sábado, setembro 08, 2007

Lula, de que país você está falando?

Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia

Vossa Excelência, na noite de 6 de setembro, às vésperas 185º ano de nossa Independência, resolveu ir à televisão e fez um pronunciamento daqueles típicos de quem não faz a menor idéia do que está falando. Depois de vinte minutos de cantar em prosa e verso um país maravilhoso, descoberto e fundado por ele, encerrou sua fala deixando em todos uma pergunta solta no ar: mas de que diabo de país Lula está falando? Não, não era o Brasil. Se fosse, aquele, o de Lula, seria uma segunda república, descoberta pelos portugueses e que eles mantiveram em segredo este tempo todo, até a chegada de sua majestade altaneira, senhor Luiz Inácio, quando então liberaram geral.

O Brasil, este que a gente vivencia todo o santo dia não guarda menor relação com aquele do Lula. Lula começou exaltando que um novo Brasil está nascendo a partir de sua chegada ao poder. Errado: um país não nasce pronto. Ele é construído por muitas gerações, que pouco a pouco vão erguendo uma nação e tornando-a próspera, livre e feliz. Lula esqueceu deste princípio básico, elementar e indispensável da história. O Brasil de hoje, só é possível ser o que é graças aos nossos mais de quinhentos anos de história, juntando aí a colônia de Portugal que fomos por mais de trezentos anos. Juntando os de 67 anos de império e mais 118 anos de república. E mesmo esta república fragmentada em República Velha, Estado Novo, Pós-Guerra, Ditadura Militar e Redemocratização a partir de 1985.

É o mesmo país, de onde colhemos hoje o que plantamos recentemente, na década de 1990, em que o país se livrou de vez do estigma da inflação. Em que tivemos um estado que equilibrou as contas públicas e acabou com os tesouros estaduais que emitiam dívidas sobre dívidas, sufocando o país, sem capacidade para investir em sua modernização e progresso.

Um Brasil inserido num mundo onde todos dependem de todos. Onde há muita guerra e muita miséria, onde há muita tecnologia numa ponta, onde há carências básicas, até falta de direitos em outras muitas pontas soltas desta civilização dita racional.

Mas voltando ao pronunciamento de vossa excelência. Num dos momentos mais empolgantes, a majestade lascou: “(...)Mas nem sempre quem participa de um momento histórico percebe toda a sua amplitude. Ao contrário, muitas vezes enxerga com mais facilidade as dificuldades passageiras do que os efeitos mais profundos e permanentes da mudança (...)”. Ou seja, as crises plantadas por vossa excelência são passageiras, coisa de menor importância, apesar das mortes que elas provocaram e ainda provocam. Bestial !!! Coisa ruim, só a que os outros fizeram, apesar da dificuldade interna e dos cenários adversos do mundo exterior. Lula, navegando numa carona dos bons ventos da economia mundial, não conseguiu ser mais medíocre talvez por falta de tempo no poder. Quanto a perceber, só se percebe aquilo que existe.

As crises provocadas em seu governo, não são tão passageiras assim, e suas conseqüências são graves e dolorosas. As dificuldades a que se refere o senhor Luiz Inácio são a crise moral, que predominou sobre seu primeiro mandato, que chutou a ética para o ralo e não conseguiu achá-la mais. A crise passageira a que se refere sua excelência é o apagão aéreo que já vitimou 353 brasileiros por negligência, omissão e incompetência de um governo que insiste em dar as costas para os verdadeiros dramas que afligem milhões de brasileiros. Outra crise passageira são as centenas de brasileiros que estão morrendo nos hospitais por conta do apagão da saúde. São os milhares de brasileiros morrendo nas estradas, por conta de um apagão escandaloso e irresponsável na infra-estrutura totalmente deteriorada por um governo que insiste em gastar demais onde não se precisa, e sonega os investimentos que o país reclama para desenvolver-se. Como também deve ser passageira a crise na segurança pública onde centenas morrem vítimas de balas perdidas por conta de um governo perdido, sem ação, sem projetos, apenas discursos palanqueiros e retórica mistificadora.

Depois, afirmou que mais de 8 milhões de brasileiros saíram da linha de miséria. Como sua cretinice parece não ter limites, esqueceu sua excelência de destacar que, destes 8 milhões, menos de 3 milhões se devem as suas políticas “sociais”. O restante, ocorreu entre 1993/1996, período em que o Plano Real foi implantado. E os números são oficiais. Não há como nega-los. O único é faze-lo é o senhor Luiz Inácio que insiste em mentir para a nação.

E disse ainda: “(...) Sou o mais satisfeito porque estou tendo a honra de liderar um processo muito especial de transformação do nosso querido Brasil(...)”. Lidera porcaria nenhuma. Lula faz festa com o chapéu alheio. Mente descaradamente se passando por dono de obra que ele não construiu ou realizou, até pelo contrário: atrapalhou o quanto pode, fez intencionalmente uma oposição de negação, jamais responsável, impedindo reformas que, depois já poder, ele próprio se encarregou de reapresentar, e piorada, como foi o caso da Previdência.

Portanto, vossa excelência insiste na mentira. Quem construiu o Brasil que sua excelência ‘acha’ que lidera, foi FHC. O bom momento da economia interna se deve às mudanças promovidas e contra as quais o PT e Lula sempre lutaram, e o bom momento da economia mundial. O bom de agora em nada se deve a Lula, o mentiroso.

