terça-feira, março 31, 2020

‘Va, pensiero!’ (vá, pensamento, é preciso repensar tudo)

Andrea Rizzi
El Pais

A pandemia obriga à maior reflexão de sete décadas, do papel dos indivíduos nas famílias ao do mercado e do Estado

  SERGEY DOLZHENKO / EFE


Trabalhadores com macacão de proteção verificam os documentos dos passageiros prestes a embarcar, na estação de Kiev, em um trem para Moscou.

Vá, pensamento, nas asas douradas. Vá, pousa nas colinas. As palavras e notas do famoso coral de Nabucco, em Verdi, possivelmente nunca tiveram tanto significado e emoção para tanta gente. É claro que, no confinamento generalizado em que vivem os seres humanos, só o pensamento pode voar livre. Mas, além disso, como a crise é totalitária —afeta tudo— terá efeitos prolongados e, portanto, nos obriga a repensar tudo, em todas as esferas.

Na pessoal, claro: papéis familiares que devem ser redefinidos e reacomodados à velocidade da luz, compactados em uma nova dimensão espacial-temporal que os distorce; solidões que de repente não são mais como antes, arranham, se petrificam e toca a amansar com novos estratagemas da alma e da vida cotidiana; até a própria concepção de si mesmos, que irá se esvaindo diante de olhos sensíveis, com personalidades agora desprovidas de projeção social física e, quem sabe por quanto tempo, de um certo tipo de escopo relacional que é uma parte definidora do ser de todos nós.

No profissional, evidentemente: um imenso esforço em digitalização e eficiência remotas; a engenhosidade de cada um para redirecionar, revitalizar atividades paralisadas ou corroídas pela crise do vírus.

E, como não, na vida pública: o papel dos Governos e do mercado.

O mundo entrou em coma e a respiração assistida —de doentes humanos, de empresas em crise, de milhões de pessoas em dificuldades financeiras— só pode ser propiciada pelo conglomerado de instituições públicas. A célebre mão invisível de Adam Smith —a metáfora do mercado inteligente que ajusta as coisas quase como se fosse por algum tipo de lei física— é esmagada nestas circunstâncias. A mão invisível não serve para nada, estrangulada e tremendo em meio ao vendaval.

As administrações públicas são o pilar da salvação nas duas frentes: a econômica e a da saúde. Nos dois casos, a ação de agora determinará nosso futuro em múltiplos aspectos e é necessário evitar que o salvator mundi de hoje se torne um leviatã (o temível monstro bíblico) amanhã. Isto é especialmente evidente na União Europeia.

Na frente da saúde, o objetivo é proteger a vida dos cidadãos e o reforço das estruturas hospitalares é uma questão óbvia e não problemática em termos morais (é claro que é em termos logísticos). O que pode ser problemático são os sistemas de vigilância telemática dos movimentos de cidadãos e os poderes excepcionais nas mãos dos Governos com o objetivo de deter a propagação do contágio. Nas democracias mais maduras isso não causa muita inquietação. Nas menos consolidada, os riscos são evidentes. A perspectiva de Governos e forças de segurança com poderes exorbitantes ou fora de controle não deve ser subestimada.

Na frente econômica, o objetivo é evitar uma depressão brutal. Para isso, é necessário injetar dinheiro na economia para, antes de tudo, preservar empregos e a capacidade produtiva e, quando isso não for possível, apoiar os desamparados. Isso exigirá uma brutal acumulação de dívida pública para compensar o colapso do faturamento privado. Essa dinâmica inevitável gerará Estados-leviatã com enormes níveis de dívida e inextricavelmente ligados ao destino de inúmeras empresas privadas. A manobra vai requerer, necessariamente, a participação ativa de todo o sistema financeiro, a irrigação de sangue melhor posicionado para bombear vida, complicando ainda mais a equação.

Encontrar o equilíbrio ideal nesse cenário é um dos maiores desafios intelectuais que a humanidade enfrentou até hoje. Ainda mais na UE, onde aos problemas comuns se soma a conjugação dos interesses nacionais dentro de um aparato supranacional de que cada membro necessita, como comprovamos na cúpula de quinta-feira. O habitual conflito entre o bloco sudoeste e nordeste agora está assumindo conotações existenciais.

Como alertou Mario Draghi em um texto publicado pelo Financial Times na quarta-feira, “o preço da hesitação pode ser irreversível”. Va pensiero, veloz, com asas douradas.

Impacto econômico de pandemias dura décadas, segundo estudo

Exame.com
ill Ward, Bloomberg News

Pandemias são seguidas por períodos contínuos, durante várias décadas, de oportunidades de investimento limitadas, segundo os economistas

(Mario Tama/Getty Images)
Homem observa chegada de um navio-hospital ao porto de Los Angeles, 
para ajudar com a pandemia de coronavírus. 27 de março de 2020, Califórnia, EUA 

A pandemia de coronavírus poderia afetar a economia durante décadas se padrões do passado servirem de guia, segundo pesquisadores que se basearam em dados que remontam ao século XIV.

Em estudo sobre 12 significativas pandemias bem como conflitos armados, os economistas Oscar Jorda, Sanjay Singh e Alan Taylor, da Universidade da Califórnia em Davis, concluíram que as pandemias reduzem as taxas de juros reais, levam a pequenos aumentos dos salários reais e pesam sobre o investimento.

Os salários reais mostram ligeira alta devido à falta de mão de obra, disseram, e juros reais mais baixos dão margem fiscal para que governos mitiguem os impactos econômicos.

 “Se as tendências seguirem os mesmos padrões no Covid-19, ajustadas à escala desta pandemia, a trajetória econômica global será muito diferente do que era previsto há algumas semanas”, escreveram no estudo. “As pandemias são seguidas por períodos contínuos, durante várias décadas, de oportunidades de investimento limitadas.”

A principal ressalva identificada pelos economistas é que as pandemias passadas ocorreram numa época em que praticamente nenhum membro da sociedade sobrevivia até a velhice. “A Peste Negra e outras pragas atingiram populações com a parte principal da pirâmide etária abaixo de 60 anos, então, desta vez, pode ser diferente”, disseram.

Pesquisas mostram economia global devastada por pandemia de coronavírus

Exame.com
Com informações Agência Reuters

A atividade nos 19 países que usam o euro desmoronou, conforme os países determinaram paralisação de serviços para conter a propagação da doença

 (Philippe Wojazer/Reuters)
Distrito financeiro e empresarial de La Defense, em Paris

A atividade empresarial entrou em colapso da Austrália e do Japão à Europa Ocidental em um ritmo recorde em março, à medida que ações para conter o coronavírus golpeiam a economia mundial.

Nos Estados Unidos, a atividade de negócios recuou ainda mais em março, atingindo uma mínima recorde, com a pandemia de coronavírus pressionando os setores de manufatura e serviços e reforçando a visão dos economistas de que a economia norte-americana já está em recessão.

O IHS Markit disse nesta terça-feira que seu Índice de Gerentes de Compras (PMI, na sigla em inglês Composto preliminar caiu para uma leitura de 40,5 este mês. Esse foi o nível mais baixo de todos os tempos, ante 49,6 em fevereiro. Uma leitura abaixo de 50 indica contração.

“O surto de coronavírus representa um grande choque externo para a perspectiva macro, semelhante a um desastre natural em larga escala”, disseram analistas do BlackRock Investment Institute em nota.

A atividade nos 19 países que usam o euro desmoronou, conforme os países determinaram paralisação de serviços para conter a propagação da doença, fechando lojas, restaurantes e escritórios.

O dado preliminar do PMI composto do IHS Markit para a zona do euro –visto como um bom indicador de saúde econômica– desabou a uma mínima recorde de 31,4 em março.

Essa foi de longe a maior queda de um mês desde que a pesquisa começou em meados de 1998 e veio abaixo de todas as previsões de uma pesquisa da Reuters, que havia mostrado leitura de 38,8, pela mediana das estimativas.

