sábado, setembro 09, 2006

Ensinando democracia para Lula.


Alguém precisa aproximar-se do presidente desta nossa república e tentar ensinar-lhe que, num regime democrático, a livre manifestação do pensamento, o direito à crítica e a opinião, são partes componentes do próprio processo.
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Apenas em regimes ditatoriais é que as vozes se calam ou, no máximo, se lhes é consentida manifestar-se apenas para enaltecer os feitos dos grandes líderes, além de divulgar os feitos e conquistas do regime. Quase sempre mentirosas, no sentido mesmo de que o importante é continuar enganando e mistificando.
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Na democracia, a imprensa é sempre o olhar atento da sociedade. A imprensa investigativa exerce um inusitado papel de acompanhar de perto os governantes, e não raro, é capaz de em meio ao cipoal que os governos criam para embaraçar as notícias e ocultar seus desmandos, encontrarmos algum profissional percorrendo os desvãos e chegando aos estratégicos pontos nevrálgicos que muitas vezes os órgãos de fiscalização não conseguem penetrar.
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Desde que assumiu, Lula tem dado mostras de que não gosta de prestar contas de seus atos. Se algum jornalista canta loas a ele, vai quase merecer as simpatias e a proximidade do presidente. Do contrário, tal como ocorreu com Boris Casoy quando âncora da Tevê Record, inicia-se um processo de perseguição que culminam por incendiar o profissional, sob o peso do volume de publicidade produzida pelo Governo.
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Em tempos de campanha à reeleição, a sensibilidade do Presidente tem andado muito acentuada. Até demais. Fica amuado por qualquer critica mais inofensiva. E se ela partir de alguém da oposição, somos obrigados a ouvir os destemperos verbais, baixarias e grosserias que não se casam com o posto em que Lula se acha investido.
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Nos últimos dias, Lula tem patrocinado abusos em ações e palavras que excedem em muito o limite do que seria razoável de se aceitar para um candidato em campanha, ainda considerando-se que este candidato também exerce a Presidência da República. Não bastassem as práticas de intenso uso da máquina pública sob seu comando em ações de campanha política, totalmente vedado por lei, é nos palanques que Lula além de meter os pés pelas mãos, tem feito afirmações perigosas no sentido de agredir as críticas que lhe são dirigidas. Isto quando não se utiliza, às vezes de forma covarde, de interlocutores para mandar recadinhos de menininho desaforado, que ficou ofendido porque não lhe passaram a bola na pelada da molecada. Assim é que já se chegou ao cúmulo de se acusar a oposição de fazer, oram vejam só.... oposição. Isto mesmo ! Lula critica a oposição quando esta exerce o papel lhe cabe exercer.
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É chato a gente ter que relembrar coisas básicas para aquele que por ser o chefe do executivo, esquece em que regime ele exerce seu mandato. Da mesma forma, constrange sermos, volta e meia, brindados com definições tolas e acusações infantis partindo de quem deveria ter um mínimo de zelo pela função que desempenha. E é ainda mais doloroso vê-lo condoer-se de maneira digamos tão desequilibrada por que alguém aventurou-se em criticá-lo. Vale repetir o recado que demos em outros artigo: ninguém obrigou Lula a ser presidente, sendo assim, se queria tanto o cargo, que aceite os encargos que o cargo lhe impõem.
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Por exemplo, a palhaçada protagonizada no Rio de Janeiro, na favela Cidade de Deus, quando o comitê político do PT junto com a máquina federal reuniu meninos e meninas, crianças ainda, todas uniformizadas com camisetas de programas sociais patrocinadas pelo Governo Federal, portanto com recursos públicos, não apenas para elogiarem os ditos programas, mas também para pedirem votos ao candidato Lula, numa chantagem indecente e imoral, totalmente contrária ao Estatuto da Criança e do Adolescente, além, é claro, de ferir gravemente normas da própria lei eleitoral. O ato deveria, como de fato aconteceu, receber o repúdio e a crítica contundente. Foi o bastante para Ricardo Berzoini, comandante em chefe do PT, ao invés de absorver a crítica e até desculpar-se pela palhaçada, resolver investir contra os críticos chamando-os de fascistas ! Olha, muito que bem, senhor Berzoini, a que nome deveremos dar a ação de aliciar crianças para fazer propaganda política em palanque eleitoral de marmanjos ? Será que isto não é um ato nazi-fascista ao melhor estilo?
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É fácil posar de produtor de obra alheia senhor Lula, mas é desonesto não confessa-lo. Pode lhe parecer bonito posar de pai dos pobres, varrendo para baixo do tapete toda a lama produzida por seu governo. E não é pouca. Ou como diz o senador Pedro Simon (PMDB-RS): "O momento é estarrecedor. Se filmarem Lula com máscara, invadindo um banco para roubá-lo, vão dizer que ele queria roubar para dar aos pobres."
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Não bastasse isto, ao longo da semana, numa carta endereçada aos correligionários do PSDB, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso fez um mea-culpa sobre erros cometidos tanto pelo partido PSDB ao longo da campanha presidencial, como aos erros do passado, no caso de Eduardo Azeredo beneficiado pelo valerioduto, como de seu próprio governo. E, considerando o momento político que vive o país, aproveitou para criticar o lamaçal político em que nos encontramos mergulhados já há mais de um ano, bem como alfinetou a falta de honestidade de Lula e da propaganda oficial em alardearem serem de sua criação a ampla rede de programas sociais herdados de Fernando Henrique. Pronto, imediatamente a tropa de choque petista entrou em campo e partiu para agressão injustificada, culminando com Lula chamando seus críticos de nazistas.
