Adelson Elias Vasconcellos
Nunca a economia brasileira esteve tão bem, é o que se lê, é o que comentam analistas políticos e econômicos, mas a gente fala com as pessoas com um pouquinho mais de informação qualificada e percebe certa inquietação solta no ar. Se tudo vai tão bem como se diz, então por que esta preocupação mantida em suspenso? O que estará acontecendo com o país que a gente não chega ter a exata noção do que seja, mas que inquieta a todos?
Não é de hoje que reclamo que o Brasil precisa adotar medidas, na área econômica, que assegurem não apenas maior consumo interno como atualmente ocorre, mas, também, maior competitividade para os produtos brasileiros no mercado internacional. Isto, logicamente, tem a ver com o câmbio.
O fato de se ter aumentado muito a inserção de milhões de novos consumidores na economia, o fato de estarmos milhões de novos empregos todos os anos – e isto é muito mais necessidade do que virtude – não pode ter o dom de iludir nossas autoridades, tampouco anestesiá-las a pouco de perderem de vista que, a base em que se assentam este virtuosismo todo, tem prazo de validade curto. Se o objetivo seria conduzir o país para uma tal situação que, nas urnas, se obtivesse os lucros desejados, quero crer por tudo que as pesquisas estão a indicar, que o resultado foi e será plenamente alcançado.
Só que o Brasil não vive APENAS para eleições. O país precisa de políticas e programas de longo prazo que deem sustentabilidade ao crescimento atual. Notem que já se fala que, 2011, não deverá repetir os índices de crescimento deste ano, num sintoma típico de que, na base deste crescimento, ainda falta alguma coisa – eu diria muitas coisas - para que possamos crescer de forma constante e em índices regulares.
Retornando a questão cambial, conforme se viu na reportagem da Globo, os produtos brasileiros estão perdendo espaço lá fora, mas também aqui dentro. O primeiro significado disto é que estamos menos empregos no país do que poderíamos gerar. E isto é ruim. Na declaração de hoje do ministro Mantega há, sim, o reconhecimento de que está havendo uma guerra cambial em escala mundial. Como a reportagem evidenciou, até a Suíça, avessa a mexidas, já se deu conta de que as regras de hoje diferem das de ontem. Há poucos dias deixamos uma pergunta no ar: será que o Brasil vai insistir em querer o único país de passo certo no mundo?
Há necessidade urgente de que o país adota alguma espécie de medida ou um conjunto delas não apenas para proteger os empregos aqui dentro, mas também para que nossa balança comercial continue a gerar superávits e nossas contas externas não continuem no vermelho. Isto seria queimar gorduras de forma desnecessária.
Mas, entendo, que no Brasil a questão cambial não é um fato isolado apenas. Há um conjunto harmonioso de políticas que se entrecruzam para garantir nossa estabilidade. Se mexer numa destas políticas, e para que continue havendo harmonia do conjunto, a autoridade econômica precisará mexer no conjunto todo da economia. E aí começa nosso complicador.
A começar pelas reformas que deixamos de fazer nos quase oito anos de governo Lula. Elas são indispensáveis à sustentabilidade de crescimento. Talvez a mais importante delas, a meu ver, até aceito que seja um parto da montanha sua execução e implementação dado a variedade de interesses que estarão em jogo. Trata-se da reforma tributária. O Brasil, quiçá, seja um dos raros países do mundo cuja política pune, duplamente, os custos de produção de qualquer bem ou serviço. Numa ponta, a tributação pesa na produção e, na outra, pesa no lucro. Há impostos em cascata e até há bitributação, imposto sobre imposto, o que se trata de uma irracionalidade absurda. E sobre a produção - porque desgraça pouca é bobagem – temos ainda a cobrança antecipada de imposto. Ou seja, antes que qualquer produto saia da linha de produção, chegue ao ponto de venda no comércio e, dali, seja consumido ou comprado pelo consumidor final, o imposto sobre aquele bem já terá pago imposto. Isto é uma aberração. Aliás, disto já falamos aqui muitas vezes. Nenhum país consegue tornar-se competitivo desta forma. A primeira maldade que esta aberração tributária provoca é transferir da empresa para o Tesouro Nacional todo o capital de giro das empresa. Em consequência ela precisará ir ao mercado financeiro buscar o financiamento necessário para manter sua produção. Resultado: muitos procurando um mesmo produto concentrado em poucas mãos, acaba elevando os juros internos e, novamente, isto se reflete no preço final.
Não é a toa que, determinados produtos internamente, quando comparados com seus similares lá fora, até os que aqui são produzidos, mostram toda a maldade deste sistema estúpido. É comum conhecermos quem prefere determinadas mercadorias lá fora, pagar toda a carga de tributação incidente sobre a importação porque resulta em preço menor do que se tivesse comprado aqui dentro no shopping mais próximo.
Além disto, como o governo gasta mais do que arrecada, resulta que para cobrir suas contas ele precisa tomar dinheiro no mercado financeiro. Assim, a taxa SELIC é mantida nas alturas para sustentar a cobertura do equilíbrio fiscal. Moral: isto atrai mais dólares, dado que no mercado internacional os juros estão, na média, abaixo de 2%, enquanto aqui, estão próximos de 11%!!!
