quarta-feira, novembro 22, 2006

Quando o assalto vem de cima !

Por Adelson Elias Vasconcellos
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Os aumentos indecorosos em gestação no âmbito dos Poderes Legislativo e, principalmente, no Judiciário deveriam, antes de mais nada, por na cadeia cada um daqueles que o defendem. Não se trata mais de aumento de salário. Além da flagrante irresponsabilidade e falta de respeito para com o cidadão que trabalha e paga impostos, para sustentar este bando de marmanjos que dão uma banana para o mesmo cidadão na hora que ele bate às portas dos Tribunais em busca de seus direitos, em busca de Justiça, se não estiver com o bolso recheado de dinheiro vai penar até não mais poder, porque o Judiciário neste país, transformou-se há muito numa confraria de ociosos e pérfidos assaltantes dos cofres da União e cobradores de regalias indecentes. Já o Legislativo, nega aos aposentados aumento de 16,5 % sobre um valor já ridículo para aqueles que passaram a vida sustentando estes energúmenos. E ainda discute que o salário mínimo não poderá ser reajustado em mais do que R$ 17,00 em 2007 !
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A falta de consciência, a falta de vergonha na cara, a falta de decoro e consideração para com os milhões de brasileiros cuja grande maioria vive miseravelmente, sem ter ao menos serviços dignos e decentes, justamente porque o dinheiro que deveria reverter em seu benefício na forma de educação - a maioria das escolas públicas estão caindo aos pedaços, na forma de saúde - os hospitais estão matando na porta de entrada e casos graves têm sido tratados nos corredores destes mesmos hospitais públicos, as estradas viraram buraco dentro de buraco e que engoliram o pouco asfalto que ainda restava, e da segurança pública sequer é bom falar, tudo isso está virado em lixo para que continuemos sustentando este bando de gigolôs que vivem e sobrevivem às custas do sacrifício de milhões. Seja Legislativo, seja Judiciário, ao patrocinarem esta vergonhosa ação de assalto nos escassos recursos que deveria beneficiar a todos, e não apenas a poucos delinqüentes, cuspiram na honradez, pisotearam na decência, chafurdaram-se na imoralidade.
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Para estes pulhas, pouco importa o interesse público e o bem comum da sociedade, não contam as carências dos milhões de brasileiros para os quais dão costas e deles somente se lhes interessa o dinheiro que estes trouxas possam pagar para sustentar-lhes a cupidez, a luxúria, o ócio, uma vez que além de todas as vantagens monetárias e financeiras, se dão ao desplante de se abrigarem em castelos imoralmente erguidos no luxo de um país de povo faminto e pobre.
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Ou se mudam as condutas dos poderes desta republiqueta comandada por canalhas, ou cada vez mais teremos um Estado fidalgo espoliando um país escravo e famélico. Os gigolôs transformaram o Estado num puteiro, e o país num bordel onde a exploração de quem lhes sustenta a ganância e o poder, provoca o atraso, a miséria e o retrocesso. Alguém precisava fazê-los compreender que seus medievais métodos de expropriação das energias da nação, não só não mais são praticados no mundo civilizado, bem como suas práticas imorais de manterem-se insaciáveis no assalto que praticam no bolso do contribuinte, mantendo-o cada vez mais à míngua, poderá provocar uma revolta popular sem precedentes. Por se manterem longe da plebe que seviciam diariamente, não se aperceberam do sentimento de revolta que pouco a pouco vai tomando conta da sociedade brasileira. Razão pela qual esperamos que o bom senso ainda encontre lugar nas mentes dos elitistas gigolôs. O brasileiro está cansado de bancar a prostituta de governantes salafrários. Um dia, e pode nem demorar muito, esta prostituta vai cansar e gritará "chega" ! E antes que tal dia chegue, seria bom que nossas vestutas "autoridades" criassem um pingo de juízo e de vergonha na cara ! Aliás, já está até passando da hora, mas ainda há tempo .
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Porque a indignação ainda se transformará em incontida revolta, se os poderes imorais da republiqueta de Brasília não mudarem seu comportamento. Como Jorge Serrão, no Alerta Total, muito bem lembrou em um artigo, seria oportuno que os nossos fidalgos gigolôs considerasse o ensinamento de Ruy Barbosa: "A Pátria não é um sistema, nem uma seita, nem uma forma de governo. É o céu, o solo, o povo, a tradição, a consciência, o lar, o berço dos filhos e o túmulo dos antepassados, a comunhão da lei, da língua e da liberdade”. Portanto, senhores, "perca-se tudo, menos a honra" ! E a vossa, por onde andará, enredada na lama ? Pois, então, tratem de desenterrá-la e se vistam com ela. É o mínimo que se espera de homens ditos públicos.

Hora de provar que são verdades todas as mentiras !

Por Adelson Elias Vasconcellos
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Tudo aquilo que se disse sobre o projeto de Lula em relação ao Brasil, durante o seu primeiro mandato e, principalmente, ao longo de toda a campanha eleitoral, agora se confirma pelas próprias palavras do petista: o projeto de Lula é de poder, nunca de governo. Da Agência Estado, leiam a notícia sobre as declarações feitas pelo presidente no Mato Grosso:

Lula confessa que não sabe o que fazer

Presidente promete se dedicar até 31 de dezembro para encontrar soluções para País crescer

BARRA DO BUGRES (MT) - Em discurso de 30 minutos na inauguração da primeira usina de biodiesel associado com álcool no País, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ontem que não sabe ainda quais são as soluções para o Brasil crescer, mas que dedicará o resto deste ano a encontrar formas de "destravar o País" - missão à qual se destinará "até o 31 de dezembro".

"Tem algo, e não me pergunte o que é ainda, que eu não sei, e não me perguntem a solução, que não as tenho, mas eu vou encontrar porque o País precisa crescer", afirmou, em Barra dos Bugres (MT). Logo depois da eleição, Lula pediu à equipe uma série de medidas para acelerar o crescimento, mas as achou tímidas e cobrou mais ação.

Ontem, disse que logo lançará um "pacote" de ações. Mas avisou que não abrirá mão da responsabilidade fiscal. "Não vamos quebrar a economia brasileira. Não me peçam para anunciar mágica. O País vai ter de aprender a ganhar dinheiro produzindo com responsabilidade."

Depois, reclamou que se ganha demais com juros no Brasil. "Vamos ter que acertar essa situação." Antes dele, o governador reeleito Blairo Maggi criticou a demora nas licenças ambientais para a construção das eclusas do Rio Madeira. Lula defendeu a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, mas criticou a legislação, "criada por nós mesmos porque eu fui deputado".
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Bastante que se veja como Lula tem negociado cargos, idéias, planos de governos, projetos de reformas, desde que foi proclamado vencedor. Já se sabe que o novo ministério ficará para fevereiro de 2007, após as eleições para presidentes do Senado e, prioritariamente, para a Câmara.
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Se os programas a serem desenvolvidos deverão ser primeiramente analisados pelos novos ocupantes dos ministérios, representa dizer que o Brasil, do segundo mandato de Lula, só nascerá após a Páscoa. E, assim mesmo, se projetos e programas já tiverem sido traçados até lá. Convenhamos, é muito tempo ocioso, muita espera, e o pior, sem a certeza de que se terá algo concreto em relação ao próprio futuro do país.
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Lula mesmo diz que não sabe o que fazer. E isto após quatro anos de governo, é mais do que desastroso. Um governante que já rodou no poder o tempo que Lula lá se encontra, e, após ser reeleito para um novo período, vem a público e diz que não sabe o que fazer, era para pegar o boné e ir prá casa. Serão mais quatro anos de mentiras e enrolações, e o País à deriva, andando para trás, perdendo oportunidades, e espalhando mais miséria ainda. A única coisa que Lula sabe dizer é que sua opção é com os pobres. E o resto, presidente, como é que fica ?
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Ora, já se sabia em 2003, quando assumiu o poder, que o País precisava de reformas política, previdenciária, tributária e até de sua legislação penal, além de uma indispensável desburocratização dos serviços públicos, e a atração urgente de investimentos maciços na infra-estrutura do Brasil, tudo com vistas à aceleração dos níveis de crescimento, capazes de gerar os empregos e renda que estão faltando. Após quatro anos, Lula vem dizer que não tem projetos ? Que não sabe o que fazer ?
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O que na verdade então significam estas reuniões de “concertação” que ele vem promovendo diariamente ? No fundo, o que Lula espera é que alguém, ou alguns, façam o serviço que ele não sente competente para fazer, ou seja, que cada um apresente projetos, programas salvadores do crescimento ridículo que nos têm atormentado estes anos lulistas. Claro que o poder será dele, os melhores e mais cobiçados cargos serão do PT, mas o trabalho será dos outros, coisa aliás que Lula espera agora repetir no segundo mandato, tal qual o fez no primeiro, quando herdou toda a estabilidade econômica protagonizada por FHC. Evidente que os louros Lula afirma serem seus, o que não passa de uma deslavada mentira.

Ocorre, também, que o programa econômico que aí está não saiu de nenhuma brilhante mente petista. Até pelo contrário. Os petistas passaram o tempo todo dizendo que ia dar errado. Mexer nos fundamentos macroeconômicos implantados no período FHC não dá segurança à Lula de que as reformas melhorarão ou piorarão o quadro atual de crescimento abaixo da média mundial. Mexer com as reformas que já deveriam ter sido promovidas no primeiro mandato, terá um custo político que Lula não quer pagar. Então, nada melhor do que dividir os prejuízos com terceiros. E se a oposição fizer o seu papel, isto é, aguardar que a iniciativa da agenda de reformas seja apresentada por Lula, e não pela oposição, então a desculpa será de que se não deu certo, os culpados foram os outros que não ajudaram. Vejam que Lula até agora não apresentou além de uma inútil reforma política, nada além de balela, de promessas, conversas vazias, sem objetivo, sem um esboço de trabalhos, tudo como se ainda estivesse no palanque.

