sexta-feira, fevereiro 15, 2013

Meteoro cai na Rússia e deixa cerca de mil feridos

O Globo 
Com Agências Internacionais

Onda de choque quebrou janelas e balançou prédios na região dos Montes Urais
Rocha teria cerca de 10 toneladas, segundo agência russa


MOSCOU - Cerca de mil pessoas ficaram feridas, entre elas 200 crianças, após a queda de um meteoro na região dos Montes Urais, na Rússia, nesta sexta-feira. Onze estão em estado grave e foram levadas a centros médicos locais, segundo agências internacionais. A rocha, estimada em 10 toneladas, entrou na atmosfera e começou a se desfazer. Parte dela atingiu um lago na pequena cidade de Chebarkul, causando pânico entre moradores de todos os arredores. A onda de choque causada pelo fenômeno destruiu janelas e balançou prédios, enquanto equipes de resgate foram deslocadas para socorrer a população.

De acordo com autoridades, a maior parte dos feridos teve arranhões leves. Outros tiveram que ser atendidos em razão do susto. Não foram relatadas mortes em consequência do meteoro, mas o presidente Vladimir Putin, que nesta sexta-feira recebe ministros da Fazenda dos países do G20, e o primeiro-ministro Dmitry Medvedev foram notificados sobre o acontecimento.

No encontro, Putin criticou o sistema de alerta da Rússia contra meteoros - qualificando-o como “não totalmente eficaz” - e disse que o fenômeno deve interessar ao país “não somente de um ponto de vista astronômico, mas do ponto de vista do sistema de aviso para a população”.

A Academia Russa de Ciências estimou que a rocha pesava cerca de 10 toneladas. Fontes da agência de notícias Russian TV afirmam que o governo russo teria interceptado a rocha, que se desintegrou e caiu em três cidades, mas nada foi confirmado oficialmente até o momento.
Testemunhas contam que avistaram uma bola de fogo no céu, seguida de um flash e luz e o barulho de uma grande explosão. Alarmes de carros soaram, janelas quebraram e telefones celulares tiveram o funcionamento afetado pelo incidente.

- Nós vimos um grande flash de luz. Então, saímos para ver o que estava acontecendo e escutamos um som muito alto, como se fosse um trovão - disse Sergey Hametov, morador da região de Chelyabinsk, onde acredita-se que a maior parte do meteoro tenha caído.

Viktor Prokofiev, de 36 anos, morador de Yekaterinburgo, nos Montes Urais, disse que estava indo para o trabalho quando viu o meteoro. Com o clarão, ele sentiu como se tivesse ficado cego.


- Eu estava dirigindo para o trabalho, estava bem escuro, mas de repente veio um clarão como se fosse dia. Me senti como se estivesse ficado cego pela luz - acrescentou.

A região de Chelyabinsk, a cerca de 1.500 quilômetros de Moscou, abriga diversas fábricas, uma usina nuclear e o centro Mayak de armazenamento e tratamento de lixo atômico. A cidade de Chebarkul, alvo da rocha, tem 46 mil habitantes.

Incidentes do tipo são raros. Acredita-se que um meteorito tenha devastado uma área de mais de 2.000 quilômetros quadrados na Sibéria em 1908.


Meteorito passa pelos Montes Urais, na Rússia




Asteroide passa hoje próximo a Terra
No fim da tarde desta sexta-feira, o asteroide 2012 DA14, uma rocha espacial com cerca de 50 metros de diâmetro, vai passar a apenas 22 mil quilômetros da superfície da Terra, a menor distância já registrada para um objeto do tipo. Autoridades chegaram a especular se a queda do meteoro na Rússia teria relação com o corpo celeste, mas cientistas afirmam que os dois fenômenos não estão relacionados.

Segundo a Nasa, não há nenhum risco de colisão do asteroide com o planeta nesta passagem nem no futuro próximo. Como a Terra orbita o Sol a uma velocidade média de cerca de 100 mil km/h, o 2012 DA14 vai “errar” o planeta por menos de 15 minutos.

Pessoas observam destroços em local que caiu o meteorito em Tcheliabinsk, 
nos Urais, na Rússia; 100 pessoas ficaram feridos

Danos à loja em Cheliabinsk por causa de meteoritos: 
a maioria dos feridos foi vítima de vidros quebrados

Veja as áreas atingidas pela queda do meteorito na Rússia
O meteorito, possivelmente parte da chuva das Quadrantídeas, caiu numa região dos Montes Urais, na Rússia. Feriu cerca de 1.000 pessoas e deixou milhares apavoradas




























QUAL A DIFERENÇA ENTRE ASTEROIDE, METEORITO E METEORO?
Veja online

Asteroides são corpos celestes menores que planetas que vagam pelo Sistema Solar desde sua formação, há 4,6 bilhões de anos. Meteoritos são pedaços de asteroides que eventualmente atingem a superfície da Terra. Meteoros são os rastros luminosos produzidos por pedaços de asteroides em contato com a atmosfera da Terra, resultado do atrito com o ar, e são popularmente reconhecidos como estrelas cadentes.

 Chelyabinsk Region Police/AFP
Buraco aberto no gelo pela queda do meteorito na cidade de Tcheliabinsk, na Rússia  

Histórico — 
Segundo os cientistas, a queda de um meteorito de 10 quilômetros de diâmetro sobre a península de Iucatã, no México, foi a responsável pelo fim da era dos dinossauros há 65,5 milhões de anos e afetou quase 70% das espécies do planeta. A maior cratera originada pelo impacto de um meteorito na Terra foi descoberta em 2006 na região oriental da Antártida e tem 480 quilômetros de diâmetro. Está a uma profundidade de quase dois quilômetros sob a camada de gelo e calcula-se que a queda aconteceu há 250 milhões de anos.

Os episódios em que fragmentos de um meteorito atingiram a Terra são muitos, mas são poucas as ocasiões das quais existem evidências concretas de que tenham causado danos. Em setembro de 1999 um pequeno meteorito caiu sobre uma casa na cidade de Kobe (Japão) e perfurou o telhado, sem deixar nenhum ferido. A rocha se fragmentou em duas partes ao se chocar com a casa, sendo que a maior media cinco centímetros e pesava 60 gramas.

Em março de 2003 uma chuva de meteoritos, que tinha entre um e dez centímetros de diâmetro, caiu sobre os estados de Illinois, Indiana, Ohio e Wisconsin, no meio oeste dos Estados Unidos. Não foram registradas ocorrências de feridos, apesar dos objetos terem atravessado os telhados de duas casas.

Asteroides — 
Em relação aos asteroides, são vários os "potencialmente perigosos" que passaram próximos da Terra nos últimos anos, mas nenhum chegou tão perto quanto o 2012 DA14 irá chegar. Em março de 2009, o DD45 — com cerca de 30 metros de diâmetro — passou a 70.000 quilômetros da superfície terrestre, sobre o Oceano Pacífico nas proximidades do Taiti.

Em outubro do mesmo ano, um asteroide com entre cinco e dez metros de diâmetro explodiu na atmosfera sobre a Indonésia com uma potência de 50 quilotons — três vezes maior que a bomba de Hiroshima. Em outubro de 2008, um pequeno asteroide de cinco metros de diâmetro colidiu com a atmosfera terrestre sobre o Sudão, sendo o primeiro a ser acompanhado pelos cientistas antes de atingir a Terra.

No vídeo a seguir, acompanhe o momento da queda do meteorito:




A censura de Dilma


Adelson Elias Vasconcellos

O jornalista Ilimar Franco, do jornal O Globo, publicou a seguinte nota. Comentaremos em seguida: 

A presidente Dilma controla tanto os atos de governo que até discursos dos ministros passam pelo seu crivo. Na véspera de eventos oficiais, os textos são mandados para o Planalto e devolvidos com correções e assuntos excluídos.

O sujeito que aceita este tipo de submissão tem que ser muito porcaria. Num país em que se diz vigorar plena democracia pela qual se garante a qualquer cidadão a livre manifestação do pensamento, um ministro não pode se ajoelhar diante de tamanha falta de respeito até ao servidor público que procura dar o melhor de si mesmo para o seu país, estamos diante de suprema humilhação e até diria, ingratidão, muito além do limite humano.

O grande problema de certas chefias, e isto é comum no mundo corporativo, não apenas na vida pública, é justamente a falta de sinceridade de muitos colaboradores não porque não queiram se comportar assim, mas muito por conta de que muitos patrões e chefias detestam ouvir a verdade, preferem a cantilena florida , mas desonesta, da puxação de saco. Acabam repetindo-se nos erros justamente por impedir que seus colaboradores mais diretos usem a verdade como instrumento de correção de rumos e redução de danos.  

O governo Dilma vem se notabilizando pela obviedade de instrumentos ultrapassados, pela falta de um bom plano de ação, de um rumo definido. E os resultados estão todos aí bem expostos: redução de investimentos, crescimento ridículo pelas potencialidades do próprio país, inflação galopando insistente e reduzindo ganhos reais de salários, contas públicas no vermelho, sem falar na cretina manipulação de uma tal contabilidade criativa, artifício empregado para mascarar a realidade ruim de um governo desastroso. 

Eu próprio precisei amargar períodos de desemprego em minha vida profissional por ser teimoso em expressar minha opinião sobre determinadas decisões. E não me arrependo. Se qualquer empresário, ou mesmo superior, me pedisse para calar, ou tentasse me censurar, na hora não vacilaria em mandá-lo à merda.Qualquer profissional tem o dever em prestar o melhor serviço que puder em favor da empresa, em benefício até da própria sobrevivência da organização. Isto até admite contrariar decisões superiores. O mesmo se dá na vida pública. A nenhum presidente é dado o dom da infalibilidade. Se tem a seu lado um profissional reconhecido, deve respeitar suas opiniões mesmo que elas contrariem o pensamento do governante.   Pode não acatá-las e discordar, não pode, porém, faltar-lhe com o respeito devido tampouco tentar cassar-lhe o direto de se manifestar.

