Adelson Elias Vasconcellos
Só imbuído de ignorância extrema casada com má fé explícita é possível conceber que Lula, não tendo lido o que escreveu FHC sobre o papel das oposições, tenha alguma autoridade moral e intelectual para criticar sobre algo que não foi dito nem escrito.
Comentando o artigo, escrevi um artigo em que o título já dizia tudo: a ignorância nacional é não saber ler. Referia-me, especificamente, as críticas feitas por Aécio Neves, dentre outros políticos das oposições, mas especialmente ele, porque se puseram a comentar sobre algo que o ex-presidente Fernando Henrique sequer escreveu. E o que é pior: dando um sentido totalmente delirante a uma expressão que não pode nem deve ser lida e entendida fora do contexto com o artigo foi idealizado.
Sei que o texto é bastante longo, mas, poxa, não se pode fatiar um artigo e querer fazer julgamento apenas sobre estes pedaços. Há toda uma linha de pensamento e análise que segue uma determinada coerência que impede, a qualquer analista, análises e julgamentos parciais.
Porém, sendo arrogante até a extremidade de sua ignorância e má fé, Lula não se avexa de falar até de coisas que não leu, que não viu, que não assistiu, apenas pelo prazer mórbido que sente em desferir ofensas gratuitas à sua maior obsessão. Lula não perdoa FHC por ter sido derrotado por ele duas vezes e ambas no primeiro turno. Não perdoa que o tucano tenha dado uma direção moderna ao país, e estabelecido as bases tanto da estabilidade econômica quanto da inclusão social.
E, é bom que se diga, Lula jamais aceitou um debate público com FHC, mesmo após ter deixado o poder, muito embora muitos tenham tentado colocar os dois frente a frente.
Pois bem: e o que disse Lula? Isto, leiam, depois comento.
“...Sinceramente não sei como alguém estuda tanto e depois quer esquecer o povão”, atacou Lula. “O povão é a razão de ser do Brasil. E do povão fazem parte a classe média, a classe rica, os mais pobres, porque todos são brasileiros.”
O petista se referia a que parte do texto de Fernando Henrique? A este, vejam e comparem:
Enquanto o PSDB e seus aliados persistirem em disputar com o PT influência sobre os “movimentos sociais” ou o “povão”, isto é, sobre as massas carentes e pouco informadas, falarão sozinhos. Isto porque o governo “aparelhou”, cooptou com benesses e recursos as principais centrais sindicais e os movimentos organizados da sociedade civil e dispõe de mecanismos de concessão de benesses às massas carentes mais eficazes do que a palavra dos oposicionistas, além da influência que exerce na mídia com as verbas publicitárias.
Muito bem, para quem acompanha já há algum tempo este blog, perceberá que, talvez com mais elegância, o ex-presidente Fernando Henrique ditou um pensamento que defendemos há muito tempo. E acrescento: colocou no papel uma realidade bem presente do cenário político brasileiero.
Ou então digam lá: o povão, carente e desinformado, não se tornou o grande cliente dos bolsas caça votos de Lula de 2003 para cá? Centrais sindicais não estiveram historicamente sempre ligadas ao PT que os beneficiou doando-lhe parte do imposto sindical para ser gasto sem um mínimo de fiscalização, além de desobrigá-las a prestarem contas? Além disto, durante seus dois mandatos, Lula não usou e abusou das verbas publicitárias para cooptar grandes nacos da imprensa? E quantos foram os bilhões de recursos públicos que Lula doou para as centenas de ong’s picaretas que perambulam o país em busca de uma causa para justificar seu sustento com as tetas do Tesouro?
Digam lá: neste quadro, onde está a mentira? O quadro é bem a cara do Brasil durante oito anos de Lula. O resultado desta farra foi visto nas eleições de 2010: onde foi que Dilma praticamente liquidou a eleição, não foi no Norte/Nordeste, não por acaso as regiões com o maior número de beneficiários do Bolsa Família?
Além disto é preciso considerar que estes mesmos grupos permaneceram sendo cooptados e influenciados pelo governo petista, justamente porque é ele quem assina o cheque e abre o cofre. Tentar atrair com discurso este contingente é sim, gostem ou não, pura perda de tempo.
Mas não é o apenas o realismo que ressalta do texto que deve ser observado: ocorre que FHC não escreveu “desistir do povão” como a versão que, afoitamente, se tentou vender à praça. Em que parágrafo está representado ou escrito esta tal desistência?
