sábado, outubro 20, 2007

Que os sindicalistas se modernizem ... trabalhando

Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia

Sempre disse que sindicalista brasileiro é, no fundo, um gigolô de trabalhadores. O tal imposto sindical que extorquem não é uma escolha gentil. É uma imposição do tempo da ditadura Vargas. Num país livre, tal achaque não se consente. O trabalhador é livre para se filiar ao sindicato que quiser e, assim, fruto de sua escolha livre e soberana, contribuir para o fortalecimento do sindicato escolhido.

No Brasil, onde direitos de escolha normalmente não são respeitados, esta escolha não existe. Você é obrigado porque é obrigado. Ponto final.

Interessante é que os pelegos brasileiros sempre adotaram um discurso diferente. Sempre defenderam que a tal contribuição deixasse de ser obrigatória. Apenas um detalhe: agora a contribuição deixou de ser obrigatória a partir da lei aprovada na Câmara de Deputados, onde o que não faltam são ilustres representantes da “catiguria”. E reparem ainda: a aprovação da lei, onde se embute a não obrigação da filiação, afora o exercício de escolha quanto a pagar ou não a contribuição, foi aprovada por ampla maioria.

Mas como eles agora têm o poder, já que montaram uma parceria pública privada com o governo do PT, o discurso mudou. Ao invés de saírem às ruas e, de porta em porta, tratarem de arrebanharem para os sindicatos os tais filiados, as bundas gordas e preguiçosas se negam a trabalhar. Querem que a obrigatoriedade seja mantida, através da qual se sustentam na complacente ociosidade de décadas de vagabundismo e demagogia delirante.

Na categoria de gigolôs, o que não faltam no Brasil, são seguidores. Na atividade de trabalho digamos assim, formal, os sindicatos sempre se alimentaram desta indecente, absurda e imoral obrigatoriedade do imposto cobrado de uma filiação obrigatória. Imaginem vocês que o país, de repente, adotasse um imposto eleitoral a todos os eleitores pelo simples fato deles serem, por obrigação imposta em lei, eleitores. E entregasse este imposto eleitoral aos partidos políticos. Vocês acham isto um absurdo, não é mesmo ? Pois saibam, o tal imposto sindical é exatamente isto: pelo fato de você ser trabalhador com carteira assinada, é obrigado a contribuir para sindicatos que você sequer sabe quem são, cujos dirigentes jamais o procuraram para saber suas opiniões sobre seu salário e condições laborais. Pode até ser legal, porém não deixa de ser imoral e não esconde que a lei, forjada na ditadura sempre é bom lembrar, jamais foi votada pelo Congresso livre e soberano para decidir.

Portanto, nos próximos dias vamos assistir uma sucessão de pressões e discursos canalhas tentando convencer a sociedade de que o fim da era ditatorial do imposto sindical é um absurdo, e claro forçar o presidente a vetar esta parte da lei. Porém, saibam os pelegos: se o que se deseja é um país livre, ao cidadão é dado o direito de decidir se deseja ser ou não sindicalizado, e assim, consentir ou não em manter a mamata de gente que vive das tetas gordas da contribuição imposta. Está na hora desta gente começar a ser competente, e para tanto, começar a trabalhar como sindicalistas, e não como gigolôs ancorados nas portas das fábricas, só recolhendo o michê de um dia de trabalho dos verdadeiros trabalhadores.

Che aos 40

Demétrio Magnoli (*), Estadão

Há uma década, nos 30 anos da morte de Ernesto Che Guevara, Fidel Castro promoveu a exumação de seus supostos restos mortais na Bolívia, e um novo enterro, num mausoléu na cidade cubana de Santa Clara. De fato, a ossada talvez não pertença a Che Guevara, mas isso importa tanto quanto a veracidade dos milagres atribuídos aos santos: afinal, o revolucionário argentino asmático habita o universo dos mitos.

O mito é uma narrativa isenta das máculas da história. Os biógrafos de Che investigaram o homem que existe atrás do mito - e desvendaram uma figura destituída de empatia humana, um dogmático rude e um fanático incorrigível, que declarou certa vez: "Não posso ser amigo de ninguém que não compartilhe minhas idéias." Nos cinco meses de 1959 em que comandou a prisão de La Cabaña, Che supervisionou centenas de execuções sumárias, baseadas em meras afirmações dos oficiais de acusação, e justificou esses procedimentos pela proclamação: "Isto é uma revolução, as provas são secundárias." Nada disso arranhou o mito ou amenizou o culto à imagem eternizada na célebre fotografia de Alberto Korda, que adorna pôsteres, camisetas e até o biquíni de uma modelo.

Che fracassou como líder revolucionário, não uma, mas duas vezes, e não porque a realidade lhe pregasse peças imprevisíveis, mas unicamente em razão de sua incapacidade de separá-la das fantasias erigidas por seu dogmatismo. No Congo, envolveu-se com as forças de Laurent-Désiré Kabila, o senhor da guerra que tomou inicialmente por chefe de uma revolução. Na Bolívia, um país com tradições revolucionárias ligadas aos operários das minas de estanho, imaginou deflagrar um "novo Vietnã" por meio de sua guerrilha na selva. Mas o mito resiste a tudo isso, pois seu núcleo emotivo se organiza em torno da idéia de martírio.

Na narrativa mítica, Che emerge como exemplo de revolucionário humanista e profeta do hombre nuevo, ao qual dedicou um ensaio, escrito em 1965. Na mesma época, em sua passagem como ministro da Indústria de Cuba, ele evidenciou, talvez mais ainda que nas aventuras no Congo e na Bolívia, um arrogante desprezo pelas expectativas das pessoas comuns, advogando a militarização da economia e das relações de trabalho. A estatização até mesmo de pequenas lojas e propriedades rurais familiares é a herança desastrosa que deixou para os cubanos. Esse fardo é amenizado apenas pelo "sociolismo", termo local para o peculiar sistema de favores recíprocos e pequenos furtos cotidianos que propicia acesso a bens indispensáveis, cuja irradiação não seria possível sem o voluntário "desaparecimento" de Che.

