domingo, março 13, 2022

Pandemia agravou fome no mundo, indica relatório da ONU

 Deutsche Welle

Estima-se que quase 10% da população global tenha sofrido de desnutrição em 2020. Cerca de 118 milhões de pessoas a mais enfrentaram a fome no ano passado do que em relação a 2019. 

A pandemia de covid-19 contribuiu para o agravamento da fome em todo o mundo, mostra relatório divulgado nesta segunda-feira (12/07) pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Segundo o documento, estima-se que quase 10% da população global tenha sofrido de desnutrição no ano passado, ante 8,4% em 2019

Em 2020, entre 720 milhões e 811 milhões de pessoas passaram fome em todo o mundo. Considerando o meio da faixa projetada (768 milhões), isso significa que 118 milhões de pessoas a mais enfrentaram a fome em relação a 2019.

A conclusão do relatório é um retrocesso para os esforços da ONU para garantir que todos tenham acesso adequado a alimentos e indica que dificilmente será atingida a meta de erradicar a fome até 2030.

O estudo anual Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo também mostra que entre as pessoas que começaram a passar fome no ano passado, 57 milhões estão na Ásia, 46 milhões na África e 14 milhões na América Latina e no Caribe. A África teve o aumento mais acentuado, com 21% de sua população estimada em desnutrição.

"Quase uma em cada três pessoas no mundo [2,37 bilhões] não tinha acesso a alimentos adequados em 2020, um aumento de quase 320 milhões de pessoas em apenas um ano", pontua o relatório.

Atraso no crescimento

Em 2020, estima-se que mais de 149 milhões de crianças menores de cinco anos sofreram atrasos no crescimento ou estavam muito baixas para sua idade e que mais de 45 milhões estavam debilitadas ou muito magras para sua altura. Além disso, quase 39 milhões estavam acima do peso. 

A maior parte das crianças desnutridas com menos de cinco anos vive na África e na Ásia. Essas regiões são o lar de nove em cada 10 crianças com atraso de crescimento e de nove em cada 10 com peso abaixo do previsto para a idade. A maioria das crianças desnutridas vive em países afetados por múltiplos fatores, como conflitos internos, desastres ambientais e crises econômicas.

Três bilhões de adultos e crianças permaneceram excluídos de dietas saudáveis, em grande parte devido aos custos excessivos dos alimentos.

Em todo o mundo, cerca de 30% das mulheres de 15 a 49 anos padecem de anemia. 

O documento diz também que a situação poderia ter sido pior se diversos países não tivessem adotado medidas de proteção social, como o pagamento de auxílio emergencial.

O documento foi elaborado em conjunto com o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA), Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), Programa Alimentar Mundial (PAM) e a Organização Mundial da Saúde (OMS).

O que pode ser feito

Para combater esse cenário, a FAO diz que os governos devem, entre outros pontos, fortalecer a capacidade econômica das populações mais vulneráveis, promover intervenções ao longo das cadeias de abastecimento para reduzir o custo de alimentos nutritivos e combater a pobreza e as desigualdades estruturais.

"Em um mundo de fartura, não temos desculpa para bilhões de pessoas não terem acesso a uma dieta saudável. É por isso que estou convocando uma Cúpula de Sistemas Alimentares global em setembro", disse o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres.

"[Investir em] mudanças em nossos sistemas alimentares iniciará uma mudança para um mundo mais seguro, justo e sustentável. É um dos investimentos mais inteligentes e mais necessários que podemos fazer", acrescentou.

Na semana passada, a organização humanitária Oxfam estimou que atualmente 11 pessoas morram de fome por minuto. "Esse número supera a atual taxa de mortalidade pandêmica, que é de sete pessoas por minuto", aponta a ONG.

As consequências sociais e econômicas da pandemia de covid-19 também agravaram a fome no Brasil. Um levantamento feito por pesquisadores do grupo Alimento para Justiça, da Universidade Livre de Berlim, em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade de Brasília (UnB), mostrou que insegurança alimentar grave ou moderada atingiu 27,7% da população no final do ano passado.

Co informações Agência Brasil,  Agências AFP, AP,Reuters, OTS


Putin não tem saída, e isso realmente assusta

 Thomas L. Friedman, 

O Estado de S.Paulo

Líder russo precisa compreender totalmente que as únicas escolhas que lhe restam são sobre como ele pretende perder a guerra 

Se você espera que a instabilidade causada nos mercados globais e na geopolítica pela guerra de Vladimir Putin na Ucrânia tenha atingido o auge, sua esperança é vã. Ainda não vimos nada. Espere até Putin compreender totalmente que as únicas escolhas que lhe restam são sobre como ele pretende perder: uma derrota mais rápida e menor, com pouca humilhação; ou uma mais prolongada e maior, profundamente humilhado. 

Não consigo nem pensar sobre que tipo de choques financeiros e políticos irradiarão da Rússia – país que é o terceiro maior produtor de petróleo do mundo e possui cerca de 6 mil ogivas nucleares – quando ela perder uma guerra travada pela escolha de um homem que jamais admitiria uma derrota. 

Por que não? “Porque Putin certamente sabe que a tradição nacional russa não perdoa reveses militares”, observou Leon Aron, especialista em Rússia do American Enterprise Institute, que está escrevendo um livro sobre a trajetória de Putin até a Ucrânia.

As derrotas da Mãe Rússia

“Virtualmente todas as grandes derrotas resultaram em mudanças radicais”, acrescentou Aron, escrevendo no Washington Post. “A Guerra da Crimeia (1853-1856) desencadeou a revolução liberal do imperador Alexandre II a partir de cima. A Guerra Russo-Japonesa (1904-1905) ocasionou Revolução Russa. 

A catástrofe da 1.ª Guerra resultou na abdicação do czar Nicolau II e na Revolução Bolchevique. E a guerra no Afeganistão tornou-se um fator crucial para as reformas do líder soviético Mikhail Gorbachev.” O recuo em Cuba também contribuiu significativamente para a remoção de Nikita Kruchev, dois anos depois.

Nas próximas semanas, ficará cada vez mais óbvio que nosso maior problema com Putin na Ucrânia é que ele recusa uma derrota mais rápida e menor, e o único outro resultado será uma derrota maior e mais prolongada. Mas, por esta guerra ser uma guerra exclusivamente dele, e por ele não conseguir admitir nenhum tipo de derrota, Putin poderia continuar dobrando sua aposta na Ucrânia até – talvez – considerar o uso de uma arma nuclear.

Os equívocos de Putin

Por que eu digo que a derrota na Ucrânia é a única opção de Putin e apenas seu cronograma e tamanho estão em dúvida? Porque a invasão fácil e de baixo custo que ele idealizou e a festa de boas-vindas dos ucranianos que ele imaginou não passaram de completas fantasias – e tudo mais decorre disso. 

Putin subestimou totalmente a vontade da Ucrânia de ser independente e se tornar parte do Ocidente. E subestimou totalmente a vontade de muitos ucranianos de lutar, mesmo que isso significasse morrer por esses dois objetivos. 

Ele superestimou totalmente suas próprias Forças Armadas. E subestimou totalmente a capacidade do presidente Joe Biden de galvanizar uma coalizão global, econômica e militar, para possibilitar aos ucranianos resistir, lutar e devastar a Rússia domesticamente – o mais eficaz esforço de formação de coalizão dos EUA desde que George Bush pai fez Saddam Hussein pagar pelo desvario de invadir o Kuwait. 

E Putin subestimou totalmente a capacidade de empresas e indivíduos de todo o mundo de tomar parte das sanções econômicas contra a Rússia e amplificá-las – para muito além do que foi iniciado ou determinado por governos.

Quando você se confunde tanto como líder, sua melhor opção é uma derrota menor e mais rápida. No caso de Putin, isso significaria retirar suas forças da Ucrânia imediatamente, contando alguma mentira que justificasse sua “operação militar especial”, como alegar que foi bem-sucedido em proteger russos que vivem na Ucrânia, prometendo ajudar seus irmãos russos na reconstrução. Mas a inescapável humilhação certamente seria intolerável para este homem obcecado em restaurar a dignidade e a unidade de sua Mãe Rússia.

  Os riscos de uma humilhação 

A propósito, do jeito que as coisas vão na Ucrânia neste momento, existe a possibilidade de Putin poder, na verdade, sofrer uma derrota rápida e maior. Eu não apostaria nisso, mas a cada dia que mais e mais soldados russos são morto, quem sabe o que poderá acontecer com o espírito de luta dos conscritos do Exército russo recebendo ordens para combater numa mortífera guerra urbana contra irmãos eslavos, por uma causa que jamais lhes foi verdadeiramente explicada. 

 Dada a resistência de ucranianos de todos os cantos à ocupação russa, para Putin “vencer” militarmente, seu Exército precisará subjugar todas as grandes cidades da Ucrânia. Isso inclui a capital, Kiev – o que, provavelmente, exigirá semanas de guerra urbana e custará baixas civis massivas. 

Resumindo, isso só pode ser feito se Putin e seus generais perpetrarem crimes de guerra que não são vistos na Europa desde Adolf Hitler. Isso tornará a Rússia de Putin pária internacional permanentemente. 

Além disso, como Putin seria capaz de manter o controle de um país como a Ucrânia, que possui cerca de um terço da população da Rússia, com muitos moradores hostis a Moscou? Ele, provavelmente, teria de manter por lá cada um dos mais de 150 mil soldados que acionou para a invasão – ou mais – eternamente.

Não vejo nenhum caminho para Putin vencer na Ucrânia de alguma maneira que se sustente, simplesmente porque ele não invadiu o país que pensou ter invadido: um local que ansiava uma rápida decapitação de sua liderança “nazista”, para poder retornar gentilmente ao colo da Mãe Rússia. 

O caminho mais fácil

Então, ou ele minimiza as perdas e aceita a humilhação – e, para sua sorte, consegue escapar das sanções, ressuscita a economia russa e se mantém no poder — ou encara uma guerra eterna contra a Ucrânia e grande parte do mundo, que consumirá gradualmente a força da Rússia e arruinará sua infraestrutura. 