Lá pelas tantas, da mentira sobre os fatos e a história, passou para as promessas mistificadoras para enganar os desinformados 75% da população brasileira: disse que aplicará R$ 504 bilhões de reais em infra-estrutura logística e social. Primeiro, que este “sonho” é para um prazo bastante lonnnnngo. Depois, mente sobre o total anunciado: sequer ele pode contar com metade destes 500 bilhões, que não lhe pertence. E o investimento maior de sua excelência até agora tem sido a do aparelhamento do Estado e o inchaço da máquina pública, o que obriga a todos os brasileiros a ver aumentada a carga tributária, sem parar.

Depois falou que 7 milhões de brasileiros entraram na classe média. Esta “inclusão” se deve muito mais ao empobrecimento da antiga classe média, o que nivelou os padrões de comparação.

Depois, quase encerrando afirmou que “(...) Não é só para as gerações de hoje, mas também para as gerações de amanhã. Um Brasil que respeita o ser humano, respeita a natureza, respeita os valores morais...(...)” Valores morais, é? O mensalão que o diga!

E não é apenas no “hoje” que se constrói e se construiu o Brasil. As gerações passadas também se empenharam, se sacrificaram para que pudéssemos herdar um país melhor do que receberam os nossos avós. Quanto a ter menos pobres, é melhor que Lula passe a transferir renda dos mais abastados, do que da classe média com tem feito. Por que ele não enfrenta os poderosos, os banqueiros, por exemplo? Por que eles encheram sua arca com generosas e gordas “doações” de campanha para a eleição e reeleição ? Por que não tributa os grandes patrimônios e o capital especulativo, ao invés de insistir em cobrar mais impostos do trabalhador?

Ou seja, vossa excelência, talvez por estar viajando muito e se informando pouco do que acontece com os caboclos de sua aldeia, ou por má fé mesmo, continua enganando o povo brasileiro na apresentação de um país maravilhoso que não existe. Como já disse: espero que Lula ao entregar a faixa presidencial em 01° de janeiro de 2011, o faça a outro que não ele mesmo, e nos devolva o país tão democrático quanto aquele que ele recebeu. O doloroso é a herança maldita que deixará: a da destruição da pouca eficiência do Estado brasileiro que ainda nos restava. Esta vai demorar para consertar.

A China não dá comida

Carlos Alberto Sardenberg, O Globo

Dez por cento dos chineses vivem abaixo da linha de pobreza, um índice melhor do que o verificado no Brasil, que registra 38% de pobres e 16% em estado de pobreza extrema. Na China não tem Bolsa Família, nem uma Previdência pública com o piso das pensões indexado ao salário mínimo.

Esse tipo de comparação é sempre difícil, mas é universalmente reconhecido que a China todo ano retira milhões de pessoas da pobreza. E faz isso sem programas sociais, mas com educação (em geral, paga) e com empregos. Muito parecido com o que fez a Coréia do Sul e estão fazendo outros países emergentes.

É o contrário do que faz o governo Lula. O presidente, defendendo o pesado aumento de gastos públicos, fez uma defesa vigorosa dos programas sociais, em especial do Bolsa Família, porque "o mais importante é a gente dar comida para a parte mais necessitada do povo brasileiro" - conforme disse no programa de rádio "Café com o presidente", divulgado na última segunda-feira.
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A frase tem apelo, mas não ataca a questão correta. Dar comida como?

Um modelo econômico que fornece educação de qualidade e gera empregos não dá comida, mas fornece às pessoas meios mais eficientes e duradouros. Com uma profissão e um emprego, a pessoa cuida de sua vida e, ainda mais, gera valor para a sociedade com seu trabalho.

Já a pessoa que recebe o Bolsa Família só tem a situação melhorada enquanto continuar recebendo o auxílio mensal. Na verdade, a assistência social, o governo dar dinheiro às pessoas, é uma demonstração da falta de dinamismo de um país. Perdurando, esse atraso torna a assistência uma necessidade permanente, quando deveria ser uma ação emergencial.

Mas o governo está promovendo o crescimento econômico, assegura Lula. No mesmo "Café", garantiu que, embora dar comida seja o mais importante, seu governo também fará "muitas estradas, muitos portos, muitos aeroportos" etc.

E aqui reside a questão de fundo. O presidente quase chegou lá, quando comentou a alternativa entre investimentos em infra-estrutura e gastos sociais. Condenou os que querem transformar todo o dinheiro público em estradas e portos, porque, repetiu, o gasto social é, na verdade, o melhor investimento, pois se trata de investir no ser humano.

Há muita confusão aqui, de modo que convém separar as coisas. Gastar em educação e saúde é investir na pessoa e capacitá-la para ganhar a vida. O governo brasileiro, desde antes de Lula, gasta bastante nessas duas áreas, mas reconhecidamente gasta mal. Basta ver o desempenho medíocre de nossos alunos nos testes internacionais. Basta ver as seguidas crises dos serviços de saúde.
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Portanto, neste item, não falta investimento, falta qualidade de aplicação. O presidente está errado quando diz que, em nome do social, precisa contratar mais funcionários e gastar mais. Mesmo porque o número e o gasto com funcionários têm aumentado ano a ano, sem que se perceba ganho significativo nos serviços sociais.

O Bolsa Família, sim, tem apresentado resultados eficientes no que se refere a melhorar a vida dos mais pobres. Mas não dá futuro aos beneficiados.E, no conjunto, o aumento dos gastos no social reduz, sim, o investimento do governo em infra-estrutura - este, um gasto que gera empregos de imediato e aumenta a capacidade de crescimento futuro.

O presidente Lula promete o que não pode cumprir quando diz que seu governo vai dar muita comida e fazer muitas obras. Mesmo governos de países ricos não têm recursos para fazer tudo isso. Em outras palavras, é preciso fazer escolhas o tempo todo.

