quinta-feira, novembro 25, 2010

Falta alguma coisa às UPPPs de Cabral: prender os bandidos

Adelson Elias Vasconcellos

Tenho procurado não me manifestar sobre a violência que, mais uma vez, e que vem se tornando uma trágica rotina, atinge o Rio de Janeiro. Se o Rio continua lindo agradeça à natureza, não aos seus governantes.

E se tenho me esquivado de opinar sobre assunto tão triste, não é porque não tenha opinião formada sobre o assunto. É porque este é um momento em que, geralmente, a razão se deixa levar pela emoção, e não podemos, mesmo que conscientemente não o desejemos, cometer erros de análise, julgamentos superficiais e até cometer injustiças tomados pela precipitação. Esta é a hora em que a ação das autoridades deve ficar livre para cumprir com suas obrigações. O que de certa forma, no caso específico do Rio de Janeiro, está sendo feito apenas em parte. Já volto a este ponto.

Antes é preciso colocar alguns pingos nos devidos “is”. Na segunda feira, um sociólogo resolveu dar uma entrevista sobre o tema. Seu pensamento, infelizmente, é uma tônica corrente dentre muitos ditos "especialistas". Melhor que tivesse ficado quieto. Esta entrevista varreu a internet, e deve ter ido ao encontro de muito pensamento torto sobre o que vem a ser um plano de segurança em favor da população.

O nome do moço é Ignacio Cano que diz "que não há uma contabilidade oficial de arrastões". Muito bem, se o rapaz não lê, fazer o quê? Então vamos informá-lo melhor. Até o final da noite desta quarta-feira, 24, era o seguinte o saldo, segundo nos informo o jornal O Globo:

Segundo o serviço de relações públicas da PM, desde domingo, 23 pessoas foram mortas, 47 presas e 112 detidas para averiguações. Dois PMs foram baleados, além das 14 vítimas que estão internadas no Hospital Municipal Getúlio Vargas, na Penha.

Houve a apreensão de 29 armas do tipo pistolas e revólveres; 10 fuzis; duas espingardas calibre 12, uma submetralhadora, cinco granadas e duas bombas caseiras.

Com alguns bandidos presos, a polícia encontrou um coquetel molotov, dois artefatos explosivos, nove litros de gasolina, além de material inflamável.

Ao todo, 37 veículos foram incendiados: dois carros no domingo, oito na segunda e dois na terça. Só [ontem], 18 pessoas foram mortas nas operações policiais, e os bandidos destruíram 15 veículos de passeio, duas vans, sete ônibus e um caminhão.

No Complexo da Penha, dois policiais militares ficaram feridos em confronto com bandidos.

Entre os mortos está uma menina de 14 anos, vítima de bala perdida na favela do Grotão, na Penha. Rosângela Barbosa Alves levou um tiro no peito enquanto usava o computador em casa.

A jovem foi levada para o hospital Getúlio Vargas, na Penha, mas não resistiu aos ferimentos.

Em Brás de Pina, uma mulher foi baleada de raspão da nuca na Rua Suruí.

Espero que o senhor Cano possa agora ficar mais tranquilo. A contabilidade da barbárie está aí. Ocorre que o sociólogo começou a entrevista com esta afirmação “Tenho ressalvas em relação a afirmar que temos uma onda de arrastões. Não há uma contabilidade oficial de arrastões, porque não é um termo técnico na área de segurança, e sim um termo difuso aplicado a um roubo em série”. Se o balanço da PM é o que acima reproduzimos, ele espera o quê para ver aí uma “onda de arrastões”? Como a entrevista é um tanto longa, e o meu propósito não é  tratá-la especificamente, mas apenas um adendo para outras colocações, prefiro apenas apontar dois grandes equívocos que ele, a exemplo também das autoridades cariocas vem cometendo. O primeiro é afirmar como o faz, que a nova onda de arrastões (que não reconhece como tal), “...não precisaria desse nível de alarme social que está sendo criado”.

Como? Qual a fórmula mágica que o senhor Cano imagina haver para, diante de tamanha insegurança da população, que sai de casa para trabalhar sem a certeza de que poderá voltar ao final do dia, viva ou morta, porque até o transporte coletivo está afetado, sem ficar alarmada? Como andar com tranquilidade nas ruas, ou no trânsito, diante do cenário que se assiste em cada canto?

Mas o que me chama a atenção é esta frase: “O objetivo das UPPs não é e nem pode ser erradicar o tráfico. Ninguém erradica o tráfico, ele existe na Dinamarca, no Canadá. A questão é conseguir reduzir os níveis da violência e de controle da população por grupos armados. Os moradores agora podem voltar para casa quando quiserem, andar pelos becos, não há confronto armado”.

Bem, o que me parece grave no atual plano de segurança, é que tanto o governador Cabral quanto o secretário de Segurança, Beltrame, consideram mais importante ocupar territórios do que prender bandidos. Ora, qualquer plano de segurança deve ter várias fases para ser executado e, uma delas, não importa qual plano ou qual região em que o mesmo se realize, a violência somente se reduzirá se houver bandido preso. Simples assim? Sem dúvida, do contrário, ao ocupar um território, se o bandido não for preso, e não se imaginando que ele se converta em cidadão honesto da noite para o dia, ele buscará outros territórios onde possa atuar livremente. Esta é a tendência. Ignorar este princípio é vender uma fantasia, que entendo, é o que  se passa no Rio de Janeiro. A ideia das UPPs é ótima? Sim, não vou negá-la, porém, somente dará certo se for acompanhada com a prisão, no maior número que puder, dos bandidos soltos e que cometem crimes dos mais variados gêneros. E se imaginarmos que as UPPPs acabem tomando conta do Estado, sem prisões, Cabral estará exportando a criminalidade carioca do Rio de Janeiro para os estados vizinhos. Convenhamos, se politicamente isto até pode lhe render votos políticos em seu estado, de outro, é uma trapaça sem conta, no plano da ação do Estado e seus agentes.

Tanto os responsáveis pela segurança do Rio quanto seu governador devem focar em seus planos, que o objetivo não é somente pacificar territórios ocupados pela bandidagem, e sim, reduzir esta bandidagem a menor expressão possível. Não haverá cem por cento de eliminação, certo? Bandidos há em toda a parte, em maior ou menor grau. Contudo, a tolerância em relação a presença deles deve ser zero, e se não houver aprisionamento do maior número possível de bandidos, jamais se chegará à segurança mínima.

O que me preocupa não são os planos de segurança e, sim, o pensamento com que os mesmo são construídos e idealizados. Prender bandidos que são ameaça ao convívio social jamais deve ser riscado fora de qualquer plano. Sem essa de se achar que a bandidagem pode ser “induzida” ou convertida a mudar de vida, e se tornarem, assim, por pura magia, bons e honestos moços. São escolhas individuais, e quem vive disto, morre disto, a menos que, por decisão de sua própria vontade, abandone a violência como meio de vida. Ocorre que esta “conversão” só ocorre em níveis ínfimos. Portanto, se há pontos programados no atual plano de segurança, sem dúvida, eles devem contemplar a ocupação de áreas hoje dominadas pela bandidagem, mas seu complemento indispensável deve ser colocar os bandidos na cadeia, e no número máximo que se puder.

Para encerrar, há uma questão que também preocupa: o pesado armamento que chega às mãos desta gente. Assistimos todos os dias nos noticiários, dezenas de operações policiais com apreensão de drogas. Muito bem, é isto que deve ser. O Rio não produz coca, assim, ela só chega ali vinda de algum lugar. Mas e as armas de grosso calibre, alguma de uso restrito? Como não se vê operações de apreensão de armas contrabandeadas – o Rio não fabrica estas armas nem a munição – na mesma proporção? Ora, sabemos que há uma incrível facilidade de se adquirir este armamento atravessando a fronteira do Paraguai, em Foz do Iguaçu, por exemplo. Não seria o caso de se intensificar a vigilância na fronteira para que se evite, ao máximo que for possível, que este armamento chegue à bandidagem?

As ações que abalam o Rio de Janeiro nos últimos dias, até pode ser uma reação dos bandidos contra as UPPS de Sérgio Cabral. Porém, elas também sintonizam que seu plano de segurança precisa do complemento indispensável, diria até dois: primeiro, que a ocupação dos “territórios” seja conseguida com o aprisionamento dos bandidos, do contrário, eles se deslocarão para outra área ou para outras favelas sem UPPs ou para o asfalto, como se vê agora. E de outro, e aí, em sintonia com o governo federal, com a intensificação do combate ao contrabando de armas, impedindo que a bandidagem tenha acesso livre a elas.

Sem tais complementos, lamento informar: as ondas de violência que, vez por outra, sacodem e abalam a população carioca, se repetirão ininterruptamente. As autoridades precisam mudar o sentimento de “pacificação” para tolerância zero. Com bandidos não pode haver condescendência nem negociação. Simples assim.

E a propósito: quando o governo federal terá concluída as prisões de segurança máxima, prometidas lá atrás para serem entregues em prazo recorde, e das cinco programadas, apenas foram concluídas duas?

Deixo claro que não sou contra as UPPPs, de maneira alguma: só acho que falta a elas algo trivial para o sucesso de qualquer plano que tenha por objetivo restabelecer e garantir a segurança pública: prender os bandidos. E é fundamental que o contrabando de armas e munições que dão a força à bandidagem seja combatido e contido a qualquer preço, como bem lembrou o Arnaldo Jabor (clique aqui) no mesmo Jornal da Globo.

Sem isso, estaremos apenas transferindo a violência de um lugar para outro.

As promessas? Ora, eram só promessas

Adelson Elias Vasconcellos

Em agosto, durante a campanha eleitoral para o primeiro turno, alguns jornalistas inquiriram a então candidata sobre a necessidade de se fazer um ajuste fiscal. Eis sua resposta:

“Com o país crescendo a 7%, com inflação sob controle, com o atual nível de reservas (internacionais)… Eu vou fazer ajuste fiscal para quê, hein? Eu não concordo que o Brasil tenha que se submeter sistematicamente, a cada fim de governo, a um ajuste fiscal”.

