quinta-feira, outubro 04, 2007

Quem está com a corda pescoço

Há dezesseis parlamentares que esta noite não irão dormir, por conta do que o STF praticamente já decidiu, conforme informamos no post anterior.

Aqui, a relação dos 16 deputados federais que trocaram de partido depois da decisão em março último do Tribunal Superior Eleitoral que entendeu que o mandato pertence ao partido, não ao seu titular:

1. Manoel Salviano (CE) - do PSDB para o PMDB na última semana

2. Paulo Rubem Santiago (PE) - do PT para o PDT no dia 03/10/2007

3. Carlos Souza (AM) - do PP para o PRB no dia 27/9/2007

4. Clodovil Hernandes (SP) - do PTC para o PR no dia 25/9/2007

5. Sérgio Brito (BA) - do PDT para o PMDB no dia 24/09/2007

6. Davi Alves Silva Júnior (MA) - do PDT para o PSC no dia 21/9/2007

7. Dr. Paulo César (RJ) - do PTB para o PR no dia 12/09/2007

8. Gervásio Silva (SC) - do DEM para o PSDB no dia 21/8/2007

9. Geraldo Resende (MS) - do PPS para o PMDB no dia 7/8/2007

10. Takayama (PR) - do PMDB para o PAN (atual PTB) e depois para o PSC no dia 11/7/2007

11. Cleber Verde (MA) - do PTB para o PRB no dia 5/7/2007

12. Marcos Antonio (PE) - do PSC para o PAN (atual PTB) e depois para o PRB no dia 4/7/2007

13. Silas Câmara (AM) - do PTB para o PAN (atual PTB) e depois para o PSC no dia 3/7/2007

14. Damião Feliciano (PB) - do PR para o PDT no dia 28/6/2007

15. Jackson Barreto (SE) - do PTB para o PMDB no dia 2/5/2007

16. Jusmari Oliveira (BA) - do DEM para o PR no dia 2/4/2007

Vitória da Democracia: para STF, o mandato é do partido

Restando os votos da ministra Ellen Gracie e do ministro Marco Aurélio Mello, já temos um placar definido no STF quanto a considerar o mandato como sendo do partido. Neste sentido, os ministros Celso Mello, Carmen Lúcia, Carlos Alberto Direito, Ayres Brito Gilmar Mendes e Cezar Peluso contra os votos dos ministros Eros Grau, Ricardo Lewandowski e Joaquim Barbosa.

A vitória da democracia consagra que ninguém é dono do mandato delegado pelo voto do eleitor. Deste modo, doravante os parlamentares deverão respeitar esta vontade, apesar do golpe legislativo que está em curso sob o comando de Arlindo Chinaglia, que, no jeito canalha de ser, quer afrontar a decisão da Suprema Corte.

A vitória só não foi total porque considerou-se como data limite da mudança o dia 27 de março deste ano quando o TSE julgou a questão. Mas, pelo menos 16 parlamentares deverão perder o mandato, a menos, é lógico, que se pratique uma agressão ao estado de direito e à decisão definitiva Superior Tribunal Federal- STF. Em tempos de Lula e petê no poder, tudo é possível, até golpear a lei e as instituições. Esta gente é canalha demais para se submeter a ordem legal que contrarie seus interesses imorais.

Por enquanto, nosso crescimento é apenas uma bolha

Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia

O IBGE ao anunciar os principais dados da Pesquisa Nacional por Amostragem de domicílios, PNAD, mostrou uma realidade estarrecedora em relação aos salários dos trabalhadores: os trabalhadores hoje, em 2007, ganham menos do que ganhavam em 1997, onze anos atrás. Recentemente comentamos em um artigo aqui postado, em 17.09., sob o título “Mistérios e algumas verdades”, esta perda de rendimento. Sim, já foi pior, recuperamos parte das perdas por conta do excelente momento vivido pela economia mundial e que acabou respingando no Brasil.

Porém, este sobe e desce da renda média do trabalhador brasileiro, é um mistério que ainda permanece e incomoda, numa espécie iô-iô macabro. Semana passada, por exemplo, a Fundação Seade e Diese divulgaram um levantamento dando conta desta dança sinistra: pelo terceiro mês seguido, a renda caiu em seis regiões metropolitanas, Belo Horizonte, Distrito Federal, Porto Alegre, Recife, Salvador e São Paulo.O rendimento médio real dos ocupados caiu 0,9% e o de assalariados recuou 1,1%, para R$ 1.043 e R$ 1.114, respectivamente.

"A queda no rendimento pelo terceiro mês seguido é um indício de que a rotatividade é muito alta e que não se estão gerando bons empregos. E essa pode ser uma característica muito típica das regiões metropolitanas, já que os investimentos na indústria estão ocorrendo principalmente no interior do país", disse o coordenador técnico da equipe de análise da Fundação Seade, Alexandre Loloian.

Contudo, há um outro aspecto que precisa ser realçado: noutro estudo, este feito pelo Banco Central na área do crédito, revela que o volume de crédito bancário no País avançou 21,5 por cento ao longo dos últimos doze meses e, em julho, atingiu 800 bilhões de reais. O aumento do volume ganha disparado do crescimento do Produto Interno Bruto no mesmo período, uma vez que este oscila em torno de 4 por cento. A população brasileira passou a ser 1,3 por cento maior, de acordo com o IBGE. Oitocentos milhões de reais, por seu turno, correspondem praticamente a 40 por cento do PIB.

E aí a coisa começa a ficar nebulosa. Sabe-se que o aumento de consumo, em todas as faixas de renda, mas principalmente nas classes D e E, se deve muito a este aporte maior ao crédito, no caso ao crédito consignado, aquele que você paga com desconto em folha, do que por expansão da massa salarial. Na medida em que a renda média decresce, não apenas a capacidade de tomar empréstimos mas de pagá-los com pontualidade, fica comprometida. Há sim um grande índice de inadimplência rondando por aí. Há sim um batalhão de pessoas que estão assumindo novos empréstimos para quitar empréstimos antigos. Mas isto tem um limite, que é o próprio salário dos trabalhadores. Ora, se esta renda progressivamente sofre redução, esta capacidade de contrair empréstimos acaba atingindo seu limite. E, derivado disto, temos duas conseqüências imediatas com extrema gravidade: a inadimplência assume contornos perigosos para o mercado financeiro apesar de seus altos ganhos, e o consumo acaba sofrendo fortes reduções, o que acaba comprometendo os investimentos feitos pelas empresas para a expansão da produção e oferta. Quando ocorre esta retração ocorre o se chama de “estouro da bolha”. Mais ou menos parecido com o que aconteceu nos Estados Unidos, na recente crise imobiliária.