Já que ele parece aferrado à segunda hipótese, estou apavorado. Porque só há uma coisa pior do que uma Rússia forte sob Putin: uma Rússia enfraquecida, humilhada e desordenada, que poderia se fraturar ou acabar em meio a uma prolongada turbulência política, com diferentes facções se engalfinhando pelo poder – e todas aquelas ogivas nucleares, todos aqueles cibercriminosos e todos aqueles poços de petróleo e gás dando sopa. A Rússia de Putin não é grande demais para não fracassar. Mas é grande demais para fracassar sem levar junto o restante do mundo. / 

TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO 


É a Rússia, não a URSS, que ataca a Ucrânia

  Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Muita gente, lá fora e aqui, está cometendo um grande equívoco: pensar a Rússia como se fosse a União Soviética. Não é.

No tempo da URSS, Moscou tinha uma mensagem não apenas para a Europa, mas para o mundo todo. O marxismo soviético era uma construção completa: definia desde a organização da sociedade política, da produção e distribuição de riqueza até a vida cultural.

Mais importante: essa ideologia era partilhada mundo afora. Nos países já no âmbito da URSS, havia partidos, militância e apoios locais ao marxismo soviético.

Não se tratava de uma “simples” dominação externa, mas de identidade ideológica, pelo menos de parte das populações.

Mais ainda: em muitos países que estavam na órbita do Ocidente, havia partidos comunistas de sólida representação popular. Itália e França, por exemplo.

Noutros países, havia PCs ilegais, mas muito atuantes, especialmente no setor cultural.

Em Moscou, existia uma universidade onde só estudavam alunos de outros países. Uma escola séria, competente no ensino de História, política e cultura, do ponto de vista do marxismo soviético.

A Guerra Fria, portanto, era uma disputa entre duas visões de mundo articuladas.

Uma dessas visões simplesmente veio abaixo. O socialismo soviético morreu —e por ação de suas populações locais. Reparem: o muro ruiu sem que o Ocidente precisasse dar um tiro.

Não houve invasão do Leste, nenhuma conquista. Apenas as populações locais, quando puderam ver o que acontecia no outro lado do mundo, decidiram mudar de vida e de regime. Para o marxismo soviético, foi uma vergonha como os alemães orientais correram para comprar Coca-Cola em Berlim.

Como os ex-socialistas se arrumaram? O pessoal da Europa do Leste entendeu rapidamente que o melhor negócio era entrar para a União Europeia —um mar de prosperidade. Bastava olhar como Espanha e Portugal saíram da pobreza com a entrada na UE.

A China, sempre mais competente, já percebera a mudança — e introduzia o capitalismo e a propriedade privada, base de sua ascensão, ainda que com forte controle estatal.

As opções ficaram assim, simplificando: qual capitalismo se vai seguir, com mais ou menos Estado?

Na política, também simplificou-se: ou a democracia ou a ditadura.

A Rússia de Putin é o quê? Um capitalismo de compadres, crony capitalism, e uma ditadura assassina. E um maluco que se acha na “Grande Rússia”.

Para o ex-soviéticos, bastava entrar na União Europeia em busca de prosperidade. Não se interessavam pela Otan, muito menos por hostilizar a Rússia.

Por que, num determinado momento, resolveram entrar para a Otan? Por causa das ameaças de Putin, quando ele conseguiu dar uma arrumada na Rússia.

Em resumo, a URSS tinha uma proposta para o mundo — um baita equívoco, como se viu depois. Mas brilhou durante muito tempo.

A Rússia de Putin oferece o quê? Ameaças imperialistas.

Portanto chega dessa história de avanço da Otan para o Leste. Foram as populações do Leste que, democraticamente, fizeram sua opção.

Azar da Ucrânia, que se atrasou com aquele ditador pró-russo. Aliás, reparem: só ficam com a Rússia os ditadores, incluindo os nossos aqui da América Latina.

A Rússia não foi ameaçada. Ela é a ameaça. E Putin cairá do mesmo modo que caíram os outros: pela reação de seu próprio povo.

Chega de comparar a invasão da Ucrânia com Iraque, Líbia, Síria, Afeganistão — Estados incentivadores de terrorismo. EUA e Europa têm seus pecados, mas não se pode compará-los à Rússia de Putin.

A Europa abriu-se a negócios com as empresas russas. Companhias e investidores ocidentais foram para a Rússia. Empresas russas se instalaram na Europa.

Por que Putin simplesmente não deixou essa integração prosseguir? A melhor hipótese: ele temia que a ligação “excessiva” com o Ocidente mostrasse aos russos onde a vida é melhor.

E Putin simplesmente não podia se juntar à União Europeia. Seu regime não passa nos critérios de democracia e legislação de direitos humanos.

Sobrou o quê? Uma tentativa de formar um império de ditadores.


Bolsonaro tem de aprender a respeitar as religiões

 Antonio Carlos Prado

Revista ISTOÉ

 (Crédito: Isac Nobrega)

EM BRASÍLIA Bolsonaro recebe líderes evangélicos, em 2020 

Chamar gente para uma reunião sem explicitar a pauta do encontro significa que o anfitrião possui, no mínimo, uma agenda camuflada. Sem agenda ele não está.

Foi assim que o presidente Jair Bolsonaro agiu ao convidar pastores evangélicos, ministros de Estado, líderes políticos e parlamentares para uma conversa informal no Palácio da Alvorada.

O que ele queria mesmo era a presença dos religiosos, e a forçada de barra, com direito a lágrimas, ao tocar no assunto da facada que o feriu em 2018 durante a campanha à eleição presidencial evidenciou que o motivo da reunião era um só: pedir apoio a sua reeleição.

Bolsonaro, a certa altura da conversa, implorou por adesão: “eu dirijo a Nação para o lado que os senhores desejarem”. Pedir votos de forma mais descarada é impossível. E de forma mais mentirosa, também.

Jair Bolsonaro sabe de um importante ponto: o Brasil é uma República e, como tal, o Estado é laico. Não pode ele, Bolsonaro, privilegiar o “lado” que os evangélicos “desejarem” para os rumos do País, nem pode ele, Bolsonaro, atender exclusivamente, nesse sentido, católicos, umbandistas, anglicanos, judeus ou todas as demais religiões existentes no País.

O presidente da República, no Brasil republicano e democrático, tem de governar para todos os brasileiros sem distinção de credo, etnia, gênero ou condição social. Todas as religiões e todos os credos merecem respeito. Bolsonaro não pode fazer deles instrumentos de demagogia.

Seria interessante se Bolsonaro repetisse essa fala a outros religiosos. Dita uma vez já é demagogia pura, imagine se ele a repetisse a líderes de diversas crenças? E é demagogia porque fica implícita a seguinte questão: e se outra religião optar por outro destino (“lado”) para o País que não o destino (“lado”) escolhido, por exemplo, pelos evangélicos?

E aí, como é que fica? E se os umbandistas, por sua vez, quiserem outro rumo?

Tudo isso são somente reflexões que valorizam todas as religiões de forma isonômica e respeitosa, até porque está chegando o crepúsculo de Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto — é mais fácil manadas passarem ao mesmo tempo pelo buraco de uma agulha do que ele ser reeleito. E há, finalmente, um detalhe importante: seja qual for a religião, ela sempre vai querer o bem do Brasil. E o bem do Brasil só é possível com Bolsonaro no ostracismo político.


Presidente, o Estado é laico

 Ascânio  Seleme

O Globo

Alguém consegue imaginar alguns dos recentes ex-presidente chorando copiosamente diante de pastores evangélicos e dizendo que conduziria o país na direção que eles desejassem?

Alguém consegue imaginar Fernando Henrique Cardoso chorando copiosamente diante de pastores evangélicos e dizendo que conduziria o país na direção que eles desejassem? Ou Lula? Ou Michel Temer? Não, jamais. Trata-se de cenário impensável até três anos atrás. Agora, com Bolsonaro, um episódio desse não apenas é possível como de fato aconteceu. O presidente ofereceu a Nação brasileira a líderes evangélicos em cerimônia no Palácio do Planalto na terça-feira passada. E o que se viu? O Congresso reagiu com a força que a situação exigia? Não. O Supremo reagiu? Nada, ninguém se mexeu. Bolsonaro confrontou um dos princípios fundamentais da Constituição, que estabelece a laicidade do Estado, e ninguém se abalou.

Claro que Bolsonaro é um oportunista, estava fazendo campanha no horário de expediente e jamais conseguiria submeter o Estado brasileiro à vontade do grupo religioso que o abençoava com promessa de votos. Mas a simples intenção de terceirizar o poder concedido pelo eleitor é um absurdo que merecia a mais ampla desaprovação de todos. Não houve admoestação porque ninguém mais dá bola para as seguidas infrações ao bom senso e à ética e aos inúmeros crimes de responsabilidade cometidos pelo presidente. O fato, contudo, escancara uma linha de ação que Bolsonaro vem seguindo desde a sua posse e será mantida no caso da sua reeleição. E se constitui em grande problema a ser enfrentado.

Ninguém tem dúvida de que o presidente fará novas concessões a igrejas evangélicas se for reeleito, o que não significa entregar o Estado aos seus desígnios, como ele afirmou na cerimônia no Planalto. Mas estas concessões são importantes e se apresentam na forma de isenções fiscais, que enriquecem igrejas, bispos e pastores, como projetos de lei moldados à semelhança do conservadorismo religioso da turma, ou vetos igual ao prometido para o projeto que libera jogos no Brasil. Poucos as consideram adequadas e moralmente aceitáveis. Mesmo aqueles mais devotos, mas que conseguem discernir o certo do errado, entendem o equívoco deste alinhamento automático.

Os evangélicos somam 31% da população brasileira, segundo o Datafolha. São quase um terço do total, o que não é pouca coisa. Muitos fiéis agem como verdadeiros rebanhos e seguem cegamente as orientações de seus pastores, inclusive as políticas. Por isso, eles têm tanto valor em época de campanha eleitoral. Por isso também, Bolsonaro promete entregar aos seus líderes o que não lhe pertence. Apenas entre os evangélicos o presidente bate Lula nas intenções de voto, segundo as mais recentes pesquisas eleitorais. Lula ganha em todos os segmentos e perde com dez pontos de diferença para o seu rival entre os evangélicos. Diante disso, é fácil entender a promessa e as lágrimas do presidente.

Lula também conversa com líderes evangélicos, embora sua tática seja tentar ganhar o apoio diretamente do fiel, falando com ele, na sua linguagem. Da mesma forma ele faz promessas, mas não oferece o comando da Nação, como Bolsonaro. O PT perdeu sua base evangélica ainda no governo de Dilma Rousseff, que esticou a corda a favor de valores que considerava corretos e modernos, mas sem fazer o necessário cálculo político. De lá para cá, a bancada evangélica no Congresso foi gradualmente se alinhando com as pautas mais conservadoras e hoje faz coro com os extremistas de direita que apoiam Bolsonaro incondicionalmente.