Um governo com a estrutura ministerial montada por Dilma Rousseff jamais conseguirá falar uma mesma linguagem, e se manter em sintonia perfeita com a presidente. Há um jogo baixo de interesses da politicagem nefasta que se pratica no Brasil. Além disto, com praticamente 40 ministérios, sequer se consegue reunir esta turma seguidamente, com o propósito até de afinar o discurso. A menos que me engane, há ministros que, após dois anos, sequer conseguiram ter audiências com Dilma Rousseff para tratara de assuntos relativos à sua pasta. 

Fica claro que esta estúpida imposição de censura até nos discursos dos ministros, é a deformação de uma péssima estrutura de governo, do qual o resultado ridículo acaba sendo consequência perfeitamente natural.
Aliás, censura é uma palavra que faz parte do repertório cretino de ações de governo da cartilha do PT.   Ainda no governo Lula, muitas foram as  tentativas de se amordaçar o Ministério Público e de ressuscitar a censura à imprensa. E acreditem, apesar do discurso de Dilma, este objetivo não está afastado dos sonhos petistas. 

Neste particular, lá fora, já se percebe aquilo que aqui dentro já vem ocorrendo com frequência cada vez maior. Nossa liberdade de imprensa, um dos princípios basilares para qualquer regime democrático, mesmo um meio torto como o nosso, cada dia corre mais riscos. E não se diga que este risco parte apenas de ações do Executivo. Também nosso Judiciário  adora por mordaças em jornalistas, órgãos de imprensa, blogs, numa tentativa canalha de calar a voz da verdade que poderiam desmascarar políticos asquerosos e canalhas que gravitam em torno do poder em favor apenas de seus exclusivos interesses pessoais. A verdade nestes casos versa sobre ações criminosas cometidas por agentes públicos. 

Neste sentido, segundo informa a agência AFP, recente pesquisa concluiu que liberdade de imprensa corre perigo em nosso país. O Brasil, ao lado do Equador, faz parte de uma reduzida lista de dez países do mundo, elaborada pelo Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ, em inglês), onde a liberdade de imprensa corre perigo. O CPJ divulgou nesta quinta-feira (14) em Nova York seu relatório anual "Ataques à Imprensa" no qual denuncia "um aumento sem precedentes no número de jornalistas assassinados e presos no último ano" e uma "legislação restritiva e censura estatal" que colocam em risco o jornalismo independente. Quanto à lista de "Países em Risco", que identifica os dez Estados do mundo onde a liberdade de imprensa enfrentou maiores perigos em 2012, o Comitê incluiu Equador, Brasil, Síria, Somália, Irã, Vietnã, Etiópia, Turquia, Paquistão e Rússia. Para produzir a lista, o CPJ examinou mortes, prisões, legislação restritiva, censura estatal, impunidade nos ataques contra a imprensa e quantidade de jornalistas exilados. No caso do Brasil, o Comitê denunciou os "altos índices de assassinatos e impunidade" arraigados no país, assim como um "padrão de censura judicial". O relatório destaca ainda a cadeia de comunicação que funciona no Brasil. "Os obstáculos no Brasil são, em particular, alarmantes, dada a sua condição de líder regional e sede de uma vasta e diversa rede de meios de comunicação", diz o relatório. 

Assim, não é de se estranhar esta atuação personalista, autoritária e arbitrária da senhora Dilma Rousseff para governar o pensamento de seus ministros e auxiliares diretos. É sintoma de um modelo de poder que não admite o contraditório, que não admite oposição, e que não aceita sequer a crítica. Trata-se de um sistema que só permite dizer sim, que só concede a palavra a quem expressar elogios, que só se satisfaz coma bajulação sórdida e rasteira. 

Diz-se que a imprensa independente, aquela que não se ajoelha ao poder, é a verdadeira força de oposição ao governo petista. Até parece!!! Será que o PT esqueceu, de quando era oposição, o comportamento da imprensa? Ou será que as críticas duras feitas ao governos FHC, Itamar, Collor ou Sarney também não foram  instrumentos de oposição utilizados pelo próprio PT? 

Ora, a imprensa independente não participa do poder, não é partido político e não divide com políticos os cargos, os milhares de cargos inúteis que o governante de plantão distribui aos seus pares e cúmplices. A imprensa independente apenas noticia, informa e até critica ou elogia quando acha que uma situação ou outra são pertinentes. 

No caso de Dilma, a soberana, não podendo dar seguimento ao ideal de censurar a imprensa imaginado e sonhado pelos companheiros petistas, tenta calar as fontes de informações que poderiam abrir caminho às críticas. Mas este comportamento não se prende apenas a atitude dissimulada de ocultar da opinião pública determinados acontecimentos desagradáveis de seu governo. Isto vem incluso no pacote de seu gênio arrogante e grosseiro. Esta senhora desconhece completamente o significado da palavra educação que só vem à tona, de forma hipócrita e demagógica, quando desfila em palanques eleitoreiro com promessas falsas e vazias. 

Mesmo que a censura não esteja prevista em nossa Constituição, há nos critério da CPJ um item que poderia se encaixar perfeitamente no caso brasileiro: a censura estatal. Para tanto, aqui se empregam recursos públicos para comprar e cooptar alguns jornais e periódicos regionais para que os mesmos pratiquem uma espécie de imprensa chapa branca. Como tais meios sempre correm atrás de patrocínios para se manterem em pé, é neste momento que a publicidade de estatais e do próprio governo entra com a oferta do é dando que recebe. Também conta as tentativas de se impedir a publicidade de determinados produtos, sob falsas alegações do “interesse público”, o que prejudicaria os grandes veículos independentes. Neste caso, registro que não  me refiro a publicidade de cigarros e bebidas alcoólicas. 

As atitudes grotescas de Dilma Rousseff em relação às falas de seus ministros, além de constrangedoras, indica bem um dos meios de que se vale para impor a lei do silêncio, é a censura estatal planando em sua força máxima. Um presidente pode ser popular sem resvalar no baixo ventre do populismo rombudo e ignorante. Vai levar, ainda, um enorme tempo para que o brasileiro saiba fazer esta distinção. Até lá, os inescrupulosos farão muita festa, e censura, mesmo que dissimulada, ainda permanecerá muito viva entre nós. 

Foragido da Justiça, Vaccari é assíduo em Itaipu
Réu na Justiça de São Paulo por formação de quadrilha, estelionato, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro, o ex- tesoureiro da falida Cooperativa Habitacional dos Bancários João Vaccari Neto, tido como em “lugar incerto e não sabido”, pode ser encontrado no escritório da Itaipu Binacional em Brasília, onde bate ponto no conselho da empresa, ganhando R$ 16 mil mensais. Itaipu garante que ele é assíduo.

A assessoria de Itaipu não informou a última reunião do conselho com a presença de João Vaccari Neto e quanto ele embolsa.

O advogado de Vaccari informou que o ex-secretário de Finanças do PT, “sumido” há dois anos, responderá no prazo.

O ex-tesoureiro da campanha de Dilma e o ministro Celso Amorim (Defesa) engordam os contra-cheques como conselheiros de Furnas.

Aceita pela Justiça, a denúncia do Ministério Público contra a Bancoop envolve empresas como a Caso, do aloprado segurança Freud Godoy.

ANAC prá quê? GOL dá prejuízo  e ainda desrespeita cadeirante
Nota do Cláudio Humberto em sua página: 

O desrespeito das empresas aéreas à clientela atinge níveis absurdos. Há 67 dias, Janaína Aguilera, 23, fez o vôo Belém-Brasília-Curitiba e, no destino, soube que a empresa havia quebrado sua cadeira de rodas. Ela e o pai, Paulo Gonzáles Aquilera, tenta desde então resolver o problema, receber a cadeira de volta. Em vão. Só ontem, interpelada pela coluna, a GOL prometeu devolvê-la “na próximos semana”.

A GOL danificou a cadeira de rodas de Janaína em 2 de dezembro, e alega que mais de dois meses depois ainda não obteve as peças.

Sem cadeira, Janaína Aguilera, atleta de esgrima, está impossibilitada de atender à convocação do Comitê Paraolímpico Brasileiro.

Ao receber a queixa de Janaína contra a GOL, a Agência Nacional de Aviação Civil lavou as mãos quando recebe, mostrando a quem serve.

Saímos do buraco. Para onde?


Carlos Alberto Sardenberg
O Globo

Brasil não consegue superar obstáculos aos investimentos públicos e privados. Não consegue por escolhas políticas equivocadas

O pior não aconteceu — e nisso estão todos de acordo. Vai daí que a economia mundial engrenou uma marcha de recuperação? Aqui as opiniões se dividem, embora a maioria se incline para o lado otimista, como se viu, aliás, em recente enquete da revista “The Economist”, com votos pela internet. 61% dos votantes responderam “sim” à pergunta: a economia global estará em melhor forma em 2013 do que em 2012?

Nesse ângulo, a resposta cabe também para a economia brasileira e por maioria ainda mais ampla. Quase ninguém acha que este ano pode ser pior do que o anterior.

Grande vantagem, ironizam os pessimistas: nada pode ser pior que 2012, nem aqui e nem lá fora.

Faz sentido. O que leva a outra questão: o sentimento de melhora reflete uma realidade mais favorável ou apenas o alívio de se ter evitado o pior?

De fato, o mundo esteve na corda bamba. Três situações estavam colocadas na categoria “o pior que pode acontecer”: o colapso do euro, a queda dos EUA no abismo fiscal e uma parada súbita na China, com o ingrediente de crise política.

Como sabemos, nada disso se passou, o que explica o alívio. Mas as coisas foram além disso. As chances de ocorrer o pior se reduziram a um mínimo naqueles três casos.

