Adelson Elias Vasconcellos
Tenho procurado não me manifestar sobre a violência que, mais uma vez, e que vem se tornando uma trágica rotina, atinge o Rio de Janeiro. Se o Rio continua lindo agradeça à natureza, não aos seus governantes.
E se tenho me esquivado de opinar sobre assunto tão triste, não é porque não tenha opinião formada sobre o assunto. É porque este é um momento em que, geralmente, a razão se deixa levar pela emoção, e não podemos, mesmo que conscientemente não o desejemos, cometer erros de análise, julgamentos superficiais e até cometer injustiças tomados pela precipitação. Esta é a hora em que a ação das autoridades deve ficar livre para cumprir com suas obrigações. O que de certa forma, no caso específico do Rio de Janeiro, está sendo feito apenas em parte. Já volto a este ponto.
Antes é preciso colocar alguns pingos nos devidos “is”. Na segunda feira, um sociólogo resolveu dar uma entrevista sobre o tema. Seu pensamento, infelizmente, é uma tônica corrente dentre muitos ditos "especialistas". Melhor que tivesse ficado quieto. Esta entrevista varreu a internet, e deve ter ido ao encontro de muito pensamento torto sobre o que vem a ser um plano de segurança em favor da população.
O nome do moço é Ignacio Cano que diz "que não há uma contabilidade oficial de arrastões". Muito bem, se o rapaz não lê, fazer o quê? Então vamos informá-lo melhor. Até o final da noite desta quarta-feira, 24, era o seguinte o saldo, segundo nos informo o jornal O Globo:
Segundo o serviço de relações públicas da PM, desde domingo, 23 pessoas foram mortas, 47 presas e 112 detidas para averiguações. Dois PMs foram baleados, além das 14 vítimas que estão internadas no Hospital Municipal Getúlio Vargas, na Penha.
Houve a apreensão de 29 armas do tipo pistolas e revólveres; 10 fuzis; duas espingardas calibre 12, uma submetralhadora, cinco granadas e duas bombas caseiras.
Com alguns bandidos presos, a polícia encontrou um coquetel molotov, dois artefatos explosivos, nove litros de gasolina, além de material inflamável.
Ao todo, 37 veículos foram incendiados: dois carros no domingo, oito na segunda e dois na terça. Só [ontem], 18 pessoas foram mortas nas operações policiais, e os bandidos destruíram 15 veículos de passeio, duas vans, sete ônibus e um caminhão.
No Complexo da Penha, dois policiais militares ficaram feridos em confronto com bandidos.
Entre os mortos está uma menina de 14 anos, vítima de bala perdida na favela do Grotão, na Penha. Rosângela Barbosa Alves levou um tiro no peito enquanto usava o computador em casa.
A jovem foi levada para o hospital Getúlio Vargas, na Penha, mas não resistiu aos ferimentos.
Em Brás de Pina, uma mulher foi baleada de raspão da nuca na Rua Suruí.
Espero que o senhor Cano possa agora ficar mais tranquilo. A contabilidade da barbárie está aí. Ocorre que o sociólogo começou a entrevista com esta afirmação “Tenho ressalvas em relação a afirmar que temos uma onda de arrastões. Não há uma contabilidade oficial de arrastões, porque não é um termo técnico na área de segurança, e sim um termo difuso aplicado a um roubo em série”. Se o balanço da PM é o que acima reproduzimos, ele espera o quê para ver aí uma “onda de arrastões”? Como a entrevista é um tanto longa, e o meu propósito não é tratá-la especificamente, mas apenas um adendo para outras colocações, prefiro apenas apontar dois grandes equívocos que ele, a exemplo também das autoridades cariocas vem cometendo. O primeiro é afirmar como o faz, que a nova onda de arrastões (que não reconhece como tal), “...não precisaria desse nível de alarme social que está sendo criado”.
Como? Qual a fórmula mágica que o senhor Cano imagina haver para, diante de tamanha insegurança da população, que sai de casa para trabalhar sem a certeza de que poderá voltar ao final do dia, viva ou morta, porque até o transporte coletivo está afetado, sem ficar alarmada? Como andar com tranquilidade nas ruas, ou no trânsito, diante do cenário que se assiste em cada canto?
Mas o que me chama a atenção é esta frase: “O objetivo das UPPs não é e nem pode ser erradicar o tráfico. Ninguém erradica o tráfico, ele existe na Dinamarca, no Canadá. A questão é conseguir reduzir os níveis da violência e de controle da população por grupos armados. Os moradores agora podem voltar para casa quando quiserem, andar pelos becos, não há confronto armado”.