Porém, de uma forma ou de outra, o que se percebe é que, além de Lula não contar com os conselheiros que teve no início de seu governo, a maioria afastada por nebulosas negociações pouco honestas, Lula não sabe para que lado direcionar sua atuação. Pode-se dizer que está perdido e inseguro quanto aos caminhos a seguir.

Já se deu conta, também, que a teia de apoios políticos com os quais pode contar ao longo da campanha pela reeleição, cobrarão, como já o estão fazendo, o preço deste apoio. Isto significa repartir o poder, principalmente com o PMDB, cada vez mais ávido pelas boquinhas federais. Os próprios aliados de partido, no caso o PT, não estão muito confortáveis com a posição secundária com que Lula os vêm tratando. E isto tudo, acaba resvalando para a vala comum do tiro no escuro.

Lula venceu com a promessa de crescimento. Repetiu a exaustão o índice de 5%. Garantiu que o País reúne, no momento, sua melhor posição histórica de indicadores positivos para que o tal crescimento se dê em níveis superiores, na média, ao que o país experimentou nos últimos quatro anos. Esta acabou se tornando sua obsessão. Não cumprir com tal promessa é praticamente um ato de confissão de incompetência e de mentiras cantadas em verso e prosa ao longo deste tempo em que se encontra à testa do Executivo Federal. O preço político desta rota é o descrédito. Lula não saberia conviver com tamanha carga.

Porém, que não se engane ninguém: o segundo mandato de Lula, se for para superar o que foi o primeiro, ainda lhe faltam caminhos a serem trilhados para atingir a tão prometida meta de crescimento. Gastou e consumiu quatro anos sem os avanços indispensáveis para um vigoroso crescimento. O doloroso é que os projetos e programas que já deveriam estar delineados ao longo da campanha, agora se vê, (e conforme várias vezes dissemos e alertamos na ocasião), não passavam de cartas de boa intenção, porém longe de serem planos de governos, nascidos da própria experiência que experimentara, e das próprias necessidades e carências reclamadas pela sociedade brasileira.

Este plano de governo é indiscutível que Lula não teve antes, e não o tem agora. É visível que toda a conversação que Lula vem mantendo é para buscar alguém que venha com este plano debaixo do braço para ele seguir. Se é assim, e é, vai ser difícil o segundo mandato melhorar em relação ao primeiro. Primeiro, porque as oposições já estão se dando conta do joguinho que Lula tenta, mesmo que disfarçadamente sob o manto da “concertação” esconder dos brasileiros. A de que ele não tem plano algum, a não ser de poder. A sustentação política também parece ser um tanto frágil para dar a Lula a segurança necessária para ele avançar. Ela está muito mais dedicada ao bônus de governar (ou ajudar a governar) do que com o ônus que representa. É o preço que Lula tenta fingir que não acatará, mas que, inevitavelmente, deverá ceder se não quiser amargar passar quatro anos perdendo credibilidade popular por estar à frente de um governo acéfalo, inútil, ineficiente e estagnado, e sem um ponto de chegada. O país não crescerá com vontade apenas, ou com conversa fiada.

Para muitos tal situação não é surpresa. O aviso havia sido dado com muita antecedência, até com base nas alianças que Lula foi construindo ao longo da campanha. O que se deseja é que Lula possa desvencilhar-se da própria armadilha que armou contra si. E que com superação e equilíbrio, encontre a luz no final do túnel para tirar o país do marasmo e da estagnação.
O que por certo não conseguirá, mesmo que use toda a sua habilidade política de negociação, é afastar-se do preço político que seu governo deverá pagar pelas reformas que a todos são necessárias, que ele sabe imprescindíveis, como ainda conhece o preço político de cada uma. Se tentar fugir do roteiro, aí é que seu governo naufragará vertiginosamente. Tentar salvar os anéis e os dedos é que não será mais possível. Chegou a hora da verdade para Lula. Isto é, agora ele terá que provar que são verdades todas as mentiras que contou ao longo de quatro anos. Conseguirá ? Já se vê que ter ganho a eleição não o ajudou a construir nem uma ampla base de apoio político, nem tampouco encontrar o gênio que lhe traga num bandeja um projeto de governo minimamente decente. Não será, portanto, com bravatas de palanque, nem com carisma junto ao eleitorado, que Lula se tornará um governante capacitado. Será preciso encontrar nele mesmo a competência que lhe faltou até aqui para governar o país rumo a um futuro melhor. Agora, Lula precisará ser presidente, e governar como tal. Por certo, não encontrará tal competência no interior do Aerolula, até porque ele tornou-se herdeiro de si mesmo. E fruto de seu primeiro mandato o que mais se teve foram mentiras e mistificações, com as quais nenhum governante consegue traçar plano algum de governo.
Você, brasileira e brasileiro, já aprendeu a rezar ? Não ???!!!! Corra e aprenda rapidinho. Vamos precisar de muita reza nos próximos quatro anos.

Renascença ou Idade Média ?

Por Arnaldo Jabor em O Povo (Fortaleza – CE)

O tempo atual é Renascença ou Idade Média? Os acontecimentos estão inexplicáveis, pois a barbárie das coisas invadiu o mundo dos homens. O socialismo não deu certo, o capitalismo global não trouxe paz nem progresso, tudo que depende da vontade dos homens e de seus sonhos de controle não chega a um final feliz. As coisas têm vida própria. O mundo está regido por uma tumultuosa marcha de fatos sem causa, de acontecimentos sem origem, de objetos sem sujeitos. Temos acesso a uma informação infinita que não se fecha; temos mais ciência e menos entendimento. As utopias não rolaram; Kafka e Beckett sacaram o lance mais na mosca que os ideólogos. Esperando Godot é mais profundo e profético que 100 anos de esperanca social.

Hoje, somos objetos de um sujeito imenso, sem nome, sem olho, misterioso, que só entenderemos depois que o tempo tiver se esgotado, quando for tarde demais.

Por que estou com essas angústias filosóficas?

Bem... porque no Brasil estamos diante do mesmo dilema: Renascença ou Idade Média, progresso ou regresso?

Pensamos atrás das coisas. Vivemos uma modernidade veloz e falamos um discurso antigo. As idéias não correspondem mais aos fatos. As palavras que eram nosso muro de arrimo foram esvaziadas de sentido. Por exemplo, uma palavra que era pau para toda obra: futuro. Que quer dizer hoje? Antes, futuro era um lugar onde chegaríamos um dia, que nos redimiria de nossos sofrimentos no presente. Agora, o termo futuro tem uma conotação incessante, como se já estivéssemos nele, fazendo de nosso presente uma época provisória, uma mutação angustiante, sempre se desvalorizando. Estamos com saudades do presente, que nos escapa como um passado, enquanto o futuro não pára de não chegar.

Outra palavra: felicidade. Ser feliz hoje é excluir o mundo em torno, a visão das tragédias. Ser feliz é uma vivência pelo avesso, pelo não. Ser feliz é não ver a miséria, não pensar nas catástrofes, é não se deixar impressionar pelos dramas do País.

Outra palavra: miséria. A miséria sempre nos foi útil. Diante dela tínhamos a vantagem da compaixão. Era doce sentir pena dos infelizes. Hoje, diante das soluções impossíveis, diante da ligação imediata que fazemos entre miséria e violência, temos uma espécie de raiva, de irritação aristocrática, ancien regime, contra os desgraçados. Ficamos humilhados diante da impotência das soluções. O pobre virou um estraga-prazeres.

Que nome daremos ao desejo de extermínio que começa a brotar nos cérebros reacionários? Exterminar bandidos e excluídos também?

Que nome dar às taras de nossos intelectuais incompetentes? São dois tipos básicos que pululam: o gênio inútil e o neocretino. O gênio inútil sabe tudo e não faz nada. O neo-idiota age muito, sem saber nada, com sua carinha preocupada de tarefeiro, de burocrata dedicado à causa.

E que nome daremos a esse bucho informe que a miséria está criando nas periferias? No crime, surge uma mistura de lixo e sangue, uma nova língua de grunhidos, mais além da maldade, uma pura explosão de rancor, o horror, a crueldade como único prazer.

E na criatividade nascente das periferias, como nomear este novo bem dentro do mal? Não é mais proletariado ou excluídos. Surge uma razão dentro da loucura, uma esperança dentro do pesadelo.

E na política? Quem somos, o que somos? Neoliberais, velhos radicais, neoconservadores, progressistas reacionários, direita de esquerda ou - hoje no poder - o esquerdismo de direita?

Que nome daremos à paralisia da política, ao imobilismo das reformas, à absurda incompetência e desinteresse pelos dramas urgentes? Que nome daremos ao ânimo do atraso, à alma de nossa estupidez? Que medula, que linfa ancestral energiza os donos do poder, que visgo brasileiro é esse que gruda no chão os empatadores do progresso? Vivemos sob uma pasta feita de egoísmo, preguiça, escravismo. Que nome dar a essa gosma que somos?

E a palavra-chave de hoje? Democracia. Que é isso? Que quer dizer? No Brasil, democracia é lida como esculacho, zona geral. No entanto, a democracia é o único sistema revolucionário a que devemos aspirar, é a única maneira de espatifar o entulho arcaico, fisiológico, corrupto, patrimonialista que o Estado abriga. Só um choque de liberdade e livre empreendimento pode mudar o País.

Mas esta evidência é vista com pavor. Como aceitar o óbvio, que o Estado congestionado, moribundo, só tem impedido o crescimento? Isso vai contra os dogmas dos intelectuais. A maioria dos criticos sociais prefere morrer a rever posições. E, aí, o atraso resiste, bravo, eternizado pela frente única entre a velha direita e a velha esquerda, que continua a agir em nome de uma burra idéia de progresso.