O IHS Markit disse que os números de março sugerem que a economia da zona do euro está encolhendo a uma taxa trimestral de cerca de 2%, e a escalada das medidas para conter o vírus poderá agravar a crise.

No Japão, as pesquisas do PMI mostraram que o setor de serviços encolheu em seu ritmo mais rápido já registrado neste mês e que a atividade fabril contraiu na velocidade mais rápida em uma década.

Os dados são consistentes com uma retração de 4% em 2020, disse o economista sênior da Capital Economics, Marcel Theliant. O adiamento das Olimpíadas de Tóquio deve causar um duro golpe à terceira maior economia do mundo.

Estímulo infinito

Com a maioria dos mercados financeiros afundando, os bancos centrais globais vêm adotando medidas extraordinárias quase diariamente para deter o colapso.

Mas alguns analistas dizem que a flexibilização infinita da política monetária pode não ser suficiente e as etapas fiscais são cruciais. O mais recente esforço dos EUA nessa frente permanece estagnado no Senado, pois os democratas disseram que o pacote analisado reservava muito pouco dinheiro para hospitais e limites insuficientes de financiamentos a grandes empresas.

“Para que a economia norte-americana possa sair da crise atual e da recessão relativamente ilesa, serão necessárias intervenções de política mais radicais nas próximas semanas”, disse Anna Stupnytska, chefe global de estratégia macro e de investimentos da Fidelity International.

(Reportagem de Jonathan Cable em Londres and Michael Nienabar em Berlim)


Coronavírus é prato cheio para quem gosta de fazer politicagem

J.R. Guzzo
Gazeta do Povo (Paraná)

.Foto: Marcos Corrêa/PR
Videoconferência do presidente Jair Bolsonaro com 
governadores do Sudeste para tratar do combate ao coronavírus

Já faz tempo, e talvez tenha sido assim desde o começo, que a epidemia causada pelo coronavírus no Brasil deixou de ser uma questão de ciência médica, tratada em laboratórios e centros de pesquisa, ou de administração da saúde pública, gerida nos órgãos públicos encarregados de cuidar disso, e passou a ser uma questão política. As decisões, aqui, são tomadas em reuniões onde os presentes estão pensando em ganhar eleições, não em curar coisa nenhuma, e a “turma do marketing” sempre tem voz ativa – às vezes decisiva.

Médicos? Pesquisas dos melhores centros do saber mundial? Números e estatísticas confiáveis, em vez de “projeções”, “modelos” ou “cenários”? Dane-se tudo isso. O que importa no Brasil de hoje é tirar vantagem do vírus – para a eleição presidencial de 2022 ou, mais urgente ainda, para agora mesmo, nas municipais de 2020.

É uma tragédia, realmente, que as decisões sobre a epidemia tenham sido sequestradas por gente sem a menor qualificação técnica para tratar de uma dor de cabeça. Em vez das melhores cabeças da ciência nacional e da cooperação internacional de primeiro nível – não essa palhaçada de OMS, um puxadinho da ONU hoje sob a direção de um sócio de uma ditadura africana que nem sequer é formado em Medicina – temos, com autoridade para tomar decisões sobre a epidemia, uma turba de 27 governadores e 5.500 prefeitos. Em boa parte, estão pensando unicamente em seus próprios interesses.

Muitos deles, tanto governadores como prefeitos, são semianalfabetos em geral e analfabetos plenos em Medicina. Têm à sua disposição fiscais, verbas e a possibilidade de assinar decretos cuja legalidade a Justiça não está apreciando – ou, pior ainda, onde os juízes decidem contra a Constituição e as demais leis do país. É a receita para o desastre.

Ficamos assim, então: quem resolve a vida das pessoas não é mais o Poder Legislativo nem o Poder Judiciário; é um bando sem cabeça, sem coordenação e sem senso moral, que tem como única preocupação, em sua maioria, adivinhar qual é o barco certo para colocar os pés. São dois esses barcos. Quem é a favor da receita do “isolamento horizontal”, como virou moda dizer — “fica em casa e fecha tudo” — é “de esquerda”, ou “progressista”, ou “antifascista” ou “liberal-intelectual-civilizado”. No mínimo, é contra o governo. Quem é contra, e defende a volta a atividade produtiva, é “de direita”. Entre os dois, há toda uma imensa população com medo de morrer e sem informação.

Os governadores e prefeitos que julgaram mais conveniente jogar suas fichas no isolamento horizontal têm a seu favor um elemento essencial: há milhões de pessoas, efetivamente, que tendem por natureza a temer o cenário de catástrofe, e têm recursos, por modestos que sejam, para sobreviver à paralisia econômica imposta pela quarentena total, repressiva e sem data para acabar dos governadores e prefeitos.

Há entre eles gente que tem a renda garantida: para citar um exemplo só, os 12 milhões de funcionários públicos. Some-se a eles as suas famílias, os aposentados que conseguem sobreviver sem complementar o rendimento mensal, os que trabalham sem ser empregados, os que vivem de renda, etc, e tem-se uma multidão. É uma população que não tem a necessidade vital de sair de casa e ir trabalhar imediatamente para ganhar a vida. Eis aí o pesqueiro ideal para os demagogos.

Não tenho carteira de trabalho e quero receber o auxílio emergencial. O que eu faço?

Redação, 
O Estado de S.Paulo

Saiba quem poderá receber o auxílio emergencial de R$ 600 e quais são os requisitos; Projeto precisa ser sancionado pelo presidente Jair Bolsonaro

  Foto: Tiago Queiroz/Estadão
Projeto prevê auxílio de R$ 600 para trabalhadores
 sem carteira assinada por até três meses. 

BRASÍLIA - Até o momento, os trabalhadores informais, autônomos, intermitentes e microempreendedores individuais (MEIs) não podem fazer nada para receber o auxílio emergencial de R$ 600 aprovado na quinta-feira, 27, pela Câmara dos Deputados em razão da pandemia do novo coronavírus.

O texto ainda precisa de aprovação pelos senadores e da sanção do presidente Jair Bolsonaro. Um decreto também precisa ser editado para regulamentar como será toda a operação do pagamento. 

A proposta do governo era de dar R$ 200 para os trabalhadores informais, mas o Congresso elevou o valor para R$ 600. A mulher que for mãe e chefe de família poderá receber R$ 1,2 mil.

O governo vai pagar o benefício para todo mundo?

É preciso seguir algumas regras:

Ser maior de 18 anos;
Não ter emprego formal ativo (ou seja, trabalhar com carteira de trabalho assinada);
Não receber nenhum outro benefício previdenciário ou assistencial (aposentadoria ou pensão, por exemplo), nem ser beneficiário do seguro-desemprego ou de programa de transferência de renda federal.
A exceção é o Bolsa Família. Quem está no programa pode receber o auxílio emergencial também, limitado a duas pessoas na família.
A renda mensal por pessoa tem de ser de até meio salário mínimos (R$ 522,50) ou a renda familiar mensal total não pode ser superior a três salários mínimos  (R$ 3.135).
A renda total do ano de 2018 não pode ser superior a R$ 28.559,70.
Além dessas regras, também é preciso:
Exercer atividade na condição de Microempreendedor Individual (MEI) ou ser contribuinte individual do Regime Geral de Previdência Social do INSS.
Ser trabalhador informal, de qualquer natureza, inscrito no Cadastro Único para Programas Sociais do governo federal até 20 de março de 2020.
Ser trabalhador informal e preencher a autodeclaração que será disponibilizada pelo governo.


Por quanto tempo o governo vai pagar o benefício?

Os valores serão pagos durante três meses, podendo ser prorrogados enquanto durar a calamidade pública devido à pandemia de covid-19.

Recebo o Bolsa Família. Posso receber os dois benefícios?

Para quem recebe o Bolsa Família, o texto permite que o beneficiário substitua temporariamente o programa pelo auxílio emergencial, se o último for mais vantajoso.


Estou na fila do INSS para receber o BPC. Tenho direito a algum benefício?