Mais adiante, quando estava em Porto Alegre, comemorando o nascimento de seu neto Gabriel, e diante dos números que insistiam em projetar um ajuste fiscal mais do que necessário, a declaração de dona Dilma foi esta:

"O papo do ajuste fiscal é a coisa mais atrasada que tem. Não se faz ajuste fiscal porque se acha bonito. Faz porque precisa. E eu quero saber, com a inflação sob controle, com a dívida pública caindo e com a economia crescendo, vou fazer ajuste para contentar a quem? Quem ganha com isso? O povo não ganha.”

Com base nestas declarações, e diante do que se via no quadro econômico do país, em 11 de setembro, achei que era hora de manifestar minha contrariedade com tais afirmações. Postei neste dia um artigo, Ajuste fiscal? Dilma entende que não precisa. Azar o nosso, do qual extraio este trecho:.

(...) Dilma declarou em Porto Alegre, que a ideia de ajuste fiscal é algo ultrapassado. Que o atual momento econômico dispensa tal medida. Bem, isto é o que nós vamos ver. Dilma começaria muito mal seu governo se acaso insistisse no mesmo conceito. A questão fiscal nada tem de ultrapassado. Trata-se de um corretivo que deve ser aplicado sempre que um governo não consegue conter seus gastos muito além das receitas. É precisamente o que vem ocorrendo no Brasil, e não é fato recente.

Pode ser até que a candidata do Lula diga isso pelo fato de estarmos em período de campanha e teme que se afirmar que o país precisará de uma pequena intervenção cirúrgica em suas contas, isto acabe abrindo flancos para avaliações quanto a saúde econômica do país.

Como disse, o ajuste será indispensável para garantir que o governo, no médio prazo, eleve a capacidade de investimento público que, apesar do discurso, continua muito aquém do necessário e do possível. Portanto, tempo ao tempo. Mas seria bom que os jornalistas guardassem esta declaração no bolso. Acho que a Dilma não sabe bem o que lhe espera. (...)

*****

Ontem, em entrevista ao Jornal da Globo, o senhor Guido Mantega, confirmado para continuar à frente do Ministério da Fazenda, deu as declarações que estão aqui.

A entrevista foi feita por Heraldo Pereira que começou dizendo “A hora é agora”. De fato, passada a eleição, garantido o poder, chegou a hora da verdade e, neste sentido, não importa mais “enganar” os eleitores: eles não são mais necessários.

Claro, Guido Mantega, inteligente que é e bem orientado, teve o cuidado de não se referir a “ajuste fiscal”, preferiu um sinônimo: consolidação fiscal. E o que isto significa? Cortar gastos de custeio do governo e abrir espaço para o setor privado. E os projetos de aumento de despesas no Congresso Nacional ? Bem, precisarão ser contidos, não é mesmo? Mas a ordem é “...Acabar com a miséria com solidez fiscal, com acomodação dos gastos que são a mais”. E o que vem a ser isto, senão o velho, bom e necessário “ajuste fiscal”, que é nada menos do que a compatibilização das despesa com as receitas, para impedir a geração de rombos orçamentários os quais, para serem cobertos, precisarão ou de elevação do endividamento, o que obriga na manutenção da taxa de juros nas alturas, ou por aumento da carga de impostos o que, nas atuais circunstâncias, provocaria uma instabilidade e um desagrado generalizado na sociedade. Começar um governo em tais condições não é uma boa receita.

E as promessas? Bem, já se vê que cortar gastos significa não atender todas as promessas feitas e, a tal PEC 300, a que aumentava de forma desproporcional, em todo o país, os salários dos policiais, estará condenada a não passar, não na forma prevista ao menos. Reajuste da tabela do imposto de renda na fonte? Nem pensar. Aumentos reais do salário mínimo? Esqueçam. Aumento do Judiciário? Aumento dos parlamentares? Bem isto é o que veremos mais à frente. Mantega também falou em desoneração de impostos, o que contraria a ideia de ressuscitar a CPMF.

A governabilidade é compromisso de todos. Governar é obrigação de quem venceu, portanto, quebrar as promessas em relação a aumentos salariais terá um preço político. Se o interesse é pelo bem do país como um todo, e não apenas a manutenção do poder pelo poder, Dilma deverá resistir e se empenhar em vencer as barreiras políticas que irá encontrar.

O mesmo se diga sobre o salário mínimo. Mantega está dizendo que o governo quer R$ 540. Os sindicatos já avisaram que não aceitam. Alguém precisa mostrar o lado real. Quem o fará? Lula passou oito anos alimentando que tudo é possível, que no mundo da fantasia em que viveu não há limites. Ocorre que a economia mundial foi um motor propulsor que ajudou a criar este clima. Isto hoje não é mais possível. O Brasil precisa voltar a sua própria realidade e, neste sentido, não dá para manter o oba-oba dos oito anos de Lula.

Claro que ajustes são e devem ser feitos sempre que as contas estiverem desordenadas. Mas se isto vale impor alguns sacrifícios à sociedade, no caso, aumentos salariais abaixo do que pedem algumas categorias e sindicatos, por outro lado, também impõem que o governo sacrifique alguns anseios internos. Certo? Infelizmente, não é bem assim. Se a gente garimpar o noticiário, veremos que Telebrás, Eletrobrás, TV Brasil, o próprio BNDES, estão no centro de aumento de gastos. Este gigantismo estatal será contido? Duvido. E a própria presidência da república dá sinais controversos. Na edição de hoje do Estadão eis uma manchete singular: Estrutura da Presidência ganha mais 90 cargos.

Para atender a novas tarefas, inclusive no Judiciário, projetos aprovados em comissões da Câmara preveem criação de outros 1.321 postos comissionados, com um impacto nas contas públicas estimado em R$ 267,2 milhões até 2012. Adotando um discurso típico de tecnocratas, Miriam Belchior, escolhida para suceder Paulo Bernardo no Ministério do Planejamento, disse que a meta, no governo Dilma, é "fazer mais com menos dinheiro". Mantega disse que com o crescimento econômico acima de 5% não é possível criar novas despesas.

Por enquanto, como se vê, está havendo um comprometimento, de um lado, em se evitar aumento de despesas sobre salários, mas, por outro lado, o enfoque do governo sobre si mesmo, contradiz o discurso, porque se mantém a linha do fazer o mesmo com mais. Maioria parlamentar para impor uma nova cultura, Dilma tem e de sobra. Resta saber até aonde há vontade política para tornar o discurso uma realidade permanente. Porque uma coisa é certa: o cenário econômico é preocupante. Temos aí, de forma clara, déficit público maquiado, inflação ascendente, o maior déficit de balanço de pagamentos da história, câmbio supervalorizado e crescimento descontrolado das importações. Resolver tais questões exige, sem dúvida, muito mais do que simples discursos.

E as promessas de campanha? Ora, meu amigo, eram apenas isso: promessas de campanha. 

Margem de segurança

Dora Kramer - O Estado de São Paulo

Antes de sair, o presidente Luiz Inácio da Silva deixará duas questões resolvidas: a escolha do novo ministro do Supremo Tribunal Federal e o caso do italiano Cesare Battisti, preso e com extradição decretada pelo STF, no aguardo apenas da sua palavra final.

Pelo menos essa é a expectativa de quem compartilha conversas com o presidente sobre esses assuntos.

A escolha do STF não significa, entretanto, que haverá chance ainda antes do recesso de fim de ano e das férias de janeiro do Poder Judiciário, de a Corte voltar à composição de 11 integrantes.

Ao que tudo indica, Lula quer ter a primazia de indicar o 8.º ministro do Supremo (um para cada ano de mandato), marca, ao que se saiba inédita, mas deixará a nomeação para ser examinada pelo Senado renovado em dois terços com expressiva maioria governista.

A cada dia aparece um nome aqui e ali, mas os dois mais fortes são o advogado-geral da União, Luís Inácio Adams, e o ministro do Superior Tribunal de Justiça, Cesar Asfor Rocha.

Este último com padrinho forte, o ex-ministro da Justiça Marcio Thomaz Bastos, corria sozinho até que o próprio presidente começou a manifestar o desejo de nomear Adams para a vaga aberta com a aposentadoria de Eros Grau.

Pela lógica das cotações, Adams hoje está mais forte, mas o presidente ouviu ponderações de que não seria aconselhável indicá-lo porque seria o segundo advogado-geral da União (José Roberto Toffoli foi o primeiro) nomeado por ele, mas quem falou não obteve resposta positiva ou negativa.

Quanto a Cesare Battisti, ele fica no Brasil, mediante uma solução jurídica que não agrida a Justiça italiana e atenda ao governo Berlusconi. Vale dizer, que não questione a democracia nem o sistema jurídico da Itália. O encarregado de encontrá-la? Luís Inácio Adams.

Ideologia.
Antes de sacramentar sua transferência do DEM para o PMDB o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, tem detalhes a acertar como, por exemplo, evitar a contestação na Justiça pelo atual partido com base no princípio de que os mandatos pertencem aos partidos.

Pela norma, a desfiliação só se justifica em caso de expulsão ou de fusão de legendas. Por isso Kassab tentou antes que o DEM aceitasse se incorporar ao PMDB.

O problema dele nem é o próprio mandato, pois teria como postergar uma decisão definitiva até o fim de sua gestão. A questão complicada são os mandatos dos seis deputados federais que o prefeito levará consigo para um PMDB cuja bancada paulista limita-se a um parlamentar.

Em tese não haveria razão para o DEM "reclamar seus direitos" na Justiça: uma ala do partido quer vê-lo mesmo pelas costas e outra não tem interesse em lhe criar dificuldades.

Mas, pelo sim pelo não, como o patrimônio é significativo, Kassab pensa em alegar divergências ideológicas agora que o DEM resolve se assumir claramente como "de direita".