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Ora vejam só a que ponto chegamos: Lula e o PT passaram 25 longos anos na oposição, quando se caracterizaram por não respeitarem a honra de quem quer que fosse que estivesse revestido de funções executivas públicas. Protagonizaram a entrega à imprensa de dossiês escandalosos desancando o pau em todo mundo. Nunca estenderam a mão para ajudar no que quer que fosse necessário para construir. Foram os reis da pixação de muros e prédios públicos. Plantavam notas e mais notas na imprensa para provocar a infâmia e a calúnia. Criticaram o mais que puderam a tudo e a todos. Apenas para lembrar, Lula e seus asseclas chamaram de estelionato o plano real implantado por Fernando Henrique, que vem a ser o mesmo plano real que tem dado estabilidade econômica no seu governo e se constituído num dos pilares de seus índices de aprovação e popularidade.
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Em plena campanha para sua reeleição, Lula continua agindo ao modo como quer classificar seus críticos. Em campanha ontem no Rio, o candidato à Presidência pelo PDT, Cristovam Buarque, intensificou suas críticas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao indicar que o rival petista está pressionando redes de televisão para cancelar debates de presidenciáveis. "Televisões já estão cancelando debates por pressão do presidente. Isso é muito grave", acusou Buarque, durante caminhada pela orla de Copacabana, Zona Sul do Rio.
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No início da tarde, quando distribuiu panfletos pela Quinta da Boa Vista, Zona Norte, o candidato do PDT revelou quais eram as redes de TV que estariam cancelando debates por causa de Lula. "A Record já cancelou. Hoje (ontem) me falaram que o SBT também cancelou. Por qual razão seria? A ausência do presidente cancela debate, isso é muito grave", afirmou Buarque.
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E não bastassem todas estas contradições, Cristovam Buarque, presidenciável pelo PDT, em entrevista concedida à Folha de são Paulo faz o que a Lula faltou: hombridade para reconhecer os méritos alheios. “Eu inventei a Bolsa-Escola e o Poupança-Escola que, aliás, é outra coisa que o Lula vai se apropriar qualquer dia desses, que é pagar a criança quando passar de ano, mas depositando numa poupança que ela só tira depois de concluir o segundo grau. Eu inventei quando estava na universidade, publiquei em livro e implantei no governo do DF. O Lula se apropriou de tudo que ele herdou de bom no Brasil. Ele se apropriou da auto-suficiência do petróleo e do Real. Melhor: ele diz que salvou o Real, apesar de ter sido contra ele, lembra? Ele se apropriou da Bolsa-Escola, mudando o nome para ficar mais fácil de se apropriar. Além de ser o criador de tudo o que havia de bom, ele aparece como salvador de tudo que havia de ruim. "
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E completou: “Ele tem uma máquina tremenda nas mãos, uma campanha publicitária imensa, apesar de ser um comportamento muito pouco ético. O Fernando Henrique poderia ter mudado o nome do Bolsa-Escola, quando ampliou do DF para o resto do país, mas não o fez, mesmo eu sendo adversário dele. Foi um gesto raro de generosidade política. O Lula, ao contrário, se apropriou de tudo. Qualquer dia vai dizer que o Real foi obra dele. O Lula usurpou a Bolsa-Escola, usurpou a política econômica do Fernando Henrique e usurpou a ética do [Fernando] Collor [de Mello]. Aliás, talvez por isso mesmo, o Collor vai votar no Lula”.
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A indecente oferta de cargos continua sendo usada por Lula como manobra para obtenção de apoios à sua candidatura, como a que se viu agora com os evangélicos no Rio de Janeiro. E para piorar, Lula produziu a pérola de afirmar “Quis Deus que eu fosse eleito presidente e criasse a lei que estabelece a liberdade religiosa”. Misericórdia !!!! Só faltou dizer que foi ele quem fundou o cristianismo !!!!
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A chantagem para repasse de verbas públicas também ficou caracterizada quando aliciou o governador do estado do Mato Grosso, que já declarara seu apoio à Alckimin, e Lula acenou com a liberação em três parcelas dos recursos a que aquele estado tinha direito pela Lei Kandir no total de R$ 128,0 milhões ! E da mesma forma tem agido dentro do mesmo figurino com governadores e prefeitos, numa total transgressão moral que deve mesmo ser repudiada e criticada intensamente pela sociedade brasileira, e é claro devidamente punida pelo TSE com base na lei eleitoral em vigor!
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De outro lado, Lula e seus asseclas precisam entender de uma vez por todas que, se para eles a imoralidade na política não passa de coisa normal, para a sociedade é classificada como crime e por ela é rejeitada e repelida. O que não concordamos e não aceitamos, senhores petistas governistas, é alguém que deveria zelar pela ética e pela decência no trato dos bens públicos, vir agredir-nos com a afirmação leviana e imoral de que "Democracia não é só coisa limpa, não", como Lula afirmou no Nordeste do país, em total contraste com tudo aquilo que ele pregou quando na oposição, e que em 2002 comprometeu-se em campanha tanto quanto em seu discurso de posse, ao assumir o compromisso de combater a corrupção para acabar com a cultura da impunidade, e de que iria desenvolver uma energia política extraordinária para implementar um estilo de governo com absoluta transparência. Chegou mesmo a criar um bordão que agora vemos como mentiroso quando dizia que “No meu palanque corrupto não sobe. No meu governo corrupto não entra” Diante das alianças com Quércia e Sarney a quem chamou a ambos de ladrões, não se constrangendo em aliar-se também a Newton Cardoso e Jader Barbalho, fica-nos a suspeita de que o bordão empregado na campanha era tão falso quanto suas diretrizes de governo.
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Precisamos lembrar ao senhor Lula de que, em seu programa para um segundo mandato, gastou-se muita palavra em muitas linhas apenas para atacar e criticar o governo anterior. Para ele isto é normal. Atacar e atacar, agredir e aliciar. Críticas a Lula é que são proibidas! Esta é a democracia da livre manifestação do Lula e do PT.