E como tudo provoca paralisia, a democracia nos parece lenta, ineficaz. Surge o sonho de um autoritarismo rápido, que mudaria tudo isso que está ai, surge o desejo maluco de se atingir a saude utopicamente, sem curar os males do paciente. Surge a fome de populismo, volutarismo, política mágica ou até antidemocrática para o bem, como proclama o futuro ditador Chávez, agarrado com paixão por Lula, outro dia, falando mal de nossa imprensa, falando mal dos empresarios que constroem o País apesar dele, enquanto financia a ponte venezuelana e o metrô de Caracas, negando as verbas comprometidas ao Rodoanel de São Paulo e à linha amarela do Metrô, enquanto não acha dinheiro para o controle de vôos.

Esse mau exemplo de Lula estimula a saudade por um regime que restaure certezas, crenças como: futuro, ordem, nação, identidade, povo. Já está raiando no horizonte do Brasil uma fome de autoritarismo, que é bem mais legível para os paranóicos. Se prevalecer o bom senso, o pragmatismo de Lula, tudo bem. Se ganharem os malucos que o cercam, apertem o cinto que vamos cair, pois não há controle para nosso vôo brasileiro.

Lula quer repetir os mesmos erros

Por Tales Faria no Jornal do Brasil (Informe JB)

O presidente Lula espalhou aos sete ventos que pode fazer a reforma ministerial aos poucos e virar o ano com boa parte dos mesmos ministros que aí estão. Ontem, estiveram com ele - e ouviram isso - os senadores peemedebistas Renan Calheiros (AL) e José Sarney (AP), além do coordenador político do governo, Tarso Genro .

Anteontem, Lula também disse isso aos líderes petistas com quem se encontrou.

Argumento básico do presidente: quer baixar o nível de ansiedade entre os aliados. Outro argumento: como fechar agora um governo de coalizão se os atuais líderes de bancada e presidentes dos partidos devem ser substituídos entre fevereiro e março do ano que vem?

A decisão protelatória não é novidade em Lula. No seu primeiro governo, ele também deixou para decidir no último momento. Em vez de baixar o nível de ansiedade, o que ocorreu foi o contrário: os aliados ficaram com nervos à flor da pele. Olívio Dutra, ex-governador do Rio Grande do Sul, foi nomeado pela imprensa e demitido diversas vezes até assumir de vez o cargo de ministro das Cidades. Já estava tão desgastado que fez uma administração pífia.

O PMDB, que no início do primeiro mandato, como agora, também queria entrar unificado no governo, foi tão enrolado que acabou entregando a um pequeno grupo o relacionamento com o Palácio. O grosso da bancada foi para o corpo mole das votações no Congresso, o estica-e-puxa que resultou no esfacelamento da bancada governista.

E a base de agora é a mesma de antes das eleições, com os mesmo líderes e o mesmo mal-estar de antes com o governo. Empurrá-la com a barriga até o ano que vem é empurrar com a barriga as votações no Congresso também.

Resulta, é claro, no enfraquecimento de qualquer governo.

Vai prá casa, ministro !

Tutty Vasques/ NoMinimo
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Waldir Pires completou 80 anos em outubro. Ganhou de presente o maior e mais espetacular acidente aéreo já ocorrido no Brasil. Falou-se no almoço de aniversário com a família em inferno astral, mas já estamos na segunda quinzena de novembro e o ministro da Defesa continua pagando seus pecados a cada novo movimento dos controladores de vôo. Pior de tudo: deu agora para negar o caos com a firme convicção de que não está acontecendo nada anormal nos aeroportos brasileiros. Dia desses foi apontado por um jornalista americano como chefe do “circo aéreo de Monty Phyton”.

Onde isso vai parar?

Sei lá, mas acho que alguém da família do ministro precisa tomar uma providência para demovê-lo do governo Lula antes das festas de fim de ano, a tempo de poupá-lo do linchamento – ainda que moral - nas áreas de check-in Brasil afora. A situação prenuncia-se inteiramente fora do controle das autoridades. Anote aí: vai ter gente embarcando no Natal e chegando no Réveillon. Foi o tempo em que, como dizia Tom Jobim, a melhor saída para o Brasil era o aeroporto que hoje leva seu nome.

Waldir Pires, com aquele seu jeitinho de velho fofo, está visivelmente perdido no tiroteio entre operadores de vôo civis e militares, o comando da Aeronáutica, a Agência Nacional de Aviação Civil, a Infraero, as companhias aéreas, passageiros desesperados e o escambau. Francamente, coordenar tudo isso não é tarefa para um homem de 80 anos por mais honrada que tenha sido sua trajetória política. Falta energia ao ministro, que, diga-se de passagem, está muito bem para sua idade, mas o que está em jogo no momento é a administração do inferno.

Baiano ilustríssimo, Waldir Pires não merece deixar a vida pública enxotado por hordas de turistas revoltados. O homem tem biografia. Iniciou-se na política participando em Salvador do movimento estudantil contra o nazismo. Foi vice-líder na Câmara do governo JK, consultor-geral da República na época de Jango e, junto com Darcy Ribeiro, o último a deixar o Palácio do Planalto após o golpe de 1964. Escapou de Brasília com a ajuda do deputado Rubens Paiva. Amargou exílio no Uruguai e na França, onde, por indicação de Celso Furtado, lecionou Direito e Ciências Políticas em Dijon e em Paris.

Nunca foi muito bom no cálculo de riscos políticos. Derrotou ACM elegendo-se governador da Bahia em 1986 e, dois anos depois, renunciou para concorrer como vice de Ulysses Guimarães à presidência da República pelo PMDB. Uma decepção, seguida de desastre. Recuperou-se em 1990, elegendo-se deputado pelo PDT. Repetiu a dose em 1998 pelo PSDB, passando a militar no PT por discordar da aliança dos tucanos com o PFL. Traz na bagagem a tradição de maior inimigo político de Antônio Carlos Magalhães. Não é pouca coisa.

Pai de cinco filhos, avô de sei lá quantos netos, não é possível que ninguém nessa família vá tomar uma providência urgente para evitar o pior. Se continuar no Ministério da Defesa, Waldir Pires é forte candidato a tirar do colega Saturnino Braga o título de “o homem que desmoralizou a honradez”, conferido por Millôr Fernandes na época que o senador, então prefeito do Rio de Janeiro, transformou a cidade numa esculhambação semelhante à dos aeroportos nesses últimos feriados.
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Vai pra casa, Waldir. Isso é trabalho pro Ciro Gomes.

Um caso brasileiro

por Carlos Alberto Sardenberg,
Publicado no site do Instituto Millenium

A Infraero, estatal vinculada ao Ministério da Aeronáutica e que administra os aeroportos brasileiros, calcula que precisa investir pelo menos R$ 7 bilhões até 2010. Seria o mínimo necessário para reformar e ampliar aeroportos, de modo a atender o crescimento do setor. Essa expansão, de fato, é muito forte. No ano passado, para atender a crescente demanda de passageiros, as companhias aéreas brasileiras aumentaram a oferta de assentos em 30%, e isso durante a agonia da Varig. Neste ano, até outubro, a oferta está crescendo mais 8%, mesmo com as recentes confusões. Com o pico do final do ano, esperava-se que o setor crescesse mais uns 13% neste ano.

As empresas privadas fizeram sua parte. Com a demanda crescendo, as companhias compraram jatos, multiplicaram rotas. As duas grandes, Tam e Gol, tiveram a maior expansão, mas diversas empresas pequenas e regionais também entraram no mercado.

O problema está na parte do governo, a oferta de aeroportos e o controle do tráfego. A Infraero investiu nos últimos anos – e ainda assim está devendo. Basta passar pelo aeroporto de Congonhas, o de maior movimento. Recentemente ampliado, já está apertado. Ou seja, é preciso investir ainda mais, mesmo porque só Tam e Gol planejam incorporar às suas frotas mais 58 aviões, nos próximos três anos. São jatos maiores, para mais passageiros, a pistas mais seguras e mais espaço e serviços nos aeroportos.

É para isso que a Infraero precisa de R$ 7 bilhões de investimentos. Desse volume, a estatal deve obter, com recursos próprios e financiamento, cerca de R$ 2,8 bilhões. A empresa tem uma bela receita - as taxas, muito caras, pagas por passageiros e empresas, além de aluguéis e concessões no comércio dos aeroportos.

Ainda assim, faltarão R$ 4,2 bilhões. A estatal espera um aporte do governo federal. Vai ficar esperando.

Parece pouco dinheiro, afinal seria apenas pouco mais de um bilhão por ano, uma mixaria diante dos mais de R$ 400 bilhões que o governo federal vai gastar neste ano com custeio da máquina, pessoal, previdência e investimentos.

Eis, porém, algumas comparações. Os salários do funcionalismo federal devem chegar neste ano a R$ 100 bilhões. Para 2007, é razoável supor que o pessoal receberá no mínimo a reposição da inflação, estimada em 4,2%. Ou seja, mais R$ 4,2 bilhões. Mas ainda na última terça-feira, quando preparava o pacote de cortes de gastos, o ministro Guido Mantega dizia que continuava achando possível dar novos aumentos reais ao funcionalismo.

Quanto ao salário mínimo, o presidente Lula também prometeu mais aumento real. Mas considere-se apenas a reposição da inflação, o que representaria um aumento nominal de 15 reais. Multiplicando por 16 milhões de pensionistas e por 13 pagamentos, o custo da Previdência sobe mais de R$ 3 bilhões.

Finalmente, o governo federal está gastando menos de R$ 20 bilhões em investimentos diretos naqueles setores que não contam com o suporte de uma estatal rentável – ao contrário do que ocorre com os aeroportos da Infraero.

Resumindo, o governo federal não terá os R$ 4,2 bilhões para dar à Infraero.

Olhando a coisa sem preconceitos, não está evidente que este é mais um caso de privatização? Qual o problema de entregar a construção e/ou a administração de aeroportos a companhias privadas, nacionais ou estrangeiras?

O Brasil tem empreiteiras que fazem obras pelo mundo afora, inclusive construindo aeroportos. Se essas empreiteiras se unissem a grandes companhias estrangeiras, com experiência na operação de aeroportos, isso traria capitais e tecnologia para um setor estratégico.

