sexta-feira, abril 15, 2011

A última medida na área cambial terá pouco efeito

O Estado de São Paulo

Mais uma vez o ministro da Fazenda tenta conter a valorização do real ante o dólar adotando uma tática progressiva que não produz o efeito esperado. De fato, sujeitar empréstimos externos com prazo inferior a 720 dias ao Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) de 6%, enquanto, até agora, isso só alcançava empréstimos de até um ano, parece não ter efeito sobre a taxa cambial. Ontem ela continuou a se valorizar.

É preciso, porém, esperar alguns dias para avaliar todos os efeitos, pois tudo indica que o anúncio do ministro, anteontem, de que adotaria novas medidas na área cambial, levou a uma antecipação de compras de dólares, que serão devolvidos ao mercado na medida em que se constate que a nova decisão não deverá ter grande efeito.

O ministro teve de reconhecer que a modificação foi adotada com grande prudência, levando em conta seus efeitos colaterais. Hoje, a luta contra a inflação está no centro das preocupações das autoridades monetárias. A divulgação do IPCA de março, ontem, mostrou claramente que a inflação continua uma ameaça séria. Se o governo conseguir uma efetiva desvalorização do real, o efeito sobre a inflação seria provavelmente desastroso, dada a atual dependência em relação às importações, que vêm exercendo um papel essencial na contenção da alta dos preços.

Isso não significa que a medida, mesmo tímida, não tenha algum efeito inflacionário. É que os empréstimos externos, feitos a um custo inferior ao do mercado interno, ajudam na contenção dos preços, e isso se acentua cada vez que se eleva a taxa Selic, o que deve ocorrer na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). Já o IOF age ao contrário.

A medida tem, todavia, um efeito positivo: permite melhorar o perfil da dívida externa. Porém, obriga a equipe econômica a ter cuidado, pois o Brasil, com sua conta de transações correntes deficitária, necessita do aporte de capitais externos para cobrir esse déficit, e, se a inflação se eleva, vai haver dificuldades para obter empréstimos de mais de dois anos.

O insucesso da Fazenda nas tentativas de conter a valorização do real deveria levar a equipe econômica a procurar as razões do malogro. O problema não se encontra no câmbio, que apenas reflete a prosperidade atual de nossa economia, mas nas fontes desse excepcional desenvolvimento: uma política fiscal irresponsável que se apoia sobre uma liquidez ilusória, criada pelos gastos do governo.

Se não fosse isso, o crédito não seria tão abundante nem a demanda doméstica seria tão pujante.