O hombre nuevo de Che era a sua própria imagem refletida no espelho: o revolucionário inflexível, movido unicamente pelo imperativo moral, imune a incentivos materiais. Pol Pot, o sanguinário ditador do Camboja, massacrou entre 1 milhão e 2 milhões de compatriotas no curso de uma campanha para a criação do "homem novo". Che, para sorte dos cubanos, não teve a oportunidade de pôr em prática as suas idéias "humanistas". Contudo, persistentemente, o mito sobrevive intacto à história. Mesmo Jorge G. Castañeda, autor de uma lúcida e rigorosa biografia do guerrilheiro, pendura uma frase laudatória na qual aponta Che como a personificação do "mais profundo significado" do "fervente idealismo" da geração de 1968 - algo que colide com cada linha de sua obra.

Um mito não é uma mentira, mas uma narrativa que condensa uma visão de mundo e de futuro. O mito de Che faz parte de um estágio adiantado da degeneração do pensamento comunista, no qual se reinterpreta perversamente, uma vez mais, o prognóstico do Manifesto Comunista segundo o qual "a libertação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores". A missão libertadora, que em Lenin havia sido delegada a um partido e, com Stalin, a um Estado, tornava-se apanágio de um grupo de revolucionários exemplares, "homens novos" precursores, que deviam servir de modelo à plebe inerte dos homens comuns. Nesse estágio, a polis, fonte da política, deixa a cena e dá lugar ao herói, que a todos salvará com seu sacrifício. A celebração da figura de Che equivale a uma condenação geral da política.

Romântico e reacionário, o mito de Che nasce no solo contaminado pela monstruosidade do "socialismo real" da União Soviética, quando feneciam as grandes esperanças depositadas na classe operária, na luta de classes e nos partidos de massas. Mas esse mito só se difundiu tão amplamente porque desempenhou funções úteis para diferentes atores políticos. Na Cuba de Fidel Castro, que mimetizou o socialismo soviético e se subordinou à geopolítica de Moscou, o culto de Che cumpriu papéis de domesticação social ("seremos como o Che", repetem compulsoriamente as crianças nas escolas) e serviu para avivar a influência de Havana entre as correntes de esquerda latino-americanas desencantadas com a URSS. Nessas correntes, funcionou como justificativa teórica da "fuga para a frente", rumo às aventuras guerrilheiras que deixaram um saldo humano trágico, mas permitiram circundar o impasse intelectual representado pela falência, então já evidente, dos partidos comunistas oficiais.

O mito é negação da história, mas os mitos têm sua própria história. Gary Prado, um dos antigos oficiais bolivianos envolvidos na captura de Che, acredita que a adoração do guerrilheiro caído "tornou-se uma fábula, um negócio, apenas um show". Ele repete o senso comum, que está errado. Depois da queda do Muro de Berlim e do fim da URSS, o culto de Che passou a servir, paradoxalmente, como referência de um socialismo livre das manchas indeléveis deixadas pelo totalitarismo stalinista e, também, de um projeto distinto daquele implantado em Cuba, que perdeu quase todo o antigo brilho aparente. A vantagem insuperável do homem que morreu na Bolívia, há 40 anos, é precisamente a circunstância de não ter sobrevivido.
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(*) Demétrio Magnoli é sociólogo e doutor em Geografia Humana pela USP.

PF investiga compra da Record pelo bispo Edir Macedo

Folha de S. Paulo

A Polícia Federal abriu inquérito, em São Paulo, para investigar o bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus. O objetivo do inquérito, segundo informação do sistema de consulta da Justiça Federal, é apurar supostos indícios de crimes contra a fé pública e de falsidade ideológica. A investigação teve início no Dia 4 e tem prazo de 90 dias, prorrogável, para conclusão.

O departamento jurídico da Igreja Universal do Reino de Deus disse que soube do inquérito pelo site da Justiça Federal na internet, mas que a entidade não foi notificada, não teve ainda acesso aos autos e desconhece o motivo da investigação.O inquérito, segundo apurou a Folha, nasceu de representação feita, em 2005, pelo ex-deputado estadual Afanásio Jazadji, que reabre a discussão sobre a origem dos recursos usados por Edir Macedo na compra da Rede Record.

O ex-deputado entregou ao Ministério Público Federal cópia da declaração que Macedo assinou ao sair do Brasil, de mudança para os Estados Unidos, em 2003, na qual afirmou que teve rendimento tributável de apenas R$ 8.289,60 em 2002, quando já era acionista controlador da Record.

Jazadji juntou à representação cópia de declaração do advogado da Iurd Rodrigo Pereira Adriano, de um processo existente na 39ª Vara Cível de São Paulo, em que afirma que o bispo Macedo não tem ""vínculo jurídico ou estatutário" com a Igreja Universal", e que tampouco faz parte da direção da entidade no Brasil.

Com base nos dois documentos, Jazadji acusou o líder da Universal de se apropriar de recursos da igreja para construir patrimônio pessoal em empresas de mídia.

Macedo e a mulher, Ester, são os únicos proprietários da Record de São Paulo. A emissora é a cabeça de rede da Record e também figura como acionista minoritária de várias outras emissoras do grupo.

A acusação é de que o bispo teria se apropriado de patrimônio (as emissoras de rádio e de TV) construído com recursos doados por fiéis, supostamente para causas religiosas e assistenciais.