Como a China é um país pobre, o governo sabe que não pode gastar por conta. Por isso, cobra taxas e mensalidades no ensino médio e superior, cobra tratamento médico, não distribui Bolsa Família, tem programas sociais limitados. E investe pesadamente (quase tudo) em infra-estrutura. O governo chinês arrecada de impostos e taxas um pouco menos de 20% do Produto Interno Bruto, contra os 35% do setor público brasileiro. Mesmo arrecadando muito mais, o governo aqui gasta apenas cerca de 1,5% do PIB com investimentos em infra-estrutura. O governo federal, se cumprir todas as metas do PAC, vai gastar 0,9%.

Ou seja, embora diga que não, o governo Lula faz sua escolha, que é gastar pesadamente em Previdência, área social e funcionalismo, ficando os investimentos com o pouco que sobra.

Poderia até ser uma estratégia, se acompanhada de uma política de passar todo o investimento em infra-estrutura para o setor privado. Como o governo não faz isso, por restrições ideológicas, acaba caindo no esforço impossível de tentar fazer tudo, cujo único resultado é um seguido aumento da carga tributária, que, de sua vez, retira competitividade da economia privada.
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Isso não dá futuro.

Frei Betto também cansou

Sebastião Nery, Tribuna da Imprensa

1 - "2 de outubro de 2003 - Na Paraíba, Lula reinaugurou o aeroporto João Suassuna, de Campina Grande, na presença de Ariano, filho do homenageado. Ao discursar, disse que encontrou um `país abandonado' e que `muita gente passou a mão no dinheiro e não aplicou nas coisas corretas'. Uma voz se ergueu do público: `Cuidado, presidente. Muita gente está aí a seu lado'"!

2 - "20 de março de 2004 - Roberto Rodrigues, ministro da Agricultura, em desabafo, disse que Guido Mantega, do Planejamento, não o recebia e, nervoso, mandou-o `à puta que o pariu'".

Dirceu
3 - "8 de abril de 2004 - Critiquei o fato de Zé Dirceu ter assumido a gerência do governo. Que experiência de gestor ele tem? - Também fiquei surpreso, admitiu Lula. Quando falei que era preciso separar as áreas políticas e administrativas, eu estava convencido de que o Zé escolheria a área política. Mas preferiu a administrativa. Não quis contrariá-lo."

4 - "27 de outubro de 2004 - Porto Alegre cansou do PT, após 16 anos na administração municipal".

Essas e outras pequenas histórias desnudam um governo. Estão no excelente diário ("Calendário do poder", Rocco) que o íntegro e verdadeiro Frei Betto escreveu nos dois anos que passou dentro do Palácio do Planalto, como "assessor especial" de Lula, e que já comentei. O ideal será lê-lo todo. E mais seu magistral "Batismo de sangue" (Rocco), o melhor sobre as torturas.

Lula
5 - "1º de novembro de 2002 - Benedita da Silva, derrotada por Rosinha Matheus (PMDB) para o governo do Rio, ligou para Lula: `Agora quero você cuidando de mim', suplicou".

6 - "3 de novembro de 2002 - Lula surpreendeu Zé Dirceu, Mercadante Gushiken discutindo que ministério cada um ocupará. Tentou acalmá-los: `Escolham entre vocês. O que cada um escolher, eu aprovo'".

7 - "20 de janeiro de 2003 - O primeiro escalão do Ministério da Fazenda não tem o menor pudor cívico quando se trata de honrar a dívida pública e encher as burras dos credores. Remuneram-se os donos do capital e fraudam-se os trabalhadores ativos e inativos".

8 - "31 de março de 2003 - Lula afirmou, na campanha, que antes de exportar alimentos era preciso matar a fome do povo. Mudou o enfoque".

Sem projeto
9 - "1 de abril de 2003 - Algo me inquieta: a desconfiança de que o governo não tem um projeto Brasil. Atua mais no varejo do que no atacado. E, de fato, não há política econômica e sim financeira ou monetarista".

10 - "9 de julho de 2003 - No dia em que se sacudir a frondosa árvore repleta de ONGs supostamente dedicadas à causa indígena no Brasil, a nação ficará estarrecida".

11 - "17 de julho de 2003 - Oded Grajew e eu fomos transferidos para o anexo II do Planalto. A primeira-dama ocupou o espaço do nosso gabinete. Somos os únicos assessores especiais deslocados para fora do prédio principal do palácio. No 4º andar, há tantas salas reservadas à assessoria da Casa Civil".

Governo
12 - "14 de agosto de 2003 - Meu desalento com o governo é cada vez maior. Não é o que eu esperava ou sonhava. Tudo é a muito longo prazo... Tudo parece de cabeça para baixo... E as trapalhadas dos ministros".

13 - "24 de setembro de 2003 - Minha preocupação maior é com os rumos do governo. Cada vez mais de salto alto. Temo que a tentação eleitoreira prevaleça sobre os compromissos históricos e os princípios éticos".

14 - "7 de janeiro de 2004 - Recebi e-mail de Ivo Lesbaupin, doutor em Ciências Sociais, ex-confrade dominicano, e ex-companheiro de cárcere: `Está na hora de você abandonar este governo'".

15 - "17 de fevereiro de 2004 - O governo parece uma nau sem rumo. Faltam debates e políticas estratégicas. Quase tudo cheira a um grande improviso, exceto a fortuna que o superávit suga da nação para os credores".