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Ou seja, a tudo o que Lula e seus asseclas se permitem fazer, eles próprios negam à oposição. Então é de se perguntar sobre quem está sendo nazista e fascista ? Ou acaso já vivemos sob o império da censura sem termos sido notificados ? Ou também já rasgaram a constituição?
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É triste para um país ser dirigido por um presidente que muito facilmente se descontrola emocionalmente, e fica a despejar na claque contratada para ouvi-lo e aplaudi-lo tanta agressividade, a destilação de um ódio injustificável quando almeja atingir seus críticos e opositores, tal qual quando ele se manifesta da seguinte forma : "Nossos adversários estão tão nervosos que chegam até a babar de raiva."
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Augusto Nunes, colunista do Jornal do Brasil, comentando o livro Viagens com o Presidente, em que Lula diz palavrões, xinga presidentes de países vizinhos e destrata funcionários subalternos, assim o classificou: "Lula anda confuso. Acha que fala a linguagem do povo. Fala o dialeto dos cortiços. E se vai rendendo ao manual de etiqueta dos boçais."
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Mas o grande problema em relação ao destemperado Lula é ele achar que o povo gosta desta agressividade toda. E ainda dar o tom de que para ser presidente é preciso ultrapassar sempre os limites da boa educação e do respeito às pessoas. Nada mais ilusório do que um governante esquecer-se de que o poder é passageiro e que depois será preciso retornar a racionalidade da normal vida humana de cada dia. A menos que Lula esteja querendo quebrar todos os recordes para a geração de desafetos.
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Porque não há dúvidas de que ele está fazendo escola. Até a Ministra Chefe da Casa Civil, que provavelmente não deva estar tão ocupada assim com seus afazeres, entrou na onda do desequilíbrio mental, da bravata irresponsável para patrocinar uma acusação leviana e primária ao criticar carta de Fernando Henrique quando diz: “O Brasil é um país que vem demonstrando ter amadurecimento no processo democrático. As tentativas de retrocesso e ameaças não ganham corpo no Brasil. A carta de FHC tem resquícios do regime militar e mostra que muitos setores não aceitam a expressão e a vontade do povo brasileiro. Acho que esse processo que em alguns momentos se depreende de algumas afirmações que o povo vota mal é uma lembrança, uma reminiscência, um resquício do processo ditatorial que impregnou este país por muito tempo. A gente acaba com a ditadura, mas leva tempo para acabar com as conseqüências dela.
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Então, senhora ministra, se o Brasil, como você bem reconhece demonstra ter amadurecimento no processo democrático, tenha a senhora a fineza de versar pelo mesmo caminho, e respeitar a crítica, por ser ela a essência de qualquer democracia, por nela estar intrínseco o direito à livre manifestação. Ou agora a sua democracia é aquela fajutagem de que só se pode dizer elogios ? Se é assim, permita-me lembra-la de que isto sim denota um ranço autoritário, próprio de regime ditatoriais militares, como a que tivemos, ou civil, como Itália e Alemanha sob o império do nazi-fascismo do século passado.
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Do mesmo modo como o senhor Lula deve ser advertido de que, na democracia, existem três poderes, e não apenas um. E isto é oportuno lembrar, quando o senador César Borges, ao comentar a afirmação feita por vossa excelência e publicada no jornal O Globo, faz um alerta para o risco de o país ingressar no regime de totalitarismo, caso Lula seja reeleito. Para César Borges, a afirmação do presidente, em comício no Nordeste, de que “críticas feitas contra seu governo da tribuna do Senado não merecem ser consideradas”, revela "uma perigosa tendência totalitária que poderia ser posta em prática num eventual segundo mandato".
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E mais um recado para o senhor Luiz Inácio, sobre suas desculpas esfarrapadas para ausentar-se dos debates entre os candidatos em redes de tevê aberta. Em 1998, atacando FHC, vossa excelência declarou: “Presidente que foge de debate mostra que prefere ficar escondido atrás de publicidade paga com dinheiro do povo, em vez de ir para o ringue lutar em igualdade de condições”.
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Portanto, antes de partir para acusações levianas e torpes, seria bom Lula lavar a boca para não agredir a inteligência alheia, e tentar vender-se com ares de democrático. Como vimos aqui, talvez fosse oportuno o presidente deixar a sua crônica preguiça de lado e apanhar um bom livro para conhecer a verdadeira essência da democracia. Pode ser que aprendendo, possa ensinar aos seus asseclas, para não sermos agredidos sistematicamente com grosserias e ignorâncias. Faria um bem enorme o país não precisar aturar tanto ranço autoritário e besteirol supremo de parte dos dirigentes petistas, do presidente Lula e seus auxiliares.
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E para encerrar, reproduzimos trecho final do Editorial da Folha de São Paulo que resume bem alguns bons ensinamentos para Lula ler e refletir:
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Debite-se à camarilha presidencial -que atua o quanto pode para proteger Lula do contato com quem o possa contradizer- parte do despreparo do presidente no trato com a imprensa. A outra parte deve ser lançada na conta do próprio líder petista, que não esconde o seu incômodo sempre que exposto ao debate aberto, com interlocutores que não estão ali para enaltecê-lo.
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Não faz bem para as instituições democráticas essa tentativa de culto à personalidade. Lula e seu círculo de assessores enveredaram pela mistificação do líder político, transformando-o num ícone quase religioso, a quem não se pode questionar. Tal comportamento está na contramão da moderna política republicana, que não pode dispensar a prestação de contas do governante máximo.
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Lula não prestará um favor à imprensa se mudar de atitude e abrir-se ao contraditório num hipotético segundo mandato. Apenas passará a cumprir uma obrigação do presidente da República para com a sociedade”.