Essa bancada é formada por bispos e pastores das mais importantes e ricas igrejas evangélicas do país. No governo, na Esplanada dos Ministérios, entre as autarquias e estatais, o presidente assentou outro bom número de líderes religiosos em cargos do primeiro e do segundo escalões. No Supremo, como prometido, Bolsonaro estacionou o “terrivelmente evangélico” André Mendonça. São esses homens, deputados, senadores, ministros, presidentes e diretores de empresas públicas e juízes evangélicos que conduzem os fiéis. São líderes incontestáveis em suas igrejas. Cargos e funções importantes causam impacto entre os fiéis mais simples, pagadores de dízimos, que creem em Deus e temem o juízo final. A estes, Bolsonaro promete o céu. 

O que mudou?

O Tribunal de Contas da União revelou esta semana que conseguiu economizar para os cofres da União R$ 54 bilhões em 2021. Um valor extraordinário, considerando que cabe ao TCU evitar erros administrativos, impedir e punir crimes contra o patrimônio público. No ano anterior, informou o tribunal, a economia gerada foi de R$ 13 bilhões, ou R$ 41 bi a menos. O que você acha que aconteceu de um ano para o outro? Das duas, uma: ou o governo Bolsonaro errou mais e tentou cometer mais crimes do que no passado, ou o TCU melhorou seus processos de fiscalização. Em qual você aposta?

Vai que cola

O presidente do Senado anunciou que não será candidato a presidente da República porque a campanha seria incompatível com a presidência do Congresso. Bonito, mas não é bem assim. Rodrigo Pacheco estava na sobra, lançado pelo presidente de seu partido, Gilberto Kassab, esperando uma brecha, que não apareceu. Se tivesse aparecido, por ela entraria na disputa. Disse que nunca afirmou que seria candidato. Mas também não disse o contrário. Deixou rolar o “vai que cola”. Poderia ter sido um bom candidato.

Mourão em campanha

O vice-presidente apareceu esta semana com uma novidade. Trocou o eterno escudo do Flamengo da sua máscara preta pela bandeira do Rio Grande do Sul. Mais explícito, impossível.

As caras de bolso

Tem algumas pessoas que conseguem mudar em segundos seu semblante, indo de uma estampa de alegria imensa a outra de tristeza infinita. São atores que melhor desempenham este papel, treinados em muitos anos diante das câmeras e nos palcos. Eles dizem que trazem cada um dos seus personagens no bolso, que é da sua natureza profissional fazer rapidamente a troca. É disso que vivem. No Palácio do Planalto viu-se na terça-feira, dia 8, um desempenho memorável de nosso presidente dublê de artista. Numa reunião com evangélicos, quando disse que entregaria a eles os destinos da Nação, chorou copiosamente. Pouco depois, numa homenagem ao Dia Internacional da Mulher, na qual afirmou que as mulheres “estão praticamente integradas à sociedade”, riu desbragadamente, como se tivesse ouvido a piada mais incrível do anedotário nacional. Ele com cara de bolso, e nós com cara de bobos.

Vergonha

Augusto Aras, francamente, que vergonha, igualou-se a Bolsonaro e Paulo Guedes no quesito desrespeito às mulheres. Os dois as medem pela beleza, lembra-se do episódio da mulher de Emmanuel Macron? Aras as dimensionou pelo esmalte e pelos sapatos. Deve um pedido de desculpas. Não adianta dizer que foi mal-entendido. Melhor pedir desculpas, mesmo que sejam esfarrapadas.

Tsunami

Levantamento feito pelo jornal “O Estado de S. Paulo” mostra que 31 cadeiras nos tribunais superiores, sendo duas do STF e quatro no STJ, deverão ser preenchidas pelo presidente que for eleito em outubro. Se Bolsonaro for reeleito, poderemos ter uma avalanche de kassios e mendonças. Caso Lula vença, poderemos assistir a um vendaval de toffolis e fachins. Caberá ao eleitor escolher entre o tsunami e o furacão.

Garimpo oportunista

Não há limite para o oportunismo do governo e seus aliados no Congresso. O projeto para a abertura de mineração em terra indígena sob a alegação de que vai faltar potássio para a fabricação de fertilizantes em razão da invasão da Ucrânia é abusivo e cínico. Há diversas lavras em estudo, em processo de implementação ou já liberadas e que não são exploradas. Em janeiro do ano passado, o Ministério das Minas e Energia anunciou no site oficial do governo que o Serviço Geológico do Brasil havia identificado potássio na Bacia do Amazonas com reservas de 3,2 bilhões de toneladas. O Brasil importou 10,45 milhões de toneladas de potássio em 2019, o que dá uma ideia do potencial da reserva. Ocorre que parte das áreas onde identificou-se o minério é terra indígena, como a de Autazes (AM). Lá, a mineradora Potássio do Brasil, subsidiária do banco canadense Forbes & Manhattan, já estava fazendo prospecções desde a década passada e acabou tendo que suspender a exploração quando entrou em território indígena. A canadense será a maior beneficiária se o projeto de Bolsonaro prosperar, além dos garimpeiros que degradam terras e rios em busca de ouro e pedras preciosas.

Polônia e poloneses

Merece um destaque a espetacular acolhida que a Polônia e os poloneses têm dado aos refugiados ucranianos. Além de remédios, comida, roupas, transporte, abrigo e flores, os poloneses emocionaram o mundo ao oferecer brinquedos e carrinhos de bebês aos meninos e meninas fugitivos da invasão bárbara, que alguns insistem em chamar de guerra.

Nosso Rio

A nossa querida capital provou mais uma vez que está à frente de seu tempo. Na terça-feira, o prefeito Eduardo Paes anunciou o fim do uso obrigatório de máscaras em qualquer ambiente, aberto ou fechado. Saiu na frente de São Paulo, vejam só. Mas, esperto, o governador João Doria anunciou no dia seguinte medida semelhante, mas apenas para ambientes abertos, mantendo o uso de máscaras obrigatório em bares, restaurantes, cinemas, táxis, ônibus, etc. Até o presidente da França seguiu o exemplo do nosso intrépido prefeito. Emmanuel Macron autorizou o fim da máscara também em ambientes fechados, mas apenas para quem apresentar comprovante de vacinação completa. Aqui, não, “sem hipocrisia”, aqui, vale tudo.


A Câmara deu um tapa na cara do país ao aprovar urgência do tema que tem que ser debatido

 Míriam Leitão

O Globo

 | Sergio Lima / AFP

Ato em defesa da Terra e o do meio ambiente, em Brasília, no dia

 9 de março de 2022, e contra o projeto que libera mineração em Terra Indígena 

A Câmara deu um tapa na cara do país com a aprovação da urgência do PL 191. Foi exatamente no dia do Ato da Terra. E não pense o leitor que isso é coisa de artista e de ONGs. O projeto de mineração em terra indígena interessa a meia dúzia de mineradoras e aos garimpeiros e eles não estão atrás de potássio, e sim de ouro e outros metais nobres. O risco para o país é gigante.

Tenho conversado com especialistas de diversas áreas, tanto de agricultura, quanto de mineração e de proteção ambiental. Eles são unânimes. Não é necessário invadir Terra Indígena para aumentar a produção de potássio no Brasil. Pelo contrário, as ocorrências não são lá. São predominantemente em Sergipe, Minas, Amazonas, em terras fora das TIs. Na Amazônia inclusive é antieconômica, porque as minas estão em grande profundidade e perto da calha dos grandes rios. A exploração é de alto custo e além disso há riscos de inundação da mina. É por isso que a Petrobras tem há tanto tempo direitos de lavra e não levou os projetos adiante. E por isso que a Vale também não está lá.

Conversei com João Paulo Capobianco da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura e ele disse que os empresários do agronegócio, que estão na Coalizão, acham que esse projeto pode provocar ainda mais barreiras aos nossos produtos, porque o desmatamento e a questão indígena são supersensíveis.

Dois terços das reservas brasileiras estão fora da Amazônia. A Agência Nacional de Mineração tem quase 500 processos ativos de exploração de potássio em andamento e fora das Terras Indígenas. Dentro das TIs há uma quantidade ínfima.

Tenho conversado também com especialistas em agricultura, como Eduardo Assad, da Embrapa, e o que eles dizem é que há alternativas para reduzir a demanda por fertilizantes já desenvolvidas pela Embrapa e pelas universidades. O Brasil poderia cortar à metade a demanda por fertilizantes porque é o maior consumidor do mundo.

O governo sabe tudo isso, mas o que está acontecendo é que o presidente Bolsonaro e presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), estão mentindo ao país. O problema é real, a falta de fertilizantes a curto prazo é um fato, mas a solução é falsa e ainda é perigosa. Bolsonaro em qualquer crise vende uma falsa solução que tem muitos efeitos colaterais. É a síndrome cloroquina, como tenho dito aqui.

O PL 191 atende a uma minoria de mineradoras, garimpeiros e maus empresários do agronegócio. A voz que se ouviu através de Caetano Veloso e outros artistas é que representa o interesse real do país.


Traíra, truta. E querem robalo.

 Carlos Brickmann 

Preocupado com a alta dos combustíveis? Pois virá alta maior, já que o petróleo tipo Brent, padrão dos americanos, oscilava em torno de US$ 120 o barril e, no momento em que o caro leitor estiver lendo esta coluna, talvez já esteja a US$ 130. Traduzindo: no início de 2022, já prevendo que haveria um forte aumento do petróleo, o tradicional grupo Goldman&Sachs estimava em dólar a uns US$ 100 o barril até o fim do ano. Aí veio a guerra, vieram as sanções, e hoje o mesmo grupo calcula uns US$ 180 o barril no fim do ano. Com 10% a mais ou a menos, não se surpreenda se chegar a US$ 200.

Mas esta não deve ser sua maior preocupação. O trigo já subiu uns 50% desde o início da guerra, há umas duas semanas. Deve subir mais, pois tanto Rússia quanto Ucrânia estão entre os maiores produtores e exportadores do mundo. O Brasil consome pouco mais de 13 milhões de toneladas por ano, das quais entre cinco e sete milhões vêm do Exterior. Sobe o trigo, sobem pão, macarrão, alimentos básicos. A alta do petróleo faz com que o trigo suba mais, por causa do transporte. E, embora isso dependa de uma série de outros fatores, a alta (ou falta) de fertilizantes, que importamos da Rússia, Belarus e região, também joga para cima não só o preço do trigo, mas de toda a safra.