Quadrilha
16 - "5 de maio de 2004 - Segundo modelo do Banco Mundial, o Bolsa Família é para adoçar a boca dos pobres com torrão de açúcar e encher a pança dos ricos com monumentais bolos recheados de títulos da dívida pública e achocolatados por juros astronômicos".

17 - "11 de maio de 2004 - Generaliza a insatisfação".

18 - "30 de agosto de 2004 - Continuo sem entender por que recursos federais precisam passar por instituições não governamentais para serem aplicados em projetos do governo federal".

19 - "2 de outubro de 2006 - O governo Lula optou por privilegiar alianças partidárias que por vezes incluíam políticos notoriamente corruptos, de práticas antagônicas aos fundamentos do PT. Nem parece ter servido de lição a crise ética de 2005, tumor fétido de alianças nefastas que reduziram o contrato programático a um balcão de negócios com moeda suspeita".

Um governo desse tinha que acabar no "Mensalão da quadrilha dos 40".

Restaurar é preciso; reformar não é preciso

Reinaldo Azevedo, Revista VEJA
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A reforma ortográfica que se pretende é um pequeno passo (atrás) para os países lusófonos e um grande salto para quem vai lucrar com ela. O assunto me enche, a um só tempo, de indignação e preguiça. O Brasil está na vanguarda dessa militância estúpida. Por que estamos sempre fazendo tudo pelo avesso? Não precisamos de reforma nenhuma. Precisamos é de restauração. Explico-me.

A moda chegou por aqui na década de 70, espalhou-se como praga divina e contribuiu para formar gerações de analfabetos funcionais: as escolas renunciaram à gramática e, em seu lugar, passaram a ensinar uma certa "Comunicação e Expressão", pouco importando o que isso significasse conceitualmente em sua grosseira redundância. Na prática, o aluno não precisava mais saber o que era um substantivo; bastava, dizia-se, que soubesse empregá-lo com eficiência e, atenção para a palavra mágica, "criatividade". As aulas de sintaxe – sim, leitor, a tal "análise sintática", lembra-se? – cederam espaço à "interpretação de texto", exercício energúmeno que consiste em submeter o que se leu a perífrases – reescrever o mesmo, mas com excesso de palavras, sempre mais imprecisas. O ensino crítico do português foi assaltado pelo chamado "uso criativo" da língua. Para ser didático: se ela fosse pintura, em vez de ensinar o estudante a ver um quadro, o professor se esforçaria para torná-lo um Rafael ou um Picasso. Se fosse música, em vez de treinar o seu ouvido, tentaria transformá-lo num Mozart ou num Beethoven. Como se vê, era o anúncio de um desastre.

Os nossos Machados de Assis, Drummonds e Padres Vieiras "do povo" não apareceram. Em contrapartida, o analfabetismo funcional expandiu-se célere. Se fosse pintura, seria garrancho. Se fosse música, seria a do Bonde do Tigrão. É só gramática o que falta às nossas escolas? Ora, é certo que não. O país fez uma opção – ainda em curso e atravessando vários governos, em várias esferas – pela massificação de ensino, num entendimento muito particular de democratização: em vez de se criarem as condições para que, vá lá, as massas tivessem acesso ao conhecimento superior, rebaixaram-se as exigências para atingir índices robustos de escolarização. Na prova do Enem aplicada no mês passado, havia uma miserável questão próxima da gramática. Se Lula tivesse feito o exame, teria chegado à conclusão de que a escola, de fato, não lhe fez nenhuma falta. Isso não é democracia, mas vulgaridade, populismo e má-fé.

Não é só a língua portuguesa que está submetida a esse vexame, é claro. As demais disciplinas passaram e passam pela mesma depredação. A escola brasileira é uma lástima. Mas é nessa área, sem dúvida, que a mistificação atingiu o estado de arte. Literalmente. Aulas de português se transformam em debates, em que o aluno é convidado (santo Deus!) a fazer, como eles dizem, "colocações" e a "se expressar". Que diabo! Há gente que não tem inclinação para a pintura, para a música e para a literatura. Na verdade, os talentos artísticos são a exceção, não a regra. Os nossos estudantes têm de ser bons leitores e bons usuários da língua formal. E isso se consegue com o ensino de uma técnica, que passa, sim, pela conceituação, pela famigerada gramática. Precisamos dela até para entender o "Virundum". Veja só:

"Ouviram do Ipiranga
as margens plácidas
De um povo heróico
o brado retumbante"

Quem ouviu o quê e onde, santo Deus? É "as margens plácidas" ou "às margens plácidas"? É perfeitamente possível ser feliz, é certo, sem saber que foram as margens plácidas do Rio Ipiranga que ouviram o brado retumbante de um povo heróico. Mas a felicidade, convenham, é um estado que pode ser atingido ignorando muito mais do que o hino. À medida que se renuncia às chaves e aos instrumentos que abrem as portas da dificuldade, faz-se a opção pelo mesquinho, pelo medíocre, pelo simplório.

As escolas brasileiras, deformadas por teorias avessas à cobrança de resultados – e o esquerdista Paulo Freire (1921-1997) prestou um desserviço gigantesco à causa –, perdem-se no proselitismo e na exaltação do chamado "universo do educando". Meu micro ameaçou travar em sinal de protesto por escrever essa expressão máxima da empulhação pedagógica. A origem da palavra "educação" é o verbo latino "duco", que significa "conduzir", "guiar" por um caminho. Com o acréscimo do prefixo "se", que significa afastamento, temos "seduco", origem de "seduzir", ou seja, "desviar" do caminho. A "educação", ao contrário do que prega certa pedagogia do miolo mole, é o contrário da "sedução". Quem nos seduz é a vida, são as suas exigências da hora, são as suas causas contingentes, passageiras, sem importância. É a disciplina que nos devolve ao caminho, à educação.

