quarta-feira, setembro 19, 2012

Geração perdida

Adelson Elias Vasconcellos

Creio que os resultados do estudo narrado em reportagem de O Globo, no post anterior, falam por si mesmos. Este impressionante exército de jovens fora da sala de aula e do mercado de trabalho, demonstra, ao mesmo tempo, tanto a falência das políticas públicas nos campos social e educacional, além  da falácia sobre estas mesmas políticas que o governo petista tenta esconder da sociedade.

A faixa compreendida entre 18 e 25 anos, deveria ou estar fazendo uma coisa – estudando – ou outra – trabalhando – ou até ambas, porque estudar e trabalhar nunca matou ninguém. 

Quando o governo Lula, mais preocupado com as urnas do que em oferecer oportunidades num campo e outro para a juventude, reduziu a faixa etária de beneficiários do Bolsa Família, talvez tenhamos sido um dos poucos a criticar a medida.  Aliás, da forma como se estruturaram os programas sociais pelos  governos petistas, temos sido críticos permanentes. Mais do que servir de alavanca e ascensão social, ao não se completarem estes programas com ações que permitam aos seus beneficiários sua “independência”, criam acomodação que resulta naquilo que o estudo abaixo escancara. Não há, simplesmente, nem pelo lado da educação, nem pelo lado do encaminhamento ao mercado de trabalho, incentivo algum para estes jovens. Esta acomodação nasce de outra acomodação muito maior ainda de parte do governo. Comemora-se efusivamente o aumento crescente do número de beneficiários dos programas sociais, Bolsa Familia notadamente, quando deveria acontecer justamente o contrário. Seria a contração deste número que indicaria que o programa completou seu ciclo virtuoso e justificou e plenamente a sua criação e condução. A questão, e eis a prova contundente que o estudo acaba por demonstrar, é que não há efetivo interesse político para que isto aconteça. Quanto maior o número de beneficiários, maior o número de dependentes do Estado e, em consequência, o de fiéis eleitores. Assim, não há por detrás destes programas a séria intenção de conceder ferramentas para o indivíduo um dia saber andar sem a muleta do paternalismo estatal.

No campo do trabalho, por exemplo, e com maior incidência no Nordeste, é comum pessoas negarem que empregadores assinem suas carteiras de trabalho com medo de perderem o Bolsa Família. E os jovens desta faixa,  também alcançados pelo mesmo programa, em razão de contarem com auxilio pecuniário do mesmo  Estado, não se sentem atraídos nem em trabalhar, tampouco estudar. 

Antes de prosseguir, convém esclarecer, mais uma vez, que não sou contra a existência de programas sociais que, num primeiro momento, retirem da pobreza e miséria extremas as pessoas que se encontram em tal situação. Mas só isto não basta para que estes programas sejam chamados de sociais. É preciso haver portas de saída que sejam, suficientemente,  atrativas para que estes milhões de jovens não permaneçam em uma zona de conforto onde o ócio é sua permanente condição.

Claro que a escola deveria servir de trampolim para esta espécie de emancipação. Contudo, e quem é pai sabe bem disto, o ensino médio brasileiro serve mais para espantar do que para atrair. Cito um exemplo, para não se dizer que apenas criticamos: por que o ensino médio não faz uma integração com escolas técnicas federais e o sistema SENAC/SENAI, ao invés de ficar entupindo os jovens estudantes com o besteirol com que se inflaram, de maneira inútil, os currículos escolares? 

Não se trata apenas de currículos, ou das más condições físicas dos prédios. Isto apenas compõe o conjunto de variáveis que tornam o ensino médio de baixíssima qualidade.  A começar pela má formação dos professores.

E aqui começa uma briga que parece o governo não querer comprar – e deveria. Praticamente, de uma ponta a outra, a educação brasileira é submetida a testes de avaliação. Mas avaliamos apenas os alunos, nunca os professores, cuja imensa maioria dos sindicatos se nega terminantemente na criação deste mecanismo que serviria para tirar das salas de aula professores sem qualificação. E, num segundo momento, serviria como degrau a  melhoria salarial. 