O que preocupa, além desta possibilidade real de estouro de uma bolha de crédito excessivo e não acompanhado de uma expansão da massa dos salários, é que, por conta dele, o custo para tomada de empréstimo fique ainda mais caro do que já é. E isto, por conseguinte, acaba inibindo novos investimentos. Vou além: a maneira de evitar que haja um estouro da “bolha” seria, claro, crescimento econômico acima da média histórica que temos mantido ao longo, reparem, dos últimos 25 anos. Um dos caminhos seria qual? A redução do chamado custo Brasil. Como obtê-lo? Aí a coisa descamba para o colo do governo federal. Vejamos a equação.

É impossível para o país crescer além da média vegetativa que tem mantido se não houver contenção de gastos correntes. Não se tratam nem de investimentos em infra-estrutura, nem tampouco de investimentos sociais. São gastos com a manutenção da máquina pública. E por que isto é necessário? Para que, com o menor gasto por parte do governo, possa haver espaço para uma urgente e indispensável redução da carga tributária. Só com esta redução será possível o país se tornar mais atraente para investimentos em novas plantas industriais e expansão das atuais. Não basta apenas haver incentivos para novos investimentos na área da produção de bio-combustíveis, como o governo tem insistido. O diabo é que esta expansão dos bio-combustíveis tem sido feita, de parte dos investidores estrangeiros, na aquisição de indústrias já existentes. Novas indústrias neste ramo têm surgido através de pacotes de financiamento via BNDES. E cadê de se aumentar os ganhos dos trabalhadores ? Não há. Para que houvesse expansão de renda, os investimentos deveriam ocorrer em outras atividades produtivas, e muitas estão brecadas face a desvalorização da moeda dólar, o que acaba inibindo a exportação. Mantemos um saldo ainda favorável por conta das comoditties, porém estas são dependentes do maior consumo dos asiáticos. Qualquer espirro por lá terá graves conseqüências por aqui.

Ora, quando o governo do vossa excelência apresentou ao distinto público seu primeiro paquinho, se disse que a contratação de novos servidores bem como os aumentos de salários se fariam de acordo como a expansão do PIB. Bem, ficou no papel. O governo há muito abandonou a regra que ele próprio se impôs. E o próprio vossa excelência anunciou nesta semana que “choque de gestão” é contratar mais gente na administração federal. Assim, diante do absurdo, não se pode mesmo esperar que o governo reduza seus gastos. E, por conseqüência, não há espaço nem para se reduzir a carga tributária, tampouco para elevar os investimentos do poder público em infra-estrutura. E fica pior o quadro quando se sabe que, sem redução da carga de impostos, o capital privado não se sente atraído para participar, com sua cota, nos projetos anunciados por vossa excelência no âmbito dos seus pac aqui, pac acolá.

Moral da história: sem crescimento substancial da atividade econômica, amarrada como se vê a desenfreada gastança do poder público, a tendência é de se obter uma elevação muito pequena, ou até redução da massa salarial no país. Afinal, cerca de 1,5 milhão de novas pessoas chegam ao mercado já disputado a tapas entre os que lá já estão. E como a lei da oferta e da procura não vê nem cara nem coração, a tendência é realmente os salários perderem peso. Onde chegamos? A de que crescimento montado em base apenas de crédito consignado ou subsidiado tem prazo de validade. Além dele, a bolha estoura e as perdas acabam prejudicando a todos, principalmente as camadas mais pobres, porque possuem menos recursos para se protegerem em momentos de crise.

Não se trata de terrorismo o alerta que estamos fazendo, e sim, de uma realidade que o mercado várias vezes já reproduziu e, ao que parece, ainda não aprendemos suficientemente a lição, e continuamos insistindo em seguir os mesmos caminhos errados de sempre. Há como que um consenso sobre a estratégia que o governo do vossa excelência tem adotado. É um primarismo estúpido apostar em crescimento econômico fundamentado apenas em expansão do crédito barato. Sem que haja expansão da renda, que por sua vez é derivada do crescimento econômico que depende de menor carga de impostos, menor burocracia, maior segurança jurídica e juros básicos menores, ficaremos travados na estabilidade, mas sem avançar um milímetro sequer. Reparem que no trimestre de forte crescimento como foi o segundo trimestre encerrado em julho, atingimos “gloriosos“ 4,8 %, enquanto nossos parceiros iguais em emergência, pobreza e dificuldades, fizeram pelo menos o dobro. Seria covardia comparar nossos 4,8% com os 11, 4% da China por exemplo. Assim, dado os cenários mundiais, dadas as conquistas de estabilidades econômica e política atingidas já há mais de dez anos, chega a ser ridículo o país comemorar, em 2007, a recuperação de ganhos na renda média que fica abaixo dos níveis que se tinha há 11 anos ... atrás.

Livro didático como instrumento de política partidária

Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia

Há determinadas áreas em que a função dos governos não pode exceder-se à missão do Estado. Quem não souber distinguir uma coisa da outra não está apto a função de governar. Parece-nos que o PT do vossa excelência se insere nesta categoria. Eles não fazem a menor questão de não misturar Estado e Governo. Para estes profetas da ignorância e do caos, tudo é uma única coisa, e por assim entenderem, praticam políticas de governo que tendem a desinstitucionalizar o país. No campo da saúde, por exemplo, a política partidária deve ser jogada na lata do lixo. A saúde humana não pode ficar subordinada à ideologias de esquerda e direita. Medicina é uma ciência, com leis e princípios que vão além das canalhices políticas, dos conchavos partidários, ou dos interesses mesquinhos de ideologias.

Assim, perguntamos: polícia federal e forças armadas são instituições de estado ou de governo? De Estado, lógico, portanto, nelas o comando não pode ficar subordinado à ideologias político-partidárias. Na educação o princípio é o mesmo. A Educação de um povo deve obedecer a princípios pedagógicos que vão além desta mesquinharia, destes ufanismos. Preparar intelectualmente uma geração, não é coagi-la a seguir este ou aquele princípio de ideologia política, uma vez que esta se trata de uma escolha pessoal. Forma-se o homem, o cidadão, dando-lhes instrumentos e ferramentas adequadas para que ele, na idade adulta, com formação sólida no campo da intelectualidade, possa ter condições de assumir uma visão crítica em relação ao seu meio, e deste modo, faça suas opções ideológicas, sem condicionamentos, sem coação, sem lavagens cerebrais.