Projeto educacional

Projeto educacional urgente

Slogan da campanha em favor da educação básica que acaba de ser lançado na Internet:

"Vamos alfabetizar
nossas crianças,
antes que se tornem
presidentes da República".

Entrevista: Fafá de Belém

Fafá de Belém diz que PT não pode mais sustentar
imagem de "santa no bordel"
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Por Malu Delgado
da Folha de S.Paulo
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Em duas horas e meia de conversa, Fafá soltou 66 das suas longas e típicas risadas. "Sem Anos de Solidão" é o nome de batismo do livro --escolhido por Millôr Fernandes-- em que ela contará sua trajetória.Um caminho onde a política é a protagonista. Personagem ímpar da campanha das Diretas, Fafá cresceu ouvindo o pai falar de política. "Penso a vida como uma ação política", define. Com a autoridade de quem conviveu na intimidade com "políticos de A a Z", ela afirma que o atual momento é "fantástico" porque todos os cacoetes da política foram revelados, e o PT não pode mais sustentar a imagem de "santa no bordel".Antecipando alguns trechos do livro, ela fala das desavenças com a esquerda na época das Diretas, conta mágoas com o PMDB e critica a ditadura da estética. Votou em Lula na eleição passada, mas agora está indecisa. "O Brasil cada vez mais amadurece politicamente. São tirados todos os véus. Ou será que o primeiro mensalão foi esse? Fala sério, né!"
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Leia a seguir trechos da entrevista:
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Folha - Você disse que pensa na vida como um ato político. O momento atual é de absoluto descrédito com a classe política, mas contraditoriamente os brasileiros se interessam pelo tema. O que explicaria isso, na sua avaliação?
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Fafá - O Kotscho [Ricardo Kotscho, jornalista] disse algo fabuloso: a campanha das Diretas é impossível de ser reeditada. Estávamos no final do processo da ditadura, onde o jovem estava convencido de que a política não estava com nada. Através dessa caminhada pelo Brasil nós resgatamos a crença de que era possível fazermos a mudança. Na seqüência da esperança, o Tancredo vem pelo Colégio Eleitoral como uma possibilidade de transição, morre, o Sarney assume e, na seqüência, Collor é eleito. Acho que o Brasil começa a engatinhar politicamente.
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Folha - Qual importância da eleição do Lula?
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Fafá - A coisa mais importante da eleição do Lula é o Brasil ter apostado num brasileiro, do interior, de Pernambuco, num igual. Isso é um salto do povo brasileiro. Uma referência interna. É fundamental apostar num igual. A partir daí, temos os cacoetes e as manobras da política desnudados. Uma elite muito incomodada. Uma realidade sórdida, porque não esperávamos que o PT fizesse a mesma trajetória dos outros. E o momento agora é de uma interrogação muito grande. O Brasil cada vez mais amadurece politicamente. São tirados todos os véus. Ou será que o primeiro mensalão foi esse? Fala sério, né. Nós sabemos que não. Os mensalões existem há muito tempo, como manobras de muitos momentos políticos, infelizmente. Só espero que isso, pela última vez, seja lavado. Vejo o Brasil cada vez mais atento, discutindo e falando de política. O que me preocupa, por exemplo, é quando o Roberto Jefferson fala do mensalão e alguns ídolos populares, que falam aos teens, dizem que ele é a salvação do país. Espera aí!
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Folha - O que explicaria o boom de campanhas que estimulam o voto nulo, sobretudo na internet?
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Fafá - Eles [os jovens] estão desacreditados pela maior esperança que encontraram pela frente. Apostou-se no PT, numa postura que o partido foi incorporando, de vestal, da santa no bordel: 'estamos aqui, mas isso jamais nos contaminará'. E o que se provou é que não. Acho tudo isso saudável para a democracia. Só mexendo nela é que a gente aprende a lidar com ela. Acho tudo isso muito saudável para o processo democrático: a pregação do voto nulo, as denúncias... A internet é hoje um veículo fabuloso. Na época das Diretas nós tínhamos os painéis nas ruas dizendo 'Não vote neles!'. A internet faz isso dentro da tua casa.
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Folha - E você não se desencantou com a política?
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Fafá - Eu não. Acho que a única solução é a política, é a vontade política de se fazer. A coisa do desvio de verbas, a violência do desvio de verbas, é como matar a criança na barriga da mãe. É tão brutal. Eu não consigo entender como é que alguém tem essa cara de pau de roubar tanto e depois passar mal quando é descoberto. Espero que todos passem mal e morram, para que a gente comece a entender o país fabuloso que é o Brasil. Vai haver muita depuração, mas nós vamos transformar o Brasil num grande país.
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Folha - Imagino então que você não vai anular seu voto?
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Fafá - Não.Folha - E já se definiu?Fafá - Não. Estou olhando. Não voto nulo e nem faço voto útil. Nunca fiz. Tem uma situação que eu vou contar no livro, naquele célebre debate do Lula com o Collor em 89. Eu estava enlouquecida aqui. Foi uma noite de telefonemas. Eu liguei para o Chico [Buarque], para o [Mário] Covas, para o Fernando Henrique. Eu acredito nisso. E vou acreditar a vida toda que é possível trazer gente honesta para esse país, é possível que haja pessoas que possam transformar o Brasil numa Austrália.
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Folha - Você já foi próxima do PT?
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Fafá - Não, desde 1985 eu sai fora. Eu cheguei ao comício de 25 de janeiro junto com o PT. O PMDB e pessoas ligadas ao Montoro me brecaram porque diziam que eu não tinha uma ligação histórica com a esquerda. E o Lula disse: ela vem com a gente. Quando eu apóio o Tancredo no Colégio Eleitoral, determinadas alas do PT, das esquerdas, ficaram muito chateadas comigo. A minha relação com o Lula nunca foi abalada. Depois que eu mudei [para Portugal], cada um seguiu o seu caminho. Mas a turma ia jantar na casa dele nos finais de semana, ou eles faziam reunião na minha casa ali na Haddock Lobo. Não o José Dirceu. Mas o Lula, Genoino, Djalma Bom, Devanir. Ainda era clandestino. Ficavam na minha casa, na sala, e eu ia dormir. Nunca me filiei a nenhum partido, nunca sai como candidata a nada porque eu acho que meu palanque, no palco, é muito maior, muito mais amplo, sem compromissos com dogmas. Na eleição do Collor, chegaram a espalhar que eu o apoiei. E eu não apoiei ninguém. Votei no Lula, mas não fiz campanha para lado nenhum. Eu entendi que o meu papel era ali, cidadão.
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Folha - Hoje você não tem mais nenhum contato com Lula?
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Fafá - Estive com ele na eleição [2004], em Belém. Ele foi fazer campanha para a candidata dele e eu estava no outro lado. E no ano passado eu fui fazer um show em Brasília, no lançamento do Tanto Mar, e me ligaram do Palácio do Planalto. Fui lá e conversamos amenidades. Foi antes da crise.
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Folha - Em 84 você disse, em entrevista a Ruy Castro, o que achava de vários políticos. Chamou Ulysses de demagogo,Tancredo de adorável. Queria que falasse com a mesma abertura sobre alguns políticos hoje.
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Fafá - Ok, manda bala.
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Folha - Começamos com o óbvio.
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Fafá - O Lula! Ai, meu deus! Deixa ele por último!
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Folha - Ok. Geraldo Alckmin.
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Fafá - Foi um dos políticos que mais me impressionou ultimamente. Tinha idéia de picolé de chuchu total, e eu conheci o Alckmin no ano passado, numa solenidade em Tiradentes, em Minas, junto com o Aecinho. Fiquei muito impressionada com ele. Há muito tempo, desde a época aura dos grandes políticos, Diretas, PMDB autêntico, PDT e tal, que não via alguém com tanta firmeza.
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Folha - Heloísa Helena.
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Fafá - A Heloísa é adorável, mas uma menina. Ainda tem muito chão pela frente. O papel dela nessa eleição é bacana, pode levar ao segundo turno, que é uma reflexão melhor.
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Folha - Cristovam Buarque.
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Fafá - É um professor maravilhoso, de dignidade rara. Não vejo qualquer chance dele, mas vejo como uma chance de quem vai pensar na hora do voto.
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Folha - Aécio Neves.
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Fafá - Aecinho aprendeu todas as lições com Tancredo. Mas é completamente diferente. Tancredo era uma águia política. Foi o homem que participou de todos os grandes momentos da história e não chegou ao poder. Acho que isso foi a coisa mais dolorosa de todo o processo. O Aecinho, que naquela altura ninguém dava nada por ele, era um playboy, um bon vivant. Conseguiu construir no governo de Minas uma equipe que toca o Estado com muita competência. Tem tido uma ação mineira aos moldes do avô, de costura e discrição. A grande estratégia do Aecinho é fazer com que quem esteja na festa esteja trabalhando, e quem esteja trabalhando esteja na festa. (risadas) Mais mineiro impossível!
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Folha - Roberto Freire.
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Fafá - Foi meu primeiro voto para Presidente. Disse isso ao Lula e ele ficou arrasado. Roberto é impecável, sério. Posso falar do Fernando Henrique?
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Folha - Claro.
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Fafá - Fernando está melhor agora que na Presidência. Esse tempo fora da Presidência cria uma liberdade onde está a plenitude dele. É um intelectual, um homem interessante, engraçado, bem humorado. E no papel de atirador de pé está ótimo. Pessoas como Fernando Henrique jamais saíram e jamais sairão da política. Se ele volta num cargo eletivo, aí não sei. Mas a inteligência dele faz falta.
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Folha - Já que estamos nos ex-presidentes, e José Sarney?
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Fafá - Sarney e Antonio Carlos Magalhães têm uma parceria muito afinada, há tantos anos transitando pelo poder, com poder de fato e de direito. Só que o Sarney é mais discreto na ação. Isso faz com que ele seja um costureiro e se mantenha há tantos anos. É um político profissional. E acho que tem sido um grande conselheiro para o Lula!
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Folha - Vamos então para o Lula?
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Fafá - Eu me lembro do Lula, o Lula Lula. O grande mérito dele foi ser eleito sendo o Lula. Enquanto ele teve medo e foi controlado pelos intelectuais do PT não chegou a lugar nenhum, porque não era ele, e ele não falava na linguagem que queria. Eu não consigo não gostar do Lula. Embora tenha muitas restrições a determinadas posturas dele. Restrições que tenho em relação à postura de muitos políticos. Espero que se ele se reeleger forme um governo onde tudo o que o trouxe ao governo esteja representado. Inclusive os intelectuais e os políticos de outros partidos, que deram sustentação ao PT, para que pudesse existir.

