Luiza Damé, Catarina Alencastro, Fernanda Krakovics e Isabel Braga
O Globo.
Palácio do Planalto sustenta que decisão por compra de refinaria foi tomada por um colegiado e teve o aval da diretoria da estatal
PT decide tratar denúncias como ataques à Petrobras e não a Dilma
Divulgação/ / Agência Petrobras
Refinaria de Pasadena, no Texas
BRASÍLIA - O governo federal montou uma ofensiva para rebater a exploração, pela oposição, das denúncias envolvendo a compra, pela Petrobras, da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos. O Palácio do Planalto preparou um relatório que sustenta que a decisão foi tomada em um colegiado, do qual a presidente Dilma Rousseff fazia parte, com base em um resumo. Já o ministro Aloizio Mercadante (Casa Civil) telefonou, nesta quinta-feira, para o líder do PT, deputado Vicentinho (SP), para municiá-lo com informações técnicas para embasar o discurso que o petista fez, na tarde desta quinta-feira, no plenário da Câmara.
O Palácio Planalto insistiu, hoje, que a compra da refinaria Pasadena foi feita com base em documento incompleto de uma diretoria da Petrobras. Segundo relatório preliminar preparado pelo Planalto, a decisão do conselho administrativo da Petrobras, do qual a presidente Dilma Rousseff fazia parte, foi tomada por unanimidade "nos termos do resumo executivo".
Com isso, a Presidência tenta dividir a responsabilidade de Dilma - que era a presidente do conselho - com outros membros do colegiado, incluindo empresários e executivos importantes, como Jorge Gerdau, do Grupo Gerdau, Fábio Barbosa, do Grupo Abril, e Cláudio Haddad, do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec). O Planalto diz ainda que a diretoria da Petrobras poderia ter barrado o negócio, mesmo com a aprovação do conselho.
Segundo dados difundidos pelo Palácio, o plano estratégico da Petrobras de 2004 recomendava a expansão da empresa no Golfo do México e na África, sugerindo a aquisição de refinarias nesses locais. O plano foi elaborada pelas consultorias internacionais Cera e Mckinsey. Em 2006, o conselho de administração aprovou a compra de metade da Pasadena. Na época, a Petrobras pagou US$ 190 milhões pela refinaria e mais US$ 170 milhões pelo estoque de petróleo da Pasadena. Um parecer do Citigroup atestou que o valor do negócio era compatível com o mercado.
Outra preocupação do Planalto é mostrar que a presidente não avalizaria o negócio se conhecesse as cláusulas Marlim e Put Option. A primeira estabelecia lucro de 6,9% para a Astra (sócia da Petrobras no negócio) independentemente das condições de mercado. A segunda previa que, em caso de divergência entre as duas empresas sócias na refinaria, a Petrobras teria de comprar a outra metade da Pasadena.
PT trata denúncia como ataque à Petrobras, e não a Dilma
Na reunião do diretório nacional, o PT, orientado pelo Palácio do Planalto, resolveu tratar a denúncia da compra da refinaria como um ataque à Petrobras, e não à presidente Dilma Rousseff. Uma emenda com esse teor foi proposta pelo deputado estadual Edinho Silva (SP), que será o tesoureiro da campanha à reeleição da presidente Dilma Rousseff, à resolução política aprovada na reunião. O texto consolidado deve ser divulgado pelo partido nesta sexta-feira.
— Eu não considero que a presidente está sendo atacada, quem está sendo atacada é a Petrobras — disse o presidente do PT ao deixar a reunião.
Dirigentes petistas consideraram um erro a nota divulgada pelo Palácio do Planalto, em resposta à matéria do jornal O Estado de S. Paulo, na qual a presidente Dilma afirma que apoiou a compra da refinaria de Pasadena porque não tinha todas as informações sobre a operação. A avaliação é que ela acabou trazendo a crise para seu colo.
Na resolução política aprovada na reunião do Diretório Nacional, o PT afirma que "mais uma vez estamos presenciando a oposição e os setores conservadores da nossa sociedade fazer ataques para atingir a imagem da Petrobras. É importante relembrarmos que a nossa maior empresa pública foi alvo da política de privatizações no governo liderado pelo PSDB, apoiado pela elite nacional, representado por FHC".
Ainda de acordo com o texto, "a defesa intransigente da Petrobras é a defesa do nosso projeto de Nação que tem resultado no crescimento econômico e na justiça social. Um projeto que colocou o Brasil em pé perante o mundo".
No Congresso, Vicentinho e o líder do governo, Arlindo Chinaglia (PT-SP), ocuparam a tribuna na sessão de debates da Câmara desta quinta-feira, como parte da estratégia de ofensiva do governo. Primeiro a falar, Vicentinho leu nota com dados repassados a ele por Mercadante sobre as circunstâncias da compra da empresa Pasadena pela Petrobras. Os dados ressaltam o passo a passo para a tomada da decisão, que foi respaldada em consultorias estrangeiras, e que quando tomou conhecimento das cláusulas omitidas no resumo, a Petrobras tentou barrar na justiça, por quatro anos, a compra dos 50% restantes da companhia, mas perdeu e foi obrigada a realizar a compra.
Em seguida, falando de improviso, Vicentinho atacou a oposição, afirmando que a defesa da CPI da Petrobras neste momento tem objetivo eleitoral de destruir a presidente Dilma Rouseff, que é candidata à reeleição. Além disso, o líder petista adotou a tática de atacar os tucanos.
