Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia
O IBGE ao anunciar os principais dados da Pesquisa Nacional por Amostragem de domicílios, PNAD, mostrou uma realidade estarrecedora em relação aos salários dos trabalhadores: os trabalhadores hoje, em 2007, ganham menos do que ganhavam em 1997, onze anos atrás. Recentemente comentamos em um artigo aqui postado, em 17.09., sob o título “Mistérios e algumas verdades”, esta perda de rendimento. Sim, já foi pior, recuperamos parte das perdas por conta do excelente momento vivido pela economia mundial e que acabou respingando no Brasil.
Porém, este sobe e desce da renda média do trabalhador brasileiro, é um mistério que ainda permanece e incomoda, numa espécie iô-iô macabro. Semana passada, por exemplo, a Fundação Seade e Diese divulgaram um levantamento dando conta desta dança sinistra: pelo terceiro mês seguido, a renda caiu em seis regiões metropolitanas, Belo Horizonte, Distrito Federal, Porto Alegre, Recife, Salvador e São Paulo.O rendimento médio real dos ocupados caiu 0,9% e o de assalariados recuou 1,1%, para R$ 1.043 e R$ 1.114, respectivamente.
"A queda no rendimento pelo terceiro mês seguido é um indício de que a rotatividade é muito alta e que não se estão gerando bons empregos. E essa pode ser uma característica muito típica das regiões metropolitanas, já que os investimentos na indústria estão ocorrendo principalmente no interior do país", disse o coordenador técnico da equipe de análise da Fundação Seade, Alexandre Loloian.
Contudo, há um outro aspecto que precisa ser realçado: noutro estudo, este feito pelo Banco Central na área do crédito, revela que o volume de crédito bancário no País avançou 21,5 por cento ao longo dos últimos doze meses e, em julho, atingiu 800 bilhões de reais. O aumento do volume ganha disparado do crescimento do Produto Interno Bruto no mesmo período, uma vez que este oscila em torno de 4 por cento. A população brasileira passou a ser 1,3 por cento maior, de acordo com o IBGE. Oitocentos milhões de reais, por seu turno, correspondem praticamente a 40 por cento do PIB.
E aí a coisa começa a ficar nebulosa. Sabe-se que o aumento de consumo, em todas as faixas de renda, mas principalmente nas classes D e E, se deve muito a este aporte maior ao crédito, no caso ao crédito consignado, aquele que você paga com desconto em folha, do que por expansão da massa salarial. Na medida em que a renda média decresce, não apenas a capacidade de tomar empréstimos mas de pagá-los com pontualidade, fica comprometida. Há sim um grande índice de inadimplência rondando por aí. Há sim um batalhão de pessoas que estão assumindo novos empréstimos para quitar empréstimos antigos. Mas isto tem um limite, que é o próprio salário dos trabalhadores. Ora, se esta renda progressivamente sofre redução, esta capacidade de contrair empréstimos acaba atingindo seu limite. E, derivado disto, temos duas conseqüências imediatas com extrema gravidade: a inadimplência assume contornos perigosos para o mercado financeiro apesar de seus altos ganhos, e o consumo acaba sofrendo fortes reduções, o que acaba comprometendo os investimentos feitos pelas empresas para a expansão da produção e oferta. Quando ocorre esta retração ocorre o se chama de “estouro da bolha”. Mais ou menos parecido com o que aconteceu nos Estados Unidos, na recente crise imobiliária.
O que preocupa, além desta possibilidade real de estouro de uma bolha de crédito excessivo e não acompanhado de uma expansão da massa dos salários, é que, por conta dele, o custo para tomada de empréstimo fique ainda mais caro do que já é. E isto, por conseguinte, acaba inibindo novos investimentos. Vou além: a maneira de evitar que haja um estouro da “bolha” seria, claro, crescimento econômico acima da média histórica que temos mantido ao longo, reparem, dos últimos 25 anos. Um dos caminhos seria qual? A redução do chamado custo Brasil. Como obtê-lo? Aí a coisa descamba para o colo do governo federal. Vejamos a equação.
