Comentando a Notícia
Confesso que começa a assustar certos posicionamentos do ministro Guido Mantega. A impressão que se tem, até pelo tempo que ele está no comando do Ministério da Fazenda, é a de uma pessoa que perdeu o rumo e não sabe o que fazer para enfrentar determinadas situações que, considerando tudo o que o país já enfrentou e superou nos últimos vinte anos, dá prá se dizer que não passam de pequenas banalidades.
Ora, no momento atual, quais deveriam ser as prioridades do ministro da Fazenda? Vejamos o quadro que é conhecido por todos: nos seus dois últimos anos do segundo mandato, Lula, sabendo que não teria um terceiro mandato para se deliciar, resolveu “desistir” do povão, e ele próprio fazer a nossa escolha do presidente que iria sucedê-lo. Com este propósito, mandou às favas o equilíbrio fiscal, as leis, o decoro e mandou ver numa farra de gastança desenfreada, tudo para capturar o máximo de votos para sua eleita e sucessora.
Como dinheiro não aceita desaforo, esta corrida maluca de liberar geral, até para construir uma mastodôntica base de apoio político, incentivou o consumo ao máximo, e muito além da capacidade de produção interna do país. O próprio governo passou a gastar adoidado. Moral da história: para fechar as contas públicas em equilíbrio, o governo precisou aumentar sua dívida, emitindo títulos que, por sua vez, tiveram o “dom” de manter os juros nas alturas. Como no restante do mundo o juro esteve neste tempo quase zerado na maioria dos países, os juros altos serviram de um formidável polo de atração para o capital motel. Com a enxurrada de dólares entrando no país, é claro, que a nossa moeda sofreu uma valorização muito além do normal, do aceitável. A consequência foi o país perder mercados para seus produtos manufaturados e semimanufaturados, além de um processo de desnacionalização e desindustrialização perigoso.
Com o consumo aquecido além da conta e da capacidade de produção instalada,, tivemos a volta da inflação. Ora, seria simples de resolver: pé no freio do crescimento e contenção rigorosa de gastos. Porém, o governo Lula e mesmo estes primeiros meses de Dilma Presidente, o governo andou na contramão do que dele se esperava. Consequência: mesmo com o senhor Mantega adotando medidas “macroprudenciais” e na espantosa velocidade de um cágado, o real permanece se valorizando e a inflação teima em se manter acesa e assanhada.
Hoje, depois de ter aumentado o IOF para empréstimos tomados no exterior e para compras com cartão crédito também no exterior, o senhor Mantega se saiu com esta:
“Não é fácil conseguir conter a inflação, o que significa aumentar os juros, e, ao mesmo tempo, tomar medidas para conter a valorização do real”, disse o ministro. “Mas acho que temos conseguido.”
Pois bem, já sabemos que a inflação vai estourar a meta antes do meio do ano e o real está em 1,57 frente o dólar, e com tendência de queda. Ou seja, apesar do “...acho que temos conseguido...” do Ministro Mantega, o fato é que não temos conseguido é coisa alguma. Pouco a pouco está é se deteriorando.
Onde está pegando, então? Ora, é simples: reduzir o gasto público. É possível? Sim, basta querer e saber eleger as prioridades mais urgentes para o país.
Agora, e apenas para citar um pequeno grande exemplo da semana, como é possível tentar compatibilizar juros e inflação baixas, e um certo ponto de equilíbrio no câmbio, quando o governo cria uma estatal para construir o tal do trem-bala que, originalmente, custaria cerca de 33 bilhões de reais, mas que já se projeta seu custo ir cerca de 45% além do previsto? Como se pode acreditar nas boas intenções do governo que, não satisfeito em ter um superministério de 37 pastas, ainda anuncia a criação de mais dois e com todos os custos que de tal medida decorre? Como acreditar que o governo da Madame vai compatibilizar estas questões econômicas, quando anuncia 20 bilhões via BNDES como garantia de crédito para o consórcio que vencer o leilão do trem-bala?