Em entrevista à Folha, publicada no sábado, o bispo Macedo disse que a Iurd é apenas cliente da Record (aluga espaço na programação na madrugada) e que a igreja paga à Record e esta paga impostos ao governo. No entanto, esquivou-se de dizer quanto a Iurd investe na emissora e de como pagou pela compra da Record.
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*** COMENTANDO A NOTÍCIA: Chega a ser estarrecedora a omissão que se pratica no país em relação a tal Igreja do Bispo (auto-proclamado) Edir Macedo. O que se presencia em seus “cultos” é o mais descarado charlatanismo de quem se tem noticia neste país. A forma como se portam seus tantos bispos, ministros e pastores para arrecadar o tal dízimo da população brasileira é um acinte. Porém, poucas vezes o distinto foi incomodado pela Lei. E, fruto deste “culto”, foi montada uma rede imperial de comunicações, afora o restante do patrimônio. Talvez a Polícia Federal acabe realmente remexendo nos intestinos desta organização, o que eu particularmente não acredito que tenha a devida coragem de fazê-lo. Vamos ver.

A verdade é que Edir Macedo ficou nacionalmente conhecido no dia em que, em cadeia nacional em sua rede imperial, chutou literalmente uma imagem de uma santa católica, devidamente acompanhado de um discurso delinqüente e total desrespeito aos dogmas de uma outra religião. Intolerância religiosa já era crime, mas nem assim, o venerando foi incomodado.

Mas o exemplo frutificou. Na Folha online segue a notícia abaixo de que, outro bispo da mesma seita, está sendo investigado pelo roubo e queima de duas imagens que inclusive pertenceriam ao Patrimônio Histórico e Artístico. E aqui vale registrar o que o Reinaldo Azevedo registrou com propriedade sobre esta questão:

“(...) As pessoas são livres até para se deixar enganar; até para acreditar em milagreiros picaretas; até para se deixar roubar. O que não pode é o estado, aí sim, fazer de conta que coisas como essas não acontecem e conceder emissoras de TV a quem adota essas práticas. Aí não (...)”.

De minha parte, sempre dei às costas para “religiões mercantilistas” da fé. Sou cristão por convicção pessoal, e para mim a pureza do credo religioso se encerra nos ensinamentos de Cristo. Dentre tantos, ele também condenava tais práticas de “comercialização”. “A Cezar o que é de Cezar, a Deus o que é de Deus”.

Porém, cada indivíduo tem o sagrado direito de escolher no que acreditar. Porém, mesmo num estado que se diz laico, a picaretagem religiosa deve ser condenada, dado que ela comete crimes que não se circunscreve aos seus “dogmas”, e sim ao Código Penal. E neste caso, o que o Estado deve defender é o cidadão até de si mesmo, se for o caso. Inadmissível, portanto, tanto o charlatanismo, como a intolerância religiosa. E, em ambos os casos, a igreja do senhor Edir nada tem de santa. Até pelo contrário.
Abaixo, o exemplo "frutificado" de Edir, no noticiário da Folha.

Um pastor da Igreja Universal do Reino de Deus é suspeito de ter furtado e queimado, em São Borja (RS), duas peças religiosas cadastradas no Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).

O Ministério Público do Rio Grande do Sul e a Polícia Federal investigam o caso. O pastor Fábio Pereira nega o crime.

Segundo o promotor Érico Fernando Barin, as duas imagens (de São Pedro e do Senhor Morto) faziam parte do acervo da família Chagas, tradicional na cidade. Eram esculturas talhadas em madeira com vestígios de policromia, com autoria desconhecida, do século 17 ou 18, da história missioneira.

A descoberta do sumiço foi feita, segundo Barin, quando a família decidiu, após a morte de um dos membros, doar várias obras a um museu da cidade. Duas delas não estavam mais na casa.

O familiar morreu no dia 30 de julho. De acordo com o promotor, o pastor visitava o doente constantemente. "O sumiço só foi notado quando começou a ser feito o inventário. A família ligou os dois fatos, pois o pastor andava freqüentando a casa e até dizendo que os males do familiar tinha relação com a presença das peças."

Segundo ele, há a suspeita de o pastor ter queimado as imagens durante um culto. Um mandado de busca e apreensão foi cumprido na casa dele, mas as peças não foram encontradas. "Havia apenas restos, que podem ser de uma das imagens", diz Barin.

O processo corre na 3ª Vara Cível de São Borja. Pereira já contestou a ação. Segundo Barin, ele disse que o Ministério Público não tinha legitimidade para julgar o caso e afirmou que não havia prova incontestável de que as peças eram as mesmas da família Chagas. Afirmou também que, mesmo que fossem, poderia ter havido uma doação lícita.

A reportagem não conseguiu falar com Pereira nem com seu advogado hoje. Também não localizou ninguém da Igreja Universal do Reino de Deus.

O pastor da Universal deverá responder por furto e dano ao patrimônio histórico.

Duas vergonhas do Ministério Público em Goiás

Reinaldo Azevedo

Leia o que vai no site Última Instância. Volto depois:

O MPF (Ministério Público Federal) em Goiás ajuizou ação civil pública, com pedido de liminar, contra a Faculdade Alfa (Faculdade Alves Faria), Marconi Perillo (senador da República), Valéria Perillo e a União Federal por concessão de tratamento privilegiado a agente político.