Não se fala mais do fracasso da Zona do Euro, nem na retirada de algum país, nem em eventuais catástrofes na Grécia ou Espanha. (Sim, o governo espanhol pode cair, é verdade, mas por corrupção).

Os movimentos de rua contra os programas de austeridade perderam ímpeto, enquanto governos locais e a liderança europeia ganharam força política porque começam a aparecer os primeiros sinais de saída do fundo do poço.

Foi mais ou menos como o Occupy Wall Street. O pessoal acampou em Nova York, teve imensa repercussão na mídia global, a tradicional, e se espalhou pelas redes sociais. Com o tempo, porém, como não surgisse nenhuma liderança confiável para os outros, nem propostas consistentes, a turma desarmou as barracas e foi para casa, pensando em quem votar.

Esta é a verdade, por mais aborrecida que pareça. As políticas de austeridade mais ou menos ortodoxas estão ganhando a parada. Na Europa, François Hollande sequer conseguiu arranhar a liderança de Angela Merckel, simplesmente porque não apresentou nem uma ideia sobre como turbinar o crescimento em seu próprio país.

Nos EUA, um renovado Obama toma, na teoria, o lado dos progressistas “senso comum”, ao sustentar que o ajuste das contas públicas não pode prejudicar a recuperação do crescimento americano. Mas sabe, e negocia isso com os republicanos, que precisa apresentar um programa de ajuste de médio prazo. Como os republicanos, de seu lado, sabem que perderam a batalha e que não ganharão nada se o país cair no abismo fiscal — uma recessão provocada por uma combinação irracional de corte de gastos e aumento de impostos —, a probabilidade maior é que saia algum entendimento duradouro.

E a China não caiu numa aterrissagem forçada, nem a troca de comando político degenerou em crise — o que foi evitar o pior. Mas, do fim do ano passado para cá, a economia voltou a acelerar, embora em ritmo mais lento.

Tudo bem, admitem os pessimistas, mas acrescentam: nada disso garante que o mundo está iniciando uma nova era de crescimento. Para esse pessoal, o que se conseguiu foi apenas driblar os efeitos mais próximos da grande crise de 2008/09. Mesmo sem turbulência, tal é a tese, a economia global está presa a uma armadilha de baixa expansão por não ter resolvido as grandes questões estruturais.

Tem verdades nessa formulação. Boa parte do mundo enfrenta hoje questões estruturais graves, como — talvez a mais difícil — o financiamento dos gastos crescentes com aposentadorias e saúde. Muitas economias, especialmente na Europa, precisam de reformas variadas, politicamente difíceis, para recuperar a competitividade. E mesmo os EUA, a nação mais dinâmica entre as maduras, enfrenta barreiras naqueles mesmos temas.

Por outro lado, seguindo na vertente pessimista, mesmo os emergentes estariam perdendo o brilho do crescimento acelerado. O Brasil, aqui, é o exemplo mais destacado. Simplesmente não consegue superar os obstáculos aos investimentos públicos e privados. E não consegue por razões internas, por escolhas políticas equivocadas.

Ocorre que outros emergentes estão fazendo opções mais acertadas e, assim, mantendo a força do crescimento. O que sugere uma conclusão entre otimista e pessimista: há uma parte do mundo que vai se saindo bem, outra que se arrasta. É meio óbvio, claro, mas há sempre uma parte dominante. E, no momento, parece que essa dominância está com os países e regiões que vão encontrando as saídas para a crise e para novos momentos de crescimento. E se alguns podem....

Os boatos nada santos


Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Esta coluna nega formalmente os rumores de que o senador José Sarney esteja pleiteando o cargo de papa, no lugar de Bento 16. O senador Renan Calheiros também rejeita qualquer pretensão. Certamente têm razão: num cargo desse tipo, não há como conciliar o trabalho com as exigências familiares. Roseana, Sarney Filho, Renanzinho, de que maneira poderiam auxiliar o trabalho dos pais? 

O ex-presidente Lula não se manifestou sobre o assunto, o que só fará depois que viajar para o Vaticano para conversar com o papa renunciante. "Companheiro Santidade, tem mesmo de passar o dia lendo e rezando, junto com um monte de gringo vestido de vermelho que só fala língua esquisita?" Talvez o Gilbertinho, por que não? Foi seminarista, entende dessas coisas. Mas quem é que vai lhe contar, depois, tudo o que a Dilma anda fazendo? O Zé Dirceu, também não: está com a ficha suja. Conforme o próprio Zé contou, já foi coroinha, mas terminou sendo afastado da função porque se apropriava de hóstias. 

O senador Eduardo Suplicy poderia ser um nome interessante, até porque sua característica maneira de falar já lembra o tradicional cantochão eclesiástico. Mas, quando terminasse de explicar o seu projeto de renda mínima ao Colégio de Cardeais, já estaria na hora do novo conclave. 

Há quem lembre um nome tucano, mas até que consigam decidir se é Aécio, Alckmin ou Serra, vários papas terão passado pelo Trono de Pedro. E Serra nem teria como aceitar: quem acha que é Deus não pode exercer cargos mais baixos.

Predestinados
Mas bem que um político brasileiro mereceria ocupar o cargo. Muitos são extremamente religiosos e sempre carregam um terço no bolso.

Sucesso e insucesso
O abaixo-assinado que pede o impeachment do presidente do Senado, Renan Calheiros, alcançou perto de 1,4 milhão de assinaturas. Com este número (que a Justiça Eleitoral ainda tem de confirmar), é possível apresentar um projeto de lei de iniciativa popular. Mas, se o caro leitor é contra Renan, não se entusiasme ainda: entre as possíveis leis de iniciativa popular, não há referência a casos de impeachment ou mesmo de afastamento de postos no Congresso. Na mais favorável das hipóteses, o que poderá ocorrer será uma longa batalha judicial.

E, cá entre nós, ache cada um o que achar de Renan Calheiros, será uma batalha injusta: ele foi legalmente eleito. Os eleitores de seu Estado, Alagoas, o escolheram para representá-los. Terão os eleitores de outros Estados preferência sobre os alagoanos, na escolha dos representantes de Alagoas? E Renan foi regularmente eleito presidente do Senado por seus pares, que por ele se acham bem representados. Se irregularidades havia, deveriam ter sido levantadas antes da votação.

Desta vez, não
As ações da Petrobras estão caindo, a inflação está subindo, importa-se gasolina e diesel, o crescimento do Produto Interno Bruto é minúsculo, há algumas divergências a respeito da maneira pela qual as contas oficiais estão sendo acertadas. Mas não se pode colocar a culpa em Guido Mantega: não foi ele que suspendeu os leilões de lotes petrolíferos, não foi ele que obrigou a Petrobras a vender seus produtos no mercado interno a preços mais baixos do que pagou, não foi ele que criou despesas e cargos para atender a demandas político-partidárias. Tudo isso chegou pronto a ele, que leva a culpa por ser quem anuncia as más notícias. Mas quem conhece Guido Mantega tem a certeza absoluta de que não é ele o culpado pelos acontecimentos indigestos. 

Como de costume, ele não fez nada.

Às armas! 1
O novo Fórum de São José dos Campos, SP, não é um prédio adaptado: foi construído levando em conta suas finalidades. Não é uma construção baratinha, para quebrar o galho: custou R$ 30 milhões. E, mesmo assim, a carceragem, o local onde ficam os presos, muitos deles perigosos, está exatamente em frente ao depósito de armas. Apenas duas portas, a da carceragem e a do depósito, separam os presos das armas ali armazenadas. Mais uma crônica da tragédia anunciada.

Às armas! 2
A Rodovia dos Tamoios, que liga o Vale do Paraíba ao Litoral Norte do Estado de São Paulo, está sendo duplicada pelo Governo do Estado. A época escolhida pelo governador Geraldo Alckmin, PSDB, não poderia ser menos adequada: dificulta o trânsito durante as férias, os feriados de fim de ano, o Carnaval e a Semana Santa. Mas há coisa pior: construíram casinhas ao longo da estrada e ali armazenaram a dinamite necessária para as obras. 

Os bandidos aceitaram o gentil convite e já roubaram, só ali, 85 toneladas, prontinhas para facilitar seus assaltos.

Questão de justiça
Tudo bem, os políticos brasileiros estão fora de cogitação para o lugar do papa. Mas, no país do Carnaval, quantos deles poderiam ser eleitos, cantando Mamãe eu Quero, para Rei Eu Mamo?

carlos@brickmann.com.br 
www.brickmann.com.br

Vou-me embora pra Bruzundanga


Marco Antonio Villa
O Estado De S. Paulo 

O Brasil é um país fantástico.Nulidades são transformadas em gênios da noite para o dia. Uma eficaz máquina de propaganda faz milagres. Temos ao longo da nossa História diversos exemplos.O mais recente é Dilma Rousseff.

Surgiu no mundo político brasileiro há uma década. Durante o regime militar militou em grupos de luta armada, mas não se destacou entre as lideranças.Fez política no Rio Grande do Sul exercendo funções pouco expressivas. Tentou fazer pós graduação em Economia na Unicamp, mas acabou fracassando,não conseguiu sequer fazer um simples exame de qualificação de mestrado. Mesmo assim,durante anos foi apresentada como "doutora" em Economia.Quis-se aventurar no mundo de negócios, mas também malogrou. Abriu em Porto Alegre uma lojinha de mercadorias populares, conhecidas como "de 1,99". Não deu certo. Teve logo de fechar as portas.

Caminharia para a obscuridade se vivesse num país politicamente sério. Porém, para sorte dela, nasceu no Brasil. E depois de tantos fracassos acabou premiada:virou ministra de Minas e Energia.Lula disse que ficou impressionado porque numa reunião ela compareceu munida de um laptop.Ainda mais: apresentou um enorme volume de dados que, apesar de incompreensíveis, impressionaram favoravelmente o presidente eleito.

