta quarta-feira, na tentativa de votar o projeto de lei que cria dificuldades para a criação de novos partidos e asfixia as candidaturas à Presidência da ex-ministra Marina Silva e do governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB). O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), suspendeu a tramitação da proposta logo depois de o Senado ver-se obrigado a encerrar, por falta de quórum, a sessão que decidiria o pedido de urgência para a votação do projeto.

Na liminar, pedida pelo PSB, Mendes afirmou que cabe ao STF analisar questões internas do Congresso em casos de "flagrante desrespeito ao devido processo legislativo ou aos direitos e garantias fundamentais". O ministro suspendeu a tramitação do projeto até que o plenário do Supremo decida se a proposta pode ou não ser votada pelos senadores.

O texto já foi aprovado pela Câmara em votações tumultuadas, nas quais o governo passou o rolo compressor sobre os deputados. Se for aprovado, o projeto impede que novos partidos tenham acesso à maior fatia do Fundo Partidário e do tempo de propaganda na TV.

Gilmar Mendes destacou na liminar que a proposta foi aprovada na Câmara com "extrema velocidade de tramitação". Para ele, está configurada a possibilidade de violação aos princípios democráticos, do pluripartidarismo e da liberdade de criação de legendas.

"A aprovação do projeto de lei em exame significará, assim, o tratamento desigual de parlamentares e partidos políticos em uma mesma legislatura. Essa interferência seria ofensiva à lealdade da concorrência democrática, afigurando-se casuística e direcionada a atores políticos específicos", afirmou na decisão. Segundo ele, o STF já havia decidido, ao julgar o caso da criação do PSD, que o parlamentar pode mudar de partido e levar consigo o tempo de TV e a parcela do Fundo Partidário.

Durante o dia, senadores contrários à aprovação do projeto – do PSDB, PSB e dissidentes do PMDB, PR e até do PT – usaram a tribuna para criticar a presidente Dilma Rousseff, segundo eles empenhada em aprovar o projeto e, com isso, enfraquecer potenciais adversários na disputa eleitoral.

A urgência foi articulada pelo líder do PTB, Gim Argello (DF). "Isso é uma missão. Sou base do governo. Sou Dilma Rousseff. Nunca escondi isso", disse.

Apesar disso, faltou quórum para aprovar o requerimento. Embora 76 senadores estivessem presentes na Casa, só 23 votaram quando foi decidida a urgência, o que derrubou a sessão – era necessária a presença de 41.

Críticas
Os peemedebistas Pedro Simon (RS) e Jarbas Vasconcelos (PE) atacaram o governo. "Isso que está aí é um Pacote de Abril de quinta categoria. Havia uma ditadura, um ato institucional, havia cassações, havia marechais, havia todo mundo", disse Simon, referindo-se ao Pacote de Abril de 1977, imposto pelo então presidente Ernesto Geisel. A medida criou a figura do senador biônico para evitar a vitória do MDB, o único partido de oposição na época.

"Hoje nós estamos numa democracia. O Brasil está livre. O Supremo está livre. A presidente da República está livre. O povo está livre. Podemos fazer o que quisermos dentro da democracia. Nós estamos nos entregando! E nós nos entregarmos é ato de covardia. Talvez tenhamos de nos referir à marechala presidente. Talvez, daqui a pouco, ela tenha de aparecer com um casaco diferente, que pode até continuar sendo vermelho – sua cor preferida –, mas com estrelas. O Pacote de Abril da dona Dilma começou, e o pior é que quem começa não volta para trás e se acostuma", bradou Simon.

Jarbas acrescentou: "Essa senhora Dilma tem a formação muito pior que muitos generais da ditadura. Ela é intolerante, autoritária. O PT não fecha o Congresso porque não tem força. Se tivesse, talvez fechasse".

Para o senador Aécio Neves (MG), provável candidato do PSDB ao Planalto, Dilma já começou a "fazer o diabo" na campanha pela reeleição. "A prova disso é a mobilização do PT no Congresso para tentar aprovar o projeto que derruba a portabilidade do tempo de TV e de recursos do Fundo Partidário para os novos partidos, o que diminui expressamente o interesse de políticos de debandarem para novas legendas, como a Rede Sustentabilidade, de Marina Silva", afirmou.  

Viés oportunista num projeto de lei eleitoral


Editorial
O Globo

Exercícios autoritários do governo parecem indicar que as avaliações para 2014 não são exatamente o que mostram os números atuais das pesquisas

A Câmara concluiu terça-feira a votação do projeto que restringe o acesso de novos partidos ao tempo de propaganda eleitoral na TV e aos recursos do Fundo Partidário. Foi rejeitada, por 158 votos a 74, a emenda do líder da Mobilização Democrática, Rubens Bueno (PR), que adiava para 2015 a entrada em vigor das novas normas. Tenta-se agora aprovação imediata no Senado.

