terça-feira, fevereiro 01, 2011

Dilma já assumiu, só falta começar a governar

Adelson Elias Vasconcellos

Há momentos no Brasil que a gente não consegue nem entender tampouco explicar. Um desses momentos é o primeiro mês de Dilma Rousseff como Presidente do país. Dois discursos, um logo após visitar as vítimas da região serrana fluminense não sem antes ter posado como garota propaganda com a camisa do Fluminense. Outro, em Porto Alegre, numa homenagem às vitimas do Holocausto.

Medidas? Quais?

Projetos? Quais ?

Programas? Quais?

Reformas? Quais?

Basicamente, Dilma consumiu um mês trancada no gabinete negociando a composição do governo, primeiro,segundo e terceiro escalões.

Dou um exemplo: sabe-se que ela precisará aplicar uma tesourada de 60 bilhões no Orçamento da União. Tais cortes foram definidos? Não, em sua primeira reunião ministerial determinou um prazo de 30 dias – vencerá em fevereiro – para seus ministros fazerem os estudos, ajustes e apresentarem as soluções.

Hoje, ficamos sabendo que o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, abriu uma consulta dentre os embaixadores para apanhar sugestões e críticas da herança recebida de Amorim – vergonhosa em todos os sentidos – e quais alterações deverão ser implementadas. Ou seja, na política externa, a tal continuidade foi prô vinagre, pelo menos é o que se projeta. E aqui temos a palavrinha mágica: projeção.

O governo Dilma Presidente, em um mês, é apenas uma projeção do que poderá ser, e do que não poderá. Naquilo que realmente é de interesse da sociedade, não se anunciou nada, não se determinou nada, só vazaram algumas ideias para se aferir a temperatura da sociedade e a reação. Uma dessas ideias é o tal projeto de regulação da mídia.

Mas, se a gente olhar para os “balanços” que se lê e se ouve na grande imprensa, eles resultam positivos, alguns até se expressam de forma “encantados” com este primeiro mês. Aí você busca no texto onde estão as razões para tanto encantamento, e não consegue encontrar uma única vírgula de ações e medidas tomadas pela Presidente, capaz de justificar tantos elogios.

Semana passada, critiquei a postura de Dilma trancada em gabinetes e sem decidir coisa alguma: primeiro, não pode alegar que está conhecendo a situação do país para estabelecer um programa de governo. Na campanha vendeu-se a ideia de que Dilma e Lula haviam governados juntos entre 2003 e 2010. E que ela era quem, de fato, gerenciava as ações de governo. Portanto, tinha munição de sobra para conhecer o país que, no dizer de Lula, ela conhecia tão bem quanto ele. Por outro lado, se sabia tudo sobre toda a situação do país e do governo de que participou, se entrou na campanha com uma ideia de projeto para o país pré-estabelecida – pelo menos foi isto que disse e apresentou na campanha – nada justifica que demande tempo para tomar as decisões necessárias, seja para dar continuidade ao se fazia de certo antes, ou para mudar o que pede mudança.

Não, não poderei poupar Dilma dela mesma. Os problemas que precisou enfrentar em janeiro são consequências do mau governo de que fez parte e da teimosia em manter coisas erradas como se certas estivessem. Quem era a mãe do PAC? Dilma. Então ela deve ser responsabilizada pelos projetos de prevenção de acidentes retirados do PAC, apesar dos recursos previstos no orçamento. Quem resolveu manter Fernando Haddad no ministério da Educação? Ela, Dilma Presidente. Então deve ser responsabilizada, também, pelos problemas no ENEM e no SISU…

Lula, durante oito anos, flanou acima de seu governo. Grande parte da imprensa nunca o cobrou pelos erros, escândalos e má condução no gerenciamento dos serviços públicos. Era como se ele fosse um, e o governo outro ente, diferente, descartado. Errado: Lula foi responsável direto e único pelo que de ruim aconteceu entre 2003 e 2010. Se posou como o rei Midas das coisas boas, muitas das quais – prá não dizer, todas – foram frutos colhidos do governo do antecessor, também deve ser responsabilizada pelas ruins, frutos do desgoverno ou das decisões erradas.

Vale lembrar a reportagem do Fantástico, deste domingo, sobre a situação caótica dos presídios Brasil afora. Em seus dois mandatos, Lula lançou cinco, isto mesmo, CINCO “GRANDIOSOS” plano de segurança pública, onde se prometia o paraíso. Dos cinco presídios de segurança máxima, projetados ainda no primeiro mandato, entregou um e meio. Nunca os índices de violência cresceram tanto quanto nos oito anos governados por Lula. Nunca a saúde pública do país esteve em estado tão deprimente, como a que viu a partir de 2003 em diante. E de quem é a culpa senão do chefe do executivo, responsável único pelas escolhas, pelos programas, pelos projetos e pelos discursos asquerosos tanto quanto mentiroso?

Agora, tenta-se repetir a mesma tática com Dilma Presidente, com a diferença de que não temos os discursos mentirosos, mas a tática bucéfala de mantê-la em gabinete para passar a ideia de que cuida da gestão.

Assim, vendo-se pelo lado da economia, é de se perguntar: qual a grande medida adotada com a urgência que o caso requer, para conter a sangria do dólar? A única coisa que se fez foi a adoção de uma medida paliativa, para começar a ter efeitos somente a partir de abril próximo. E até lá, como fica? Do lado da inflação, sabe-se que não há milagres quando se gasta além do que se arrecada. Se não houver contenção das despesas, e aí se inclui os investimentos, o derrame continuará inapelável. Aumentar os juros? Ora, convenhamos: alguém pode justificar uma “esplendorosa” economia herdada de Lula, onde a taxa de juros interna é o dobro da segunda maior do mundo? Já não vai aqui comparar com a média mundial abaixo de 2,0% ao ano.

Ora para quem chegou com o cartaz e a fama com que Dilma Presidente assumiu o poder, era para já ter muita medida tomada, muito projeto apresentado, uma rota pré-definida apresentada.

Que Dilma Presidente tenha assumido o poder em 01º de janeiro, todos sabemos. Falta definir a data em que, de fato, começará a governar o país. Até lá me permito discordar dos “analistas” bondosos que se apressaram em cantar as maravilhas dos primeiros trinta dias. Avaliação de governo para mim se faz a partir de resultados. E que me perdoe os que pensaram e escreveram ao contrário: trinta dias, clandestinamente enfiada num gabinete, sem uma medida sua para ser analisada se boa ou má, não dá para saber o rumo que Dilma adotará para os seus quatros anos. Sem resultados, a avaliação só pode ser a de que, até aqui, jogou-se fora trinta dias de um governo de mais quatro anos. Porque, se alguma coisa se pode perceber, foi esta briga deplorável entre PT e PMDB por cargos, com acusações e troca de tiros e acusações de parte a parte. Seria interessante que Dilma chama-se a tropa e mandasse todo mundo parar de resmungar. Afinal, se esta briga existe é porque até agora faltou foi autoridade, e não o contrário como se tenta fazer crer.

Ah se o Brasil tivesse uma oposição digna do nome!