Desde que vossa excelência, talvez antes mesmo, o PT foi tomando de assalto fundações, fundos de pensão, sindicatos, centrais, e muitas áreas do serviço público. Coincidência ou não, a qualidade dos serviços públicos, e do ensino, foram perdendo solidez, foram se tornando degradadas, e de repente, começamos a observar que as pessoas não mais lutavam por melhorias em suas profissões, mas estavam mais preocupadas em promover agitações de cunho político. Não se brigava mais por melhoria de salários, de condições de trabalho, por oferta de cursos de aperfeiçoamento, e sim por conquistas que eliminava a qualidade, diminuía-se o trabalho. Ninguém demonstrava, por exemplo, a menor preocupação para com aqueles que sustentam tudo isso, e que acabam sendo os usuários finais de todos os serviços públicos.

Reparem no post anterior, nos depoimentos, como a educação n0o Brasil vai sendo reduzida a sua noção mais ordinária, o ministério que deveria de excelência em educação, foi-se se tornando, de uma lado, um antro de ocupação e aparelhamento político, e de outro, um verdadeiro Balcão de negócios onde o melhor lobby ganha a parada. Mas sempre, escondido lá no fundo, é possível descortinar um projeto de se solapar o conhecimento, como se observa neste trecho: “(...)Parece que, depois de contratarem os autores para o projeto e formatado o produto (livro), alguns são enviados ao MEC, que tem equipes para análise(...)”

Assim, não é difícil perceber que a questão dos livros didáticos acaba não tendo critério algum a não ser praticar algum agrado ao governante de plantão. Mas, santo Deus, cadê seriedade ? Cadê o compromisso com a verdade histórica? E onde está o respeito à uma educação isenta, livre de ranços ideológicos e partidários? Que direitos tem o MEC para enorme de coisa alguma, colocar-se acima de seu compromisso, e praticar uma colossal manipulação indecente com o conhecimento ? A arte de governar, dentro deste ou daquele conceito ideológico, não pode cometer o crime de mentir sobre a história da civilização. É inconcebível que livros de história escondam propositadamente, de forma cínica e canalha, os milhões de assassinatos cometidos por facínoras sanguinários e patogênicos. Bem como é maldosa a adoção de propaganda política nos textos destes mesmos livros. Ninguém está dizendo que os autores destes livros não possam escrever o que bem entendem. Se quiserem endeusar Lula como um mago, que o façam às suas custas, e jamais bancadas com dinheiro público, que deve ser empregado com responsabilidade e sobriedade, e se for para gastar em livros didáticos que eles versem pela qualidade, lisura e respeito à verdade.

Volto a insistir em dois pontos: esta questão de “proibir” que os alunos comprem outros livros afora aqueles “recomendados” pela listagem do MEC me parece algo meio fascista. E o segundo ponto é que o MEC precisa esclarecer definitivamente esta questão e vir a público informar quais critérios adota para a seleção de livros.

E acredito que o assunto deve sim merecer maior atenção da sociedade, como também deve pela sociedade ser acompanhado por neste país já existe muita pilantragem sendo cometidas com dinheiro público. Ridículo seria criar uma flange de esquerdopatas a quererem privatizarem para a sua ideologia os processos de ensino que, quanto mais amplos e universais, melhor. Nosso problema na educação é de falta de qualidade, de falta de meios, de má qualificação de grande número de professores, muitas vezes em razão até do péssimo salário com que são pagos. A prova é que, 12 anos depois da primeira avaliação realizada, nossos estudantes se encontram em níveis inferiores, ou seja, sequer conseguimos manter mesmo que em nível baixo um mesmo padrão de qualidade. Andamos para trás.

Para encerrar resta anotar que, um dos editores dos livros analisados pelo Ali Kammel, o senhor Sérgio Quadros, diretor editorial da Moderna, em entrevista concedida ao jornalista Reinaldo Azevedo concedeu uma entrevista na qual reconheceu os erros apontados na crítica feita ao livro Projeto Araribá – História 8ª Série, e que sua editora já havia providenciado nas correções. Deste modo, vale encerrar o artigo com o comentário feito pelo Reinaldo, como forma até de evitar os comentários maldosos em relação às críticas do Kammel de que estariam disfarçando um segundo e maldoso interesse d organizações Globo. Ou seja, e deste mal o petê sempre padeceu, quando apanhados no cometimento de crimes, eles não os negam, tentam sim desqualificar seus críticos e acusadores. Malandragem pura, cretina, mas aianda assim, um método para safar-se.

No comentário do Reinaldo fica claro que a crítica tem o propósito de apontar erros, que corrigidos, farão bem a todos, principalmente os estudantes que estarão tendo às mãos, uma leitura séria, qualificada e verdadeira.

O que resta de importante dessa história toda é o seguinte: jamais se inferiu — Kamel, eu ou qualquer outro — que as editoras distorcem a história só para agradar ao petismo e, assim, integrar o programa do livro didático. Isso é besteira. A distorção (e as palavras são minhas, não de Kamel) esquerdopata, esquerdiota e esquerdocínica do livro didático é uma questão mais ampla. Professores estão redigindo panfletos, verdadeiros libelos, de proselitismo esquerdista, esbarrando às vezes, como se vê, na propaganda partidária.

Vou dar crédito a Quadros e acreditar que as mudanças já estavam mesmo em curso. E sugerir que a editora busque uma maneira de retirar do mercado o que está errado. Afinal, trata-se de um grave problema que uma edição, como ele diz, de 2003, contendo erros e distorções, continue à venda, com novas reimpressões, em 2007, não é? O estudo da história, creio, supõe um pouco mais de estabilidade nos fatos. No terreno estritamente teórico, parece-me que seria prudente mais de cuidado e critério antes de transformar fatos contemporâneos em “fatos históricos”.

De todo modo, melhor que a editora busque corrigir seus próprios erros. Estaremos sempre vigilantes, apontando outros. Para desespero dos ladrõezinhos também da reputação alheia, que saíram em defesa do que nem a editora se dispõe a defender. Quem tem um patrimônio ético a zelar não tem compromisso com o erro. Isso é coisa de quem já vendeu também a ética.

Os censores segundo o MEC

Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia

No post anterior, dissemos que Haddad empurrava Para as costas dos professores as escolhas dos livros didáticos financiados pelo governo do vossa excelência. Se tal fosse verdadeiro, seria um absurdo o MEC ficar refém das “opiniões” da categoria. Ou seja, no nosso entendimento, o MEC deveria fazer uma prévia escolha com os professores indicando ou sugerindo, e depois o ministério constituiria uma comissão para avaliação final, e seus indicados reunissem e se enquadrasse na qualidade que se deseja tenha um livro didático, então trataria de autorizar sua compra junto aos editores. Mas qual? O pacote, quando chega aos professores, já chega pronto. Cabe aos professores darem uma chancela à farsa, e depois assumirem a culpa pela escolha.