É impossível para o país crescer além da média vegetativa que tem mantido se não houver contenção de gastos correntes. Não se tratam nem de investimentos em infra-estrutura, nem tampouco de investimentos sociais. São gastos com a manutenção da máquina pública. E por que isto é necessário? Para que, com o menor gasto por parte do governo, possa haver espaço para uma urgente e indispensável redução da carga tributária. Só com esta redução será possível o país se tornar mais atraente para investimentos em novas plantas industriais e expansão das atuais. Não basta apenas haver incentivos para novos investimentos na área da produção de bio-combustíveis, como o governo tem insistido. O diabo é que esta expansão dos bio-combustíveis tem sido feita, de parte dos investidores estrangeiros, na aquisição de indústrias já existentes. Novas indústrias neste ramo têm surgido através de pacotes de financiamento via BNDES. E cadê de se aumentar os ganhos dos trabalhadores ? Não há. Para que houvesse expansão de renda, os investimentos deveriam ocorrer em outras atividades produtivas, e muitas estão brecadas face a desvalorização da moeda dólar, o que acaba inibindo a exportação. Mantemos um saldo ainda favorável por conta das comoditties, porém estas são dependentes do maior consumo dos asiáticos. Qualquer espirro por lá terá graves conseqüências por aqui.
Ora, quando o governo do vossa excelência apresentou ao distinto público seu primeiro paquinho, se disse que a contratação de novos servidores bem como os aumentos de salários se fariam de acordo como a expansão do PIB. Bem, ficou no papel. O governo há muito abandonou a regra que ele próprio se impôs. E o próprio vossa excelência anunciou nesta semana que “choque de gestão” é contratar mais gente na administração federal. Assim, diante do absurdo, não se pode mesmo esperar que o governo reduza seus gastos. E, por conseqüência, não há espaço nem para se reduzir a carga tributária, tampouco para elevar os investimentos do poder público em infra-estrutura. E fica pior o quadro quando se sabe que, sem redução da carga de impostos, o capital privado não se sente atraído para participar, com sua cota, nos projetos anunciados por vossa excelência no âmbito dos seus pac aqui, pac acolá.
Moral da história: sem crescimento substancial da atividade econômica, amarrada como se vê a desenfreada gastança do poder público, a tendência é de se obter uma elevação muito pequena, ou até redução da massa salarial no país. Afinal, cerca de 1,5 milhão de novas pessoas chegam ao mercado já disputado a tapas entre os que lá já estão. E como a lei da oferta e da procura não vê nem cara nem coração, a tendência é realmente os salários perderem peso. Onde chegamos? A de que crescimento montado em base apenas de crédito consignado ou subsidiado tem prazo de validade. Além dele, a bolha estoura e as perdas acabam prejudicando a todos, principalmente as camadas mais pobres, porque possuem menos recursos para se protegerem em momentos de crise.
Não se trata de terrorismo o alerta que estamos fazendo, e sim, de uma realidade que o mercado várias vezes já reproduziu e, ao que parece, ainda não aprendemos suficientemente a lição, e continuamos insistindo em seguir os mesmos caminhos errados de sempre. Há como que um consenso sobre a estratégia que o governo do vossa excelência tem adotado. É um primarismo estúpido apostar em crescimento econômico fundamentado apenas em expansão do crédito barato. Sem que haja expansão da renda, que por sua vez é derivada do crescimento econômico que depende de menor carga de impostos, menor burocracia, maior segurança jurídica e juros básicos menores, ficaremos travados na estabilidade, mas sem avançar um milímetro sequer. Reparem que no trimestre de forte crescimento como foi o segundo trimestre encerrado em julho, atingimos “gloriosos“ 4,8 %, enquanto nossos parceiros iguais em emergência, pobreza e dificuldades, fizeram pelo menos o dobro. Seria covardia comparar nossos 4,8% com os 11, 4% da China por exemplo. Assim, dado os cenários mundiais, dadas as conquistas de estabilidades econômica e política atingidas já há mais de dez anos, chega a ser ridículo o país comemorar, em 2007, a recuperação de ganhos na renda média que fica abaixo dos níveis que se tinha há 11 anos ... atrás.