A ex-senadora Marina Silva, que articula a criação de um novo partido, o Rede Sustentabilidade, uniu-se ao PSDB, PSB e MD visando a barrar, no Senado, o pedido de urgência na votação do projeto. Mas perdeu a corrida contra o tempo. Marina chamou a proposta de autoritária, e a comparou ao Pacote de Abril do regime militar. O que pode ser excessivo. Mas a pergunta é: por que tanta pressa na aprovação de um projeto que já interfere com as eleições de 2014?

A dúvida, no caso, chegou a instalar-se dentro do próprio PT. A votação final do projeto, na Câmara, ocorreu um dia depois de o senador Jorge Viana (PT-AC), com o apoio do líder do PT no Senado, Wellington Dias (PT-PI), ter afirmado que apoiaria a entrada em vigor das novas medidas somente em 2015. “Temos que mudar a legislação eleitoral para todos, e não com o jogo andando, e para alguns”. No dia seguinte, a direção nacional do PT fechou questão a favor do projeto, e o senador Viana enquadrou-se. Mas não escapou do bombardeio da ala jacobina do PT, representada pelo vice-presidente da Câmara, André Vargas (PT-PR), que defendeu a expulsão de Jorge Viana e a troca de liderança do partido no Senado.

O projeto, de autoria do deputado Edinho Araújo (PMDB-SP), impede a transferência do tempo de propaganda eleitoral no rádio e na televisão e dos recursos do Fundo Partidário relativos aos deputados que mudem de partido durante a mesma legislatura.

Conceda-se que a pulverização partidária é nociva, e precisa ser corrigida. Mas o traço de oportunismo no projeto de agora é indisfarçável, e despertou a ira do senador Aécio Neves (PSDB-MG). “Garantir que os mandatos pertençam aos partidos é saudável. O inaceitável é que, numa mesma legislatura, determinada regra só tenha validade quando funciona a favor do governo”. (A lei atual facilitou a criação do PSD, em 2011, que, ao atrair filiados do PSDB e do DEM com mandato, e ao mostrar-se sensível à oferta de cargos em troca de apoio político, enfraqueceu a oposição).

Casuísmos e oportunismos fazem parte da política. O que é de estranhar, no caso, é a aflição que o governo parece exibir em relação a 2014 num momento em que a popularidade da presidente Dilma atinge níveis estratosféricos. De que avaliações disporá o governo para tentar matar pela base eventuais candidaturas de oposição?

Os talibãs da moral dos outros


Carlos Brickmann 
Observatório da Imprensa

Maurício de Sousa, o grande desenhista dos quadrinhos brasileiros, recebeu prêmio da ONU por sua campanha contra o racismo, foi símbolo revolucionário no Timor Leste (que, como colônia revoltosa da Indonésia, estava submetida à proibição de falar sua língua, o Português), transformou-se num ícone no Japão com o pacífico dinossauro Horácio. E é o demônio em forma de gente para um grupo de fiscais da moralidade dos outros, um instituto mantido por herdeiras de um grande banco e que já o denunciou, entre outros crimes, por aceitar propaganda em suas revistas e ser um dos responsáveis pela obesidade infantil no país. Responsável pela obesidade infantil por aceitar publicidade de produtos que, considera o instituto, têm baixo valor nutritivo (este colunista, a propósito, não gosta desse tipo de produto, e é gordo do mesmo jeito); e, caso não aceitasse propaganda em suas revistas, como é que sobreviveriam? 

Este tipo de questão não incomoda o instituto denunciante: o objetivo não é buscar soluções para problemas que identifica, mas denunciar quem acredita em outras ideias.

Denunciar, aliás, é a palavra exata: não se trata de um debate, de uma polêmica, de uma divergência de ideias. Trata-se efetivamente de denúncias ao Ministério Público, visando compelir o desenhista a fazer o que o instituto manda e a desistir de fazer o que o instituto condena.

O problema do instituto, diga-se a bem da justiça, não é Mauricio de Sousa: é todo esse pessoal que faz coisas sem pedir licença. Já brigaram com o McDonald’s, por oferecer brinquedos gratuitos a quem compra determinados sanduíches (e, no caso, o colunista é absolutamente isento: só come sanduíches dessas redes internacionais de fast food se não houver mais nada para substituí-los); e com a Ferrero Rocher, por colocar um brinquedinho dentro do Kinder Ovo. Agora estão brigando com um cliente de Maurício de Sousa: a Vedacit, por ter lançado uma linha de impermeabilizantes com - veja só que coisa nefanda, terrível!- nomes de personagens da Turma da Mônica. 