O presidente da Infraero, brigadeiro José Carlos Pereira, disse que a empresa está estudando a fórmula das Parcerias Público Privadas (PPPs). Mas o governo Lula está estudando as PPPs há quatro anos e não conseguiu emplacar uma sequer. Assim como não conseguiu fazer nenhuma concessão de rodovias, muito menos de aeroportos.

Eis, portanto, uma ilustração perfeita do caso brasileiro hoje. Considerado o tamanho da economia, os R$ 7 bilhões para os aeroportos são pouco mais que mixaria. Mas o governo não tem porque gasta demais em Previdência, pessoal e custeio da máquina.

Já para o setor privado, seria a maior moleza arrumar os R$ 7 bilhões. Mas não há condições políticas nem jurídicas nem econômicas para deslanchar esses investimentos.

Assim, tome fila, tome congestionamento no saguão. E ainda tem de aguentar o ministro da Defesa, Waldir Pires, responsável por todo o setor, dizer que não está acontecendo nada.

Nada mesmo.

Mutirão pelo retrocesso

Editorial do Estadão

A prática do mutirão se originou do esforço coletivo para auxiliar um dos membros da comunidade envolvida - mais comum nas comunidades rurais -, mas chegou ao espaço público como evento de trabalho concentrado, liderado ou incentivado pela Administração, para a solução de problemas acumulados. Antes, por exemplo, era a festa para a construção, num domingo, de um celeiro; depois passou a ser o esforço concentrado de combate a epidemias, de aceleração de processos judiciais, de construção de casas populares e solução “por atacado” de inúmeras lacunas sociais. Neste sentido se entenderia a iniciativa da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - a de há muito famigerada CNBB - de promover uma Semana Social, tendo em vista a criação de um “Mutirão por um Novo Brasil”. Só que, pelos conteúdos e conclusões produzidos pela entidade em Brasília, mais apropriado seria designá-lo por “Mutirão por um Brasil Velho” - ou, com mais precisão ainda, “Mutirão pelo Retrocesso”.
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As linhas de força ideológicas que se entrecruzaram no conclave da cúpula brasileira da Igreja Católica mais pareciam expressões das velhas bandeiras das alas radicais da esquerda cabocla - do tipo “Libelu” ou “PSTU” -, tão desgarradas da realidade contemporânea quanto seria a hipotética defesa, hoje, do Muro de Berlim. A chamada 4ª Semana Social Brasileira da CNBB teve o gosto de um rançoso déjà vu político-ideológico, nutrido apenas de envelhecidos e superados chavões, que estiveram em voga na década dos 50 do século passado.
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Rever a privatização da Vale do Rio Doce, fazer uma auditoria da dívida externa e incentivar a comunicação alternativa para “diminuir a influência negativa dos grandes meios de comunicação social” foram alguns dos pontos principais da carta de encerramento do simpósio, elaborada sob a forte (?!) influência dos “movimentos populares” ligados à Igreja Católica “deste país”.
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A revisão das privatizações - notadamente a daquela que mais tem gerado inquestionáveis benefícios à economia e ao desenvolvimento do País, como a Vale do Rio Doce - é jargão nacionalisteiro sem correspondência alguma com as necessidades reais de crescimento econômico da sociedade brasileira, que depende, isso sim, da capacidade do Estado de canalizar os recursos públicos para serviços essenciais - como educação, saúde, segurança, saneamento e infra-estrutura.Quanto à “dívida externa”, trata-se de ignorância crassa, sendo hoje uma das proezas mais alardeadas por Lula a sua redução à insignificância. A dívida que atormenta o governo é a interna, cujos principais credores são brasileiros.
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O incentivo à “comunicação alternativa” para “diminuir a influência negativa dos grandes meios de comunicação social” não deixa de aproximar-se de algumas discutíveis idéias esboçadas no programa do partido do presidente Lula - e reiteradas em pronunciamento seu, já reeleito. Aí temos, de um lado, a velha tentativa de manipulação da imprensa pelo favorecimento a “concorrentes” - via publicidade oficial - mais “afinados” com o governo. E, de outro lado, a intenção de censura à liberdade de expressão, propriamente dita, que deita raízes nos piores períodos de autoritarismo de nossa história republicana - algo que a sociedade brasileira hoje repudia com a mesma força com que nossa Constituição garante essa liberdade.
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Mas há outros tópicos “reivindicados” por alguns dos “movimentos sociais” - e abrigados no simpósio da CNBB - que resvalam em ridículo, como se se pretendesse passar o recibo de que o Brasil é o país da piada feita. Tome-se como exemplo a “reivindicação” do famoso líder do MST, João Pedro Stédile, de nada menos do que a participação do seu movimento no Conselho de Política Monetária - que decide sobre a taxa básica de juros - e no Conselho Monetário Nacional. Só faltou reivindicar um Ministério da área econômica para a entidade internacional sua coirmã, a Via Campesina. Realmente, ao vermos a energia despendida pela Igreja Católica em reuniões dessa espécie, entendemos melhor por que vão crescendo - e enriquecendo cada vez mais - os movimentos pentecostais.

A nova classe da Petrobrás.

Por Sebastião Nery, na Tribuna da Imprensa

SÃO PAULO - Eles eram três: Tito, Kardelj e Djilas. Quando Hitler, em 41, invadiu a Croácia, Eslovênia, Bósnia, Sérvia, Montenegro, toda a bela costa iugoslava do Adriático, Josip Broz Tito, Edvard Kardelj e Milovan Djilas eram dirigentes dos clandestinos Partidos Comunistas da Croácia, Eslovênia e Montenegro. Já tinham sido presos vários anos na década de 30.
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Juntaram-se no Comitê Nacional de Libertação, sob a presidência de Tito e a vice-presidencia de Kardelj e Djilas, criaram o mais poderoso movimento de resistência antinazista e antifascista da Europa. A Alemanha e a Itália chegaram a mandar para lá 600 mil soldados. Um milhão e 700 mil iugoslavos morreram. Mas, em outubro de 44, quando as tropas soviéticas chegaram a Belgrado, Hitler já estava derrotado e a Iugoslávia independente.
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E nasceu a República Iugoslava, uma federação de seis repúblicas, sob a presidência do marechal Tito. Kardelj, ministro do Exterior e representante na ONU. Djilas, presidente da Assembléia Federal.
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Djilas
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Em 48, inconformada com a independência da Iugoslávia, a União Soviética rompe e faz um bloqueio de longos anos e só em maio de 55, Stalin morto, Kruschev e Bulganin visitam Tito em Belgrado e Tito vai a Moscou.
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Mas Djilas queria mais. Intelectual, escritor consagrado, em 1953 começou a divergir de Tito sobre questões da organização do Estado. Em 54 é expulso do Partido Comunista e tenta fundar o Partido Socialista Democrático. Em 57, publica em Paris (e depois no mundo todo) seu livro-bomba, "A nova classe", uma crítica devastadora da burocracia comunista e uma denúncia profética do aparelhamento do Estado pelas lideranças sindicais da esquerda.
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Processado e condenado, ficou preso de 59 a 61. Sai e publica em Roma "Conversações com Stalin" (1962). Volta para a cadeia, até 66. Sai de novo, publica "A sociedade imperfeita além da nova classe". Não é mais preso. Em 73 o visitei lá, quando preparava meu livro "Socialismo com liberdade".
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A FUP
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Se tivesse conhecido o governo Lula, o bravo, valente Djilas teria feito mais um arrasador capítulo sobre como "A nova classe" usa o governo em benefício próprio e da sua curriola. Aqui em São Paulo, conheci detalhes de mais um escândalo, que pode virar um crime, de usufruto do poder.
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Na Petrobras, a FUP - Federação Única dos Petroleiros (uma fraude, porque legalmente não é federação e não é única), filha da CUT (que também é uma fraude, porque não é única), propôs e a direção da empresa quer adotar a redução salarial dos aposentados, que iria liquidar a geração que há 53 anos a construiu em condições duras, às vezes heróicas, bem diferentes das de hoje. A proposta da FUP e da empresa é um verdadeiro "confisco de renda".
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Aposentados
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O reajuste anual dos salários, a ser feito pela empresa, seria assim:
a) Para os funcionários da ativa, 2,8% de aumento, mais 80% de bonificação salarial e promoção de uma letra na carreira.
b) Para os aposentados, apenas 2,8%.
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"Nunca antes na história dessa empresa", como diria um certo alguém, aconteceu tamanha violência contra os seus milhares de aposentados. A "nova classe" de sindicalistas petistas, agregada na FUP, que dirige o setor de Recursos Humanos (através do multinacional Diego Hernandez), massacra os aposentados para ganhar 80% de "bonificação" e uma letra a mais na carreira.
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São mais de 50 mil aposentados atingidos pela absurda proposta. O objetivo claro e vil é jogar os funcionários da ativa contra os aposentados.
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A FNP
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Mas o tiro está saindo pela culatra. Cinco grandes sindicatos já se desfiliaram da FUP (e portanto da CUT): 1) Rio de Janeiro. 2) Litoral Paulista - Santos. 3) Sergipe - Alagoas. 4) Pará - Amazonas. 5) São José dos Campos.
Esses sindicatos não só se separaram da FUP como já criaram a FNP (Frente Nacional dos Petroleiros). Sexta, depois de amanhã, aqui em São Paulo, em Santos, a FNP e esses sindicatos vão reunir-se para aprovar uma posição comum contra a proposta da FUP e do Recursos Humanos da Petrobras.
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PT-ONGs
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Vejam que estranha coincidência. Na hora em que a "nova classe" dos sindicalistas do PT tenta pôr ainda mais a empresa a serviço de seus interesses pessoais, e para isso propõe o obsceno confisco dos direitos dos aposentados, explodem nas manchetes dos jornais os escândalos germinados exatamente no "bunker" da "nova classe", a diretoria de Recursos Humanos:
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1 - "O Globo": "Petrobrás faz, sem solicitação, convênio de R$ 228 milhões - Beneficiadas doaram R$ 16,7 milhões na eleição, sendo R$ 6,4 milhões ao PT e PC do B - Nunca como no governo Lula a Petrobras foi tão usada como aparelho partidário e instrumento de propaganda e sustentação de um governo. Houve farta distribuição de recursos para ONGs, projetos de aliados ou eventos de apadrinhados, antecedendo a campanha eleitoral".
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2 - "Folha": "Fornecedores da Petrobras doaram R$ 2 milhões ao PT. Valor doado ao PT pela UTC representa 88% do total destinado por ela a campanhas eleitorais". Vai estourar tudo na "CPI das ONGs", no Senado.