Professores de português e literatura vivem hoje pressionados pela idéia de "seduzir", não de "educar". Em vez de destrincharem o objeto direto dos catorze primeiros versos que abrem Os Lusíadas, apenas o texto mais importante da língua portuguesa, dão um pé no traseiro de Camões (1524-1580), mandam o poeta caolho cantar sua namoradinha chinesa em outra barcarola e oferecem, sei lá, facilidades da MPB – como se a própria MPB já não fosse, em nossa esplêndida decadência, um registro também distante das "massas". Mas nunca deixem de contar com a astúcia do governo Lula. Na citada prova do Enem, houve uma "modernização" das referências: em vez de Chico Buarque, Engenheiros do Hawaii; em vez de Caetano Veloso, Titãs. Na próxima, é o caso de recorrer ao funk de MC Catra: "O bagulho tá sério / vai rolar o adultério / paran, paran, paran / paran, paran...".

Precisamos de restauração, não de mais mudanças. Veja acima, no par de palavras "educação/sedução", quanto o aluno perde ao ser privado da etimologia, um conhecimento fascinante. As reformas ortográficas, acreditem, empobrecem a língua. Não democratizam, só obscurecem o sentido. Uma coisa boba como cassar o "p" de "exce(p)ção" cria ao leitor comum dificuldades para que perceba que ali está a raiz de "excepcional"; quantos são os brasileiros que relacionam "caráter" a "característica" – por que deveriam os portugueses abrir mão do seu "carácter"? O que um usuário da nossa língua perderia se, em vez de "ciência", escrevesse "sciência", o que lhe permitiria reconhecer na palavra "consciência" aquela mesma raiz?

Veja o caso do francês, uma língua que prima não por letras, mas por sílabas "inúteis", não pronunciadas. E, no entanto, os sempre revolucionários franceses fizeram a opção pela conservação. Uma proposta recente de reforma foi unanimemente rejeitada, à direita e à esquerda. Foi mais fácil cortar cabeças no país do que letras. A ortografia de Voltaire (1694-1778) está mais próxima do francês contemporâneo do que está Machado de Assis do português vigente no Brasil. O ditador soviético Stálin (1879-1953) era metido a lingüista. Num rasgo de consciência sobre o mal que os comunistas fizeram, é dono de uma frase interessante: "Fizemos a revolução, mas preservamos a bela língua russa". Ora, dirão: este senhor é um mau exemplo. Também acho. O diabo é que ele se tornou referência de política, não de conservação da língua...

Já que uma restauração eficaz é, eu sei, inviável, optemos ao menos pela educação, não por uma nova e inútil reforma. O pretexto, ademais, é energúmeno. Como escreveu magnificamente o poeta português Fernando Pessoa (1888-1935), houve o tempo em que a terra surgiu, redonda, do azul profundo, unida pelo mar das grandes navegações. Um mar "portuguez" (ele grafou com "z"). Hoje, os países lusófonos estão separados pela mesma língua, que foi se fazendo história. A unidade só tem passado. E nenhum futuro.

Tiroteio cruzado de pólvora seca

Villas-Bôas Corrêa, Coisas da Política, Jornal do Brasil

O tempo seco de longo período do inverno que começa a despedir-se para a floração da primavera deve ser em parte responsável pela virulência dos debates travados nos mais diversos ringues: dos palanques da pororoca dos improvisos do presidente Lula aos revides irados da oposição. E contaminou o bate-boca que quebrou a proverbial serenidade do Senado com o episódio de lamentável burlesco da aventura amorosa do presidente, senador Renan Calheiros.

Como mofino consolo, não há vítimas a lamentar além da verdade, virada pelo avesso no seriado de versões construídas e que não escaparam da troca de tiros com a munição chocha das bombinhas das festas juninas.

O trono e o palanque da série de shows testemunharam os mais extravagantes enredos construídos pelo presidente Lula para explicar o inexplicável. Uma atuação soberba na hora redonda e minutos do inspirado discurso no 3° Congresso Nacional do PT. Em pirueta de fazer inveja à trupe do Cirque du Soleil, não pronunciou nenhuma vez a amaldiçoada e incômoda palavra mensalão, que driblou pela contramão no elogio rasgado aos companheiros e ao PT: "Ninguém tem mais autoridade ética, moral e política do que o nosso partido". Os companheiros denunciados como réus na histórica decisão unânime dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) por formação de quadrilha e corrupção foram delirantemente ovacionados pela assistência e acariciados pelo presidente, com as devidas e marotas cautelas: "Saio desse Congresso com a alma lavada. Sabendo que alguns foram indiciados pela Suprema Corte Brasileira". E a ressalva do empate: "Até agora, nenhum deles foi inocentado, mas também nenhum deles foi culpado".

Ora, com o partido enterrado até o gogó nos megaescândalos do mensalão e do caixa 2, com uma penca de dirigentes com a corda no pescoço, risco de cadeia, cassação de mandato e inelegibilidade é preciso um prodígio de habilidade para inverter os sinais e mandar a evidência às favas.

No aluvião de promessas de obras fantásticas para a recuperação em meses, no maior mutirão da nossa História, da rede rodoviária, das pontes aluídas pelos temporais, dos portos que se multiplicarão como camundongos, Lula joga a cartada da eleição do seu sucessor. Com o travo de amargura pela inviabilidade do terceiro mandato. Equilibra-se no arame oscilante com o risco de uma queda na serragem do picadeiro.