Não é possível que os salários sejam estabelecidos de forma horizontal. Em qualquer ramo profissional, a diferenciação entre bons e maus, se nota justamente nos salários. Os melhores ganham mais. Simples assim. E esta diferenciação serviria como incentivo para, os com menores salários, buscassem seu aprimoramento para fazerem jus a remunerações melhores. Em consequência, teríamos professores mais qualificados para produzirem alunos melhor preparados. Daí porque a avaliação permanente de professores se torna obrigatória, porque muitas vezes uma boa escola acaba prejudicada nas avaliações, em razão de maus professores que formam alunos despreparados. Agora tentem enfiar esta realidade na cabeça dura dos sindicalistas!!!

De qualquer forma, o resultado do estudo, apontando quase 6 milhões de jovens ociosos, sem estudar nem trabalhar, ou um em cada cinco garotos e garotas, (no nordeste o índice é de um para quatro) , impressiona e preocupa. E deveria servir de sinal amarelo para os governantes se debruçarem em busca de soluções para drástica redução destes índices assustadores. Estamos comprometendo o futuro de toda uma geração pela inércia dos que deveria se responsabilizar em oferecer incentivo e portas não de saída, mas de ingresso na vida adulta como cidadãos produtivos para si mesmos e para a coletividade em que vivem. E dado o índice alarmante, também é o futuro do próprio país que acaba se comprometendo. 

Assim, ao invés de Dilma participar e perder tempo em propaganda eleitoral, ou pretender subir em palanques, deveria olhar para estes números e perguntar-se: onde foi que erramos? Qual a solução para evitar que nossa juventude permaneça fora tanto da escola quanto do mercado de trabalho? Soubesse ela o quanto isto é importante e vital para o Brasil poder sonhar com um futuro melhor, e por certo abandonaria sua temporária carreira de garota propaganda no horário eleitoral. Aliás, salvo melhor juízo, foi eleita para ser presidente do Brasil, e não garota propaganda de meia dúzia de candidatos a políticos.

Para encerrar: reparem matéria nesta edição que,  enquanto o Brasil é o 15º país que mais investe em educação em relação ao PIB, num ranking de 30 países avaliados, ficamos apenas na 53º colocação no Exame de Avaliação Internacional PISA. Ou seja, a questão fica clara não ser “falta de recursos” como sempre se disse, muito embora, entendo, que dado o atraso no campo educacional que acumulamos ao longo do tempo, seria preciso elevar este patamar de investimentos. 

Ora, se os recursos são compatíveis com o que se investe na maioria dos países, por conta do que nossa qualidade se mostra tão baixa, tão vergonhosa?  Alguma coisa de errado há, sem dúvida. Depois, ao avaliarmos os números da evasão escolar, principalmente no ensino médio, com o número  de jovens que estão fora da escola, na faixa de 15 a 24 anos, comprova-se que a escola brasileira não está suficiente preparada nem adequada, nem à nossa realidade, tampouco às exigências do país e da vida moderna. Isto requer, dentre tantos outros fatores, melhor capacitação dos professores. Mas parece que este tabu é intocável no Brasil de hoje. 

E, enquanto não assumirmos clara e corajosamente nossas deficiências, erros de avaliação e escolha erradas de soluções simplistas e imediatistas, vamos curtir, por um boa quadra de anos, o peso de carregarmos toda uma geração perdida, jovens cujo futuro melhor se nega por absoluta cegueira não apenas dos governantes, mas da própria sociedade na qual se insere profissionais de ensino mal formados e, muitos deles, totalmente distantes de sua própria responsabilidade. 

Até quando vamos carregar este peso vergonhoso e produzindo gerações perdidas de jovens brasileiros?

Ociosidade entre jovens é mau sinal


Editorial
O Globo

Há 5,3 milhões de brasileiros entre 18 e 25 anos que não estudam, não trabalham e nem procuram emprego. A mazela terá impacto até na produtividade da economia

Conhecido pelo termo técnico de “bônus demográfico”, um grande contingente de jovens entrando no mercado de trabalho é considerado uma oportunidade especial para o desenvolvimento de um país. Além de ampliar o mercado de consumo e, por consequência, a produção, este ciclo de rejuvenescimento crescente da força de trabalho pode ter múltiplos impactos positivos na sociedade — nos valores, na cultura etc.