Foi nesse cenário, digno de O Homem que Sabia Javanês, que Dilma passou pouco mais de dois anos no Ministério de Minas e Energia. Deixou como marca um absoluto vazio.Nada fez digno de registro.Mas novamente foi promovida. Chegou à chefia da Casa Civil após a queda de José Dirceu, abatido pelo escândalo do mensalão. Cabe novamente a pergunta: por quê? Para o projeto continuísta do PT a figura anódina de Dilma Rousseff caiu como uma luva. Mesmo não deixando em um quinquênio uma marca administrativa um projeto, uma ideia, foi alçada a sucessora de Lula.

Nesse momento, quando foi definida como a futura ocupante da cadeira presidencial, é que foi desenhado o figurino de gestora eficiente, de profunda conhecedora de economia e do Brasil, de uma técnica exemplar,durona,implacável e desinteressada de política.Como deveria ser uma presidente a primeira no imaginário popular.

Deve ser reconhecido que os petistas são eficientes. A tarefa foi dura,muito dura.Dilma passou por uma cirurgia plástica, considerada essencial para, como disseram à época, dar um ar mais sereno e simpático à então candidata. Foi transformada em "mãe do PAC". Acompanhou Lula por todo o País. Para ela e só para ela a campanha eleitoral começou em 2008.Cada ato do governo foi motivo para um evento público, sempre transformado em comício e com ampla cobertura da imprensa. Seu criador foi apresentando homeopaticamente as qualidades da criatura ao eleitorado.Mas a enorme dificuldade de comunicação de Dilma acabou obrigando o criador a ser o seu tradutor, falando em nome dela e violando abertamente a legislação eleitoral.

Com base numa ampla aliança eleitoral e no uso descarado da máquina governamental, venceu a eleição. Foi recebida com enorme boa vontade pela imprensa. A fábula da gestora eficiente, da administradora cuidadosa e da chefe implacável durante meses foi sendo repetida. Seu figurino recebeu o reforço, mais que necessário, de combatente da corrupção.Também,pudera:não há na História republicana nenhum caso de um presidente que em dois anos de mandato tenha sido obrigado a demitir tantos ministros acusados de atos lesivos ao interesse público.

Como esgotamento do modelo de desenvolvimento criado no final do século 20 e um quadro econômico internacional extremamente complexo,a presidente teve de começar a viver no mundo real. E aí a figuração começou a mostrar suas fraquezas. O crescimento do produto interno bruto (PIB) de 7,5% de 2010, que foi um componente importante para a vitória eleitoral, logo não passou de uma recordação. Independentemente da ilusão do índice (em 2009 o crescimento foi negativo: -0,7%),apesar de todos os artifícios utilizados,em 2011 o crescimento foi de apenas 2,7%. Mas para piorar, tudo indica que em 2012 não tenha passado de 1%.Foi o pior biênio dos tempos contemporâneos, só ficando à frente,na América do Sul,do Paraguai. A desindustrialização aprofundou-se de tal forma que em 2012 o setor cresceu negativamente: -2,1%. O saldo da balança comercial caiu 35% em relação à 2011, o pior desempenho dos últimos dez anos,e em janeiro deste ano teve o maior saldo negativo em 24 anos. A inflação dá claros sinais de que está fugindo do controle.E a dívida pública federal disparou: chegou a R$ 2 trilhões.

As promessas eleitorais de 2010 nunca se materializaram.Os milhares de creches desmancharam-se no ar. O programa habitacional ficou notabilizado por acusações de corrupção. As obras de infraestrutura estão atrasadas e superfaturadas. Os bancos e empresas estatais transformaram-se em meros instrumentos políticos a Petrobrás é a mais afetada pelo desvario dilmista.

Não há contabilidade criativa suficiente para esconder o óbvio: o governo Dilma Rousseff é um fracasso.E pusilânime: abre o baú e recoloca velhas propostas como novos instrumentos de política econômica. É uma confissão de que não consegue pensar com originalidade. Nesse ritmo, logo veremos o ministro Guido Mantega anunciar uma grande novidade para combater o aumento dos preços dos alimentos: a criação da Sunab.

Ah, o Brasil ainda vai cumprir seu ideal: ser uma grande Bruzundanga. Lá, na cruel ironia de Lima Barreto, a Constituição estabelecia que o presidente "devia unicamente saber ler e escrever; que nunca tivesse mostrado ou procurado mostrar que tinha alguma inteligência; que não tivesse vontade própria; que fosse, enfim, de uma mediocridade total".

O preço da interferência


Raul Velloso
O Globo

No Brasil os governos tendem a interferir demasiadamente no funcionamento normal da economia

Inflação baixa e crescimento alto do PIB são objetivos de sempre dos governos. É só deixar a economia de mercado funcionar sem maiores amarras, que, em princípio, todos ganham. Como exceções, a literatura identifica situações em que os mercados falham e o governo deve intervir. No Brasil, contudo, os governos tendem a interferir demasiadamente no funcionamento normal da economia, mesmo que haja custos elevados – pouco visíveis a curto prazo – para a sociedade pagar.

O governo avisou que protegeria a indústria, que enfrenta forte concorrência externa, mesmo com custos expressivos para o País. Mais recentemente, desvalorizou-se o real em cerca de 25%. No Banco Central, a resistência a continuar a desvalorizar a moeda é natural, em face do efeito desfavorável sobre a inflação.

Fica, assim, a dúvida sobre qual será efetivamente a nova política cambial, inibindo investimentos e outras decisões de prazo mais longo. Por outro lado, ao encarecer as importações de máquinas e equipamentos, a desvalorização da moeda penalizou diretamente os investimentos do País. Só que, desde a crise de 2008-2009, a produção industrial não decola, demonstrando que o modelo de proteção se esgotou.

Em várias situações, o governo se perfila contra o lucro supostamente excessivo das empresas privadas. Deve-se ressaltar que é a expectativa de lucro que move a economia de mercado para a frente. É correto procurar evitar lucros realmente excessivos, mas o caminho é incrementar o grau de competição nos vários setores e estimular ganhos de produtividade. Já a guerra contra qualquer lucro é ruim para o País, pois afugenta os investidores, e nem a economia – ou o emprego – crescem.

Implantar empreendimentos de infraestrutura de transportes sob concessão privada com cobrança das menores tarifas imagináveis é outra peça da estratégia governamental, desde o início do Governo Lula. Para tanto, o governo fincou pé em taxas reais de retorno irrealistas entre 5 e 6,5% ao ano nos cálculos de valor presente das receitas e despesas dos negócios em pauta. Há algum sinal de mudança disso, pois, segundo acaba de anunciar o ministro da Fazenda, nas próximas concessões a taxa não será mais 5,5%, e sim um mínimo de 10% ao ano, mais próxima do que indicariam as práticas de mercado para empreendimentos do gênero. O resultado de taxas irrealistas e de outras práticas inadequadas é que, em matéria de expansão de investimentos, quase nada aconteceu de 2003 para cá. Daí o País não se ter beneficiado da expansão de capacidade e dos ganhos de produtividade que tendem a ser maiores em infraestrutura. Paralelamente, o governo tenta evitar o desgaste político das mudanças de preços relativos, especialmente quando são para cima, como no caso das taxas de juros e dos preços dos serviços de utilidade pública, sem falar, ainda, nos preços de derivados de petróleo e do álcool. Para ele, o único preço básico cujo aumento é aceitável é a taxa de câmbio, sem falar nos salários.

Só que os preços relativos entre bens e serviços precisam mudar, com razoável flexibilidade para cima e para baixo, a fim de sinalizar aos consumidores quando é preciso ajustar o consumo, e aos produtores, quando e como devem ajustar a produção. Na falta de ajuste fiscal, a taxa de juros tem de subir para controlar a demanda agregada e combater a inflação. Se há excesso de oferta de dólares, isso deve ser sinalizado via apreciação cambial para que os agentes se adaptem às novas condições. É como deveria funcionar o sistema de mercado em qualquer País. Para manter a popularidade em alta, o atual governo tem interferido em várias fixações de preços relevantes. No setor financeiro, forçou-se a rápida redução das taxas de juros e dos spreads bancários, ainda que isso implicasse perda significativa de valor das empresas e maior risco de crédito. No caso de petróleo, os preços ficaram congelados durante período prolongado, exaurindo a capacidade de investimento da Petrobras. E, no caso de energia elétrica, acaba de ser imposta uma redução expressiva nas respectivas tarifas, com pesados prejuízos para as empresas e para o orçamento público.

No tocante ao petróleo, como o setor foi parcialmente reestatizado com a exigência de a Petrobras participar com pelo menos 30% da exploração no pré-sal, o resultado prático do congelamento será, simplesmente, a incapacidade de o Brasil continuar expandindo sua produção de petróleo. Em energia elétrica, o risco de paralisação dos investimentos é alto.

Finalmente, diante da insistência governamental em não conter os gastos correntes, os investimentos públicos voltaram a desabar. E o resumo para os privados é que o ambiente de negócios se deteriorou consideravelmente. Não é à toa que o investimento total cai há cinco ou seis trimestres seguidos. Assim, ainda que o emprego esteja alto, o menor crescimento do PIB hoje significará menos emprego à frente. O passado brasileiro nos ensina que o preço da interferência indevida do Estado, principalmente em um processo neoestatizante, é quase sempre cruel.

Teoria gravitacional da inflação


Alexandre Schwartsman
Folha de São Paulo

Redução dos juros é uma bandeira eleitoral e, com pleito próximo, alta forte da taxa Selic é improvável

O IBGE registrou em janeiro a inflação mais elevada para o mês desde 2003, 0,86%. O número é alto, mas sua análise revela características ainda mais inquietantes.