De certo, por enquanto, só a contratação de 56.348 servidores para os três poderes, ao custo de R$ 3,498 bilhões. A administração vai explodir de obesidade.

A pobrezinha da verdade passou por sérios apertos na extemporânea e inconveniente troca de acusações entre o governo e as Forças Armadas sobre o tema explosivo das torturas no negrume dos 21 anos da ditadura militar.

O coro de indignação corporativa dos militares, em geral reformados, mas que repicou na nota dos ministros das três armas comete o erro crasso de tentar negar a evidência diante do testemunho dos que exibem as cicatrizes do pau-de-arara, do maçarico queimando a carne, das horas de interrogatório debaixo de pancadaria, dos choques elétricos, das taponas nos ouvidos.

E o atentado do Riocentro não existiu? Vladimir Herzog não morreu em sessão de tortura, nas dependências do Doi-Codi de São Paulo? O presidente Ernesto Geisel não demitiu o general Ednardo d'Ávila Mello do comando do II Exército depois das mortes no Doi-Codi?

São milhares as testemunhas ainda vivas. E os mortos também falam.

O PT e as FARC

por Rodrigo Constantino, site Diego Casagrande
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Com o anúncio da morte de "Negro Acácio", que foi sócio de Fernandinho Beira-Mar e era o principal responsável pelo negócio das drogas e compra de armas das FARC, volta à tona a bizarra ligação entre o partido do presidente Lula e este grupo terrorista. As FARC foram estabelecidas em 1964 como um braço militar do Partido Comunista Colombiano. Entre suas atividades encontram-se ataques com bombas, assassinatos, seqüestros, extorsão, assim como ações de guerrilha contra políticos colombianos ou alvos econômicos. O tráfico de armas e drogas são fontes de receita para o grupo também, e estimam que as FARC já seja responsável por cerca de 30% do mercado de distribuição e exportação de cocaína na Colômbia. Entre 1997 e 2004, quase cinco mil pessoas passaram pelos cativeiros mantidos pelas FARC em seus acampamentos. Um dos seqüestros famosos é o da escritora e senadora Ingrid Betancourt, que foi candidata à presidência nas eleições de 2002.

Feita esta breve apresentação do grupo, restam algumas perguntas importantes. Por exemplo: Por que o PT fundou, em 1990, o Foro de São Paulo, que conta com a participação de ditadores, como Fidel Castro, e também das FARC? Por que as reuniões desse Foro acontecem até hoje, com a participação do presidente Lula, legitimando a luta das FARC em seus registros? Um dos mentores dessa aliança nefasta foi Marco Aurélio Garcia, o "top top" que ainda é bastante próximo de Lula. Por que as FARC saudaram a vitória de Lula para presidente, sendo que o próprio preferiu o silêncio ao invés de repudiar tal demonstração de afeto vindo de terroristas? Por que o governo Lula se recusa a reconhecer as FARC pelo que são, ou seja, um grupo terrorista? Por que, durante o governo de Olívio Dutra no Rio Grande do Sul, o representante das FARC, Hernan Rodriguez, foi recebido no Palácio Piratini pelo próprio governador? Fora isso, não podemos esquecer a denúncia de dentro da própria ABIN relatando apoio financeiro de 5 milhões de dólares das FARC para candidatos petistas.

O grande amigo e aliado de Lula, Hugo Chávez, foi chamado como interlocutor entre o governo colombiano e os terroristas das FARC. Todos sabem que Chávez é próximo das FARC. O presidente Lula considera normal ter um aliado político tão próximo assim de traficantes de droga e seqüestradores? Bem que o PT e o presidente Lula podiam esclarecer esses pontos importantes sobre sua ligação com as FARC. Caso contrário, algum "golpista" poderá concluir que quem cala consente...

Jornal: Lula quer Brasil como nova potência militar

BBC Brasil

A nova estratégia de segurança e defesa lançada na quinta-feira pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva pretende converter o Brasil "numa potência militar do século XXI", segundo afirma nesta sexta-feira reportagem publicada pelo diário financeiro argentino El Cronista Comercial .

O jornal afirma que "o plano de defesa faz parte de uma nova política industrial que beneficiará também o setor automotivo, a indústria naval, o setor da saúde e as ferrovias".

"A idéia do governo Lula é impulsionar a produção de equipamentos, estabelecer centros de tecnologia, substituir importações, diminuir os gastos do governo nesses setores e transformar o País em uma 'plataforma de exportações', segundo já havia dito o ministro da Indústria, Miguel Jorge nos dias anteriores", relata a reportagem.

O jornal observa que "o governo do Brasil quer aumentar o orçamento da Defesa de 2008 para US$ 4,6 bilhões, contra US$ 3 bilhões neste ano".

"Para Lula, um dos principais desafios deste plano será aliar o desenvolvimento das Forças Armadas ao desenvolvimento econômico e tecnológico do País e 'contar com um plano estratégico de Defesa, que considere os mais variados cenários futuros'", diz o jornal.

Calheiros
Outro jornal argentino, o Clarín, traz reportagem nesta sexta-feira sobre o processo contra o presidente do Senado, Renan Calheiros, na qual diz que "a possível destituição do chefe do Congresso" está provocando "agitação política" no Brasil.

O diário considera que o voto dos senadores do Partido dos Trabalhadores no Conselho de Ética a favor de sua cassação é um "prenúncio da condenação que deverá sofrer no plenário da Câmara Alta na semana que vem".

"Até pouco tempo atrás forte aliado do governo Lula, o senador alagoano Calheiros caiu em desgraça pelas múltiplas acusações de corrupção que pesam sobre sua cabeça", afirma a reportagem.