Pouco? Quem comanda a economia é Bolsonaro. Que já disse que está louco para largar o bastão e se dedicar à pescaria. Os peixes visados sabemos quais são – esses do título. Pior é que largar o bastão é o que ele menos quer.

Hora dos profissionais

No meio da confusão da economia, e com problemas externos, seria a hora de juntar um grupo de grandes profissionais, talvez até formando um governo de união, para evitar que a economia descambe mais e para garantir a toda a população o essencial: três refeições por dia.

Mas o superministro da Economia está mais preocupado em manter-se no cargo do que em exercê-lo. União nacional nem seria difícil: muitos que apoiaram Dilma e Lula hoje apoiam Bolsonaro, e se Lula ganhar se atiram de novo em seus braços. O problema é fazer a divisão – não do governo, mas dos frutos do governo.

Caminhos a escolher - petróleo

E há como trabalhar enfrentando e vencendo dificuldades. Petróleo, por exemplo: o Brasil produz boa parte do que consome, a custo bem mais baixo que o do óleo importado. Produz biodiesel vegetal, que é misturado ao diesel na proporção de 12% (e poderia elevar a mistura a 14%), produz etanol, e mistura 27% à gasolina. Há setores que defendem o uso de gás natural em caminhões, em vez do diesel. Garantir que a Petrobras não seja assaltada também é bom. Estatal ou privada, a Petrobras é um símbolo do Brasil. Não valeria a pena verificar se tudo na empresa funciona como deve?

Caminhos a escolher – fertilizantes

Há duas lendas sobre fertilizantes no Brasil: uma, de que não temos como produzi-los; outra, de que há matéria-prima, mas só em terras indígenas. São lendas. Sergipe tem potássio (a dona é a Vale) e poderia triplicar a produção, mas ninguém investe. Há potássio do Recôncavo Baiano ao Espírito Santo, mas não se pesquisa o potencial das jazidas. Há muito potássio na Amazônia, da confluência do rio Madeira com o Amazonas a até 400 km de distância.

De fósforo, também essencial, temos uma dúzia de pontos de produção, que já respondem por metade do consumo nacional. É estudar como ampliar a produção. Isso dá trabalho, pede investimento. Botemos a culpa nos russos.

Proposta de paz

O Governo israelense propôs à Ucrânia que leve a sério a possibilidade de atender a algumas exigências russas para fazer a paz. Principais pontos: desistir de Donestk e Donbas, de maioria russa, que se converteriam em repúblicas independentes; declarar-se neutro; e comprometer-se a não aderir à OTAN.

Se não aceitar as condições, disseram os israelenses, os russos irão até o fim, e a Ucrânia, cedo ou tarde, será destruída. Não se trata de um plano israelense de paz: dizem altos oficiais que apenas levam mensagens de um lado a outro do conflito. Israel tem boas relações com os EUA, seus aliados, e a Rússia, que garante o regime sírio, mas não se opõe às incursões dos caças israelenses contra alvos iranianos (que os russos também não querem por lá).

Um rabino para todos

O jornalista Jayme Brener lança na quinta-feira, 17, a biografia “Henry Sobel – o rabino do Brasil”, com novidades sobre a trajetória do rabino que enfrentou a ditadura militar e acelerou o diálogo inter-religioso no país. O lançamento acontece às 19h na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo. Mais informações em www.henrysobel.com.br .

Li o livro e gostei. Fala de qualidades e defeitos, não trata o rabino como um ser perfeito – perfeito, só o Senhor. Humano, muito humano. Fã do rei David, homem também imperfeito, que escreveu salmos religiosos eróticos, unificou o povo judeu e mandou um general amigo para a morte certa, para ficar com sua esposa Betsabá. Um dos filhos do casal foi o rei Salomão.

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Vozes do agro contra a boiada

 Elio Gaspari

O Globo

Coalizão Brasil Clima, que reúne empresas, bancos e associações de agricultores, dissociou-se dos agrotrogloditas e do garimpo ilegal

Para o bem de todos e felicidade geral da nação, a Coalizão Brasil Clima, que reúne empresas, bancos e associações de agricultores, dissociou-se dos agrotrogloditas e do garimpo ilegal que tentam passar a boiada da mineração em terras indígenas por conta da guerra na Ucrânia.

Na parolagem, o caso é simples: o Brasil precisa de fertilizantes, eles vêm de lá e da Rússia. Cortada a linha de comércio, seria necessário minerar o potássio que está em terras indígenas da Amazônia.

Faz tempo que Jair Bolsonaro fala desse potássio. É um aspecto de sua fixação em metais e produtos mágicos. Na pandemia, cloroquina, fora dela, grafeno e nióbio. Indo mais adiante, uma pesquisa para transmitir de energia por cima da floresta, sem cabos.

A Coalizão Brasil Clima bateu de frente contra esse avanço nas terras indígenas, que tramita em regime de urgência na Câmara. Para evitar que se passe a boiada, ela informa:

“O garimpo em terras indígenas não resolve o problema dos fertilizantes”. Dois terços das reservas de potássio estão fora da Amazônia. Nela, só 11% estão em terras indígenas. Se as reservas nacionais começarem a receber investimentos amanhã, a autossuficiência virá depois de 2100.

Mais:

“A Agência Nacional de Mineração conta com mais de 500 processos ativos de exploração de potássio em andamento que poderiam ser viabilizados sem agressão aos territórios dos povos originários.”

“A guerra entre Rússia e Ucrânia, portanto, não deve ser um pretexto para a aprovação de um PL que ainda não foi adequadamente debatido pela sociedade e, sobretudo, não foi consultado com as organizações representativas dos povos indígenas, os maiores interessados no assunto.”

“A Coalizão Brasil Clima (...) defende que o Congresso volte sua atenção para outra discussão urgente — os diversos obstáculos encontrados no país para a produção de fertilizantes, como a insegurança jurídica, o sistema tributário e outros problemas regulatórios, que fazem com que produtos importados sejam mais competitivos do que os nacionais.”

No clima do Regresso, querem passar a boiada às custas de guerra. Em 1843, esse mesmo clima negava apoio a uma ferrovia ao mesmo tempo que desafiava a Inglaterra amparava o contrabando de negros escravizados trazidos da África. Quase dois séculos depois, o governo alavanca os interesses do chamado garimpo ilegal, quando a Polícia Federal sabe e denuncia a associação dessa atividade com o crime organizado. Um amigo desses “garimpeiros” movimentou R$ 125 milhões em três anos. 

A quem interessar possa: A Coalizão Brasil Clima reúne mais de uma dezena de associações do agronegócio e algumas das joias do empresariado e associações do agronegócio. Sem que isso signifique apoio de cada uma dessas empresas à posição vocalizada pela instituição, aqui vão algumas delas:

Amaggi, Basf, Bayer, Bradesco, BRF, Brookfield, BTG Pactual, Cargill, Carrefour, Danone, Eucatex, Gerdau, Grupo Boticário, JBS, Klabin, Nestlé, Santander, Suzano e a Vale.

Siga a música

O maestro Herman Makarenko dirigiu uns vinte músicos da Orquestra Clássica de Kiev na praça Maidan, a da Independência, e tocou a Ode à Alegria da Nona sinfonia de Beethoven. Esse momento de genialidade tornou-se o Hino da Europa. No frio, tocaram com gorros.

A peça exigiria uns 70 músicos, mais um coral, e valeu mais que uma coluna de tanques.

A cena falou pela alma de um povo. Em julho de 1991, antes do colapso da União Soviética, o engenheiro cibernético Mikhail Izumov aconselhava: “Se você quer achar a democracia em São Petersburgo, siga a música.” Parecia licença poética de um desencantado que durante 33 anos estivera filiado ao Partido Comunista.

A alguns quarteirões de distância da sala onde ele dizia isso, ficava o Palácio de Mármore, presenteado por Catarina, a Grande, ao jovem conde Orloff, um de seus favoritos. Depois da revolução, virou Museu Lênin. Lá estava o carro de onde ele discursou ao retornar à Rússia, em abril de 1917, bem como o Rolls Royce do czar que usava no governo. Tinha cabides para 1.320 sobretudos, mas naquela tarde havia um só visitante. 

Em 1991, o museu era parcialmente sustentado pelos concertos de um grupo de músicos.

BC independente

Em tese, todo mundo aceita a independência do Banco Central, salvo quando surge um pleito que lhe interessa. Para os poderosos do momento, a surpresa veio quando quiseram mexer na equipe do Conselho de Controle de Atividades Financeiras, conhecido como Coaf.

Ele foi do ministério da Justiça para o da Economia e de lá para o Banco Central.

Banco Central independente, independente é, ou tenta ser.

Feirão

Descambou a abertura das janelas que permitem aos parlamentares trocas de partido. Se não surgir algum tipo de constrangimento, haverá partidos afixando nas suas portas a cotação do dia.

Promessa do gás

O ministro Paulo Guedes tem toda razão quando diz que a economia brasileira sofre o impacto de uma guerra depois de ter sido atingida pelo meteoro da pandemia.

Contudo, ele deve moderar o tom das críticas de quem sugere subsídios para os combustíveis. Afinal, foi o seu chefe quem prometeu bujões de gás a R$ 35.

Eles passaram dos R$ 100.

Diante dos aumentos, Bolsonaro diz que “eu não decido nada”. Decidir,  podia decidir, mas de qualquer forma, não deveria ter prometido. 

As contas de Lula

Lula deu várias demonstrações de que não quer partir para uma desforra pelos 580 dias que passou na cadeia.

Parágrafo único: ficam fora desse esquecimento os membros do Judiciário que lhe impuseram constrangimentos inexplicáveis e desnecessários.

Eduardo Leite

Talvez o governador Eduardo Leite não tenha percebido, mas apesar de todas as construções de laboratório, o mais provável é que ele dispute, com chances, a reeleição para o palácio Piratini.

Recordar é viver

Uma vinheta ilustrativa da pitoresca frieza a que recorrem os diplomatas profissionais:

No dia 21 de agosto de 1968, o embaixador brasileiro João Augusto de Araújo Castro estava na presidência do Conselho de Segurança da ONU e telefonou para seu colega soviético Yakob Malyk, convocando-o para uma reunião extraordinária.