O prefeito não pretende alegar ser de esquerda, mas apenas que não concorda com o carimbo.

Cipó de aroeira.
A condenação de Paulo Pereira da Silva - o "Paulinho", deputado do PDT e presidente da Força Sindical - por uso irregular dos recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador em 2001, resulta agora de uma investigação da Corregedoria Geral da União que, na época, levou o acusado a chamar a então corregedora, Anadyr de Mendonça, de "mal-amada".

Paulo Pereira era, então, candidato a vice-presidente da República na chapa de Ciro Gomes.

Síntese.
No twitter, @saoblack dá palpite no debate de cardeais sobre refundação do PSDB: "Não tem que refundar nada, o PSDB precisa tomar vergonha na cara e resgatar o seu passado".

Pode não ser o jeito mais elegante de dizer a coisa, mas traduz perfeitamente o espírito da coisa.

Violência no RJ: Confederação criminal favorecida pelo sistema penitenciário quer destruir UPPs

Wálter Fanganiello Maierovitch, Portal Terra


1. Do interior dos presídios saíram as ordens para os ataques violentos e espetaculares que estão sendo executados no Rio de Janeiro: arrastões, explosões de bombas, incêndios de veículos automotores, roubos etc, etc.

Os ataques foram iniciados há dois meses e crescem em progressão aritmética.

Líderes encarcerados de duas organizações criminosas — Comando Vermelho (CV) e Amigo dos Amigos (ADA) — fizeram chegar, com visitantes na função de pombos-correios, ordens para, por ações rápidas como nas guerrilhas, difundir medo na população, desmoralizar as forças de ordem e abrir caminho para um acordo com o governo do Estado.

O Estado do Rio de Janeiro possui, como o de São Paulo, organizações pré-mafiosas. Associações delinquências especiais que buscam o controle territorial e social.

No Rio, essas duas organizações criminosas conseguem se unir, como se percebe no momento, numa confederação criminal. E as milícias paramilitares, que também têm controle de território e social, dão apoio velado porque muitos dos seus membros são policiais.

Antes rivais, o CV e ADA juntam-se para enfrentar o Estado. E o fazem como represália à política de implantação gradual das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). As UPPs, até agora, conseguiram, embora de forma lenta, reconquistar território e retomar o controle social nos morros do Rio de Janeiro. Por evidente, essas retomadas geram prejuízos financeiros para as organizações, cujo lucro é a sua única ideologia. Mais ainda, geraram, como esperado, a migração para outras localidades.

A formação dessa confederação criminal tem por meta evitar a expansão das UPPs.

Com os ataques, uma tática nada original em termos de organização de matriz mafiosa, a CV e o ADA, que já sentem o desfalque nos seus cofres de lucros ilícitos, pretendem abrir caminho para negociações com as autoridades estaduais, de modo a aliviar a situação prisional de líderes de facções e recuperar lucros com as drogas perdidos nos pontos de oferta.

2. O calcanhar de Aquiles com relação às UPPs está na falta de uma adequada política penitenciária nacional e num sistema prisional marcado pela entropia.

Não existem políticas ou planos de segurança pública que consigam dar tranquilidade social quando os líderes de organizações criminosas continuam a dar ordens de presídios e cadeias, que são recebidas pelos operadores criminais das bases.

Em São Paulo, o Primeiro Comando da Capital (PCC) já deixou o governo de joelhos e a população abandonou os postos de trabalho para se refugiar nos domicílios. Os ataques do PCC obedeceram a ordens saídas dos presídios e desmoralizaram a política de segurança pública do governador Geraldo Alckimin: a “herança maldida” foi deixada para o governo tampão do professor Cláudio Lembro.

Como todos sabem, muitos dos presídios estaduais são controlados por organizações criminosas. Em São Paulo não se consegue implantar um sistema capaz de bloquear celulares. E no Rio e em São Paulo os presos se dedicam livremente a simular sequestros, por telefone. Esse tipo de engodo, com milhares de ligações, alcança sucesso quando, do outro lado da linha, estão pessoas idosas e crédulas.

No combate à Máfia, o primeiro grande passo foi tipificar, no Código Penal italiano (art.416-bis), essas organizações especiais, que são distintas de meras quadrilhas e bandos (art. 416, caput).

O segundo passo foi emendar o Código Penitenciário (art. 41 bis) de modo a isolar os chefões presos e efetivamente impedir que enviassem ordens. Para se ter idéia, as visitas eram filmadas e gravadas. Um vidro separava o visitante do preso visitado. Mais, a polícia penitenciária cuida da fiscalização. Não só dos presos. Também dos agentes penitenciários e diretores, que poderiam ser corrompidos.

No Brasil, nunca tivemos um código penitenciário nem políticas exitosas. Não contamos com uma polícia penitenciária: temos a civil, estadual e federal, a rodoviária, estadual e federal, a militar estadual e, até, a ferroviária federal. Não temos a penitenciária.

O terror e a lei

Merval Pereira, O Globo

O governo do Rio está tomando providências em diversas frentes, invadindo várias favelas controladas pela facção criminosa que estaria promovendo esses arrastões, e ao mesmo tempo o governador Sérgio Cabral pediu que a Polícia Rodoviária Federal entrasse em alerta máximo, oficialmente para ajudar no controle das vias expressas do Rio como as Linhas Vermelha e Amarela, onde têm acontecido muitos ataques dos bandidos.

Na realidade, as autoridades lidam também com uma denúncia de que um caminhão de explosivos estaria sendo desviado para o Rio para atentados, o que configura o caráter terrorista das ações dos últimos dias.

Este foi um primeiro pedido oficial do governo do Rio ao governo Federal, dando a dimensão da gravidade do caso, e o Ministro da Justiça ofereceu até mesmo a Força Nacional de Segurança.

Essa ação nos morros é uma reação para demonstrar à facção criminosa que não haverá recuo no combate ao crime organizado.

Além da ação terrorista coordenada para acuar as autoridades, há também a bandidagem que, expulsa dos morros, está no asfalto tentando reverter seus prejuízos.

Seria de se esperar que esse tipo de crime aumentasse nas ruas da cidade, e que muitos desses criminosos fossem para outras cidades do interior do Estado, onde o índice de criminalidade tem crescido.

Inclusive por que a tática do governo é avisar com antecedência que vai invadir este ou aquele morro, dando tempo para os bandidos saírem sem resistir à chegada da polícia, para evitar um banho de sangue e colocar em risco os moradores.

Isso por que a idéia principal das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) não é acabar com o tráfico de drogas, mas sim acabar com o domínio dos bandidos sobre o território das favelas.

Interessa mais a essa política liberar as favelas para os cidadãos do que propriamente impedir o tráfico e prender os traficantes.

Mas a única coisa a fazer é continuar na estratégia de ir avançando no domínio do território ocupado pelos bandidos.

Sucessivos governos deixaram esses criminosos tomarem conta das favelas da cidade e agora para alcançar uma pacificação desses territórios é preciso devolver ao Estado o chamado “monopólio da força” onde os criminosos o exercem.

O Ministério da Justiça ofereceu também vagas em presídios federais para que sejam transferidos bandidos que continuam mandando ordens de dentro dos presídios estaduais, mas se as ameaças continuarem será preciso pedir a ajuda das Forças Armadas.

A tendência natural do governo, qualquer governo, é tentar reduzir o tamanho da ameaça, e é por isso que o secretário de Segurança José Beltrame, que está fazendo um excelente trabalho, diz que essas ações são feitas por uma facção criminosa pequena que não se conforma com a perda de espaço para suas ações nos morros da cidade.

Pode ser, mas o que estamos vendo são ações coordenadas, como se fossem treinadas com o objetivo único de causar impacto na população.

Os métodos são de ataques terroristas, com táticas de guerrilha. Tudo indica que são pessoas treinadas, muitos indícios de que há ex-soldados cooptados pelos traficantes.

Naquele episódio da tomada do Hotel Inter Continental, em São Conrado, os filmes mostravam movimentos dos bandidos muito organizados, com claro preparo militar.

“Devido à existência do controle territorial armado por narcotraficantes e milícias, a retomada definitiva, com a retirada das armas, é uma questão estratégica e não tática”, afirma um trabalho da Casa das Garças, um instituto de estudos do Rio, já abordado pela coluna, sobre as favelas do Rio.

O trabalho chegou à conclusão de que “o estado e a sociedade civil estão presentes nas favelas. A ausência do estado ocorre apenas em uma função: o policiamento ostensivo. Porém, este é o ponto primordial para que todos os demais direitos e equipamento sejam acessados”.

Os maus sinais da inflação

Rolf Kuntz, Estadão.com

Financiar trem-bala não é função do Banco Central (BC). Combater a inflação, sim. O lembrete poderia ser inútil em outro momento, mas não agora, diante da incerteza quanto ao papel e ao poder da autoridade monetária no futuro governo. Nenhum temor é absurdo, quando o Tesouro é autorizado a usar R$ 25 bilhões como garantia financeira de um projeto ferroviário mal esboçado, contestado e de retorno duvidoso, mas defendido como prioritário pela presidente eleita. O lembrete sobre a missão do BC também é oportuno, agora, porque a inflação do feijão já era: os aumentos estão muito mais espalhados. Esse é um bom assunto para a presidente eleita e para a pessoa escalada para cuidar dos juros a partir de janeiro. Dois terços dos preços pagos pela maioria das famílias foram arrastados pela onda de aumentos, segundo a última pesquisa do IPCA-15, realizada entre 14 de outubro e 12 de novembro e divulgada ontem pelo IBGE. O efeito da onda é crescente. A alta de preços havia atingido 62,2% dos itens no período coberto pela pesquisa encerrada há um mês.

Com a nova coleta vieram, portanto, duas más notícias. Em primeiro lugar, a inflação ganhou impulso, passando de 0,62% em outubro para 0,86% em novembro, segundo esse indicador. Em segundo, as pressões inflacionárias, além de mais fortes, tornaram-se mais amplas. A aceleração é confirmada pelo exame dos chamados núcleos de inflação, calculados sem os preços mais instáveis dos alimentos e combustíveis.

