Adelson Elias Vasconcellos
Diante dos resultados inexpressivos nesta primeira metade de seu mandato, a presidente resolveu reagir. Ao invés de adotar políticas consistentes capazes de impulsionar o crescimento do país, a soberana resolveu subir no palanque. Em sua mais recente viagem à Europa, prometeu em plena Paris, 800 (!!!???) aeroportos regionais. Achou que era pouco: sacou da algibeira a promessa de construir 10.000 (!!!???) mil quilômetros de ferrovias.
De volta ao Brasil, vendo a economia definhando-se, não teve dúvida: subiu no palanque para prometer guerra aos impostos. Só que, neste caso específico, o inimigo é o próprio Estado de um lado, e, pasmem, o outro inimigo é o próprio governo de dona Dilma.
O marketing governamental cantou aos quatro cantos bilhões em desonerações. Esqueceu (por conveniência) de informar à plateia que estas supostas perdas foram plenamente compensadas com aumentos de impostos em outras áreas, o que fez com que a carga incidente sobre o PIB aumentasse ainda mais, marcando novo recorde.
Santo Deus, se a soberana pretende de fato reduzir impostos, de onde vai tirar recursos para bancar o peso da dívida pública e atender à sua exorbitante folha de pagamentos? E a considerar que ainda há o tal PAC, cada vez mais “paquinho”, ou, cada vez menos acelerado e menor crescimento.
Subir em palanque eleitoral como querendo azeitar o caminho de futura reeleição creio ser cedo demais. Até porque há assuntos pendentes a cobrar atenção e prioridade.
Contudo, se as palavras são para serem levadas a sério, e sem que eleve o endividamento público às alturas, esta conta não fechará de jeito nenhum. É bom lembrar que a dívida pública, por exemplo, já ultrapassou a barreira dos R$ 2,0 trilhões, alcançando fantásticos R$ 2.637.403.802.880,08, em 31.10.12. E até a mesma data, já consumira mais de R$ 708 bi, ou 48% do gasto total da União. Ora, este governo não consegue sequer realizar os investimentos previstos em orçamento, pretende o quê com esta promessa de redução de impostos? Jogar para torcida, é?
Para conseguir este intento seria necessário por um freio no tamanho do Estado, que Lula e a própria Dilma se encarregaram de agigantar. Manter esta estrutura como? Ou está pensando em passar adiante algumas dezenas de estatais – melhor seria fechá-las, dada sua total inutilidade – para reduzir o custo corrente? Aliás, se pensa de fato em reduzir impostos, sem prejudicar a já precária qualidade dos serviços públicos, a presidente não tem muitas opções a considerar. Senão vejamos:
a.- reduzir estatais e estancar a contratação de novos servidores. Aqui seriam duas brigas: o corporativismo dos atuais servidores através de seus sindicatos. E a segunda seria contra seu próprio partido que não admite desempregar seus companheiros inúteis mamando a mãos cheias em cargos inúteis.
b.- reduzir investimentos a um mínimo só para não dizer que não se está acrescentando nada. Para um país carente de investimentos para abrir caminho para o crescimento, seria o pior dos mundos.
c.- aumentar o endividamento, colocando em perigoso risco o equilíbrio fiscal, ponto central da nossa estabilidade econômica.
Assim, em que cada ponta que Dona Dilma pretenda atacar para abrir espaço saudável para redução da carga tributária, encontrará resistências e barreiras. Estará disposta a enfrentar a companheirada refestelada no poder? Comprometerá o próprio crescimento reduzindo investimentos? Ou colocará em risco a estabilidade, perdendo o controle das contas públicas as quais, aliás, já se equilibra mal e porcamente? Por onde pretender atacar irá comprometer seu projeto de reeleição a menos que Lula esteja empenhado em sair candidato em 2014! Aliás, tem dado sinais claro neste sentido, como ficaram claras suas declarações nas últimas semanas.
Seja como for, se a soberana quiser entrar para história como verdadeira estadista, abandonando o projeto de poder de seu partido e dando atenção única aos interesses do Brasil, pode começar suas brigas e empenho em realizar seus objetivos nesta semana mesmo. Não precisa esperar 2013. Como dizia o poeta, quem quer, faz acontecer, não é mesmo?
Por exemplo, a inflação continua em ascensão, se aproximando do teto da meta e sem sinais de que vá arrefecer. Antes de aplicar o tal desconto nas tarifas de energia, o governo promove novos reajustes. Ontem, autorizou em Itaipu, que abastece as regiões sudeste e Centro-Oeste. Hoje, foi a vez do Rio do Janeiro ser agraciado com um amargo brinde natalino nas contas de luz. Ainda em setembro, e logo após a promessa eleitoreira da redução, Mato Grosso foi o primeiro estado a contar com esta gentileza, de ter as tarifas reajustadas antes do desconto prometido. Lá, já alertávamos que no ritmo que a coisa podia tomar, o tal desconto seria insignificante, em razão das elevações promovidas antes do anunciado desconto acontecer na prática.
Além disto, investimentos em queda, dívida pública em alta, contas externas negativas, saldos comerciais encurtando-se mês após mês, déficit da previdência pública nas alturas, infraestrutura deficitária e recebendo marcos regulatórios espantosamente inadequados, serviços públicos deprimentes, educação pública abaixo da crítica, trabalho infantil em alta. Creio que todos estes temas merecem atenção urgente para que a presidente os deixe de lado para subir no palanque preparando o discurso para uma campanha que vai começar ainda daqui há dois anos. E entendo que estas urgências todas não podem esperar que a campanha se encerre para terem a atenção presidencial.
Ora, é do conhecimento geral que falta ao Brasil poupança interna suficiente para bancar os investimentos para o nosso crescimento. A consequência, portanto, é a necessidade permanente de atrair capital externo para cumprir esta missão. Porém, como é possível ser atraente um governo que torcer o nariz para este capital? Que cria toda a sorte de dificuldades para que ele, ao final, se remunere de forma ao menos razoável? Como ser atraente se, a par das nossas dificuldades estruturais, o governo Dilma insiste em políticas de arbitragem de lucros, excessivo intervencionismo e protecionismo em atividades privadas que, se reguladas e fiscalizadas a contento e sem exageros de cunho ideológico, permitiriam ao país dar um duplo salto carpado em seu desenvolvimento?
Se diz que as políticas do governo petista estão certas porquanto são aprovadas pela população. Infelizmente isto e nada dá no mesmo. Em vários momentos da ditadura militar, os generais presidentes eram aprovados pela população e, nem por isso, o país deixou de amargar 25 anos de estagnação.
Ou seja, mais uma vez o interesse do país ficará relegado a um segundo plano. O que vai comandar os principais interesses da agenda presidencial é outubro de 2014. Dilma tem um projeto de poder para atender, para se preocupar demasiado com o projeto de país que ela, aliás, nunca teve. Daí porque, além de haver esquecido completamente o que prometeu realizar na campanha de 2010, esparrama novas promessas megalômanas que, sabemos, ficarão pelo caminho.
Como faz falta ao Brasil um governo competente que o governe de fato e com os olhos postos na sua realidade e necessidades, e não só na fantasia da marquetagem mistificada.


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