Qual é a agenda? Perguntou Malik.

Na noite anterior as tropas soviéticas haviam invadido a Tchecoslováquia.

Covid

A guerra abafou a marca dos 650 mil mortos de Covid.

Pelo andar da carruagem a marca de 700 mil desgraças será batida durante a campanha eleitoral.


Traços de união

 Dora Kramer 

Revista VEJA

Posição sobre a Rússia não é o único ponto em que Lula e Bolsonaro se assemelham na ação e no pensamento

 // Marcelo Camargo/Agência Brasil; Ricardo Stuckert/Instituto Lula

Situados formalmente em campos ideológicos opostos, os dois

 são mestres em criar identificação com os respectivos públicos-alvo 

Nada irrita mais os adoradores de Jair Bolsonaro e de Luiz Inácio da Silva que o traçar de paralelos entre um e outro. Chamam isso de “falsa equivalência” decorrente da má-fé dos implicantes. O tema vai e volta. Voltou recentemente a propósito da ambiguidade de ambos na condenação à Rússia de Vladimir Putin na invasão da Ucrânia. Não é, no entanto, o único exemplo em que se assemelham na ação e no pensamento.

A listagem é longa e robusta, não obstante as diferenças na forma de expressão dessas similitudes. Bolsonaro é um insensível por formação e convicção, um desagregador nato. Lula é um ás no manejo dos afetos individuais e coletivos, dono de um singular poder de atração.

Situados formalmente em campos ideológicos opostos, os dois são mestres em criar identificação com os respectivos públicos-alvo, com reforço à imagem de “homem comum” temperado por pitadas de ressentimento e destreza na produção de distrações quando assim lhes interessa.

Além do talento para as artes do ilusionismo, o que mais os faz parecidos? Os seguintes traços de união:

– Ambos cultuam a mitologia em torno de si.

– Comportam-se como se fossem heróis.

– Por atuação ou omissão tratam de reduzir o papel e a importância dos que julgam capazes de lhes fazer sombra.

– Privilegiam o instinto em detrimento do conhecimento.

– Em algum momento compartilharam o desprezo pelo Congresso — na visão de um, composto de “300 picaretas”; na concepção de outro, reduto da “velha política” —, ao qual foram obrigados a se render.

– Revelam aversão à imprensa profissional, mas fazem uso dela na presença constante no noticiário a fim de se manter em evidência.

– Dividem os meios de comunicação entre amigos e inimigos de acordo com o grau de dependência de cada um.

– Manifestam intolerância ao contraditório.

– Exibem nível elevado, não raro desmedido, de autoconfiança.

“Posição sobre a Rússia não é o único ponto em que 
Lula e Bolsonaro se assemelham na ação e no pensamento”

– Têm como hábito o uso da vulgaridade na linguagem.

– Atuam no modo de combate permanente, como se no universo deles o conflito fosse uma constante e a existência de um antagonista hostil, uma necessidade premente. Assim, atiçam embates de divisões entre grupos sociais.

– Notabilizam-se pelo excesso de informalidade no exercício do cargo.

– Expressam de maneira extremada e simplificada sentimentos existentes na sociedade de modo a manipular aflições, demandas e frustrações.

– Não só prezam, como valorizam a obediência alheia.

– Consideram o exercício da oposição uma ofensa pessoal quando são eles os ocupantes do poder. Na situação oposta, vale tudo e mais um pouco.

– Nenhum dos dois aprecia agências reguladoras. São contrários à independência delas e acham que devem ser reguladas pelo governo.

– Desdenham, quando não criticam duramente, as instâncias de fiscalização (oficiais e extraoficiais) que enxergam como obstáculos à liberdade para governar.

– Impacientes com a mediação dos canais institucionais, preferem a comunicação direta com o público.

– Diante de denúncias que envolvem o governo, auxiliares ou familiares tendem a não assumir responsabilidades, atribuindo culpa a alguém ou a alguma circunstância.

– Nutrem gosto por fantasias persecutórias, também conhecidas por mania de perseguição.

– Acalentam a ideia de dominar o Supremo Tribunal Federal.

– Sofrem rejeição no eleitorado feminino.

– Transitam com conforto por terrenos de ditaduras amigas e delas parecem incorporar a visão de que adversários devem ser politicamente aniquilados.

– Assumem o papel de profetas. Das boas previsões sobre os efeitos de seus feitos e dos maus presságios em relação aos inimigos.

– Apresentam-se como os únicos e legítimos defensores do “povo”.

Os ingredientes acima listados, e outros tantos que escapam à memória ou não fazem parte do rol de semelhanças entre Bolsonaro e Lula, integram o receituário do populismo com suas táticas antigas, mas ainda (cada vez mais?) muito em voga neste mundo que pretenderíamos moderno. Portanto, não surpreende que, ao se completarem 37 anos de redemocratização, o Brasil ainda esteja refém de uma agenda eleitoral regressiva.

Os textos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de VEJA

Publicado em VEJA de 16 de março de 2022, edição nº 2780



Não podemos relaxar sobre a previdência, algo que poucos parecem querer atacar

  Raul Velloso, 

O Estado de S.Paulo

Hoje, as atenções se voltam para uma nova e grave crise mundial, iniciada após um ataque maciço à Ucrânia

Foto: Andrey Rudakov/The Washington Post - 20/11/2020

Petroleira na Rússia; país é um dos principais produtores 

de petróleo e gás natural no âmbito mundial. 

Pandemia à parte (será que já podemos relaxar por conta do seu arrefecimento?), as atenções se voltam para uma nova e grave crise mundial, detonada desta feita por um ataque maciço à Ucrânia, desferido por sua vizinha e uma das nações mais poderosas do planeta, a Rússia. Óbvio que é terrível para o mundo todo enxergar as mortes e as multidões de refugiados no contexto de uma guerra que, com a agravante dos armamentos mais modernos de hoje, ocorre em meio às durezas do inverno do Hemisfério Norte.

Ainda que a Rússia tenha diminuído bastante de dimensão econômica desde os tempos da guerra fria (seu PIB é hoje menor do que o do Estado americano do Texas), é uma das principais produtoras de petróleo e gás natural no âmbito mundial, sendo a maior fornecedora desses insumos para a Europa Ocidental. Não por outro motivo, o que muito chama a atenção de todos em um primeiro momento é a desorganização dentro dessas e de outras cadeias de produção e consumo, com destaque ainda para commodities agrícolas, inclusive fertilizantes, intensamente comercializadas no plano mundial, o que levou a fortes ameaças de desabastecimento e disparada de preços. 

Dificilmente escaparemos de uma maior pressão cambial e inflacionária vinda de fora, ainda que o Brasil, sendo um importante player no mercado mundial de commodities, esteja hoje bem mais preparado no que toca à disponibilidade de divisas para administrar suas contas externas. Isso fará uma grande diferença a nosso favor, bastando lembrar do que aconteceu por aqui nas crises petrolíferas dos anos 70 e 80, quando o nosso leque de opções para reagir rapidamente era mínimo. Em tempos mais bicudos, já estaríamos arrumando a mala para uma ida ao Fundo Monetário Internacional (FMI) para pedir socorro. Hoje, somos exportadores líquidos de petróleo e temos um volume inédito de divisas no caixa, relativamente a qualquer variável macro que com ele se compare. 

Diante da ameaça de guerra em uma escala mundial, independentemente de quem seja o principal culpado, americanos e europeus ocidentais já se organizam para enfrentá-la, inclusive com as chamadas “sanções” aos russos, já em andamento. Quanto a nós, ainda que o noticiário local já tenha escasseado as menções aos velhos problemas internos, minha modesta visão é de que não podemos relaxar no ataque ao “x” da nossa questão, que é, ainda, em grande medida interna – leia-se “previdência”, algo que até muitos aceitam, mas poucos parecem querer atacar. 

*CONSULTOR ECONÔMICO


“Bênção” e “maldição”

 William Waack, 

O Estado de S.Paulo

A gravidade da guerra na Ucrânia expõe o desinteresse no Brasil por defesa e segurança

O Brasil não é parte em qualquer conflito internacional agudo de cunho geopolítico, religioso, étnico ou mesmo comercial. Não ameaçamos nem somos ameaçados por nossos vizinhos. Não temos querelas ou questões graves com ninguém lá fora. É uma “benção” mas também uma “maldição”.

Ao conforto dessa realidade corresponde uma grande dificuldade da sociedade brasileira de se preocupar com problemas de segurança internacional e defesa nacional. Quando surgem no debate político eleitoral, questões de política externa ou defesa são de curtíssimo prazo e de cunho estritamente partidário-ideológico.

O Brasil já foi descrito como uma grande ilha de costas para o mar, dada nossa condição geográfica (em termos geopolíticos) de relativo isolamento. Nas relações internacionais geografia é destino, mas mesmo esse destino manifesto de potência regional com muitos vizinhos parece pouco nos interessar.

Falta ao Brasil qualquer capacidade relevante de projetar poder além de suas fronteiras. Mesmo a defesa de nossos ativos estratégicos (como o pré-sal, por exemplo) depende de projetos (submarino de propulsão nuclear) que se desenvolvem sem sentido de urgência (nem de emergência). 

Fala-se com muito ímpeto sobre a defesa da “soberania da Amazônia” mas o que realmente ameaça essa inigualável riqueza não vem de fora. A maior ameaça à Amazônia é nossa própria incapacidade de fazer valer nossas leis e gerir nossas riquezas.

Mesmo o poder de uma potência regional depende de base industrial, expansão da produtividade e da atividade econômica. A indústria brasileira encolheu nas últimas 2 décadas e a produtividade está estagnada há mais tempo ainda. O agronegócio, no qual o Brasil se tornou um campeão mundial, é visto mais pelos outros (como China e Estados Unidos) como fator do jogo global geopolítico do que por nós mesmos.

A guerra na Ucrânia importa tremendamente não só pelas consequências imediatas na bomba de gasolina e no supermercado. O conflito já transformou profundamente o sistema da ordem internacional que o Brasil já teve uma vez pretensões de alterar e resistir ao que lhe pareciam restrições impostas pelas grandes potências (como acesso a tecnologias bélicas, nucleares e de exploração espacial).

O mundo que terminou agora nasceu na queda do Muro de Berlim a 9 de novembro de 1989. A grande manchete dos principais jornais brasileiros (o Estadão foi exceção) no dia seguinte foi “Silvio Santos não é candidato”. Eram as eleições que terminaram com Collor derrotando Lula.