De acordo com a procuradora da República Mariane Guimarães de Mello Oliveira, a Faculdade Alfa, localizada em Goiânia, sob a justificativa de atender necessidades especiais de Marconi Perillo, montou uma turma especial no curso de direito com apenas dois alunos: o senador e sua esposa, Valéria Perillo.Para tanto, a instituição de ensino superior organizou sua estrutura física e seus professores, com sala de aula exclusiva, apartada do convívio com os demais estudantes. A nova turma conta com horários de aula especiais, exclusivamente às segundas, sextas e sábados pela manhã, para atender a conveniência do senador e sua esposa, conferindo-lhes condições privilegiadas de acesso às aulas.

Para o MPF o fato viola os princípios da isonomia e da generalidade na prestação de serviços públicos, configura tratamento seletivo e privilegiado sem previsão constitucional ou legal e viola as diretrizes e bases da educação nacional, previstas na Constituição da República e na Lei 9.394/96.

O MPF pediu a concessão de liminar, para determinar à Alfa que encerre imediatamente a turma especial do curso de direito criada para abrigar Marconi Perillo e Valéria Perillo, transferindo-os para salas de aula comuns.Alternativamente pediu que a Faculdade providencie a abertura da turma especial para os demais alunos, de forma a completar o número de estudantes usualmente admitidos em uma sala de aula normal.

O MPF pediu também, que a Alfa, Marconi Perillo e Valéria Perillo sejam condenados a pagar indenização, a ser revertida para os alunos daquela faculdade, em valor a ser oportunamente calculado, com base no custo de manutenção da sala de aula especial, durante o período em que foi mantida às custas das mensalidades pagas pelos demais estudantes.

A ação foi distribuída para a 9ª Vara Federal de Goiânia.

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Começo reproduzindo a informação que esta num site oficial:

Faculdade Alfa:
Organização Acadêmica: Faculdade
Categoria Administrativa: Privada - Particular em Sentido Estrito
(www.educacaosuperior.inep.gov)

Agora leiam o que foi publicado aqui no dia 20 de agosto (em agosto):

Há coisas que parecem corriqueiras, irrelevantes, mas que são muito importantes, Leia o que segue. Volto em seguida:

Por Felipe Bächtold, da Agência Folha:

Assentados da reforma agrária e trabalhadores rurais vão ter um curso de direito exclusivo na Universidade Federal de Goiás a partir desta semana. Sessenta alunos vão iniciar amanhã a graduação, que será instalada em um campus na cidade de Goiás.

Um dos articuladores do projeto, o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) considera o curso uma oportunidade para qualificar seus integrantes --39 alunos pertencem ao grupo, segundo a coordenação do movimento.O vestibular para o curso teve mais de 600 inscrições. Os alunos precisaram comprovar que viviam em assentamentos da reforma agrária ou em terras destinadas à agricultura familiar.

A iniciativa, que é inédita na área de direito no país, segundo a universidade, vai ser financiada por meio de um acordo com o Ministério do Desenvolvimento Agrário. O ministério vai repassar a maior parte dos cerca de R$ 180 mil anuais que vão cobrir os custos da graduação.

O curso superior terá duração de cinco anos e estrutura de uma graduação comum de direito. As disciplinas optativas, porém, terão foco em ambiente e questões voltadas ao direito agrário, segundo a coordenação da faculdade.De acordo com o MST, um dos objetivos do curso é fortalecer o movimento com novos advogados para "não depender de outras pessoas". "A idéia [de criação do curso] foi justamente para formar nossos próprios advogados", diz José dos Santos, da coordenação estadual do MST.

A aula inaugural será dada amanhã pelo ministro do STF (Superior Tribunal Federal) Eros Grau. A Universidade Federal de Goiás já conta com um curso de pedagogia também voltado para assentados. A graduação tem 80 alunos e iniciou as atividades em fevereiro.

No ano passado, o Ministério Público Federal em Goiás abriu um inquérito para apurar a regularidade dos cursos dirigidos a trabalhadores rurais. A peça foi arquivada porque a Procuradoria concluiu, após audiências públicas com entidades como OAB e Incra, que o projeto era uma ação afirmativa voltada a um grupo "marginalizado" --e não a criação de um privilégio.

Em julho, um curso superior a distância de administração da Universidade Federal de Santa Catarina foi suspenso pela Justiça por destinar vagas apenas para funcionários públicos.

Voltei
Viram só? Imaginem se uma instituição federal, com recursos públicos, desse um curso exclusivamente para proprietários rurais ligados à UDR. Seria um deus-nos-acuda. A “direita”, como eles gostam de dizer, nunca chegaria tão longe. E nem eu estou defendendo que isso aconteça. É claro que se trata de um absurdo. O que o MST está fazendo é formando quadros com dinheiro público — como se, ademais, o movimento já não fosse isto mesmo: uma organização política financiada com recursos do Orçamento.

Por isso, jamais leve a sério qualquer notícia que dê conta do descontentamento do MST com o PT e o governo Lula. Podem divergir aqui e ali, na tática. Mas são expressões do mesmo assalto ao estado patrocinado pela esquerda cartorial brasileira.

Comento
Perguntem quantas ações o Ministério Público Federal ajuizou contra a Universidade Federal de Goiás ou contra o Ministério da Educação? Nenhuma! Vocês entenderam direito. Estamos falando do mesmo Ministério Público e da mesma praça.

Então ficamos assim: se uma faculdade privada decide montar uma turma, ainda que para dois alunos, o que não fere o direito de ninguém — afinal, será sempre um acordo entre entes privados —, o MP considera que isso fere, sei lá, o direito coletivo. Já se uma universidade pública decide mobilizar recursos que são de todos os brasileiros para privilegiar uma categoria, instaura-se o silêncio.Pode parecer uma questiúncula apenas regional. Não é. Estamos falando de um dos braços do estado — e o Brasil vive sob o estado de direito — que promove o que é uma óbvia perseguição política.

