terça-feira, fevereiro 01, 2011

Dilma já assumiu, só falta começar a governar

Adelson Elias Vasconcellos

Há momentos no Brasil que a gente não consegue nem entender tampouco explicar. Um desses momentos é o primeiro mês de Dilma Rousseff como Presidente do país. Dois discursos, um logo após visitar as vítimas da região serrana fluminense não sem antes ter posado como garota propaganda com a camisa do Fluminense. Outro, em Porto Alegre, numa homenagem às vitimas do Holocausto.

Medidas? Quais?

Projetos? Quais ?

Programas? Quais?

Reformas? Quais?

Basicamente, Dilma consumiu um mês trancada no gabinete negociando a composição do governo, primeiro,segundo e terceiro escalões.

Dou um exemplo: sabe-se que ela precisará aplicar uma tesourada de 60 bilhões no Orçamento da União. Tais cortes foram definidos? Não, em sua primeira reunião ministerial determinou um prazo de 30 dias – vencerá em fevereiro – para seus ministros fazerem os estudos, ajustes e apresentarem as soluções.

Hoje, ficamos sabendo que o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, abriu uma consulta dentre os embaixadores para apanhar sugestões e críticas da herança recebida de Amorim – vergonhosa em todos os sentidos – e quais alterações deverão ser implementadas. Ou seja, na política externa, a tal continuidade foi prô vinagre, pelo menos é o que se projeta. E aqui temos a palavrinha mágica: projeção.

O governo Dilma Presidente, em um mês, é apenas uma projeção do que poderá ser, e do que não poderá. Naquilo que realmente é de interesse da sociedade, não se anunciou nada, não se determinou nada, só vazaram algumas ideias para se aferir a temperatura da sociedade e a reação. Uma dessas ideias é o tal projeto de regulação da mídia.

Mas, se a gente olhar para os “balanços” que se lê e se ouve na grande imprensa, eles resultam positivos, alguns até se expressam de forma “encantados” com este primeiro mês. Aí você busca no texto onde estão as razões para tanto encantamento, e não consegue encontrar uma única vírgula de ações e medidas tomadas pela Presidente, capaz de justificar tantos elogios.

Semana passada, critiquei a postura de Dilma trancada em gabinetes e sem decidir coisa alguma: primeiro, não pode alegar que está conhecendo a situação do país para estabelecer um programa de governo. Na campanha vendeu-se a ideia de que Dilma e Lula haviam governados juntos entre 2003 e 2010. E que ela era quem, de fato, gerenciava as ações de governo. Portanto, tinha munição de sobra para conhecer o país que, no dizer de Lula, ela conhecia tão bem quanto ele. Por outro lado, se sabia tudo sobre toda a situação do país e do governo de que participou, se entrou na campanha com uma ideia de projeto para o país pré-estabelecida – pelo menos foi isto que disse e apresentou na campanha – nada justifica que demande tempo para tomar as decisões necessárias, seja para dar continuidade ao se fazia de certo antes, ou para mudar o que pede mudança.

Não, não poderei poupar Dilma dela mesma. Os problemas que precisou enfrentar em janeiro são consequências do mau governo de que fez parte e da teimosia em manter coisas erradas como se certas estivessem. Quem era a mãe do PAC? Dilma. Então ela deve ser responsabilizada pelos projetos de prevenção de acidentes retirados do PAC, apesar dos recursos previstos no orçamento. Quem resolveu manter Fernando Haddad no ministério da Educação? Ela, Dilma Presidente. Então deve ser responsabilizada, também, pelos problemas no ENEM e no SISU…

Lula, durante oito anos, flanou acima de seu governo. Grande parte da imprensa nunca o cobrou pelos erros, escândalos e má condução no gerenciamento dos serviços públicos. Era como se ele fosse um, e o governo outro ente, diferente, descartado. Errado: Lula foi responsável direto e único pelo que de ruim aconteceu entre 2003 e 2010. Se posou como o rei Midas das coisas boas, muitas das quais – prá não dizer, todas – foram frutos colhidos do governo do antecessor, também deve ser responsabilizada pelas ruins, frutos do desgoverno ou das decisões erradas.

Vale lembrar a reportagem do Fantástico, deste domingo, sobre a situação caótica dos presídios Brasil afora. Em seus dois mandatos, Lula lançou cinco, isto mesmo, CINCO “GRANDIOSOS” plano de segurança pública, onde se prometia o paraíso. Dos cinco presídios de segurança máxima, projetados ainda no primeiro mandato, entregou um e meio. Nunca os índices de violência cresceram tanto quanto nos oito anos governados por Lula. Nunca a saúde pública do país esteve em estado tão deprimente, como a que viu a partir de 2003 em diante. E de quem é a culpa senão do chefe do executivo, responsável único pelas escolhas, pelos programas, pelos projetos e pelos discursos asquerosos tanto quanto mentiroso?

Agora, tenta-se repetir a mesma tática com Dilma Presidente, com a diferença de que não temos os discursos mentirosos, mas a tática bucéfala de mantê-la em gabinete para passar a ideia de que cuida da gestão.

Assim, vendo-se pelo lado da economia, é de se perguntar: qual a grande medida adotada com a urgência que o caso requer, para conter a sangria do dólar? A única coisa que se fez foi a adoção de uma medida paliativa, para começar a ter efeitos somente a partir de abril próximo. E até lá, como fica? Do lado da inflação, sabe-se que não há milagres quando se gasta além do que se arrecada. Se não houver contenção das despesas, e aí se inclui os investimentos, o derrame continuará inapelável. Aumentar os juros? Ora, convenhamos: alguém pode justificar uma “esplendorosa” economia herdada de Lula, onde a taxa de juros interna é o dobro da segunda maior do mundo? Já não vai aqui comparar com a média mundial abaixo de 2,0% ao ano.

Ora para quem chegou com o cartaz e a fama com que Dilma Presidente assumiu o poder, era para já ter muita medida tomada, muito projeto apresentado, uma rota pré-definida apresentada.

Que Dilma Presidente tenha assumido o poder em 01º de janeiro, todos sabemos. Falta definir a data em que, de fato, começará a governar o país. Até lá me permito discordar dos “analistas” bondosos que se apressaram em cantar as maravilhas dos primeiros trinta dias. Avaliação de governo para mim se faz a partir de resultados. E que me perdoe os que pensaram e escreveram ao contrário: trinta dias, clandestinamente enfiada num gabinete, sem uma medida sua para ser analisada se boa ou má, não dá para saber o rumo que Dilma adotará para os seus quatros anos. Sem resultados, a avaliação só pode ser a de que, até aqui, jogou-se fora trinta dias de um governo de mais quatro anos. Porque, se alguma coisa se pode perceber, foi esta briga deplorável entre PT e PMDB por cargos, com acusações e troca de tiros e acusações de parte a parte. Seria interessante que Dilma chama-se a tropa e mandasse todo mundo parar de resmungar. Afinal, se esta briga existe é porque até agora faltou foi autoridade, e não o contrário como se tenta fazer crer.

Ah se o Brasil tivesse uma oposição digna do nome!

A esquisita matemática de Mantega

Adelson Elias Vasconcellos

Vamos brincar de fazer conta? Vamos? Então, tá. Imagine o leitor que uma hipotética empresa tenha uma receita de R$ 1.000,00 por ano. Desta receita, entre despesas de expediente, salários, encargos sociais e previdenciários, obrigações tributárias, custos de operação, ela gaste cerca R$ 980,00. Ocorre que, há dois anos, a empresa fizera um papagaio cuja amortização anual lhe custaria R$ 30,00. Como lhe sobraram apenas R$ 20,00, para cobrir os R$ 10,00 que lhe faltam, a empresa precisará recorrer a outro empréstimo, que lhe acarretará, com o primeiro empréstimo, um custo financeiro anual não mais de R$ 30,00 mas de R$ 40,00. Se a empresa não reduzir seu custo bruto de R$ 980,00 para R$ 960,00, compensando o aumento da dívida bancária, é bem provável que não conseguirá economizar no ano seguinte o suficiente para cobrir os novos compromissos. Para não ter seu nome levado aos cadastros de inadimplentes, e ver seu crédito na praça encolher, durante um certo tempo a tendência será aumentar seu endividamento bancário.

Como a empresa não deseja conviver com esta situação perversa, e não consegue também encolher seus custos, a única saída que lhe resta será aumentar a receita anual. E isto só conseguirá se aumentar a quantidade vendida, mas tendo a contrapartida do aumento dos custos de produção, ou se obrigará aumentar os preços finais do que vende ao mercado para tentar cobrir suas necessidades de caixa. Só que, neste ultimo caso, corre o risco de ver diminuído o volume físico de suas vendas, porque a concorrência poderá praticar melhores preços e lhe roubar clientes.

A situação hipotética, respeitando a proporcionalidade dos valores, é um caso bastante comum no meio empresarial. Aliás, o descontrole com os custos, deixando pouco espaço para cobrir compromissos bancários ou até tributários, tem sido motivo de muita falência.

Com o governo brasileiro está ocorrendo exatamente isso. Claro, não corremos riscos de quebrar, mas já por dois anos seguidos não se consegue fazer economia suficiente para cobrir o serviço da dívida pública. Acaba sempre gastando mais do que pode, não paga a dívida e acaba aumentando ainda mais essa dívida, para cobrir o que não consegue pagar. É o famoso dívida sobre dívida.

Ora, para um governo com tantos caminhos para gastar, será possível que não se consiga economizar sobre a arrecadação pelo menos 3,0% para pagar os juros da dívida?

Bem, depende da rota que o governo da ocasião traçou para cumprir seu papel. Se a gente retirar os gastos com programas sociais, educação e saúde que, neste 2011, terá o maior orçamento dentre todos os ministérios, há muita gordura, mas muita gordura mesmo para ser cortada. Reparem neste pequeno detalhe que informamos faz poucos dias: o orçamento para publicidade do governo, (fora as estatais, portanto), é maior, por exemplo, do que o previsto para gastos com prevenções de acidentes. Pergunta: o que é mais prioritário para a população, a publicidade ou a prevenção de acidentes?