Também a Fundação Getúlio Vargas apontou inflação em alta: na terceira medição do mês, correspondente aos 30 dias encerrados em 22 de novembro, o IPC-S variou 0,85%. Um mês antes o aumento apurado havia sido 0,66%. O índice de difusão, 64,8%, foi um pouco menor que o da terceira pesquisa de outubro, 65,4%, mas confirmou a tendência de aumentos bem espalhados pela economia.

Os dois fenômenos – a aceleração e a difusão dos aumentos – são sinais de pressão de demanda, segundo alguns analistas. Não há nada incomum nessa avaliação. A forte demanda é refletida também nas contas do comércio exterior. O Brasil gastou neste ano US$ 160,1 bilhões com importações até a terceira semana de novembro, 43,9% mais do que um ano antes. O valor exportado, US$ 175,4 bilhões, foi 30,8% maior que o de igual período de 2009.

Esse descompasso é em parte explicável pela valorização do real, mas o efeito do câmbio seria certamente menor, se a economia estivesse menos aquecida e a demanda interna fosse menos intensa. Além do mais, o dólar barato tem contribuído para limitar os aumentos. Sem esse amortecedor, os consumidores estariam bem mais assustados com a alta de preços. É bom levar em conta esse dado ao avaliar os indicadores de inflação.

Pelo menos dois fatores poderão afetar os preços nos próximos meses. A União Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional estão mobilizados para ajudar os países da Europa em situação mais precária, como a Irlanda e a Grécia. Mas há outros vulneráveis à ação desestabilizadora dos mercados financeiros. Se a situação europeia desandar, o dólar poderá subir e o Brasil ficará menos protegido contra as pressões inflacionárias.

O outro perigo está no mercado internacional de produtos básicos, sensível tanto às variações na oferta e na demanda quanto às decisões dos especuladores financeiros. Está prevista para 2011 uma oferta global de alimentos mais apertada que a de 2010. Não haverá realmente escassez, mas a mera perspectiva de redução de estoques é em geral suficiente para elevar as cotações. Esse efeito é ampliado, e às vezes consideravelmente, quando há insegurança nos mercados financeiros e grandes volumes de dinheiro são desviados para o mercado de commodities. Isso ocorreu antes da crise de 2008 e poderá ocorrer de novo, se o risco financeiro aumentar ou se os países emergentes se tornarem menos interessantes.

Se a presidente eleita tiver uns 50% da sorte de seu antecessor, esse quadro poderá tornar-se menos preocupante nos próximos meses. Seu governo, então, será iniciado diante de um cenário externo menos sombrio. Mas ainda haverá uma coleção respeitável de riscos internos. Na melhor hipótese, será preciso enfrentar o rescaldo das atuais pressões inflacionárias, administrar um orçamento pouco flexível e com excesso de custeio improdutivo. Será necessário, também, conter a deterioração das contas externas. Se não houver uma reversão, em 2012 o déficit em conta corrente estará em 4% do PIB. Mas tudo será bem pior, em dois anos, se o caminho escolhido for o da complacência com a gastança e do descuido diante das pressões inflacionárias.

A indústria e o comércio exterior

Rubens Barbosa, O Estado de S. Paulo

Apesar do bom desempenho das importações e exportações em 2010, a vulnerabilidade externa, nos últimos anos, tem sido uma das principais preocupações do setor industrial. A perda de competitividade no mercado internacional foi responsável, em grande parte, pela redução da participação de produtos manufaturados a apenas 40% do total exportado pelo Brasil, o mesmo nível de 1978.

A Fiesp preparou documento com propostas concretas para corrigir as distorções geradas pela alta taxa de juros, pela apreciação do câmbio e pelo excessivo custo Brasil. A combinação desses três fatores tem contribuído para um amplo processo de reestruturação produtiva, alterando a forma de inserção do País no comércio externo.

Cabe mencionar algumas de suas consequências:

Tendência à redução do superávit comercial e ao aumento do déficit em transações correntes, pondo em risco a estabilização e a sustentabilidade do crescimento; maior concentração das exportações em produtos de baixo conteúdo tecnológico e intensivos em recursos naturais, incluindo commodities cujos mercados apresentam elevada volatilidade; presença crescente de importados no mercado interno (22% do consumo doméstico), agravando a tendência de desindustrialização da economia e de perda de postos de trabalho.

Ações para tornar o câmbio competitivo e mitigar seus impactos negativos sobre o comércio exterior são necessárias para preservar setores industriais relevantes da economia brasileira. A desoneração tributária das exportações, o combate à guerra fiscal e a melhoria na logística também podem atuar para perspectivas mais favoráveis do setor externo.

A despeito da importância no conjunto da economia e para a geração de emprego, o comércio exterior desempenha papel secundário na política econômica e na estrutura do governo federal. Encontro empresarial na semana passada, com a participação da CNI, Fiesp, AEB e Funcex, examinou essa questão em profundidade e apresentou propostas concretas, encaminhadas à equipe da presidente eleita, para melhorar a eficácia dos principais órgãos intervenientes do comércio exterior.

A Câmara de Comércio Exterior (Camex) necessita ser fortalecida. Melhor coordenação entre os órgãos e Ministérios, assim como um diálogo mais estreito entre o governo e o setor privado tornam urgente o estabelecimento de um comando único para as decisões de política de comércio exterior. O presidente da Camex teria a função de coordenar a política de comércio exterior em cooperação com os titulares do Itamaraty e dos Ministérios do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) e da Fazenda, bem como com os representantes de outros órgãos competentes (cerca de 40). Com vista a elevar o nível do processo decisório, está sendo sugerida a criação do cargo de presidente da Camex, com status de ministro coordenador das políticas de comércio exterior, vinculado diretamente ao presidente da República. Dentre suas principais funções, caberia a essa nova Camex, por exemplo, a prévia revisão e concordância na criação ou alteração das leis, regulamentos e normas que afetem o comércio exterior e a discussão e aprovação da estratégia de negociação comercial externa, sem que seja alterada a competência dos referidos órgãos.

A Coordenação-Geral de Administração Aduaneira (Coana) da Receita Federal e a Secretaria de Comércio Exterior (Secex) do MDIC deveriam ser reforçadas. As deficiências na estrutura dos órgãos responsáveis pelo combate às práticas ilícitas na fiscalização aduaneira, na Coana, e de defesa comercial, na Secex, têm efeito direto sobre o desempenho comercial do País. A precariedade dos recursos existentes é responsável, por exemplo, pela ausência de vistoria documental ou física de cerca de 85% das mercadorias que entram no País e pela dificuldade de levar adiante em tempo hábil as reclamações de dumping feitas por empresas nacionais, sobretudo contra a China. A Coana e a Secex deveriam contar com melhores sistemas, equipamentos e pessoal, para assegurar o cumprimento de suas funções. Nesse contexto, deveria ser considerada a gradual separação da Coana da Receita Federal.

A simplificação e a desburocratização do comércio exterior impõem-se pelo cipoal de leis, decretos e atos executivos (cerca de 3 mil leis) dos órgãos da administração pública que regulam as operações de comércio exterior. A complexidade na interpretação e na aplicação dessas regras inibe a competitividade do setor exportador e estimula irregularidades nos procedimentos de importação. Segundo o relatório Doing Business, do Banco Mundial, o Brasil é o 100.º país em termos de facilidade para o comércio exterior. A consolidação dessas normas deveria ter como foco a redução dos procedimentos e a facilitação das operações.

A estratégia de negociação comercial deveria ser modificada. O Brasil continua tendo participação muito pequena em acordos internacionais de comércio. Enquanto países como Chile e México negociaram acordos de livre-comércio com 45 e 42 países, respectivamente, o Brasil assinou apenas dois, de reduzida importância comercial (Israel e Egito), nos oito últimos anos. O crescente número de acordos comerciais concluídos por nossos principais parceiros começa a deslocar as exportações brasileiras em terceiros mercados. O Brasil deveria assumir uma posição agressiva para assegurar condições favoráveis de acesso a mercados para suas exportações, incluindo a conclusão de novos acordos com relevantes parceiros comerciais e a exigência da correta aplicação das regras de comércio existentes.

Essa agenda da indústria para a reforma do comércio exterior deveria merecer cuidadoso exame e, por decisão política, ser implementada pelo novo governo de Dilma Rousseff.

Balé diplomático do Brasil e dança de quadrilha na ONU

Caio Blinder, Veja online

Ahmadinejad no Púlpito da ONU 
Chris McGrath/Getty Images

Coce a cabeça ou, em um esforço maior, faça acrobacia mental para entender os malabarismos da política externa brasileira nas Nações Unidas. Na semana passada, em três votações sobre violações dos direitos humanos em um comitê da assembleia-geral da ONU, o Brasil votou assim: abstenção nos casos do Irã e Mianmar e condenação da Coréia do Norte. Falta de coerência, pois estão aí três países consistentes no prontuário de direitos humanos. São três países torturados por regimes delinquentes. Eu não vou fazer muita acrobacia mental. O balé diplomático está mais para dança de quadrilha, pragmatismo criminoso e interesses circunstanciais.

E o Brasil não está sozinho nesta dança. Naquelas três votações, a Índia, o outro emergente do bloco Bric com um regime democrático, se mal comportou assim: não condenação para Mianmar e abstenção para Irã e Coréia do Norte. Os EUA e um montão de “decadentes” países ocidentais votaram “sim” nos três casos. A Índia tem seus negócios e cálculos estratégicos com os quadrilheiros que mandam no vizinho Mianmar e desta vez não fez defesa cerrada do Irã, pois Teerã falou o que Nova Déli não gostou sobre a confusão na Caxemira (um dia, eu explico). E, como de hábito, China e Rússia tentaram segurar a barra da bandidagem nesta dança de quadrilha diplomática.