Vejam que mexer em câmbio não é uma tarefa das mais simples no caso brasileiro, e o problema central tem como causa dois aspectos: a reforma tributária, para desonerar produção e trabalho, e freio de mão puxado nos gastos correntes do governo federal. O raio que, com o governo gastando mais do que pode, falar-se em desoneração tributária que, em contrapartida, reduziriam as receitas da União, Estados e Municípios , nem pensar. E, de outra parte, desonerar produção e trabalho, significa, também, mexer no vespeiro que político algum sequer ousa pensar: reforma trabalhista. Ninguém querendo perder coisa alguma, acaba ficando tudo como está. Resultado: todos perdem, à exceção única do Estado, que continua desobrigado de reduzir seus gastos, e é o único que, efetivamente, ganha na situação atual, já que não corre risco nenhum.
Lula, até por seu carisma e força política junto aos sindicatos e centrais sindicais, poderia ter se utilizado disto para aprofundar as reformas que são indispensáveis. Contudo, não querendo correr risco de perder alguns décimos de seu capital político, postergou qualquer medida que sintonizasse algum prejuízo para si. Contudo, governantes não são eleitos para governarem em benefício próprio, lá são colocados pela sociedade justamente para agirem em benefício da sociedade toda. Neste sentido, Lula preferiu distribuir benesses ao invés de cortar privilégios, aprofundando o peleguismo retrógrado ao melhor estilo getulista.
Da mesma forma, vemos igual comportamento em Estados e municípios, onde o interesse político se sobrepõe ao interesse maior da coletividade. Consequência: continuam gastando além do que arrecadam porque sabem que, lá adiante, não serão eles próprios a colher os prejuízos produzidos por sua irresponsabilidade. Claro que a Lei de Responsabilidade Fiscal aprovada no governo Fernando Henrique, como que brecou esta compulsão desenfreada, pondo ordem nas contas públicas.
Outra reforma que se está adiando justamente porque se teme o custo político dela decorrente, é a reforma previdenciária. Esta, então, não peçam para político algum sequer se preocupar, quanto mais se ocupar de apresentar qualquer proposta que ponha certa racionalidade ao sistema.
Numa sociedade em que ninguém abre mão de seus privilégios, impossível não se perceber que todos acabam perdendo. E o que é pior: quanto mais tempo passa sem que se tome providências, maior tende a ser a necessidade de contenção lá frente.
Senhores, o resumo da ópera é o seguinte: a escolha de candidato ou candidato para presidir o país não pode focar apenas por que fulano ou fulano é apoiada por A ou B. O caminho que temos pela frente, exige competência e seriedade. Não é a maior presença do Estado na economia que vai fazer a diferença, pelo contrário. O que se exige do Estado é, primeiro responsabilidade e respeito com o dinheiro público a mãos cheias, sem levar em conta as enormes carências existentes de norte a sul do país. O Governo Lula está aí há quase oito anos. Sendo assim, em que, digam lá, durante este tempo, se pode perceber melhora na qualidade dos serviços como saúde, educação, segurança e infraestrutura? Sequer em saneamento básico mal conseguimos sair do lugar. E, como reportagem da Folha reproduzido mais abaixo, a Presidência da República triplicou seus gastos neste mesmo espaço de tempo, e sua estrutura de pessoal aumentou em quase quatro vezes. Qual o resultado prático de tanto inchaço em benefício da própria sociedade, naquilo que é o básico do Estado cumprir? Resposta redondinha: Z-E-R-O. Nada vezes nada. Não é de mais Estado superdimensionado que o país preciso. É o inverso. O Estado precisa pesar menos nas costas dos contribuintes, para que possa reduzir impostos, reduzir juros, para de antecipar o pagamento de impostos que freia a capacidade de investimentos privados que são, de fato, os que produzem e geram empregos e renda, o Estado, em suma, precisa ser menos oneroso à sociedade e mais eficiente nos serviços que presta.
Sem remover estes obstáculos além da excessiva e asfixiante burocracia e insegurança jurídica, poderemos crescer sim, mas em ritmo menor e sempre dependentes dos preços internacionais das comodities, razão tanto para as reservas internacionais e os superávits do comércio externo, mas em queda livre vertiginosa.
Dilma representa exatamente este continuísmo maluco de irresponsabilidade fiscal e sem compromisso com as indispensáveis reformas para sustentar e assegurar crescimento sustentável. O que não faltam são sinais de alerta para que aproveitemos este momento favorável para avançar e nos modernizarmos. Não é possível que, praticamente, 60 milhões de brasileiros, ou seja, 1/3 da população do país, sejam sustentado unicamente pelo Estado paizão, e renda familiar baseada em bolsas assistenciais cujo objetivo deve ser emergencial, e nunca permanente. Se na urna estes dependentes são garantia de sucesso para os governantes, para a cidadania, contudo, ficam distantes de se tornarem homens livres.
Portanto, os bons ventos da economia não podem nem devem tampar nossas consciências da realidade do país: há muito por fazer, há muito para ser corrigido, há muitas reformas pedindo urgente passagem, há muito para se obter nos serviços públicos essenciais. Portanto, muito embora a economia vá bem, não ainda motivos para o país deixar de lado a eterna preocupação que deve ter consigo mesmo. Neste sentido, falar em continuidade chega a ser uma heresia, porque é justamente de mudanças que o Brasil mais precisa para tornar-se uma nação desenvolvida.