Nada acontece, porém, de forma automática. Não basta ter uma alta proporção de jovens na população para o país se desenvolver. Talvez a prova mais dramática de que nada, de bom ou mal, acontece por acaso sejam nações árabes de populações de baixa idade, porém atoladas no subdesenvolvimento, porque, entre outros fatores, inexistem instituições que deem sustentação ao crescimento e à modernização.

Preocupa, portanto, o fato de o Brasil, candidato a se beneficiar do “bônus demográfico”, ter, segundo os dados do Censo de 2010, 5,3 milhões de jovens entre 18 e 25 anos de idade que não estudam, não trabalham, nem procuram emprego. Eles representam 19,5% desta faixa da população, segundo reportagem do GLOBO. São os “nem-nem”, terminologia inspirada no “ni-ni” usado na Espanha para designar esta juventude colocada à margem. Na Espanha, o fenômeno tem a explicação óbvia da grave crise econômica por que passa o país.

O oposto do Brasil, porque quando o Censo foi apurado, há dois anos, a economia cresceu 7,5%, com reflexo direto na queda do desemprego. Mesmo assim, estes 5,3 milhões de brasileiros jovens não entraram no mercado de trabalho.

Parece haver uma relação direta entre a juventude marginalizada e seu nível e qualidade de instrução. Este deve ser o pano de fundo do fato de as maiores proporções de “nem-nem” serem encontradas em estados onde há sérios problemas no ensino: Maranhão (29,2% de jovens inativos), Alagoas (28%) e Ceará (26,3%). O Rio de Janeiro está na média nacional (19,6%), e os melhores índices se encontram no Sul, com exceção de Brasília (13,8%): Paraná (14,5%), Rio Grande do Sul (13,3%) e Santa Catarina (10,7%).

A situação poderia ser outra se, na Era Lula, no momento de definir políticas públicas, o governo, em vez de dar prioridade ao assistencialismo, convertido em grande e crescente item nas despesas públicas, houvesse optado pela melhoria do nível educacional da população e da qualidade da mão de obra. Foi um erro crasso de visão estratégica, com repercussões graves. Como alertou o economista Flávio Comim, professor de Cambridge, deixar surgir este enorme bolsão de marginalizados na juventude, além das mazelas sociais, causará problemas inclusive na produtividade do país. Afinal, a parcela envelhecida do mercado de trabalho será substituída por gente mal formada.

É assim que, em nome de ações de grande impacto de curto prazo e efeito político-eleitoral, se compromete o futuro.

Um quinto dos jovens nem estuda, nem trabalha, nem busca emprego


Fabiana Ribeiro
O Globo

São 5,3 milhões os brasileiros entre 18 e 25 anos que estão fora da educação formal e do mercado de trabalho, quase a população da Dinamarca

GUSTAVO STEPHAN / O GLOBO 
Letícia Protásio: 
“Sei que agora vou ter que ficar em casa, 
cuidando do meu filho. Talvez por um, dois anos”

RIO e SÃO PAULO — Para Letícia Protásio, “os dias passam devagar”. “Sobra tempo para ver as coisas do bebê”. Sobra tempo porque a jovem de 20 anos não está estudando, tampouco trabalha, e muito menos procura emprego (“Quem vai empregar uma grávida?”). Ela é um dos 5,3 milhões de jovens, entre 18 e 25 anos, que estão fora da educação formal e do mercado de trabalho — quase a população da Dinamarca. Um problema que atinge um em cada cinco jovens (ou 19,5% dos 27,3 milhões de pessoas dessa faixa etária), aponta o estudo exclusivo “Juventude, desigualdades e o futuro do Rio de Janeiro”, coordenado pelo professor Adalberto Cardoso, do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Ele teve por base microdados do Censo Demográfico de 2010, do IBGE.