Qual a alegação? Que a Turma da Mônica não combina com produtos químicos, como os impermeabilizantes (quem faz publicidade para a Vedacit certamente não concorda com essa análise - e, além do mais, escolher personagens que nada têm a ver com o produto pode prejudicar o produto, não a sociedade). Que mais? "Entre os muitos abusos cometidos pela empresa, um dos mais graves é promover um produto químico para o público infantil. É inadequado, já que as crianças sequer devem manusear os produtos".

E quem diz que são as crianças que compram impermeabilizantes, ou que os manuseiam? Normalmente, quem escolhe o impermeabilizante é o empreiteiro da obra; e, quando o próprio contratante escolhe o produto, não é ele que o aplica, nem seus filhos ou netos. 

O curioso é que, quando o banco do qual as mantenedoras do instituto são herdeiras usa bebês na publicidade, aí não surge qualquer protesto: no caso, vale o trabalho infantil, vale o bebê ficar sob luzes fortes, vale uma pessoa que ainda não tem idade para saber o que está fazendo emprestar sua imagem para uma empresa vender seus produtos. 

Como não diz o provérbio, cisco no olho dos outros é colírio.

Duas lógicas no Supremo


O Estado de S.Paulo

As penas de 12 dos 25 condenados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na Ação Penal 470, a do mensalão, poderão ser revistas no julgamento de embargos infringentes. Os casos mais notórios são os do ex-ministro José Dirceu, do deputado petista José Genoino, do ex-tesoureiro do partido Delúbio Soares e do empresário Marcos Valério, que, apesar de considerados inocentes por quatro ministros, foram condenados por formação de quadrilha. Outro réu, o também deputado João Paulo Cunha, do PT, teve 5 votos a seu favor, em 11 possíveis, quando apenado por lavagem de dinheiro.

Bastará a mudança de 1 voto entre os ministros que participaram do julgamento - dois deles, Cezar Peluso e Carlos Ayres Britto, se aposentaram - ou o voto pela absolvição do ministro estreante Teori Zavascki para a revisão se consumar, porque o empate resultante beneficiará os réus. Nessa hipótese, todos aqueles, exceto Valério, cujas penas somam pouco mais de 40 anos de prisão, poderão começar a cumprir em regime semiaberto as punições por corrupção ativa (ou passiva, além de peculato, no caso de Cunha) a que foram sentenciados. A eventualidade dependerá da resposta da Corte aos recursos chamados embargos infringentes a serem interpostos pela defesa.

Segundo o Estado informou ontem, cinco ministros, na contramão do presidente do colegiado, Joaquim Barbosa, consideram os embargos legítimos. Deles discordam também os colegas Luiz Fux e Marco Aurélio Mello. Se os primeiros não mudarem de ideia, estará criada uma situação paradoxal que a opinião pública não terá como entender, muito menos endossar. Na semana passada, com efeito, o STF aprovou por 8 votos a 1, o de Barbosa, a duplicação do prazo de cinco dias para a apresentação de embargos declaratórios, nos quais os advogados pedem o esclarecimento de eventuais pontos escuros ou contraditórios no texto oficial do julgamento, o acórdão. O documento, publicado na segunda-feira, contém 8.405 páginas (e isso porque os autores dele suprimiram nada menos de 1.336 manifestações orais em plenário).

Os oito ministros preferiram seguir o Código de Processo Penal, que admite a extensão do período, ao regimento da Corte, que não a prevê. Os advogados sustentavam que, em cinco dias, não conseguiriam analisar o acórdão do maior e mais complexo processo da história do tribunal. A preocupação dominante no STF, decerto, é não dar margem a alegações de que o direito dos réus à plena defesa foi cerceado. Que seja. Mas, se abrir - pela primeira vez - as portas aos embargos infringentes, os quais dizem respeito à substância dos veredictos, a provável maioria conflitará com a lógica da decisão anterior. Pois, embora o regimento do STF ainda admita esses recursos, uma lei de 1990 sobre o rito processual nos tribunais superiores não os prevê para o Supremo.

Se dessa atitude de dois pesos e duas medidas resultar o abrandamento das penas pretendido pelos réus, correrá sério risco a imagem que, ao longo de 53 sessões televisionadas do julgamento do mensalão, a Corte construiu perante uma opinião pública farta da impunidade dos réus que não são "pessoas comuns" - na memorável referência do então presidente Lula ao oligarca José Sarney, à época presidente do Senado. Uma sensação de logro, de que o STF "arregou", poderá se difundir pela sociedade mesmo se nenhum dos ministros remanescentes mudar o seu voto pela condenação nos casos mencionados, e apenas o novo colega Teori Zavascki desfizer o resultado original, alinhando-se com a minoria que optou pela absolvição.