Vamos a três depoimentos feitos no blog do Reinaldo Azevedo. Primeiro depoimento.

Posso responder a algumas destas perguntas, tio Rei, pois sou professor e diretor de escola e já participei destas escolhas. Minha área é língua portuguesa:
- Quem os envia aos professores?
As editoras enviam às escolas.

- Há uma pré-seleção?
Se há, é por parte das editoras, mas recebemos várias coleções de cada disciplina e de cada editora para fazer a escolha. Também recebemos uma avaliação do MEC sobre cada uma das coleções do programa. Quem faz esta avaliação eu não sei.

-As editoras fazem seu lobby nas escolas e aguardam a resposta dos professores?
Fazem. Já recebi, como diretor de escola, proposta de participar de sorteio para viagens à praia com tudo pago se, é claro, a minha escola escolhesse certa coleção. Também mandam coleções para a casa dos professores e brindes às vezes. Ligam muito para as escolas perguntando aos diretores se a escolha já foi feita, se já vimos tal coleção. Tanto que a Secretaria de Educação enviou ofício às escolas proibindo-nos de fornecer tais informações.

- Quem é o encarregado, no ministério, de ouvir os professores?
Não sei se existe, pois nunca fui ouvido ou procurado.

- Participa quem quer?
Da parte das escolas, sim. Se quiserem, os pais podem participar, mas a escolha sempre é feita somente por professores.
Tio Rei, quer ver porcaria em matéria de livro didático? Veja os livros didáticos públicos para o ensino médio que o governo do Paraná alardeia terem sido escritos pelos professores. É verdade; foram, sim. Conheci alguns dos tais professores. A catchiguria estava pessimamente representada.

Reparem que fica claro que a gincana é livre. É o lobby das editoras que atua junto aos professores, para empurrar sua bugigangas. Depois o MEC referenda o que quer. Vamos ao segundo depoimento.

Fala um outro educador do Paraná

"Conheço bem os livros públicos do PR. Oriento professores da rede estadual do estado, os quais têm de passar toda a matéria no quadro, pois os tais livros não prestam: ficam guardados em casa. O pior é que os PROFESSORES SÃO PROIBIDOS DE SOLICITAR QUE OS ALUNOS COMPREM OUTRO LIVRO. Os livros estão servindo como tema de artigos científicos enviados a revistas internacionais da área de educação, denunciando a tirania e a cegueira reinantes no Paraná."

Aqui fica claro que o livro didático virou reserva de mercado. E o que é pior: totalmente bancado com dinheiro público. Ou seja, mesmo que livros com qualidade, competência e seriedade sejam mais úteis de serem utilizados em sala de aula, tal não é permitido. Está proibido adotar-se outros livros que não constem da reserva mercado implantada pelo MEC. Alguma diferença para ditaduras ? Vamos ao terceiro depoimento:

- quem os envia aos professores?
R: As editoras, inclusive com brindes (livro do Chalita + bloquinho de notas).
- Há uma pré-seleção?
R:Bem,se quer saber da seleção de livros a ser enviada aos professores,sim. As editoras mandam os exemplares que estão no Guia do Mec. Nenhum outro. Se se refere à escolha dos incluídos no Guia, melhor perguntar às editoras. Parece que, depois de contratarem os autores para o projeto e formatado o produto (livro), alguns são enviados ao MEC, que tem equipes para análise.

- as editoras fazem seu lobby nas escolas e aguardam a resposta dos professores?
R: Fazem.Recebi em casa uma coleção de livros.O entregador que me alertou sobre a proibição de dar brindes e que os livros deveriam ser entregues ao professor e não mais nas escolas (concordo: os livros estavam sumindo), mas muita gente nas escolas ainda mete a mão nos livros antes de chegar aos professores.

- quem é o encarregado, no ministério, de ouvir os professores?
R: Também gostaria de saber, nunca me disseram. Nunca perguntaram. Eles mandam, professor engole e pronto. Falo no caso de escolas públicas> Não sei se professor da rede privada dá palpite.

- participa quem quer?
R: Se quer saber da escolha, na ponta (escola),não. Somos obrigados, inclusive pressionados por prazos, pra resposta (escolha).

- quando e em quais casos um livro pode ser retirado do programa?
R: Se não se enquadrarem nos pressupostos teóricos do MEC nem entram no programa. Basta perguntar para autores que foram retirados (se já tinham sido aprovados em 99, por exemplo, por que não foi em 2002?). Será que autores mortos não prestam mais?

Reafirmo: não temos, na prática, liberdade de escolha, pois, se não optarmos por uma das coleções do Guia do MEC/FNLD, não mandam livro nenhum para os alunos. As escolas recebem um formulário-padrão onde são colocados os códigos dos livros. Todo esse processo está no site do MEC,basta procurar lá no link do FNDE/PNLD: orientações, lista, resenhas, tudinho. Poucos professores lêem aquilo. Tem gente que nem sabe ligar o PC, quanto mais baixar arquivos e ficar lendo na telinha. Às vezes, mas bota assim “às vezes”, a escola imprime uma cópia e deixa à disposição dos professores, porém poucos têm tempo pra ler aquele catatau de informações. Pegam logo os livros, olham o índice, quando muito um dos volumes da série, e escolhem ou porque já conhecem ou porque é novidade...

Se algum disser que leu todas as amostras, de cabo a rabo, tá mentindo, Rei. É humanamente impossível num tempo tão curto. Nem levar pra casa, pra ler com calma, comparar etc. Algumas escolas permitem, quando o professor é efetivo, mas, no geral, a leitura é feita no local, na escola, no horário do almoço, quando fica no colégio o dia todo ou quando chega uns minutos antes e não precisa ir correndo rodar material pra usar nas aulas.

Bem ao leitor cabe tirar as conclusões que os depoimentos inserem. Não há dúvida que, no mínimo dos mínimos, houve “descuido” da parte do MEC na escolha dos livros. Resta uma questão: este descuido é proposital ou não ? É o que tentaremos responder no próximo post.

MEC: centro de desinteligência nacional

Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia

Bastaram dois artigos de Ali Kammel de O Globo, e ambos reproduzidos aqui pelo COMENTANDO A NOTÍCIA, para o país tomar conhecimento do porre que é o Ministério de Educação comandado por Fernando Haddad.