O projeto também prevê a antecipação do pagamento do auxílio de R$ 600 para quem ainda está na fila do Benefício de Prestação Continuada (BPC), pago a idosos e pessoas com deficiência de baixa renda. Se houver a concessão definitiva, o beneficiário receberá a diferença entre o valor já recebido e o do benefício cheio (R$ 1.045) com correção. Se a perícia negar o pedido, não há necessidade de devolver nenhum valor.

Estou na fila do INSS para fazer perícia para receber auxílio-doença. Vou ter direito a algo?

O projeto prevê a antecipação de um salário mínimo (R$ 1.045) para quem está na fila do INSS para receber o auxílio-doença até que seja feita perícia. O pagamento está condicionado à apresentação de atestado médico.

Endividamento no Brasil bate recorde e deve aumentar devido ao coronavírus

Exame.com
Com informações Estadão Conteúdo

Após ter recuado a 65,1% em fevereiro, o porcentual de famílias com dívidas saltou para 66,2% este mês

(Germano Lüders/EXAME)
Comércio fechado: total de famílias que declararam não ter condições 
de pagar suas contas ou dívidas em atraso e que, portanto, permaneceriam 
inadimplentes passou de 9,7% em fevereiro para 10,2% em março 

O endividamento dos brasileiros atingiu recorde em março, informou nesta segunda-feira, 30, a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Após ter recuado a 65,1% em fevereiro, o porcentual de famílias com dívidas saltou para 66,2% este mês, o maior patamar da série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), iniciada em janeiro de 2010.

A inadimplência também subiu e a expectativa da entidade é que aumente por causa do coronavírus. De acordo com o levantamento da CNC, o porcentual de famílias com dívidas ou contas em atraso chegou a 25,3% em março, contra 24,1% no mês anterior.

O levantamento considera como dívidas as contas a pagar em cheque pré-datado, cartão de crédito, cheque especial, carnê de loja, empréstimo pessoal, prestação de carro e seguro.

O total de famílias que declararam não ter condições de pagar suas contas ou dívidas em atraso e que, portanto, permaneceriam inadimplentes passou de 9,7% em fevereiro para 10,2% em março. Os indicadores também registraram aumento no comparativo anual.

De acordo com a CNC, março registrou a segunda alta consecutiva do porcentual de famílias sem condições de pagar as dívidas em dia. Em janeiro, este item chegou a recuar ao menor porcentual em oito meses.

A coleta dos dados desta Peic ocorreu entre 20 de fevereiro e 5 de março, anteriormente à semana em que a pandemia da covid-19 se difundiu no Brasil. “Mesmo assim, nota-se uma piora nos indicadores de inadimplência, o que possivelmente deverá se acirrar nos meses à frente, pois a tendência é que os consumidores encontrem mais dificuldades para pagar suas contas sem atraso”, diz a nota da CNC.

Em relação à capacidade de pagamento das famílias, a instituição chama a atenção para dois pontos: o terceiro aumento mensal consecutivo da parcela média da renda comprometida com dívidas, que chegou a 30% em março; e a proporção das famílias que se declararam muito endividadas, que aumentou de 15% em fevereiro para 15,5% em março, além de ter registrado alta de 2,5% na comparação anual.

 “Quase um terço da renda das famílias está comprometido com dívidas, é o maior porcentual desde dezembro de 2017. Nas famílias com renda até dez salários mínimos, o comprometimento da renda cresceu de forma mais expressiva nos últimos três meses”, destaca a economista da CNC responsável pela pesquisa, Izis Ferreira,

O cartão de crédito segue em primeiro lugar como o principal tipo de dívida dos brasileiros (78,4%), seguido por carnês (16 2%) e por financiamento de veículos (10,3%).

“A proporção de dívidas em cartão tem diminuído nos últimos meses, enquanto as dívidas com crédito consignado, carnês e crédito pessoal têm ganhado espaço na composição do endividamento”, ressalta a economista da Confederação.

Coronavírus: a proposta de pesquisadores do Ipea para proteger os 30% mais pobres

Laís Alegretti - @laisalegrettiDa 
BBC News Brasil em Londres 

 Direito de imagem ROVENA ROSA/AGÊNCIA BRASIL Image caption
Recomendação prevê que parcela mais pobre dos brasileiros terá
 renda mensal de pelo menos R$ 450 por família durante crise

Diante do impacto econômico das medidas para frear o avanço do novo coronavírus, pesquisadores do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) fizeram uma recomendação de medidas que poderiam ser adotadas pelo governo federal para proteger os brasileiros mais vulneráveis.

A ideia é garantir que os 30% mais pobres da população brasileira contem com uma renda mensal de pelo menos R$ 450 por família durante o período de crise.

A proposta, assinada pelos pesquisadores Luís Henrique Paiva, Pedro Ferreira de Souza, Leticia Bartholo e Sergei Soares, aponta que a pandemia de covid-19 "traz desafios inéditos ao sistema brasileiro de proteção social" e que "uma nova recessão global é quase certa".

Veja, a seguir, as três recomendações do estudo, que aponta que "trabalhadores informais, desempregados e famílias pobres em geral estão particularmente expostas à combinação de pandemia e recessão".

1. Criar benefício temporário de R$ 450

A proposta sugere a criação de um benefício extraordinário temporário de R$ 450 por família a ser pago para todas aquelas que estão com dados atualizados no Cadastro Único e recebam até meio salário mínimo (R$ 522,50) por pessoa. Ele ficaria em vigor por seis meses e poderia ser prorrogado.
O benefício seria pago tanto para as famílias que já recebem o Bolsa Família quanto para as que não estão contempladas para o programa mas se enquadram no limite de renda.

Dessa forma, os 30% mais pobres da população receberiam, no mínimo, R$ 450 mensais por família. Aquelas que já recebem o Bolsa Família teriam, em média, uma renda mensal de aproximadamente R$ 690 por família.

Depois do fim do benefício temporário, as famílias vinculadas ao Bolsa Família passariam a receber, em média, cerca de R$ 240, que é 27% maior do que o valor pago atualmente.

 Direito de imagem EPA/MARCELO MACHADO DE MELO
 Image caption
Comércio fechado na região central de São Paulo; trabalhadores informais, 
desempregados e famílias pobres em geral estão particularmente expostas 
à combinação de pandemia e recessão.

2. Reajuste no Bolsa Família

Os pesquisadores também recomendam um reajuste de 29% nas linhas de elegibilidade e nos benefícios do Bolsa Família, de forma permanente.

O objetivo, segundo eles, é que as linhas de pobreza e extrema pobreza recuperem o mesmo valor real que tinham no início do programa, em janeiro de 2004.

"Como não há nenhuma indexação no PBF (Bolsa Família), o valor real das linhas de elegibilidade e dos benefícios depende de reajustes discricionários que, grosso modo, não têm ocorrido com ritmo e intensidade suficientes para manter o poder de compra", aponta o estudo.

A inflação acumulada desde o último reajuste, em 2018, já chega a quase 6%, segundo o texto.

3. Zerar a fila de espera pelo Bolsa Família

O estudo propõe zerar a fila de espera para receber o Bolsa Família, estimada em 1,7 milhão de pedidos. Isso permitiria que todas as famílias elegíveis fossem vinculadas ao programa de forma imediata, deixando os processos de revisão de cadastros suspensos até o fim da crise sanitária.

No dia 20/03, o Ministério da Cidadania publicou uma portaria com medidas emergenciais para o programa. Segundo o governo, haverá a suspensão, por 120 dias, de "bloqueios, suspensão e cancelamentos de benefícios e da averiguação e revisão cadastral".

O ministro da pasta, Onyx Lorenzoni, disse que a medida é capaz de "praticamente" zerar a fila do programa.


Qual seria o custo?

A despesa adicional, segundo os pesquisadores, não chega a 1,5% do PIB.