Para o jornal, "está praticamente provado que ele recebeu dinheiro de uma construtora, a Mendes Júnior, obviamente por suborno". "E também se sabe que usava esse dinheiro para pagar entre outras coisas a vultosa pensão alimentar de uma filha extra-conjugal que teve com uma conhecida jornalista."

"Quando faltam só cinco dias para o dia D, quando o plenário do Senado federal deve decidir se o cassa ou se o perdoa, os aliados mais próximos de Calheiros dentro de seu partido já não se sentem seguros", comenta o Clarín.

Para o jornal, "eles acreditam que na próxima semana o conjunto de colegas da Câmara Alta podem se voltar contra ele, entre outras coisas, porque as votações são secretas e crescem, em conseqüência, 'as chances de traição'".

Indenização
A edição online do diário espanhol El País traz nesta sexta-feira reportagem do correspondente no Brasil sobre a condenação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a pagar uma indenização de R$ 78 mil por ter declarado em uma entrevista em 2001 que a prefeitura de Campinas havia "assaltado" a cidade.

"O acaso fez com que a condenação do Superior Tribunal de Justiça, emitida quando o magistrado Carlos Alberto Direito fazia parte da instituição, fosse publicada ontem no Diário Oficial, justo no dia em que Lula assistiu a posse de Direito como novo membro do Supremo Tribunal Federal", diz o texto.

Segundo a reportagem, "Lula não fez nenhum discurso e se retirou imediatamente do Supremo, tribunal que há poucos dias deu luz verde ao indiciamento de 40 políticos, empresários e financiadores pelo grande escândalo de corrupção que em 2005 chacoalhou o governo de Lula e provocou a demissão da cúpula do Partido dos Trabalhadores".

O jornal afirma que o presidente "não quis comentar a indenização à qual foi condenado e que, em primeira instância, há seis anos, se estabeleceu em R$ 40 mil, mas o STJ decidiu atualizar o valor para R$ 78 mil".

BMG: ex-presidente do INSS teria recebido propina

O Dia

O advogado Bruno Brito Lins - ex-marido de uma funcionária do gabinete do senador Renan Calheiros (PMDB-AL) - revelou, em entrevista à revista Veja, novos detalhes do suposto esquema de propinas envolvendo Calheiros e outros políticos do PMDB com o banco BMG. Ele teria entregado, em março de 2005, R$ 150 mil ao então presidente do INSS e hoje deputado federal Carlos Bezerra (PMDB-MT), como retribuição por portaria que beneficiaria o banco. Segundo ele, José Roberto Leão, ex-diretor do Dataprev, teria recebido R$ 50 mil. Bruno teria retirado R$ 2,8 milhões da instituição.

Bruno também contou como teria sido a articulação do BMG para retirar Amir Lando do Ministério da Previdência e substituí-lo pelo senador Romero Jucá (PMDB-RR), hoje líder do governo no Senado. Tudo teria sido intermediado pelo seu ex-sogro, o lobista Luiz Garcia Coelho. "Eu presenciei conversas e ouvi telefonemas nos quais o pessoal do BMG e o Luiz (Coelho) começaram a confabular para tirar o Amir Lando da Previdência e colocar outra pessoa", disse Bruno.

De acordo com a entrevista, antes da posse de Jucá, o próprio presidente do BMG, Ricardo Guimarães, teria ido junto com dois diretores do banco ao gabinete do senador. O BMG teria sido favorecido nos empréstimos consignados a aposentados.

O advogado reforçou a tese de que o sogro agia a serviço do presidente do Senado. Segundo ele, na intimidade, Luiz se referia a Calheiros como "chefe". O lobista, de acordo com a reportagem, também se utilizava do cargo da filha no gabinete do senador para marcar reuniões com integrantes do governo.

Bruno revelou também uma suposta tentativa de golpe no fundo de pensão dos Correios, o Postalis. Seria construído um resort na cidade de Trancoso, na Bahia, integralmente custeado pela instituição, que pagaria R$ 250 milhões. Mas Luiz e Calheiros ganhariam participação como sócios.

Calheiros não comparece
Às vésperas de seu julgamento pelo plenário do Senado, Calheiros acabou não comparecendo ao desfile da Independência em Brasília. Sua ausência foi sentida por políticos, e parte do governo evitou a imprensa para não comentar o caso.

O ministro Tarso Genro, da Justiça, foi o único que comentou: "Ele não veio porque não quis, obviamente", ironizou. Tarso negou que o governo esteja trabalhando pela absolvição do senador. "O governo não está tratando desse assunto", disse.

O presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia, não disfarçou o mal-estar. "Evidente que eu notei a ausência de Renan. Mas atribuo isso a uma decisão dele. Ele deve ter decidido não vir pelas circunstâncias. Não tem como eu explicar. O fato de ele estar sendo julgado no Senado é que deve ter pesado", afirmou o deputado. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não deu entrevistas.

Sobraram lugares na platéia

Karla Correia e Vasconcelo Quadros, Jornal do Brasil

Longe da austeridade exibida durante o ano das eleições presidenciais, quando o Palácio do Planalto se cercou de cuidados para evitar que a festa do 7 de setembro fosse confundida com um comício, as comemorações do Dia da Pátria, este ano, custaram aos cofres públicos R$ 2,2 milhões - 41% a mais do que a solenidade do ano passado, orçada em R$ 1,4 milhão.