O pobre cidadão comum.

Por Carlos Chagas, na Tribuna da Imprensa
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BRASÍLIA - De vez em quando, é bom voltar ao tema: e o cidadão comum, esse coitado que paga impostos, cumpre a lei, ganha cada vez menos e sacrifica-se cada vez mais para o funcionamento de um país que vai deixando de ser o dele? Dias atrás abordamos as agruras de quem viaja de avião, por conta desse horror até hoje verificado em todos os aeroportos. Já tratados como gado pelas empresas aéreas, exprimidos em fileiras de poltronas sempre mais próximas uma das outras, obrigados a deglutir abomináveis barras de cereal e sujeitos a constantes perdas de bagagem, os passageiros agora suportam o insuportável: os atrasos prolongados, de até 12 e 24 horas, e o cancelamento de vôos.
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No DF, metrô funciona de 18 às 20h
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Mas tem mais, para este descendente de Jeca Tatu, para quem, como no caso do ancestral, não chegaram e se afastam mais os benefícios da civilização e da cultura. Já experimentou o leitor transitar em dia de chuva com o seu fusquinha pelas ruas e avenidas das grandes cidades? Ou pelas estradas esburacadas, mesmo em dia de sol?
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Trata-se de uma aventura que conduz, nas cidades, a quilômetros e quilômetros de congestionamentos, onde a imagem mais comum é de motores fervendo. Mas, nas estradas, são veículos com o eixo quebrado, pneus arrebentados e colisões aos montes. Quem paga o prejuízo? Isso para não falar de quando se perde um compromisso importante ou se chega atrasado no emprego, verificando-se nessas horas o desaparecimento dos guardas de trânsito, urbanos e rodoviários.
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Recomendarão as autoridades, pertençam a que partido pertencerem, o uso dos transportes coletivos, mas será preciso responder? Metrôs funcionam em algumas capitais, sem interligar sequer um terço dos bairros e subúrbios. Tome-se Brasília, por exemplo.
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Os trens subterrâneos começam sua atividade às seis da tarde, encerram às oito da noite, quando mais se tornam necessários, até para o retorno de milhares de estudantes noturnos às suas casas. Quem necessita utilizá-los nesse intervalo que vá a pé, com a ressalva de que as composições param aos sábados e domingos. .
Vamos comparar a situação com outras capitais privilegiadas pela existência do metrô e chegaremos a resultados parecidos.
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Os ônibus? Basta verificar como desaparecem na maior parte do dia e, na hora do rush, transformam-se em latas de sardinha. Mesmo estando aos pedaços. Tudo com o poder público de braços cruzados, inerte, mesmo quando, como nos casos do metrô, investiu o dinheiro de nossos impostos e, concluída a obra, terceirizou o lucro, entregando a exploração a empresas privadas.
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Cidadão é tratado como inimigo
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Mas vale seguir. Que tal comparecer a um hospital ou a uma repartição pública para marcar consultas, pagar dívidas ou candidatar-se a uma aposentadoria? O cidadão é tratado como inimigo. Permanece horas à espera. Se aparece outro cidadão como ele, do lado de lá do balcão, também ganhando pouco, tornam-se, ambos, inimigos declarados da Humanidade.
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Transitar pelas ruas, a pé, transformou-se num risco dos diabos. Nem as velhinhas escapam, para não falar dos meninos que vão à escola. Há que estar atento e pronto para correr, se der tempo. Caso contrário, será contar com a sorte enquanto se entrega a carteira, o celular e o relógio.
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A polícia faz o que pode, mas os policiais são cidadãos de segunda classe, como a maioria. Salários de fome e de miséria, expondo a própria vida todos os dias, cobrados pela sociedade e obrigados a fazer bicos tantas vezes humilhantes. Mas vá o cidadão comum pleitear algum direito, na Justiça. Os processos arrastam-se por anos a fio, interrompidos pelo dilúvio de recursos protelatórios garantidos por lei e pela malandragem da parte rica da demanda.
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As escolas? Dias atrás um senador propôs que o ensino fundamental, em todo o País, envolvesse oito horas de permanência dos meninos nas escolas. Muitos senadores começaram a rir. Se as prefeituras e os estados não conseguem manter turnos diários de quatro horas, se são obrigados a suspender a merenda escolar por falta de recursos e pela vergonha dos salários pagos aos professores, como multiplicar por dois esse horror?
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Um dia desses, depois de tão enganado, vilipendiado e humilhado, o cidadão comum reagirá. Vai ficar pior...

Macunaíma 2°

Por Fernando de Barros e Silva,
Publicado na Folha de SPaulo

Lula foi reeleito demonizando o conservadorismo liberal e privatista do adversário tucano. Vendeu o crescimento que não entregou no primeiro mandato como bandeira do segundo. O jogo nem começou e já está claro que o presidente mais uma vez blefava.

Ninguém no governo sabe como fazer para crescer 5% ao ano. E o que nos chega agora dos corredores do poder são discussões preocupadas sobre a necessidade de cortar gastos, estancar o déficit da Previdência, ampliar a fatia das receitas da União que não precisa ser destinadas à saúde e à educação etc.

Está configurado o cenário para mais um estelionato. Em 2003, Lula e o PT também não tinham idéia do que fazer com o país. O conservadorismo econômico refletiu menos uma estratégia convicta de governo do que um esforço de autopreservação no poder. E foi o crescimento pífio decorrente dessa política levada com a barriga que, ironicamente, acabou amplificando os efeitos distributivos do aumento do salário mínimo e do bolsa-esmolão.

O abismo entre o que o candidato promete e o eleito realiza não é uma invenção deste governo. Quase sempre a política funciona assim. No caso de Lula, porém, esse descompasso revela uma questão de fundo: o presidente é um Macunaíma -ou Zelig, o homem-camaleão, conforme a boa definição do jornalista Merval Pereira em coluna no jornal "O Globo" desta semana.

Esperto e instintivo, Lula dá a impressão de sempre estar a serviço de si mesmo. Personalidade errática e sem convicções, é capaz de se adaptar com desenvoltura ímpar a qualquer situação e de agradar às mais diferentes platéias. Ele não arbitra conflitos -os dissolve, sem resolvê-los, na cordialidade brasileira, entendida, conforme quis Sérgio Buarque, como tradução do personalismo e das relações de favor.

Lula, "o presidente de todos", é hoje menos o portador da esperança e muito mais o fiador político do equilíbrio instável sobre o qual repousam as iniqüidades do país.

Grave preocupação

Por João Ubaldo Ribeiro,
Publicado no Estadão

Imagino que o gentil leitor ou a encantadora leitora possam suspirar mal resignados, diante do título acima: lá vem ele com assombrações para o futuro do País outra vez. Ledíssimo engano, pois não estou com preocupação nenhuma em relação a “este país”. As fontes oficiais, a começar pelo presidente, nos revelam que o País está pronto. Está tudo arrumado para o desenrolar do espetáculo do crescimento, chega a dar para sentir no ar o clima de largada para a Grande Disparada à Frente que experimentaremos a partir do próximo mandato. É só esperarmos até o novo ano, não vamos começar agora, com o Natal, o réveillon e a Semana Santa já aí. A data certa é um belo dia de abril, para ficar tudo ajeitado como devia e o homem dar a bandeirada.

Uns chatos ficam me pedindo para escrever sobre a bagunça nos aeroportos. De novo, recorro às autoridades e elas informam que os atrasos são normais. O pessoal tem mania de estranhar as coisas mais normais do mundo, como no caso do caixa dois eleitoral, que obrigou o próprio presidente a achar tempo para largar o trabalho em Paris e dar uma entrevista explicando como era normal. E esse negócio de avião interessa é às elites. Só as elites estão preocupadas com avião, o povo mesmo viaja de ônibus ou caminhão. Claro, as estradas também não valem nada e morre mais gente nelas que em certas guerras, mas isso deve ser algum resto da herança maldita (aliás, algo me diz que vão continuar encontrando muitos restos da herança maldita nos próximos anos) e logo será corrigido. Tapa-buraqueiro que tapa um buraco tapa mil. Ou, no atual estilo, tapa mais do que todos os governos anteriores juntos.

Além disso, o principal continua garantidíssimo, pois se encontra assegurada a mobilidade do Nosso Guia. Como se sabe, ele dispõe de transporte próprio, que por acaso é avião especial, mas são as injunções do cargo. Pelo gosto dele, que do povo veio e do povo nunca se afastou, era na base do pé na estrada, mas nem tudo é como a gente quer. E, com ele se mexendo, o País não pára. Como teríamos marcado presença na campanha eleitoral de Chávez, se o presidente estivesse sujeito aos percalços de um qualquer? Todo mundo pensa que o trabalho alheio é moleza, mas, como se diz, lá no Nordeste, “se o tatu está gordo, a unha é que sabe”. Quem quiser que pense que é moleza, o juízo fica zonzo e confunde até a Venezuela com a Bolívia, quando todo mundo sabe que a Bolívia é outro país de cujos interesses também cuidamos.