As razões que levaram Letícia a interromper os estudos e largar o emprego passam pela maternidade — um dos principais motivos para as mulheres abandonarem os estudos e adiarem a entrada no mercado de trabalho. Pelos dados do especialista do Iesp, o número de moças que fica em casa é quase o dobro do dos rapazes: respectivamente, 3,5 milhões e 1,8 milhão. Mas a maternidade não é a única explicação. O forte desalento, segundo Cardoso, ajuda a entender os números alarmantes. Que ficam mais graves quando se leva em conta que, em 2010, ano do Censo, a economia brasileira cresceu 7,5%.

— Esses jovens que ficam fora têm qualificação muito ruim. Tão ruim que, ao abandonarem a escola, o mercado de trabalho, mesmo em plena atividade, não os absorve. Resultado: eles desistem, e são os pobres os mais afetados — disse Cardoso, acrescentando que esse fenômeno é muito urbano. — Entram nesses números os jovens que foram puxados para a criminalidade.

Na parcela mais pobre da população brasileira, com renda per capita de até R$ 77,75, quase metade (ou 46,2%) dos jovens estava fora da escola e do mercado de trabalho.

— A escola não consegue atrair o jovem, levando a uma elevada evasão escolar. Em consequência, ingressar no mercado de trabalho vai ficando mais e mais difícil — explicou Cardoso.

Professor vê desalento estrutural
O gargalo, segundo o professor Fernando de Holanda Filho, da Fundação Getulio Vargas (FGV), está na baixa taxa de matrícula do ensino médio. Hoje, segundo ele, ao menos 50% dos jovens trabalham sem ter nível médio:

— Quando vão para o mercado de trabalho, não conseguem se colocar. Esse cenário cria um desalento estrutural, que se complica a cada ano. É um problema de longo prazo.

O paulistano Eduardo Victorelli, de 22 anos, não terminou o ensino médio e não buscou cursos técnicos ou profissionalizantes depois que largou a escola, aos 17 anos. Embora pareça ter um futuro incerto, ele afirma com segurança que será jogador de futebol:

— Meus pais e minha família me apoiam e conseguem pagar as contas. Acreditamos que o salário de jogador mudará nossa vida.

Ele largou a escola para ir ao Paraná, tentar jogar no Coritiba. Mas o salário não bastaria para comer, morar e viver em outro estado, e voltou para São Paulo. Desde então, jogou em dois pequenos times. Ele mora em Sapopemba, bairro simples da Zona Leste, com os pais, avós e tios.

O afastamento dos estudos e do trabalho vai comprometer — e muito — o futuro desses jovens, diz Cardoso:

— Parte dessas pessoas vai se colocar como assalariado sem carteira assinada. Esse jovem de hoje vai carregar o peso desse abandono pelo resto da vida — disse Cardoso.

Letícia vive com o namorado, que ganha R$ 1.500 por mês como divulgador. Em Jacarepaguá, eles têm o apoio da avó e da mãe dele.

— Sei que agora vou ter que ficar em casa, cuidando do meu filho. Talvez por um, dois anos.

Para Hildete Pereira, coordenadora do Núcleo Transdisciplinar de Estudos de Gênero da UFF, faltam políticas públicas de controle da natalidade e apoio para cuidar de crianças. A cobertura de creches passou de 7% das crianças de 0 a 3 anos em 2000 para 21% em 2011:

— Melhorou, mas ainda há déficit.

Enquanto isso, país amarga escassez de mão de obra
O contingente de 5,3 milhões de jovens inativos no Brasil ocorre num momento em que o país tem baixas taxas de desemprego e os empresários se queixam de escassez de mão de obra.

— É um desperdício de recurso, especialmente no momento econômico do país — disse Naércio Menezes, professor de economia do Insper, acrescentando que, quando o jovem deixa de enxergar os benefícios da educação, ele deixa de ter um futuro melhor.

Essa geração perdida vai fazer falta para um crescimento sustentado, advertiu Paulo Levy, economista do Ipea. Ele explica que as empresas terão que aumentar a produtividade dos que estão trabalhando.