Nada menos do que 75% dos itens pesquisados registraram aumento de preços em janeiro, também a maior proporção observada desde 2003, sugerindo que -ao contrário da história oficial- a aceleração da inflação não está ligada à evolução de uns poucos preços, mas se trata de fenômeno disseminado.

Além disso, as medidas de inflação que buscam atenuar os movimentos exagerados de preços (os chamados "núcleos" da inflação) também alcançaram níveis recordes para o mês.

Registre-se, por fim, que o mau desempenho ocorreu a despeito do apelo patético feito aos prefeitos de grandes capitais para que adiassem a elevação das passagens de ônibus, assim como da antecipação da redução das tarifas de energia. Sem tais manobras, a encrenca seria ainda maior.

Há, é bom que se diga, um tanto de sazonalidade na história: a inflação mensal é, em geral, mais alta no começo e no final do ano e perde força no período de maio a julho.

Seria, portanto, despropositado tomar o resultado do mês de janeiro como valor representativo do que nos espera ao longo de 2013. Ainda assim, a inflação medida em 12 meses (portanto livre de sazonalidade) superou os 6%, sacudindo, aparentemente, o torpor que tem caracterizado a atuação do Banco Central nos últimos anos, a ponto de o organismo admitir, embora com ressalvas, preocupação com a evolução da inflação "no curto prazo".

Foi o que bastou para que o mercado passasse a questionar a estratégia (com o perdão da palavra) anti-inflacionária do Banco Central. É sabido que este não revela a menor intenção de alterar a taxa de juros "por um período de tempo suficientemente prolongado".

À luz, porém, da aceleração inflacionária e do aparente desconforto do Banco Central com tal situação, já há quem aposte na possibilidade de que a promessa de estabilidade da taxa Selic se mostre impossível de ser mantida, pelo menos por um período tão longo quanto o prometido pelo Copom.

Não por outro motivo as taxas de juros futuros se elevaram, incorporando uma probabilidade mais alta de o Banco Central ser obrigado a retomar uma posição mais ativa na condução da política monetária, condizente com o que se espera de uma instituição minimamente comprometida com a estabilidade de preços.

Em momentos como este é que se espera que um economista diga a que veio, isto é, se haverá (ou não) aumento das taxas de juros neste ano, contrariando o consenso da profissão, que ainda aponta para estabilidade da Selic até dezembro de 2013.

Por mais que me desagrade repetir o consenso, desta vez me parece mais provável que o BC mantenha a Selic inalterada.

De qualquer forma, mesmo que, em cenário mais remoto, o BC venha a elevar as taxas de juros, creio que não o fará (como não o fez) em intensidade suficiente para domar o processo inflacionário, ainda mais considerando a proximidade com o ciclo eleitoral.

A verdade é que a definição da taxa Selic, que deveria ser um instrumento para controlar a inflação, tornou-se um objetivo de política econômica e, mais que isso, uma bandeira eleitoral.

Em tais circunstâncias o Banco Central enfrenta obstáculos consideráveis à sua autonomia, como a redução dos juros em meio à aceleração inflacionária permite inferir.

É mais provável que o governo lide com a inflação da forma como tem feito nos últimos tempos, ou seja, por meio de reduções pontuais de tributos, adiando o momento de encontro com o teto da meta (6,5%), sem tratar, porém, das causas fundamentais do problema.

Não há, porém, como trazer a taxa de inflação de volta à meta sem uma verdadeira estratégia de política monetária, apenas alívios temporários, que não mudam a tendência central do processo. Inflação não volta à meta por gravidade, nem por torcida; somente quando o Banco Central faz o seu trabalho de forma consistente.

A Gota D'água


Percival Puggina
Zero Hora

"Depois de mim, o dilúvio!" - deve ter predito Sarney, antevendo catástrofes, quando soube quem era o escolhido do governo para substituí-lo. Na sexta-feira, dia 1º de fevereiro, foi a vez de a Nação tomar conhecimento. O dilúvio se chamava Renan Calheiros, buscado de nebulosas trevas para sentar-se na poltrona mais alta do Senado. A votação foi tão sigilosa na urna quanto escandalosa e buliçosa nos aplausos. A pergunta - como pode acontecer uma coisa dessas? - me veio de toda parte. Como reelegem alguém que, quando ocupou o cargo, teve que renunciar para não ser cassado? Nas ruas e nos e-mails essa foi a indagação da semana. Ora, senhores, a resposta é simples. Os estrategistas do Palácio do Planalto devem ter escrutinado cuidadosamente a lista dos membros da nossa Câmara Alta. E concluíram que não havia entre eles ninguém pior do que Renan. Quanto pior, melhor. A Lei da Atração aglutina os semelhantes de modo implacável. Qualquer outra razão é conversa fiada. Pelo voto amplamente majoritário de 56 membros, o Senado decidiu conservar-se um poder nanico, levado na guia pelo governo, como um serelepe cãozinho de estimação, coleira de prata e chuquinha na cabeça. A única diferença é que o totó, às vezes, late. 

Na segunda-feira, os olhos do país se voltaram para o outro lado do edifício - aquele da concha com a borda para cima. Ali seria eleito o segundo homem da República na sucessão presidencial. Assisti pelo canal de tevê da Câmara dos Deputados a todos os discursos da sessão. Foi uma experiência e tanto, ao vivo, para os arregalados olhos da Pátria. Contado não se crê. Havia quatro candidatos. O do governo, o da oposição, e outros dois muito antes pelo contrário. No entanto, os quatro discursaram como se oposição fossem. Disseram que a Casa se omite em temas gravíssimos como pacto federativo. Que permite o uso inescrupuloso das medidas provisórias e o esbulho federal sobre Estados e municípios. Que a reforma institucional não anda. Que as emendas parlamentares, assim como são tratadas, aviltam o Congresso. Que ao se omitir na votação de vetos presidenciais (mais de três mil pendentes de deliberação), o legislativo transfere ao governo a última palavra na elaboração das leis. Que isso equivale a renúncia de prerrogativa. Que a instituição é o coração da democracia e a representação mais legítima do povo em sua pluralidade e totalidade. Que apesar disso - e isso não é pouca coisa! - o poder se põe em cócoras. Que, à medida em que permitiu que o apequenassem, foi perdendo o apreço e, depois, o respeito da sociedade. Os aplausos, pasmem, rugiam em puro êxtase! 

Ouvindo tudo, o presidente Marco Maia fazia ares de quem nada tinha a ver com aquelas pautas unanimemente coletivas. Mas cada discurso, se bem ouvido, era um libelo contra si. Clamava-se por tudo que ele não fez. Os quatro candidatos se comprometiam, solenes, com passar uma borracha nas linhas omissas e submissas de sua gestão. O próprio candidato de dona Dilma, vitorioso, dissecou, uma a uma, as culpas do legislativo perante seus próprios males. Em português claro: posicionou-se contra, eloquentemente contra, tudo que ele mesmo e o grupo ao qual pertence e que o apoiava vêm fazendo no parlamento, com o parlamento e do parlamento. Para mim, depois do dilúvio, tamanho cinismo foi a gota d'água. 


Meu caro senador


Cacá Diegues
O Globo

A ética, senador Calheiros, não é meio nem fim. É princípio. É a melhor invenção do homem, um princípio sem o qual não se pode viver em sociedade

Parece absurdo falar de ética em pleno carnaval, uma festa dita bárbara, com fama de tudo permitir sem restrição alguma. Não é bem assim. Como o carnaval foi inventado por seres humanos em sociedade, há sempre um contrato de comportamento mútuo entre os que desfrutam dele.

Experimente, por exemplo, namorar a mulher do passista de sua escola, enquanto vocês desfilam. Ou tocar o pandeiro fora do ritmo do animado bloco de sua rua. Experimente interromper o baile à fantasia para propor uma oração em memória de ente querido.

Nem sempre os acordos morais se baseiam nos mesmos preceitos, eles devem respeitar inúmeras circunstâncias. Mas está necessariamente fora do alcance dessas circunstâncias aquilo que chamamos de direitos humanos, um conjunto de princípios universais que devem valer para qualquer época, espaço, regime, cultura, religião, o que for.

É a incorporação desses direitos humanos em nossa cultura que nos causa horror quando lemos no jornal, como se deu essa semana, que o xeque saudita Fayan al-Ghamdi maltratou, torturou e estuprou sua filha de 5 anos, para se vingar da mulher que o abandonara. Não há interpretação de hadith (preceitos religiosos deixados pelo profeta) que justifique o direito de um pai matar a filha e que o criminoso se livre da justiça ao pagar 50 mil dólares de indenização à mãe da menina.

Acho que já escrevi aqui, nesse pé de página, que é uma ilusão pensarmos que todo homem nasce livre. Como qualquer outro animal social, já nascemos dependendo uns dos outros. Primeiro de nossos pais e de nossa família, depois da tribo a que pertencemos ou da escola que vamos frequentar. E finalmente da sociedade em que estamos inseridos, com seu estado, suas leis, seus hábitos, sua cultura.

A liberdade não é uma condição natural do ser humano. Ela é uma conquista que fazemos no tempo, o exercício de nosso desejo num acordo de respeito ao desejo e consequente liberdade do outro e de cada um. Segundo Karamazov, criado por Dostoievski, a perspectiva de liberdade é uma angústia que muitas vezes não suportamos e desejamos nos livrar dela, depositando-a aos pés do primeiro tirano sedutor que aparecer.

Igualmente nada natural é a igualdade entre os homens. O mito da igualdade absoluta gerou os piores regimes que a humanidade moderna conheceu, em nome de raça, classe ou religião. Os homens são e serão sempre singulares e portanto diferentes entre si. É essa diferença que, uma vez respeitada e absorvida, faz a humanidade se desenvolver e construir uma civilização mais justa. Somos iguais perante a mesma lei moral, mas cada um inventa seu destino.