Bem, o que me parece grave no atual plano de segurança, é que tanto o governador Cabral quanto o secretário de Segurança, Beltrame, consideram mais importante ocupar territórios do que prender bandidos. Ora, qualquer plano de segurança deve ter várias fases para ser executado e, uma delas, não importa qual plano ou qual região em que o mesmo se realize, a violência somente se reduzirá se houver bandido preso. Simples assim? Sem dúvida, do contrário, ao ocupar um território, se o bandido não for preso, e não se imaginando que ele se converta em cidadão honesto da noite para o dia, ele buscará outros territórios onde possa atuar livremente. Esta é a tendência. Ignorar este princípio é vender uma fantasia, que entendo, é o que se passa no Rio de Janeiro. A ideia das UPPs é ótima? Sim, não vou negá-la, porém, somente dará certo se for acompanhada com a prisão, no maior número que puder, dos bandidos soltos e que cometem crimes dos mais variados gêneros. E se imaginarmos que as UPPPs acabem tomando conta do Estado, sem prisões, Cabral estará exportando a criminalidade carioca do Rio de Janeiro para os estados vizinhos. Convenhamos, se politicamente isto até pode lhe render votos políticos em seu estado, de outro, é uma trapaça sem conta, no plano da ação do Estado e seus agentes.
Tanto os responsáveis pela segurança do Rio quanto seu governador devem focar em seus planos, que o objetivo não é somente pacificar territórios ocupados pela bandidagem, e sim, reduzir esta bandidagem a menor expressão possível. Não haverá cem por cento de eliminação, certo? Bandidos há em toda a parte, em maior ou menor grau. Contudo, a tolerância em relação a presença deles deve ser zero, e se não houver aprisionamento do maior número possível de bandidos, jamais se chegará à segurança mínima.
O que me preocupa não são os planos de segurança e, sim, o pensamento com que os mesmo são construídos e idealizados. Prender bandidos que são ameaça ao convívio social jamais deve ser riscado fora de qualquer plano. Sem essa de se achar que a bandidagem pode ser “induzida” ou convertida a mudar de vida, e se tornarem, assim, por pura magia, bons e honestos moços. São escolhas individuais, e quem vive disto, morre disto, a menos que, por decisão de sua própria vontade, abandone a violência como meio de vida. Ocorre que esta “conversão” só ocorre em níveis ínfimos. Portanto, se há pontos programados no atual plano de segurança, sem dúvida, eles devem contemplar a ocupação de áreas hoje dominadas pela bandidagem, mas seu complemento indispensável deve ser colocar os bandidos na cadeia, e no número máximo que se puder.
Para encerrar, há uma questão que também preocupa: o pesado armamento que chega às mãos desta gente. Assistimos todos os dias nos noticiários, dezenas de operações policiais com apreensão de drogas. Muito bem, é isto que deve ser. O Rio não produz coca, assim, ela só chega ali vinda de algum lugar. Mas e as armas de grosso calibre, alguma de uso restrito? Como não se vê operações de apreensão de armas contrabandeadas – o Rio não fabrica estas armas nem a munição – na mesma proporção? Ora, sabemos que há uma incrível facilidade de se adquirir este armamento atravessando a fronteira do Paraguai, em Foz do Iguaçu, por exemplo. Não seria o caso de se intensificar a vigilância na fronteira para que se evite, ao máximo que for possível, que este armamento chegue à bandidagem?
As ações que abalam o Rio de Janeiro nos últimos dias, até pode ser uma reação dos bandidos contra as UPPS de Sérgio Cabral. Porém, elas também sintonizam que seu plano de segurança precisa do complemento indispensável, diria até dois: primeiro, que a ocupação dos “territórios” seja conseguida com o aprisionamento dos bandidos, do contrário, eles se deslocarão para outra área ou para outras favelas sem UPPs ou para o asfalto, como se vê agora. E de outro, e aí, em sintonia com o governo federal, com a intensificação do combate ao contrabando de armas, impedindo que a bandidagem tenha acesso livre a elas.
Sem tais complementos, lamento informar: as ondas de violência que, vez por outra, sacodem e abalam a população carioca, se repetirão ininterruptamente. As autoridades precisam mudar o sentimento de “pacificação” para tolerância zero. Com bandidos não pode haver condescendência nem negociação. Simples assim.
E a propósito: quando o governo federal terá concluída as prisões de segurança máxima, prometidas lá atrás para serem entregues em prazo recorde, e das cinco programadas, apenas foram concluídas duas?
Deixo claro que não sou contra as UPPPs, de maneira alguma: só acho que falta a elas algo trivial para o sucesso de qualquer plano que tenha por objetivo restabelecer e garantir a segurança pública: prender os bandidos. E é fundamental que o contrabando de armas e munições que dão a força à bandidagem seja combatido e contido a qualquer preço, como bem lembrou o Arnaldo Jabor (clique aqui) no mesmo Jornal da Globo.
Sem isso, estaremos apenas transferindo a violência de um lugar para outro.


