Adelson Elias Vasconcellos
A senhora Rousseff já passou dos sessenta anos, é mãe e avó, preside um dos maiores países do mundo com cerca de 200 milhões de habitantes. Diante dos acontecimentos sobre viagem misteriosa à Lisboa, depois dos encontros em Davos, me pergunto: que tipo de exemplo esta senhora pensa estar dando para seus familiares e o povo que governa?
As desculpas esfarrapadas, e mais graves, por serem oficiais, não resistiram em pé sequer 24 horas, Foram desmascaradas pelos fatos, pela verdade que até pode tardar, mas cedo ou tarde, assim como o sol vence a mais densa bruma, ela rompe a barreira do descaramento, da hipocrisia, da mistificação.
A senhora Rousseff precisando explicar-se afirmou que era mentira a notícia de que ela e sua comitiva de nababos tinham passado o final de semana em Lisboa. Incrível, foi a única notícia que não se leu, não se falou, nem se ouviu.
Depois, com ar cínico e desafiador, afirmou que ela dera ordens aos seus ministros de que, em almoços e jantares, cada qual pagasse de seu próprio bolso. Beleza, mas quem irá autorizar a quebra do sigilo bancário da presidente e seus ministros para confirmar se os pagamentos foram, efetivamente, feitos com os próprios recursos? Mais: autorizaria a senhora Rousseff a liberalização de uma prestação de contas de 100% dos gastos feitos pela presidência da república bancadas com o cartão de crédito corporativo, nos últimos seis meses? Sabemos que cerca de 90% destes gastos, que na era Dilma bateram o recorde de despesas, são mantidos em sigilo, longe de qualquer fiscalização, por questão absurda e injustificável de segurança nacional, coisa que só se viu durante a ditadura militar.
Não é a toa que as contas públicas são cada vez mais deficitárias. E não se culpem os investimentos, que continuam em queda. São despesas realizadas por uma corte que não tem limites, não guarda respeito algum com o erário público, que corrói a riqueza do país e o impede de crescer sustentavelmente, porque o fruto desta riqueza é toda desviada para bancar a luxúria, a ostentação e o desperdício de um governo irresponsável.
A senhora Rousseff, no caso específico de Lisboa, sequer precisava mentir. Bastava ter dito a verdade, sem esquivas, sem meias palavras, sem falsear os acontecimentos, e talvez se criticaria apenas o enorme desperdício de se ajeitar em suítes de R$ 26 mil a diária. Mas para esta gente hipócrita não basta apenas torrar dinheiro público, é preciso construir toda uma casca de mentiras para proteger a sua insanidade. Trata-se de uma compulsão doentia.
E, claro, não é primeira vez que a senhora Rousseff, podendo alojar-se nas embaixadas brasileiras no exterior, prefere sugar um pouco do sacrifício feito pelos brasileiros, ricos e muitos milhões de pobres, para pagarem impostos que são desviados para o regalo pessoal de seus governantes, e o enriquecimento desvairado e ilícito de sua classe política.
Dentro de poucos meses começará a campanha eleitoral para a escolha de um novo presidente. E, provavelmente, Dilma e seu marqueteiro desenharão na propaganda o Brasil com que todos sonham, mas que está muito longe de se alcançar. Mentirão desavergonhadamente sobre realizações, muitas das quais com números manipulados, e outros tantos feitos que ficaram na promessa da campanha passada. Sobre os erros, dirão que a culpa é dos outros, dos ricos, dos países desenvolvidos, inventarão crise onde ela nunca sequer passou perto. Jamais reconhecerão que deterioraram, de forma irresponsável, as contas públicas. Jamais reconhecerão as muitas maluquices arquitetadas pela contabilidade criativa para tornar positivos indicadores que, na realidade, são negativos. Jamais reconhecerão a farra cometida com o dinheiro público, que foi privatizado pelo partido no poder e seus aliados. Nunca o Estado brasileiro arrecadou tanto, nunca a carga tributária foi tão alta e, no entanto, os investimentos se reduzem, os serviços públicos se degradam, a infraestrutura se decompõe, e o capital privado foge de investir dinheiro no Brasil por temer que o preconceito e a ideologia bestial provoquem prejuízos e perda total. Na Era Dilma, investidores no Brasil, estrangeiros e domésticos, já tiveram perdas em seus ativos de mais de US$ 285 bilhões.
Convido a qualquer petista, por mais fanático que seja, que cite três realizações que levem a marca deste governo medíocre comandado pela senhora Rousseff. Não peço muito, não: é muito pouco pelo montante de dinheiro que este governo já arrancou da sociedade nestes três anos. Se não conseguirem juntar três realizações, podem juntar no bloco algum serviço público que tenha grau de excelência, ou ao menos que, ao invés de decair, tenha tido sensível melhora. Nem a inflação este governo consegue manter na meta. Nem a dívida pública se consegue reduzir, pelo contrário. Nunca no Brasil se cometeram tantos homicídios como nos governos petistas.
De positivo não sobra absolutamente nada para ser indicado. É tudo muito ruim. E, para piorar, ainda se aplica uma mentira oficial sobre uma viagem que nada mais seria se não uma simples passagem de trânsito.
Vejo algum movimento de insatisfação que tem por foco a copa do mundo, sobre a qual já falamos muito. Contudo, considerando-se o conjunto da obra, os gastos com a copa são apenas um pretexto para ficar exposta a enorme insatisfação do povo brasileiro com os rumos que o país vai tomando. Dona Rousseff até pode ser reeleita em outubro – o que seria um enorme castigo para o país. Mas, certamente, esta reeleição jamais poderá ser tomada pelas virtudes e realizações positivas de seu governo. Urna alguma vai inocentá-la do péssimo mandato que tem cumprido desde que assumiu. Será, uma vez mais, a vitória da mistificação e o povo terá mais quatro anos de insatisfação e frustração para protestar.
Para encerrar: a senhora Rousseff afirmou nesta terça-feira que não perceber a importância da Copa do Mundo é ter "uma visão pequena do Brasil", ao comentar os protestos de rua de grupos contrários aos gastos para a realização do Mundial no Brasil. Ok, mas o governante que não sabe perceber quais as prioridades mais importantes para o país, as põe de lado apenas para satisfazer o apetite político de poder, não tem apenas uma visão pequena. Na verdade, não tem é visão nenhuma além do próprio umbigo.