Talvez muitos pais e mães, do tipo responsáveis e dedicados de fato a adequada formação de seus filhos, passaram a perder o sono por conta do que o governo está ensinando às nossas crianças nas escolas públicas. Mais especificamente, de que tipo de leitura e de que qualidade de informação, as escolas estão transmitindo para os nossos jovens. A máscara caiu, mas a farsa, ou sua tentativa espúria de continuarem na prática criminosa da desinformação, ainda continua. Precisará uma ação bastante dura por parte da sociedade para dar fim à pedagogia da mentira e da mistificação implantada pelo governo do vossa excelência.

Nem nos ocuparemos de comentar trechos dos livros analisados pelo Kammel em seus excelentes e oportunos artigos. O leitor pode tirar suas conclusões revendo os artigos. Os links estão aqui e aqui.

Cobrado por aplicar milhões de reais em livros cretinos, o ministro se saiu com a desculpa fajuta de que não se pode praticar censura. Ah, sim, ministro: ninguém quer que se juntem as ditas “obras” para serem incineradas em praça pública. Cada autor é responsável por aqui que escreve, vive num país livre e ele tem o direito de por no papel a cretinice e a mentira que quiser. Outra coisa porém, é o MEC adotar livros com conotação político-partidária, e às custas dos contribuintes, entrega-los nas escolas públicas como se em suas páginas estivesse escrito verdade límpida e cristalina de fatos históricos. Mascarar a matança de milhões de inocentes por conta dos regimes comunistas de Mao, Stalin, Hitler e Fidel para ficar nos mais famosos, e apenas enaltecer suas “glórias”, é de uma descomunal falta de decência, de responsabilidade e de respeito.

Inicialmente, nas versões que se tentaram vender, se empurrou a culpa para os professores da rede pública a responsabilidade pelas escolhas e indicações. E mesmo que tais “versões” fossem verdadeiras, ainda assim já questionávamos: como podem professores escolher e indicar “livros”, sabendo-se que os níveis de escolaridade e de qualidade, em 2007, eram piores do que os avaliados em 1995 !!! Precisariam primeiro requalificarem os professores, para somente depois, e ainda diante de avaliações com um mínimo de aproveitamento, entregarem aos professores da rede pública tamanha responsabilidade.

Porém, até a versão inicial era mentirosa. Por detrás dela, se escondia a verdadeira face de uma metodologia implementada pelo MEC de fazer inveja aos nazismo de Hitler, ou à Revolução Cultural de Mao , ou aos métodos comunistas do sanguinário Stalin.

Vamos recorrer ao testemunho que o Reinaldo Azevedo colheu e publicou ontem em seu blog, de professores da rede pública, para que os leitores possam avaliar os “critérios” que o MEC de Haddad adota para torrar dinheiro público em lixo, e o que é pior: para praticar uma lavagem mental aos jovens de forma sórdida. Fascismo puro.

Disse Haddad quando lhe cobraram uma postura diante dos artigos de Kammel: “O MEC não professa ideologias. O MEC é guardião da liberdade e vai continuar sendo guardião da liberdade...” E achou que sua contribuição ao equívoco ainda era pequena, daí ter optado pelo complemento: “O Ministério da Educação só compra livros que são escolhidos pelos professores. Então, tem três soluções: manter a liberdade, censurar os livros ou trocar os professores. Eu fico com a primeira.

Muito bem: e quando esta “maioria” com liberdade de escolha, acaba por escolher um lixo como livro didático, eivado de mentiras, de desinformações, de inverdades, qual o critério, deixar rolar, ou submeter todas as escolhas a um critério científico e pedagógico dentro de padrões adequados ? E mais: toda a liberdade consentida é filtrada e deve ser submetida à fiscalização. E além disso, ao tentar passar para os professores a função de indicar e escolher livros, o MEC no fundo está se desvencilhando de uma obrigação que seria sua. Ao professor cabe indicar e sugerir, mas jamais compete a ele ser responsabilizado pela escolha final.

Isto seria um lado. Mas o quê, a verdade vocês acham que fica só “nestes detalhes”? Não mesmo, no próximo post vamos ver o que os professores que o MEC indica como os responsáveis pelas escolhas, tem a dizer desta função que tentaram lhe impor. A verdade, às vezes, está na contramão das versões. E é este o caso.

Banalização do caos

Estadão

Se fosse para considerar apenas o nível de organização com que os sem-teto saíram às ruas na segunda-feira, simultaneamente, em 15 cidades de 14 Estados; o grau de desrespeito às leis e aos direitos alheios (como o de propriedade e o de ir-e-vir); a invasão do espaço público para nele perpetrar cenas de violência, muitos poderiam ver na mobilização realizada por cinco centrais de sem-teto (a maioria ligada ao PT) um movimento subversivo e sedicioso como outros que têm pululado em nuestra latinoamerica, no que as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia são o exemplo mais notório.

Há de se convir, no entanto, que no essencial as semelhanças não existem, especialmente porque o caos urbano que as entidades de sem-teto brasileiras tentaram espalhar pelas regiões afora do País não passou de um ato "comemorativo": era para marcar o "Dia Nacional da Reforma Urbana"- mais uma que este governo não fez. Nem por isso, no entanto, essa "banalização do caos" ou esse atentado à ordem pública, motivado por razões de marketing político, deixou de ser grave e merecer plena repulsa da sociedade brasileira. E repulsa, também, porque, apesar dos atos de violência que cometem contra as pessoas, os ditos "movimentos sociais" costumam receber, através de ONGs intermediárias, suculentos subsídios governamentais, quando não apoios diretos do governo - e o presidente Lula não fez parar sua comitiva, desceu do carro e pediu uma caneta para anotar, pessoalmente, as reivindicações dos manifestantes sem-teto que o cercavam? Por que não aproveitou para perguntar aos manifestantes a razão de tão violentas reivindicações se "nunca antes na história deste país um governo fez tanto pelos pobres" quanto o seu?

Prédios públicos depredados, estradas e avenidas bloqueadas e confrontos com a polícia que resultaram em feridos - tanto militantes como policiais - foram o saldo do "caos comemorativo" ocorrido no início da semana. Cerca de 5 mil manifestantes no Recife, outro tanto em Salvador, fecharam as principais avenidas das duas cidades. Os militantes pernambucanos entraram em confronto com a Polícia Militar, o que causou ferimentos em 8 pessoas. Em Teresina houve a tentativa de invasão das sedes da prefeitura e do governo do Estado do Piauí. Em São Paulo, dois prédios da região central da cidade, ambos pertencentes ao INSS, foram invadidos por cerca de 200 sem-teto, sob a alegação de que o governo não cumpriu até hoje o que prometera, em acordo de desocupação de um terceiro edifício do INSS, em 2004.