Tanto a ação contra Perillo como o silêncio no que diz respeito ao MST cobrem de vergonha o Ministério Público.

O Estadão também noticia o caso (clique aqui). Traz um dado importante: o curso foi autorizado pelo Ministério da Educação.

Não precisamos de novos heróis

Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia

Acredito que o Ministério da Educação deve agir com extrema firmeza, muito embora, a considerar os eventos já marcados, esteja duvidando que este governo tenha coragem para dizer “não” ao aliado que adora se intrometer na vida política dos países vizinhos, inclusive adora, mesmo em território estrangeiro, agredir e não respeitar as instituições. Em reportagem de Felipe Seligman, Folha de São Paulo, que publicaremos a seguir, informa que o ditador venezuelano Hugo Chavez vai distribuir em escolas brasileiras, um livro que a Odebrechet precisou financiar como pedágio à sua atuação no país, sobre a biografia de Simon Bolívar, um dos artífices da independência de vários países sul-americanos, dentre eles a Venezuela.

A verdade é a seguinte: Bolívar consta em nossos livros de história, é apontado como herói libertador. Feito o registro, que mais Chavez quer ? Que adotemos Bolívar também como herói brasileiro? Impossível, senhor Chavez, Bolívar jamais pisou em nosso território, jamais levantou um dedo pela nossa independência, jamais esboçou um gesto fraternal em favor do Brasil. Portanto, se nada fez, afora o registro de seus feitos no plano continental e que já é feito com inteira justiça, nada mais há para acrescentar.

Já disse aqui inúmeras vezes que a tentativa de Lula em sua política externa de querer nos obrigar a ir além das parcerias que temos com os demais países do continente, não se justificam. Ninguém pode forçar uma integração cultural que nunca houve. O Brasil sempre foi muito mais europeu do que latino. Nossa história está intrinsecamente ligado à Europa. Os demais países latinos sempre nos olharam com desprezo, sempre nos acharam macaquitos, sempre nos tripudiaram. Querem o que agora que nos tornamos os gigantes do continente, que nos tornemos sócios ? Sócios em plano comercial sim, mas sem subjugação como esta a querer tanto Lula nesta política caolha de “integração”, quanto seus parceiros do Foro de São Paulo.

Jamais o Brasil destratou os hermanos latinos. Sempre os acolhemos de modo fraternal do mesmo modo como sempre o fizemos com o restante do mundo. Porém, que se fique por aí. Importar heróis estrangeiros a troco do quê ? E para quê? Para que assim possamos deglutir as ideologias imundas e vagabundas que alienam os cidadãos livres ? Para que possamos consentir em sermos teleguiados por culturas totalmente estranhas à nossa própria história ? E que parceiros hediondos são esses que expropriam propriedades públicas e privadas nossas, que sequer respeitam contratos comerciais ?

Nossas crianças precisam primeiro, aprender a lerem e fazer as quatro operações básicas de matemática, que parece ser um missão “difícil” de se conseguir com a atual política e qualidade de ensino. Segundo, precisam freqüentar escolas decentes e aparelhadas. Terceiro, precisam conhecer e respeitar nossos próprios heróis.

Dispensamos a importação de gente estranha à nossa cultura, ainda mais quando esta importação esconde os reais motivos de subjugação de um povo com cultura e histórias próprias. Se este governo que aí está tem por meta a construção de um país livre e soberano, deve imediatamente dispensar a “cortesia” do vizinho por inoportuna e inadequada.

Interessante é que 24 horas depois da divulgação da matéria a mídia mantenha um estranho silêncio sobre a cretinice. Aliás, nada surpreende num país em que o governo do senhor Lula adota Carlos Lamarca como herói nacional, inclusive concedendo-lhe, a revelia das Forças Armadas, promoção pos-mortem de um conhecido e frio assassino além de desertor.

Segue na íntegra a reportagem da Folha de São Paulo.

A Venezuela planeja distribuir neste ano, a escolas públicas de São Paulo e outros quatro Estados brasileiros, uma coletânea com cem textos escritos por Simón Bolívar entre 1805 e 1830. O Distrito Federal também receberá os livros, cuja primeira tiragem é patrocinada pela construtora Odebrecht.

As idéias de Bolívar, herói da independência da América hispânica, servem de inspiração para o atual presidente venezuelano, Hugo Chávez, que se esforça para ser reconhecido como líder da América do Sul.

O lançamento da versão em português do livro "Simón Bolívar - o Libertador" acontecerá no próximo dia 30 de outubro, no Museu Nacional de Brasília. Lá devem estar presentes diretores das 624 escolas públicas do Distrito Federal, que serão os primeiros a receber o livro para suas bibliotecas.

A prática deve ser repetida nos cinco Estados onde existem consulados venezuelanos: São Paulo, Rio de Janeiro, Roraima, Rondônia e Amazonas.

Cada consulado já possui cópias do livros, que devem ser doados a partir do mês que vem. De acordo com o adido cultural da Embaixada da Venezuela, Wilfredo Machado, a meta é atingir todo o território brasileiro com novas edições.

A construtora Norberto Odebrecht, que patrocinou os primeiros 5.000 exemplares, possui diversos empreendimentos naquele país. A assessoria de imprensa da construtora diz que, desde 1959, adota uma política de contribuição cultural e já patrocinou cerca de 200 livros, grande parte deles no Brasil. Também diz que a obra mostra apenas o pensamento de Simón Bolívar, "líder reconhecido internacionalmente".

A apresentação do livro, escrita pelo embaixador da Venezuela no Brasil, Julio García Montoya, celebra o "libertador" Simón Bolívar como "a essência de nossa história, um ideal de justiça e liberação". "Consideramos ser da maior importância a divulgação desses documentos entre as novas gerações de brasileiros", diz o texto do embaixador.