Os regimes delinquentes lançaram a fuzilaria verbal de sempre contra estas acusações. A Coréia do Norte, aquele gulag com bombas nucleares, disse que as resoluções mostram o Ocidente empenhado no confronto. Mas claro que a indignação com a ditadura de Kim Jong-il é muito mais expressiva. Foram 100 votos a favor da condenação, 18 contra e 60 abstenções. Ainda assim, é chocante o número de votos contrários e abstenções em um resolução sobre direitos humanos no gulag norte-coreano.

O sujeito que comanda a diplomacia de Mianmar ( o gulag na selva asiática e país da heroica dissidente e Prêmio Nobel da Paz, Aung Sang Suu Kyi, recentemente libertada da prisão)) disse que a votação foi “profundamente falha”. Tem razão. Afinal foram apenas 96 votos condenando o país (com 28 contrários e as 60 abstenções, entre elas a do Brasil).

Já para o Irã, foram 80 votos a favor da condenação, 44 contra e 57 abstenções. O regime de Teerã rebateu que as votações mostram hostilidade ocidental e sionista (sempre os judeus) contra o regime iraniano e blá blá blá. Mohammad Javad Larijani, do Alto Conselho de Direitos Humanos do Irã (é, lá existe este cargo) fulminou que existe hipocrisia, pois Israel não é tratado com o mesmo rigor pelos EUA e seus aliados ocidentais.

Eu concordo que os americanos costumam segurar a barra de Israel (não que o país mereça ser equiparado ao Irã), mas países europeus são pródigos em condenar o Estado judeu, que, aliás, é o maior alvo de pancadaria, simplesmente escandalosa, em comitês das Nações Unidas, a destacar naquele troço em Genebra, o Conselho de Direitos Humanos, que tem entre seus atuais vice-presidentes o cubano (si, Cuba no libre) Rodolfo Reyes Rodriguez. A propósito, o Itamarati considera que este conselho seja o fórum ideal, e não a assembleia-geral em Nova York, para debater e votar sobre direitos humanos. Os cubanos também.

Vamos ser sinceros, ninguém é mocinho nesta dança de quadrilha da diplomacia (embora alguns sejam mais bandidos). No começo do mês, os EUA tiveram sucesso para impedir que o Irã ganhasse assento em um novo órgão (mais um) das Nações Unidas para cuidar dos direitos da mulher. Posição coerente. Afinal, o que o Irã, onde mulheres são sentenciadas a morte por apedrejamento, como o caso de Sakineh Ashtiani, pode fazer num organismo de defesa da mulher? A mesma pergunta vale para a Arábia Saudita, que ganhou o assento para o comitê (para o qual será um importante patrocinador financeiro).

Mas neste caso, a diplomacia americana não chiou e deu o beneplácito para seu grande aliado no Oriente Médio, onde as mulheres sequer podem dirigir carro. Como disse a iraniana Shirin Ebadi, Prêmio Nobel da Paz, tanto faz: é uma piada colocar Irã ou Arábia Saudita num órgão de defesa da mulher. Acaba sendo piada o próprio voto saudita contra o Irã naquela votação dos direitos humanos. Não foi, é claro, por bom mocismo, mas pelas disputas políticas e religiosas entre os dois países.

No entanto, mesmo em dança diplomática de quadrilha existe uma finesse de balé. Coréia do Norte e Mianmar estão pouco se lixando para estas votações de direitos humanos. São delinquentes assumidos. Já o Irã é uma facção diferente. Genuinamente, zela por sua imagem e se considera um digno defensor dos direitos humanos (é, daqueles que seguem fielmente o regime). Todo ano, o presidente Mahmoud Ahmadinejad faz peregrinação para as Nações Unidas para entoar sua ladainha antiamericana e contra a “entidade sionista” e também compartilhar sua bizarra visão de mundo. Ele considera a ONU um púlpito importante para sua pregação, negação e alucinação.

Mas a entidade e suas agências são cada vez menos hospitaleiras para o presidente iraniano. Até o pacato secretário-geral, o sul-coreano Ban Ki- moon, puxa com mais frequência as orelhas de Ahmadinejad por sua agenda nuclear de fins não pacíficos, enquanto o diretor da Agência Internacional de Energia Atômica, o japonês Yukya Amano, é mais firme nas cobranças do que o antecessor, o egípcio Mohammed ElBaradei.

Os americanos e seus aliados estão dando bons passos na dança de quadrilha. Este foi o sétimo ano consecutivo de condenação na ONU por violações de direitos humanos no Irã. Desta vez, foram 80 votos, seis a mais do que no ano passado. Há também relatos de que as sanções impostas tanto pela ONU como unilaterais para castigar o Irã por seguir adiante com seu programa nuclear estão machucando.

No entanto, o cerco não faz com que o regime de Teerã mude seu comportamento, seja na questão nuclear, seja em direitos humanos. Os EUA, que não querem encarar o cenário de um ataque militar, insistem que está mais difícil para o Irã avançar nas suas atividades de enriquecimento de urânio. Há dúvidas, porém, se os vários desdobramentos nas Nações Unidas vão provocar mudanças na postura de Teerã nas negociações multilaterais sobre o seu programa nuclear programadas para o começo de dezembro.

Uma leitura mais positiva, ou um consolo, é que o Irã está mais isolado internacionalmente, embora na hora do maior sufoco possa contar com os préstimos de russos e, particularmente, chineses. O Irã evidentemente não se conforma com o cerco. Insiste, por exemplo, que votações sobre direitos humanos não são sobre direitos humanos. Mas são uma mera provocação dos EUA (e de outros 79 países). Seu emissário Mohammad Javad Larijani diz que seu país não quer ser uma “cópia xerox da democracia ocidental”. Que nada. Copie o que existe de menos pior, como lembrou Churchill. Na ONU, Larijani perguntou: “Qual é o nosso crime”? Não dá para responder com a abstenção.

Vendemos comida. E daí?

Carlos Alberto Sardenberg, O Globo

Ser um grande produtor e exportador de alimentos é uma vantagem estratégica do Brasil. Não podemos atrapalhar isso ----

Cruzamento de melancia com abóbora, dá o quê? Dá melancia, mas de um tipo mais resistente. Mas se você estiver interessado em plantar essas melancias, não se precisa preocupar com isso. A variedade já está disponível no mercado, mais exatamente em Nehalim, Israel, no centro de produção da companhia Hishtil.

Agricultura contemporânea é isso. Pura pesquisa e tecnologia. Deixa-se quase nada por conta da natureza. Aquela companhia israelense, por exemplo, não produz sementes, nem grandes plantações. Compra as sementes e as cultiva em áreas que são quase um laboratório, com tudo controlado (a terra, quantidade de água, nutrientes, tempo de exposição ao sol e, claro, os enxertos). Ao cabo de algumas semanas – prazos fixos, conforme a variedade – a produção está “pronta”.

São mudas em, digamos, montinhos de terra, uma a uma. O cliente leva aquilo e planta em suas terras.

Nada fica ao acaso. É produção padronizada, planejada e controlada pelos computadores, sob encomenda e com data certa de entrega. Como se fosse uma produção industrial.

E eis porque estamos falando disso. Muita gente no Brasil está incomodada com a grande expansão do agronegócio nacional, também um prodígio da pesquisa e da inovação tecnológica. A exportação de alimentos, em extraordinária expansão, mudou a estrutura das contas externas brasileiras, ao trazer bilhões de dólares que foram parar, em grande parte, nas reservas do Banco Central. De eterno devedor, o setor público brasileiro passou a credor em dólares – circunstância que permitiu passar pela crise financeira global.

O crescimento do agronegócio foi de tal ordem que reduziu o peso relativo da indústria tradicional no comércio externo brasileiro. Mesmo com o real valorizado, mesmo com o elevado custo Brasil, os produtos agrícolas brasileiros foram competitivos e ganharam mercados globais.

Mas, é isso que a gente vai ser, vendedor de alimentos? – tal é o incômodo. Essa bronca vem de ideologia do passado. A velha teoria dizia que os países subdesenvolvidos só ficariam ricos com a industrialização, pois produtos agrícolas e minérios, as comodities, ficariam cada vez mais baratos, por serem, digamos, banais, fácil de fazer e de extrair. Em compensação, os preços de manufaturas, com toda sua tecnologia e valor agregado, ficariam cada vez mais caros.

Aconteceu o contrário. As manufaturas – as básicas, geladeira, fogão, televisores, carros – ficaram cada vez mais baratas, em grande parte por causa da inundação de produtos chineses. Além disso, ficou fácil fazer: qualquer um monta um computador. O valor se deslocou para a idéia, a criação, o design, o marketing.

Olhem na parte de trás de um iPhone. Está escrito: Desenhado pela Apple na Califórnia – montado na China. Desagregue-se o preço do celular e se verificará que a maior parte do dinheiro fica na Califórnia.

No outro lado de nossa história, os alimentos ficaram cada vez mais caros, por causa da demanda crescente dos emergentes, em especial da China e Índia. Reparem: nos países já ricos, ganhos de renda adicionais não levam a um aumento no consumo de alimentos. Simples: as pessoas já comem o suficiente, até demais.

Considerem a China: a renda per capita vai de mil dólares para oito mil – e aumenta o consumo de carne, leite, chocolate, biscoito, arroz.

Preços de alimentos em alta estimularam o plantio e, especialmente, os investimentos em tecnologia para que se pudesse retirar mais produto das mesmas terras ou de terras até então improdutivas. Como foi o caso de cerrado brasileiro, onde não crescia nada e de onde hoje sai a soja que domina mercados mundiais. Pode-se dizer que a soja de lá e o próprio terreno foram “inventados” pela Embrapa.

Todos os cenários indicam que o mundo emergente continuará em expansão, de modo que a demanda por alimentos será crescente. Considerando os limites de espaço e as restrições ambientais, só haverá uma saída para alimentar o mundo: tecnologias, inovação, ciência e pesquisa.