A propósito, entre as 12 reivindicações da "pauta" apresentada pelos grupos de militantes sem-teto - com as quais, aliás, a secretária nacional de Habitação, Inês da Silva Magalhães, já declarou concordar, com "poucas divergências" - destaca-se a destinação de todos os 5 mil imóveis vazios da União, além dos 52 da Rede Ferroviária Federal, para a construção de moradia. É sabido desde longa data - e não só desse governo, justiça se lhe faça - que a União é uma péssima administradora imobiliária. É preciso, no entanto, que se estabeleçam critérios e gestões em favor do que é patrimônio público, antes de simplesmente repassá-los, por doação, a particulares, com base em pressões e desobediências à ordem pública, a que estes se prestem, pois, se assim não for, estará aberto o permanente precedente de esbulho e violência, nas cidades, para a alegada conquista de "teto".

Agora, justamente por ter uma forte motivação "promocional", este caos comemorativo procurou superar a grande mobilização já feita em torno do já famoso Abril Vermelho, que este ano produziu 22 invasões a prédio e terrenos em 10 Estados. Portanto, suplantou-o pelo menos em número de cidades envolvidas. O problema é que mobilizações dessa espécie vão se tornando uma verdadeira banalização do caos, quando a falta de respeito às leis, à ordem pública e ao direito de as pessoas se locomoverem livremente no espaço coletivo significa o desprezo solene a quaisquer direitos, ínsitos ao grupo das democracias civilizadas do mundo - ao qual desejamos tanto pertencer.

Lula e uma nova categoria psicanalítico-epistemológica

Por Reinaldo Azevedo

Sigmund Apedeuta participou hoje da reunião do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia. Foi um ato para o ministro Sérgio Rezende (Ciência e Tecnologia) apresentar o Plano de Ação até 2010. No fundo, só um convite para os conselheiros apresentarem sugestões. O governo Lula é assim. Essa gente inaugura até discurso. E, claro, seguindo firme o seu propósito de não passar um só dia sem uma batatada, Mano Lula mandou bala:

"Havia uma coisinha aqui no Brasil ou, quem sabe, na cabeça das pessoas [...] de cada ministro fazer o seu programa em função do pensamento da sua equipe. No fundo, no fundo, era uma coisa do ego intelectual: 'Eu vou produzir o conhecimento que acumulei ao longo da minha vida, sem me importar com o que os outros vão estar pensando'".

Ego intelectual” é uma categoria nova da psicologia e da epistemologia.

O intelecto, segundo esse ponto de vista, é tripartido:

- Ego intelectual
- Id intelectual
- Superego intelectual

Vamos entender cada uma dessas categorias:

Ego intelectual – consiste em ser “produtor“ (sic) do conhecimento que se “acumulou” (sic também...). Não entendi patavina. Vou mandar um e-mail a Lula indagando o que isso quer dizer. Parece-me uma variante da “masturbação sociológica”, categoria definida por Sérgio Motta.

Id Intelectual – São as inclinações intelectuais do inconsciente, quero crer. Sei lá. Você descobre que a sua mãe (o Brasil ou Jocasta) transou com o seu pai, traindo-o antes mesmo de você nascer. Só que você julga ter o direito exclusivo da violação de seu objeto do desejo (sua mãe, o Brasil ou Jocasta). Isso dá em quê? Em luta de classes. Você passará a vida tentando matar a burguesia para se livrar do receio de que ela o castre, entende? Trata-se de uma disputa fálica. É o que se chama Complexo de Édipo Intelectual.

Superego intelectual – É a fase madura do petismo, quando só é possível pensar depois de saber a opinião da Marilena Chaui, do Wanderley Guilherme dos Santos e de Mano Brawn. Você introjeta (ops!) todas as censuras do petismo e dá uma direção revolucionária àquele ímpeto antiburguês ditado pelo Id Intelectual.

Entendi por que Maria Rita Kehl gosta tanto do PT. É por causa dessa revolução político-psicanalítica. Falta agora ao partido só um pouco mais de swing (psicanalítico, digo), um pouco mais de seriedade na “lacanagem”...

Crédito no País sobe mais que os salários

Pedro do Coutto, Tribuna da Imprensa

Reportagem - aliás excelente - publicada pelo "Valor" de primeiro de outubro, contendo dados do Banco Central e do IBGE, revela que o volume de crédito liberado no País pelos bancos, pelo comércio e pelas revendedoras de automóveis, de agosto de 2006 a agosto de 2007, cresceu bem mais do que os salários. A oferta (aceita) de crédito avançou 23,6 por cento no período, enquanto os salários, na visão mais otimista, evoluíra 7,2 pontos.

Um desastre, como se vê. Um resultado que derruba a tese do desenvolvimento auto-sustentável. Não é. Auto-sustentável seria se tivesse origem no total da produção e na produtividade. Não ocorreu isso. Aconteceu uma absorção maior de crédito financiado a taxas de juros bem altas. A começar pelos cheques especiais, acentua a matéria, na escala de 139 por cento ao ano. Cento e trinta e nove por cento para uma inflação que o IBGE aponta como sendo de 3,7 por cento no mesmo período.

O crédito está mantendo o consumo à base de um alongamento financeiro cujo limite é uma incógnita. A liberação mensal de financiamentos alcançou, em agosto, a média de 49,5 bilhões. Logo, em doze meses, projeta um total de 584 bilhões de reais. Para se ter uma dimensão exata do que isso significa, basta lembrar que a massa salarial paga por ano é de aproximadamente 600 bilhões, pouco mais de um terço do Produto Intrerno Bruto efetivo. O giro dos cheques especiais - uma loucura - absorve 20,6 por cento do total, de crédito. Os cartões - outra alucinação -, 20,3 por cento. O crédito pessoal, bancos e comércio, pesam em torno de 50 por cento.

O financiamento direto de automóveis é responsável por 13 por cento do volume de crédito. Para os juros que cobram (7,6 por cento ao mês), até que a inadimplência nos cheques especiais é baixa: 9,5 por cento. Deve inclusive regular com a verificada nos cartões de crédito, já que as taxas impressionantes se equivalem. Incrível o fenômeno registrado nos cheques especiais. Os números comparativos são do BC: no mês de agosto do ano passado o volume emitido além do limite contratual fixado foi de 16,2 bilhões. No mês de agosto de 2007 subiu para 18,5 bilhões de reais. Um avanço da ordem de 20 por cento.