— Eles queriam privatizar a Petrobras e agora querem apresentar essa CPI em período eleitoral. Tentam, a cada momento, dilapidar um patrimônio tão importante. O jogo é destruir a presidente Dilma. O ingrediente da política rasteira está colocado. Pior que a compra de Pasadena, foi a negociação feita pela Petrobras no governo Fernando Henrique. Um prejuízo de R$ 3 bilhões. As empresas podem errar, pode haver um erro de avaliação, de estratégia, mas aqui está posto o jogo político rasteiro — atacou Vicentinho.
Além de criticar a intenção de fazer a CPI, o líder do governo também leu dados sobre a compra da empresa norte-americana, ressaltando que a decisão teve como suporte análise de empresas de consultoria internacional e que é preciso levar em conta o momento em que ocorreu a compra. Chinaglia reafirmou que a ata do Conselho Administrativo da Petrobras fala que a primeira decisão foi tomada com base no resumo apresentado. E reage aos que acusam a presidente de, ao divulgar a nota revelando que havia falha no resumo, tenha chamado para si a crise.
— Pela integridade da presidente, ela decidiu falar a verdade. Quem faz insinuações, como alguns diretores em matérias (reportagens) não agem assim. Por que esses diretores não colocam o nome, deem entrevistas assumindo a responsabilidade como ela fez? A presidente fez o correto, não se omitiu e presta contas — disse Chinaglia.
Mercadante também está trabalhando dentro do governo. Ele conversou sobre o polêmico negócio da Petrobras com os ministros Luís Inácio Adams (Advocacia Geral da União) e José Eduardo Cardozo (Justiça), além da presidente da empresa, Graça Foster. O presidente do PT, Rui Falcão, classificou a denúncia como mais um ataque da oposição à empresa:
— A Petrobras tem sido sistematicamente atacada desde que os tucanos, no governo Fernando Henrique Cardoso, tentaram privatizar a Petrobras e sucatear o Estado brasileiro. Durante vários momentos a Petrobras tem sido atacada na história brasileira, principalmente quando tentaram privatizá-la, mudando o nome para Petrobrax.
O partido divulgará um texto, aprovado em reunião do Diretório Nacional nesta quinta-feira, no qual faz uma “defesa” da Petrobras e tenta dar um viés eleitoral para a denúncia.
— A turma que queria privatizar a Petrobras agora está preocupada com a Alstom e a Sabesp — ironizou o deputado Ricardo Berzoini (PT-SP) e ex-presidente do partido, em referência à escândalo de suposto pagamento de propina que atinge a gestões tucana no governo de São Paulo.
****** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Não adianta o PT apelar para a ignorância e tentar ressuscitar a mentira de que a Petrobrás, no governo FHC, foi alvo de privatização, porque não foi. Trata-se de uma tentativa diversionista para empurrar o escândalo para o outro lado. Até porque, quando aprovou-se a compra da refinaria no Texas, FHC estava fora do governo há 8 anos!!! Cretinismo tem lugar e hora!
Esta história do “... PT decide tratar denúncias como ataques à Petrobras e não a Dilma...” é papo furado. Primeiro, que ninguém está atacando ninguém. Segundo, o clima que se criou agora, ao se saber que Dilma aprovou a negociata, é de estarrecimento, tendo em vista a fama que a senhora Rousseff plantou país afora sobre sua suposta capacidade de gestão. Terceiro, o que está se pedindo são esclarecimentos de quem aprovou o quê, e sobre quais informações. O prejuízo superior a 1 bilhão de dólares não admite molecagens de parte dos petistas.
Não pode a senhora Rousseff alegar um “não sabia”. Se as informações eram incompletas para aprovação da compra de metade da usina, o que seguiu deveria ao menos ter alertado a “presidente” sobre as irregularidades.
Mas há algo que precisa ser esclarecido, e que até agora pouco se falou: a compra de uma refinaria no exterior, pelos valores envolvidos, foi feita apenas baseada em um “resumo executivo”? Ninguém destacou um engenheiro especialista para fazer uma inspeção in loco sobre as condições da refinaria, se seu equipamento comportava refinar o tipo de petróleo empregado pelo país, o volume de investimentos que seriam necessários para colocar a refinaria em condições de operação? Esta história de “resumo executivo” jamais poderia estar desacompanhada de um “relatório técnico”. Se ele foi feito, por que deixou-se de considerá-lo na tomada de decisão? E se não foi, por conta do que a tão “competente gestora” não exigiu sua confecção antes de dar seu aval para a compra?
Há muita coisa ainda obscura nesta operação. Porém, com o que já se sabe, é possível concluir que a Petrobrás, por sua diretoria à época, derrapou solenemente. E creio que deveria ser responsabilizada pelo bilionário prejuízo que sua decisão provocou à estatal. Portanto, o que agora se debate não é a empresa, como pretensa e cretinamente deseja o PT. O foco da discussão está nas pessoas que tomaram uma decisão estúpida. E, sendo assim, as culpas não podem ser apartadas nem de Sérgio Gabrielli, então presidente da Petrobrás, tampouco de Dilma Rousseff, então presidente do Conselho de Administração. Ambos aprovaram a negociação. Sendo assim, que sejam responsabilizados por ela. Ponto final.