Finalmente, a possibilidade de ninguém, além dele e da comitiva, conseguir mais viajar pode ser parte de uma política demográfica esperta, que os olhos da má vontade não conseguem enxergar. Comporá, quem sabe, um esquema para gradualmente descongestionar os grandes centros urbanos e estancar o êxodo rural, bem como tantas outras mazelas que nos afligem e que não nos afligiriam, se não fôssemos obrigados desnecessariamente a vê-las. Talvez já esteja na mente de um planejador o Pau-de-Arara Família, para transportar de volta ao Nordeste os temidos responsáveis pela blindagem de carros nas grandes cidades e antecipo a Cartilha do Retornado, que, depois do Pau-de-Arara Família, passa a receber a Bolsa Família e permanece o resto da existência no lugar de onde nunca deveria ter saído (com exceção do presidente, que saiu por desígnio divino), tomando a cachacinha dele, jogando conversa fora e fazendo filho, que é o que o povo gosta mesmo.

A mesma coisa pode ser dita das dificuldades em transportar bens e mercadorias produzidos em todo o território nacional. À primeira vista, as muitas aves agoureiras que circundam o melhor governo que este país já teve haverão de ecoar a grita das elites, segundo a qual isso traz prejuízo para todas as áreas. Gente míope, só enxerga de perto. Sim, talvez haja prejuízo num primeiro momento, mas depois a mesma sadia descentralização deverá ocorrer. Incapazes de transportar sua mercadoria, os empresários serão forçados a desenvolver soluções locais, com a conseqüência de que poderíamos facilmente atingir níveis albaneses de auto-suficiência em todas as áreas. Só falta imprimir no céu, para todo mundo entender de vez: o País está pronto, os alicerces estão firmados, até os deputados já arrumaram seu aumentozinho e devem trabalhar mais do que nunca, com certeza pelo menos dois dias por semana - e em Brasília mesmo, não junto às bases, em suas casas de praia ou campo.

Portanto, não estou preocupado com nada disso em que vocês pensavam. A preocupação, desculpem, envolve até meu interesse particular, embora se trate de uma condição partilhada por muitos homens e uma mulher ou outra. Refiro-me à careca. Agora, Deus meu, ficou perigoso ser careca aqui no Rio. É que começaram a roubar cabelo novamente, deu no jornal. Se os carecas tivessem cabelo, estariam com ele em pé, porque a voz corrente é que o assaltante atira e mata, se não encontra o que quer. Desde que soube disso, vivo em permanente pesadelo, ante a perspectiva de ouvir um temível “o cabelo ou a vida”.

Mas esqueci que o País está pronto e que, naturalmente, isto envolve a segurança de todos os cidadãos, cabeludos ou carecas. Assuntei, assuntei e matei a charada. Está literalmente na cara e eu não vi antes, é por essas e outras que o governo tem tanto trabalho. Por que o pessoal do governo, com muito raras exceções, usa barba? Minha mente maldosa pensava que era uma forma de puxa-saquismo, ou de emblema de militância. Não é nada disso, eles estão é ensinando aos carecas como não passar aperto na hora do roubo de cabelo - é só oferecer a barba. O homem não disse, repito pela enésima vez, que o País está pronto? Pois é, as barbas mostram que já existe um Plano Nacional de Segurança em andamento, só não vê quem não quer.

Votos não forjam liderança

Editorial em O Estado de São Paulo
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Dos muitos julgamentos que o ex-presidente Fernando Henrique tem feito ultimamente sobre o seu sucessor, talvez nenhum tenha sido tão pertinente como o de que Lula é menos um líder do que um símbolo. A força incontestável do simbolismo de sua biografia, combinada com o seu extraordinário dom de falar a linguagem que o povão entende e gosta de ouvir - apurado, é verdade, depois que Duda Mendonça lhe explicou por que perdeu as três primeiras eleições presidenciais -, é o que alicerça a identificação pessoal de grande parte dos brasileiros com esse autêntico “um de nós” e os leva a consagrá-lo nas urnas. Mas sabidamente depende de outra argamassa a liderança que os políticos promovidos a chefes de governo, ou confirmados nessa condição, aspiram construir. Por isso mesmo e por muitos que sejam, votos serão sempre imprescindíveis, mas insuficientes para a obra.

Daí o contraste palpável entre o imenso superávit eleitoral do presidente e o déficit de liderança política, em sentido amplo, que ele demonstra nos movimentos iniciais do seu segundo mandato, como se de pouco lhe tivessem servido as experiências amargas deste período a caminho do desfecho. Lula dá a impressão de imaginar, por exemplo, que subindo ao palanque de Hugo Chávez, como fez dias atrás para dizer, por sinal, uma sucessão de mentirosas tonterías, reunirá mais facilmente recursos políticos para projetar a liderança regional a que ambiciona desde que vestiu a faixa presidencial. Passados quatro anos, está à vista de todos que, se a América Latina tem hoje alguém que pode reivindicar o papel de líder, ele se chama - ai de nós! - Hugo Chávez.

Outro exemplo, igualmente nítido, se encontra no panorama doméstico.

Tivesse Lula os meios que o fizessem ser percebido pelos políticos como dotado de liderança à altura da Presidência da República, a crônica deste quadriênio, especialmente a da metade final, teria sido outra. Apesar ou por causa do mensalão, ele permitiu que escorresse entre os dedos a tradicional hegemonia do Executivo sobre o Legislativo. Nisso o primeiro Lula se saiu pior do que o segundo Fernando Henrique, como que invertendo a lógica política do sistema de reeleição. Por preguiça ou inépcia no manejo das rédeas, o presidente perdeu o controle sobre a base aliada - a começar do próprio PT. Deu no definhamento da agenda legislativa do governo, vencida pela anarquia parlamentar, no parto da montanha que foi cada uma das reformas ministeriais e, vexame dos vexames, na eleição de Severino Cavalcanti para presidente da Câmara dos Deputados.

Agora, as atribulações de Lula na montagem do novo governo e de uma coligação estável e confiável no Congresso sugerem que talvez tenha desentendido as lições dos últimos anos. Se antes ele delegou a José Dirceu a interlocução com os partidos cooptáveis - apenas para desautorizar a sua esperta iniciativa de trazer o PMDB para o Planalto -, desta vez ele assumiu o comando das negociações, numa exposição pessoal de resultados incertos, dada a sua conhecida inapetência pelo conchavo com os caciques federais, o pantagruélico apetite da tigrada, as insuperáveis divisões entre os peemedebistas e a heróica resistência do PT para conservar o que considera seu direito natural: a parte do leão do poder. Na hora da divisão do butim, aos políticos pouco se dá se Lula teve tantos ou quantos milhões de votos. Se não transparecer que comanda a situação, enfrentará jogo duro.

Não se trata de dar murros na mesa. A liderança é um atributo que permite ao seu detentor ordenar o processo político e impor, sem autoritarismo, limites às ambições dos parceiros. Mas é algo que não se impõe em conchavos e barganhas. Na verdade, Lula não exerce verdadeira liderança nem dentro do seu governo. Por isso, acontece o que aconteceu na melancólica reunião inaugural do presidente com os membros de sua equipe incumbidos de propor medidas para sacudir a economia e aliviar os padecimentos fiscais do governo. Nela, o que se viu foi o chefe descartar como tímidas as idéias que lhe foram levadas, sem dar uma pista do que seriam as ousadas. “Essa mesmice não nos levará a lugar nenhum”, queixou-se Lula, incapaz de sugerir uma alternativa para a mesmice que leve ao lugar aonde quer chegar.

Aparentemente, ele sabe o que não quer - uma reforma da Previdência, por exemplo -, mas não sabe o que querer, além do fetichizado crescimento de 5% ao ano. Quando não se sabe, não se lidera.

Bom de conversa, ruim de serviço.

Por Augusto Nunes
Publicado no Jornal do Brasil

A "grande figura humana" é uma das mais interessantes versões do homem brasileiro. Tem modos gentis, sorriso manso, a placidez de um avô incapaz de repreender o neto intratável. E sofre de uma incurável aversão a atividades cansativas. É bom de conversa e ruim de serviço. Sobra-lhe exuberância na mesa do bar. Na mesa de trabalho, falta-lhe entusiasmo.

"É uma grande figura humana", diz-se do jornalista que melhora o pior botequim e piora a melhor redação. Ou do médico que garante o clima de festa ao plantão mais tedioso e impõe um clima de velório ao quarto do paciente já fora de perigo. Ou do político que discursa sobre todos os problemas sem jamais apontar qualquer solução consistente.

"É uma grande figura humana", dizem de Waldir Pires desde 1964, quando se tornou consultor-geral da República no governo João Goulart. Às vésperas da derrocada, oferecia aos inquietos informações muito animadoras sobre o "dispositivo militar" de Jango. Waldir foi para o exílio sem ter detonado sequer uma bomba de festa junina.

"É uma grande figura humana", recitaram em 1985 os amigos do ministro da Previdência Social que Tancredo Neves escolheu e José Sarney nomeou. Em 1986, assustado com o tamanho do buraco, tratou de eleger-se governador da Bahia. Mal completaria dois anos no Palácio de Ondina.

Exaurido pela agenda de chefe do Executivo, Waldir resolveu descansar no mundo da fantasia. Repassou a trabalheira ao vice Nilo Coelho e foi brincar de companheiro de chapa de Ulysses Guimarães, candidato a presidente pelo PMDB em 1989. O desempenho da dupla foi um fiasco.

Contemplados com menos de 5% dos votos, ambos se conformaram com projetos menos ambiciosos. Acabaram voltando à vida de deputado. Nos anos 90, Waldir tentaria eleger-se senador. Ultrajados pela deserção que beneficiara Nilo Coelho, os baianos se vingaram nas urnas.

Grandes figuras humanas, quando entregues ao serviço da nação, não fazem obras. Fazem amigos. Não deixam realizações tangíveis. Mas deixam boas lembranças nas memórias de quem desfrutou da agradável companhia. Filiado ao PT, Waldir, hoje com 80 anos, aproximou-se de Lula, que acaba de completar 63. A diferença de idade não impediu que logo se transformassem em amigos de infância.