O texto, e vocês podem comprovar pela íntegra que aqui reproduzimos (clique aqui), é uma análise muito bem apanhada e serve como fio condutor para as oposições se reposicionarem no jogo político do país, sob pena e risco de se tornarem irrelevantes. O alerta vai ao ponto: não adianta fazer disputa de discursos numa clientela aparelhada pelo governo, por meio dos sindicatos e movimentos sociais, e até diria, de importantes setores da imprensa, aquela que dispensa sua independência em nome de alguns trocados da publicidade oficial.
Neste sentido, o texto de FHC oferece o caminho que as oposições devem se guiar se pretendem, em futuro próximo, retornarem ao poder. E reparem num detalhe: se de um lado, o PSDB não tem como competir com o assistencialismo praticado pelo governo petista junto ao “povão”, também não lhe resta muitas alternativas nas camadas superiores da sociedade, a chamada elite, seja ela econômica, política ou sindical. Vejam o caso da interferência do governo Dilma no comando da Vale: quem poderia dar vazão à intromissão seria o Bradesco. Pois bem, o que aconteceu? Vejam texto mais abaixo: em troca do IRB, o Bradesco deu carta branca para Dilma dispor de forma vexatória, do comando da maior empresa privada nacional. Foi a sua taxa de sucesso. Querem mais? Nunca o BNDES emprestou, a juros subsidiados logicamente, tanto dinheiro para as elites como no governo Lula. É a chamada Bolsa BNDES. Mesmo em 2011, diante da imperiosa necessidade do país aplicar um ajuste fiscal com contenção de gastos, ao mesmo tempo em que se anunciou um corte de 50 bilhões no orçamento, também se autorizou um repasse em igual montante para o BNDES continuar com sua política filantrópica.
Quanto à elite sindical, vejam o quadro abaixo.
Como poderiam as oposições se aproximar das centrais diante desta doação irresponsável feita pelo governo petista?
Mas há um dado que resume melhor ainda esta estreita ligação do governo petista com as chamadas elites econômicas, e o modo como se utilizou programas e medidas de governo para beneficiá-las.
Um dos ramos de atividade que, na oposição, o discurso petista mais demonizava era o bancário. “Os tucanos neoliberais tiravam dos pobres para dar os banqueiros sedentos de lucros fáceis”, esta era a sua chamada de ordem..
Pois bem, fica fácil comparar as gestões de FHC e Lula neste quesito, já que ambos governaram o país por oito anos.
E nesta questão, lucro dos banqueiros, a Era Lula bateu disparado todos os recordes. A soma do lucro líquido dos nove maiores bancos no país, foram os seguintes:
1.- Período FHC : R$ 30, 798 bilhões.
2.- Período Lula: R$ 199, 455 bilhões.
Diferença pró-Lula: 550%.
Pergunto: quem favoreceu mais os ganhos dos “infames” banqueiros, sugadores da poupança nacional, Lula ou FHC?
E aqui vai mais um dado: sabem quanto foi enviado para fora do país a título de remessa de lucros nos últimos doze meses? Pasmem: 33,8 bilhões de DÓLARES!
E para encerrar: o governo petista se ufana do país ter reservas internacionais em torno dos 300 bilhões. Muito bem: vocês sabem quanto custa, em juros, esta montanha de reservas? Anotem aí: nos dois primeiros meses do ano, o custo foi de 27 bilhões!!!
Assim, FHC está certo em recomendar as oposições centrarem seu discurso na classe média que, a propósito, é a única que não pode contar com bolsas facilidades compra votos para se manter, e sobre a qual recai o maior peso dos impostos que o governo arrecada, além de ter que bancar serviços privados que deveriam ser de obrigação do Estado mas que, dada a falência geral do governo, vão de mal a pior. E é a única que tem capacidade intelectual para entender a trapaça que acontece nos porões do Planalto e com estofo moral suficiente para dar um basta à pilantragem. Mesmo que Lula os odeie, eles são formadores de opinião. E acreditem: a classe média é o canal mais apropriado para uma tomada de consciência suficientemente forte para reverter às tendências do cenário político atual.
Quanto as críticas que recebeu de aliados, o ex-presidente Fernando Henrique foi direto ao ponto:
“É de doer que políticos da oposição deixem de lado o conjunto dos argumentos e das propostas que fiz no artigo e, antes de o lerem, façam coro ao petismo, colocando-me como um insensato que despreza o voto das parcelas mais desfavorecidas da população. Fariam melhor se lessem com mais calma o que escrevi”.
Não poderia ter sido mais claro.






