quinta-feira, outubro 04, 2007

Sinal vermelho para o comércio exterior

Julio Gomes de Almeida
.
Segundo os últimos dados do comércio exterior para setembro, o Brasil irá gerar um grande saldo comercial nesse ano. Não será de US$ 46 bilhões como foi em 2006, mas, salvo alguma surpresa de última hora, ficará acima de US$ 40 bilhões. Nos primeiros nove meses do ano o saldo já é de US$ 31 bilhões, valor este que combina bons desempenhos de exportações e importações. Ambas atingiram valores recordes e cresceram no período a taxas como 15,6% e 28,2%.

Esses números, que parecem tão favoráveis, devem, no entanto, ser vistos com alguma cautela. Isto porque, se considerarmos a evolução nos três últimos meses, no caso das exportações, os percentuais de variação não se apresentam tão favoráveis, e, no caso das importações, superam em muito o desempenho do período acumulado nos nove primeiros meses do ano.

Assim, considerando as médias por dia útil de exportações e importações e comparando os valores do terceiro trimestre desse ano com os seus correspondentes do terceiro trimestre de 2006, o crescimento no primeiro caso foi de 9,3% e, no segundo, de 31,4%. Ou seja, as vendas ao exterior estão crescendo a uma taxa que não chega a 10%, enquanto as compras do exterior evoluem a uma taxa três vezes maior.

A projeção como tendência desses percentuais do terceiro trimestre, naturalmente, resulta em redução dramática do saldo comercial e sua rápida transformação em déficit. Na hipótese de que sejam mantidas as taxas de crescimento desse trimestre para o restante do ano e que essas mesmas taxas se renovem no ano seguinte, o superávit comercial já cairia de um valor próximo a US$ 40 bilhões que deve atingir esse ano para menos de US$ 20 bilhões em 2008.

Mais um ano dessa trajetória e o saldo de comércio cede lugar a um déficit praticamente do mesmo valor. Trata-se de um mero exercício, é claro, no qual especialmente a taxa de crescimento das importações é alta demais para ser projetada para frente sem nenhum ajuste. Mas não vamos perder de vista que não é inconcebível uma combinação de taxas de crescimentos de importações e exportações na proporção de 3 para 1.

No caso das exportações, o efeito desestimulador da taxa de câmbio pode levar a uma evolução apenas modesta de seus valores, que também podem ser influenciados por menor aumento de preços internacionais, sobretudo em produtos manufaturados. A hipótese corresponde, de um lado, à antecipação feita por agências e instituições internacionais de que a economia mundial manterá um ritmo razoável de crescimento devido à continuidade da expansão especialmente da Ásia, mas sofrerá uma desaceleração devido ao menor crescimento nos EUA. Corresponde também à tendência que se pode antever para a taxa de câmbio. A moeda nacional deve seguir muito valorizada e na direção de uma ainda maior apreciação pelo efeito da política monetária, a qual continuará usando largamente a valorização da moeda como instrumento de controle da inflação. A marcha da sobrevalorização do Real somente não ocorrerá no caso de agravamento da crise internacional.

Do lado importador, o alto crescimento estará garantido pela valorização da moeda e pelo crescimento da economia brasileira puxado pelo mercado interno. Não sendo bloqueado por um agravamento da crise internacional ou por exageros de aumentos das taxas de juros por parte do Banco Central diante de receio de aumento de inflação, o crescimento econômico brasileiro poderá se situar na faixa de 4,5%, em função da dinâmica do mercado interno consumidor, da indústria e de segmentos do setor de serviços. Tendo elevada elasticidade tanto com relação às variações da taxa de câmbio quanto ao crescimento doméstico, as importações não deixarão de crescer a taxas de dois dígitos.

Desde já deveria constar da agenda de políticas de governo a questão de como tratar essas tendências do comércio exterior brasileiro, pois, embora possa parecer longínquo, há o risco de que sejam repostas às condições de fragilidade do setor externo. Já deveríamos saber que, no contexto da globalização, fraquezas dessa ordem são punidas severamente, a ponto de impedir processos continuados de crescimento econômico.

Júlio Gomes de Almeida é professor da Unicamp e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda.