Valéria Maniero
O Globo
A pedido do blog, o economista Felipe Salto, da consultoria Tendências, analisou o resultado das contas externas divulgados hoje pelo BC. Em março, o país registrou déficit em transações correntes de US$ 6,873 bilhões. Ele acha que o déficit em conta corrente por si só não preocupa, mas sua evolução é que é alarmante. Também destacou a piora na qualidade do financiamento externo.
O economista explicou que o IED - investimento externo direto - não tem sido mais suficiente para financiar todo o saldo negativo em transações correntes. Lembrou também que esse saldo negativo é encarado como uma poupança externa, isto é, como uma conta que reflete o quanto a nossa demanda tem sido sustentada pela poupança do resto do mundo.
- Enquanto isso é sustentável, isto é, enquanto é financiável, as coisas ficam tranquilas e a solvência do balanço de pagamentos, garantida. Hoje, no entanto, a qualidade do fluxo de financiamento do déficit piorou. O IED, no trimestre, totalizou US$ 13,2 bilhões, diante de um déficit na conta corrente de US$ 24,9 bilhões (mais que o dobro do registrado no mesmo período do ano passado). Ou seja, só 50% do déficit em conta corrente está sendo financiado por capital de boa qualidade - afirma o economista.
De acordo com ele, os capitais que entram no Brasil para financiar investimentos produtivos estão minguando, e o balanço de pagamentos só continua a apresentar resultados positivos (ainda que cada vez menores), porque há uma entrada ainda expressiva por outros canais.
Para Salto, essa situação representa um risco de médio prazo e reflete diretamente as políticas do governo.
- Ao pretender controlar o câmbio, fixar os juros reais e continuar a gastar, mantendo o expansionismo do lado fiscal, incluindo o elevado e crescente peso das desonerações, o governo gera incerteza no mercado, e incerteza é igual a risco. Na presença de maior risco, os fluxos se retraem, e o investimento externo direto vai se reduzindo, sem que o déficit na conta corrente estacione, já que continuamos a importar mais do que exportamos, e já que todos os incentivos dados pelo governo às exportações não tenham elevado a corrente de comércio - afirmou.
No acumulado em 12 meses, o déficit em conta corrente é de US$ 67 bilhões, enquanto o IED está em US$ 63,6 bi. Ou seja, aproximadamente US$ 3,5 bi não estão sendo financiados pelo investimento estrangeiro direto. Olhando para esse dado acumulado em 12 meses, isso não acontecia desde novembro de 2010.