A reportagem do "Valor" expõe claramente por que os lucros da rede bancária são tão altos. E mostra a razão também da participação crescente dos fundos de investimento e bancos estrangeiros no mercado nacional. Nossos juros não têm paralelo no mundo. A lucratividade também não, é claro. É uma conseqüência. A taxa dos cheques especiais (130 por cento) supera em mais de trinta vezes a inflação oficial de doze meses.

O preço do crédito pessoal nos bancos e no comércio está na faixa dos 49 por cento. O dos veículos, o mais baixo de todos, na esfera de 13,7 por cento. Ao ano. Índice menor que os demais. Porém suficiente para garantir às montadoras um lucro maior no campo financeiro do que a produção econômica. Vale acentuar que o setor de automóveis, na realidade, não paga impostos.

Por que digo isso? Porque o valor do ICMS, do IPI e do ISS está embutido no preço final dos carros. Até aí, tudo bem. Ocorre que no ano seguinte àquele que marca a comercialização, as montadoras e revendedoras têm direito de deduzir os tributos do Imposto de Renda. Mas elas não pagaram nada. Nós, os compradores, é que desembolsamos, já que eles estão embutidos nos preços finais. E não temos o direito de deduzi-los do Imposto de Renda. Um absurdo. Uma injustiça. Um tema que pode ser usado para um recurso ao Supremo Tribunal Federal.

Isso de um lado. De outro, se a oferta absorvida de crédito continuar evoluindo na escala de 23 por cento ao ano e os salários a 7 por cento, cálculo aliás otimista, repito, daqui a doze meses, final de 2008, portanto, a moeda escritural terá superado a massa dos salários pagos no País. É só comparar 584 bilhões (crédito) com 600 bilhões (vencimentos do trabalho). A matéria publicada pelo "Valor" deve ter preocupado os tecnocratas que acreditam que a realidade aceita sempre as projeções e interpretações numéricas que colocam no papel.

O desenvolvimento não é auto-sustentável. Tanto não é que os cheques especiais (18,5 bilhões em agosto) estão movimentando aproximadamente 222 bilhões de reais ao ano. E se a sociedade encaixa um índice mensal da ordem de 7,6 por cento ao mês dentro de uma velocidade inflacionária de 3,7 pontos para doze meses, é porque algo está, além de confuso, completamente errado. Não pode haver outra tradução.

Dinheiro não surge por milagre. Há um tema que os admiradores incondicionais do capitalismo não fordiano ou keynesiano não aceitam discutir: é a comparação triangular entre os preços, a inflação e as taxas de juros. É um dogma. Como aquele que faz os católicos fugirem invariavelmente da discussão que separa o cristianismo do catolicismo. Um terceiro: os políticos, em grande parte, e vários administradores públicos, escapam sempre quando se coloca a pergunta em torno de como conseguiram adquirir os patrimônios que possuem.

Evidente. As três questões conduzem inevitavelmente à revelação de impropriedades matemáticas. No campo religioso, ainda se pode colocar a fé inabalável como blindagem. Nos outros dois setores não existe recurso ou campo de fuga. São axiomas, ou seja, aquilo para o que não se exige comprovação. Exatamente o oposto do teorema: teor e tema, como o escritor José Lino Grunewald definiu a obra de Pasolini, no polêmico filme de quarenta anos atrás.

O Brasil "arrumado"

Clóvis Rossi, Folha de São Paulo

SÃO PAULO - Diz, pela centésima milionésima vez, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva: "O Brasil nunca esteve tão arrumado como está agora". Beleza pura, não é? Todo mundo deveria se curvar ao presidente que inventou um novo e maravilhoso país, certo?

Pena que uma pesquisadora, dessas chatas, incapazes de se conformar com ufanismos tolos, escreva na mesma Folha:

"A vida útil de um cortador de cana é inferior a 15 anos, nível abaixo dos negros em alguns períodos da escravidão" (imperdível texto de Maria Aparecida de Moraes e Silva, doutora em sociologia pela Universidade de Paris 1 e professora livre-docente da Unesp, Universidade Estadual Paulista).

Pois é, guardadas as proporções, o Brasil parece estar permanentemente atado a uma frase do general Médici, o presidente igualmente ufanista que dizia "o país vai bem, o povo vai mal", enquanto a tortura comia solta.

Há, no entanto, duas diferenças em relação ao sinistro momento dos anos 70:

1 - A censura à imprensa impedia que se publicassem artigos como os de Maria Aparecida. Nesse ponto, portanto, o Brasil de fato evoluiu.

2 - Lula e seu PT estavam do outro lado da cerca ou, mais exatamente, do outro lado do canavial, denunciando as condições de vida dos cortadores de cana. Hoje, Lula classifica de "heróis" os usineiros da cana.

A pesquisadora fala dos canaviais do Estado de São Paulo, o mais rico do país. Não é difícil imaginar como é a vida em outros Estados.

Por falar nisso, o site "Congresso em Foco" denuncia, em sua edição de ontem: "Empresas autuadas por explorar trabalhadores em condição análoga à de escravo doaram R$ 897 mil para 25 candidatos em 2006" (vários do PT, aliás). Bem "arrumados", portanto, estão os políticos. Já o país real...

Choque de gestão

Editorial do Estadão

O que mais espanta na declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de que "choque de gestão" no setor público significa contratar mais gente com salários mais altos, não é a contradição com tudo o que vem sendo dito e escrito sobre o assunto, nem o alto custo para a sociedade da transformação dessa tese em prática, como, aliás, vem acontecendo desde 2003. É a candura com que o presidente diz essas coisas, o que estimula seus auxiliares a repetir suas idéias.

"O choque de gestão será feito quando a gente contratar mais gente, mais qualificada, mais bem remunerada, porque aí teremos também serviços de excelência prestados para a sociedade brasileira", declarou o presidente na Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro.

A sociedade quer, sim, serviços públicos melhores. Para dispor deles, paga mais do que tem condições de pagar. Mas o que a prática demonstra, e não é preciso se esforçar muito para comprovar isso, é a progressiva deterioração dos serviços públicos, sobretudo daqueles mais utilizados pelas populações carentes.Por isso, ela quer o verdadeiro choque de gestão, que aumente a eficiência do setor público e resulte na melhora e ampliação dos serviços prestados, sem ter de pagar mais por isso. O que ela recolhe de impostos é mais do que suficiente para sustentar os serviços de que necessita e, por isso, o choque de gestão que ela quer deve resultar também na redução da carga tributária.

Como o presidente, porém, seus auxiliares têm uma visão completamente oposta a essa. O ministro interino (até agora!) de Minas e Energia, Nelson Hubner, por exemplo, afirmou que faz parte "de um grupo do governo que faz questão de aumentar o custo da máquina estatal" e, por isso, quer aumentar o número de funcionários. Quer esfolar mais os contribuintes - e não hesita em se gabar disso.