Como o maior governante desde as caravelas não deixa um parceiro assim ao relento, Waldir ganhou o gabinete de ministro-chefe da Controladoria-Geral da União. Algum foguetório, pouco trabalho: um cargo sob medida para grandes figuras humanas. Lula tivera uma boa idéia.
Má idéia foi transferir o bom baiano, em março deste ano, para o endereço atual. Lula e Waldir imaginaram que um ministro da Defesa não tem nada a fazer além de fingir que manda nos militares. Isso, Waldir sabe fazer. Não sabe o resto. Lidar com aeroportos conflagrados, por exemplo. O apagão aéreo está aí, mas o ministro diz que tudo segue normal. Grande figura humana.

O malabarismo partidário

Por Gaudêncio Torquato em O Estado de São Paulo
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Pois é, a passagem do comunista Aldo Rebelo pela Presidência da República não causou comoção. Nem mesmo despertou lembrança dos tempos em que se associava o comunismo a satanás. Um comunista na direção do País - apesar do ineditismo registrado por manchetes - não é mais considerado estranho no ninho. Ainda mais Rebelo, com seu jeito de guardião do Santo Sepulcro. E, se, em vez de um dia, seu mandato presidencial durasse mais tempo, teria ele condições de instaurar um regime comunista e, de canetada, estatizar empresas privatizadas, como a Vale do Rio Doce, conforme defende o ideário do PC do B? A resposta é não. A revolução socialista, pressupondo a tomada do poder pelo proletariado e a destruição do Estado burguês, foi trocada pelo centralismo ideológico. Ademais, já não existem partidos de massa, nos moldes inventados pelos socialistas no fim do século 19. Os grandes partidos socialistas europeus se integram cada vez mais à ordem vigente, renunciando à socialização dos meios de produção. Apesar de contestarem o valor moral do capitalismo, aplaudem sua eficiência. Por isso, preferem pisar na realidade a flanar nas utopias.

A transformação de partidos de massas em partidos de quadros, fragilmente organizados, fenômeno que se observa em todos os quadrantes, nos obriga a refletir sobre nosso futuro. Se nem o minúsculo PC do B tem pacote ideológico para exibir (e, se tem, fica escondido), imaginem as siglas fortes. Sua identidade está esgarçada e seus corpos amorfos servem de massa de manobra. (Por isso Lula se apressa a fechar adesões no varejo; já conta com cerca de 330 parlamentares.) Com perspicácia, Maurice Duverger, o pensador francês, fez, há tempos, o prognóstico: “O Brasil só será uma grande potência no dia em que for uma grande democracia. E só será uma grande democracia no dia em que tiver partidos e um sistema forte e estruturado.” Nossa vida partidária, vale lembrar, começou em 1837, na monarquia, com os Partidos Conservador e Liberal, que comandaram a vida institucional até o final do Império. O germe de ambos se fez presente em todas as fases de vida política nacional, desembocando, depois de 1945, na liberal UDN, no conservador PSD e no varguista PTB, três velhas matrizes do atual leque partidário.

A pulverização partidária recente começa com a Arena e o MDB, criados pela ditadura militar e extintos em 1979. Deles se origina o ciclo da cissiparidade, a divisão de um partido em dois ou mais, como foi o caso do PFL, criado a partir do PDS do início da década de 80, que deu respaldo à segunda fase do ciclo militar; do PSDB, tirado de uma costela do PMDB; do PDT, extraído de uma banda do antigo PTB getulista; do PPS, cuja origem é o PC, o partidão, que abrigou o maior número de comunistas. Breve, estaremos abrindo o ciclo imposto pela cláusula de barreira. E a questão voltará à ordem do dia: como se comportará a nova organização partidária? A reforma política - fidelidade partidária, voto distrital, financiamento público de campanha - pouco adiantará se os partidos não tiverem doutrina.

Sinais de mudanças estão sendo dados pelo PSDB e pelo PT. Os tucanos sabem que seu partido não expressa os anseios das massas. Com dificuldade, o tucanato senta praça em plagas afastadas dos grandes centros. O ideário social-democrata, que inspirou os criadores, estiolou-se quase por completo, saindo o partido da margem esquerda para ocupar o centro do arco ideológico, aproximando-se da direita, onde pontua o ex-aliado PFL, ícone do liberalismo. O PSDB, com suas vaidades e falta de ações afirmativas, deixou o PT abrigar-se sob o colchão social, onde dorme praticamente sozinho, mas o conforto foi proporcionado pela política “neoliberal” tucana. Ante a perspectiva do enfrentamento em 2010, os dois buscarão uma configuração capaz de resgatar o verniz ideológico corroído. Para tanto será necessária uma reengenharia de organização que leve em consideração a descentralização e a conseqüente ocupação de espaços regionais, além da abertura das cúpulas dirigentes e de programas de alto impacto.

Do PMDB nada se pode esperar. Terá sempre prato cheio no banquete governamental. Continuará na estratégia de buscar votos com o poder dos cargos. O PDT, se não dobrar a vértebra, conservando-a sempre ereta, terá condições de ganhar milhões de adeptos insatisfeitos com a tibieza de tucanos e desconfiados das maracutaias petistas. Trata-se de sigla com potencial de crescimento. O PSB precisa esclarecer qual é sua proposta socialista. O PFL precisa corrigir a rota. Urge limpar a pecha de partido direitista com um discurso para as classes médias e disputar voto com tucanos e petistas. O PPS, futura Mobilização Democrática, continuará no limbo, caso Roberto Freire não lhe dê escopo. Não há perspectivas para inserir o PP, o PTB e o PL na seara doutrinária. Serão siglas funcionais de negociação. E o que esperar do PSOL, de Heloísa Helena, e do PC do B, do comunista que Lula quer entronizar, mais uma vez, na presidência da Câmara?Uma dose de utopia seria interessante. Pois, como ensina Jean-François Revel, “a utopia não tem obrigação de apresentar resultados. Sua única função é permitir aos seus adeptos a condenação do que existe em nome daquilo que não existe”.

Por último, caberá aos partidos uma varredura nos cordéis da crise da democracia representativa, agravada, no Brasil, pelas falcatruas do cotidiano político. Significa, sobretudo, aspirar o cheiro das ruas. Há um imenso vácuo no meio da sociedade por onde circulam novos movimentos e uma miríade de organizações não-governamentais que atuam na esfera das micropolíticas, principalmente em espaços debilmente ocupados pelo Estado, como a igualdade de gêneros, direitos humanos, meio ambiente e minorias. Como correias de transporte, os partidos têm o dever de dar vazão a essas demandas. Haverá inspiração para tanto?

Aparelhar mais ?!

Editorial em O Estado de São Paulo

Das muitas contradições entre o sentido das palavras e a realidade dos atos que têm caracterizado o governo Lula, nos poucos dias passados desde a reeleição, destaca-se com grande evidência a que se refere ao seu relacionamento com a imprensa. Ao reconhecimento de que toda sua trajetória política se deveu ao amplo espaço que sempre obteve na mídia, Lula acrescentou uma profissão de fé na melhoria dessa relação e anunciou a intenção de adotar a rotina das democracias (à qual sempre fora avesso), em que os chefes de Estado e governo dão entrevistas coletivas, em lugar de apenas produzirem falas oficiais lidas no teleprompter das câmeras de televisão, com transmissões compulsórias em rede nacional. Mas seus atos, e os de seis assessores, assumiram significado exatamente oposto ao das intenções reconciliatórias, mostrando um ânimo de autoritarismo censório como se o presidente e seu partido tivessem velhas contas a ajustar com a imprensa.

Foram a truculência dos leões-de-chácara petistas barrando os jornalistas à porta do Alvorada, o interrogatório repressor dos repórteres da revista Veja na Polícia Federal (PF), o grampo pedido (e obtido) pela PF à Justiça em telefones do jornal Folha de S.Paulo, as declarações capciosas do presidente interino do PT, Marco Aurélio Garcia, sugerindo a retratação dos jornalistas quanto ao mensalão (como se a “sofisticada organização criminosa” dentro do governo fosse invenção da imprensa e não constatação do procurador-geral da República), tudo culminando com a espalhafatosa, desnecessária e até chocante diatribe presidencial contra a imprensa de seu país em território estrangeiro - quando, para ajudar a reeleição de Hugo Chávez, se comparou ao caudilho venezuelano, no que diz respeito ao “preconceito” sofrido, por parte da imprensa, empresários e banqueiros (logo estes, imaginem!).

Mas o triunfalismo que dominou o espírito dos que se sentem mais do que consagrados nas urnas - como se estas tivessem aprovado, com louvor, o aparelhamento da máquina do Estado pelo partido governista - parece pretender algo mais do que atacar a imprensa e conduzir com “rédea curta” os veículos de comunicação: transparece, agora, o propósito de transformar a Radiobrás em um dócil instrumento a serviço dos interesses políticos do atual governo federal. Setores do PT - que, à falta de melhor designação, chamaríamos de ala do ocupacionismo ortodoxo - querem aproveitar a reforma ministerial para mudar a direção da estatal de comunicação, por não a considerarem suficientemente “aparelhada”.

Dizem eles que a grande estatal - com sua força estrutural representada por três emissoras de televisão, quatro de rádio e duas agências geradoras e distribuidoras de notícias - deveria dedicar-se tão-só à publicidade dos atos e fatos do governo. Consideram um absurdo, por exemplo, que durante a campanha eleitoral até reportagens não favoráveis ao presidente Lula tenham sido veiculadas pelo sistema de comunicação oficial, assim como críticas oposicionistas feitas em discursos no Congresso. O que essa aberrante posição revela é que certos petistas e governistas se sentem avalizados pelas urnas para agir, no segundo mandato de Lula, sem quaisquer limitações na falta de escrúpulo com que se confundem os interesses do partido com os do governo, os do governo com os do Estado e os do Estado com os dos políticos que nele estão a exercer o Poder.