O IBGE ao anunciar os principais dados da Pesquisa Nacional por Amostragem de domicílios, PNAD, mostrou uma realidade estarrecedora em relação aos salários dos trabalhadores: os trabalhadores hoje, em 2007, ganham menos do que ganhavam em 1997, onze anos atrás. Recentemente comentamos em um artigo aqui postado, em 17.09., sob o título “Mistérios e algumas verdades”, esta perda de rendimento. Sim, já foi pior, recuperamos parte das perdas por conta do excelente momento vivido pela economia mundial e que acabou respingando no Brasil.
Porém, este sobe e desce da renda média do trabalhador brasileiro, é um mistério que ainda permanece e incomoda, numa espécie iô-iô macabro. Semana passada, por exemplo, a Fundação Seade e Diese divulgaram um levantamento dando conta desta dança sinistra: pelo terceiro mês seguido, a renda caiu em seis regiões metropolitanas, Belo Horizonte, Distrito Federal, Porto Alegre, Recife, Salvador e São Paulo.O rendimento médio real dos ocupados caiu 0,9% e o de assalariados recuou 1,1%, para R$ 1.043 e R$ 1.114, respectivamente.
"A queda no rendimento pelo terceiro mês seguido é um indício de que a rotatividade é muito alta e que não se estão gerando bons empregos. E essa pode ser uma característica muito típica das regiões metropolitanas, já que os investimentos na indústria estão ocorrendo principalmente no interior do país", disse o coordenador técnico da equipe de análise da Fundação Seade, Alexandre Loloian.
Contudo, há um outro aspecto que precisa ser realçado: noutro estudo, este feito pelo Banco Central na área do crédito, revela que o volume de crédito bancário no País avançou 21,5 por cento ao longo dos últimos doze meses e, em julho, atingiu 800 bilhões de reais. O aumento do volume ganha disparado do crescimento do Produto Interno Bruto no mesmo período, uma vez que este oscila em torno de 4 por cento. A população brasileira passou a ser 1,3 por cento maior, de acordo com o IBGE. Oitocentos milhões de reais, por seu turno, correspondem praticamente a 40 por cento do PIB.
E aí a coisa começa a ficar nebulosa. Sabe-se que o aumento de consumo, em todas as faixas de renda, mas principalmente nas classes D e E, se deve muito a este aporte maior ao crédito, no caso ao crédito consignado, aquele que você paga com desconto em folha, do que por expansão da massa salarial. Na medida em que a renda média decresce, não apenas a capacidade de tomar empréstimos mas de pagá-los com pontualidade, fica comprometida. Há sim um grande índice de inadimplência rondando por aí. Há sim um batalhão de pessoas que estão assumindo novos empréstimos para quitar empréstimos antigos. Mas isto tem um limite, que é o próprio salário dos trabalhadores. Ora, se esta renda progressivamente sofre redução, esta capacidade de contrair empréstimos acaba atingindo seu limite. E, derivado disto, temos duas conseqüências imediatas com extrema gravidade: a inadimplência assume contornos perigosos para o mercado financeiro apesar de seus altos ganhos, e o consumo acaba sofrendo fortes reduções, o que acaba comprometendo os investimentos feitos pelas empresas para a expansão da produção e oferta. Quando ocorre esta retração ocorre o se chama de “estouro da bolha”. Mais ou menos parecido com o que aconteceu nos Estados Unidos, na recente crise imobiliária.
O que preocupa, além desta possibilidade real de estouro de uma bolha de crédito excessivo e não acompanhado de uma expansão da massa dos salários, é que, por conta dele, o custo para tomada de empréstimo fique ainda mais caro do que já é. E isto, por conseguinte, acaba inibindo novos investimentos. Vou além: a maneira de evitar que haja um estouro da “bolha” seria, claro, crescimento econômico acima da média histórica que temos mantido ao longo, reparem, dos últimos 25 anos. Um dos caminhos seria qual? A redução do chamado custo Brasil. Como obtê-lo? Aí a coisa descamba para o colo do governo federal. Vejamos a equação.