Entrevista: Cristovam Buarque

Lula adotou ética de Collor, diz Cristovam

"Talvez por isso mesmo, o Collor vai votar no Lula", afirma
pedetista, que acusa presidente de ser conivente com escândalos
Candidato, que tem 1% nas pesquisas, enxerga em Lula a "tentação de passar por cima do Congresso" com medidas antidemocráticas

ELIANE CANTANHÊDE
COLUNISTA DA FOLHA

O candidato do PDT à Presidência da República, Cristovam Buarque, disse ontem que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva "usurpou a Bolsa-Escola, usurpou a política econômica do Fernando Henrique [Cardoso] e usurpou a ética do [Fernando] Collor". E ironizou: "Aliás, talvez por isso mesmo, o Collor vai votar no Lula". Para Cristovam, Lula foi "omisso ou conivente" diante dos escândalos que surgiram no seu governo, como o mensalão, e não terá condições de liderar um pacto nacional -ou "concertación", como prefere o governo- com as forças políticas, inclusive as de oposição. Em entrevista à Folha, Cristovam previu um panorama sombrio no caso de reeleição de Lula. Falou em "calote na economia", na "tentação de passar por cima do Congresso" e na possibilidade de "tomar medidas que desrespeitem as regras da democracia". Pernambucano, 62, Cristovam Buarque foi reitor da Universidade de Brasília e governador do Distrito Federal pelo PT. Hoje, é senador pelo PDT, com mais quatro anos de mandato, e tem em torno de 1% das intenções de votos, segundo o Datafolha. Seu lema de campanha é a educação.