Simón Bolívar nasceu na Venezuela em 1783. No século 19, participou de movimentos pela independência de alguns países da América Latina.A doação de livros a escolas brasileiras tem como referência recentes decisões de Caracas, que prepara uma reforma para implantar um "currículo bolivariano" nas escolas venezuelanas nos próximos anos. A versão final da reforma curricular ainda não foi divulgada pelo governo Chávez.

A brasa, a sardinha e a mão longa do gato

José Nêumanne (*), Estadão

Pode até ser tentadora, mas na certa também enganosa, a impressão de que o estado de decomposição do Senado desta República se deva exclusivamente ao processo de avacalhação a que a instituição foi submetida por conta do escândalo protagonizado pelo senador Renan Calheiros (PMDB-AL), que se licenciou da presidência e dificilmente a reassumirá depois do 45º dia, o último da licença pedida. Se também vier a perder o mandato, provavelmente ele não será vítima de uma injustiça atroz. Mas, ainda assim, não será justo considerar o episódio diferente de tantos outros que registraram a erosão da imagem do Senado, muito antes do que ora se passa. O que distingue o escândalo atual de outro, nada remoto, protagonizado por dois ex-ocupantes do mesmo lugar - Jader Barbalho, também do PMDB, e Antônio Carlos Magalhães, do DEM, ex-PFL - é o engano fatal de Renan de se haver considerado intocável, acima do bem, do mal e das vicissitudes da vida real.

Não lhe faltaram força nem cúmplices, que tivessem sobrado aos antecedentes citados, mas lhe faltou, sobretudo, a noção do perigo. Sua imprudência, resultante de uma ousadia excessiva, é subproduto não tanto de teimosia ou de temeridade, mas mais do salvo-conduto que ele imaginava ter recebido, quer pelo comportamento similar da maioria de seus pares e juízes, quer pela confiança na solidariedade da chefia do Executivo, à qual se habituou a render vassalagem, seja quem for seu ocupante. A cumplicidade dos iguais se provou efêmera ao ficar evidente: insustentável para ele, insuportável para os outros. Os pouco nobres serviços que prestou ao poder maior - caso da frustrada tentativa de evitar que Pedro Simon (PMDB-RS) e Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) votassem contra a CPMF na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado - não lhe bastaram. Ele não foi o primeiro nem será o último a fazer o papel de faxineiro pelo avesso: produzir a sujeira e, depois, escondê-la.

Como o alagoano, o paraense e o baiano se deixaram levar pela ilusão do poder absoluto, natural em quem se isola no alto da torre e perde o contato com o chão. Só que, mesmo tendo ultrapassado as fronteiras da decência e da prudência, Jader e ACM não queimaram as naves, qual Cortés, mas mantiveram o último laivo de lucidez e, aproveitando-se das brechas institucionais que garantem impunidade aos mandatários, renunciaram ao mandato, pulando do barco, para voltarem, apagado o fogo. Renan não repetiu esse recuo estratégico por ter confundido com covardia o que era só cálculo. Iludido pela pompa vazia de seu cargo, não levou em conta os próprios limites nem os reais interesses de quem o segurava no topo da escada. Aí, ficou no ar e perdeu o lugar.

ACM e Jader não receberam em seu embate as demonstrações de afeto e apoio que Renan recebeu após o primeiro discurso em que, da cadeira de presidente do Senado, tentou defender-se da acusação de ter transferido para um lobista de empreiteira o encargo de pagar pensão à filha fora do casamento. A fila do beija-mão que o seguiu não era desprezível: nela estavam o líder, Arthur Virgílio (AM), e o presidente nacional, Tasso Jereissati (CE), do principal partido de oposição, o PSDB. E também a lenda viva da correção política na Casa, Eduardo Suplicy (PT-SP). Em seu desvario de poder supremo apenas na aparência, pois este só lhe fora emprestado, não levou em conta a lição contida no soneto de Augusto dos Anjos: "A mão que afaga é a mesma que apedreja." Por achar que poderia contar sempre com o espírito de corpo dos irmãos de opa, esqueceu-se de que os interesses que poderiam uni-los no início do processo os desuniriam quando viesse a lume a sucessão de denúncias da freqüente violação de leis de que tem sido acusado.

Assim como a solidariedade dos iguais, a cobertura de cima, com que contava, também seria fatalmente breve, como acabou de provar sê-lo. Com o devido respeito, um senador de participação pouco relevante na história política nacional, representante de um Estado também sem peso econômico ou político na Federação, poderia ter aprendido mais em sua experiência de saltar de galho em galho. Dificilmente um chefe de governo, de qualquer partido, iria até o ponto a que ele precisava que Lula tivesse ido para salvar o aliado das armadilhas que ele próprio armou sob os pés, antes de entrar no torvelinho das denúncias e nas tentativas vãs de se defender das acusações. Pensar que este iria até o fim foi a demonstração final de que Renan Calheiros não é um aplicado conhecedor de nossa História contemporânea. O presidente é um pragmático radical e tem por guia e convicção a caça instintiva a seus interesses e a competência para alcançá-los. Nunca teve problemas para jogar bagagem indesejável ao mar - fossem Alemão e Osmarzinho, à época das greves no ABC, ou José Dirceu e Antônio Palocci, no usufruto do poder.