As mudanças gerariam um aumento de R$ 68,6 bilhões nos gastos com transferências assistenciais em 2020. A maior parte do custo adicional seria oriunda dos benefícios temporários. Por isso, o impacto em 2021 seria de R$ 11,6 bilhões (menos de 0,2% do PIB de 2019).

Os pesquisadores, no entanto, sugerem que o benefício seja prorrogado, se necessário.

"Caso a crise se estenda por um prazo maior do que o inicialmente previsto e/ou a recuperação econômica após a pandemia seja lenta, recomendamos fortemente que o benefício extraordinário seja prorrogado pelo tempo necessário para a superação da crise social", escreveram.

Os pesquisadores, que fizeram 72 simulações para chegar à proposta, apontam que, no momento de crise, é essencial que as soluções sejam rápidas de colocar em prática. No texto, eles apontam as dificuldades institucionais e operacionais de cada cenário.

"Qualquer resposta à COVID-19 que consista no suporte financeiro às famílias pobres e de baixa renda deve considerar dificuldades institucionais e operacionais, pois de nada adianta uma boa resposta que poderá ser operacionalizada em 3 ou 4 meses, deixando as famílias mais pobres sem recursos durante o período mais crítico da crise."


O que está no Congresso?

O Legislativo já discute um benefício extraordinário para trabalhadores devido à crise gerada pela pandemia. Ele tem, no entanto, pontos diferentes daqueles propostos no estudo do Ipea, como regras, valor e duração.

Integrantes da área técnica do governo apontaram que a proposta que tramita no Congresso não tem aplicação simples e rápida, já que depende de novas inscrições em sistemas do governo.

A Câmara dos Deputados aprovou na quinta-feira um auxílio emergencial de R$ 600 por mês para trabalhadores autônomos, desempregados e microempreendedores de baixa renda, com objetivo de proteger segmentos mais vulneráveis em meio à crise econômica gerada pela pandemia do coronavírus.

A proposta inicial do governo Bolsonaro, anunciada na semana passada, era conceder R$ 200 por trabalhador autônomo.

Para que o benefício entre em vigor, no entanto, a proposta ainda precisa ser aprovada pelo Senado e receber sanção do presidente Jair Bolsonaro.

Nesse caso, o texto aprovado pelos deputados prevê que o auxílio emergencial terá duração inicial de três meses, podendo ser prorrogado por mais três meses.

Segundo o texto aprovado na Câmara, terá direito ao benefício quem for maior de 18 anos, não tiver emprego formal e não receber benefício previdenciário (aposentadoria) ou assistencial (como o BPC).
Os deputados estabeleceram também limites de renda. Não poderão receber o benefício pessoas cuja renda mensal total da família for superior a três salários mínimos (R$ 3.135) ou que a renda per capita (por membro da família) for maior que meio salário mínimo (R$ 522,50). Além disso, não terá direito quem tenha recebido rendimentos tributáveis acima de R$ 28.559,70 em 2018.

O texto prevê que o benefício seja pago a quem já está inscrito no Cadastro Único, mas isso não é obrigatório. Não está claro, no entanto, como seria esse cadastro adicional para os que ainda não estão inscritos nesse banco de dados, mas cumprem os requisitos do benefício extraordinário.

Outra diferença é que o novo auxílio aprovado pela Câmara não poderá ser acumulado com o Bolsa Família. No entanto, o beneficiário do programa poderá optar por receber o auxílio emergencial no lugar do Bolsa Família, já que o novo benefício tem valor maior.

BNDES anuncia novas medidas focadas em saúde e na ampliação de leitos

Exame.com
Com informações Estadão Conteúdo

O número de respiradores pulmonares deverá aumentar em 15 mil, o correspondente a 50% da demanda total do SUS prevista para os próximos três meses

(Nacho Doce/Reuters)
Com as novas medidas, o BNDES disse que os programadas anunciados 
levarão a um impacto positivo na economia de R$ 97 bilhões 

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) lançou neste domingo, 29, um novo pacote para o combate aos efeitos da pandemia do coronavírus. As medidas anunciadas há pouco são voltadas à ajuda para compra de materiais para UTIs e ampliação do número de leitos e não são de apoio setorial, como era esperado.

Nesse sentido, o banco de fomento anunciou uma nova linha de R$ 2 bilhões para a ampliação da oferta de leitos emergenciais, assim como de materiais e equipamentos médicos e hospitalares. Empresas de outros setores que buscam converter suas produções em equipamentos e insumos para saúde serão contempladas, informou. O BNDES disse que o Programa buscará apoiar a ampliação do número de leitos de UTI, especialmente em regiões que apresentam níveis elevados de carência em infraestrutura.

A estimativa do BNDES é de que a quantidade de leitos de UTI seja ampliada em 3 mil, o equivalente a mais de 10% da disponibilidade atual de leitos do SUS no País, disse a instituição financeira. O número de respiradores pulmonares deverá aumentar em 15 mil, o correspondente a 50% da demanda total do SUS prevista para os próximos três meses, informou.

O BNDES estima que o número de monitores aumentarão em 5 mil e que o número de máscaras cirúrgicas deverá aumentar em 88 milhões.

Com as novas medidas, o BNDES disse que os programadas anunciados levarão a um impacto positivo na economia de R$ 97 bilhões. Na semana passada, R$ 55 bilhões foram aprovados, sendo R$ 20 bilhões de transferência de recursos do fundo PIS/PASEP para o FGTS, R$ 19 bilhões para suspensão de pagamentos de operações diretas, R$ 11 bilhões para suspensão de pagamentos de operações indiretas e R$ 5 bilhões para reforço da linha BNDES Crédito Pequenas Empresas).

Outras linhas

Ainda na semana passada, o BNDES lançou uma linha emergencial de crédito para folha de pagamento de pequenas e médias empresas, num total de R$ 40 bilhões, que poderá ser acessada por empresas com faturamento anual entre R$ 360 mil e R$ 10 milhões, exclusivamente para o pagamento da folha de salários de funcionários, por meio de bancos credenciados.

O banco explicou que os recursos serão depositados para pagamento dos trabalhadores e estão limitados a dois salários mínimos (até R$ 2.090,00), permanecendo o restante, se houver, a cargo do caixa da empresa. O pagamento do empréstimo será feito pela empresa que contratar o crédito junto aos bancos.

Para esse programa destinado às PMEs, haverá aporte de R$ 34 bilhões do Tesouro Nacional e de R$ 6 bilhões de recursos dos bancos. Assim, 85% do risco de crédito será do governo e os 15% restantes, dos bancos.

O BNDES destacou que o Conselho Monetário Nacional (CMN) concedeu uma autorização exclusiva ao BNDES para repassar recursos às fintechs autorizadas como Sociedade de Crédito Direto (SCDs). Com isso, a partir de maio, as fintechs cadastradas na plataforma online de solicitação de crédito do BNDES, o Canal MPME, passarão a operar com recursos do banco de fomento.


Metade das grandes empresas tem caixa para suportar até três meses sem receita

Renée Pereira,
O Estado de S.Paulo

Feito com 245 companhias de capital aberto no País, levantamento tem como base o balanço de dezembro de 2019; analistas apontam que mesmo as empresas com folga financeira serão afetadas mais tarde

  Foto: Daniel Teixeira/Estadão
Estudo considera empresas brasileiras de capital aberto 

Metade das empresas de capital aberto tem recursos para aguentar até três meses sem faturar. Com o dinheiro disponível em caixa, conta corrente e aplicações financeiras, elas conseguiriam pagar fornecedores, folha de salários e outras despesas operacionais no período, segundo levantamento feito pelo Centro de Estudos de Mercado de Capitais da Fipe (Cemec-Fipe) e Economática, com 245 companhias.

O trabalho foi baseado no balanço de dezembro de 2019 e mostra a evolução do caixa das companhias com o decorrer de uma paralisia nas atividades. A simulação não embute a variação do dólar neste ano e considera que as empresas não teriam nenhuma receita (nem as vendas a prazo já feitas) e conseguiriam renegociar todas as dívidas vencidas no período, destaca Einar Rivero, da Economática.