FOLHA - Por que o sr. decidiu ser candidato a presidente, mesmo depois de perder a reeleição para o governo do DF e de ser demitido do MEC por Lula?
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CRISTOVAM - Quem tem uma causa não desiste. Além disso, na eleição seguinte, eu fui o senador mais votado no DF e até hoje ninguém teve tanto voto quanto eu tive aqui. Quanto ao MEC: essa pergunta tinha de ser feita ao presidente Lula. Só não foi por mensalão, por corrupção nem por traição. Quando assumi o ministério, eu peguei o programa do Lula e o levei a sério, pensei que era para valer, decidi executar tudo, mas todos os projetos ficaram engavetados na Casa Civil. Eu levei a sério o programa do governo Lula, mas todo mundo sabe que o próprio Lula não levou.
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FOLHA - A forma de sua demissão, por telefone, diz algo sobre a personalidade do Lula?
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CRISTOVAM - A minha demissão e a substituição do seguinte [Tarso Genro] para presidir o PT, e por um secretário-executivo que virou quase um interino por quatro anos, demonstram o desinteresse pela educação. E tudo o vem sendo feito na área é para o ensino superior. Por quê? Porque tem uma força corporativa por trás. Não tem sindicato de analfabeto, tem? Então, a secretaria para a erradicação do analfabetismo, Lula fechou depois que eu saí. Lula não compartilha da idéia de que o povo se liberta pela educação.
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FOLHA - A sua candidatura não tem uma característica muito personalista, não partidária?
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CRISTOVAM - Fui escolhido por dois terços dos votos da convenção, o que é raro, e além disso a minha bandeira é a do PDT: a educação. O que identifica [Leonel] Brizola? É a educação e a defesa da nação brasileira. É preciso lembrar que, em 1989, meu primeiro voto não foi no Lula, foi no Brizola.
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FOLHA - E o 1% nas pesquisas? O sr. contava com isso?
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CRISTOVAM - Eu queria estar muito acima, claro. Quero, de fato, ser presidente do Brasil. O eleitor está mais preocupado com o aqui e agora, com a podridão que há na superfície da política e com a violência no Brasil. Mas eu quero mudar o Brasil, derrubar o muro entre incluídos e excluídos que impede o Brasil de se tornar uma nação desenvolvida. Só há um caminho: a educação.
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FOLHA - O Lula já está reeleito?
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CRISTOVAM - Não acho. Ainda faltam três semanas e, se reeleito, o Lula vai dar calotes nas promessas, como certos aumentos salariais, o aumento da Bolsa-Escola, digo, da Bolsa-Família, e o aumento irresponsável de alguns programas populistas. Ele não vai conseguir, e vai ser uma moratória eleitoral. Já imaginou o Lula reeleito no primeiro turno? Vai ser uma espécie de anistia ética, e eu me pergunto quanto tempo vai demorar para se rever a cassação do José Dirceu. Então, eu temo, sim, pelas instituições. Reeleito no primeiro turno com mais de 50 milhões de votos, Lula chega ao poder com o Congresso desmoralizado, com um partido pequeno, com prazo de quatro anos para concluir o mandato. A tentação para passar por cima do Congresso e para tomar medidas que desrespeitem as regras da democracia será muito forte.
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FOLHA - A sensação da população é que o Lula foi quem criou o Bolsa-Família, quando foi o sr. quem implantou o então Bolsa-Escola no DF, que é basicamente a mesma coisa. Como o sr. permitiu essa apropriação?
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CRISTOVAM - Eu inventei a Bolsa-Escola e o Poupança-Escola que, aliás, é outra coisa que o Lula vai se apropriar qualquer dia desses, que é pagar a criança quando passar de ano, mas depositando numa poupança que ela só tira depois de concluir o segundo grau. Eu inventei quando estava na universidade, publiquei em livro e implantei no governo do DF. O Lula se apropriou de tudo que ele herdou de bom no Brasil. Ele se apropriou da auto-suficiência do petróleo e do Real. Melhor: ele diz que salvou o Real, apesar de ter sido contra ele, lembra? Ele se apropriou da Bolsa-Escola, mudando o nome para ficar mais fácil de se apropriar. Além de ser o criador de tudo o que havia de bom, ele aparece como salvador de tudo que havia de ruim.
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FOLHA - Como ele conseguiu se apropriar de tudo isso?
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CRISTOVAM - Ele tem uma máquina tremenda nas mãos, uma campanha publicitária imensa, apesar de ser um comportamento muito pouco ético. O Fernando Henrique poderia ter ter mudado o nome do Bolsa-Escola, quando ampliou do DF para o resto do país, mas não o fez, mesmo eu sendo adversário dele. Foi um gesto raro de generosidade política. O Lula, ao contrário, se apropriou de tudo. Qualquer dia vai dizer que o Real foi obra dele. O Lula usurpou a Bolsa-Escola, usurpou a política econômica do Fernando Henrique e usurpou a ética do [Fernando] Collor [de Mello]. Aliás, talvez por isso mesmo, o Collor vai votar no Lula.
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FOLHA - Isso tudo não é mágoa de quem foi demitido e de quem vai perder a eleição?
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CRISTOVAM - Eu não tenho mágoa: eu tenho causa. Mágoa, a gente tem nas relações pessoais. Nas relações políticas, a gente tem frustrações. Frustração com o Lula? Ah! Isso eu tenho, e muito. Eu ajudei a eleger o Lula, e tenho uma enorme frustração de ver a negação de tudo o que a gente defendeu.
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FOLHA - Qual a avaliação da economia no governo Lula?
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CRISTOVAM - As bases da política econômica são essas, não há outras para colocar no lugar. A arena do debate ideológico hoje não é aí, é a política orçamentária e fiscal. Aí, sim, faço críticas ferozes. Ninguém pode avaliar bem uma política fiscal que recolhe 40% da renda nacional para impostos. O que proponho é um pacto entre os três Poderes para, durante três a quatro anos, não haver nenhum aumento de gastos no setor público.
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FOLHA - Não é uma utopia? De que país o sr. está falando?
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CRISTOVAM - O Rio Grande do Sul fez, por que não podemos fazer? Ou a gente faz isso, ou só tem dois jeitos: uma ditadura ou voltar a inflação. Essa carga fiscal vai gerar um desastre, baixar o juro por decreto gera outro desastre, voltar a inflação cria também um outro desastre. Então tem que congelar gastos, jogar o que vier de aumentar de renda em investimentos.
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FOLHA - O Lula sabia ou não de todas essas coisas que derrubaram três ministros e a cúpula do PT?
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CRISTOVAM - Isso não é falar de política, é falar de espionagem. Eu não sei. Agora, se ele não sabia, ele era muito omisso em relação ao que acontecia ao seu redor.
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FOLHA - E se sabia?
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CRISTOVAM - Ele foi conivente com atos ilegais e mentiu ao povo brasileiro, ao dar a impressão de que estava indignado.
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FOLHA - O sr. diz que o presidente foi omisso ou conivente, mas, pelas pesquisas, ele tem .chances concretas de se reeleger em primeiro turno. O que acontece com o povo brasileiro?
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CRISTOVAM - Não é com o povo, é com o eleitor brasileiro. O povo é uma entidade que pensa cem anos na frente, e o eleitor só pensa no hoje na hora de votar. Está perdendo a crença e achando que todos são iguais. Antigamente, se dizia "rouba, mas faz". Hoje em dia, é "rouba, mas é um dos nossos".
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FOLHA - O que vai acontecer com o PT, seu ex-partido?
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CRISTOVAM - Primeiro, o que já está acontecendo. Virou um partido acomodado, para não dizer conservador. Em segundo lugar, tudo indica que diminuirá de tamanho no Congresso.
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FOLHA - O seu novo partido, o PDT, corre riscos com a cláusula de barreira.
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CRISTOVAM - A gente não sabe direito qual será o tamanho da bancada, mas as pesquisas dizem que o partido vai passar sem susto pela cláusula de barreira, que usa o critério de número de votos.
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FOLHA - O Lula propõe uma "concertación" das forças políticas em nome do que "é melhor para o país". É possível?
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CRISTOVAM - É uma proposta fora de hora. Teria sido ótima no início do governo. Não agora. Seria a salvação dele para a história. O segundo mandato vai condená-lo.