Parte-se, de todo modo, da perspectiva de que os embargos começarão a ser examinados por uma Corte ainda incompleta. Falta preencher a vaga aberta com a aposentadoria do ministro Ayres Britto. (Zavascki foi para o lugar de Cezar Peluso.) A situação impõe um dilema à presidente Dilma Rousseff. De um lado, já tarda a substituição de Britto, passados cinco meses da vacância de sua cadeira. De outro, se ela nomear um novo nome antes de o mensalão finalmente transitar em julgado, poderá ser acusada de induzir o desfecho da ação, conforme as posições que o undécimo ministro vier a tomar.

PF pede quebra de sigilo do 'faz-tudo' de Lula


Veja online
Com Estadão Conteúdo 

Pedido será encaminhado nesta semana à Justiça Federal de Minas Gerais; inquérito quer desvendar o caminho dos recursos distribuídos no mensalão

(Fernando Donasci/Folha Imagem) 

Freud Godoy disse que suas contas
 já foram devassadas pelos órgãos de controle 

A Polícia Federal (PF) vai pedir a quebra do sigilo bancário de Freud Godoy, segurança e assessor pessoal do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A medida faz parte do inquérito instaurado para desvendar o caminho percorrido pelos recursos distribuídos no esquema do mensalão e é também um desdobramento do depoimento prestado pelo empresário Marcos Valério Fernandes de Souza à Procuradoria-Geral da República em setembro do ano passado. Valério envolveu o ex-presidente Lula no esquema e afirmou que o mensalão bancou despesas pessoais do petista.

Nesta terça-feira, Valério prestou novo depoimento à PF em Brasília. O operador do mensalão deixou a sede da polícia por volta das 16 horas. O inquérito aberto vai rastrear repasses do mensalão para o ex-presidente. A PF também deve ouvir o auxiliar de Lula nos próximos dez dias, em São Paulo.

O pedido de quebra de sigilo de Godoy será encaminhado ainda nesta semana à Justiça Federal de Minas Gerais. No ano passado, Valério disse aos procuradores ter passado dinheiro para Lula arcar com "gastos pessoais" no início de 2003, quando o petista já havia assumido o Planalto. Os recursos foram depositados, segundo Valério, na conta da empresa de segurança Caso, de propriedade de Godoy, ex-assessor da Presidência e uma espécie de "faz-tudo" de Lula. O ex-presidente nega ter recebido dinheiro do esquema.

Em 22 de fevereiro, o procurador da República Leonardo Augusto Santos Melo solicitou à PF que detalhasse o destino dos recursos do mensalão. No ofício encaminhado à Superintendência da PF em Minas, o procurador transcreveu trechos do depoimento de Marcos Valério. Uma das grandes dificuldades da investigação será driblar a possível ausência de arquivos bancários anteriores a 2008. Normas do Banco Central indicam a obrigação de armazenamento pelo período de cinco anos, no mínimo.

Além de Freud, a PF quer ter acesso aos dados bancários de outras 25 pessoas físicas e jurídicas que também receberam dinheiro das empresas de Valério, condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a quarenta anos de prisão por envolvimento no mensalão.

Ao todo, cerca de 200 pessoas e empresas foram beneficiárias dos negócios do operador do esquema. Parte dos dados já está sendo periciada por uma equipe da Polícia Federal em Minas.

CPI dos Correios – 
No depoimento no ano passado, Valério afirmou ter havido um repasse de aproximadamente 100 000 reais para a empresa de Godoy. Ao investigar o mensalão, a CPI dos Correios detectou, em 2005, um pagamento feito pela SMP&B, agência de publicidade de Valério, à empresa de Freud Godoy. O depósito foi feito, conforme informou a CPI, em 21 de janeiro de 2003, no valor de 98 500 reais.

O operador do mensalão não detalhou, em setembro passado, quais seriam esses "gastos pessoais" do ex-presidente. O dinheiro teria sido gasto no primeiro mês de governo quando "ainda não se sabia como usar o cartão corporativo", disse Valério no depoimento. Na tentativa de embasar a acusação, Valério entregou cópia do cheque destinado à empresa Caso e emitido pela SMP&B Propaganda.

Dinheiro para campanha – 
Freud Godoy afirmou que o dinheiro serviu para o pagamento de serviços prestados durante a campanha eleitoral de 2002 por sua empresa. Esses serviços, admitiu Godoy à época da CPI, não foram formalizados em contrato e não houve contabilização das despesas. O "faz-tudo" de Lula afirmou, em resposta às acusações feitas por Valério, que suas contas foram devassadas pelos órgãos de controle.