É impossível para o país crescer além da média vegetativa que tem mantido se não houver contenção de gastos correntes. Não se tratam nem de investimentos em infra-estrutura, nem tampouco de investimentos sociais. São gastos com a manutenção da máquina pública. E por que isto é necessário? Para que, com o menor gasto por parte do governo, possa haver espaço para uma urgente e indispensável redução da carga tributária. Só com esta redução será possível o país se tornar mais atraente para investimentos em novas plantas industriais e expansão das atuais. Não basta apenas haver incentivos para novos investimentos na área da produção de bio-combustíveis, como o governo tem insistido. O diabo é que esta expansão dos bio-combustíveis tem sido feita, de parte dos investidores estrangeiros, na aquisição de indústrias já existentes. Novas indústrias neste ramo têm surgido através de pacotes de financiamento via BNDES. E cadê de se aumentar os ganhos dos trabalhadores ? Não há. Para que houvesse expansão de renda, os investimentos deveriam ocorrer em outras atividades produtivas, e muitas estão brecadas face a desvalorização da moeda dólar, o que acaba inibindo a exportação. Mantemos um saldo ainda favorável por conta das comoditties, porém estas são dependentes do maior consumo dos asiáticos. Qualquer espirro por lá terá graves conseqüências por aqui.
Ora, quando o governo do vossa excelência apresentou ao distinto público seu primeiro paquinho, se disse que a contratação de novos servidores bem como os aumentos de salários se fariam de acordo como a expansão do PIB. Bem, ficou no papel. O governo há muito abandonou a regra que ele próprio se impôs. E o próprio vossa excelência anunciou nesta semana que “choque de gestão” é contratar mais gente na administração federal. Assim, diante do absurdo, não se pode mesmo esperar que o governo reduza seus gastos. E, por conseqüência, não há espaço nem para se reduzir a carga tributária, tampouco para elevar os investimentos do poder público em infra-estrutura. E fica pior o quadro quando se sabe que, sem redução da carga de impostos, o capital privado não se sente atraído para participar, com sua cota, nos projetos anunciados por vossa excelência no âmbito dos seus pac aqui, pac acolá.
Moral da história: sem crescimento substancial da atividade econômica, amarrada como se vê a desenfreada gastança do poder público, a tendência é de se obter uma elevação muito pequena, ou até redução da massa salarial no país. Afinal, cerca de 1,5 milhão de novas pessoas chegam ao mercado já disputado a tapas entre os que lá já estão. E como a lei da oferta e da procura não vê nem cara nem coração, a tendência é realmente os salários perderem peso. Onde chegamos? A de que crescimento montado em base apenas de crédito consignado ou subsidiado tem prazo de validade. Além dele, a bolha estoura e as perdas acabam prejudicando a todos, principalmente as camadas mais pobres, porque possuem menos recursos para se protegerem em momentos de crise.
Não se trata de terrorismo o alerta que estamos fazendo, e sim, de uma realidade que o mercado várias vezes já reproduziu e, ao que parece, ainda não aprendemos suficientemente a lição, e continuamos insistindo em seguir os mesmos caminhos errados de sempre. Há como que um consenso sobre a estratégia que o governo do vossa excelência tem adotado. É um primarismo estúpido apostar em crescimento econômico fundamentado apenas em expansão do crédito barato. Sem que haja expansão da renda, que por sua vez é derivada do crescimento econômico que depende de menor carga de impostos, menor burocracia, maior segurança jurídica e juros básicos menores, ficaremos travados na estabilidade, mas sem avançar um milímetro sequer. Reparem que no trimestre de forte crescimento como foi o segundo trimestre encerrado em julho, atingimos “gloriosos“ 4,8 %, enquanto nossos parceiros iguais em emergência, pobreza e dificuldades, fizeram pelo menos o dobro. Seria covardia comparar nossos 4,8% com os 11, 4% da China por exemplo. Assim, dado os cenários mundiais, dadas as conquistas de estabilidades econômica e política atingidas já há mais de dez anos, chega a ser ridículo o país comemorar, em 2007, a recuperação de ganhos na renda média que fica abaixo dos níveis que se tinha há 11 anos ... atrás.