É verdade que, em comparação com os demais órgãos da administração federal, até que a Radiobrás parecia menos “aparelhada” e capaz de mostrar algum laivo de autonomia funcional, na transmissão de notícias relacionadas aos Poderes. Foi, certamente, por sentir a força da presente onda ocupacionista que o atual presidente da estatal, Eugênio Bucci, enviou carta ao presidente da República “colocando seu cargo à disposição”. Justamente por ser demissível ad nutum - sem necessidade de explicações por parte de quem o subordina -, Bucci chama a atenção, com tal iniciativa, para a pressão que chega à sua área. Mas o que tudo isso indica, no fundo, é que acabaram de vez os escrúpulos (se os havia) e os disfarces (estes havia) dos que agora se sentem “donos” do Poder e acham que podem permitir-se tudo. Só há um pormenor: estão enganados.

Manual da mordomia parlamentar

por Ipojuca Pontes

“A política é a arte de nos servirmos das pessoas” – Henry Montherlant (1896-1972)A política, como a cocaína, vicia. Uma vez eleito “representante do povo”, o sujeito não quer mais largar o osso – nem a pau. Seja vereador, prefeito, governador, deputado, senador ou presidente da República, ninguém quer abrir mão de continuar se “sacrificando em função da causa pública”, de lutar dia e noite “pela melhoria de vida das camadas desfavorecidas” ou, mais modernamente, de batalhar pela “justiça e a inclusão social”. A coisa chega a tal ponto que o vício passa de pai para filho, sobrinho, neto e bisneto, numa cadeia sem fim. Há famílias, no Brasil, que detém o poder por mais de século. Ano passado, depois de três doses de “Red Label”, um deputado de tradição na política da Paraíba me garantiu que o poder político era melhor do que sexo, droga e lagosta - os três juntos. Ele dizia e repetia, insistentemente, como uma agulha presa ao sulco de um disco quebrado:
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- O negócio é o “pudê”, seu doutor, o “pudê”!... O negócio é o “pudê”!...
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De fato, o negócio é muito bom, ou melhor, ótimo, pelo menos no Brasil, onde o político, por mais ordinário que seja, tem tratamento de potentado. Ainda agora, para comprovar o fato, está sendo distribuído em Brasília (“Ilha da Fantasia”) o “Manual do Gabinete Parlamentar”, de 330 páginas, especialmente produzido pela Câmara para o conhecimento dos novos 269 deputados - alguns deles eleitos em cima de acordos obscuros. Ao todo, são listados 180 serviços e mordomias a que os novos parlamentares têm direito, uma lista de fazer inveja ao próprio Ali Khan, o príncipe bilionário que substituiu a água potável do dia a dia por champanha francesa Moët & Chandon.
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Na listagem do “Manual” editado pela Câmara ficamos sabendo, por exemplo, que o deputado eleito tem um auxílio moradia de R$ 3 mil mensais, mesmo que divida o apartamento com outro deputado e só trabalhe, em média, dois dias por semana. Para se manter em dia com o noticiário, o felizardo tem direito à assinatura de cinco publicações pagas pelo erário, a serem entregues em casa ou no gabinete, a escolher. Para despesas com telefone e correios o parlamentar privilegiado arrasta da Viúva cerca de R$ 4,2 mangos limpinhos. Para se comunicar com o mundo ele tem direito à página na Internet (site da Câmara) e e-mail com 40 megabites para armazenar mensagens, além de acesso a TV a Cabo, com canais nacionais e internacionais, sem gastar um só centavo. Para viajar ao seu Estado, o felizardo tem direito a 48 passagens aéreas de ida e volta por ano, sem meter a mão no bolso.
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Mas a coisa não fica por ai. Tem muito mais. Para custear salários de secretárias e assessores, em bem instalados gabinetes que são classificados de “enxuto” ou “ampliado”, o ilustre “representante do povo” ganha a cota mensal nada desprezível de R$ 50 mil mensais, valendo acrescentar o seguinte: os assessores e secretárias constituirão fileiras de futuros aposentados com (bons) salários pagos pela sempre deficitária Previdência. Falar em Previdência, o sacrificado parlamentar, após oito anos de falação e papelada, passa a ter direito, automaticamente, a aposentadoria proporcional. Oito anos! Ademais, além de passaporte especial (diplomático) para si e familiares, o deputado amigo abiscoita “verba indenizatória” (recentemente transformada em “subsídio oficializado”) no valor de R$ 15 mil reais, destinada a despesas de manutenção e aluguel de escritório fora de Brasília. Sem falar, é claro, no salário bruto que recebe, no momento, em torno de R$ 12,4, uma cifra transitória visto que o deputado costuma aumentar periodicamente o próprio salário.Claro, não é preciso mencionar que, entre as 180 mordomias, inclui-se também o direito a frigobar, água mineral, cafezinho, papel higiênico, serviços gráficos, papéis, envelopes, selos, clips, automóvel 0 KM, motorista, combustível, dois salários extras (um no final e outro no começo do ano), noventa dias de férias anuais e folga remunerada de trinta dias, serviço médico estendido a familiares e remuneração paga em dólar para representação quando em viagem ao exterior – para não falar, entre os mais espertos, do “caixa 2” ou de sólidos esquemas tipo “sanguessugas” e “vampiros”.
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No momento, os deputados federais mostram-se magoados por dois pequenos motivos: primeiro, o que diz respeito à suspensão da regalia de receber uma pasta executiva de couro, tipo 007, das 660 encomendadas pela Câmara, no valor de R$ 407, 7 mil. Pressionado pelo noticiário, o deputado comunista Aldo Rebelo, presidente da Casa, resolveu transferir o dinheiro das pastas para ampliação de antigas mordomias. O segundo, certo desapontamento com a imprensa que criticou a ampliação da verba de R$ 5 milhões para R$ 6 milhões no valor das emendas individuais do orçamento da União, votada em sessão noturna pela Comissão de Orçamento da Câmara. Para quem não sabe, os parlamentares da Brazuca contam com o privilégio de repassarem recursos das emendas anualmente votadas para entidades e ONGs controladas por eles próprios, amigos e familiares. Segundo Valdir Raupp, relator-geral das emendas orçamentárias, que elevaram os gastos em cerca de R$ 600 milhões, o aumento dos novos valores “será um complicador a mais para fechar as contas do Orçamento da União”.
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Aqui, convém assegurar que o relator-geral Valdir Raupp está completamente enganado. Os deputados em Brasília sempre encontrarão uma manobra rápida e eficiente para fechar as contas do Orçamento da União. De fato, a solução não é muito complicada. Basta ampliar a volumosa carga tributária, criando um novo imposto sobre as costas da patuléia ignara - e o problema está resolvido.
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Quem duvida que vem mais imposto por aí?
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Publicado no site Diego Casagrande

As conjugações do verbo governar

Por Ana Maria Tahan no Jornal do Brasil

O presidente Lula precisa aprender, o que a prática ainda não conseguiu ensinar: governar não é um ato de vontade. Reger é um dos significados do verbo. Administrar, outro. Afinação da orquestra é essencial à conjugação na primeira interpretação. Sintonia da equipe, imprescindível à segunda definição. O cotidiano do Planalto tem sido a melhor escola para Lula assimilar o ritmo certo do "eu governo, tu governas..."

Aos fatos. Depois de se impressionar com o monumental déficit do Instituto do Coração de São Paulo, parada obrigatória para poderosos com a saúde abalada ou milhares de desafortunados nativos, Lula decretou que o rombo deveria ser sanado em 48 horas. Diagnóstico certo, tempo de tratamento errado. Até hoje nada aconteceu e o Incor espera, ansioso, o socorro financeiro prometido. Nenhum real se materializou no cofre.

Em meio à crise dos aeroportos e antes de embarcar no Aerolula rumo ao dendê baiano - enquanto multidões de brasileiros baratonteavam em salas de embarque, expostos aos humores de controladores de vôo e regimentos militares - o presidente reuniu ministros, comandantes e quetais. Exigiu uma solução definitiva para os atrasos e a volta à normalidade nos céus e na terra. Durante o feriado prensado da semana, descobriu que tudo continuava como dantes no aeroporto de Abrantes.

Na saúde ou nas asas criadas por Santos Dumont, como em tudo o mais, o desejo esbarra na realidade e obriga ao pouso forçado. Na política, também. O presidente tem consumido horas para se aperfeiçoar na arte da negociação com os partidos e flanar quatro anos sem interrupções ditadas por ciclones ou furações fabricados no Congresso. Elegeu o PMDB como o amigo mais próximo, sob medida para compor o ministério e a maioria parlamentar. Quer o PMDB todinho para ele. O partido, contudo, não é mulher fiel. Gosta de piscar para quem apresenta estampa mais vistosa. E ainda não deu o sim, nem se preparou para o beijo matrimonial.

Dinheiro não nasce por decreto presidencial. Controladores não se multiplicam porque o comandante-mor do Planalto determina. O PMDB não fica um só e se entrega porque o dirigente supremo do PT assim o quer. O ex-presidente José Sarney (hoje unha e carne com Lula) conta que em cada 10 ordens que disparava do gabinete ocupado pelo aliado petista apenas uma chegava ao destino. O ex-presidente Fernando Henrique vive contando que uma das coisas mais difíceis de conseguir, quando se pede no Planalto, é um copo d'água.

As verdades transmitidas por antecessores pode ajudar o atual presidente, reeleito para governar por mais quatro anos, a compreender que o "deixa comigo" não funciona. A vontade do chefe precisa motivar, convencer, atrair seguidores, que vão repassando recados e monitorando a execução da tarefa no andar de baixo. O presidente Lula também deve compreender que não exercerá dois mandatos diferentes.

Está reeleito. Ao contrário de 2002, quando a transição durou dois meses, o intervalo entre um e outro presidente é desnecessário agora. O chefe de governo continua. A vida, também. Se vai trocar ministros, por que não o faz logo? Se quer tirar Waldir Pires do Ministério da Defesa, por que esperar janeiro? Se quer deslocar Luiz Dulci da Secretaria-Geral para outro gabinete, mude já. Se quer afastar quem estava, não titubeie: exonere. Se quer Roseana Sarney na equipe, nomeie imediatamente. Lula não vai tomar posse. Não vai receber a faixa. Já está com ela. Não é um homem providencial. O exercício do poder não permite hiatos. Exige regência perfeita. Administração competente. E comando democrático.