Este é apenas um das centenas de exemplos de má aplicação de dinheiro público, assunto que temos falado muito ultimamente. O que é mais importante, recuperar a rede pública de saúde, ou gastar 400 milhões anuais com a tal TV que ninguém vê?

Se é uma coisa da qual este governo não pode reclamar é de falta de recursos. Nunca o país pagou tanto imposto como nos últimos anos, nunca a arrecadação federal cresceu em termos reais tanto como vem ocorrendo e, ainda assim, para melhorar um bocadinho os hospitais públicos caindo aos pedaços, se fala na criação de um novo imposto.

Outro exemplo são os milhões de reais doados para organizações não governamentais que, no Brasil e totalmente diferente do resto do mundo, são bancadas com dinheiro governamental. E, como se sabe pelos relatórios do TCU, a imensa maioria destes milhões caem na vala comum do desvio puro e simples, sem a melhor serventia ou utilidade em benefício da população.

Quando um país, por dois anos seguidos, não consegue economizar o suficiente para cobrir seus compromissos com juros da dívida, quando o saldo da balança de comércio exterior cai abruptamente ano após ano, quando o rombo das contas correntes internacionais atinge em 2010 fantásticos 49,0 bilhões e com previsão de chegar a 60 bilhões em 2011, qual o diagnóstico que se tem das contas deste governo? A de que o seu equilíbrio fiscal está em franca deterioração, não é mesmo?

Pois foi justamente este o recado dado pelo FMI que o senhor Mantega fez questão de ironizar e ignorar. E reparem no seguinte: mesmo com a vigarice da capitalização da Petrobrás, bancada pelo Tesouro Nacional, e que numa mágica colossal o senhor Mantega converteu em receita de 30 bilhões, nem com isso o superávit previsto para 2010 foi alcançado. Retire-se aquela vigarice, e este superávit cairá para baixo de 2%!

E, mesmo que Mantega queira aplicar outra canalhice retirando do superávit os investimentos que ninguém vê do PAC, ainda assim, estará apenas aumentando o rombo. Porque os investimentos e todas as despesas saem de um mesmo orçamento.

Por aí fica claro que o corte a ser aplicado no orçamento de 2011, goste o governo ou não, terá que ser profundo e, não há como fugir, atingirá o tal do PAC empacado que, até agora, gastou muito e realizou pouco.

Portanto, faça o Mantega a mágica que quiser mas não terá como fugir desta imperiosa necessidade de reduzir os gastos. E mesmo que dona Dilma Presidente diga não se tratar de ajuste fiscal, que invente sei lá outro apelido para a tesourada, o fato é que é esta a hora de se aplicar um remédio bastante amargo para debelar o mal que atinge as contas públicas: a de se perder o controle e o equilíbrio fiscal ir para as cucuias. É sempre bom lembrar que logo ali, em 2012, teremos eleições municipais e, nestes períodos, o Poder Público costuma gastar além da conta.

Como também é bom não esquecer que dona Dilma assumiu compromisso de puxar os juros básicos para algo em torno de 2% e isto, sem freio nas despesas, é simplesmente impossível. Não sei em que escola o ministro Mantega aprendeu a fazer contas. Mas gastar além do se que ganha, em qualquer lugar do mundo, é sempre o caminho mais curto para o descontrole financeiro. A regra é válida para pessoas comuns, para empresas, ou até para os governos, mesmos os comandados pelas esquerdas. Assim, um mais um é dois, e não três ou mais ou menos quatro. Matemática, ministro, não obedece códigos ideológicos. É ciência, só isso.

Educação ou molestamento infantil?

Adelson Elias Vasconcellos.

Dentre todas as obrigações do Estado para com a sociedade, há três que destaco como prioridades acima de todas as outras: educação, saúde e segurança. O resto, pode esperar. Pode ficar para depois, podem até ser adiadas. Mas estas três são as prioridades maiores.

Olhem na lateral direita do blog: primeiro vem uma chamada à educação, em seguida, um apelo à saúde. É isto: não se conquista absolutamente nada no campo da justiça social, dos direitos humanos, da cidadania, se uma destas questões estiver em situação deprimente. No Brasil, impossível negar, nenhuma das três maiores obrigações do Estado é atendida com um mínimo de qualificação.

Em muitas escolas pelo país, fevereiro coincide com início do ano letivo. Sendo assim, e até para que sirva de alerta para alguns pais, reproduzimos abaixo dois artigos transcritos do site Escola sem Partido, e que demonstra um, dentre dezenas, os motivos para ser crítico ferrenho da política empreendida do MEC sob o comando de Fernando Haddad.

E não se enganem: não se pratica o que vocês vão ler a seguir, apenas nas escolas públicas. Muitas escolas privadas adotaram o lixo que o MEC empurra mente adentro de nossas crianças e jovens. Não é a toa que o país vive de cabeça para baixo.

O Blog não é crítico do petismo apenas por discordar ideologicamente do lixo que defendem: é crítico das ação coletiva que tenta impor ao país com uma cartilha ultrapassada, anacrônica e burra. Mas não apenas as cartilhas: são as ações e programas cujo único propósito é impor uma mentalidade sórdida de emburrecimento da sociedade, para se sustentar ad eternum no poder.

Não, não abriremos mão de defender os valores nos quais acreditamos, e que fizeram o ser humano sair da idade da pedra para uma era de modernidade e com melhor qualidade de vida. Há setenta anos atrás, a perspectiva média de vida dos brasileirols mal passava dos quarenta anos. Hoje, já são mais setenta anos de expectativa. E esta melhora não se deu por conta dos imbecis que querem nos privar da nossa individualidade, das nossas liberdades e das nossas conquistas e valores. Querem comer capim? Á vontade, estão livres para se deliciarem com o repasto que melhor lhes apetece o espírito e o corpo. Mas não queiram impedir que a maioria deseje ser livre, decente, abraçada à modernidade do pensamento e aos valores cristão mais sagrados em que acreditam. E sem a mão de tiranos a lhes solapar direitos e garantias que somente as democracias, livres e sanadas, conseguem oferecer.

O primeiro artigo (post abaixo) é uma daqueles lixos morais em que as “autoridades” que permitiram a livre circulação nas escolas, deveriam ser enquadradas no Estatuto da Criança e do Adolescente por molestamento de menores. Esta gente não apenas é lixo moral: são doentes paranoicos que não merecem circular livremente no meio de pessoas decentes e civilizadas. Trata-se de um tal livro de orientação sexual, numa linguagem chula e perniciosa para crianças em formação. Não é pelo caminho da orientação libertina e licenciosa que se educará melhor nossas crianças. Até porque a escola é um complemento da educação vinda da casa, e portanto, não pode afrontar a orientação doméstica. Até onde sei, o Estado não tem poderes para se sobrepor aos pais e mães. Sua obrigação é outra, seu dever segue noutra direção. Escolas que não tem competência para ensinar matemática e português, não tem moral para ensinar sexualidade em linguagem e ilustrações totalmente inadequadas. De que adianta o Ministério da justiça determinar que certas novelas só sejam exibidas em determinados horários, se nas escolas, para crianças de 7 a 10 anos, o MEC autoriza que se distribua livros que tentam catequizar uma prática sexual infantil como política de absoluta permissividade e imoralidade? Qual é? Se a turma do MEC pirou de vez e perdeu todos os limites da decência, isto não lhe dá direitos de se sobreporem à moral e aos costumes que, a muito custo, a maioria das famílias tentam transmitir aos seus filhos.

O segundo artigo mostra como a atividade rural no país é vista com o preconceito dos ideólogos da esquerda e como esta cambada de vagabundos tenta disseminar na mente das crianças e dos jovens estes preconceitos. Vai ver são os mesmos que, nas refeições, devem ir ao gramado mais próximo para se deliciarem com capim, do tipo magro, para não quebrar a dieta. É bonito entrarem nos mercados abarrotados de frutas, verduras e legumes, esquecendo-se de onde vieram tais alimentos. É bonito tomarem seu leitinho, gelado ou morno, na hora que bem entendem, pagando um preço baratinho, ignorando o trabalho de milhares de pessoas que deram um duro danado para o imbecil se deliciar. Ou quem sabe no iogurte do café da manhã para ajudar a destravar aquilo que desceu do cérebro?

Ainda bem que a sociedade brasileira é mais conservadora, mais moralista e mais decente do que os mestres da libertinagem com cadeira e cargos no MEC. Assim, vale o aviso para todos os pais e mães com filhos em idade escolar: cuidem de suas crianças, confiram o conteúdo dos livros que estão sendo entregues aos  filhos. Talvez vocês se surpreendam que, ao invés de educação, matemática e português, seus filhos estão sofrendo é um processo de molestamento infantil, devidamente autorizado e recomendado por autoridades que perderam todos os escrúpulos possíveis.

Direito dos pais ou do Estado?

Site Escola Sem Partido

No começo de 2010, pais de alunos da rede pública de Recife protestaram contra o livro de orientação sexual adotado pelas escolas. Destinada a crianças de sete a dez anos, a obra “Mamãe, Como Eu Nasci?”, do professor Marcos Ribeiro, tem trechos como estes: “Olha, ele fica duro! O pênis do papai fica duro também?

Algumas vezes, e o papai acha muito gostoso. Os homens gostam quando o seu pênis fica duro.” “Se você abrir um pouquinho as pernas e olhar por um espelhinho, vai ver bem melhor. Aqui em cima está o seu clitóris, que faz as mulheres sentirem muito prazer ao ser tocado, porque é gostoso.”