Nesse cenário, 23,3% das companhias já ficariam com o caixa negativo nos primeiros 30 dias. Esse número sobe para 37,1% após dois meses e para 48,6% em 90 dias. A outra metade das empresas chegaria ao final de três meses ainda com o caixa positivo, podendo arcar com as despesas por um tempo maior.

“Esse é o retrato das maiores empresas e das mais capitalizadas do País”, afirma Carlos Antonio Rocca, coordenador do Cemec-Fipe. “A situação das pequenas e médias é outra história bem mais problemática e exigirá medidas consistentes para evitar quebradeira. Elas vão sofrer mais do que as grandes, que ainda têm algum caixa a ser consumido.”


Problema global

Na avaliação de especialistas, uma das características dessa crise é que ela vai atingir todas as empresas globalmente. Para o professor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV/EESP), Marcio Holland, os efeitos no curto prazo serão devastadores no mundo todo. E no médio prazo ainda serão imprevisíveis. Na avaliação dele, com o choque negativo sobre a economia, é provável que o Brasil tenha recessão econômica neste ano, com risco de contaminar o desempenho do ano seguinte.

Mesmo as empresas que hoje têm uma folga no caixa serão afetadas pela crise. Isso porque a expectativa é de forte queda na renda, com reflexos no consumo de produtos e serviços. Por isso, especialistas que lidam com reestruturação de dívidas já calculam uma escalada do número de recuperação judicial. “Vejo um ciclo de reestruturação, seja via recuperação judicial ou extrajudicial pela frente”, diz o sócio do escritório Stocche Forbes Advogados, Guilherme Coelho. 

Outro executivo da área de reestruturação, que prefere não se identificar, relaciona a situação atual ao efeito da Operação Lava Jato em algumas empresas. Segundo ele, de repente, as companhias perderam entre 60% a 90% do faturamento. Agora também há perdas repentinas de receitas, o que vai fazer muitas empresas procurarem a proteção da Justiça.


Presidente e ministros do Uruguai reduzem salários por coronavírus

Da Redação
Exame.com

Os valores descontados serão destinados ao "Fundo Coronavírus"; Uruguai tem cerca de 274 casos de coronavírus confirmados e nenhuma morte até o momento

(Mariana Greif/Reuters)
Luis Lacalle Pou: medida irá durar dois meses, mas pode ser estendida 

O presidente do Uruguai, Luis Lacalle Pou, anunciou nesta quinta-feira (26), que irá reduzir em 20% o seu próprio salário e também os salários de parlamentares e ministros de seu governo.

Diretores de organizações autônomas e serviços descentralizados também terão corte de 20%. Outros profissionais que terão cortes salariais entre 5% e 20% são os funcionários públicos (menos os da área da Saúde). Os fundos de pensão deles também serão descontados — incluindo os de ex-presidentes da república. 

Todos os valores descontados serão destinados ao “Fundo Coronavírus”. Segundo a emissora alemã Deutsche Welle, Lacalle Pou afirmou que a medida durará dois meses e “poderá ser estendida se a situação econômica exigir”.

“Queremos dizer com enorme tranquilidade que sabemos que o Uruguai não passa por boa fase e que há inúmeras pessoas que ficaram sem trabalho, inúmeros uruguaios que não têm comida, e que todos temos que empurrar o carro, começando pelos governantes”, disse o presidente uruguaio à DW.

Para Lacalle Pou, “não há economia, há gasto” com as decisões tomadas pelo governo.

O Uruguai tem cerca de 274 casos de coronavírus confirmados e nenhuma morte até o momento, segundo dados da universidade norte-americana John Hopkins, que vem monitorado a pandemia.





Coronavírus veio demonstrar que o Brasil não pode mais conceder privilégios a servidores

Francisco Bendl
Tribuna da Internet

Charge do Nani (nanihumor.com)

Sobre um assunto recorrente e que é sempre considerado um privilégio abusivo – as pensões a filhas de militares ou a filhas solteiras de servidores, consegui apurar que essas regalias custarão cerca de R$ 4 bilhões/ano por mais de quatro décadas.

Uma das reportagens que encontrei assinala que, “embora a pensão às filhas de militares mortos tenha sido extinta em 2000, estima-se que até o ano 2060 muitas mulheres, inclusive casadas e com renda própria, continuem recebendo o benefício.

CONTRIBUIÇÃO DE 1,5% –

 A matéria destaca que, a partir de dados fornecidos pelo próprio Exército, é possível estimar que a despesa anual continuará próxima a R$ 4 bilhões daqui quatro décadas. Para assegurar o regalia, o militar que já estava nas Forças Armadas na época da abolição do benefício tem, desde então, a opção de pagar uma contribuição previdenciária de 1,5% a mais. Isso é o suficiente para manter a pensão integral para as herdeiras.

O Globo mostrou na última segunda-feira, que os gastos com esse tipo de benefício superam os R$ 5 bilhões, apesar dos tempos de rombo nas contas públicas e intensos debates sobre a necessidade de uma reforma na Previdência. Os dados podem ser ainda maiores, uma vez que as Forças Armadas ainda resistem em apresentar dados detalhados sobre as despesas.

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VEJA QUEM RECEBE PENSÃO VITALÍCIA NO BRASIL


Forças Armadas –
 Aproximadamente 180 mil filhas de militares recebem pensão vitalícia hoje no Brasil. Os gastos superam R$ 5 bilhões ao ano. O benefício foi extinto em 2000, mas quem já integrava o quadro das Forças Armadas pode pagar um adicional de 1,5% na contribuição previdenciária para manter o privilégio a sua descendente.

Senado Federal – 
Em 2017, 161 pensões para filhas solteiras eram pagas pelo Senado, no valor de R$ 30 milhões ao ano. Em 2018, 18 mulheres que haviam perdido o benefício no ano anterior recuperaram a regalia. A pensão para filhas solteiras de civis foi instituída em 1958 e durou até 1990. Quem já recebia o benefício naquela época o mantêm.

Câmara dos Deputados –
São pagos mensalmente R$ 3,2 milhões às filhas solteiras pensionistas de ex-servidores da Câmara. Ao todo, são 178 pensionistas recebendo, em média, R$ 18,3 mil. A Justiça entende que filha solteira maior de 21 anos só perde a pensão temporária se estiver ocupando cargo público permanente ou casada.

Tribunal Superior do Trabalho – 
Filhas solteiras de magistrados também recebem regalias. O TST (Tribunal Superior do Trabalho) paga benefícios mensais que variam de R$ 1.189,13 a R$ 32.074,85. O maior valor é destinado a três filhas de ministros. Em 2015, eram 23 beneficiárias.

Tribunal Superior Eleitoral – 
No TSE (Tribunal Superior Eleitoral), são 28 beneficiárias. O desembolso mensal chegava a R$ 267,4 mil por mês em 2015, totalizando R$ 3,47 milhões no ano. A Corte não diz quanto paga a cada filha solteira.

Supremo e STJ – 
O STF (Supremo Tribunal Federal) e o STJ (Superior Tribunal de Justiça) também concedem pensões a filhas solteiras de ex-servidores. Os órgãos, no entanto, não informaram quanto pagam e nem o número de beneficiárias.”

ROMBO NAS CONTAS – 
Se somarmos tais privilégios com os milionários salários que os três Poderes pagam para seus membros, dá para se ter uma ideia do rombo nas contas públicas.

O cruel, hediondo, desumano, é que quanto mais a população nacional aumenta, também cresce o número de pobres, miseráveis, desempregados, e há fuga para a economia informal, redundando que a média do ganho do cidadão seja cada vez menor.

SITUAÇÃO INACEITÁVEL –
Enquanto isso, a média dos proventos das castas aumenta, inclusive mordomias, regalias e penduricalhos que nenhuma nação desenvolvida propicia a privilegiados da maneira como é feito no Brasil!