Parabéns a Lula e Silvio, que continuam (cada um na sua) tão ativos.

*JORNALISTA E APRESENTADOR DO JORNAL DA CNN



Estado laico?

  Merval Pereira

O Globo

É um absurdo que um presidente da República diga a um grupo religioso que vai levar o país para onde eles quiserem. Fossem de qualquer religião, Bolsonaro não poderia assumir esse compromisso, como fez com os evangélicos. Não estamos num governo teocrático, nem num país que se submete a qualquer religião. É um absurdo duplo: campanha eleitoral e declaração pública de que o governo está à disposição de um grupo religioso em troca de votos. Um retrocesso terrível para o país.

O presidente Bolsonaro usa até mesmo ardis políticos para tentar enganar os evangélicos, quando se apresenta uma situação em que seus interesses pessoais ou políticos colidem com os deles. É o caso do projeto de aprovação do jogo no Brasil. Apesar de afirmar aos evangélicos que vai vetá-lo, o projeto é de interesse de sua família. Seu filho Flavio já esteve nos Estados Unidos para reuniões com grandes financiadores dos jogos de azar.

É um perigo, porque sabidamente, no mundo todo, o jogo é ligado à máfia. E aqui no Brasil a máfia são os milicianos, especialmente no Rio, onde os Bolsonaros fazem política há muitos anos. A ligação entre jogos de azar, milícia, máfias e aprovação no Congresso é uma mistura explosiva. Já está combinada com o presidente da Câmara, Arthur Lira, a derrubada do veto.

Não será a primeira vez. O presidente vetou em setembro de 2020 o perdão da dívida das igrejas a pedido da equipe econômica, mas sugeriu a parlamentares da bancada que derrubassem o veto. Foi o que aconteceu. O artigo que havia sido vetado por Bolsonaro concede às igrejas isenção do pagamento da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) e das multas por não quitação do tributo.

Na ocasião, o Ministério da Economia, que era contra o perdão da dívida, estimou um impacto nas contas públicas da ordem de R$ 1,4 bilhão. Bolsonaro já havia amenizado, a pedido dos evangélicos, as obrigações fiscais das igrejas. O cadastro do CNPJ passou a ser obrigatório apenas para matrizes, e o piso de arrecadação para que uma igreja seja obrigada a declarar suas movimentações financeiras diárias passou de R$ 1,2 milhão para R$ 4,8 milhões.

Quando anunciou que faria mudanças na área cultural “para preservar os valores cristãos”, Bolsonaro defendeu que o novo presidente da Ancine deveria ser um evangélico que conseguisse “recitar de cor 200 versículos bíblicos, que tivesse os joelhos machucados de tanto ajoelhar e que andasse com a Bíblia debaixo do braço”. Nomeou para o Supremo Tribunal Federal (STF) um ministro “terrivelmente evangélico”, seu ex-ministro da Advocacia-Geral da União, o pastor presbiteriano André Luiz Mendonça.

Rui Barbosa promoveu, desde o governo provisório (Decreto 119-A, de 7/01/1890), a separação de Igreja e Estado e a laicidade do Estado, consagrada na Constituição de 1891 e nas Constituições subsequentes. Como diz o ex-chanceler brasileiro e membro da Academia Brasileira de Letras Celso Lafer, a partir daí implantou-se uma nítida distinção entre as instituições, motivações e autoridades religiosas e as instituições estatais e autoridades políticas, “de tal forma que não haja predomínio de religião sobre a política”.

A laicidade significa que “o Estado se dessolidariza e se afasta de toda e qualquer religião, em função de um muro de separação entre Estado e Igreja, na linha da Primeira Emenda da Constituição norte-americana”. Num Estado laico como Rui Barbosa institucionalizou no Brasil, esclarece Lafer, “as normas religiosas das diversas confissões são conselhos e orientações dirigidas aos fiéis, e não comandos para toda a sociedade”.

Quando ainda se falava na possibilidade de nomeação de um ministro do STF “terrivelmente evangélico”, Lafer destacava que a contribuição de Rui para a consolidação e para a vigência do espaço público e das instituições democráticas em nosso país é da maior atualidade, pois “contém o muito presente risco do indevido transbordamento da religião para o espaço público”.



Todos os erros de cálculo de Putin

  Guga Chacra

O Globo

 | GENYA SAVILOV / AFP 

Ucranianos testam armamentos: o estrategista Putin

 não contava com tanta resistência 

Vladimir Putin calculou errado ao lançar a sua ofensiva contra a Ucrânia. Avaliou que controlaria o país em poucos dias. Avaliou que o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, se renderia ou fugiria para o exterior. Avaliou que Joe Biden não teria capacidade para coordenar uma forte e coordenada resposta ocidental. Avaliou que as sanções seriam amenas, como depois da anexação da Crimeia. Avaliou que alguns países europeus, como a Alemanha, se manteriam neutros devido à dependência de gás. Sequer deve ter cogitado o gigantesco movimento de boicote aos russos.

Fazia sentido, inclusive para analistas, o cálculo de Putin semanas atrás. Zelensky aparentava ser uma liderança frágil, com pouca popularidade. Biden vinha enfraquecido desde o fiasco de seu governo na caótica retirada das tropas do Afeganistão. O Ocidente, de fato, praticamente aceitou a anexação da Crimeia em 2014, a ponto de ninguém questionar a realização da Copa do Mundo de 2018 na Rússia. A Alemanha também tem uma dependência gigantesca do gás russo e investiu bilhões no gasoduto Nord Stream 2. Tampouco deve ter passado pela sua cabeça que exibições de artistas russos seriam canceladas e atletas não poderiam disputar competições representando o país.

Depois de duas semanas, o cenário não se consumou como planejava Putin. Zelensky se tornou quase um herói na Ucrânia ao liderar a resistência. É celebrado por todo o planeta por sua coragem. Biden não apenas conduziu o Ocidente na imposição de sanções como tem recebido apoio até de setores do Partido Republicano por sua estratégia. As sanções são duríssimas e começam a estrangular a economia russa. Mesmo na iniciativa privada, vemos as principais bandeiras de cartão de crédito (Visa e Mastercard) e muitas empresas como o McDonald’s, Starbucks e Coca-Cola suspenderem suas operações no país. O rublo está derretendo. A Alemanha congelou o uso do gasoduto. A Otan tem fortalecido militarmente as nações fronteiriças com a Rússia, em um efeito contrário ao desejado por Putin.

O líder russo, até a invasão, desfrutava de uma certa popularidade entre figuras de extrema direita na Europa e nos Estados Unidos. Depois da ofensiva, todos buscam se distanciar. O isolacionismo dos republicanos nos EUA que cresceu nos anos Trump, um fã de Putin, passa a dar lugar ao tom bélico dos tempos mais associados a George W. Bush. Líderes internacionais que demonstravam uma certa deferência ao presidente da Rússia, hoje o veem como uma figura tóxica.

O suposto “estrategista” Putin, que conquistou uma série de vitórias geopolíticas nas últimas duas décadas, demonstrou até agora ser um inconsequente como Saddam Hussein na invasão ao Kuwait ou como os generais da Junta Militar da Argentina na Guerra das Malvinas/Falklands. A diferença é que o ditador iraquiano e os generais argentinos foram rapidamente derrotados. O líder russo ainda está distante de sofrer uma derrota no campo militar. Ao contrário, por mais que enfrente obstáculos e resistência, ainda tem enorme capacidade para seguir com a agressão à Ucrânia.

Não podemos esquecer que Bashar al Assad, no início da Guerra da Síria, também era visto como um fracassado e se tornou um pária internacional. Diziam que seus dias estavam contados. Com a ajuda justamente de Putin, conseguiu reverter a trajetória do conflito e segue firme no poder. Até vê sua imagem de pária perder força, ao menos dentro do mundo árabe. Tenham certeza de que o líder russo vê o seu aliado sírio como um exemplo.


Ao analisar o exercício do poder, Gilberto Freyre enxergou traços da Rússia entre nós

 Marcus André Melo, Folha de São Paulo

Tribuna da Internet 

Gilberto Freyre chamava o Brasil de “essa Rússia americana”

Gilberto Freyre enxergou traços da Rússia entre nós quando se referiu ao Brasil como “essa Rússia Americana”, em “Casa Grande & Senzala” (1933), e mesmo antes. O foco de sua análise são as relações de sadismo e gosto pelo mando resultantes da escravidão e que perpassavam a vida brasileira, da esfera sexual à política, irradiando-se “no gosto de mando violento ou perverso que explodia no senhor de engenho ou no filho bacharel quando no exercício de posição elevada, política ou de administração pública”.

E acrescentava: “um gosto que se encontra abrutalhado em rude autoritarismo num Floriano Peixoto”. E concluia que o mandonismo tem sempre encontrado vítimas em quem exercer-se com “requintes sádicos, deixando até nostalgias logo transformadas em cultos cívicos, como o do Marechal de Ferro”.

AUTORITARISMO – Em relação à psicologia política, Gilberto Freyre argumentou que “o que o grosso do que se pode chamar ‘povo brasileiro’ ainda goza é a pressão sobre ele de um governo másculo e corajosamente autocrático” (como não lembrar de Putin?).

A análise aqui é descritiva, não normativa; Freyre vaticinou o homem forte que viria a inflamar a imaginação política no país sob a ditadura do Estado Novo e sob a democracia populista.

Na “Rússia americana”, conclui “as expressões de mística revolucionária, de messianismo, de identificação do redentor com a massa a redimir pelo sacrifício de vida ou de liberdade pessoal” se vê “menos a vontade de reformar ou corrigir vícios de organização política que o puro gosto de ser vítima ou sacrificar-se”.

DUAS MONARQUIAS – Populismo, messianismo, vitimismo. Sim, não é à toa que a Rússia é o berço dos Narodniks (populistas), que inclusive deram origem à expressão populismo.

Rússia e Brasil eram monarquias com territórios continentais tendo em comum as chagas da escravidão e da servidão prolongadas. Mas o Brasil tinha liberdade de expressão e um monarca “orgulhoso de sua tolerância” em relação à oposição, como afirmou Joaquim Nabuco.

A divergência radical de trajetória acentuou-se com a Revolução de 1917, e o totalitarismo resultante. Enquanto isso, a República Velha foi um regime semicompetitivo.

