Editorial
O Globo
A negociação diplomática é o melhor caminho, mas o Ocidente precisa endurecer as sanções à Rússia e criar um novo papel para a Otan
Um punhado de propostas de diálogo numa das mãos; uma lista de sanções mais duras na outra. É desta forma que o Ocidente deve se apresentar à Rússia neste tenso pós-anexação da Crimeia por Moscou. Óbvio que, hoje, as sanções vêm em primeiro lugar. Mas o que se espera é que o impasse, criado a partir da derrubada do presidente pró-Kremlin da Ucrânia, seja resolvido diplomaticamente. Tanto Barack Obama quanto Vladimir Putin, em duros pronunciamentos, ao menos deixaram porta aberta ao diálogo.
Mas é preciso fazer mais. A solução russa de anexar território, atropelando a soberania de países, não pode prosperar, e é necessário estar preparado para demonstrá-lo claramente ao Kremlin. Neste sentido, é relevante a reunião convocada por Obama com o G7 (com a Rússia fora, deixou de ser G8) e a União Europeia em Haia, na próxima semana. Precisa ser decisiva a atuação dos organismos multilaterais.
A anexação da Crimeia abre um precedente nefasto se não ficar claro para a comunidade mundial que nenhum outro caso será tolerado. China e Taiwan, por exemplo, avançaram no caminho do entendimento. Mas, se Pequim achar que a lei do mais forte voltou a vigorar, poderá ser tentada a fazer com Taiwan o que Moscou fez com a Crimeia. Outra vertente é, a partir da secessão da Crimeia, serem despertados nacionalismos mais ou menos adormecidos mundo afora, o que poderia causar transtornos para o ordenamento internacional, com a desorganização de países e o possível surgimento de novas nações de viabilidade duvidosa.
A crise Ucrânia/Crimeia e a reação de Putin puseram na ordem do dia uma organização que andava meio esquecida, embora esteja presente no Afeganistão: a Otan, criada originalmente para conter uma invasão soviética na Europa. Os países que a integram deverão esboçar um papel para a organização no novo cenário mundial. Mas esse papel não passa por encurralar a Rússia. Por mais que sejam endurecidas as sanções se Putin não tirar o pé do acelerador na Ucrânia, no caso da Otan está se falando de uma aliança militar. E não será a melhor solução levar Moscou a retesar seus músculos diante de ações açodadas da Otan. Além disto, é bom lembrar que o Ocidente precisa da influência e dos contatos de Moscou para chegar a bom termo com o Irã e encontrar uma saída para a guerra na Síria.
A atual crise terá papel construtivo caso estimule os EUA na busca da independência energética. O gás que a Rússia fornece à Europa — um terço do consumo total — é uma das armas mais eficazes de Putin para atingir seus objetivos. A posição dos EUA deverá mudar substancialmente, no Oriente Médio e diante da Rússia, com o uso crescente de tecnologia para apressar sua autossuficiência energética, a partir do gás não convencional, de fontes alternativas e de combustível limpo.