O coronavírus veio mostrar para o povo que o país não tem condições de atender uma crise nessa proporção e ainda manter essas castas e elites no serviço público civil e militar. Para o pobre, resta o SUS, ou seja, macas no corredor, aguardar ser atendido, não há equipe médica na quantidade necessitada, medicamentos em falta, UTIs insuficientes …

Servidores públicos se mobilizam contra possibilidade de corte de salário. Eles só querem mamar!!!!!!”

Lorenna Rodrigues, 
O Estado de S.Paulo

Ideia de redução salarial para ajudar no combate ao coronavírus já circula no Congresso; para funcionalismo, taxar grandes fortunas é mais eficiente

  Foto: Dida Sampaio/Estadão
A Esplanada dos Ministérios, em Brasília, que abriga órgãos do Executivo federal 

BRASÍLIA - As discussões sobre corte de salário do funcionalismo para dar fôlego ao setor público em tempos de coronavírus levaram os servidores a reagir. Sindicatos e entidades de classe tentam organizar o discurso e intensificaram o “corpo-a-corpo” com parlamentares - virtual e por telefone, respeitando o isolamento social.

O argumento dos representantes das categorias é que o corte de salário não foi adotado em nenhum país do mundo e que tem pouco impacto financeiro. Além disso, citam a criação de um imposto sobre grandes fortunas como alternativa mais viável para aumentar a arrecadação federal.

Segundo o Estadão/Broadcast apurou, o corte de salários dos servidores vem sendo discutido dentro do “pacote” de auxílio aos Estados e dependerá da evolução das discussões. Entre os pedidos apresentados por secretários estaduais de Fazenda ao governo federal está a redução de despesas obrigatórias, sendo a principal a folha de pagamento.

Diante da possibilidade que o governo deve dar para que empresas afetadas pela crise suspendam contratos temporários ou reduzam a jornada e o salário dos empregados da iniciativa privada, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), pediu "a contribuição de todos os Poderes", incluindo o funcionalismo público. 

“Não basta o presidente da República adotar posturas na qual o Brasil se isola do ponto de vista internacional, uma medida como essa seria um caso único no planeta hoje”, afirma o presidente do Fórum Nacional Permanente de Carreiras de Estado (Fonacate), Rudnei Marques.

Segundo ele, muitos servidores estão atuando no combate à epidemia, diretamente, como os funcionários da saúde e segurança, e também indiretamente. “É a Receita desembaraçando máscaras, a diplomacia tentando repatriar brasileiros presos em outros países. Por mais que o ministro Guedes tenha descaso pelo serviço público, são os parasitas que neste momento têm de resolver as coisas”, afirmou.

Os sindicalistas ressaltam ainda que poucas categorias do funcionalismo estão paradas por causa do isolamento imposto pela pandemia e que muitas categorias continuam trabalhando em esquema de home office. 

“No caso dos advogados públicos, o trabalho teve um grande aumento pela urgência que estamos precisando dar em relação aos processos, já que estão surgindo muitas ações judiciais. Nossos trabalhos continuam sendo feitos nas suas residências, os sistemas são eletrônicos”, afirma a presidente da Associação dos Advogados da União (Anaune), Márcia David.

O presidente da Frente Parlamentar de Defesa do Serviço Público, deputado Israel Batista (PV-DF), diz que vem se encontrando com sindicalistas para discutir a melhor forma de mobilização. Ele afirma que está procurando parlamentares de partidos de esquerda e do centro para barrar a medida. A frente reúne 220 parlamentares de diferentes espectros políticos. 

“Nossa posição é contrária ao corte, porque acreditamos que não vai ser acompanhado de uma política eficiente de redistribuição e vai apenas enxugar recursos do mercado. É uma política perigosa, que pode provocar queda ainda mais aprofundada do consumo e gerar demissões no setor privado”, completa.  

Tributação de grandes fortunas e lucros e dividendos

A reação dos servidores será insistir na tributação de grandes fortunas e de lucros e dividendos.O presidente da Associação Nacional dos Auditores Fiscais (Unafisco), Mauro Silva, divulgou um estudo que mostra que a tributação de brasileiros com patrimônio acima de R$ 5 milhões e que tenham ao mesmo tempo renda total acima de 80 salários mínimos por mês (R$ 83.600) arrecadaria R$ 59 bilhões por ano. A alíquota de 4,8% seria paga por 220 mil pessoas. “Há inúmeras fontes de recursos muito mais compatíveis com a crise do que retirar dinheiro do salário de quem está no mercado de trabalho”, defendeu.

Nos últimos dias, propostas de redução do salário dos servidores públicos foram defendidas por parlamentares e economistas. Já há no Congresso projetos que preveem a redução de salário do funcionalismo para fazer frente à crise e uma nova Proposta de Emenda à Constituição (PEC) deverá ser apresentada com base em um estudo do economista Matheus Garcia, do Movimento Livres. Ele calcula que uma redução de 30% no salário do funcionalismo federal, estadual e  municipal bancaria um programa de renda mínima de R$ 200 mensais para 55 milhões de pessoas.

Coronavírus: os 4 pilares para manter a imunidade em dia

Luis Barrucho* - @luisbarrucho
Da BBC News Brasil em Londres 

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Praticar exercícios físicos regularmente, reduzir o estresse, dormir bem e ter uma alimentação balanceada são importantes para manter nosso sistema de defesa funcionando.

Responsável pelas defesas naturais do nosso organismo, o sistema imunológico virou o centro das atenções em tempos de coronavírus.

Isso porque, como ainda não temos medicamentos ou vacinas para nos proteger desse novo vírus, combatê-lo depende inicialmente da capacidade de resposta de cada indivíduo à doença, conhecida como covid-19.

Sendo assim, mesmo que não impeça ninguém de contrair a doença, ter uma imunidade em dia é vital para ajudar na luta contra a infecção e na recuperação do doente, dizem especialistas ouvidos pela BBC News Brasil.

Segundo eles, são quatro os pilares de uma "boa imunidade": praticar exercícios físicos regularmente, reduzir o estresse, dormir bem e ter uma alimentação balanceada.

Mas, antes de tudo, os especialistas alertam para outro tipo de combate, contra a "desinformação".

O principal mito é a suposição de que podemos "elevar nossa imunidade", dizem.

"Não existe essa história de imunidade alta. Existe imunidade normal ou imunidade baixa por algum problema que a pessoa tenha, como doenças ou uso de medicamentos imunossupressores (que reduzem a atividade ou eficiência do sistema imunológico, usados, por exemplo, quando o paciente recebe um órgão transplantado). Imunidade alta não existe, não tem como elevar a imunidade", explica o infectologista Alberto Chebabbo, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia e diretor-médico do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, no Rio de Janeiro.

"Ou seja, quem tem imunidade normal, tem o risco de contrair a doença e desenvolver os sintomas. Quem tem imunidade baixa, inclusive os idosos, porque seu sistema imunológico já envelheceu, tende a apresentar os sintomas mais graves da doença", acrescenta.

Ana Caetano Faria, professor titular de Imunologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), concorda.

"O que ocorre é que nosso estilo de vida faz com que nossa imunidade caia. Ou seja, existem formas de restabelecer a normalidade de nosso sistema imunológico, mas não elevá-lo", diz.

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Covid-19 afeta os pulmões

Importância dos quatro pilares

Por que esses quatro pilares são tão importantes?
Segundo Faria, cada um deles tem um impacto diferente no funcionamento do sistema imunológico.

Mas, para isso, é preciso entender o que é o sistema imunológico e como ele funciona.

Em linhas gerais, ele é um conjunto complexo de células, tecidos, órgãos e moléculas que cumprem funções específicas em uma resposta coordenada para neutralizar vírus, bactérias, fungos e parasitas — antes que sejam fatais.

Diante de uma nova ameaça, o corpo tem de partir do zero e construir as defesas necessárias. Mas, no caso de um vírus, este processo costuma ser mais demorado do que a velocidade com que este tipo de microrganismo se multiplica e infecta células.