Inadequado? Bem, não é disso que vamos tratar no momento. O ponto que interessa está aqui: “Alguns meninos gostam de brincar com o seu pênis, e algumas meninas com a sua vulva, porque é gostoso. As pessoas grandes dizem que isso vicia ou “tira a mão daí que é feio”. Só sabem abrir a boca para proibir. Mas a verdade é que essa brincadeira não causa nenhum problema”.

Considerando que entre as pessoas que “só sabem abrir a boca para proibir” estão os pais dos pequenos leitores dessa cartilha, pergunta-se: têm as escolas o direito de dizer aos nossos filhos o que é “a verdade” em matéria de moral?

De acordo com a Convenção Americana sobre Direitos Humanos (CADH), a resposta é negativa. O artigo 12 da CADH reconhece expressamente o direito dos pais a que seus filhos “recebam a educação religiosa e moral que esteja de acordo com suas próprias convicções”. É fato notório, todavia, que esse direito não tem sido respeitado em nosso país.

Apesar de o Brasil ter aderido à CADH, o MEC não só não impede que o direito dos pais seja usurpado pelas escolas como concorre decisivamente para essa usurpação, ao prescrever a abordagem transversal de questões morais em todas as disciplinas do ensino básico.

Atendendo ao chamado, professores que não conseguem dar conta de sua principal obrigação -conforme demonstrado ano após ano por avaliações de desempenho escolar como o Saeb e o Pisa-, usam o tempo precioso de suas aulas para influenciar o juízo moral dos alunos sobre temas como sexualidade, homossexualismo, contracepção, relações e modelos familiares etc.

Quando não afirmam em tom categórico determinada verdade moral, induzem os alunos a duvidar “criticamente” das que lhes são ensinadas em casa, solapando a confiança dos filhos em seus pais.

A ilegalidade é patente. Ainda que se reconhecesse ao Estado -não a seus agentes- o direito de usar o sistema de ensino para difundir uma agenda moral, esse direito não poderia inviabilizar o exercício da prerrogativa assegurada aos pais pela CADH, e isso fatalmente ocorrerá se os tópicos dessa agenda estiverem presentes nas disciplinas obrigatórias.

Além disso, se a família deve desfrutar da “especial proteção do Estado”, como prevê a Constituição, o mínimo que se pode esperar desse Estado é que não contribua para enfraquecer a autoridade moral dos pais sobre seus filhos.

Impõe-se, portanto, que as questões morais sejam varridas dos programas das disciplinas obrigatórias. Quando muito, poderão ser veiculadas em disciplina facultativa, como ocorre com o ensino religioso. Assim, conhecendo previamente o conteúdo de tal disciplina, os pais decidirão se querem ou não compartilhar a educação moral de seus filhos com especialistas de mente aberta como o professor Marcos Ribeiro.

Difamação contra o agronegócio vai continuar

Luis Lopes Diniz Filho, Site Escola Sem Partido

O agronegócio é o setor de atividade que vem sofrendo os piores e mais injustificados ataques por parte de amplos setores da imprensa e do sistema de ensino, sem falar nos ditos “movimentos sociais”. Já participei de duas mesas redondas sobre agricultura, em eventos dirigidos a pesquisadores e professores, e procurei refutar as visões distorcidas que vêm sendo divulgadas sobre o assunto. Os dados estatísticos e a bibliografia que utilizei para elaborar tais refutações podem ser consultados no artigo Agricultura e Mercado no Brasil. Neste texto, vou destacar apenas algumas teses da geografia escolar brasileira sobre agricultura e as evidências que demonstram os equívocos que vêm sendo transmitidos a crianças e adolescentes nas últimas três décadas.

A primeira distorção é a tese de que a produtividade agrícola só aumenta nos setores de exportação, conforme dizem o MST e muitos livros didáticos, como os de José William Vesentini. Ora, os dados do IBGE mostram que, sobretudo dos anos 80 em diante, culturas como as de tomate, cebola, batata, arroz e feijão alcançaram ganhos expressivos de rendimento físico, geralmente maiores do que aqueles verificados nas culturas de soja, laranja e cana.

Outra distorção é essa ideia de que a agropecuária brasileira se divide ainda num segmento de exportação e noutro de mercado interno. Essa tese é falsa simplesmente porque a maior parte da produção de soja, óleos vegetais em bruto e carne bovina do Brasil é consumida no mercado interno mesmo. Além disso, a expansão da indústria de alimentos vem alterando o padrão de consumo alimentar da população brasileira, de sorte que a alimentação dos mais pobres já não é mais tão dependente do arroz, feijão e mandioca como era há algumas décadas atrás.

Daí ser completamente absurda a visão de que o Brasil estaria vivendo o paradoxo da fome em meio à abundância de produtos agrícolas. A Pesquisa de Orçamentos Familiares 2002-2003 - POF, do IBGE, comprova que a exposição das pessoas à desnutrição declinou de forma rápida nas últimas décadas, até quase desaparecer. No período dessa pesquisa, a desnutrição atingia apenas um pequeno percentual da população feminina das áreas rurais do Nordeste e das mulheres do estrato mais pobre da população brasileira, formado pelas famílias com rendimento mensal per capita de até um quarto de salário mínimo. De outro lado, essa mesma fonte mostra que 24% dos homens e mais de 40% das mulheres desse estrato estavam então com excesso de peso ou obesidade!

Mas é claro que, diante disso, algum leitor poderia perguntar se tais informações não são contestadas pelos indicadores de segurança alimentar, segundo os quais há no Brasil cerca de 14 milhões de pessoas que passam fome. A verdade, porém, é que os dados de segurança alimentar não desmentem os resultados da POF. Ao contrário, são as informações desta última que revelam a fragilidade e incoerência da pesquisa sobre segurança alimentar, conforme explico em detalhes no artigo já mencionado.

Mas o interessante é que, embora a reação da maioria dos ouvintes às minhas palestras tenha sido negativa, a ninguém ocorreu contestar os resultados da POF com a citação de dados sobre segurança alimentar. Ao invés disso, os pesquisadores e professores que me contestaram fizeram uso de argumentos puramente retóricos ou saídos do senso comum, como esses abaixo:

“A questão agrária é mais complexa”. Ela “envolve uma multiplicidade de fatores”. Ora, mencionar outros fatores, por si só, não invalida em nada o diagnóstico de que a desnutrição está no fim. O que se tem aí é apenas uma retórica que procura descartar uma avaliação baseada em dados sem discutir sua consistência lógica e empírica.

“Não é isso o que a gente vê na rua”. “Você já visitou a periferia de Curitiba ou o Nordeste? Já viu a soja partindo do Porto de Paranaguá?”. Esse argumento supõe que o IBGE deveria ser fechado, pois mobiliza milhares de pesquisadores e gasta milhões de Reais para fazer pesquisas cujos resultados podem ser derrubados por uma única pessoa em visita a certos lugares. Esse tipo de argumento demonstra que alguns professores não entendem que a função das estatísticas é permitir fazer generalizações com base em um número relevante de observações.

O simplismo dos argumentos demonstra que o agronegócio continuará sendo difamado diariamente por professores e autores de livros didáticos que falam sobre agricultura e fome sem nunca terem consultado a POF e as informações do IBGE sobre produtividade agrícola. A visão torta dos professores deriva da má qualidade dos livros didáticos e também da falta de leituras outras que não a desse tipo de livro. Mas a causa principal está mesmo é no alinhamento incondicional dos professores e pesquisadores aos movimentos de “luta pela terra”. É por se apegarem aos dogmas ideológicos de organizações como o MST que os professores persistem no engano mesmo quando confrontados com indicadores que nunca tinham se dado ao trabalho de consultar. Como diz o ditado: “o pior cego é aquele que não quer ver”.

Lula ainda vive!

Claudio Schamis , Opinião & Notícia

Ninguém é perfeito. Só o Lula era. E é essa perfeição que deve ter feito o preço de suas palestras serem de R$ 200 mil.

É quase que pisando em ovos que começo a ‘Grita Brasil’ de hoje, depois de receber um vídeo onde o hoje ex-presidente Lula, no encontro com movimentos sociais no dia 15 de dezembro de 2010, ironiza o aumento dado aos deputados, ministros e ao presidente. Mas não vá pensando que ele diz ser um absurdo, algo inconcebível e que ele não vai permitir um ultraje desses. Muito pelo contrário. Lula fala que ele só pode lamentar que o Congresso acabou de aprovar um aumento para o presidente, ministros e que o Lulinha (e aí nessa hora ele faz o gesto apontando os dois polegares para baixo) não vai receber porque é somente para a próxima legislatura. E que para quem ganhava um salário de torneiro mecânico, o salário de presidente até ajuda.

Ridículo. É até onde eu me permito ir.

Meus caros, já deu para sentir o porquê do começar pisando em ovos. Seria impublicável o que eu teria vontade de escrever sobre isso. Mas tenho a certeza de que os defensores ferrenhos de Lula são capazes até de achar isso tudo uma injustiça e que ele, Lula, deveria receber esse aumento. Afinal, ele é isso aí. E para você que me conhece, sei que já até pensou o que eu estou pensando.

E, falando em pensar, eles lá ainda pensam, repensam, discutem e solicitam estudos de impacto na economia para quem sabe um dia chegar a um valor que ditará o salário mínimo. O estranho e engraçado é que (sei que vou repetir) para aumento de outros salários não é preciso estudo de impacto nenhum. Pode mandar vir que o governo tem um par de airbags, agora que podem ajudar a amortecer a porrada que vai ser esse aumento. Mas eles não estão nem aí. Além do que, estamos quase no Carnaval. Tem BBB na Globo. Um prato cheio.

E ainda tentam fazer um troca-troca. Eu te dou menos aumento, mas eu compenso no Imposto de Renda. Por que essa pouca vergonha é só com a gente? Eles na Câmara não querem saber disso. Com eles não tem troca-troca. É pá pum. Se é que tá dando para entender.