Mas o crescimento econômico do país também permite que uma ínfima parcela desse contingente tenha respaldo em casa para pensar na carreira. Além disso, na chamada “geração canguru” os jovens deixam a casa dos pais mais tarde. Nesse universo, estão pessoas que se preparam para concursos públicos ou tiram um sabático para viajar. O Iesp-Uerj só considerou quem não frequenta a educação formal.

Natália de Miranda, de 24 anos, estuda em casa para o concurso para magistratura do trabalho:

— Estudo de seis a oito horas por dia e, muitas vezes, ainda ouço que não estou fazendo nada.

Mas o cenário pode ser ainda pior. Ao incluir os jovens que buscam trabalho mas não conseguem, os 5,3 milhões saltam para 7,2 milhões. Ou seja, a cada quatro jovens entre 18 e 25 anos, um está parado.

Colaborou: Roberta Scrivano

Nas regiões Norte e Nordeste, 25% dos jovens estão parados


Letícias Lins
O Globo

Maranhão tem o maior percentual entre os estados brasileiros: 29%

HANS VON MANTEUFFEL / O GLOBO
Falta de perspectiva: 
os irmãos Juliana e Rafael da Silva, com o filho dele, Igor.
 “Não sei se vou tentar vestibular, nem cursinho estou fazendo”, diz Juliana

RIO e RECIFE — Se a parcela de jovens fora da escola e do trabalho cresce nas famílias de mais baixa renda, a inatividade também é maior nas regiões Norte e Nordeste, onde 25,2% e 25,1%, respectivamente, dos jovens não estudam nem trabalham, aponta o estudo do Iesp-Uerj. No Maranhão, essa parcela é de 29,2%, a maior do país. Na outra ponta, em Santa Catarina, são 10,7%.

— No Sudeste (16,8%), o que se nota é que a economia segue crescendo, mas não tanto para os jovens. Já o Sul (13,1%) tem uma população mais bem qualificada e um mercado de trabalho mais bem desenvolvido — disse Adalberto Cardoso, coordenador do estudo.

Em Recife, nos bairros populares, é comum encontrar jovens longe da escola e sem trabalho. Como os irmãos Juliana, de 24 anos, e Rafael Gomes da Silva, de 20 anos. Eles moram em um pequeno vilarejo à margem do Rio Capibaribe. De quatro irmãos, só Juliana concluiu o ensino médio.

Rafael não passou nem um ano na escola, não sabe ler e aprendeu recentemente com Juliana a assinar o nome. Ele, que tem um filho de 1 ano, Igor, já teve carteira assinada, como servente, mas no momento está desempregado. Juliana, que estudou em escola pública, não conseguiu aprovação no Enem. Sonha em fazer Veterinária, mas não se sente preparada para o vestibular:

— Não sei se vou tentar vestibular, nem cursinho estou fazendo.

Juliana fez um curso de informática, mas não se adaptou. Depois arranjou emprego de balconista em uma padaria, mas desistiu: o patrão não queria assinar sua carteira, não dava dinheiro para o ônibus, não fornecia lanche nem água. Desde então, ela não faz nada. A família é sustentada pelo pai, que é areeiro (tira areia do leito do Rio Capibaribe para vender a armazéns de construção).

Rafael deixou a escola quando seus vizinhos saíram. Tinham entre 9 e 12 anos. Aos 16, ele tentou um programa de alfabetização para jovens e adultos, mas em menos de um mês desistiu.

Os gastos do Brasil com educação em relação ao mundo


Amanda Previdelli
Exame.com

O Brasil é o 15º maior gastador, mas só aparece em 53º - de um total de 65 países - quando se trata de qualidade da educação. Confira como ele se compara a outras nações

Marcos Santos/USP Imagens
Ensino no Brasil: 
qualidade de ensino  não acompanha altos investimentos

São Paulo – Tramita no Congresso Nacional uma proposta para fazer o volume de recursos para a educação chegar a 10% do PIB nacional. Hoje, o Brasil investe 5,7% - um dos índices mais altos entre os 42 países membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a frente de Reino Unido, Canadá e Alemanha, por exemplo.

Na semana passada, a organização lançou um relatório sobre os gastos em educação de várias nações.

Investir um décimo de toda a riqueza produzida no país deixaria o Brasil em primeiro lugar no ranking, acima da Islândia, que investe assombrosos 7,8% do PIB em educação hoje.

Esse número considera, além dos investimentos nas instituições de ensino, gastos governamentais com bolsas e programas de apoio aos alunos.

Apesar do investimento brasileiro ser próximo da média dos países da OCDE, o país se encontra somente em 53º lugar - de um total de 65 - no Pisa, um programa de avaliação da qualidade da educação da mesma organização.

Ou seja, maiores investimentos não necessariamente acompanham, na mesma proporção, uma melhora no desempenho dos estudantes.

O Brasil é o 15º que mais investe o PIB na área na lista da OCDE. Os lanternas no ranking foram Indonésia (investimento de 3% do PIB), Índia (investimento de 3,5%), Japão (3,8%), Eslováquia (4,1%) e República Tcheca (4,4%).

Confira os maiores “gastadores” e sua posição no ranking de qualidade educacional:

Ranking
País
Gasto com educação
Posição no Pisa
1
Islândia
7,80%
16º lugar
2
Noruega
7,30%
12º lugar
3
Suécia
7,30%
19º lugar
4
Nova Zelândia
7,20%
7º lugar
5
Finlândia
6,80%
3º lugar
6
Bélgica
6,60%
11º lugar
7
Irlanda
6,50%
21º lugar
8
Estônia
6,10%
13º lugar
9
Argentina
6%
58º lugar
10
Áustria
6%
39º lugar
11
Holanda
5,90%
10º lugar
12
França
5,90%
22º lugar
13
Israel
5,80%
37º lugar
14
Portugal
5,80%
27º lugar
15
Brasil
5,70%
53º lugar
16
Eslovênia
5,70%
31º lugar
17
Reino Unido
5,60%
25º lugar
18
Suíça
5,50%
14º lugar
19
Estados Unidos
5,50%
17º lugar
20
México
5,30%
48º lugar
21
Hungria
5,10%
26º lugar
22
Polônia
5,10%
15º lugar
23
Canadá
5,10%
6º lugar
24
Alemanha
5,10%
20º lugar
25
Coreia do Sul
5%
2º lugar
26
Espanha
5%
33º lugar
27
Austrália
5%
9º lugar
28
África do Sul
4,80%
(não participa)
29
Rússia
4,70%
43º lugar
30
Itália
4,70%
29º lugar

Para que servem as universidades


José Goldemberg
O Estado de São Paulo

A universidade está sob ataque e os atacantes são internos e externos. Entre os "inimigos" externos, um dos mais atuantes no momento é Peter Thiel, um importante executivo americano da área de informática que oferece bolsas para que estudantes abandonem as universidades e criem empresas nos Estados Unidos e na Europa, onde já existe, segundo ele, suficiente tecnologia disponível.

Em países industrializados já existe, de fato, muita tecnologia disponível, o que não significa, contudo, que novos avanços não estejam ocorrendo todos os dias. O mesmo se aplicaria aos países em desenvolvimento na Ásia, na África e na América Latina, que poderiam simplesmente copiar o que deu certo nos Estados Unidos, na Europa e no Japão.

Essa visão imediatista e colonialista de Peter Thiel encontra aliados nos "inimigos" internos das universidades públicas em nosso país, com greves infindáveis baseadas, em geral, em reivindicações corporativas, que prejudicam não só estudantes, como também as pesquisas em andamento. Se vivesse no Brasil, o executivo americano provavelmente apoiaria a greve e a consideraria uma demonstração viva de que as universidades não são necessárias.

As ideias de Peter Thiel são incorretas em número, gênero e grau. Se fossem levadas a sério, matariam a "galinha dos ovos de ouro" que é a pesquisa científica, na qual se origina a inovação tecnológica.