Leituras recomendadas

AS ELITES E OS POBRES

Por André Petry
(Publicado pela Revista Veja)

"Palocci foi indiciado pela Polícia Federal no início de abril. Já faz cinco meses! E até agora a polícia não mandou o relatório final ao Ministério Público!
Será que a coisa só vai andar depois da eleição?"

Virou moda dizer que os pobres não dão bola para a corrupção, não se importam com a ética, não estão nem aí para os padrões de moralidade pública. Por isso, votam em Lula sem tampar o nariz. Será que esse descaso é mesmo um comportamento de pobres antiéticos?
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O ex-ministro Antonio Palocci é candidato a deputado, e as projeções petistas indicam que sua vitória está praticamente assegurada. Palocci não aparece em público, não se exibe diante da massa, não sobe em palanques, evita entrevistas à imprensa. Dedica-se a fazer jantares e reuniões privadas. Também realiza palestras para uma certa elite em São Paulo. Vinha cobrando 15 000 reais para falar em bancos e empresas privadas, que não são lugares freqüentados pelas camadas mais pauperizadas do eleitorado. Recentemente, participou de um seminário para discutir os desafios nacionais ao lado de outros ex-ministros da Fazenda. Como se fosse dono de biografia tão íntegra quanto a de Pedro Malan.
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Há, portanto, banqueiros e empresários que ouvem Palocci, gostam de Palocci e votam em Palocci. E não é que o ex-ministro está indiciado pela Polícia Federal? Depois de José Dirceu, Palocci é a imagem da lama no governo Lula. É acusado de mandar perseguir o caseiro que o denunciou, num dos atos mais sórdidos e covardes patrocinados neste governo. É suspeito de ter montado um esquema para receber um mensalinho de 50 000 reais quando era prefeito de Ribeirão Preto. É acusado de ter arrecadado dinheiro clandestino na campanha de Lula. De cercar-se de assessores ávidos por enriquecer às sombras. De mentir sistematicamente sobre sua presença no casarão dos negócios em Brasília. De esconder que usava o jatinho que viajou com dinheiro de Cuba. Por tudo isso, sua candidatura, que parte dos eleitores abastados tanto prestigia, é uma busca desesperada pelo foro privilegiado.
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Palocci está em campanha, mas anda meio de lado, meio escondido. Primeiro, porque sua campanha é feita junto a essa parcela endinheirada que adora ouvi-lo. Segundo, porque Palocci tem de ser discreto. Se aparecer muito, sempre pode surgir alguém para lembrar que seu inquérito na Polícia Federal – essa instituição tão ágil em outras operações – não sai do mesmo lugar. Palocci foi indiciado como mandante da quebra do sigilo bancário do caseiro no início de abril. Já faz cinco meses! E até agora a polícia não mandou o relatório final ao Ministério Público! Será que a coisa só vai andar depois da eleição? Depois do foro privilegiado?
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Os banqueiros e empresários que votam em Palocci e tratam-no como se fosse uma autoridade sem máculas estão fazendo um cálculo: acham que Palocci escorregou, mas suas idéias econômicas são tão sensatas, tão ponderadas, que vale a pena prestigiá-lo apesar das trambicagens.
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Isso significa que os pobres são imorais, malandrinhos e antiéticos quando escolhem trocar um prato de arroz pelo voto em candidatos enlameados, como Lula, paizão dos pobres, do mensalão, das dívidas ocultas e, não menos significativo, de Lulinha. Mas, quando os abastados prestigiam um candidato enlameado, aí não tem problema nenhum? Há nisso algum eco querendo nos dizer que pobres são descarados e abastados são pragmáticos?
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SUA EXCELÊNCIA, O FATO
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Por Luiz Carlos Mendonça de Barros
(Publicado na Folha de São Paulo)
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A ação de um governo deve ser criar condições para que todos os brasileiros evoluam na qualidade de suas vidas.
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UM DE meus professores na Escola Politécnica costumava dizer que "contra fatos não há argumentos". Quando se trabalha com previsão econômica muitas vezes só os fatos mostram que um determinado cenário é o correto. Como está acontecendo agora no Brasil de Lula e de sua equipe econômica tão exótica como um ornitorrinco.
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O crescimento pífio do PIB no segundo trimestre do ano e o IPCA de agosto divulgado nesta semana -notáveis 0,05%- são fatos que não deixam dúvida sobre duas teses que tenho defendido nesta coluna: a política econômica do governo está errada e a inflação no Brasil tem hoje uma dinâmica tradicional que não está sendo levada em conta pelo Banco Central e pela grande maioria dos economistas ligados ao chamado mercado.
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A primeira tese entra em choque frontal com a euforia de muitos de meus colegas com o governo Lula. Pouparei o leitor da Folha das manifestações que tenho ouvido citando apenas uma, por ser ela simbólica do quero dizer. "Este é o melhor momento de nossa economia desde de 1500, quando fomos descobertos." Foi dita por um membro exitoso dessa estranha comunidade em recente cerimônia pública. Além de mostrar ignorância sobre nossa história econômica contemporânea, o autor dessa frase agride o conjunto da sociedade.
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A ação de um governo deve ser a de criar condições para que TODOS os brasileiros progridam e, por meio da atividade econômica, melhorar a qualidade de suas vidas. E, se olharmos para a economia brasileira hoje, dificilmente vamos encontrar fatos que nos permitam concordar com a bravata que citei acima. A forma correta de medir os resultados da política econômica sobre a sociedade me parece ser a evolução da renda média real do trabalhador ao longo dos anos.
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Para não ser acusado de antigoverno, vou utilizar como período de análise os últimos 20 anos. Vou tomar o caso da Grande São Paulo, região para a qual existem dados confiáveis de aferição da renda do trabalhador e inflação nesse período, e os dados nacionais da Pnad. As informações disponíveis para outras quatro regiões metropolitanas -Recife, Salvador, Belo Horizonte e Porto Alegre- mostram o mesmo comportamento captado pelas estatísticas do Seade/Dieese no caso da Grande São Paulo.
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Primeiro, relaciono os dados de renda média real do trabalho do levantamento feito pelo Seade/Dieese para a região metropolitana de São Paulo, em reais de junho de 2006 (dados deflacionados pelo IPC-Fipe):
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1986/1989: R$ 1.050,00
1995/1998: R$ 1.350,00
1999/2002: R$ 1.200,00
2003/2006: R$ 1.050,00
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Ao longo de 20 anos, o trabalhador das grandes zonas metropolitanas do país não saiu do lugar em termos de rendimento real de seu trabalho. Se usarmos o rendimento médio do trabalhador no Brasil todo calculado no Pnad do IBGE o quadro é semelhante, embora os dados disponíveis de renda média real do trabalho cheguem apenas até 2004, conforme abaixo (com valores atualizados para setembro de 2004):
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1986/1989: R$ 818,00
1995/1998: R$ 887,00
1999/2002: R$ 814,00
2003/2004: R$ 726,00
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Cabe aqui uma pergunta aos nossos eufóricos membros da comunidade financeira: "Está rindo do quê?". A resposta a essa pergunta é muito simples. A euforia dos mercados está associada à incrível melhoria de nossas condições externas e à segurança que uma moeda respaldada por mais de US$ 70 bilhões de reservas -e que serão US$ 100 bilhões em fins de 2007- garantem.
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E certamente isso é uma conquista extraordinária para todos nós, brasileiros. Mas é preciso usar essas novas condições para o país crescer, com trabalho e salário. Mas isso a política econômica à qual o Brasil está submetido há quase dez anos não é capaz de fazer.
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BRASIL, CAMPEÃO DA CORRUPÇÃO
Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
(Publicado na Revista Veja)


