quinta-feira, novembro 25, 2010

Miriam Belchior e Tombini: estreantes com perfis opostos

Marina Dias e Gabriel Castro, Veja online

Nova ministra do Planejamento e indicado para comandar Banco Central enfrentaram primeiro teste diante dos holofotes

A sucessora de Paulo Bernardo não escondia a alegria em ter sido nomeada para o primeiro escalão do governo. Já o economista demonstrava nervosismo e insegurança em seu pronunciamento. Mantega era o mais sereno dos três

A nova ministra do Planejamento, Miriam Belchior, e o futuro presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, demonstraram ter perfis opostos na primeira vez em que estiveram sob os holofotes da imprensa. No anúncio oficial da equipe econômica da presidente eleita, Dilma Rousseff, nesta quarta-feira, em Brasília, a sucessora de Paulo Bernardo não escondeu a alegria em ter sido nomeada para o primeiro escalão do governo. Já o economista demonstrou nervosismo em seu pronunciamento.
Miriam foi clara e objetiva em seu discurso, destacando a necessidade de estabelecer metas específicas em sua gestão. Essa característica foi uma das mais valorizadas por Dilma Rousseff na hora de escolher a ex-companheira de Casa Civil para o posto. A ex-gerente do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) disse que já traçou três eixos prioritários para os próximos quatro anos: o planejamento das ações de governo, a melhoria da qualidade dos gastos públicos e da gestão pública para dar mais eficiência ao governo.

A nova ministra admitiu que levará consigo o PAC, que, atualmente é comandado pela Casa Civil, para o Ministério do Planejamento. As ações sociais e de infraestrutura, disse, serão prioridades do governo. "Vamos canalizar os recursos disponíveis para a erradicação da miséria, a educação e saúde de qualidade, a segurança pública e a infraestrutura, com foco nos resultados".

BC – Servidor público de carreira e há cinco anos no BC, Alexandre Tombini foi o último a falar. As mãos trêmulas e inquietas denunciavam que sentiu o peso da responsabilidade. Atual diretor de Normas do BC, garantiu que recebeu da presidente eleita autonomia para trabalhar, mas estava nervoso ao falar sobre os próximos objetivos. "Tive longas e muito boas conversas com a presidente eleita Dilma Rousseff e ela disse que nesse regime não há meia-autonomia. É autonomia operacional total. Ela espera o Banco Central perseguindo o objetivo definido pelo governo, que é a meta de inflação de 4,5%".

Ao mesmo tempo, fez uma ressalva: "Não é autonomia de objetivo. O objetivo quem define é a sociedade, o governo". Tenso, o sucessor de Henrique Meirelles abusou do linguajar técnico. A cada pergunta, repetia que sua nomeação ainda dependia do aval do Senado. E foi evasivo quando confrontado com perguntas de jornalistas. Evitou dar respostas concretas sobre a taxa de juros e a composição de sua equipe.

Discurso calculado – Já Guido Mantega, que vai participar do terceiro governo seguido, era o mais sereno. Mascava chicletes e aparentava tranquilidade enquanto conversava,entre risos, com José Eduardo Cardozo, um dos coordenadores da transição. Preocupou-se em dar sinais positivos em um momento em que as incertezas sobre a política econômica do governo Dilma causam turbulência nos mercados. Mas falou o que quis: não respondeu se ficará por mais quatro anos no cargo e recusou-se a dar detalhes sobre a permanência de Otacílio Cartaxo à frente da Receita Federal.

Em seu discurso, Mantega preocupou-se em passar um recado ao mercado financeiro: destacou que a meta do próximo governo será igualar ou superar a média de crescimento de 5% ao ano do governo Lula e prometeu trabalhar para reduzir o gasto público. Prometeu reduzir a dívida pública de 41% para 30% do Produto Interno Bruto (PIB) e fez um apelo ao Congresso: pregou contra medidas que possam aumentar os gastos do governo. Citou especificamente a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 300, que cria um piso nacional para policiais militares e bombeiros, o aumento do salário mínimo acima de 540 reais para 2011 e um novo reajuste para aposentados que recebem mais de dois salários mínimos.

Faltou Dilma – A presidente eleita decidiu não participar do anúncio da equipe econômica de seu futuro governo. Dilma preferiu se reunir com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Palácio da Alvorada, em Brasília, antes de soltar a nota oficial com os nomes de Guido Mantega, Miriam Belchior e Alexandre Tombini.

Durante o almoço na residência oficial da Presidência, Lula e Dilma conversaram também com o vice-presidente eleito, Michel Temer (PMDB), e com Antonio Palocci, um dos coordenadores da transição. Enquanto eles estavam reunidos, a assessoria de imprensa de Dilma Rousseff divulgou, pouco antes das 15h, a nota oficial com os nomes dos integrantes da equipe. Às 16h15, os três indicados aos novos cargos participaram de uma coletiva no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), onde funciona a sede da equipe de transição.

Ficou para o deputado José Eduardo Cardozo, principal nome cotado para assumir o Ministério da Justiça, a função de representar Dilma no anúncio da nova equipe econômica. Pessoas próximas à presidente eleita disseram que foi escolha dela não comparecer ao CCBB.