Mais que dotado do teflon que impede que a sujeira produzida em seu nome ou a seu serviço lhe atinja a fatiota, Lula pratica com destreza o exercício de se proteger de pedras, ovos e tomates, mantendo-se sempre atrás de algum oportuno anteparo. Antes eram os citados no parágrafo acima, ontem foi o presidente licenciado do Senado, amanhã será outrem. Qualquer um vai gozar de imunidade até a hora em que algo indesejável venha a macular a luva calçada pela mão de dedos longos com que o gato alcança as sardinhas do poder sem que as brasas do jogo político lhe ponham em risco pele e pêlos. Não perceber que, neste país, ficar acima é privilégio intransferível de quem está por cima foi o tiro sem misericórdia no delírio de poder do pequeno ambicioso de Murici, que não soube cuidar de si por se imaginar capaz de se regalar sem se queimar. Agora, como relatou o poeta, "somente a ingratidão, esta pantera, será sua companheira inseparável".
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(*) José Nêumanne, jornalista e escritor, é editorialista do Jornal da Tarde

The Guardian: Desmatamento aumenta na Amazônia

BBC Brasil
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Uma reportagem do jornal britânico The Guardian aponta nesta terça-feira indícios de que o desmatamento da Amazônia está subindo, depois de anos em queda.

A reportagem de uma página inteira, intitulada A Amazônia queima mais uma vez (tradução livre) e ilustrada com foto de meia-página, se baseia na observação do grande número de incêndios que afetam a floresta.

A queima de matas é usada por pecuaristas, madeireiros ilegais e produtores de soja para preparar a terra. Em agosto, segundo o Guardian, satélites do governo registraram 16.592 focos de incêndio, a maioria na Amazônia.

"Nos últimos dois anos, temores em relação ao futuro da Amazônia foram amenizados por notícias de redução no desmatamento. Em agosto, o governo alardeou uma queda de 30% na redução de florestas tropicais – resultado, disse, de um plano oficial lançado em 2004", escreve o jornal.

"Muitos, entretanto, acreditam que as boas notícias estão perto de acabar. Já existem sinais de que a destruição das florestas está ganhando corpo. Relatos dão conta de que o desmatamento no Pará e no Mato Grosso está aumentando, com a derrubada de árvores e os incêndios consumindo milhares de hectares de mata virgem."

De acordo com o Guardian, a queda nas taxas de desmatamento dos últimos anos pode ter sido reflexo apenas da falta de interesse econômico em atividades que impliquem a destruição das matas.

Mas agora, com os altos preços da soja e da carne abrindo oportunidades exportadores destes alimentos, o panorama para a Amazônia voltou a ser "sombrio", disse o jornal.

As chaves do fracasso

Nelson Motta, Folha de São Paulo
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Quando Chávez não renovou a concessão da RCTV, a emissora tinha 30% da audiência nacional. Seus estúdios e transmissores foram transferidos para a Televisora Venezolana Social, a TV pública bolivariana, com uma programação feita para elevar a cultura da população e ser um bom exemplo para os outros canais, onde o povo pudesse se ver, respeitando a pluralidade e o gosto popular: a população decidiria o que quer ver. Em setembro, a TVS tinha caído para 4,6%, e, em outubro, para 3,6%. A audiência da RCTV migrou para outros canais privados, e a TV chavista tem muito dinheiro e apoio político, só não tem público.
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Programas sobre artesanato, danças folclóricas, escolas comunitárias, saúde da mulher, música nativista, celebração de heróis nacionais, entremeados por propaganda governamental, não estão conseguindo agradar o público, que continua preferindo as novelas, os telejornais e as séries americanas das TVs privadas.

O que ganharam os venezuelanos com isso? Mais opções de diversão? Mais qualidade de informação?

A TVS é ótimo exemplo de tudo o que uma boa TV pública não deve ser. Uma emissora movida a dinheiro de impostos tem que ter metas de desempenho que justifiquem os seus investimentos e os salários de seus funcionários e gestores, chegando ao público que menos tem e mais precisa de informação e diversão. Não basta que alguém ou algum conselho diga que os programas são "bons". É o público que vai julgar, vendo ou mudando de canal. E aí, mudem-se os programas, não o público.

Num país de 190 milhões de habitantes, quando um programa de televisão, por "melhor" que seja, é visto só por 5 mil pessoas (a média diária das TVs estatais), o dinheiro de todos está pagando o privilégio de poucos. Em vão.

O ceticismo de Stephanes

Estadão

O agronegócio brasileiro pouco terá a ganhar com a conclusão da Rodada Doha de negociações comerciais, afirmou o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, em entrevista publicada segunda-feira no Estado. Foi uma declaração surpreendente. Para o governo brasileiro, a reforma do comércio agrícola é a meta principal da rodada. Essa tem sido a posição oficial desde o lançamento das conversações, em 2001. Essa mesma bandeira inspirou a formação do Grupo dos 20. Se a diplomacia nacional insiste em evitar o colapso final da rodada, é porque não desistiu, pelo menos explicitamente, de alcançar pelo menos em parte aquele objetivo.

O acordo possível neste momento, como já se admite abertamente, ficará abaixo do ambicionado na fase inicial das negociações, mas ainda poderá valer a pena, segundo avaliam os diplomatas. Mas não haverá pelo menos um grão de bom senso nos comentários do ministro da Agricultura?
Ele manifestou ceticismo em relação a dois pontos. Em primeiro lugar, na sua opinião é altamente improvável a conclusão da rodada. Em segundo lugar, as concessões oferecidas pelo mundo rico, se houver algum acerto final, não produzirão efeito concreto. A primeira dúvida é pertinente neste momento. Quanto mais se alonga a discussão, piores se tornam as condições políticas para um acordo final. Nos Estados Unidos, será uma enorme surpresa se algum candidato à presidência defender maiores concessões comerciais. Do lado europeu, não haverá novas ofertas se os americanos não se mexerem. O governo brasileiro não cederá mais um palmo, se as economias mais avançadas não emitirem sinais encorajadores.