ALTERNÂNCIAS DE PODER – Tivemos as ditaduras de Vargas e a Militar; mas, na República de 46, um regime multipartidário competitivo surgiu e superou crises. Desde 1988, o regime assistiu a três alternâncias de poder; na Rússia, não houve uma sequer alternância pacífica e competitiva. .

Os traços essenciais do populismo nunca nos abandonaram: narrativas contrapondo elites corrompidas e povo virtuoso; e líder como expressão direta deste último, sem intermediários como partidos ou sem estar limitados por instituições de controle ou separação de poderes.

Sim, no momento, uma Rússia palpita entre nós.



Ato pela Terra, ameaças e viradas

 Míriam Leitão

O Globo

 |Cristiano Mariz/O Globo 

Manifestação em Brasília reúne artistas como Caetano Veloso para protestar 

contra o PL que legaliza exploração mineral em Terra Indígena 

O dia começou ontem em Brasília com o improvável encontro do governo e o PT para acertar os últimos detalhes dos projetos para subsidiar os combustíveis fósseis. À tarde, a capital floresceu. O cantor Caetano Veloso e muitos artistas fizeram uma sonora manifestação contra a boiada que Bolsonaro e Arthur Lira (PP-AL) querem passar sobre a Amazônia e as Terras Indígenas, sobre o próprio país, aproveitando a guerra. E, no mundo, tudo de novo no front. Houve uma reviravolta nos preços dos ativos, o petróleo despencou e as bolsas subiram. O mercado precificou o fim da guerra, diante dos sinais de negociação.

O governo Bolsonaro está correndo para aprovar uma excrescência: o PL 191, o mais nocivo de todo o pacote antiambiental, anti-indígena e a favor de agrotóxicos feito por este governo e defendido pelo atual presidente da Câmara dos Deputados. Bolsonaro mentiu, de novo, ao dizer que é preciso aprovar o projeto para nos livrar da dependência externa de fertilizantes. Ele tenta tirar proveito da guerra da Ucrânia.

“Terra. Terra. Por mais distante o errante navegante, quem jamais te esqueceria?” A voz, sempre linda, de Caetano, foi seguida por dezenas de outros artistas e o público no Salão Negro do Senado, diante do senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), uma das autoridades a quem eles se dirigiram no Ato pela Terra. Antes, os manifestantes haviam ocupado o gramado em frente ao Congresso. O recado que trouxeram é grave. A Terra corre extremo risco com a destruição da floresta e há mais uma emergência. Voltou a andar o PL que abre as Terras Indígenas a todo o tipo de agressão. Ele havia sido engavetado pelo ex-presidente da Câmara Rodrigo Maia. Agora, Bolsonaro e Arthur Lira, os irmãos siameses da destruição ambiental, querem passar o trator sobre as terras indígenas com o pretexto da falta de fertilizantes por causa da guerra.

A guerra era o pano de fundo do café da manhã na casa do senador Rodrigo Pacheco, presidente do Senado. Quando o ministro Paulo Guedes, o senador Jean Paul Prates (PT-RN) e o senador Eduardo Gomes (MDB-TO), líder do governo, se encontraram o petróleo estava em US$ 123. O assunto da reunião inusitada era a proposta feita pelo Partido dos Trabalhadores de ter um mecanismo de redução dos preços dos combustíveis, o PL 1472. O projeto de autoria do senador Rogério Carvalho (PT-SE) cria uma Conta de Estabilização de Preços. Nela, o governo federal depositará dividendos da Petrobras e receitas de petróleo. O objetivo da Conta é subsidiar os preços dos combustíveis quando eles subirem, como agora. Prates relata também o PLP 11 que muda a forma de cobrança do ICMS sobre combustíveis.

— Este projeto é uma forma de entregar ferramentas ao governo — Bolsonaro hoje, mas que pode ser Lula amanhã — para que possa, em momentos como este, de guerra, de disparada dos preços, atenuar a alta. Vamos tirar dinheiro do próprio petróleo. Quando ele sobe assim, as receitas aumentam. Essa alta iria para a Conta — disse Prates.

Ao fim do dia, não houve consenso, e a votação foi adiada. O petróleo havia caído 11%, para US$ 109, e muita coisa havia mudado no mundo do mercado financeiro. As principais bolsas viveram dia de euforia. Nos Estados Unidos, foram as maiores altas desde novembro de 2020, na Europa, desde o início da pandemia. Na França e na Alemanha, as altas chegaram a 7%. O preço do gás na bolsa de Londres despencou 22%. Um dia só não faz verão. No acumulado do ano, o que se vê são índices com quedas de dois dígitos na Europa e nos EUA, e os preços das commodities ainda em forte alta.

De real existe a guerra, que ainda não acabou e continua oferecendo ao mundo um espetáculo macabro. A Ucrânia está sendo demolida fisicamente, a Rússia está sendo demolida economicamente. A paz, se viesse, seria um alívio.

No Brasil, continua a demolição da democracia, da garantia da vida dos indígenas, da proteção da Amazônia. Mas pelo menos ontem foi dia de ouvir Caetano nos lembrar da Terra. A Terra que o inspirou mesmo quando ele estava na cela de uma cadeia. No discurso, em nome de todos, Caetano falou da “notável” identificação dos artistas com o tema do meio ambiente. “Ouso dizer que isso se deve à natureza abrangente e mesmo sublime da questão ecológica. Nela, os artistas veem a busca da harmonia, a decisão do sentido do humano no mundo, a luz da salvação.”

Com Alvaro Gribel (de São Paulo)


Preço do combustível será central na campanha eleitoral

 Alexander Busch

Coluna Tropiconomia

Deutsche Welle

Mundo caminha para um choque de preços do petróleo como não ocorre há 40 anos. O presidente e candidato Jair Bolsonaro está diante de um dilema.

 Foto: Shiraaz Mohamed/Xinhua/picture alliance

"Aumentar o preço do diesel vai impulsionar a inflação.

 E isso irá arranhar a já baixa popularidade de Bolsonaro"

O presidente russo, Vladimir Putin, ameaçou reduzir as exportações de petróleo para países consumidores do Ocidente. Embora ainda não esteja claro o quanto a Rússia vai cortar suas exportações, é provável que o preço do petróleo suba.

Atualmente, um barril de petróleo bruto custa cerca de 130 dólares. Isso é cerca do dobro do que no início do ano. Para comparação, a última vez que o petróleo bruto custou mais foi em meados de 2008, quando o furacão Katrina interrompeu a produção no Golfo do México.

Mas agora a situação é dramática. Com a guerra da Rússia contra a Ucrânia, é possível que o preço de um barril de petróleo suba para mais de 200 dólares. Lembremos que, no início da pandemia, há dois anos, o preço do petróleo caiu abaixo de zero dólares por um curto período de tempo. As empresas petrolíferas pagaram um prêmio a seus clientes quando eles disponibilizavam suas instalações de armazenamento.

Isso agora acabou, e um debate acalorado está ocorrendo no Brasil sobre os preços dos combustíveis. Há várias semanas, o governo, a Petrobras e o Congresso vêm negociando se e como o aumento dos preços do petróleo poderia ser repassado aos consumidores. Afinal, a Petrobras não aumenta seus preços desde o início de janeiro. O diesel atualmente oferecido está cerca de 50% mais barato do que deveria custar se comparado ao preço no mercado mundial. A gasolina é cerca de um terço mais barata no Brasil.

Os preços baixos em comparação com o exterior ameaçam o fornecimento. Cerca de um quinto do combustível é importado ou produzido por empresas privadas. Para elas, vale cada vez menos a pena importar diesel e vendê-lo mais barato. O perigo de que os postos de gasolina fiquem sem gasolina é particularmente grave no Nordeste do país, onde o combustível é importado.

O presidente Bolsonaro está agora diante de um dilema. De alguma forma, a Petrobras tem que aumentar os preços nos próximos dias para evitar o risco de desabastecimento. No entanto, aumentar o preço do diesel vai impulsionar a inflação. O aumento dos preços do transporte irá acelerar ainda mais a inflação dos alimentos. E isso irá arranhar a já baixa popularidade de Bolsonaro. Mesmo o Auxílio Brasil será de pouca utilidade se a assistência social para os pobres for neutralizada por preços mais altos.

E o candidato Bolsonaro fica diante de um dilema. Ele pode compensar os preços mais altos dos combustíveis com subsídios ou incentivos fiscais, como para os motoristas de caminhão. Isso aumenta o déficit orçamentário e, portanto, as taxas de juros, e retardará ainda mais o já baixo crescimento. Ele também pode congelar os preços dos combustíveis, e corre o risco de problemas de abastecimento, adia o problema da inflação para o futuro e empurra a Petrobras para uma crise de dívida, assim como Dilma Rousseff fez há dez anos.

Não só os políticos, mas também os investidores estão curiosos sobre qual caminho Bolsonaro escolherá.


Crise mundial e oportunismo

 Editorial

O Estado de São Paulo

São cada vez mais evidentes os riscos econômicos em que a invasão da Ucrânia pela Rússia colocou o mundo. O fluxo de produtos originários ou destinados à região foi ou está sendo interrompido ou severamente prejudicado. Trigo, petróleo, gás e milho estão entre os principais produtos exportados pela região. O efeito é universal. Se ainda não subiram, em algum momento subirão os preços de bens tão diversos como o pão fresco, o macarrão, insumos e matérias-primas de uma vasta lista de produtos industriais, produtos agropecuários e o custo dos transportes.

Nos dez dias que se seguiram à decisão do presidente russo, Vladimir Putin, de invadir a Ucrânia, o preço do petróleo subiu mais de 20%. Em um ano, a alta é maior do que 70%. O barril do óleo tipo Brent chegou a ser cotado perto de US$ 120. Agora, vem oscilando em torno de valores recordes dos últimos 14 anos. Em algum momento, haverá impacto sobre os preços dos combustíveis para o brasileiro. É uma das formas como a crise do Leste Europeu afetará a vida no Brasil.

Transformar crise em oportunidade é um dos muitos lemas que executivos de empresas utilizam para motivar a si mesmos e a seus subordinados em momentos de dificuldades. Parece ser também o de políticos mais interessados em angariar prestígio e voto do que em amenizar as agruras que o brasileiro, sobretudo o menos protegido, já enfrenta há anos e que a crise europeia tende a acentuar.