Fora que essa história da aposentadoria deles está me deixando daquele jeito. E poxa, até tu, Álvaro? Diz que não é verdade, que tudo não é assim como andam dizendo. Você sempre foi o cara da oposição que criticava tantas coisas. Vai pisar assim na bola?

E para não pisar na bola a OAB vai ao Supremo contra três estados para derrubar essas aposentadorias. Pois basta a figura ter ficado um dia como governador que já tem direito. Só aqui, né?

Pelo menos aquela história de qualquer um ter um passaporte diplomático acabou. O que não acabou e não mudou é o coração de mãe que o Governo tem. Depois de onze anos, o ex-senador Luiz Estevão, que foi acusado de comandar ao lado do juiz aposentado Nicolau dos Santos Neto um dos maiores casos de corrupção do país, terá de pagar uma dívida de quase R$ 1 bilhão . Ele acha que o Governo é o Baú da Felicidade e quer fazer um carnê para pagar em 15 anos a dívida. O detalhe importante é que a dívida é cobrada há quase dez anos. Vale lembrar que Nicolau ainda não pagou a sua parte que é de meros R$ 14,5 milhões.

Pra que ter pressa em cobrar esses valores? Deve estar sobrando grana no governo. E nem temos muito o que fazer. A saúde vai, a educação vai bem. Tá tudo tranquilo. Só quem fez o Sisu é que não deve estar muito contente, mas quem Si*u foram eles, então tá tudo bem na visão deles.

Afinal, a pressa é inimiga da perfeição. E ninguém é perfeito. Só o Lula era. E é essa perfeição que deve ter feito o preço de suas palestras serem de R$ 200 mil. É isso mesmo que você acaba de ler. Lula agora só fala por R$ 200 mil. Quanto será então que ele cobra pra ficar calado?

De qualquer maneira, a voz dele deve estar valendo ouro, então vou tratar de fazer cópias de um recado que tenho na minha secretária eletrônica da época da eleição em que tem um recado dele pedindo que eu vote no Lindberg Farias.

Estou até pensando em pegar essa grana e investir em gado.

E se mudar de ideia, me mando para o Haiti. Antes que eu fique ‘furnas’ da vida.

A volta do coronelismo

Sebastião Nery

Na vasta literatura sobre o coronelismo no Brasil, dois livros, já clássicos, se destacam :

- “Coronelismo, Enxada e Voto”, do chefe da Casa Civil de Juscelino na presidência da Republica, Consultor Geral da Republica e ministro do Supremo Tribunal Federal, o saudoso jurista e professor Victor Nunes Leal

e “Coronel, Coronéis”, do ex-ministro do Tribunal de Contas da União e presidente da Academia Brasileira de Letras, Marcos Vinicius Vilaça.

São estudos, pesquisas e testemunhos de uma realidade nacional de mais de meio século, antes da década de 50, aparentemente já ultrapassada.

Chico Heráclio
Um dos símbolos daqueles tempos foi o famoso, valente e sábio coronel Chico Heráclio, de Limoeiro, em Pernambuco, que reinou décadas na sua cidade e suas terras, e nas cidades e terras da região. Foi o mais poderoso coronel do Nordeste, senhor da terra, do fogo e do ar em Limoeiro, onde a ultima palavra era sempre dele.

Mandava no comercio, na Prefeitura, na Câmara de Vereadores, na Justiça. E sobretudo nos votos. Morreu em 1974, aos 89 anos.

Filosofias
Deixou suas lições e filosofias, nem sempre corretas sabedorias :

- “Governo, meu filho, é como mulher : - Se não dá o que você quer, não tem nada a fazer com ela. Melhor esquecer do que ficar sofrendo”.

- “Não existe cabeça dura para pancada e dinheiro. Depende da quantidade”.

- “Quem não pode com o pote, não pega na rodilha”.

- O eleitor de Recife é muito a favor do contra”.

- “Governo não bota roçado, mas está sempre colhendo”.

Daria um dicionário.

Agamenon
Em 1950, jogou tudo na campanha de Agamenon Magalhães contra João Cleófas, na disputa do governo do Estado. Deu mais de 70 por cento dos votos da região a Agamenon. Agamenon tomou posse, Chico Heráclito foi lá. Agamenon estava eufórico:

- Chico, use e abuse do meu governo.

- Governador, muito obrigado. A Secretaria da Fazenda e a Secretaria de Segurança o senhor não dá a ninguém. As outras não valem nada. Não quero nada. A não ser pedir para colocar água em Limoeiro e pelos meus amigos quando for preciso.

Pouco depois, voltou ao Palácio para pedir a Agamenon a aposentadoria de um amigo, juiz com poucos anos de função.

- Mas Chico, isso é muito difícil.

- Governador, se fosse fácil eu não vinha lhe pedir. Governo existe é para fazer as coisas difíceis. As fáceis a gente mesmo faz.

Furnas
Esse era um mundo de priscas eras, mais de meio século, que se imaginava perdido no tempo. De repente, o pais vê ressurgir o coronelismo político, liderado exatamente pelos dois mais fortes partidos: PT e PMDB.

Cada dia estouram nas TVs, jornais, internet, novas e virulentas batalhas entre petistas e peemedebistas,disputando cargos no inicio do novo governo e, na verdade, impedindo que a Dilma comece a governar em paz.

Há exemplos por toda parte, todos os Estados. No Rio, PT e PMDB estraçalham-se para ficarem com a direção de Furnas. Por que tanta voracidade? Não é pela energia de Furnas. É pelo dinheiro de Furnas.

Nordeste
No Ceará, a mesma coisa. O governador Cid Gomes (PSB) exige o Banco do Nordeste e o irmão de José Genoino, o deputado Guimarães, cujo assessor carregava na cueca 200 mil dólares até hoje inexplicados, não abre mão da FUNASA, um latifúndio de dinheiro e cargos públicos.

No Rio Grande do Norte, o insaciável Henrique Eduardo diz que o Dnocs(Departamento Nacional de Obras Contra as Secas)é dele e não abre.

Lula
Apesar da tragédia da região serrana do Rio, o pais está tendo, neste janeiro, uma estranha sensação de alivio, de bem estar, que ainda não sabe de onde vem. É só prestar atenção que saberá. Eu sei. É a primeira vez, em 8 anos, em que, durante trinta dias, não se ouviu um só discurso de Lula.

Aquele bestialógico noturno diário, assegurado pela conivência bem paga das TVs, sobretudo do “Jornal Nacional” da Globo, acabou. Quando vi Lula ao lado de José de Alencar,senti a ameaça. Graças aos céus, passou.

Nada fez tão bem ao pais quanto livrar-se da verborragia de Lula.

A meta: esfolar o cidadão comum

Carlos Chagas, Tribuna da Imprensa

Num objetivo acoplam-se perfeitamente o interesse público e o interesse privado, melhor dizendo, a ação dos agentes públicos e dos agentes privados: é na voracidade de depenar o cidadão comum. Para cada lado que se olhe acontece a mesma coisa. Ainda agora, em Brasília, o governo local vai distribuir os talões de pagamento do IPTU. A média dos “reajustes” deve ser de quase 100%. Quem pagou ano passado mil e poucos reais será taxado em mais de dois mil reais. E assim por diante. A rapinagem não será tão grande quanto a praticada pelo ex-governador José Roberto Arruda, mas de qualquer forma os prognósticos parecem trágicos.

Será um exagero, porque a inflação, ano passado, não passou de 6%, mas se não estrilarmos, não se falará mais no assunto. Trata-se de falta de exercício da cidadania, para a maior parte da população. Deveriam os brasilienses ir em frente e exigir do governo local uma explicação: quem determinará os abusivos reajustes? Uma iniciativa de amanuenses aloprados, de chefes abomináveis ou lá de cima, mesmo, através de no mínimo, a concordância do governador com esse ato explícito de esfolamento do semelhante? Claro que ninguém vai investigar, muito menos o governo do Distrito Federal, ficando o dito pelo não dito, ou o esfolado pelo não esfolado.

Passando do plano estadual para o federal, nem será preciso referir que enquanto as grandes empresas burlam o fisco, empenhando-se anos e até décadas a fio em batalhas judiciais sem pagar impostos e tributos, milhares de contribuintes comuns, dos que vivem de salário, são assoberbados com notificações da Receita para comprovarem despesas médicas e outras, nas declarações anteriores do Imposto de Renda. Parece o caminho para o poder público vangloriar-se do aumento de arrecadação.

Mas tem mais, lá e cá. Ainda esta semana os assinantes da famigerada NET estão sendo surpreendidos não apenas com o aumento das mensalidades, mas com a supressão de razoável número de canais antes acessados conforme os contratos. Para assisti-los, agora, será necessário pagar por fora, como no caso anterior de torneios de futebol e de filmes não tão velhos quanto os apresentados normalmente. Isso sem falar em que, quando lançados os canais a cabo, a promessa era de que não conteriam publicidade ou propaganda de qualquer espécie.

Só isso? Nem pensar. Também no último ano do presidente Lula o governo autorizou o aumento generalizado no preço dos remédios. A informação era de que tudo se limitaria a 4%. Vá o leitor reclamar na farmácia da esquina. Mesmo proibidos os reajustes, eles não pararam de acontecer nos últimos doze meses. Agora, autorizados, passam de 30%.

Reclamar para quem? No setor público, mesmo com o advento dos companheiros ao poder, primeiro municipal, depois estadual e agora federal, continuam a fluir as propinas e comissões pela realização de qualquer tipo de obras ou contratação de serviços. Só que com um detalhe: antes, cobrava-se 10%. Hoje, a regra é de 30%.

Essa simbiose entre o público e o privado parece não ter limites. Quem não disporá de um exemplo a mais, no seu dia-a-dia, para demonstrar como somos explorados?