Ora, como Israel, o Brasil já dispõe de tecnologia e tem conhecimento e capacidade para continuar inovando, se o pessoal do ramo não for bloqueado por ideologias velhas. E, ao contrário de Israel, o Brasil tem abundância de recursos naturais. Ou seja, podemos inventar a melancia (ou a soja) e plantar milhões, para o mundo.

Resumo da ópera: o país precisa entender que produzir alimentos será simplesmente lucrativo e estratégico. Não podemos atrapalhar o agronegócio.

(Ok, fazemos o hedge: claro que todas as ressalvas ambientais precisam ser respeitadas, mas é preciso buscar soluções que combinem a preservação e a restauração com uma sólida produção de alimentos).

Isso não quer dizer que dispensamos a indústria, a manufatura. Há um argumento essencial: o país, em algumas décadas, terá 150 milhões de trabalhadores. Será preciso arranjar emprego para toda essa gente, o que será impossível sem uma indústria desenvolvida.

Mas também aqui precisamos entender qual a indústria do século 21 (uma delas será certamente aquela ligada a alimentos, no que o Brasil pode ter boa posição). Se a escolha for, por exemplo, por montar iPhones, estaremos de novo no lado fraco, sem valor. É por isso que a China coloca muito dinheiro em compra de terras e pesquisa de alimentos, energia renovável (no que o Brasil também pode ser campeão) e novos produtos industriais.

O Cardeal E O Jumento

Sebastião Nery

SALVADOR – A Bahia foi toda ao aeroporto de Salvador esperar seu primeiro cardeal, naquela manhã ensolarada de janeiro de 1953. Dom Augusto Álvaro da Silva, com seu nome de verso, alto, elegante, asceta, magistral orador sacro, chegou como um príncipe.

Pernambucano, era arcebispo de Salvador desde 1924, bispo no interior desde 1911. Poeta primoroso, escondia-se nos seus livros de poemas atrás do nome de Carlos Neto.

Tinha um pecado. Não tolerava perder no jogo de dama, nas manhãs de domingo, depois da missa, para um seminarista escalado cada semana pela direção do seminário. Perder a primeira partida, aguentava. Na segunda, levantava-se:

- “Volte para o seminário!”

Uma vez eu voltei e lá se foi o almoço com ele e a saborosa comida do palácio do Campo Grande, com maravilhosos vinhos italianos.

Vieira
Na véspera da chegada dele a Salvador, com seu rubro chapéu de cardeal, um jumento subiu pela ladeira da Barroquinha para a praça Castro Alves e foi atropelado e morto por um taxi,cujo motorista também morreu.

No dia seguinte, o “Diário da Bahia”, dirigido pelo talentoso Tarsilo Vieira de Melo, que por azar não era nenhum exemplo de piedoso cristão, pôs na primeira página duas fotos enormes: a de Dom Augusto com toda a pompa cardinalícia e a do jumento estirado morto na praça.

Mas, na oficina, inadvertidamente, haviam trocado as legendas. Embaixo do jumento morto, estava escrito: - “O Cardeal dos Baianos”. E embaixo da foto de Dom Augusto: “Este Jumento Envergonha a Bahia”.

Dom Augusto
Vieira de Melo ficou desolado. Como explicar que na foi de propósito, em um jornal “cheio de comunistas”? Dom Augusto, anos depois, já doente (morreu em 1964), não havia esquecido e me dizia numa manhã de domingo, quando fui visitá-lo e ele já não jogava dama nem almoçava com vinho da Toscana:

- “Sebastião, aquilo foi uma maldade própria de vocês jornalistas”.

Mesmo os santos cometem injustiças.

Caetano
As palavras são um perigo. Trocadas ou mal empregadas, mudam tudo. Li um belo e provocativo texto (somo sempre) do Caetano Veloso, comentando a capa histórica, montada por ele, do disco “Tropicália ou Panis et Circencis”, 30 anos atrás. Caetano surpreende-se de não haver, então, percebido o erro, que tantos repetem até hoje, como a pesquisadora baiana Ana de Oliveira, que organizou uma luxuosa edição bilíngue de um livro com ensaios sobre cada uma das doze canções do álbum, para a Iyá Omin Produções, com patrocínio da Petrobrás.

A expressão latina, clássica, não é “Panis et Circencis”. Também não é ‘Panis et Circus” (“pão e circo”) que seriam o “nominativo”, o “sujeito” de uma frase. A expressão é “panem et circenses” (“pão e jogos de circo”). As palavras estão no “acusativo”, como “objeto direto”, porque fazem parte da “Sátira X, 81” de Juvenal, o grande poeta satírico romano que dizia que “as duas únicas coisas que interessavam ao povo romano de sua época eram “pão e jogos circenses”.

Juvenal
Esse Juvenal era um craque. No “Dizionario Dei Personaggi dell´Antica Roma”, Diana Bowder conta :

- “Décimo Giuno Giovenale, natural de Aquino, é o mais famoso poeta satírico da Antiguidade. Sobreviveram quinze de seus poemas, dos quais os nove primeiros fornecem um quadro vivaz da Roma do fim do século I depois de Cristo. As últimas sátiras são ensaios morais sobre assuntos como, por exemplo, o desejo de vingança. “Londres”, o famoso poema de Samuel Johson, era uma imitação da terceira sátira de Juvenal, considerada sua obra-prima, e que versa sobre os muitos problemas de se viver em Roma. A sexta sátira é uma crítica mordaz à imoralidade e afetação das mulheres. É mais realista a visão de Juvenal como retórico soberbo e declamador eficiente,mestre da paródia, do epigrama, da alusão”.

Meirelles
Em política, o guloso também morre pela boca, falando antes. A Miriam Leitão, conhecida porta-voz do Meirelles do Banco Central e de qualquer banqueiro, informou no começo da semana, em “O Globo” :

- “O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, foi convidado para permanecer no cargo. O convite não foi feito em caráter provisório, de ficar só alguns meses. Mas Meirelles só permanecerá se tiver garantias de ter a mesma autonomia que teve nos oito anos do governo Lula”.

No mesmo Globo, Ilimar Franco devolveu o recado de Meirelles:

- “A presidente eleita, Dilma Rousseff, reagiu com irritação à noticia de que Henrique Meirelles condicionava sua permanência na presidência do Banco Central à garantia de autonomia. Antonio Palocci ligou dando o recado e Meirelles divulgou nota tentando consertar o estrago”.

Sarney, que não perde chance de prestar um serviço, seja qual for, seja a quem for, entrou na conversa, para a qual não tinha sido convidado :

- “A presidente Dilma vai fazer o ministério que quiser. A pulverização enfraqueceu os partidos. Só o PT tem força, porque tem interlocução com ela”. (Quer dizer, Michel Temer é um bobo alegre).

No velório da Oposição

Percival Puggina, Zero Hora

Ensopei o lenço. Engasgo-me em soluços. A oposição brasileira morreu, coitada. Falência múltipla de órgãos. Foi encontrada num terreno baldio, tendo um cusco sarnento como solitária e silenciosa testemunha. A notícia ainda não alcançou as redações e, por isso, somos poucos os que estamos inteirados dessa perda, que não chega a ser grande, porque a falecida já definhara, mas é triste. Gente fina, a oposição. Eu gostava dela. Mas que se há de fazer? Agora é ver se encontramos, para os ofícios de praxe, um padre ou bispo que não vá xingar a defunta de neoliberal.

Era previsível. Resistir à concentração de poderes que gravitou em torno do carisma de Lula era coisa para pouca gente. A história fornece exemplos assim, nos quais o governo alcançou tal popularidade que se permitiu todas as demasias. E a massa foi tão conivente que a oposição sucumbiu. O fato de que, com esse passamento, tenha sumido também a democracia foi um detalhe cuja relevância depende do ponto de vista perante a história. Muitos italianos, alemães e venezuelanos ficaram felizes quando isso aconteceu. Depois foi o que se viu. Lula, por exemplo, julga ter convivido com uma oposição feroz, implacável, inimiga da pátria como nunca antes neste país. Não tem espelho em casa, o Lula. Vai mandar uma caçamba com terra para ajudar no sepultamento.

Estão com o governo - conte aí nos dedos, leitor - os banqueiros e os bancários. Pode? Os empreiteiros e os operários. Os professores e os alunos. A esquerda e a direita vendida. A turma do Bolsa Família e a turma da bolsa Louis Vuitton. Os mais ferrenhos inimigos da Igreja e a CNBB. O materialismo histórico e o marxismo santarrão. Estão com o governo, até mesmo, os sempre inconciliáveis integrantes da "cozinha" dos meios de comunicação (ali onde opera o esquerdismo das sutilezas, inculto mas militante e vigilante) e os donos de influentes empresas do setor. Estão com o governo os petistas mais austeros. Falo daqueles de cenho cerrado, que sequer se permitem rir porque o riso é expressão de alienação burguesa, que quando falam em ética fazem tremer os lustres, lançam chispas pelos olhos e ganham aquele tom arroxeado, prenúncio de vulcânicas erupções de moralidade. Paradoxo: se olharem ao redor, esses moralistas de microfone reconhecerão, como parceiros, todos os políticos cuja ficha, digamos assim, não sai limpa nem de um tanque com creolina. Estão com o governo os grandes e os pequenos interesses. Está com o governo a massa de prefeitos e de governadores, ávida pelas migalhas que caem da mesa do poder.

Bom, eu cansei de avisar. É de uma imprudência inconcebível colocar nas mesmas mãos a chefia do Estado, do governo e da administração. É uma temeridade conferir a essa mesma pessoa a iniciativa exclusiva em relação às leis mais importantes, o direito de emitir medidas provisórias, a indicação de ministros aos tribunais superiores. É loucura proporcionar-lhe 65% por cento do bolo tributário, a liberação de emendas parlamentares (mecanismo usado para gratificar o adesismo congressual), a autorização para operar emissoras de rádio e tevê e, a par disso, as maiores verbas publicitárias do país. Não existe um único mal intencionado que admita viver longe desse poder e grana! Juntos nos governam, sem oposição. E 43 milhões de eleitores, à luz de velas, sem rumo cívico, pranteiam a falecida.

O Sistema

Maria Lucia Victor Barbosa, Instituto Millenium

Tropa de Elite 2 é que deveria concorrer ao Oscar e não a propaganda nazicabocla, Lula, o Filho do Brasil, que nem os devotados militantes petistas aguentaram assistir. Magistral a produção do cineasta José Padilha que ilustra através da ficção a corrupção institucional do Rio de Janeiro.

Em meio, porém, a tantos corruptos a exceção que exalta a coragem, a honestidade, a integridade de caráter do tenente-coronel Nascimento, atributos raros que introduzem na sordidez asfixiante do Sistema a existência de valores e do heroísmo. Não daquele falso heroísmo que incensa jogadores de futebol ou vítimas de acidentes, mas do verdadeiro sentido do herói capaz de doar-se em prol de uma causa coletiva.

Nascimento volta e meia se refere ao “sistema” , algo que dá o que pensar. O termo tem uso preciso em Sociologia e não pretendo aqui esmiuçar os estudos que se fizeram sobre o tema para o texto não ficar cansativo. Apenas esclareço resumidamente que sistema existe em qualquer grupamento social, sempre composto de um lado por indivíduos singulares e de outro pela complexa rede de relações que caracterizam a convivência recíproca dos indivíduos.

Naturalmente, existem vários tipos de sistemas e subsistemas num sistema global como os sistemas político, econômico, partidário, etc. No filme aparece um subsistema estadual que engloba do governo estadual à complexa rede de relações onde interagem indivíduos e instituições como a Secretaria de Segurança, a Polícia Militar, a Assembleia Legislativa e grupos marginais com milícias e narcotraficantes. A luta do tenente-coronel é travada contra a corrupção e a ilegalidade reinantes que ele corajosamente enfrenta e denuncia.

Se um filme faz refletir, muito mais devia ser repensado com relação ao sistema real gerado pelo governo petista. Afinal, é impressionante a quantidade de escândalos de corrupção, de falcatruas, de impunidade que lavram na complexa rede de constelações individuais e institucionais, denunciadas fartamente pela imprensa, mas neutralizadas pelo presidente da República que banaliza crimes e desvios de conduta através de uma retórica onde imperam palavras de baixo calão, piadas de mau gosto e metáforas futebolísticas de cunho populista.

A endeusada figura do líder sindical foi construída pelo grupo de comando do PT, assim como Lula da Silva confeccionou a imagem de Dilma Rousseff. Como disse Hannah Arendt, denunciando a arte de mentir sempre usada em política e cada vez mais aperfeiçoada: “A política é feita em parte, da fabricação de uma imagem e, em parte, da arte de levar a acreditar na realidade dessa imagem”.

A imagem que se construiu do pretenso genial Lula é falsa. Ele na realidade é tosco, por vezes grotesco, faz politicagem, não governa, sua esperteza é exaltada como se fosse dotado de extraordinária inteligência, sendo que a intrínseca malandragem tem o efeito de agradar a seus iguais.

O presidente da República é uma mistura de animador de auditório e cabo-eleitoral. Não lhe perguntem sobre liturgia do cargo porque nem sabe o que isso. E, ao final, descobre-se o segredo da popularidade que as massas lhe conferem: entre Lula e Tiririca não há diferença.

Essa descrição politicamente incorreta será taxada pelos militantes fundamentalistas do PT de preconceituosa, coisa de “zelite”, como ensinou José Dirceu ao mitológico Lula. Ressalte-se, contudo, em primeiro lugar, que Lula da Silva e os dirigentes governamentais petistas compõem há oito anos a classe dominante onde os poderes político e econômico se somam. Segundo, falta de modos e certos traços de caráter nada têm a ver com origem humilde. Essa interpretação é tão falsa quanto se dizer que a pobreza em si conduz à criminalidade.

Lula da Silva é o poder personificado do sistema, sua cara, seu símbolo, sua face visível que oculta a sujeira que existe por trás. E é ele quem deve manter o sistema propício aos companheiros dos mensalões, dos dólares na cueca, dos dossiês, dos sigilos violados, das grandes famílias das Erenices 6% e demais companheiros. Dilma Rousseff é só uma imagem. Não é nada. Apenas servirá ao sistema.

O grave problema e que a cabo de oito anos de mandato Lula da Silva deixou de lado os gracejos e assumiu sua verdadeira face. No afã de preservar o sistema e sentindo-se acima do bem e do mal se tornou colérico, violento, um figura cheia de ódio que mente descaradamente com a intenção de destruir não o adversário, mas o inimigo. Ele prega o fim da liberdade de imprensa e quer acabar com partidos que o incomodam. Em ataques paranoicos diz que Deus está ao seu serviço para vingá-lo dos parlamentares que não votam como ele quer. Como um Mussolini dos trópicos ele não mede as consequências de suas palavras e de seus atos. Não precisa. Atrás de Lula está o sistema que o sustenta. Por tudo isso ele tem a tarefa de por lá a insignificante Rousseff. Através dela, ele e o Sistema petista continuam. Isso é tudo que importa. Que enfrentará o sistema?

Por que será que Lula vai se dedicar à África depois de deixar o Planalto?

Ricardo Setti, Veja online


Amigos do blog, vocês viram qual será o principal interesse e a principal atividade do presidente Lula após deixar o governo, no instituto que irá fundar?

Seu principal interesse será a África, e a principal atividade, “ajudar a África”, segundo explicou seu secretário no Planalto, Gilberto Carvalho.

Diante disso, em qual das três hipóteses você aposta?

1. O messianismo de Lula extrapolou, ele acha que o Brasil não tem mais problemas para resolver depois de seu governo e então se dedicará a “ajudar” os países do continente mais pobre do mundo.

2. Lula sabe que os países da África representam 60 votos para o caso de a reforma da ONU que, finalmente, começa a andar, depois do apoio dos EUA à entrada da Índia como membro premanente do Conselho de Segurança (CS) e a concordância da China, sem citar nomes de países, em que seja aumentado o número de integrantes fixos do mesmo organismo.

Em tal caso, altruisticamente, o presidente trabalharia para que o Brasil fosse um dos novos membros permanentes do CS, que foi quase uma obsessão de sua política externa em 8 anos de mandato.

3. Lula na verdade está de olho nos que algum cargo em organização internacional, quem sabe o de o diretor-geral da FAO, a organização da ONU para agricultura e alimentação, e para isso os votos da África são decisivos.

Recebido por cachorros

Roberto da Matta - O Estado de São Paulo

Acabo de ser saudado por um até logo simpático do oficial de fronteira no moderníssimo Aeroporto Intercontinental George Bush, em Houston, Texas, Estados Unidos, e, depois de andar até a esteira das malas, sou farejado por cachorros.

Eles são limpos, calmos e individualistas como todo cão americano. Estão seguros por funcionários do Home Land Security impecavelmente vestidos. Em toda parte, eles cheiram as nossas malas com os olhos tristes dos bichos amestrados. Sua visão apagou o enorme cansaço de um voo sem nenhuma novidade, exceto o seu rotineiro desconforto.

Correndo, saio do terminal internacional para o doméstico, mas eis que me defronto com algo ainda mais amedrontador. Com uma máquina de raio X, destinada a verificar se o meu corpo, tão humanamente gasto e cansado, é ou não uma arma anti-humana. Já começo a tirar os sapatos em meio a uma fila enorme de gente desconfiada e silenciosa como bois de matadouro, quando vejo essa cabine de vidro com portas que rolam sobre si mesmas, pondo a nu aquilo que estava encoberto por minhas meias, camisa, calça e cueca. Sou ordenado a entrar no tal biombo. Sem sapatos, com as calças querendo cair (pois fui obrigado a tirar o cinto), sem certeira e relógio e com o meu parco dinheiro nas mãos que estico acima de minha cabeça, entro na máquina que, num abraço de alguns segundos, vai me desnudar para além da conta dos olhos humanos. Vejo que cheguei aos Estados Unidos e, imediatamente, me pergunto se ainda vale a pena viajar...

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Volto aos Estados Unidos e à sempre simpática New Orleans para, dentro da pantagruélica programação da Associação Americana de Antropologia, tomar parte num encontro, destinado a discutir o impacto da obra do professor David Maybury-Lewis, o antropólogo de Harvard que foi o primeiro estudiosos dos Xavantes, e que teve um elo profundo com o Brasil, que morreu em dezembro de 2007, na antropologia nacional dos anos 60. Fui o seu primeiro orientando brasileiro e quem primeiro fez a ponte Harvard-Museu Nacional quando ele e o igualmente saudoso Roberto Cardoso de Oliveira fundaram, com recursos da Fundação Ford, o Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional no final do anos 60. Coisa tão frágil naquele época de truculências políticas, que suas iniciais - PPGAS - levava a imaginar um pequeno teco-teco sobrevoando com valentia os turbulentos céus brasileiros quando o nosso país estava dilacerado pelo autoritarismo dos governos militares.

Esta sessão congregou um punhado de alunos antigos e jovens. Interessante notar o que raramente fazemos no Brasil: a homenagem cujo ponto de partida são as ideias do professor que os discípulos levam diante, esticando-as e criticando-as no sentido de mostrar como ele poderia ter ido mais longe com elas. Mas sem deixar de citar a obra a qual, pela ética acadêmica, é um dever e uma questão de honra. No Brasil, o sujeito usa descaradamente a mesma ideia, deixando de citar sua fonte de inspiração, de modo que o trabalho do seu professor torna-se uma herança maldita e o seu autor um hóspede não convidado, já que é mencionado a contragosto e não com o orgulho que, afinal de contas, deve ser o ponto central do nosso reconhecimento pela pessoa que os inspirou e ensinou.