Mas a diferença não pode ser pretexto para a opressão. Quando vivemos em sociedade, todos nós temos que ter os mesmos direitos e deveres, as mesmas oportunidades iguais para atender a nossos desejos.

O que nos faz aceitar esse acordo social é a possibilidade da convivência em paz, de uma certa harmonia. Como diz Edgar Morin, estamos perdidos num planeta pequeno demais, só a solidariedade é capaz de nos salvar. E o instrumento dessa solidariedade é a ética, a capacidade de viver com o outro debaixo das mesmas regras morais, uma sábia e pragmática invenção do homem que não estava nem está na natureza.

Portanto, como já escreveram Zuenir, Ancelmo e tantos outros jornalistas, neste e em outros jornais, a ética, meu caro senador Calheiros, não é meio nem fim. É princípio. A ética é a melhor invenção do homem, um princípio sem o qual não se pode viver em sociedade, não se pode conviver com o outro. Essa história de ética como meio ou fim mais parece conversa entre ideólogos neonazistas e fundamentalistas religiosos.

A ética não é uma virtude teologal, senador, mas uma necessidade material que nos protege do barbarismo. É ela que faz com que não saiamos por aí eliminando quem não amamos, roubando o que é de todos, mentindo em nome de nosso próprio proveito pessoal. Ela não nasce com cada um de nós. Como a liberdade e a igualdade, ela é uma conquista da humanidade, um avanço sobre a natureza indiferente a nós. Só o acaso e o que ainda não sabemos, os dois inimigos irreverentes do pensamento, podem mudar isso.

Como ser humano, sempre me escandalizo com o fracasso total do ideário politico, cultural e ético das vanguardas do século 20. Independentemente de equívocos de sua prática, as mais belas ideias de hippies e guerrilheiros, talvez seus representantes mais radicais, não deixaram nada na lembrança de ninguém, a não ser caricaturas de expressões como paz e amor e do sacrifício por uma mais justa sociedade humana. Mesmo os que praticaram essas ideias na juventude, esquecem-nas muito rapidamente. Será que a humanidade não deseja ser feliz?

É a ética, senador, que nos faz entender, por exemplo, o que disse em momento inspirado um outro parlamentar, o deputado Miro Teixeira, sobre o poder que o senhor preside: pior que esse Congresso, só um Congresso fechado. Também acho.

Bagunça geral na política econômica


Rolf Kuntz  
O Estado de S.Paulo

Não dá para separar. O estrago na Petrobrás, a inflação disparada, a indústria emperrada e a maquiagem das contas públicas são sintomas do mesmo problema. O governo conseguiu bagunçar tanto a economia quanto a caixa de ferramentas da política econômica. O estrago da caixa é o mais grave. Gasta-se muito tempo discutindo se a presidente Dilma Rousseff e sua troupe de trapalhões ainda levam a sério os três princípios adotados no fim dos anos 90 - meta de inflação, meta de superávit primário e câmbio flutuante. Não se vai muito longe com esse requisitório. O governo pode responder positivamente a todas as perguntas, com as ressalvas de sempre. Tem de haver certa margem de erro para a inflação, o resultado fiscal é sujeito a imprevistos e nenhum regime cambial é estritamente isento de intervenções. Tudo isso parece razoável, mas a conversa oficial é uma embromação. É possível embromar, nesse caso, porque as questões realmente importantes são outras, a começar pela importância atribuída, de fato, às condições básicas de estabilidade. Esse teste permitiria comparar o governo brasileiro com os de outros países latino-americanos. A semelhança mais notável seria, certamente, com a administração da presidente Cristina Kirchner, sobrando uma diferença muito mais de grau que de vocação.

Se o governo brasileiro se importasse realmente com a inflação, a meta seria muito mais baixa, como em outras economias, tanto desenvolvidas quanto em desenvolvimento. Desde 2005 houve mudanças no Brasil e no cenário externo, mas a meta de 4,5% foi mantida, sem nenhum benefício para o País. A tolerância à alta de preços jamais proporcionou à economia brasileira maior eficiência, dinamismo ou competitividade.

Além disso, as autoridades têm agido como se o alvo real fosse qualquer ponto na margem de variação. As ações são conduzidas como se um resultado final de 6,5% fosse perfeitamente aceitável. O presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini, chegou a classificar como desconfortável o número acumulado até janeiro - 6,15% em 12 meses. Reiterou, no entanto, a disposição de apostar numa acomodação dos preços no segundo semestre. Mero sangue-frio?

A tolerância à inflação permitiu, no ano passado, conciliar a redução de juros desejada pela presidente Dilma Rousseff e a manutenção de uma política fiscal frouxa. Uma gestão mais séria das contas públicas deveria compensar o relaxamento da política monetária a partir dos meses finais de 2011, segundo explicaram, há cerca de um ano e meio, os dirigentes do BC. Essa condição jamais se realizou. O recurso a artifícios para maquiar as contas públicas no fim de 2012 foi um desdobramentos dessa história. Mas esse é apenas o dado mais pitoresco.

O resultado concreto foi uma economia brasileira um tanto mais torta. O combate à inflação por meio da política monetária foi suspenso, enquanto a expansão do crédito continuou alimentando a demanda, principalmente de consumo. Essa demanda foi alimentada também por incentivos fiscais concedidos a alguns setores pelo Executivo. Esses incentivos serviram ainda para a redução temporária de alguns preços, com efeito benéfico de curtíssimo prazo nos indicadores de inflação. O desajuste entre a demanda e a capacidade de oferta da indústria nacional criou um vazamento nas contas externas. Sem o aumento da importação, o efeito inflacionário teria sido maior. A produção industrial encolheu porque as fábricas foram incapazes de competir, e o investimento diminuiu.

Sem distinguir objetivos de curto e de longo prazos, desafios conjunturais e problemas estruturais, o governo colheu inflação elevada, estagnação econômica e contas públicas mais frágeis. Ao mesmo tempo, bagunçou a política econômica e seus instrumentos. O BC deixou de combater a inflação, a política de juros foi decidida no Palácio do Planalto, deficiências estruturais foram tratadas como problemas de conjuntura e os preços foram contidos por meio de intervenções tópicas. A redução do imposto sobre os automóveis e outros bens duráveis e a contenção das tarifas de combustíveis entram nesse capítulo. A insistência da presidente em reduzir as contas de energia elétrica, a partir de agora, é uma continuação dessa trapalhada. É uma imprudência tratar o preço final da eletricidade como questão isolada, sem levar em conta os programas de investimento e os vários componentes de custos, incluída a tributação em todos os níveis.

Os danos impostos à Petrobrás são em parte explicáveis por essa confusão de objetivos e políticas, tão característica do governo atual. Mas decorrem também da subordinação da estatal aos interesses político-partidários do Palácio do Planalto, da peculiar diplomacia terceiro-mundista do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da conversão da empresa em instrumento de política industrial. Em vez de cuidar de seus objetivos empresariais e especialmente do enorme desafio da exploração do pré-sal, a companhia foi forçada a atender a uma porção de outras solicitações. Os resultados são indisfarçáveis.

Mas o governo parece impermeável à maior parte dessas lições. O Ministério da Fazenda dispõe-se a adotar novos artifícios para encenar o cumprimento da meta fiscal. Tudo se passa, de fato, como se o resultado real das contas públicas fosse muito menos importante que a sua representação contábil. Sem medidas típicas de política monetária, o BC tem atuado no mercado cambial para desvalorizar o dólar, em mais uma tentativa de influenciar indiretamente a inflação. A conta será parcialmente paga, é claro, pelos setores prejudicados pela valorização do real. De vez em quando, num surto de lucidez, o governo leva em conta as consequências mais amplas de suas decisões. Exemplo disso é a disposição de rever os termos das novas concessões no setor de transportes. Mas surtos desse tipo têm sido raros e brevíssimos e a confusão do voluntarismo volta a se impor.

O Rei Momo do Brasil


Ruth De Aquino 
Revista ÉPOCA 

Renan Calheiros preside o Senado por culpa do rabo preso dos senadores e da falta de cultura política

Ele não pesa 100 quilos, mas foi coroado Rei Momo ao receber de mascarados as chaves do Senado, a Câmara alta do país. O peemedebista Renan Calheiros, eleito com votos secretos dos camaradas, presidirá sua primeira farra: 14 dias de folia. A festa prolongada foi decretada depois de um mês e meio de recesso e apenas dois dias de “trabalho”. Isso não existe em nenhum país com um Congresso que se preze. Mas quem exatamente se orgulha do atual Congresso brasileiro?

É prudente rasgar a fantasia de representantes do povo se saírem em algum bloco. O blocão dos envergonhados e sem-vergonhas só escapa de ovos e tomates porque está encastelado em Brasília e goza férias em ilhas da fantasia. Segundo uma enquete do jornalFolha de S. Paulo, 56 senadores votaram em Renan, mas só 35 admitiram que sim. Ausente e alheio, o senador tucano Aécio Neves foi visto em cima de um muro, com cara de paisagem. Os tucanos fazem parte de uma espécie em extinção no Brasil: a oposição.

Enquanto os passistas assalariados precisam voltar ao batente na Quarta-feira de Cinzas à tarde ou na quinta-feira de manhã, a corte momesca de Renan e de sua rainha – o deputado Henrique Alves, presidente da Câmara – poderá prorrogar o Carnaval sem culpa ou temor. Renan determinou que não haja votação quinta e sexta. Uma pequena manobra para pagar na íntegra os contracheques de R$ 26.700 aos travestidos de senadores. Está na hora de gastar o 14o e 15o salários a que têm direito, pelo regimento interno.