Versão real ou fantasiosa?
Corre nos meios diplomáticos que durante a visita do presidente Hu Jintau, da China, aos Estados Unidos, houve tempo para que conversassem fora da agenda, olho no olho, assistidos apenas por intérpretes da maior confiança. Foi a hora de falarem duro. Barack Obama teria deixado claro que se os chineses colocassem os americanos na fogueira por conta da pujança econômica, de um lado, e a crise ainda latente, de outro, Washington teria condições de retaliar, até mesmo denunciando o regime chinês como ditatorial. Melhor seria que acomodassem interesses. O visitante teria aberto o jogo, dizendo não dispor a China de outra solução a não ser seguir em frente em sua expansão, até atropelando parte do planeta. Explicou que do bilhão e trezentos milhões de chineses, apesar de todo o progresso econômico lá verificado, apenas 400 milhões estavam tendo acesso aos benefícios da modernidade. Sobravam 900 milhões ainda vivendo na pobreza, limitados no interior, sem permissão para aproximar-se do milagre a que terão acesso apenas com o tempo. Provocar esse equilíbrio instável através de campanhas mundiais contra a China seria correr o risco de uma explosão que só o regime fechado consegue conter. Nessa hipótese, todos os interesses estrangeiros, em especial americanos, em seu território, seriam reduzidos a pó. Valeria à pena esse confronto?

Se não é verdadeira essa versão, pelo menos tem lógica...

Os fazedores de cabeças

Percival Puggina

A tevê mostra a vida como ela é ou induz a vida a ser como mostra? Gilberto Braga não tem dúvida alguma sobre sua função quanto a esse particular.

A Revista Veja da semana passada traz matéria sobre a novela Insensato Coração. Lá pelas tantas cita o autor Gilberto Braga. Assim, entre aspas: "Não haverá beijo gay. As telespectadoras não estão preparadas". Surpreendeu-me a sinceridade da frase. Pesquisando por ela, buscando sua repercussão, encontrei um site cujo redator estava bastante - como direi? - decepcionado com a declaração, mas, por outro lado, comemorava a exibição dos glúteos de um ator, em cena de rua, logo nos primeiros capítulos da novela.

A frase de Gilberto Braga, no entanto, acaba com os pontos de interrogação que frequentam a monótona discussão travada no mundo inteiro: a tevê mostra a vida como ela é ou induz a vida a ser como mostra? Gilberto Braga não tem dúvida alguma sobre sua função quanto a esse particular. Cabe-lhe ir preparando a sociedade, gradualmente, para as imagens e costumes que pretende instilar e disseminar. Ponto.

Antes que me rotulem conservador, vou logo dizendo que sim, sou conservador. Sou conservador de tudo que deve ser conservado porque se revela benéfico na experiência individual e social. Sou conservador em relação aos fundamentos da civilização ocidental e à tradição judaico-cristã que lhe fornece conteúdos. E, porque sou conservador dessas coisas essenciais, me confesso ainda pouco amestrado, por exemplo, para as cenas finais da novela Passione, nas quais uma mocinha desmiolada, casada com um rapaz bígamo, convence a até então rival e o moço a estabelecerem uma espécie de espeto corrido na convivência conjugal. Nessa "disciplina", os cursos preparatórios já deram resultado porque não faltam decisões trazendo tutela jurídica e bênçãos do Estado para situações igualmente escabrosas. Mas chocante, chocante mesmo, foi ver uma velhinha para lá de octogenária, aos amassos com o futuro marido e, por sobre o ombro dele, dardejando fogosos e sugestivos olhares para outro velhinho de miolo mole.

As avós, as avós idosas, as avozinhas de cabelos brancos carregam no rosto as marcas das alegrias e dores de uma vida longa. São imagem de quem colheu os mais doces e os mais amargos frutos do amor. São expressão viva de sabedoria e discernimento. E são, em toda parte, os seres mais veneráveis da humanidade, reverenciadas por sucessivas gerações de filhos, netos e bisnetos. Degradá-las é esbofetear a humanidade inteira e levá-la a um passo do abismo pela perda de limites e referências. Não, as vovós não são assim! É provável que venham a se comportar desse modo, na velhice, as jovens que hoje compõem o cenário dos reality shows, cabeça feita para todas as degradações. Mas eu já não estarei aqui para ver.

Os valores são pilares e vigas sobre os quais se estrutura a cultura de uma civilização. Sem eles, a civilização se fragiliza, sujeita a toda sorte de deslizes. E de deslizamentos. É da natureza de nossa cultura, alicerçada em valores de base judaico-cristã, crer na vitória final do bem sobre o mal. Aliás, no início do século 20, os sucessores de Marx que mais influenciam a esquerda mundial nas últimas décadas, atribuíram aos valores da nossa cultura o fracasso do comunismo em suas tentativas de penetrar no Ocidente. E o que propuseram, a "longa marcha através das instituições", vem derrubando barreiras e distâncias, em toda parte, cumprindo seus objetivos, fundada em duas convicções diferentes: a de que, abalados os fundamentos morais da cultura, podemos nos deixar seduzir pelo mal e nos iludir sobre a natureza do bem.

O país que presta exige a imediata devolução do dinheiro tungado por ex-governadores na farra das aposentadorias ilegais

Augusto Nunes, Veja online

Nem bacharéis filiados ao PCC conseguiriam encontrar argumentos em defesa dos 126 envolvidos na farra das aposentadorias dos ex-governadores. Desta vez, nem Lula ousou vestir o manto de Padroeiro dos Bandidos de Estimação para abençoar também os pais-da-pátria que andam embolsando em conjunto R$ 31 milhões por ano. Não há o que dizer em favor dos espertalhões.

Só tem direito a aposentadoria quem exerce uma profissão, cumpre um tempo mínimo de serviço e recolhe parte do que recebe a institutos de previdência ou fundos de pensão. Não existe a profissão de governador. O contracheque mensal que garante a vida confortável passa ao largo dos descontos do INSS. E o tempo de serviço, sempre curto, em alguns casos não passou de 10 dias de interinidade.

Aposentados comuns voltam para casa. Os aposentados dessa divisão especial seguem na ativa. Vão para o Congresso, para alguma estatal, para um ministério — até para a Presidência da República. Quando se instalou no Planalto, José Sarney somou o salário presidencial à bolada que recebia havia mais de 20 anos como governador aposentado do Maranhão. Aos 80 anos, é o decano do bando que junta gente do PT, do DEM, do PMDB e do PSDB, representado pelo paranaense Álvaro Dias, líder do partido no Senado. A ganância é suprapartidária.

Em 2007, o STF decidiu que nenhum ex-governador tem direito a tal obscenidade. A decisão segue tropeçando na insolência dos tribunais de justiça e das Assembleias Legislativas. É hora de acabar com a roubalheira. Só falta esclarecer se o caso é de apropriação indébita ou de estelionato. Definido o crime, cumpre ao Ministério Público e ao Judiciário cuidarem da imediata devolução do dinheiro tungado e da aplicação dos demais castigos previstos na legislação.

Se os aposentados de araque escaparem da punição merecidíssima, melhor propor ao Congresso que aprove, em regime de urgência, a descriminalização do assalto ao dinheiro público praticado por políticos em qualquer ponto do território nacional.

Quais as implicações para a economia de uma taxa de desemprego menor de 6% no Brasil

Luiz Carlos Mendonça de Barros, Exame.com

A taxa de desemprego no Brasil deve ter encerrado 2009 nos 6% da força de trabalho após ajuste para sazonalidade. A realidade é que começamos o primeiro ano do mandato da presidente Dilma em situação de quase pleno emprego. A qualificação – quase pleno emprego – é usada neste post para evitar a critica que sempre ouço quando trato deste assunto em público de que como podemos ter pleno emprego quando milhões de brasileiros ainda não conseguem ganhar o pão de cada dia com um trabalho decente. O link que falta entre estas duas posições antagonicas é o grau de qualificação profissional do trabalhador brasileiro. A situação de pleno emprego a que me refiro existe entre os trabalhadores com um mínimo grau de instrução e qualificação profissional. Já os que criticam esta afirmação não levam em conta esta questão da qualificação profissional como um divisor entre as duas situações de nivel de emprego.

A teoria econômica vem tratando a bastante tempo desta armadilha entre pleno emprego do ponto de vista econômico e do ponto de vista social. O nível de pleno emprego econômico é chamado hoje de NAIRU e determina o momento em que as pressões salariais passam a funcionar como um elento ativo na aceleração da inflação.

Já a taxa de desemprego usada pelos analistas sociais não leva em conta a questão da qualificação da mão de obra no mercado de trabalho. Alguns mais radicais consideram como desempregados mesmo aqueles que exercem uma atividade em tempo parcial ou ainda aqueles que não consideram sua ocupação atual como adequada à sua qualificação.

No caso brasileiro uma taxa de desemprego inferior a 6% é considerada como abaixo da NAIRU e, portanto, já suficientemente baixa para colocar os salários em situação de desequilíbrio. Indicações factuais recentes já mostram que isto vem acontecendo em vários segmentos do mercado de trabalho brasileiro, principalmente na indústria e na construção civil.

Infelizmente as economias de mercado trabalham com restrições diferentes do que as dos analistas sociais, principalmente os que vivem no mundo utópico de escolas de pensamento de esquerda. Para eles estas limitações são superadas naturalmente se o crescimento econômico for matido de forma perene. A falta de um entendimento correto sobre as defasagens (lags) que ocorrem em uma economia de mercado – no caso aqui tratado entre a qualificação de mão de obra e aumento da oferta no mercado de trabalho – já levaram a inúmeros fracassos de governos que se auto entitularam pragressistas.

O governo Dilma precisa estar atento a esta questão sob o risco de um repique inflacionario ainda maior do o que está ocorrendo hoje.

LCMB


Fato irrelevante

Dora Kramer - O Estado de São Paulo

Terça-feira toma posse o Congresso eleito em 2010, que no mesmo dia elege os presidentes da Câmara e do Senado para os próximos dois anos, sem que a sociedade possa reconhecer a mínima relevância no fato nem consiga se identificar com o que ali se discute a respeito do início de uma nova legislatura.