Alguns, como o novo diretor de Estudos Macroeconômicos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), João Sicsú, têm explicações mais elaboradas para uma idéia semelhante a essa. Em artigo publicado segunda-feira no jornal Valor, Sicsú disse que, numa situação de desemprego, combater o déficit público com corte de gastos "é tarefa quase impossível". Segundo seu raciocínio, "um corte de gastos correntes e de investimentos em situação de elevado desemprego provocará uma redução da arrecadação, porque agravará o desemprego". Em resumo, diz o diretor do Ipea, cortar gastos públicos pode aumentar o déficit. E durma-se com um raciocínio desses!

Num governo em que se disseminou essa maneira de pensar não causa nenhuma estranheza que a máquina administrativa esteja cada vez mais inchada - e mais emperrada - e os gastos com sua manutenção, essencialmente com o funcionalismo, cresçam de maneira vertiginosa. Desde o início do governo do PT, em 2003, foi autorizada a contratação de 94.765 funcionários por concurso. Os cargos em comissão, que eram 17.559 em 2003, passaram para 19.724 em fevereiro deste ano. Só em 2007 foram autorizados concursos para a contratação de 13.280 servidores. O Orçamento deste ano autoriza o governo a contratar 28.727 funcionários, o que significa que mais gente será admitida até dezembro.

Para 2008, a situação não será diferente. A proposta orçamentária que se encontra em exame pelo Congresso prevê que os gastos com pessoal terão aumento nominal de 10,8%, o que resultará em crescimento real de 5,9% (se a inflação ficar em 4% em 2007), bem mais que o aumento projetado para o PIB neste ano.

Quanto mais o governo gasta com custeio, menos dinheiro lhe sobra para investir. Ao mesmo tempo, cada centavo a mais nos gastos do governo significa um centavo a menos à disposição do setor privado. A carga tributária, por ser excessivamente elevada, tornou-se um dos principais obstáculos ao crescimento mais rápido da economia brasileira. Se o governo continuar a gastar cada vez mais com o funcionalismo, como anuncia o presidente, acompanhado do coro de seus auxiliares, pior resultado terá seu plano prioritário de aceleração do crescimento.

Mas com certeza os apadrinhados do PT e dos partidos da base aliada adorarão. Afinal, não é sobretudo para beneficiá-los, acomodá-los em empregos públicos sustentados pelos contribuintes, que o governo vem fazendo o seu "choque de gestão"?

Sinal vermelho para o comércio exterior

Julio Gomes de Almeida
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Segundo os últimos dados do comércio exterior para setembro, o Brasil irá gerar um grande saldo comercial nesse ano. Não será de US$ 46 bilhões como foi em 2006, mas, salvo alguma surpresa de última hora, ficará acima de US$ 40 bilhões. Nos primeiros nove meses do ano o saldo já é de US$ 31 bilhões, valor este que combina bons desempenhos de exportações e importações. Ambas atingiram valores recordes e cresceram no período a taxas como 15,6% e 28,2%.

Esses números, que parecem tão favoráveis, devem, no entanto, ser vistos com alguma cautela. Isto porque, se considerarmos a evolução nos três últimos meses, no caso das exportações, os percentuais de variação não se apresentam tão favoráveis, e, no caso das importações, superam em muito o desempenho do período acumulado nos nove primeiros meses do ano.

Assim, considerando as médias por dia útil de exportações e importações e comparando os valores do terceiro trimestre desse ano com os seus correspondentes do terceiro trimestre de 2006, o crescimento no primeiro caso foi de 9,3% e, no segundo, de 31,4%. Ou seja, as vendas ao exterior estão crescendo a uma taxa que não chega a 10%, enquanto as compras do exterior evoluem a uma taxa três vezes maior.

A projeção como tendência desses percentuais do terceiro trimestre, naturalmente, resulta em redução dramática do saldo comercial e sua rápida transformação em déficit. Na hipótese de que sejam mantidas as taxas de crescimento desse trimestre para o restante do ano e que essas mesmas taxas se renovem no ano seguinte, o superávit comercial já cairia de um valor próximo a US$ 40 bilhões que deve atingir esse ano para menos de US$ 20 bilhões em 2008.

Mais um ano dessa trajetória e o saldo de comércio cede lugar a um déficit praticamente do mesmo valor. Trata-se de um mero exercício, é claro, no qual especialmente a taxa de crescimento das importações é alta demais para ser projetada para frente sem nenhum ajuste. Mas não vamos perder de vista que não é inconcebível uma combinação de taxas de crescimentos de importações e exportações na proporção de 3 para 1.

No caso das exportações, o efeito desestimulador da taxa de câmbio pode levar a uma evolução apenas modesta de seus valores, que também podem ser influenciados por menor aumento de preços internacionais, sobretudo em produtos manufaturados. A hipótese corresponde, de um lado, à antecipação feita por agências e instituições internacionais de que a economia mundial manterá um ritmo razoável de crescimento devido à continuidade da expansão especialmente da Ásia, mas sofrerá uma desaceleração devido ao menor crescimento nos EUA. Corresponde também à tendência que se pode antever para a taxa de câmbio. A moeda nacional deve seguir muito valorizada e na direção de uma ainda maior apreciação pelo efeito da política monetária, a qual continuará usando largamente a valorização da moeda como instrumento de controle da inflação. A marcha da sobrevalorização do Real somente não ocorrerá no caso de agravamento da crise internacional.

Do lado importador, o alto crescimento estará garantido pela valorização da moeda e pelo crescimento da economia brasileira puxado pelo mercado interno. Não sendo bloqueado por um agravamento da crise internacional ou por exageros de aumentos das taxas de juros por parte do Banco Central diante de receio de aumento de inflação, o crescimento econômico brasileiro poderá se situar na faixa de 4,5%, em função da dinâmica do mercado interno consumidor, da indústria e de segmentos do setor de serviços. Tendo elevada elasticidade tanto com relação às variações da taxa de câmbio quanto ao crescimento doméstico, as importações não deixarão de crescer a taxas de dois dígitos.

Desde já deveria constar da agenda de políticas de governo a questão de como tratar essas tendências do comércio exterior brasileiro, pois, embora possa parecer longínquo, há o risco de que sejam repostas às condições de fragilidade do setor externo. Já deveríamos saber que, no contexto da globalização, fraquezas dessa ordem são punidas severamente, a ponto de impedir processos continuados de crescimento econômico.

Júlio Gomes de Almeida é professor da Unicamp e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda.