Adelson Elias Vasconcellos
Pois não que o senhor Gilberto Carvalho, Secretário da Presidência da República, o segundo mais forte do PT, considerou as manifestações de rua de junho passado, uma injustiça para com o governo?
Vai ver este senhor deve ter uma ideia patética sobre a qualidade dos serviços públicos que o governo entrega à população!
Vejamos. É injusto o povo reclamar da saúde pública, que padece de uma total falta de estrutura, com corredores entupidos de pacientes estirados em macas e colchonetes, a espera do milagroso atendimento de uma reduzida equipe médica? Ou da falta de medicamentos básicos para simples curativos, como se vê na maioria dos hospitais da rede pública? Ou da espera, meses a fio, para a realização de simples exames laboratoriais? Ou o desespero com muitos procuram a Justiça para mediante uma liminar, conseguirem serem internados?
Tão grave é a precariedade do sistema público que o governo se apressou em antecipar o programa Mais Médicos para tentar dar uma resposta aos protestos. Onde, então, a injustiça?
Deve imaginar o senhor Gilberto que a educação pública brasileira se alinha dentre as melhores do mundo. Porém, conforme aponta a última avaliação do exame internacional PISA, estamos dentre os piores. Cerca de 50% dos jovens estão fora do ensino médio, e pouco mais de 1/3 dos universitários são considerados analfabetos funcionais. A carência de médicos e engenheiros é gritante. E o que se dizer dos salários dos professores? Raros são as unidades da federação que conseguem pagar o mínimo fixado pelo próprio MEC. Segundo a UNESCO, o Brasil é o 8° país com maior número de analfabetos.Onde, então, a injustiça?
Nas fantasias alucinógenas do senhor Gilberto, devem desfilar estradas perfeitas, portos eficientíssimos, aeroportos espetaculares. Segundo dados do próprio DNIT, cerca de 65% das rodovias brasileiras encontram-se em estado precário. Nossos portos são tão ridiculamente ineficientes, que a China chegou ao cúmulo de cancelar alguns embarques de soja por conta da demora na entrega. E os nossos aeroportos, que vivem de puxadinhos, não sobrevivem a um gargalo fantástico em tempos de demanda aquecida. Onde, então, a injustiça?
No Brasil dos sonhos do senhor Gilberto, ele deve imaginar um país em que a burocracia estatal é tão mínima que ninguém nota ou reclama. Porém, no Brasil real, tente abrir uma empresa e tê-la com todos registros em ordem. Tente! São mais de 6 meses de via crucis de uma jornada cheia de percalços. A começar, para se obter uma simples licença ambiental de operação. São anos de espera e de uma descomunal paciência de Jó! Onde, então, a injustiça?
Na maravilha paradisíaca com que o senhor Gilberto supõe viver, há um país onde 100% da população é atendida com água, esgoto, energia elétrica e serviço de recolhimento de lixo. E, no entanto, 50% desta população precisa conviver com o esgoto a céu aberto correndo ao lado de suas casas e o Luz Para Todos, clonagem de programa semelhante implementado por governo de oposição, está longe de atingir suas metas. Basta perambular pelas cidades para ver o quanto de lixo é depositado a céu aberto em terrenos e rios. Onde, então, a injustiça?
Também nesta maravilhosa ilha da fantasia como a que o senhor Gilberto visita em seus sonhos, a população se abastece de modo perfeito. Afinal, supões o senhor Gilberto, aqui se cobra pouco imposto. E, no entanto, no inferno que se transformou o sistema tributário nacional, não apenas a carga é escorchante, mas, sobretudo, o martírio burocrático penaliza pessoas e empresas de forma retumbante. A começar pela tributação estúpida que é feita na fonte já a partir de 2,46 salários mínimos. Houve tempo, antes do PT chegar ao poder, que a faixa de isenção do tal imposto ia até 5 salários mínimos. Bons tempos aqueles! Basta saber que, apesar do dólar alto, os brasileiros insistem em ir ao exterior comprar qualquer bugiganga, porque, mesmo com o valor da passagem e dos impostos de importação, tudo acaba bem mais barato do que comprado aqui dentro. Onde, então, a injustiça?
No reino da fantasia chamado Brasil em que o senhor Gilberto imagina viver, o transporte público é da melhor qualidade. São ônibus, trens e metrôs que viajam à velocidade da luz, com todos os passageiros devidamente sentados, podendo se deliciar com boa música ambiental, ar condicionado perfeito e em todos estampando-se um sorriso pleno de satisfação. Verdadeiro êxtase! Porém, há metrôs em construção há décadas! Trens em que uma formiga jamais conseguiria locomover-se tamanho o aperto. E ônibus que mais parecem carroças carregando gado para o matadouro. Claro, todos estes absurdos são regiamente pagos, com tarifas regularmente ajustadas pela inflação. Onde, então, a injustiça?
Poderia até lembrar ao senhor Gilberto os maltratados aposentados da iniciativa privada, mas seria tripudiar demais sobre os velhinhos. Poderia lembrar ao senhor Gilberto o estado lastimável em que se encontra o sistema penitenciário, verdadeiras pocilgas medievais. Poderia ainda aquecer a memória do senhor Gilberto que, apesar do aumento brutal da arrecadação de impostos, que o investimento público teima em não sair do lugar. Apesar disto, os gastos para bancar uma corte faraônica, ineficaz e mastodôntica, não param de crescer. Onde, então, a injustiça?
Injusto é querer que o povo bata palmas para tanta miséria com que se vê cercado, com o retorno zero com que é presenteado por um governo que arranca o sangue da sociedade.
Injusto é achar que o povo é imbecil o suficiente para não ver nas carências com que é servido mercê os impostos que paga, a falta de gestão, de respeito, de compromisso.
Injusto é ver um estado inchado, repartindo entre os seus amigos do reino a riqueza produzida com muito suor por tantos miseráveis que habitam esta terra amada e rica, com um povo faminto de governos eficientes e que trabalhem pelo seu bem estar.
O senhor Gilberto Carvalho, como se vê, perdeu uma grande oportunidade de manter a boca fechada. E mais: não pode ignorar o sagrado direito que o povo brasileiro tem, por viver numa democracia, de protestar contra seus governantes. De exigir que lhe seja dada atenção e respeito para que os serviços públicos essenciais tenham a qualidade equivalente ao que ele arca com impostos. Injustiça é achar que o povo não pode reclamar apenas porque o governo é petista. Aí, neste caso, já estamos diante de um caso delicado e febril de patologia mental.
Duas coisas que o senhor Gilberto deve entender: a primeira, o protesto não é exclusividade do PT, coisa que, aliás, eles fizeram e abusaram muito quando na oposição. E, a segunda, é que, não é pelo fato de existir um Bolsa Família que o povo brasileiro perdeu seu direito de ir às ruas reclamar contra o governo de plantão. É bom que se diga que o dinheiro do programa não sai do bolso dos petistas. É o próprio povo quem banca a festa. Como, ainda, o programa não pertence ao PT, e sequer ele é sua criação. É a junção de cinco outros programas sociais que foram criados antes do PT chegar ao poder. E nele havia 6 milhões de famílias beneficiárias além de outras 6 milhões de famílias devidamente cadastradas. E, nem por conta disso, seus criadores fizeram uso político e eleitoreiro dos programas como parece pretender o senhor Gilberto.
Ou será que o senhor Gilberto acha que, pela existência do programa, com os R$ 70,00 distribuídos a cada um, são suficientes para calar a consciência do povo pobre? Se for assim, está na hora do senhor Gilberto reaprender na Bíblia que orienta que a mão direita não saiba o que dá a mão esquerda.
E, para encerrar, destaco que, para o senhor Gilberto, qualquer movimentação popular, seja para festejar qualquer coisa, - casamento, aniversário, nascimentos – ali somente ele percebe luta de classes, exclusão, preconceitos. Ao comentar sobre os rolezinhos, chegou à extrema estupidez de afirmar que “Da mesma forma que os aeroportos lotados incomodam a classe média. Da mesma forma que, para eles, é estranho certos ambientes serem frequentados agora por essa ‘gentalha’ (…). O que não dá para entender muito é a carga do preconceito que veio forte. (…) As pessoas veem aquele bando de meninos negros e morenos e ficam meio assustadas. É o nosso preconceito“.
Dentre as muitas heranças malditas que as esquerdas, especialmente o PT, irá deixar para as futuras gerações, é esta cisão social. Mesmo que no sentimento mais interior das pessoas não haja nenhuma espécie de preconceito, o país será rachado em várias “raças”: pobres contra ricos, nortistas contra sulistas, patrões contra empregados, negros contra brancos, índios contra os não índios. Qualquer agitação que houver e, pronto!, sempre haverá um “pensador” boçal, tenha ele a formação que tiver, para dar um parecer buscando identificar as razões com base no enfrentamento destas “raças”. E, contudo, o que temos é um único povo, todos pertencentes a uma só raça – a humana -, todos irmanados sob o espírito de uma única nação. Esta divisão irracional pretendida pelos petistas visa unicamente beneficiar seu discurso irracional, atraindo os menos esclarecidos para seu lado. É parte de seu projeto hegemônico, é parte de seu jogo político.
Colocado sob as luzes da realidade, sem o fetichismo maquiavélico da cisão, o discurso cai no vazio. Não resiste em pé diante daquilo que a realidade exibe. Nos rolezinhos, e apenas para ficar num exemplo, havia garotos e garotas de todos os tipos, cores e classes. Mas somente o senhor Gilberto viu ali preconceito, quando aquilo não passava de farra jovem – natural para aquela faixa de idade-; viu exclusão onde o que havia, de fato, era todos com todos, e não todos contra alguns. E, a saber-se, todos frequentam shoppings na boa, malandro, tais locais são seu centro de lazer e, para alguns, seu universo preferido. Fazer uso político como se tentou é um atentado à tolerância, à inteligência e à sensatez.
Como já disse outras vezes, todos os esquerdistas tem desvio de caráter. Uns mais, outros menos. Mas alguns, e incluo o senhor Gilberto neste grupo, além do desvio de caráter, tem disfunção cerebral, são psicóticos, veem o mal onde ele sequer foi pensado, criam fantasias de lutas de classes onde há uma única classe. Para quem se declara católico fervoroso, o senhor Gilberto falta ao compromisso de se tornar um cristão verdadeiro . Não basta ler e conhecer o texto bíblico, senhor Gilberto, é preciso praticar o que ali se ensina.