“Não é fácil conseguir conter a inflação, o que significa aumentar os juros, e, ao mesmo tempo, tomar medidas para conter a valorização do real”, afirmou Mantega. Realmente não é, tampouco será fácil resolver esta equação, tentando compatibilizar dois projetos que, no momento, são totalmente incompatíveis: projeto de desenvolvimento sustentável com estabilidade e inclusão social, e projeto de poder. Já disse e reafirmo: ou é um, ou é o outro. Os dois juntos num mesmo balaio, acabará jogando no lixo todo o esforço feito pelo país ao longo dos últimos anos, para chegar a atual estabilidade econômica, do qual derivam todas as demais conquistas, sociais inclusive.
Afirmou Mantega que “Temos tomado medidas severas.” Pois é, senhor ministro, como vemos pelos resultados alcançados, tão severas quanto inúteis.
Sei não, mas se Mantega continuar soltando suas piadas infantis sem alcançar os resultados pretendidos – e necessários -, acho que o ministério da fazenda terá novo comando bem antes do final do mandato de dona Dilma.
A seguir, a reportagem da Agência Estado, com informações da Agência Reuters, sobre as dúvidas “existenciais” do Ministro Mantega.
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É difícil frear a inflação e segurar o dólar, diz Mantega
Para ministro, moeda americana estaria entre R$ 1,35 e R$ 1,40 sem as medidas adotadas pelo governo
WASHINGTON - O ministro da Fazenda, Guido Mantega, defendeu nesta quinta-feira o acerto da estratégia do governo para mitigar a valorização do real, mas admitiu que combinar isso com o combate a inflação é difícil.
Mantega negou que esteja tomando medidas em "conta-gotas" e falou que um exagero poderia ser danoso.
"Você não explode uma bomba nuclear porque se não os efeitos colaterais são piores que a medida em si", disse à Reuters antes das reuniões do G-20 e do Fundo Monetário Internacional. "Temos tomado medidas severas."
As declarações vêm num momento em que os índices de inflação se aproximam do teto da meta fixada pelo Banco Central para 2011, de 6,5%, enquanto o dólar segue numa trajetória cadente frente ao real.
Segundo o ministro, sem as medidas tomadas pelo governo no câmbio, o dólar poderia estar agora entre R$ 1,35 e R$ 1,40 - nesta quinta, a moeda norte-americana fechou a R$ 1,579.
"Não é fácil conseguir conter a inflação, o que significa aumentar os juros, e ao mesmo tempo tomar medidas para conter a valorização do real", disse o ministro. "Mas acho que temos conseguido."
Na semana passada, o governo dobrou para 3% a alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) incidente nas operações de crédito ao consumo, em mais um esforço para tentar desacelerar a economia.
Em dezembro, o BC havia adotado medidas macroprudenciais com o mesmo objetivo. Segundo Mantega, elas estão funcionando. Em outra frente, o BC elevou o juro básico em 1 ponto porcentual. Na semana que vem, os diretores do órgão devem adotar um aumento entre 0,25 ponto e 0,5 ponto, segundo estimativa do mercado.
O receio do governo e de vários economistas é de que juro mais alto intensifique a entrada de dólares no país que tem valorizado o real e prejudicado setores da economia brasileira.
De acordo com Mantega, é preferível aumentar a taxação sobre a entrada de dólares do que impor restrições mais severas, como uma quarentena. Ele disse que o Brasil continua querendo capital de longo prazo.
"Quando você cobra IOF, está simulando a mesma coisa. Preferimos fazer com taxação do que fazer com quarentena. Mas dá mais ou menos na mesma", afirmou.
O ministro disse ainda que o Brasil não aceitará qualquer restrição à capacidade de impor controles de capital que ameacem prejudicar a economia do país.
Metas para 2012
Mantega adiantou que o governo pretende estabelecer o equivalente a 3% do Produto Interno Bruto (PIB) como meta de superávit primário em 2012, dentro da expectativa de que a economia se expanda em 5% no período.
Na sexta-feira, a ministra do Planejamento, Miriam Belchior, falará sobre o Projeto da Lei de Diretrizes Orçamentárias para 2012, encaminhado ao Congresso Nacional.
O ministro ainda voltou a criticar a política de juros baixos praticada por países desenvolvidos que, segundo ele, contribuem para a especulação com as commodities, cuja alta é um dos motores da inflação global.