Danielle Nogueira
O Globo
Fórum Nacional debate nesta semana opções energéticas para o Brasil
DIVULGAÇÃO
Energia eólica:
competitividade depende dos reservatórios de hidrelétricas
RIO — Nos próximos dez anos, a capacidade instalada de hidreletricidade no Brasil vai crescer 61%, impulsionada por novas usinas, como Belo Monte (PA) e as hidrelétricas do Rio Madeira (RO). Mas a área dos reservatórios vai avançar em ritmo bem menor: apenas 11%, nos cálculos da consultoria internacional de energia PSR. O debate será feito na Sessão Especial da 24ª edição do Fórum Nacional, organizada pelo ex-ministro João Paulo dos Reis Velloso.
Esse descompasso na produção de energia fará com que o governo tenha de recorrer às térmicas com uma frequência bem maior do que a de hoje para garantir o pleno abastecimento, elevando em 230% a emissão de CO2 por cada megawatt/hora consumido no país. O Brasil consome atualmente 35,9 milhões de MWh por mês.
O alerta consta do estudo “Energia hidrelétrica e outras fontes renováveis: oportunidades e desafios”, produzido pelo presidente da PSR, Mario Veiga, e que será apresentado no Fórum, entre 19 e 20 de setembro, na sede do BNDES.
O tema da sessão especial do Fórum este ano é “Novos Caminhos do Desenvolvimento Brasil: Visão de País e Impulso à Competitividade”.
Barragens são verdadeiros ‘armazéns de vento e cana’
O estudo da PSR, escrito por Mario Veiga em parceria com Rafael Kelman e Tarcísio Castro, que também trabalham na consultoria, atenta para uma situação irônica que o setor elétrico vive hoje. O modelo das grandes hidrelétricas em construção dá prioridade às chamadas usinas a fio d’água, que não dispõem de reservatórios. Uma determinação que visa a reduzir a área inundada e evitar o deslocamento de populações e a submersão de grande quantidade de matéria orgânica — estudos mostram que debaixo d’água as florestas entram em decomposição e emitem gás metano, um dos vilões do aquecimento global.
Um efeito colateral dessa escolha é que, ao reduzir o tamanho dos reservatórios, o Brasil terá que acionar as térmicas para compensar variações na geração de energia de outras fontes, especialmente a eólica e a de biomassa. Essas duas são intermitentes, já que dependem dos ventos e da safra da cana-de-açúcar. Segundo Veiga, o Brasil resolveu esse problema justamente com os reservatórios das hidrelétricas.
— Nos períodos de menor produção de energia eólica e de biomassa, os reservatórios são esvaziados e vice-versa. Na prática, nossos reservatórios também armazenam vento e cana. E é por isso que conseguimos tornar competitivas essas fontes renováveis, uma combinação única do mundo.
Rota do desenvolvimento
Com menos reservatórios, diz ele, as emissões de gás metano podem até ser contidas, mas as de CO2, outro vilão do efeito estufa, vão aumentar. Ele lembra ainda o uso múltiplo dos reservatórios, que também viabilizam a irrigação e o transporte. Critica ainda a qualidade dos estudos de viabilidade das hidrelétricas e aponta falhas na comunicação entre as empresas e a comunidade, o que dificulta a liberação de licenças ambientais.
O estudo de Veiga se insere nas discussões da Sessão Especial do Fórum Nacional sobre como aproveitar as oportunidades para recolocar o Brasil na rota do desenvolvimento.
— Isso passa pela transformação da educação, pelos investimentos em infraestrutura e pelas energias renováveis — resume o ex-ministro e presidente do Inae, João Paulo dos Reis Velloso.