“Quando voltarmos do Carnaval (dia 19, terça-feira), vamos ter quórum para votar”, disse Renan, o ético. Nada foi votado na semana passada. Compreensível. A prioridade é coisa pouca – o Orçamento de 2013, que deveria ter sido aprovado no ano passado. Você lembra por que não foi. O Congresso, em greve branca, produziu uma pantomima antes do Natal para resistir às cassações de parlamentares pelo Supremo Tribunal Federal.
Agora, o Orçamento não foi votado por um motivo, segundo Renan: “O óbice foi que a oposição não queria votar”. Óbice? Nosso idioma é muito rico, mas “óbice”? Olhei no dicionário. Sinônimos: atravanco, embaraço, empecilho, estorvo, impedimento, obstáculo. Não aguento Renan falando “óbice”. Soava mais convincente quando cantava para a amante Mônica Veloso “o que faço da minha vida sem você”.

Mônica o descreve, em seu livro O poder que seduz, de 2007, como “o docinho meigo e meio gordinho” que queria pular Carnaval de rua com ela na Bahia. O óbice era o casamento. Renan foi gravado em fitas por Mônica, já grávida, e tachado de “bobo” pela mulher, Verônica. Em epoca.com.br, há uma resenha minha, chamada “Um livro escrito nas coxas. Mas que coxas”. Num trecho do relato, Mônica escreve que “a vida caminha mesmo em círculos”. Hoje, o clichê parece profecia.

Nem a denúncia da Procuradoria-Geral da República contra Renan nem a petição pública com mais de 400 mil assinaturas comoveram políticos. No país da Ficha Limpa e do julgamento do mensalão, soa retrocesso. Sua foto rindo com Collor não me incomodou nem surpreendeu. O mesmo estofo, o mesmo cinismo, conterrâneos da safadeza... por que não dariam gargalhadas? Algum talento cara de pau Renan deve ter herdado, como marimbondo-mor de José Sarney. O padrinho agora pretende escrever sua autobiografia, escondendo, claro, a miséria a que ele e sua filha condenaram o Maranhão.

Surpreendente e positiva foi a reação organizada de centenas de milhares de brasileiros, que se insurgiram contra a dança viciada das cadeiras no Congresso. E em pleno verão, estação das consciências derretidas pelo calor. Não desanimem. Renan preside o Senado por culpa do corporativismo, do rabo preso dos senadores e da falta de cultura política. Não será assim para sempre. Renovar o Congresso exige tempo, investimento em educação, reforma partidária, voto consciente – e, a meu ver, não compulsório.

Quem lê, sabe que não foi concluído o processo contra Renan. Ele é acusado de usar notas falsas e bois-fantasmas para justificar o pagamento de uma pensão para a filha Catarina, da ex-amante. Há documentos provando que mentiu. Os R$ 16.500 eram entregues mensalmente em dinheiro a Mônica pelo lobista da empreiteira Mendes Júnior, beneficiada com uma obra no porto de Maceió. Segundo a denúncia do procurador Roberto Gurgel, Renan também desviou dinheiro do Senado. Em sua posse, Renan falou em nome da ética. Muitos pensaram ser ironia. Leitores se sentiram ridicularizados.

Segundo a mitologia grega, o deus Momo acabou expulso do Olimpo porque se divertia ridicularizando as outras divindades. Na Roma antiga, o Rei Momo era coroado anfitrião de três dias de orgia. Desfrutava todas as regalias durante a festa, como comidas, bebidas e mulheres. A lenda é trágica: no fim, o Rei Momo era sacrificado no altar de Saturno. Por onde anda esse Saturno?

Cinzas e repetições


Roberto Damatta
O Globo

Um jornalista um dia me perguntou: como é que pode ter uma festa tão rica num país tão pobre? Eu disse: precisamente por isso

Nessa vida todo mundo, querendo ou não, é pautado. Todos somos levados, obrigados, arrolados ou dirigidos a fazer muita coisa. Algumas impossíveis, como não mentir ou ser pusilânime. No caso do jornal temos que escrever; no caso da vida, de seguir alguma regra ou viver com ou sem o bom-senso.

Os planos para nossas vidas existem antes do nosso aparecimento no mundo. Antes do nosso nascimento pai e mãe tinham expectativas fulminantes relativamente às nossas vidas. Nossas pautas existenciais são os projetos e esquemas que figuram na nossa sociedade e cultura: instruções do tipo como comer, vestir-se, limpar-se e dormir — caminhos simbólicos e reais a serem necessária e precisamente percorridos como a escolha de certas profissões e valores religiosos e políticos; rituais de crise de vida ou de passagem celebrados em nossa honra ou para os outros, os quais temos de — querendo ou não — acompanhar. Do nascimento até a morte seguimos esquemas precisos e implacáveis e mesmo depois de termos partido, continuamos a segui-los porque não há sociedade que abandone seus mortos.

As festas nos pautam coletivamente. Antigamente como ritos obrigatórios, hoje como feriados que nos permitem a evasão. Tal experiência acaba de ocorrer com o carnaval que terminou ontem e, como eu tenho a obrigação de escrever na quarta-feira, todo ano eu tenho uma pauta suculenta sobre o qual escrever: o carnaval e seus arredores, que são densos, fartos, curiosos e inflamados de símbolos e textos.

As cinzas são a consumação do fogo. O fogo é sinal de vida ativa que passa de brasa a cinza. O pó para qual tudo tende. A entropia que sinaliza o desgaste final de qualquer forma ou armadura em fluxo.

Todo ano tem carnaval que é metaforicamente fogo e que termina metonimicamente na da Quarta-Feira de Cinzas. A repetição fala de algo planificado e anunciado. As celebrações são repetições que extinguem o tempo, ou pelo menos tentam lutar contra ele, como ocorre nas musicas e dramas quando o palhaço cai sempre no mesmo lugar. A mesma festa no mesmo país numa mesma época promove um sentimento único de dizer quem somos. Tudo passou e mudou menos o momento da festa. Até mesmo a festa também mudou — seja o truísmo boboca — mas continua sendo a mesma festa. No carnaval, como sabemos, tudo cabe porque tudo é possível na celebração daquilo que não deve ser levado a sério, mas que é uma das instituições mais graves do Brasil. Aceitamos incompetências e malandragens políticas, mas não aceitamos quem ofenda o carnaval. Mudamos algumas vezes o regime e tem gente trabalhando ferozmente para mudá-lo novamente. Mas não uma proposta para mudar o carnaval. Aliás, falar em suprimi-lo promoveria uma revolução.

Estou, pois, reiterando essa alternância de fogo com cinza, de carne com peixe, de riso com seriedade, de alegria com circunspecção, de exagero com controle que nós realizamos todo ano como carnaval sem saber de todas as suas implicações.

Tudo mudou e tudo continua na mesma. Meus amigos mais politizados estão saindo em blocos e dizem que estão revivendo um carnaval de rua que eu bem conheci. Os blocos são sintomáticos desse desejo insaciável de pertencer a um grupo fechado? Ou são, como no meu tempo, uma prova do desejo igualmente inextinguível de singularizar-se contra um outro grupo da mesma magnitude social, como ocorre nos grandes desfiles?

Do mesmo modo, num mundo de dinheiro racionalmente acumulado, de trabalho e poupança, onde o futuro tem que ser comprado ou se transforma em divida, o carnaval leva a gastar e apresenta uma estética de exagero e luxo, como definiu com propriedade Joãozinho Trinta. Rico gosta de pobreza, pobre adora luxo. Não vemos riqueza no carnaval. Vemos o luxo do desvalido vestido de deus ou deusa, espalhando riso e alegria. Um jornalista um dia me perguntou: como é que pode ter uma festa tão rica num país tão pobre?

Eu disse: precisamente por isso! Boas cinzas.

Enrolação e maquiagem


O Estado de São Paulo

O governo federal prepara mais um truque para maquiar suas contas e encenar, como no ano passado, o cumprimento da meta fiscal. A gastança continuará e a gestão orçamentária será pelo menos tão ruim quanto antes, mas a desculpa do Executivo terá sido preparada com muitos meses de antecedência. A ideia, desta vez, é abrir espaço para mais R$ 20 bilhões de incentivos tributários sem ter de cortar gastos ou arranjar recursos para compensar a renúncia. No ano passado, o truque envolveu, além do desconto de valores contabilizados como investimento, operações entre o Fundo Soberano e bancos federais e também a incorporação de dividendos antecipados. Nenhuma pessoa informada poderia levar a sério as explicações oficiais, embora ninguém tenha contestado a legalidade do arranjo. Igualmente legais têm sido a política de preços e outras aberrações ─ pelo menos algumas ─ impostas à Petrobrás desde o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. As consequências desastrosas dessas medidas são hoje conhecidas em todo o mundo.

Os abusos cometidos contra a Petrobrás e a má administração das finanças públicas são componentes da mesma história. O governo gasta muito mais tempo criando remendos, inventando maquiagens e contornando problemas do que buscando respostas efetivas para os grandes desafios nacionais. A ação escolhida é sempre a mais confortável e mais populista ─ e geralmente a menos eficaz como política econômica. O caso dos incentivos fiscais é mais um exemplo. O governo continua tratando as dificuldades da indústria como questões conjunturais. Mas os grandes problemas, hoje, são muito diferentes daqueles enfrentados entre o fim de 2008 e o primeiro semestre de 2009.

O fracasso de 2011 e 2012 confirma o erro de diagnóstico, mas a equipe econômica se mostra disposta a insistir em estímulos temporários e localizados. Reduzir a carga tributária seria muito bom, mas para isso seria preciso mexer mais amplamente em todo o sistema de receitas e despesas. Isso o governo rejeita, porque seriam indispensáveis medidas politicamente custosas – a começar pela racionalização dos gastos públicos. Se estivessem dispostos a seguir esse caminho, a presidente Dilma Rousseff e seu ministro da Fazenda, Guido Mantega, poderiam dispensar os truques de maquiagem fiscal.