Mas se o gasto foi maior, o público ficou bem aquém do esperado. Cerca de 30 mil pessoas compareceram ao evento, programado para receber entre 45 mil e 50 mil pessoas na Esplanada dos Ministérios. A platéia do desfile militar foi mantida longe do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. As reforçadas grades de isolamento blindaram-no de eventuais vaias. Perto de Lula, apenas arquibancadas com convidados especiais do Planalto.

O comparecimento foi ainda menor do que em 2006, quando o governo evitou dar publicidade à festa. A maior extensão das cercas - 9,5 mil metros de extensão contra 7,5 mil metros, do ano anterior - foi o principal motivo alegado para o aumento dos gastos e, também, para a frieza do público em relação ao evento.

Um presidente Lula tranqüilo, acompanhado da primeira-dama, Marisa Letícia, e de dois de seus filhos - Lurian e Sandro - assistiu ao desfile ao lado de ministros. Nas arquibancadas montadas para convidados, apenas um protesto: o comerciante Edson Matos, acomodado em frente à tribuna presidencial, vestia uma camiseta com os dizeres "ladrão, safado, enrolão e pilantra". Referia-se não a Lula, mas ao presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). Às vésperas de ser julgado no plenário da Casa, Renan não compareceu ao evento e preferiu passar o feriado com a família.

- Não foi a pedido de ninguém. Acho que foi por decisão própria que ele não veio, para evitar constrangimentos - disse o presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP) depois do desfile.

- Não senti falta. Por que sentir falta? Ele não veio porque não quis - comentou, irônico, o ministro da Justiça, Tarso Genro.

No ano passado, Renan permaneceu durante todo o evento ao lado do presidente Lula. De acordo com informações do Ministério da Defesa, o desfile de 7 de setembro contou com a participação de 7,5 mil pessoas, das quais 4,5 mil integrantes das Forças Armadas.

O presidente Lula desfilou em carro aberto ao lado de dona Marisa. Passou em revista à tropa e, antes de subir à tribuna de honra para declarar oficialmente aberto o desfile, fez o sinal da cruz. O microfone falhou no momento em que Lula faria a declaração mas, mesmo assim, o militar que pedia autorização de cima de tanque militar, declarou que o desfile estava aberto. O vice-presidente, José Alencar, e o presidente de Moçambique, assistiram ao desfile ao lado de Lula. Entre os onze ministros presentes, Nelson Jobim, da Defesa, com uma faixa das Forças Armadas no corpo, contrastava com o ministro Mangabeira Unger, da Secretaria de Longo Prazo, que, de tão deslocado e ignorado pelos colegas do primeiro escalão, parecia um estranho no ninho.

Independência de véspera

por Christina Fontenelle, site Diego Casagrande

Pela primeira vez desde que assumiu a presidência da república, em 2003, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva entrou em cadeia nacional de rádio e TV para fazer um pronunciamento sobre o Dia da Independência, na véspera - ou seja, na noite do dia 6 de setembro. Por quê?

Em 2003, o publicitário Duda Mendonça criou uma campanha: "Sete de Setembro. Esta Festa é Nossa", fazendo uma grande convocação nacional para que o povo participasse das comemorações pelo 7 de Setembro por todo o país. Havia, inclusive, o objetivo de "desmilitarizar" as festividades, cuja característica marcante, até então, vinha sendo os desfiles militares. Em Brasília, a festa foi organizada pela Presidência e pelo Comando Militar e custou cerca de R$ 1 milhão. Lula quebrou a tradição de desfilar em carro aberto - uma decepção, na ocasião, para muitas das 45 mil pessoas que compareceram.Em 2004, Lula convocou novamente a população para comemorar o Dia da Independência junto as festividades organizadas pelo país. O apelo do presidente foi feito na véspera, dia 6 (como agora em 2007), só que através do programa de rádio "Café com O Presidente", que vai ao ar todas as segundas-feiras pela manhã. Em Brasília, o povo atendeu e cerca de 50 mil pessoas apareceram para a festa. Pela primeira vez, Lula enfrentou um protesto: eram cerca de 10 mulheres de militares que portavam cartazes pedindo aumento para a classe.

Em 2005, já sob o escândalo do Mensalão, a presidência providenciou um esquema de segurança e de "blindagem" de Lula aos protestos, que certamente ocorreriam (e ocorreram). Houve um esvaziamento da festa do 7 de Setembro em relação aos dois anos anteriores – apenas 30 mil pessoas compareceram e muitas delas para vaiar o presidente. Na noite do próprio Dia da Independência, Lula fez um pronunciamento à nação sobre a data.

Em 2006, à época das comemorações do Dia da Independência, estávamos também às vésperas das eleições presidenciais. Lula, então candidato pelo PT, e Alckmin, candidato do PSDB, fizeram pronunciamentos em suas respectivas propagandas eleitorais. A presidência contratou uma empresa para organizar as festividades em Brasília. Foram gastos R$ 2 milhões. Foi o ano em que Marcos Pontes, o astronauta brasileiro, assistiu o desfile militar no mesmo palanque em que estava Lula.

Esse ano, o presidente veio em cadeia nacional, na véspera das comemorações pelo Dia da Independência, fazendo um discurso que quem ouvisse distraidamente pensaria tratar-se do Chefe de Estado da Suécia falando aos seus patrícios. Números e mais números de sucesso. Falou do crescimento do número de trabalhadores com carteira assinada e de empregos (de apertador de parafuso, mas é emprego!). Falou também sobre o aumento do número de pessoas que adentraram à classe média (leia-se quem passou a ganhar 500 reais por mês). Obviamente, o presidente não fez referência ao empobrecimento do que se costumava chamar de classe-média.