Já a segunda tese é bastante discutível. O Itamaraty saberá discernir se uma oferta - por exemplo, de redução de subsídio - será efetiva ou se, ao contrário, não será mais que um conto-do-vigário. "Concessões" desse tipo serão recusadas e não haverá acordo. A questão relevante é outra: se houver concessões de fato, valerá a pena obtê-las em troca dos benefícios pedidos pelos negociadores do mundo rico? Ou, ainda: será equilibrada a distribuição de encargos entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento?

Mas o ministro da Agricultura parece ter razão pelo menos quanto a um ponto: as condições do mercado internacional serão determinadas nos próximos anos, em grande parte, pela evolução da demanda, agora influenciada pelo rápido crescimento econômico da China, da Índia e de outros países dependentes da importação de alimentos e matérias-primas. Esses países recorrerão aos produtores eficientes, para evitar inflação, e o Brasil será um dos mais qualificados para atender à procura crescente.

Em vez de dar tanta ênfase à Rodada Doha, acrescentou o ministro, o Brasil deveria ter procurado acordos específicos com diferentes mercados - sem se dar conta de que estava fazendo uma crítica ao presidente da República, que ainda ontem insistia na importância de Doha. Mas teria sentido buscar acordos apenas para o comércio agrícola? Certamente não, no caso dos mercados mais desenvolvidos. Com Washington e Bruxelas teria sido necessário negociar acordos mais amplos de comércio.

Mas o governo brasileiro decidiu em 2003 torpedear a Alca. Os americanos podem ter contribuído para o fracasso da iniciativa, mas o principal esforço para impedir o acordo partiu de brasileiros e argentinos. Além disso, Brasília jamais conseguiu combinar com os sócios do Mercosul uma estratégia eficiente de negociação com os europeus.

O ministro da Agricultura parece haver esquecido esses pontos. Depois, americanos e europeus sempre hesitaram em discutir isoladamente concessões no comércio agrícola com os sul-americanos. Nos dois casos, no entanto, teria provavelmente valido a pena levar adiante as conversações com uma pauta mais ampla de interesses. Parte da indústria teria sem dúvida apoiado iniciativas desse tipo. Teria sido preciso convencer e mobilizar a outra parte. Outros países em desenvolvimento ganharam com acordos desse tipo, menos tímidos e mais amplos quanto aos objetivos, e o Brasil com certeza poderia ganhar.

O Avanço Do Imperador,

Editorial do Correio Braziliense
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Hugo Chávez, presidente da Venezuela, completou em fevereiro passado oito anos de poder. Longe de achar suficiente o período como chefe de Estado, garante que sua Revolução Bolivariana está apenas no começo e pretende ver aprovada no plebiscito de dezembro uma reforma constitucional para permitir reeleições presidenciais ilimitadas. Impulsionado pelo grande apoio eleitoral que ainda ostenta, Chávez tenta levar sua anacrônica reforma político-econômica à esfera moral e comportamental dos venezuelanos. Sob o argumento de que é preciso forjar o verdadeiro socialista e "homem novo" inspirado por Che Guevara, faz campanha contra carros de luxo, danças sensuais nas escolas, bebidas alcoólicas, cigarro, silicone e até a boneca Barbie.A cruzada contra o que considera supérfluos — como os jipes Hummer, sucesso nos Estados Unidos, e os uísques importados — visa derrubar hábitos de consumo capitalistas na Venezuela. Aos poucos, o país caminha para o mesmo destino de Cuba, onde a cota de alimentos de cada família é controlada com caderneta. Nos domínios de Chávez, empresários que não atendem aos preceitos do bolivarianismo são pressionados e ameaçados com intervenção federal. Sem liberdade, muitos abandonaram a pátria.

A batalha contra os vícios talvez se justificasse caso o problema fosse crônico entre os venezuelanos, o que não corresponde à realidade. Para Chávez, a imposição de diretrizes morais está atrelada ao socialismo. O governo anunciou o aumento nos impostos sobre importação de vários tipos de bebida, carros esportivos e obras de arte. O preço final do cigarro também refletirá mais tributos. Alegando exagero no consumo registrado em bares, Chávez cogita proibir a venda de cerveja nas ruas.

Desde o primeiro mandato, o presidente costuma interromper a programação de canais privados para fazer pronunciamentos infindáveis. Neste ano, suspendeu a concessão da licença à RCTV, segunda emissora em audiência (30% em média), conhecida pelos programas de auditório e novelas. Em seu lugar, criou a Teves, que amarga, segundo registros recentes, meros 3,6% de audiência. O tempo dirá até que ponto Chávez está disposto a aborrecer seu eleitorado com artifícios desnecessários, medidas absolutistas inconseqüentes.

Depois de construir a imagem de revolucionário sustentado pelos petrodólares, que levaria a Venezuela à justiça social com a abolição do capitalismo e do intervencionismo norte-americano, ele tenta moldar a sociedade à sua maneira, enquanto fortalece sua política externa incômoda aos interesses brasileiros. Primeiro foi a parceria com Evo Morales na queda-de-braço sobre o preço da permanência da Petrobras na Bolívia. Agora, Caracas empurra para Brasília o peso da capitalização do Banco do Sul, instituição que teve Chávez como mentor e se destinará a financiar projetos de integração regional.

Maior economia sul-americana, o Brasil fatalmente será pressionado a tornar-se fonte primária de recursos para os cofres do Banco do Sul. Os maiores beneficiados pela instituição, contudo, serão as nações vizinhas onde a infra-estrutura primária é precária. Sem subjugar-se às intenções venezuelanas nem dar as costas aos países limítrofes, o Planalto deve encontrar seu espaço no desconfortável cenário sul-americano pintado por Chávez.