"É uma corrida, em que o adversário avança mais rápido do que o sistema imunológico é capaz de desenvolver mecanismos de ação para combatê-lo", afirma o imunologista Renato Astray, pesquisador do Instituto Butantan.

Isso não significa, no entanto, que a batalha esteja perdida. O sistema imunológico encontra com o tempo formas de acabar com a ameaça, como vem ocorrendo nesta epidemia de coronavírus.

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Corpo tem barreiras para impedir a entrada de patógenos

Como funciona o sistema imunológico
O corpo tem barreiras para impedir a entrada de patógenos, como são chamados os microrganismos que afetam nossa saúde.

Elas podem ser mecânicas, como a pele, microbiológicas — por exemplo, a flora de bactérias do intestino —, ou químicas, como as enzimas presentes na saliva ou o suco gástrico do estômago.

Se um corpo estranho consegue superar essas barreiras, cabe ao sistema imunológico nos proteger.

Todas as pessoas nascem com defesas naturais contra invasores. Esta é a chamada resposta imunológica inata, que é acionada automaticamente quando células detectam que foram infectadas e enviam sinais químicos para avisar que o corpo está sob ataque.

Isso faz com que outras células acionem mecanismos para se tornarem menos suscetíveis à infecção e ativem o sistema imunológico, que vai pôr em ação células específicas para combater o invasor.

Essas células são fabricadas continuamente pela medula óssea, a partir de células-tronco, que estão em um estágio inicial de desenvolvimento e tem o potencial de se transformar, em um processo de diferenciação, para cumprir funções específicas.

Desta forma, as células-tronco se tornam leucócitos — ou glóbulos brancos —, que atuam em nosso sistema imunológico. Uma elevação na quantidade de leucócitos no exame de sangue é indício de uma infecção. Se estiver abaixo do normal, o sistema imunológico está enfraquecido.

Os neutrófilos são o tipo de leucócito mais numeroso e atuam como a primeira linha de defesa do organismo. Eles envolvem e eliminam o invasor por meio da fagocitose, produzindo enzimas digestivas que destroem o patógeno.

Também liberam sinais químicos que recrutam mais células para atacar a ameaça. Isso gera uma inflamação na região onde está o invasor. Esta área é irrigada com sangue, que traz consigo mais leucócitos para auxiliar no combate.

Outro tipo de glóbulo branco, o linfócito conhecido como natural killer (assassino natural, em inglês), age principalmente contra tumores e vírus. Ele libera grânulos de proteína ao redor do alvo que fazem o patógeno se autodestruir.

Um terceiro tipo de leucócito, o macrófago, também atua neste estágio fagocitando invasores, mas cumpre outra função importante no próximo estágio da resposta imune.

A resposta imune adquirida
Quando um invasor é agressivo, resistente ou está presente em maior quantidade, isso exige outro tipo de reação do organismo.

A resposta imune adquirida é desenvolvida pelo corpo após entrar em contato com um patógeno. Ela envolve a ação dos linfócitos, células especializadas capazes de combater microrganismos e de nos proteger da mesma ameaça por mais tempo.

Os linfócitos ficam armazenados em órgãos como os linfonodos e o baço, à espera de sinais de que devem entrar em ação.

Um dos principais alertas é dado pelos macrófagos, que capturam um microrganismo ou parte dele e o transportam até os linfócitos, dando início à resposta imune adquirida. "Os macrófagos atuam como uma ponte entre as duas respostas imunes", explica Astray.

Os linfócitos começam então a produzir milhões de cópias de si mesmos e reforçam o sistema imunológico ao gerar anticorpos, proteínas capazes de neutralizar um patógeno. Os anticorpos têm a capacidade de reconhecer e se unir ao invasor, impedindo que ele infecte novas células e se reproduza.

Os linfócitos também marcam alvos para neutrófilos, macrófagos e natural killers. "Os linfócitos são como maestros do sistema imunológico, ao fazer com que as células imunes se aglutinem em torno de uma ameaça", diz Portela.

Ao final deste processo, a maioria dos linfócitos é destruída, mas alguns se diferenciam e permanecem em nosso corpo por vários anos, formando uma memória imunológica que tornará mais ágil o combate ao patógeno se ele nos infectar novamente.

As células imunes se multiplicam mais rapidamente ao detectar a mesma ameaça, o que acaba com aquela desvantagem do sistema imunológico na corrida inicial contra um invasor após a infecção. "Isso nos impede de ficar doentes ou faz com que os sintomas sejam mais leves", afirma Astray.

Por este motivo, não contraímos mais de uma vez algumas doenças, como catapora, caxumba, rubéola ou sarampo. Mas isso não impede que tenhamos novas gripes, por exemplo, porque o vírus que a causa, o influenza, sofre mutações facilmente, o que torna a memória imunológica inútil contra suas novas versões.

Como nossa imunidade é afetada
Sendo assim, Faria, da UFMG, diz que, quando dormimos pouco ou nos alimentamos mal, isso afeta o funcionamento de nosso sistema imunológico de diferentes maneiras. O mesmo ocorre quando deixamos de praticar atividades físicas ou sofremos estresse.

"Todos esses pilares são importantes, mas destaco a necessidade de dormimos bem. É durante o sono que temos maior produção de células de defesa pela medula óssea. Estudos mostram que dormir menos de cinco horas por noite aumenta em quatro vezes a chance de desenvolver infecções respiratórias, como gripes e resfriados", diz.

"Portanto, se você não está dormindo suficientemente, não está dando ao corpo a chance de se recuperar."

Já ao praticarmos atividade física de intensidade moderada, liberamos hormônios que ajudam a regular nosso sistema imunológico. Por outro lado, quando não nos estressamos, nosso corpo deixa de produzir substâncias que o prejudicam. Por fim, ao seguirmos uma dieta balanceada, ajudamos a fornecer energia para o bom funcionamento de nossas células de defesa, resume Faria.

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Segundo nutricionista Julia Granje, monte pratos coloridos

Mas o que é uma dieta balanceada?
A BBC News Brasil ouviu a nutricionista Julia Granje. Ela alerta "que não existe nenhum alimento ou vitamina que combata o novo coronavírus. Mas, obviamente, quando o sistema imune está ativo e saudável, vai ajudar a lutar a combatê-lo". Confira as dicas dela:

• Monte um "prato colorido"
Granje recomenda comer dez porções de 80 gramas por dia, sete de legumes e verduras e três de frutas, de cores diferentes. "Cada cor dos alimentos reflete o tipo de micronutrientes que têm neles". 

"Desafio meus pacientes a colocar pelo menos cinco cores no prato".

Em relação aos micronutrientes, ela destaca o zinco e o selênio.

"O zinco é encontrado nas carnes vermelhas e no fígado de frango. Também nas ostras, que são muito ricas em zinco."

Ela acrescenta que o zinco também está presente nos vegetais, "mas em menor quantidade", como no feijão.

"A quantidade de zinco que encontramos no feijão é a metade da de uma carne vermelha. Isso é um alerta importante para quem é vegetariano", assinala.

Já o selênio é encontrado na castanha do Pará. "Duas castanhas por dia já são suficientes. A farinha de trigo também é fonte de selênio".

Granje também recomenda comer menos carboidratos simples, como massas, arroz branco, pães e bolos. Prefira os carboidratos "complexos", ou seja, aqueles integrais, recomenda.

"Não gosto de vilanizar os carboidratos. O problema é que o brasileiro come muito pouca fibra. E sabemos que carboidratos simples, quando ingeridos em excesso, tendem a induzir uma resposta inflamatória do nosso corpo, o que pode ser prejudicial se você já está combatendo uma infecção", acrescenta.

• Não esqueça das "vitaminas antioxidantes"
Segundo Granje, vitaminas A, C, D e E são muito importantes. Ela ressalva, contudo, que muitos brasileiros vêm se "superssuplementando" de vitamina D.