Com esses truques, o governo planeja abater até 41,8% dos R$ 155,9 bilhões previstos como superávit primário sem violar formalmente o compromisso. Podem contornar a restrição legal e até convencer algumas pessoas de muito boa vontade, mas nenhum artifício como esse mudará os fatos e impedirá a deterioração da política fiscal e dos padrões da gestão pública.

Há no governo federal quem considere superado o critério do superávit primário, resquício de programas combinados com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Em muitos outros países, de fato, esse critério é ignorado. Mas esse argumento é incompleto e pode ser tão enganador quanto aqueles truques.

De fato, em outros países se leva em conta o resultado nominal, isto é, o saldo final das contas públicas, incluído o pagamento do serviço da dívida. Se esse padrão fosse adotado, a missão do governo seria muito mais complicada. O desajuste fiscal brasileiro é menor que o dos países em crise, mas essa comparação também é uma forma de contornar os problemas. Pior que isso: acaba sendo usada para desviar a atenção da inegável deterioração da política fiscal.

Se o governo tivesse a firmeza necessária para cuidar dos grandes problemas, combateria diretamente a inflação, em vez de aceitar qualquer alta de preços até o limite de tolerância, de 6,5%. Mas é mais fácil conter os preços da gasolina e do diesel e baratear este ou aquele item da cesta de bens e serviços, sem levar em conta, por exemplo, as consequências para empresas como a Eletrobrás e a Petrobrás. Cuidar dos problemas seriamente envolveria também maior cuidado com os investimentos em infraestrutura, gastos federais, qualidade dos tributos e prioridades dos bancos públicos. Fora disso, resta a política da enrolação – como a insistência na maquiagem das contas públicas e dos índices de preços.

Miséria publicitária


Editorial
Folha de S.Paulo

Ao distorcer dados da emancipação de miseráveis, governo solapa a seriedade necessária para discutir os rumos da política social

A área econômica do governo Dilma Rousseff faz escola. O malabarismo estatístico, ou "contabilidade criativa", difunde-se também para outros setores da administração federal.

O Planalto alardeia ter tirado da miséria quase 20 milhões de pessoas. São 10% da população brasileira, e isso em apenas dois anos.

O segredo da prestidigitação, no caso, está em manipular os dois aspectos cruciais da contabilidade: a definição do que vem a ser pobreza extrema (ou miséria), de um lado, e o cadastro das famílias declaradas miseráveis, do outro.

Desde 2009 está fixado em R$ 70 o teto da renda mensal familiar per capita que define a miséria para fins do Bolsa Família e de outros programas federais de assistência.

Já o rendimento dos mais pobres no mercado de trabalho veio aumentando, nesse período, mais depressa que a inflação.

Trata-se de uma emancipação social independente da ação do governo. Mas ela seria menor que a alegada na propaganda oficial superlativa, e mais corretamente medida, se o Planalto reajustasse a linha da indigência pelos índices de preço.

Corrigidos pelo IPCA, os R$ 70 de 2009 correspondem a quase R$ 90 hoje.

A alquimia para simular tamanha progressão social instantânea envolve outro sortilégio. Em 2010, o Censo do IBGE apontava cerca de 16 milhões de brasileiros com rendimento inferior a R$ 70 mensais.

Abaixo, portanto, dos 19,5 milhões que o governo anuncia terem saído da miséria nos dois anos seguintes.

Em vez de fiar-se no IBGE, o governo passou a contabilizar os indigentes de acordo com seu próprio cadastro, realizado em parceria com os mais de 5.500 municípios brasileiros. Daí surgiu o milagre da multiplicação dos miseráveis, dois anos atrás.

Não é preciso muita reflexão para atribuir ao cadastro dos beneficiários do governo um grau de vulnerabilidade técnica - para não falar das brechas a fraudes- bem mais elevado que o do Censo do IBGE.

A discussão sobre a pobreza e as formas de enfrentá-la está pronta para subir de patamar. Sabe-se hoje, por exemplo, que as condições de moradia e instrução dos mais pobres evoluíram bem mais lentamente que a renda. 

Deveriam ganhar mais destaque na política social e originar novos indicadores.

Os reiterados lances de pirotecnia estatística do governo federal, porém, chamuscam sua seriedade e sua credibilidade nesse debate.

Democracias: uma sobe, outra desce


Gaudêncio Torquato
O Estado de SPaulo

A democracia representativa desce, a democracia direta sobe. A observação pode servir para emoldurar a agitação social nos mais diferentes espaços do mundo: os protestos contra o sistema financeiro, em plena Wall Street, em Nova Iorque; contra o governo grego nas ruas de Atenas ou contra o presidente do Egito, na praça Tahrir, no centro do Cairo.

Entre nós, explica o descrédito da sociedade na instituição política. A bateria crítica que se detonou, nos últimos meses, contra figurantes políticos, dentre os quais os envolvidos na Ação Penal 470, coroando com denúncias atingindo os novos presidentes do Senado e da Câmara, fere também a imagem do Congresso Nacional.

Afinal, as pessoas acabam associando as partes ao todo. O fato é que o conceito da representação política está no fundo do poço. Nunca se viu massa tão densa de críticas, expandidas por mídia de grande audiência e com repercussão nas redes sociais eletrônicas.

A par de situações envolvendo atores políticos, parcela da polêmica se volta para as prerrogativas dos três Poderes da República, eis que entram no foro de discussão questões como a perda de mandato parlamentar (quem tem a última palavra, Legislativo ou Judiciário?) e a restrição às famigeradas Medidas Provisórias (Executivo admite perder poder?).

A baixa avaliação da democracia representativa, aqui e alhures, tem fundamento histórico. A crise que a corrói se adensa desde a queda do muro de Berlim, no final de 1989. A derrubada daquela muralha, construída em 1961 no auge da Guerra Fria para separar a Alemanha Oriental da Alemanha Ocidental e dividir um povo irmão, arrebentou fronteiras ideológicas, amalgamou doutrinas, aproximou fronteiras, globalizou economias, mimetizou costumes.

Hoje, em todos os quadrantes do planeta, o que se vê no tabuleiro do poder é um jogo político embaciado em função da pasteurização de partidos, declínio das oposições, enfraquecimento dos Parlamentos, desânimo de participantes e aderentes, espetacularização do Estado, ascensão das burocracias no seio de governos e relações frequentemente obscuras com os círculos de negócios.

Nesse cenário, a política refunde-se e se redistribui pela cadeia de entidades que promovem a intermediação social, como associações, sindicatos, federações, grupos de defesa de categorias profissionais.

Esses novos circuitos de representação acabam minando os polos tradicionais da política – partidos, Parlamento, ideologias – e criando bolsões corporativistas por todos os lados.

Ao arrefecimento da política tradicional soma-se a decepção com a democracia, por não ter cumprido as promessas feitas, como lembra Bobbio em seu clássico O Futuro da Democracia: o acesso de todos à justiça, o combate ao poder invisível e a segurança coletiva, a educação para a cidadania, a igualdade de oportunidades.

Explica-se, assim, o vácuo criado entre a esfera política e o universo social. O espaço vazio é preenchido por organizações não governamentais, que se multiplicam, ora para representar setores, categorias e gêneros, ora para mobilizar as massas e energizar as ruas.

Frustrações sociais acumuladas, a perda de bens materiais, a ameaça de desemprego e o pânico que se forma no bojo da deterioração das economias mundiais deflagram os mecanismos de uma nova disposição: a agitação, o desenvolvimento do espírito de corpo, a busca de referências e bandeiras, o personalismo na política e as ações táticas, como ocupações de espaços, prédios, praças e ruas.

Essa é a engrenagem que explica a tomada de Wall Street, as ruas de Atenas e os movimentos que culminaram na Primavera Árabe.

Voltemos ao Brasil. O nosso federalismo, inspirado no norte-americano, é farto de incongruências. Parte das competências do governo central foi distribuída aos Estados-membros. O pacto federativo é sinônimo de desigualdade. Municípios vivem em estado vegetativo. E Estados esmolam de pires na mão junto ao governo federal, engalfinhando-se na guerra fiscal.

Repactuar a Federação: eis o primeiro desafio da representação política. Meta plausível? Difícil. O dono da flauta é a União, que apita todas as gaitas, particularmente as de caráter pecuniário.

Além disso, a balança dos Poderes pende para o Executivo, em dessintonia com a modelagem do barão de Montesquieu, que criou a estrutura de pesos e contrapesos.

Veja-se o Orçamento de 2013, a ser votado dia 19 próximo. Recursos destinados por emendas parlamentares aos municípios, como se sabe, só são liberados com o aval da presidente.

Por que o Parlamento não substitui o Orçamento Autorizativo pelo Impositivo e, assim, dispensando a chancela presidencial? Porque o nosso presidencialismo tem caráter imperial. São razões que explicam o Poder Legislativo como refém do Poder Executivo.

Não por acaso, a representação parlamentar é a que detém a pior imagem na esfera da política. Ora, a falta de autonomia para garantir o pleno exercício de suas funções está por trás da má avaliação. Criticam-se os atores políticos por desvios, atos de corrupção e atitudes imorais. De que adianta condenar figurantes se as práticas políticas não são mudadas?

Os 513 deputados federais e 81 senadores desenvolvem uma ação sob o mesmo ordenamento, a saber: regras eleitorais obsoletas; sistema de voto ultrapassado; coligações proporcionais que geram injustiças; pedidos de liberação de verbas para as bases; facilidade para criação de partidos; a figura do senador suplente sem voto; doações de recursos privados para campanhas eleitorais; e excesso de Medidas Provisórias.

Essa é a matéria prima sobre a qual deveria se debruçar a representação política. Sem reforma política, a radiografia congressual continuará borrada.

E o Brasil, a cada nova legislatura, que sempre se abre às vésperas da folia de Momo, estará desfilando os motivos que o caracterizam como “o país do Eterno Retorno”. Sob as barbas do profeta Zaratustra.