Essa homenagem se associou a outras e eu cito a que foi feita ao meu querido amigo Conrado Kottak, que deu contribuições importantes na antropologia da globalização, no estudo da cultura de Madagascar, na pesquisa da televisão no Brasil (um livro a ser traduzido em português); e numa hoje memoriável pesquisa da vida social de Arembepe na Bahia; e no ensino da Antropologia Cultural, já que ele é o autor do melhor texto dessa área.

Neste encontro, seus ex-alunos o homenagearam mostrando como suas ideias inspiraram novos trabalhos e como sua vida foi central para que eles ali estivessem dando de volta aquilo que é irremissível em toda relação com qualquer figura paterna ou materna.

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Na minha fala, recordei o impacto de Maybury-Lewis, de Roberto Cardoso focando menos o seu lado técnico (de grandes fundadores de uma instituição de pesquisa fundamental), mas chamando atenção para a sua dimensão humana. A do encontro de dois líderes; a da capacidade de se deixarem marcar um pelo outro; a da disposição de compartilhar com os alunos os seus projetos intelectuais e de, juntos, concretizarem um trabalho voltado para o estudo e a pesquisa, sem colocar a instituição a serviço da velha e gasta politiquinha brasileira. Se não fosse por isso, este programa do Museu Nacional não seria hoje um dos mais importantes e criativos de todo o mundo.

Como foi prazeroso reconhecer e testemunhar como as nossas vidas se fazem por meio de outras vidas e essas, por meio das nossas. Quantos não são tocados por nós no curso de nossa trajetória; e que privilégio enorme foi poder testemunhar vivamente que, sem aquela pessoa - sem esses maravilhosos professores e amigos -, eu não estaria aqui contando esta história. O mundo, apesar de tudo, é bom.

As voltas que o tempo dá

Carlos Brickmann

Já lá se passam mais de 200 anos. Quando a Corte portuguesa desembarcou no Rio, em 1808, foi recebida com festas e homenagens, procissões, fogos, salvas de canhão. Filas de pessoas humildes formavam-se para beijar a mão de Sua Majestade, o rei D. João 6º; e aquele famoso cordão que cada vez aumenta mais também entrava na fila, para desfrutar ainda mais a proximidade do Poder.

O povo passou muito tempo entusiasmado com o rei - simpático, bonachão, tipo pai de todos. Mas ele e seus inúmeros companheiros custavam caro: sua Corte mantinha dez ou quinze vezes mais gente que toda a máquina burocrática dos Estados Unidos. Um padre recebia bom salário só para confessar a rainha. Comiam muito, os cortesãos - comiam, por exemplo, toda a produção de galinhas e ovos do Rio de Janeiro (e o que não comiam, vendiam no mercado negro).

O custo era tamanho que, para financiar-se, a Corte obrigou os cidadãos mais ricos a comprar cotas do Banco do Brasil (e, em poucos anos, quebrou o banco). Outros doavam dinheiro em troca de títulos de nobreza. No pouco tempo que passou no país, D. João 6º deu mais títulos à companheirada do que haviam sido criados em Portugal em 500 anos. Criou-se também o hábito de fraudar concorrências e receber comissões (na época, 17%). Os gatunos se deram bem: um deles, barão, foi promovido a visconde. Surgiu uma quadrinha: "Quem furta pouco é ladrão/quem furta muito é barão/quem mais furta e esconde/passa de barão a visconde". D. João, ao voltar a Portugal, deixou raspados os cofres do Brasil.

A fonte da história
A Corte arrecadava, mas os serviços eram péssimos: as estradas, esburacadas, eram um pequeno alargamento das antigas trilhas indígenas, a sujeira nas ruas e nas casas chamava a atenção dos visitantes e nem no Rio, a capital, sede da Corte, havia qualquer tipo de saneamento básico. Importante: todas essas informações foram retiradas do excelente livro 1808, do jornalista Laurentino Gomes.

Devia ser terrível morar num país assim, só pagando a conta dos poderosos!

Imagine
A vida é dura mas a gente se diverte. Imaginar Fernando Henrique e José Serra no estádio, assistindo ao show de Paul McCartney, já seria bom o suficiente. Mas há mais: Índio da Costa, aquele que foi vice de Serra, soube que ambos estavam no espetáculo e se juntou a eles. Imagine a cena: uma noite linda, quente, um espetáculo de primeira linha, um astro internacional no palco, e Fernando Henrique e Serra conseguiram participar de um programa de Índio.

É aqui! É aqui!
O Brasil será a sede da 15ª Conferência Internacional Contra a Corrupção, que deve ocorrer em 2012. Costumam comparecer às reuniões cerca de 1.500 pessoas, entre elas chefes de Estado e de Governo, representando 130 países. A escolha do Brasil (pela primeira vez na História desse pais) é a melhor possível: onde mais colher exemplos abundantes e próximos do que deve ser combatido?

Dúvidas
O leitor Roberto Cáceres pergunta por que os EUA, com maior população e muito mais ricos, têm 435 deputados e dois senadores por Estado (contra 513 deputados brasileiros e três senadores por Estado). Quer saber também se, na opinião deste colunista, haverá reforma política e tributária; e se, com a reforma tributária, teremos menos corrupção e menor sonegação. Vamos às respostas:

1 - Todos os deputados e senadores foram eleitos com a política do jeito que está. Por que irão reformá-la, se como é hoje está boa para eles?

2 - Todos os Estados são favoráveis à reforma tributária, desde que não se mexa no que já recebem e pingue um pouco mais. A conta não fecha.

3 - O deputado Clodovil apresentou projeto reduzindo à metade o número de deputados e determinando dois senadores por Estado. O projeto não recebeu qualquer crítica. Também não andou: está parado em alguma confortável gaveta.

4 - Olhe pela janela, caro leitor. O sr. está vendo renas, lagos, muita gente de bicicleta? Não? É porque não estamos na Suécia. Reduzir sonegação e corrupção é coisa que vai acontecer algum dia, provavelmente num 30 de fevereiro.

Como disse o poeta
A Câmara Federal compra 600 bandeiras de papel, a R$ 1,50 cada. Citemos o verso do grande poeta pernambucano Ascenso Ferreira: "para que? Para nada".

Bom e bonito
Há livros que vale a pena ter por perto; são tão belos que, em certos momentos, até podem mudar o nosso humor. Carnavais do Brasil, da fotógrafa francesa Catherine Krulik, radicada há muito tempo em nosso país, é em cada foto uma obra de arte. Lançamento nesta quinta, 25, a partir das sete da noite, na Livraria da Vila - alameda Lorena, 1.731, SP. O bom texto é de Marli Gonçalves.

Vencer é perder
É fantástica a declaração do Governo do Rio, de que o banditismo nas ruas se deve ao sucesso de sua política de segurança. É como afirmar que a política de contratação de jogadores só é vitoriosa quando o time leva uma goleada em casa.

A brigada do mensalão atira a esmo

Elio Gaspari, O Globo

O principal objetivo político do comissariado petista para o próximo ano é obter no Supremo Tribunal Federal a absolvição dos companheiros da quadrilha do mensalão.

Se for preciso aprovar uma reforma política que institua o financiamento público das campanhas e amaldiçoe o atual sistema eleitoral, isso será feito.

Afinal, obtendo-se a reforma de uma estrutura que se denunciou como podre, pode-se argumentar que as podridões eram inevitáveis.

Segundo as repórteres Vera Rosa e Eugenia Lopes, o comissário José Dirceu disse, ao sair de um café da manhã com Nosso Guia, que, deixando o governo, Lula se dedicará, entre outras coisas a desmontar "a farsa do mensalão".

Como fará isso junto ao plenário do Supremo, não se sabe.

É direito dos réus lutar pelas suas absolvições, mas o comissariado do governo parece estar perdendo a sensibilidade política.

Há uma semana, o líder do PDT na Câmara, deputado Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força, propôs numa reunião do Conselho Político que se aprove a legalização dos bingos. Passam-se uns dias e o Ministério Público de São Paulo revela que o deputado, bem como a poderosa central sindical que presidiu, foram condenados em primeira instância a devolver ao Erário R$ 235 mil malversados, pagando também uma multa de R$ 471 mil.

O litígio não está encerrado e caberá ao Tribunal Regional Federal julgar um recurso do parlamentar.

O comissariado do Planalto estava farto de saber da existência desse processo. Onipotente, achou perfeitamente natural que o incentivo à tavolagem entrasse na discussão no primeiro encontro do Conselho Político.

Início de governo estimula a onipotência, mas exageraram.

Durante a campanha de 2002 e nos primeiros dias inebriantes de 2003, um tipo de megalomania primitiva e desonesta criou o mensalão: "Nós devemos a você, você cobra do Marcos Valério, ele toma dinheiro emprestado, nós vamos para o Planalto, um companheiro vai ao Banco Central, levanta a intervenção em dois bancos e o ervanário aparece." (Esqueceram-se de combinar com o russo Henrique Meirelles).

Há uma forte carga de preconceito quando militantes do sindicalismo dos trabalhadores são nomeados para funções de relevo no governo. Busca-se transformar esse tipo de liderança em estigma. Se o indicado é um representante do sindicalismo patronal, tudo bem. Seu prestígio seria enobrecedor.

A ressurreição da quadrilha do mensalão depende apenas da Justiça e, até certo ponto, da opinião pública.

Um governo que acredita na capacidade de mobilização dos sindicatos e entra em campo gritando "Bingo!" acha que pode tudo, em qualquer lugar, à hora que quiser. Engano. Olhado de dentro, o aparelho sindical pode ser lindo. Visto de fora, nem tanto.

Já se foi o tempo em que a morte de um sindicalista como Chico Mendes relacionava-se com uma causa. Nos últimos três anos foram assassinados pelo menos cinco dirigentes sindicais. Três eram tesoureiros de entidades.

Em outubro mataram um diretor do sindicato dos motoristas de São Paulo, detentor de uma marca dramática: em 18 anos foram assassinados cinco diretores e sete funcionários do SindMotoristas.