Ou, no mínimo, campeão no número de diplomatas que violam
as leis de trânsito em Nova York

O mais recente e mais original ranking internacional de corrupção coloca o Brasil em posição de destaque como o país mais corrupto da América Latina. Vencemos o Chile (quem não esperava?), vencemos o Paraguai (quem esperava?!), deixamos atrás, muito atrás, nosso histórico rival, a Argentina. Numa lista de 146 países de todo o mundo, organizada do mais corrupto para o menos, o Brasil ocupa o 29º lugar, superado apenas por um batalhão de africanos (Chade, Sudão, Moçambique e quinze outros), uns tantos asiáticos (Kuwait, Paquistão, Síria e quatro outros) e um trio da Europa do Leste (Bulgária, Albânia e Sérvia e Montenegro).
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O ranking em questão é o dos países cujos diplomatas mais desrespeitaram as leis de trânsito em Nova York. Dois pesquisadores americanos, Raymond Fisman, da Universidade Colúmbia, e Edward Miguel, da Universidade da Califórnia-Berkeley, adotaram o inovador critério de buscar, entre os diplomatas acreditados junto às Nações Unidas, aqueles que mais abusaram da vantagem de ser isentos do pagamento de multas de trânsito, para medir o grau de corrupção dos respectivos países. No topo da lista aparece o Kuwait, com um total de 246,2 multas não pagas por diplomata num período de cinco anos, seguido por Egito (139,6), Chade (124,3), Sudão (119,1) e Bulgária (117,5).
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Entre os 22 países que, com nenhuma multa não paga, ocupam o final da lista, figura uma maioria cuja presença nessa honrosa parte do ranking já era esperada, como Suécia, Noruega, Canadá e Japão, notórios respeitadores das leis, e também algumas surpresas, como República Centro-Africana e Equador. Ao Brasil são atribuídas 29,9 multas não pagas.
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Com a imunidade diplomática aconteceu mais ou menos o mesmo que com a imunidade parlamentar no Brasil. Ela foi criada para garantir a independência dos diplomatas e protegê-los contra perseguições de países hostis. Assim como a imunidade parlamentar, no Brasil, com o tempo passou a acobertar até crime de sangue, para não falar nos assaltos ao Erário, a imunidade diplomática foi estendida até às infrações de trânsito. Em Nova York a situação tornou-se tão insuportável que em outubro de 2002 o Congresso americano votou uma lei permitindo o guinchamento dos veículos diplomáticos estacionados em local proibido, a cassação das permissões especiais da ONU para estacionamento e o corte da ajuda prestada pelos Estados Unidos aos países infratores em 110% do valor das multas devidas. A partir daí, as violações caíram drasticamente.
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Por isso mesmo, os pesquisadores escolheram trabalhar com o período anterior à nova lei. Seus dados são referentes aos cinco anos entre novembro de 1997 e outubro de 2002. Os carros com chapas assinaladas pelo "D" que os identifica como de uso diplomático não deixam de receber as notificações pelas infrações cometidas, apesar de seus responsáveis não serem obrigados a pagá-las – daí ter sido possível computá-las. Um problema que poderia distorcer os dados é a variação do número de diplomatas mantido por cada país junto à ONU, indo dos 86 da Rússia aos três do Burundi, da Eritréia ou de Papua Nova Guiné, segundo os números de 1998, tomados como referência. Optou-se por usar como critério as violações per capita. O Brasil, no ano de referência, tinha 33 diplomatas. Nossas 29,9 multas não pagas representam o total de violações cometidas por cada um deles.
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A maioria das multas refere-se a estacionamento em local proibido. Isso caracterizaria realmente, como querem os pesquisadores, um ato de corrupção? Eles respondem sim. O ato de violar uma lei de trânsito, valendo-se da impunidade, caberia na definição-padrão de corrupção, formulada pela organização Transparência Internacional: "O abuso do poder em benefício próprio". Eles também estão convictos de que o sistema singelo que inventaram oferece um instrumento válido para medir a corrupção nos diferentes países, tanto assim que, segundo eles, o ranking apurado não difere muito de outros existentes para o mesmo fim.
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Será? Observando-se a posição de nossos vizinhos na lista, deparamos com situações que causam estranheza. A Argentina figura bem atrás do Brasil, na 92ª posição, com 3,9 multas. Mesmo admitindo, o que é duvidoso, que os argentinos sejam menos corruptos, serão tanto assim? O Chile é o segundo latino-americano do ranking, com 16,5 multas não pagas, e o Paraguai, o terceiro, com treze. É difícil acreditar que o Chile seja mais corrupto que o Paraguai. Há outros casos que contrariam as avaliações baseadas no senso comum e na observação a olho nu das realidades do mundo. Talvez seja uma fantasia, da parte dos pesquisadores, achar que descobriram um método confiável de medir corrupção. Resta que os diplomatas brasileiros abusaram, sim, da impunidade para cometer mais violações às regras de trânsito do que os de todos os outros países da América Latina. Também resta que ficaram entre os 20% que mais as cometeram, entre todos os países do mundo. Que vergonha, Itamaraty.