O distanciamento não ocorre por acaso nem é fruto só da alienação de um povo despolitizado, pouco informado, insuficientemente educado: é principalmente produto do comportamento do Parlamento que se aliena da Nação e segue indiferente à gravidade da própria situação de fragilidade e desmoralização.

E qual é o cenário hoje, 48 horas antes da posse e da eleição dos chefes do Poder Legislativo? No Senado, José Sarney eleito por consenso pela quarta vez apesar de todos os conhecidos pesares. Debate, só entre os partidos para a divisão dos cargos na Mesa Diretora.

Na Câmara, a preocupação é que o deputado Sandro Mabel e sua promessa de construir um novo prédio para acomodar os gabinetes das excelências não atrapalhe a eleição do petista Marco Maia, já no cargo desde que substituiu Michel Temer depois da eleição do colega para vice-presidente da República.

Limita-se a isso a discussão, embora seja ampla a agenda necessária. Nenhum partido gasta um minuto com os problemas do Legislativo.

O PSDB, que saiu derrotado da eleição presidencial prometendo fazer e acontecer, no momento polemiza sobre um abaixo-assinado da bancada tucana na Câmara para a recondução de Sérgio Guerra à presidência do partido em detrimento de José Serra. Um monumento à irrelevância. A exceção é o minúsculo PSOL. Sem poder de influir, o partido elaborou um elenco de temas aos quais urgiria o Parlamento se dedicar.

Tem-se, então, que os "grandes" se dedicam a questiúnculas, enquanto o pequeno vai aos pontos.

São eles: 1. Recuperação da atividade legislativa como protagonista do Poder de representação popular; 2. Criação de uma agenda de trabalho para o primeiro semestre, incluindo a reforma política; 3. Fim da submissão ao Executivo, notadamente no que diz respeito às medidas provisórias; 4. Garantias de atuação para as minorias e respeito aos critérios de proporcionalidade; 5. Cumprimento estrito do regimento, sem atropelos de prazos e procedimentos; 6. Fixação definitiva de critérios para a remuneração dos parlamentares e da alta hierarquia dos outros Poderes;

7. Divulgação de todos os gastos, inclusive relativos à verba indenizatória; 8. Facilitação de acesso popular às sessões plenárias e de comissões; 9. Fim da "privatização" dos espaços internos da Câmara; 10. Proibição da posse de suplentes no recesso parlamentar; 11. Melhoria dos critérios de escolha e funcionamento das empresas prestadoras de serviços; para concluir, a mãe de todas as regras: 12. Rigoroso zelo pela moralidade parlamentar.

A esses podem ser acrescentados outros pontos, como os suplentes de senadores, e ainda não teremos completo rol de temas bem mais relevantes que a renovação de feudos e a consolidação de privilégios corporativos.

Risco zero.
Dilma cancelou ida a inauguração de usina por causa de protestos dos ambientalistas. Antes havia cancelado o envio de reformas estruturais do Congresso por causa das dificuldades em aprová-las.

São dois atos distintos; o que os une é o esboço de um estilo avesso a enfrentamentos.

Ainda a serra.
Geólogo, Lázaro Zuquette escreve para discordar de que as ocorrências na região serrana do Rio sejam um "case" digno de estudo minucioso. "Qualquer estudante de geologia sabe que a extensão da serra do Mar voltada para o oceano evolui devido aos escorregamentos e processos erosivos".

Cita como exemplo a ocorrência de 15 mil escorregamentos nas serras do Mar e da Mantiqueira entre 2010 e 2011, cuja maioria não atingiu pessoas nem bem e, portanto, não se caracterizaram como desastres.

E conclui: "O que aconteceu foi normal para a área, o anormal é que os administradores autorizam a ocupação urbana na região".

Nós, da América Latina

Carlos Alberto Sardenberg, O Globo

Eis uma boa notícia: a pobreza na América Latina é uma questão bem encaminhada. Não resolvida, claro, porque há milhões de pobres pela região. Mas, em praticamente todos os países, essas pessoas são atendidas por algum programa de “transferência de renda com condicionalidade”, designação técnica de políticas tipo Bolsa Família. Isso leva o problema para um segundo nível: o que fazer para que essas pessoas deixem de ser pobres e dispensem o dinheiro do governo?

Este foi um dos temas tratados durante debates no III Fórum Econômico Internacional da América Latina e Caribe, promovido nesta semana, em Paris, pela OCDE (Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico, instituição de estudos e pesquisas que reúne os países mais desenvolvidos no mundo). O assunto central do evento foi a emergência do que chamamos no Brasil das “novas classes médias” — os “setores médios”, no jargão do documento lançado recentemente pela OCDE, que surgem em toda a região. Mas tudo passa pelo tema da pobreza, pois uma característica desse novo ambiente é a vulnerabilidade das novas classes médias, ou seja, a possibilidade sempre presente de que seus integrantes voltem a cair na faixa mais pobre.

Hoje, portanto, a questão — como criar condições de apoio à nova classe média? — equivale à pergunta “como eliminar a pobreza estrutural?”

De todo modo, convém registrar o avanço, conforme observação do diretor do Centro de Desenvolvimento da OCDE, Mario Pezzini. Há dez anos, na virada do século, apenas três países da AL tinham programas de transferência de renda: México, pioneiro, Honduras e Brasil. Hoje estão por toda parte e, mais importante ainda, em geral funcionando bem.

O Bolsa Família é o maior deles. São 12 milhões de famílias atendidas, entre 50 e 60 milhões de pessoas, cerca de 30% da população brasileira. Pode-se dizer, por aí, que o problema da pobreza extrema está resolvido? Sim, se isso quer dizer que essas pessoas recebem renda mensal e regular suficiente para a manutenção básica. Mas não se a meta é criar condições para que essas pessoas deixem de ser pobres e vivam por sua própria conta, quer dizer, com seu trabalho ou seus empreendimentos. Ou, dito de outro modo: quais são os fatores que sustentam uma classe média?

O tema é brasileiro, sem dúvida, e poderia ser assim resumido por aqui: o que fazer depois do Bolsa Família? Mas é também uma questão de toda a América Latina, cujos países passam pela mesma situação econômica e social, descontado, é claro, o tamanho.

Aliás, é interessante participar desses encontros latino-americanos para se verificar como nos parecemos. Entre os países mais relevantes, todos passaram bem pela crise, recuperaram-se fortemente e estão crescendo. Todos se beneficiam da “onda chinesa”, ou seja, o apetite da China por alimentos, minérios e petróleo. Todos praticaram e praticam as tais políticas econômicas responsáveis (controle das contas públicas, inflação controlada em nível baixo, com Banco Central autônomo, sistema bancário saudável).

Ouve-se o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, que abriu o Fórum, de Paris, e estamos em casa. Até no petróleo, que eles também acharam em reservas ricas.

Idem para os planos de longo prazo. Santos relatou projetos para medir e avaliar a biodiversidade da floresta amazônica (aliás, contou que uma empresa da Califórnia havia mostrado a ele uma novíssima tecnologia para isso). E falou dos programas de biodiversidade e energia verde.

Mas também estamos em casa quando se trata da questão: o que falta para a AL dar o salto definitivo para a prosperidade? Ou, na palavra de Santos, como podemos realizar “a década ou, quem sabe, o século da AL?”

Três deficiências são comuns: educação pública muito ruim, sistema público de saúde precário ou de má qualidade e muitos empregos informais. É justamente a combinação perversa desses três fatores que torna precária a vida das classes médias.

De um lado, a falta de bons serviços públicos encarece a vida atual, pois, assim que ganham mais renda e mudam de faixa, as famílias médias passam a pagar planos de saúde privados e tratam de colocar as crianças em escolas particulares. De outro, em momentos econômicos ruins, e devido aos empregos informais, perdem essa capacidade de pagamento e voltam ao sistema público, situação que consideram como de volta à pobreza.

Está aí, portanto, a agenda brasileira e latino-americana. Mas, na busca de soluções, o Brasil aparece numa posição única — e que não é boa. Na maior parte dos países da região, acredita-se que será necessário aumentar a arrecadação de impostos para que os governos tenham mais recursos para educação e saúde.

Faz sentido para os outros. Tirante o Brasil, a carga tributária média na região é de apenas 25% do PIB, uns doze pontos abaixo da nossa. Nisso, os outros poderiam aprender com o Brasil, pelo reverso: como não arrecadar muito e gastar muito e mal.

O jogo perigoso do Irã

Carlos Alberto Montaner, Instituto Millenium

Um jogo perigosíssimo está sendo jogado na América Latina. Ele tem três lados: Irã, Venezuela e Brasil.

O Irã quer tornar-se o líder do mundo islâmico. Para tanto, os persas necessitam de armas nucleares e precisam criar uma frente de apoio internacional diversificada que compense os sentimentos adversos que eles têm gerado no mundo árabe. Descobrir, pelo WikiLeaks, que os sauditas pediram aos americanos que destruíssem as instalações nucleares iranianas antes que fosse tarde demais certamente os preocupa. Dentre tais planos, há de se incluir o violento fervor anti-israelense e antissemita incitado pelo Irã. É a causa que une o mundo islâmico, acreditam os iranianos. Liderá-la colocará o regime dos aiatolás no comando do caldeirão de petróleo e ditaduras que compõem o universo muçulmano.

Esta é a razão pela qual vergonhosamente financiam, treinam e motivam os terroristas do Hezbollah. Teerã não quer esconder seu apoio à organização, cujo propósito é “empurrar os judeus mar adentro”. Teerã nem sequer esconde o fato de que seus diplomatas em Buenos Aires explodiram o Centro Judaico AMIA, matando 85 pessoas inocentes. Quer que o fato seja conhecido. No estranho e pequeno mundo do radicalismo islâmico, tal crime lhe dá um raro prestígio.

