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Dispositivo é capaz de medir saúde do órgão a partir de uma gota de sangue
(Diagnostics For All/Divulgação)
Em contato com o sangue, o papel muda de cor.
De acordo com a nova coloração, médicos poderão
medir a presença de enzimas que indicam danos ao fígado
Um novo dispositivo de papel desenvolvido por pesquisadores americanos é capaz de monitorar os danos ao fígado causado por doenças e medicamentos. Para isso, ele só precisa de uma gota de sangue do paciente. A pesquisa foi publicada nesta quarta-feira na revista Science Translational Medicine.
Os remédios usados por pacientes portadores de HIV ou tuberculose podem causar alguns danos ao fígado. Em países desenvolvidos, esses pacientes passam por testes todos os meses para medir a toxicidade no órgão. Normalmente, seu sangue é retirado e enviado para análise em laboratórios, onde é medida a quantidade de duas enzimas que podem indicar dano ao fígado: a aspartato aminotransferase (AST) e a alanina aminotransferase (ALT). Nos países pobres, esses testes costumam ser caros, e os pacientes raramente têm acesso ao diagnóstico. Desse modo, eles não acompanham a saúde do órgão e não sabem se precisam de tratamentos adicionais.
O aparelho portátil de baixo custo desenvolvido pelos pesquisadores do Centro Médico Beth Israel Deaconess (BIDMC, na sigla em inglês), que pertence à Universidade de Harvard, pode ser um importante substituto para o teste. Do tamanho de um selo dos correios e custando alguns centavos de dólar, ele pode dar o resultado em 15 minutos. "Nosso aparelho pode ter impacto significativas ao redor do mundo, particularmente em nações em desenvolvimento, onde os testes de sangue podem ser muito caros e os resultados podem demorar semanas", disse Nira Pollock, médica da BIDMC.
Cores —
Para usar o dispositivo, o paciente precisa aplicar uma gota de sangue no pedaço de papel. A presença das enzimas AST e ALT leva a mudanças nos níveis de corantes presentes em zonas específicas do papel. Ao medir a alteração das cores, os médicos conseguem saber os níveis de concentração de cada enzima. Uma mudança de cor do azul para o rosa, por exemplo, pode representar níveis elevados de AST, indicando danos ao fígado.
Para medir a eficácia de sua invenção, os pesquisadores realizaram o teste em 223 amostras de sangue. Como resultado, descobriram que ele mediu de modo correto a quantidade de enzimas em mais de 90% dos casos. Segundo os cientistas, o dispositivo poderá ser usado como uma espécie de triagem para os testes mais completos — e caros. Os pacientes só precisarão enviar seu sangue para análise em laboratórios quando as cores assinaladas no pedaço de papel indicarem níveis elevados das enzimas.
Opinião do especialista
Maria
Lucia Gomes Ferraz
Vice-presidente da
Sociedade Brasileira de Hepatologia e professora de gastroenterologia da
Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)
“Esses exames das enzimas hepáticas são muito
comuns e simples de serem feitos. Eles servem para a triagem de doenças no
fígado. Níveis elevados dessas enzimas significam que o órgão está doente, seja
por causa do uso desses remédios, seja por causa da bebida ou obesidade. No
Brasil, o teste está disponível a pacientes do sistema público de saúde.
“A novidade apresentada pelo estudo é essa
forma rápida de fazer a dosagem das enzimas. Normalmente o paciente tem de ir
ao laboratório, colher o sangue e esperar pelo resultado. O que esse novo
método muda é a praticidade e a velocidade do teste.
"É importante destacar que esse exame
não é como o teste de gravidez: ele não deve ser feito pelo próprio paciente.
Ele tem de contar com a supervisão de um médico ou de enfermeiro, para saber a
quantidade correta de sangue a ser medida e analisar corretamente o
resultado."
