quinta-feira, outubro 04, 2007

Crédito no País sobe mais que os salários

Pedro do Coutto, Tribuna da Imprensa

Reportagem - aliás excelente - publicada pelo "Valor" de primeiro de outubro, contendo dados do Banco Central e do IBGE, revela que o volume de crédito liberado no País pelos bancos, pelo comércio e pelas revendedoras de automóveis, de agosto de 2006 a agosto de 2007, cresceu bem mais do que os salários. A oferta (aceita) de crédito avançou 23,6 por cento no período, enquanto os salários, na visão mais otimista, evoluíra 7,2 pontos.

Um desastre, como se vê. Um resultado que derruba a tese do desenvolvimento auto-sustentável. Não é. Auto-sustentável seria se tivesse origem no total da produção e na produtividade. Não ocorreu isso. Aconteceu uma absorção maior de crédito financiado a taxas de juros bem altas. A começar pelos cheques especiais, acentua a matéria, na escala de 139 por cento ao ano. Cento e trinta e nove por cento para uma inflação que o IBGE aponta como sendo de 3,7 por cento no mesmo período.

O crédito está mantendo o consumo à base de um alongamento financeiro cujo limite é uma incógnita. A liberação mensal de financiamentos alcançou, em agosto, a média de 49,5 bilhões. Logo, em doze meses, projeta um total de 584 bilhões de reais. Para se ter uma dimensão exata do que isso significa, basta lembrar que a massa salarial paga por ano é de aproximadamente 600 bilhões, pouco mais de um terço do Produto Intrerno Bruto efetivo. O giro dos cheques especiais - uma loucura - absorve 20,6 por cento do total, de crédito. Os cartões - outra alucinação -, 20,3 por cento. O crédito pessoal, bancos e comércio, pesam em torno de 50 por cento.

O financiamento direto de automóveis é responsável por 13 por cento do volume de crédito. Para os juros que cobram (7,6 por cento ao mês), até que a inadimplência nos cheques especiais é baixa: 9,5 por cento. Deve inclusive regular com a verificada nos cartões de crédito, já que as taxas impressionantes se equivalem. Incrível o fenômeno registrado nos cheques especiais. Os números comparativos são do BC: no mês de agosto do ano passado o volume emitido além do limite contratual fixado foi de 16,2 bilhões. No mês de agosto de 2007 subiu para 18,5 bilhões de reais. Um avanço da ordem de 20 por cento.

A reportagem do "Valor" expõe claramente por que os lucros da rede bancária são tão altos. E mostra a razão também da participação crescente dos fundos de investimento e bancos estrangeiros no mercado nacional. Nossos juros não têm paralelo no mundo. A lucratividade também não, é claro. É uma conseqüência. A taxa dos cheques especiais (130 por cento) supera em mais de trinta vezes a inflação oficial de doze meses.

O preço do crédito pessoal nos bancos e no comércio está na faixa dos 49 por cento. O dos veículos, o mais baixo de todos, na esfera de 13,7 por cento. Ao ano. Índice menor que os demais. Porém suficiente para garantir às montadoras um lucro maior no campo financeiro do que a produção econômica. Vale acentuar que o setor de automóveis, na realidade, não paga impostos.

Por que digo isso? Porque o valor do ICMS, do IPI e do ISS está embutido no preço final dos carros. Até aí, tudo bem. Ocorre que no ano seguinte àquele que marca a comercialização, as montadoras e revendedoras têm direito de deduzir os tributos do Imposto de Renda. Mas elas não pagaram nada. Nós, os compradores, é que desembolsamos, já que eles estão embutidos nos preços finais. E não temos o direito de deduzi-los do Imposto de Renda. Um absurdo. Uma injustiça. Um tema que pode ser usado para um recurso ao Supremo Tribunal Federal.

Isso de um lado. De outro, se a oferta absorvida de crédito continuar evoluindo na escala de 23 por cento ao ano e os salários a 7 por cento, cálculo aliás otimista, repito, daqui a doze meses, final de 2008, portanto, a moeda escritural terá superado a massa dos salários pagos no País. É só comparar 584 bilhões (crédito) com 600 bilhões (vencimentos do trabalho). A matéria publicada pelo "Valor" deve ter preocupado os tecnocratas que acreditam que a realidade aceita sempre as projeções e interpretações numéricas que colocam no papel.

O desenvolvimento não é auto-sustentável. Tanto não é que os cheques especiais (18,5 bilhões em agosto) estão movimentando aproximadamente 222 bilhões de reais ao ano. E se a sociedade encaixa um índice mensal da ordem de 7,6 por cento ao mês dentro de uma velocidade inflacionária de 3,7 pontos para doze meses, é porque algo está, além de confuso, completamente errado. Não pode haver outra tradução.

Dinheiro não surge por milagre. Há um tema que os admiradores incondicionais do capitalismo não fordiano ou keynesiano não aceitam discutir: é a comparação triangular entre os preços, a inflação e as taxas de juros. É um dogma. Como aquele que faz os católicos fugirem invariavelmente da discussão que separa o cristianismo do catolicismo. Um terceiro: os políticos, em grande parte, e vários administradores públicos, escapam sempre quando se coloca a pergunta em torno de como conseguiram adquirir os patrimônios que possuem.

Evidente. As três questões conduzem inevitavelmente à revelação de impropriedades matemáticas. No campo religioso, ainda se pode colocar a fé inabalável como blindagem. Nos outros dois setores não existe recurso ou campo de fuga. São axiomas, ou seja, aquilo para o que não se exige comprovação. Exatamente o oposto do teorema: teor e tema, como o escritor José Lino Grunewald definiu a obra de Pasolini, no polêmico filme de quarenta anos atrás.