Hugo Chávez persegue objetivos paralelos. Ele procura criar para si e para a Venezuela (sob direção e cumplicidade de Cuba) uma alternativa antiocidental semelhante à representada pela União Soviética e seus satélites até 1991, quando desapareceu o mundo comunista europeu. Este traçado delirante emergiu das muitas conversações tidas entre Chávez e Castro após o malogrado golpe venezuelano de abril de 2002 e antes do verão de 2006, quando o comandante ficou gravemente doente.

Fidel, que ruminava sua frustração em razão da queda do Muro de Berlim e do fim do projeto soviético de conquista do mundo, convenceu Hugo Chávez de que o papel abandonado pelos moscovitas podia e devia ser assumido por Havana e por Caracas pois o dilema era simples: “Ou o projeto revolucionário se expande, ou o imperialismo americano o asfixia”. Hugo Chávez – não o irmão de Fidel, Raúl, que era pragmático e realista demais – era o sucessor perfeito para levar adiante os planos.

Foi o cubano que convenceu o venezuelano de que eles deveriam contar com o Irã e suas possibilidades de desenvolvimento nuclear.

Possuir armas nucleares era vital para a sobrevivência desta nova URSS que eles estavam gestando, como foi demonstrado pelo caso da Coreia do Norte. Foram as armas nucleares e os mísseis capazes de dispará-las que tornaram o governo norte-coreano invulnerável.

Este é o sentido final da declaração feita publicamente por Fidel em Teerã em 2002: Irã e Cuba poderiam dobrar os joelhos dos EUA.

Como o eixo Havana-Cuba remunera o Irã por sua cooperação? Ele paga o Irã com o fomento das ligações entre a ditadura teocrática dos aiatolás com países como o Brasil, Equador, Bolívia e Nicarágua. Ele paga o Irã com demonstrações estridentes de antissemitismo e anti-israelismo. Paga adquirindo componentes eletrônicos e equipamentos militares no mercado internacional aos quais Teerã não tem acesso por causa do embargo da ONU. Paga convencendo alguns chanceleres latinoamericanos ingênuos a pressionar Israel com o reconhecimento de um estado palestino que ainda não existe e cujo território alegado é dividido entre dois grupos que se matam sempre que podem: Hamas na Faixa de Gaza e o Fatah na Cisjordânia.

O Brasil completa o triângulo. Se sua presidente seguir o caminho de seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, o Brasil tentará tornar-se a principal potência regional da América Latina e, como tal, ocupar um assento permanente no Conselho de Seguraça da ONU, talvez ao lado da Índia, que alimenta as mesmas esperanças de quebrar o monopólio estabelecido pelas cinco potências emergidas após a Segunda Guerra Mundial.

Para tal finalidade, o Itamaraty não quer ser um escritório de apoio dos Estados Unidos na América do Sul. Antes, quer ser um poder regional independente, que tenda à esquerda, entrelaçado em um sistema de alianças com o Terceiro Mundo capaz de demonstrar muito desconforto com a cooperação militar entre Washington e a Colômbia, mas calado e contente com a presença militar iraniana em bases instaladas com mísseis na Venezuela.

A presença militar iraniana na América do Sul já tem orçamento, nomes e sobrenomes, como foi revelado na Argentina pelo jornalista Pepe Eliashev após cruzar informações de fontes de inteligência que são geralmente confiáveis. Teerã vai destinar 4,5 bilhões de dólares do seu orçamento para consolidar sua influência na América Latina. As operações vão ser conduzidas pela Força Quds de operações especiais*.

O que o Irã ganha com sua presença em solo latinoamericano? Muito simples: o objetivo é responder desde já a qualquer ataque que o Irã possa vir a sofrer em seu próprio território. É o clássico acidente ferroviário: podemos vê-lo quando está prestes a ocorrer. O que é difícil de entender é a passividade bovina dos governos democráticos latinoamericanos frente ao conflito ao qual eles estão arrastando o continente. Não há nenhuma voz sensata por lá que faça soar o alarme?

Publicado em Firmas Press

Tradução: Marcel van Hattem.

* N. do T.: a Força Quds é uma divisão especial do Exército de Guardiães da Revolução Islâmica do Irã (ou a Guarda Revolucionária); ela é responsável pelas operações extra-territoriais da Guarda Revolucionária e pela exportação da Revolução Islâmica iraniana].

Da histeria política

Olavo de Carvalho, Mídia Sem Máscara

Se o leitor queria uma ilustração local do que escrevi sobre a técnica da rotulação inversa, aí está.

Miguel Nicolellis é professor de neurociências na Duke University (EUA), fundador do Instituto de Neurociências Edmond e Lilly Safra (Macaíba, RN) e membro das Academias de Ciências do Brasil e da França. A esse currículo notável acrescentou-se recentemente sua nomeação, pelo Papa Bento 16, para a Pontifícia Academia de Ciências do Vaticano. O site Viomundo, do jornalista Luiz Carlos Azenha, apresenta-o agora em formato ainda mais atraente: o cientista seria vítima indefesa de uma vasta campanha de ódio e intimidação movida pela "extrema direita".

Chocado e amedrontado ante a virulência assassina da campanha, o prof. Nicolellis, no tom de bom-mocismo que deve caracterizá-lo como um adepto incondicional do debate livre e democrático, alerta para os perigos da radicalização ideológica: "O seu adversário político, ideológico, passa a ser o seu inimigo. E esse inimigo é passível de qualquer tipo de punição, até mesmo a morte. Eu não consigo imaginar que essas pessoas que propagam mensagens de ódio, vingança, violência, podem ao mesmo tempo se dizer cristãs." Mas em que consistiu, afinal, a mortífera campanha? Em duas coisas: Primeiro, uma notícia de dez linhas, publicada no site Rorate Coeli em 5 de janeiro (v. http://rorate-caeli.blogspot.com/2011/01/ pope-names-pro-abortion-and-pro-gay.html), dando ciência de que o Prof. Nicolellis era um ardente defensor do abortismo e das políticas gayzistas (bem como, no ano passado, da candidatura Dilma Rousseff), sendo portanto um pouco estranha a sua presença numa instituição vinculada à Igreja Católica.

Depois, um (1,hum) artigo escrito pelo jornalista americano Matthew Cullinan Hoffman, publicado no site Last Days Watchman e depois reproduzido com ou sem acréscimos e comentários nuns poucos sites cristãos, entre os quais a versão brasileira de Lifesitenews, Notícias Pró-Família, dirigida pelo escritor brasileiro Julio Severo (voltarei a falar dele mais adiante).

Hoffman, que é católico, comentava: "O Papa Benedito 16 é um inflexível defensor do direito à vida e dos valores da família, sendo improvável que estivesse ciente da biografia de Nicolellis ao indicá-lo para a Academia."

Houve qualquer ameaça, qualquer esboço de planos agressivos? O prof. Nicolellis confessa: Não, não houve.

Contra aquelas expressões de discordância inofensiva, como reagiu o Prof. Nicolellis? Debatendo com os adversários? Que nada.

Ele próprio descreve seus procedimentos argumentativos: "O pessoal do meu laboratório contatou a Duke, alertou sobre esses sites e a polícia da universidade já começou a monitorar o caso. A segurança do meu laboratório foi reforçada... Ninguém chega lá sem passar pela segurança." E adverte: ao primeiro sinal de ameaça no Brasil, chamará a Polícia Federal.

Dentre os potenciais agressores do prof. Nicolellis denunciados pelo site Viomundo, um dos principais já está sob controle. Julio Severo, procurado pela polícia brasileira pelo crime hediondo de ter dito e insistido que o homossexualismo é pecado e tem cura, está escondido no exterior, trocando de país como quem troca de cuecas, vivendo em extrema penúria com mulher e quatro filhos pequenos.

O repórter Luiz Carlos Azenha menciona o fato com evidente satisfação. Celebra-o também, como sinal dos progressos da democracia no Brasil, o site Fórum, do colunista Luís Nassif (http://blogln.ning.com/ forum/topics/homofobia-em-preto-e-branco?page=1& commentId=2189391%3 AComment%3A502681&x= 1#2189391Comment502681).

As premissas lógicas embutidas nas declarações do Prof. Nicolellis e nos sites Viomundo e Fórum não poderiam ser mais evidentes:

1) Dizer qualquer palavra contra o homossexualismo, mesmo de maneira genérica e desacompanhada de qualquer ameaça, é incitação à violência, coisa indigna de pessoas que se dizem cristãs.

2) Um cidadão esclarecido, amante do debate livre e democrático, deve reagir a essas opiniões exibindo-se em público como vítima iminente de atentado, chamando a polícia e fazendo com que os opinadores sejam perseguidos como bandidos, acossados como ratos.

A reação brutalmente exagerada, espera-se, induzirá o publico a acreditar piamente que violentos são aqueles que emitiram as opiniões, não aqueles que mobilizaram contra eles a força armada do aparato repressor.

Se o leitor queria uma ilustração local do que escrevi sobre a técnica da rotulação inversa, aí está.

O emprego constante e obsessivo dessa técnica é uma das manifestações mais corriqueiras da inversão geral da realidade, característica da mentalidade revolucionária.

Não por coincidência, mas muito significativamente, o prof. Nicolellis, algum tempo atrás, andou esbravejando contra a "direita histérica". Histeria, por definição, é reação hiperbólica a algum estímulo imaginário e postiço. Quando o prof. Nicolellis reage histericamente, histéricos são portanto os outros.

Publicado no Diário do Comércio com o título "Rotulação inversa- parte II".

Educação, Educação e Educação

Jorge Serrão, Alerta Total

O símbolo do franciscanismo na política tupiniquim foi para o saco! Veio à tona a informação de que até o senador Pedro Simon, que sempre posou de paladino da defesa da coisa pública e se apresenta como dado a hábitos franciscanos, recebe aposentadoria de ex-governador. São Francisco de Assis deve estar envergonhado. Neste ritmo, o imortal José Sarney acaba Presidente do Céu. Deus acabará exilado para os confins miseráveis do Maranhão... Se der sorte, com direito a uma bolsa família...

Diante de tantas denúncias comprovadas de uso e abuso do poder do Estado, os brasileiros deviam se revoltar. No entanto, ocorre o contrário. Ficam cada vez mais passivos e inertes diante das coisas erradas. Só faltam imitar os ignorantes do Egito. Mortos de vontade de derrubar a ditadura que se eterniza por lá, não sabem como atacar o governo. Assim, tacam fogo em duas múmias que nada têm a ver com a história atual. A revolta contra os falecidos faraós é uma alegoria da ignorância, do analfabetismo político dos subdesenvolvidos, incapazes de pensar e agir com correção.

O triste é que a maioria dos brasileiros também raciocina com intestino. Sofremos da síndrome da múmia paralítica. Somos fruto de um processo histórico que nos tornou assim. Uma sociedade que não inventou o Estado, mas que foi inventada e moldada, sem educação, por um Estado criado para explorar. Por ignorância sobre a própria verdade histórica e incapacidade de analisar informações relevantes, aceitamos viver, passivamente, como escravos em uma rica colônia de exploração pós-moderna, mantida artificialmente na miséria pelos poderes globalitários que nos controlam, há séculos, daqui extraindo tudo que lhes convém.

O brasileiro foi adestrado a saber tudo de libertinagem. Mas nunca aprendeu a lidar com a liberdade. Por isso, não conseguimos ser livres. E aceitamos sobreviver na senzala da ignorância libertina, concedendo à privilegiada classe política o “direito” de dirigir nossa subcidadania. Por instinto de autoperpetuação, esta classe dominante – que usa e abusa do poder estatal - colabora o processo de manutenção do status quo ignorante. Eis por que os poderosos só tratam da Educação na retórica discurseira. E povo, que desconhece a liberdade, faz pouco caso da Educação.

Para nossa triste sina, quem percebe a importância da Educação também age na contramão da história, segregando o processo educacional a uma minoria privilegiada. Vide o lamentável episódio de dois pais na cidade de Serra Negra, no interior de São Paulo. Considerando o ensino brasileiro muito fraco, o norte-americano Philip Ferrara, de 48 anos, e sua esposa brasileira Leila Brum Ferrara, de 44, optaram por ensinar os filhos em casa. As irmãs Vitória, de 11 anos, e Hannah, de 9, foram tiradas da escola.

Agiram corretamente os pais ao aplicarem o “homeschooling”? Tal prática é muito difundida nos Estados Unidos. Teria mais de 1 milhão de adeptos por lá. Só que é proibida no Brasil! Os pais radicalizaram para exercer a liberdade de educar os filhos, em tese, com qualidade. Acontece que o ensino exclusivamente no lar não é permitido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. Muito menos pela Lei de Diretrizes e Bases. O ECA e a LDB determinam que as crianças devem frequentar escolas.

Em tese, o principio é correto. Todo espaço de convivência e socialização de conhecimento e troca de vivências é essencial ao desenvolvimento pleno do ser humano. A pergunta fatal é: nossas escolas, em sua maioria, cumprem tal papel? A resposta é um “não rotundo” – como diria o velho Leonel Brizola, um dos poucos políticos brasileiros, com todos os seus defeitos, que teve a virtude de defender a importância da educação para o desenvolvimento do Brasil.

Solução imediata. O brasileiro precisa acordar para a importância de Educação. A História da Humanidade comprova que só se desenvolver as nações em que os cidadãos têm acesso à Educação desde a infância. Sem um processo que viabilize a liberdade de escolha, o livre pensamento e o acesso a múltiplas experiências artísticas, o pleno desenvolvimento de outros fatores produtivos fica dificultado ou inviabilizado.
Educação. Educação e Educação. Ou adotamos estas três prioridades, ou tudo continuará como dantes na escolinha do Abrantes. Temos de superar e revogar a “vocação” historicamente maldita para sermos meros súditos ou escravos colonizados pelas nobres realezas globalitárias.

Lula x FHC

João Mellão Neto (*) - O Estado de São Paulo

Quem foi melhor para o Brasil, FHC ou Lula? Creio que agora, com Dilma eleita e empossada, já se pode fazer uma avaliação isenta de paixões. Isso é importante porque as novas gerações só se recordam do governo Lula. O de FHC desenvolveu-se quando boa parte dos jovens atuais era criança. Eles não têm opinião formada sobre o que foi a gestão de Fernando Henrique Cardoso.

FHC e Lula vivem trocando agulhadas. E - quem diria - já foram aliados, no passado. Foi nos anos 70, quando ambos, ombro a ombro, lutavam contra o regime militar.

Afastaram-se na década seguinte. Lula tratou de fundar o PT e o professor Cardoso, na condição de suplente de Franco Montoro, assumiu a senatoria quando este se elegeu governador. Alguns anos depois ajudou a tornar viável um novo partido, o PSDB, formado por dissidentes do PMDB. Por suas opções partidárias, ambos ficaram no sereno durante muito tempo. Mas suas apostas, no longo prazo, mostraram-se acertadas. Os dois, com elas, chegaram à Presidência da República.

E agora, desde os anos 90, tanto PT quanto PSDB são os dois principais partidos que disputam os corações e mentes da opinião pública. Ao menos da parcela que se acredita esclarecida.

FHC e Lula, cada um pôde reinar durante oito anos. Foram eleitos e reeleitos para o posto. Ambos lograram formar folgadas maiorias no Congresso. Fernando Henrique aproveitou-as para fazer profundas reformas na economia. Lula, que lhe sucedeu, fez o carro deslanchar e tratou de, sozinho, recolher os louros da retomada do desenvolvimento e também do soerguimento da autoestima dos brasileiros.

É difícil afirmar, de forma isenta, qual deles foi o mais importante para o Brasil. Em termos de mudanças, FHC foi o mais efetivo. Já quanto à popularidade, foi Lula quem se saiu melhor.

Embora Lula insista em afirmar que a História do Brasil teve início no dia em que o PT chegou ao poder, eu - que não nasci em 2003 - tenho uma visão mais crítica do processo. Venho seguindo o noticiário político e econômico desde que me tornei adulto. Pelas minhas contas, já pude acompanhar a trajetória de oito presidentes, dez governadores do Estado e 12 prefeitos da capital.

Dentre essas três dezenas de governantes, já houve de tudo: militares, civis, eleitos nas urnas, eleitos indiretamente, vices que assumiram, nomeados e também interinos. Houve quem morresse antes de tomar posse e quem fosse impedido em meio ao mandato. Alguns acreditavam falar com Deus; outros, ainda, deixavam Deus esperando na linha.

Alguns eram direitistas e outros, esquerdistas. E muitos eram, também, populistas. Governantes que cultuaram a fama de trabalhar demais, a maioria que se contentava em trabalhar o suficiente e ainda os que, manifestamente, não gostavam de trabalhar. Como diz o povo, houve gente que não era capaz de nada e gente que era capaz de tudo.

Eu fiz oposição a alguns e fui simpático a outros.

Quais foram os melhores? Com mais de três décadas de experiência, confesso que não sei dizer.

Presidentes, governadores e prefeitos, nenhum deles governou sozinho. Todos tiveram equipes qualificadas e assessores especializados. Deram-se melhor os que souberam evitar os áulicos, descobrir talentos, liderar equipes e garantir, politicamente, a sua governabilidade Mais de meio século atrás, o então prefeito Prestes Maia já reconhecia que "governa melhor um político cercado de técnicos do que um técnico cercado de políticos". E olhem que ele era um técnico.

Iniciei a minha carreira profissional, como jornalista, comentando economia e política no rádio e na TV. Pude constatar que todos os governantes, sem exceção, começaram suas administrações com inúmeros projetos, propostas, promessas e boas intenções. Ao término de seus mandatos, alguns anos depois, bastava contar as suas realizações para perceber que quase nenhuma de suas metas fora atingida. Ao menos não na forma que eles haviam previsto.

Os que lograram marcar presença não foram, necessariamente, os que intentavam criar um novo mundo. Foram aqueles que souberam captar o Zeitgeist - o espírito do tempo, ou da época, como se diz.

O fato é que numa gestão é preciso saber conciliar a sorte com a virtude. Bons jogadores não são apenas os que sempre recebem boas cartas. São também os que fazem o melhor com as cartas que têm.

Alguns lograram êxito. Outros se celebrizaram como exemplos a não serem seguidos.

Os governos de Lula e FHC foram, no meu entender, complementares. Quer no que se refere à retomada do desenvolvimento, quer nas políticas de combate à miséria, o mérito de Lula foi o de pavimentar as picadas que Fernando Henrique já havia aberto.

Se em 2009 a economia brasileira se saiu bem da crise, isso se deve em boa parte à robustez de nosso sistema financeiro. E este só é forte porque foi saneado e normatizado no governo anterior.

Quanto aos programas sociais, como o Bolsa-Família, foi no governo de Lula que se consolidou a ideia, mas foi no de Fernando Henrique que ela se tornou realidade.

O problema é que, atualmente, o que se percebe é que, de tudo o que foi feito, coube somente a Lula a colheita de resultados. O que sobrou para FHC foi apenas o sofrimento das consequências.

Nas últimas eleições, isso ficou patente: quase todo mundo pegou carona na popularidade de Lula e poucos foram os que se atreveram a falar bem de Fernando Henrique.

A nossa posteridade há de fazer justiça. O teste do tempo é implacável: destrói tanto modismos quanto reputações artificiais. E perante a História não basta ser popular para garantir uma vaga.

(*) Jornalista, Deputado Estadual, foi Deputado Federal, Secretário e Ministro de Estado