Atento a oportunidades geradas pela crise, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), anunciou que colocou na pauta de votação o pacote de projetos de lei que têm como objetivo declarado reduzir o preço dos combustíveis. “Precisamos tomar medidas que impeçam a elevação do preço dos combustíveis”, disse, para justificar sua iniciativa. Trata-se de evidente oportunismo.

Ainda que o senador tenha êxito e algum projeto com a finalidade por ele mencionada venha a se transformar em lei, será essencialmente inútil para atingir seu objetivo principal. O principal fator do aumento da gasolina tem sido a alta do petróleo. Leis, por mais bem-intencionadas que sejam, não impedem oscilações de preços típicas do mercado mundial de commodities, especialmente o petróleo. E o petróleo está tão caro como poucas vezes se viu na história.

A alta não é automática e integralmente repassada para o preço da gasolina. Graus diferentes de eficiência das empresas importadoras e refinadoras podem mitigar ou intensificar o efeito da alta do óleo sobre o bolso do consumidor final e sobre os custos das empresas que utilizam insumos derivados de petróleo. O câmbio igualmente afeta o preço em moeda local. Pode-se também criar uma espécie de colchão que amorteça os efeitos mais severos da alta do petróleo.

Congressistas tentam vender uma ilusão. O que eles prometem é uma solução que impeça a alta da gasolina. É populismo. Será que a Petrobras pode reduzir o preço da gasolina que está congelado há quase dois meses, período em que a cotação do petróleo explodiu? Um pouco de realismo evitaria aventuras como a que se trama no Senado.


A manipulação de Bolsonaro

 Carlos José Marques 

Revista ISTOÉ

 (Crédito: Montagem sobre fotos: Mateus Bonomi/AGIF/AFP;

 Luciano Claudino/Código19)

O presidente está determinado. Não quer de jeito algum que o petróleo mele a sua reeleição. E percebeu que o risco é alto nesse sentido. A combinação de guerra no Leste Europeu com política de preços da Petrobras em paridade com o mercado internacional – padrão, aliás, em boa parte dos países – pode, na verdade, colocar tudo a perder. A Rússia fez um alerta, em tom de ameaça, perigoso que assustou as nações consumidoras. Disse que o valor do barril pode chegar a US$ 300 se os EUA e a Europa banirem as importações de suas reservas. Fez mais: apontou que deve cortar o gás do continente interrompendo o fluxo no principal duto que atravessa a União Europeia a partir de seu sistema até a Alemanha. Decerto, a rejeição ao óleo russo teria consequências catastróficas para a economia global. Quase 40% do gás e 30% do petróleo consumidos na Europa vêm dali. No caso da bravata de Putin, pode ser um blefe, mas, pelo sim ou pelo não, a alta do barril em boa escala e de todo modo já está precificada. Não se fala em outra coisa e o Brasil particularmente ainda depende muito do combustível fóssil. A disparada de aumentos chega em um momento não apenas político como também econômico delicado por aqui. A inflação mostrou a carranca de uma alta desmedida — devido à Covid, à má gestão de contas públicas e até por ausência de um plano estruturado de governo para a retomada. 

Circunstâncias combinadas à péssima pilotagem de Bolsonaro em Brasília, uma nulidade operacional que nem mesmo privatizações ou plano de investimentos em infraestrutura foram capazes de fazer. O presidente do jet ski, que aboliu até os impostos desse tipo de possante e mesmo dos barcos a vela (para quê, ninguém sabe), tomou ciência da encrenca porque o assunto atropela as suas ambições pessoais. E ele não quer isso de jeito algum. O custo do petróleo é pedra de toque de diversas mercadorias, de quase toda a cadeia de preços, e não há um único consumidor/eleitor que não esteja sentindo a pancada de seu avanço. Aí vem o outro lado da barbeiragem: o mandatário tenta resolver isso ao seu modo, manipulando a liberdade tarifária, intervindo artificialmente no movimento com a mão grande e constitucionalmente ilegal sobre a Petrobras. A estatal, que vem perdendo valor nos papéis e irritando os demais acionistas a cada declaração tresloucada do capitão, não consegue ser competitiva e independente para crescer com tanta ingerência de cima. Em um único dia na última semana, por exemplo, os títulos da companhia desabaram nada menos que 7%. É um despropósito. Esse governo que se elegeu com a lorota de incorporar um conceito de liberalismo, jamais colocado em prática, mostrou a fuça interventora por intermédio do presidente que repete muito dos antecessores, fazendo populismo barato com o capitalismo alheio.

Bolsonaro agora quer porque quer que a Petrobras baixe o valor dos combustíveis na marra. Fez reunião de emergência com o seu “Posto Ipiranga”, o ministro Paulo Guedes, para exigir uma forma de alcançar tal objetivo o mais rápido possível. Trataram da adoção de subsídios. O presidente reclamou de “uma legislação errada feita lá atrás que você tem uma paridade com o preço internacional”. Não deixou margem de dúvidas sobre a intenção de mexer nisso. O ministro, em resposta, espera ao menos que a solução passe pelo Congresso Nacional, transferindo o ônus da responsabilidade de alteração de regras para o outro lado. A conta do subsídio extra pode chegar a R$ 20 bilhões para sanar o que tanto Guedes quanto Bolsonaro vêm chamando de “lucros abusivos” da estatal.

 Não é de hoje, Petrobras e seu estupendo ouro negro ocupam as mentes de postulantes ao Planalto com vontades intervencionistas, ano após ano de corrida às urnas. É o assunto número um, preferido, de quatro em cada cinco deles. E sempre aparece nas plataformas de campanha pela ótica errada. Uma empresa do porte da Petrobras não poderia jamais ficar ao sabor dos desejos dos políticos. Sua independência administrativa deveria ser obedecida como regra basilar. De olho na reeleição, Bolsonaro não terá escrúpulos de mexer na política de preços de forma equivocada e empurrará o custo da gambiarra para os brasileiros que, mais cedo ou mais tarde, de uma maneira ou de outra, serão sim os principais prejudicados. Mais uma vez.


 Poder360 

Durante o discurso de Angelus, realizado aos domingos no Vaticano, o papa Francisco pediu o fim da guerra na Ucrânia. Ao discursar na Praça de São Pedro neste domingo (6.mar.2022), o pontífice pediu ajuda às pessoas que estão fugindo da Ucrânia, especialmente para as mães e crianças vítimas do confronto iniciado pela Rússia.

 “Rios de sangue e lágrimas estão fluindo na Ucrânia. Não é apenas uma operação militar, mas uma guerra, que semeia morte, destruição e miséria”, disse o papa para 25.000 fieis, alguns deles carregando bandeiras ucranianas. “Faço um apelo sincero para que os corredores humanitários sejam genuinamente garantidos e para que a ajuda seja garantida e o acesso facilitado às áreas sitiadas, a fim de oferecer alívio vital aos nossos irmãos e irmãs oprimidos por bombas e medo.”

Francisco afirmou ainda que as necessidades de assistência humanitária crescem a cada hora “naquele país conturbado”. Também agradeceu aos países que estão recebendo os refugiados e aos jornalistas que estão registrando os fatos e “a crueldade de uma guerra”.

Segundo a ONU (Organizações das Nações Unidas), em torno de 1,5 milhão de pessoas deixaram a Ucrânia desde o início dos ataques, em 24 de fevereiro.

O papa pediu então pelo cessar-fogo: “Acima de tudo, imploro que os ataques armados cessem e que a negociação – e o bom senso – prevaleçam. E que o direito internacional seja respeitado mais uma vez!”

Francisco afirmou que a Igreja Católica está “a serviço da paz” e afirmou que 2 cardeais foram para a Ucrânia para ajudar às pessoas afetadas pelo conflito. “A presença dos 2 cardeais lá é a presença não apenas do Papa, mas de todo o povo cristão que quer se aproximar e dizer: ‘Guerra é loucura! Pare, por favor! Olhe para essa crueldade!’”.

Leia a íntegra do discurso do papa Francisco deste domingo (6.mar.2022):

“Queridos irmãos e irmãs,

Rios de sangue e lágrimas estão fluindo na Ucrânia. Não é apenas uma operação militar, mas uma guerra, que semeia morte, destruição e miséria. O número de vítimas está aumentando, assim como as pessoas que fogem, especialmente mães e filhos. A necessidade de assistência humanitária naquele país conturbado está crescendo dramaticamente a cada hora.

Faço um apelo sincero para que os corredores humanitários sejam genuinamente garantidos e para que a ajuda seja garantida e o acesso facilitado às áreas sitiadas, a fim de oferecer alívio vital aos nossos irmãos e irmãs oprimidos por bombas e medo.

Agradeço a todos aqueles que estão recebendo refugiados. Acima de tudo, imploro que os ataques armados cessem e que a negociação – e o bom senso – prevaleçam. E que o direito internacional seja respeitado mais uma vez!

E eu também gostaria de agradecer aos jornalistas que colocam suas vidas em risco para fornecer informações. Obrigado, irmãos e irmãs, por este serviço! Um serviço que nos permite estar perto da tragédia dessa população e nos permite avaliar a crueldade de uma guerra. Obrigado, irmãos e irmãs.

Oremos juntos pela Ucrânia: temos suas bandeiras à nossa frente. Rezemos juntos, como irmãos e irmãs, a Nossa Senhora, Rainha da Ucrânia. Ave Maria…

A Santa Sé está pronta para fazer tudo, para se colocar a serviço dessa paz. Nestes dias, 2 cardeais foram à Ucrânia, para servir ao povo, para ajudar. O cardeal Krajewski, o Almoner, para levar ajuda aos necessitados, e o cardeal Czerny, prefeito interino do Dicastério para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral. A presença dos 2 cardeais lá é a presença não apenas do Papa, mas de todo o povo cristão que quer se aproximar e dizer: ‘Guerra é loucura! Pare, por favor! Olhe para essa crueldade!'”

VÍTIMAS  DA GUERRA

A invasão da Ucrânia pela Rússia chega ao 11º dia neste domingo (6.mar.2022). O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, disse no sábado (5.mar) que seu governo está fazendo todo o possível para chegar a um acordo com os russos. Nova rodada de negociações deve ser realizada na 2ª feira (7.mar).

A OMS (Organização Mundial da Saúde) confirmou “vários” ataques a centros de saúde na Ucrânia. “Ataques a instalações de saúde ou trabalhadores infringem a neutralidade médica e são violações do direito internacional humanitário”, declarou o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus.