Creio que os resultados do estudo narrado em reportagem de O Globo, no post anterior, falam por si mesmos. Este impressionante exército de jovens fora da sala de aula e do mercado de trabalho, demonstra, ao mesmo tempo, tanto a falência das políticas públicas nos campos social e educacional, além da falácia sobre estas mesmas políticas que o governo petista tenta esconder da sociedade.
A faixa compreendida entre 18 e 25 anos, deveria ou estar fazendo uma coisa – estudando – ou outra – trabalhando – ou até ambas, porque estudar e trabalhar nunca matou ninguém.
Quando o governo Lula, mais preocupado com as urnas do que em oferecer oportunidades num campo e outro para a juventude, reduziu a faixa etária de beneficiários do Bolsa Família, talvez tenhamos sido um dos poucos a criticar a medida. Aliás, da forma como se estruturaram os programas sociais pelos governos petistas, temos sido críticos permanentes. Mais do que servir de alavanca e ascensão social, ao não se completarem estes programas com ações que permitam aos seus beneficiários sua “independência”, criam acomodação que resulta naquilo que o estudo abaixo escancara. Não há, simplesmente, nem pelo lado da educação, nem pelo lado do encaminhamento ao mercado de trabalho, incentivo algum para estes jovens. Esta acomodação nasce de outra acomodação muito maior ainda de parte do governo. Comemora-se efusivamente o aumento crescente do número de beneficiários dos programas sociais, Bolsa Familia notadamente, quando deveria acontecer justamente o contrário. Seria a contração deste número que indicaria que o programa completou seu ciclo virtuoso e justificou e plenamente a sua criação e condução. A questão, e eis a prova contundente que o estudo acaba por demonstrar, é que não há efetivo interesse político para que isto aconteça. Quanto maior o número de beneficiários, maior o número de dependentes do Estado e, em consequência, o de fiéis eleitores. Assim, não há por detrás destes programas a séria intenção de conceder ferramentas para o indivíduo um dia saber andar sem a muleta do paternalismo estatal.
No campo do trabalho, por exemplo, e com maior incidência no Nordeste, é comum pessoas negarem que empregadores assinem suas carteiras de trabalho com medo de perderem o Bolsa Família. E os jovens desta faixa, também alcançados pelo mesmo programa, em razão de contarem com auxilio pecuniário do mesmo Estado, não se sentem atraídos nem em trabalhar, tampouco estudar.
Antes de prosseguir, convém esclarecer, mais uma vez, que não sou contra a existência de programas sociais que, num primeiro momento, retirem da pobreza e miséria extremas as pessoas que se encontram em tal situação. Mas só isto não basta para que estes programas sejam chamados de sociais. É preciso haver portas de saída que sejam, suficientemente, atrativas para que estes milhões de jovens não permaneçam em uma zona de conforto onde o ócio é sua permanente condição.
Claro que a escola deveria servir de trampolim para esta espécie de emancipação. Contudo, e quem é pai sabe bem disto, o ensino médio brasileiro serve mais para espantar do que para atrair. Cito um exemplo, para não se dizer que apenas criticamos: por que o ensino médio não faz uma integração com escolas técnicas federais e o sistema SENAC/SENAI, ao invés de ficar entupindo os jovens estudantes com o besteirol com que se inflaram, de maneira inútil, os currículos escolares?
Não se trata apenas de currículos, ou das más condições físicas dos prédios. Isto apenas compõe o conjunto de variáveis que tornam o ensino médio de baixíssima qualidade. A começar pela má formação dos professores.
E aqui começa uma briga que parece o governo não querer comprar – e deveria. Praticamente, de uma ponta a outra, a educação brasileira é submetida a testes de avaliação. Mas avaliamos apenas os alunos, nunca os professores, cuja imensa maioria dos sindicatos se nega terminantemente na criação deste mecanismo que serviria para tirar das salas de aula professores sem qualificação. E, num segundo momento, serviria como degrau a melhoria salarial.
Não é possível que os salários sejam estabelecidos de forma horizontal. Em qualquer ramo profissional, a diferenciação entre bons e maus, se nota justamente nos salários. Os melhores ganham mais. Simples assim. E esta diferenciação serviria como incentivo para, os com menores salários, buscassem seu aprimoramento para fazerem jus a remunerações melhores. Em consequência, teríamos professores mais qualificados para produzirem alunos melhor preparados. Daí porque a avaliação permanente de professores se torna obrigatória, porque muitas vezes uma boa escola acaba prejudicada nas avaliações, em razão de maus professores que formam alunos despreparados. Agora tentem enfiar esta realidade na cabeça dura dos sindicalistas!!!
De qualquer forma, o resultado do estudo, apontando quase 6 milhões de jovens ociosos, sem estudar nem trabalhar, ou um em cada cinco garotos e garotas, (no nordeste o índice é de um para quatro) , impressiona e preocupa. E deveria servir de sinal amarelo para os governantes se debruçarem em busca de soluções para drástica redução destes índices assustadores. Estamos comprometendo o futuro de toda uma geração pela inércia dos que deveria se responsabilizar em oferecer incentivo e portas não de saída, mas de ingresso na vida adulta como cidadãos produtivos para si mesmos e para a coletividade em que vivem. E dado o índice alarmante, também é o futuro do próprio país que acaba se comprometendo.
Assim, ao invés de Dilma participar e perder tempo em propaganda eleitoral, ou pretender subir em palanques, deveria olhar para estes números e perguntar-se: onde foi que erramos? Qual a solução para evitar que nossa juventude permaneça fora tanto da escola quanto do mercado de trabalho? Soubesse ela o quanto isto é importante e vital para o Brasil poder sonhar com um futuro melhor, e por certo abandonaria sua temporária carreira de garota propaganda no horário eleitoral. Aliás, salvo melhor juízo, foi eleita para ser presidente do Brasil, e não garota propaganda de meia dúzia de candidatos a políticos.
Para encerrar: reparem matéria nesta edição que, enquanto o Brasil é o 15º país que mais investe em educação em relação ao PIB, num ranking de 30 países avaliados, ficamos apenas na 53º colocação no Exame de Avaliação Internacional PISA. Ou seja, a questão fica clara não ser “falta de recursos” como sempre se disse, muito embora, entendo, que dado o atraso no campo educacional que acumulamos ao longo do tempo, seria preciso elevar este patamar de investimentos.
Ora, se os recursos são compatíveis com o que se investe na maioria dos países, por conta do que nossa qualidade se mostra tão baixa, tão vergonhosa? Alguma coisa de errado há, sem dúvida. Depois, ao avaliarmos os números da evasão escolar, principalmente no ensino médio, com o número de jovens que estão fora da escola, na faixa de 15 a 24 anos, comprova-se que a escola brasileira não está suficiente preparada nem adequada, nem à nossa realidade, tampouco às exigências do país e da vida moderna. Isto requer, dentre tantos outros fatores, melhor capacitação dos professores. Mas parece que este tabu é intocável no Brasil de hoje.
E, enquanto não assumirmos clara e corajosamente nossas deficiências, erros de avaliação e escolha erradas de soluções simplistas e imediatistas, vamos curtir, por um boa quadra de anos, o peso de carregarmos toda uma geração perdida, jovens cujo futuro melhor se nega por absoluta cegueira não apenas dos governantes, mas da própria sociedade na qual se insere profissionais de ensino mal formados e, muitos deles, totalmente distantes de sua própria responsabilidade.
Até quando vamos carregar este peso vergonhoso e produzindo gerações perdidas de jovens brasileiros?