"Não adianta tomar vitamina D sem ter a exposição ao sol. Porque o que ativa a vitamina D é essa exposição ao sol. Como se trata de uma vitamina lipossolúvel, se você toma em excesso, nosso corpo não a excreta. É diferente da vitamina C, que as pessoas também tomam em excesso, mas isso é excretado pela urina", explica.

• Cuide de seu intestino
Granje destaca que pesquisas mostram a influência da nossa microbiota intestinal em nossa imunidade — nossos intestinos são habitados por 100 trilhões de bactérias de diferentes espécies. Neste sentido, ela reforça a importância do consumo de fibras.

"Infelizmente, não prestamos muita atenção a isso."

Um imenso estudo conduzido nos Estados Unidos, o Estudo Americano do Intestino, sugere que aqueles cujas dietas incluem mais alimentos à base de plantas têm um microbioma mais diversificado, diz Daniel McDonald, diretor-científico do projeto.

• Baixo consumo de álcool e sódio
O álcool e o sal em excesso podem ser prejudiciais para o sistema imunológico. Seu consumo deve ser feito com moderação.

Segundo pesquisa da Escola Médica da Universidade de Massachusetts (EUA), o consumo exagerado de álcool prejudica a capacidade do organismo de combater infecções virais, especialmente do sistema respiratório, inibindo o funcionamento de proteínas responsáveis pela regulação do sistema imune.

*Colaborou Rafael Barifouse



Na Europa, critério para calcular mortes por Covid-19 varia conforme país (e nenhum está certo)

Elena G. Sevillano
El Pais

França só inclui dados de quem falece em hospitais, e Espanha não registra mortes sem teste em residências para idosos


Pavilhão em Madri usado para atender doentes do coronavírus.

Boatos como estes se multiplicam nos últimos dias nas redes sociais: “Alemanha e Holanda estão escondendo cadáveres embaixo do tapete”; “no Reino Unido, pede-se autorização dos familiares de um falecido por coronavírus para decidir se ele será incluído na contagem oficial”. E circulam muitos outros depois das críticas da Holanda à Espanha, da polêmica dos coronabônus (discussão sobre ajuda econômica na União Europeia) e da estupefação com a baixa taxa de letalidade da doença na Alemanha, para a qual os cientistas ainda não têm uma explicação clara (embora apontem para o elevado número de exames realizados).

Os especialistas em epidemiologia alertam que não estão sendo contabilizadas corretamente todas as mortes pelo coronavírus. E isso é algo que une todos os países. A polêmica na França se centra nos casos que não entram na estatística: todos os falecimentos fora dos hospitais. Na Espanha, segundo secretários regionais de Saúde, tampouco são contabilizadas as pessoas que falecem em residências para idosos ou em domicílios sem terem feito o exame diagnóstico.

Essas diferenças, somadas às dificuldades de cada país para desenhar um panorama preciso, fazem as taxas de letalidade não sejam confiáveis. Com o problema agregado de que, quando se diagnostica uma parte muito pequena dos contágios reais (como está acontecendo na Espanha e no Brasil por falta de capacidade para fazer exames), a percentagem de mortos sobre o total de infectados sai mais alto. “Posteriormente, poderemos fazer uma aproximação mais ou menos exata, mas sempre uma aproximação”, diz Ildefonso Hernández, porta-voz da Sociedade Espanhola de Saúde Pública (Sespas).

A Itália inclui no registro de vítimas de coronavírus todos os pacientes que deram resultado positivo nos testes e que morreram, independentemente dos demais aspectos de seu histórico clínico, seguindo o critério do Instituto Superior de Saúde. Essa entidade se ocupa, a posteriori, de fazer um estudo epidemiológico para aprofundar as causas da morte dos pacientes com Covid-19 e publica um relatório duas vezes por semana onde informa se estas pessoas sofriam de outras enfermidades.

O diretor de Proteção Civil, Angello Borrelli, encarregado de comunicar as cifras oficiais, frequentemente observa que se trata de “falecidos com coronavírus e não por coronavírus”, até que se aprofunde nos históricos clínicos. A maior parte da comunidade científica supõe que a falta de mais testes de detecção —desde a origem do surto até 28 de março foram feitos 429.526— os números reais, tanto de contagiados como de mortos, podem ser muito superiores às cifras oficiais.

Até o surgimento da epidemia do coronavírus, no Reino Unido, quando um paciente falecia no hospital por infecção respiratória, não se registrava a causa direta dessa infecção, a não ser que fosse uma “doença de notificação obrigatória” por lei. Por exemplo, botulismo, malária e tuberculose. O boletim médico indicava apenas uma broncopneumonia, pneumonia, idade avançada ou uma designação similar. Desde 5 de março, a Covid-19 foi incluída na lista de notificação obrigatória. Não se registra, entretanto, a gripe sazonal.

Até o momento, a maioria dos testes é feita nos hospitais, onde há um alto número de pacientes suscetíveis aos efeitos de qualquer infecção, ou em pessoas que apresentavam um quadro de sintomas suficientemente graves para que fosse feito um exame. Por isso as autoridades sanitárias britânicas alertaram, quando a cifra de casos positivos rondava 500, que a realidade podia se aproximar mais dos 5.000 ou 10.000 contagiados. A taxa de mortalidade do Reino Unido, que atualmente se situa em 6%, seria na verdade muito menor, apontam vários especialistas.

Desde que a epidemia começou, na França apenas os mortos no meio hospitalar são contabilizados, ou seja, recolhendo os dados diários procedentes dos 600 hospitais e clínicas do país “suscetíveis de receberem pacientes da Covid-19”. Embora a mortalidade seja mais alta entre as pessoas de idade mais elevada (86% dos mortos na França têm 70 anos ou mais), a estatística oficial não inclui os idosos mortos em seus domicílios nem, sobretudo, nas 7.000 residências que acolhem mais de 700.000 pessoas.

Ocorre o mesmo na Espanha, onde pelo menos 352 pessoas haviam morrido nas casas para idosos até a quinta-feira passada, segundo uma recontagem do EL PAÍS. O Ministério da Saúde não oferece cifras. Desde que mortes maciças começaram a ser denunciadas nesses centros na França, o Governo de Emmanuel Macron adotou uma nova posição e anunciou que, a partir desta semana, fará “um acompanhamento diário da mortalidade” nos asilos.

Na Alemanha, com uma taxa de mortalidade de 0,72%, houve certa polêmica porque os dados fornecidos diariamente pelo Instituto Robert Koch (RKI) estão atrasados em relação aos oferecidos pela Universidade Johns Hopkins, que reúne informações de todo o mundo. São similares, mas o RKI demora para validá-los depois de serem enviados pelos Estados. O RKI explica ao EL PAÍS que “todas as mortes relacionadas à enfermidade Covid-19 foram registradas nos dados de notificação: tanto as pessoas que morreram diretamente pela doença como os pacientes com enfermidades subjacentes infectados e para os quais não é possível provar claramente qual foi em última instância a causa da morte”. Se houver suspeita, acrescenta o instituto, “podem ser examinados post mortem”, mas não esclarece se todos os suspeitos passam por autópsia.

A França, como a Espanha, monitora a sobremortalidade. Os dados do seu Instituto Nacional de Estatística mostram que no principal foco, o leste da França, ela chega este mês a 37,8%. Na Espanha, o último relatório do Instituto de Saúde Carlos III aponta que o excesso de mortes em relação à série histórica entre 21 e 25 de março foi de quase 17%. Mas ainda não há cifras separadas por causa de morte.

Na Holanda, o exame do coronavírus é reservado a pacientes hospitalizados. O organismo oficial que se encarrega da contagem oferece cifras de mortes, contágios e altas hospitalares e afirma que o cômputo real pode ser mais alto, porque estes são apenas os casos comprovados.


Com informação de Rafa de Miguel, Enrique Müller, Lorena Pacho, Silvia Ayuso e Isabel Ferrer.