Cientistas, de modo geral, são movidos por uma profunda curiosidade intelectual de entender como as coisas funcionam. A glória, para eles, é conseguir estabelecer claramente a relação entre causas e efeitos. Essas descobertas podem ter imensas consequências práticas e resultar em ganhos financeiros. Raramente, no entanto, isso é feito pelos próprios cientistas, e sim por empreendedores que põem em prática os seus ensinamentos.

Pode parecer divertido e lucrativo fazer jogos eletrônicos, iPads, Facebook, com as inúmeras variantes dos computadores de hoje, e se tornar bilionário. Sucede que esses desenvolvimentos só se tornaram possíveis com a invenção dos transistores na década de 50 do século passado, a qual não teria sido possível sem a evolução da física moderna nos anos 1930.

Além disso, nos países em desenvolvimento o problema não é só copiar o que os países industrializados fizeram antes, mas escolher o que copiar. Para fazê-lo é preciso haver cientistas capazes de entender a ciência e a tecnologia moderna, que é o que universidades normalmente fazem. Em muitos casos, copiar não basta porque são necessárias adaptações ao uso de materiais disponíveis nessas nações e às condições locais.

Países como a China estão se beneficiando extraordinariamente desse modo de fazer as coisas, combinando boas escolhas com mão de obra barata. A prioridade para a China não tem sido o mercado interno, mas o imenso mercado mundial, onde os padrões de qualidade dos produtos consumidos são elevados e existe competição. Daí a necessidade de usar tecnologias modernas e também o papel da inovação, cuja função é descobrir a melhor maneira - e a mais econômica - de fabricar os produtos.

Não é o que está ocorrendo no Brasil, onde o protecionismo alfandegário dificulta a entrada de produtos do exterior e a indústria se concentra em atender o mercado interno, que é pequeno, apenas cerca de 2% do mercado mundial, abrindo mão de competir nos 98% restantes, como faz a China. Na ausência de competição, a indústria nacional utiliza frequentemente tecnologias obsoletas, por não ter motivos fortes para inovar. Quando as barreiras alfandegárias caem, a indústria pode simplesmente ser levada à falência, como se deu em 1990 com a indústria têxtil, que não tinha acesso à tecnologia moderna.

Qual o papel das universidades neste panorama?

Historicamente, o sistema produtivo, tanto nos países industrializados como nas nações em desenvolvimento, gera demandas do setor universitário. As principais das quais são as seguintes:
A necessidade de garantir acesso a novas matérias-primas à medida que as tradicionais se tornam difíceis de obter.

A procura de novas soluções, forçada pelas restrições ambientais.

Automatização crescente dos processos industriais, que resolve problemas de aumento de produção, mas pode criar gargalos técnicos cuja solução exija inovações.

Mudanças de padrões de consumo e os desenvolvimentos tecnológicos que eles possam exigir.

A competição é o grande motor da busca de inovações. Quando ela não existe, o sistema produtivo definha e morre. Exemplo disso é o que ocorreu na extinta União Soviética, onde os setores científicos e universitários que trabalhavam em áreas em que o governo tinha grande interesse - armas nucleares e foguetes para lançamento de ogivas nucleares - foram privilegiados e tiveram enorme sucesso. Já o desenvolvimento de produtos de consumo que melhorariam as condições de vida da população tinham baixa prioridade e baixo envolvimento dos cientistas e das universidades, e essa foi uma das causas do desmoronamento do sistema soviético.

Daí a necessidade de manter universidades de alto nível, isto é, centros de estudos, pesquisas e inovação, como é feito na Europa há quase mil anos. São as grandes universidades de hoje, algumas delas no Brasil, que produzem as novas ideias e novas tecnologias que vão dar, amanhã, origem a empreendimentos comerciais, e não o contrário. É uma ilusão esperar que elas, por si sós, modernizem o sistema produtivo, mas precisam estar preparadas para responder às demandas da sociedade.

É por essa razão que qualquer medida que leve à redução da qualidade e do potencial das universidades brasileiras, como a criação de cotas raciais, por exemplo, é equivocada.