quarta-feira, junho 05, 2013

Campanha das prostitutas tem a cara do governo petista

Adelson Elias Vasconcellos

O governo de Dilma Rousseff, criou uma campanha que, no mínimo, é imoral. Deveria ser processado por assédio. O Ministério da Saúde, do senhor Alexandre Padilha, mandou produzir, editar e depois veiculou vídeos em louvor às prostitutas, conforme vimos em reportagem da Exame.com com direito aos tais filminhos. 

Alguém pode até ficar admirado pela ousadia. Mas não é a primeira vez. Em 2006, portanto, ainda no governo Lula, o Ministério do Trabalho disponibilizou em seu site uma tal cartilha que ensinava prostituta a ser...prostituta. Escrevemos a respeito na época. Vejam este trecho:

“...o Ministério do Trabalho durante muito tempo disponibilizou no site do Ministério uma certa cartilha da Prostituta que “ensinava” como tratar clientes, dentre outros “conselhos práticos”, como digamos... agir no desempenho de sua “profissão”. Imagino a pesquisa em campo que os autores da cartilha tiveram que desempenhar para colher “subsídios” para a sua composição e redação final.

Agora, o governo, não satisfeito em querer ensinar prostituta a ser ... prostituta, vem invadir uma autoridade que ninguém nunca lhe deu, e prepara a entrega nas escolas de cartilhas que ensinam jovens de 13 a 19 anos a fazerem sexo !!! Absurdo ? Revoltante ? Abjeto ? Pois é, em se tratando de PT nada surpreende, nem ele invadir a autoridade de pais e de mães, sem que procuração para tanto lhe fosse dada, para ensinar, difundir, incentivar e propagar a realização de sexo entre jovens menores de idade. O mínimo que se espera do Poder Judiciário é a imediata suspensão e destruição do lixo pornográfico que o governo mandou preparar !”.

Porém, eles não estavam ainda satisfeitos. Mais tarde, sob a batuta de Fernando Haddad, o mesmo governo criou o famoso kit gay, uma forma de “incentivar e disseminar sua prática”.

Pois é, esta campanha agora vem apenas coroar um governo que tem verdadeira fascinação pela libertinagem. É um método de destruir os valores de uma sociedade para impor a baderna, a anarquia, onde eles imaginam poder imperar eternamente. Quanto menor o senso de valor, de moral, de decência, de integridade, menor a resistência à ideologia que pregam. 

Diante da gritaria e reação da sociedade, o governo determinou a suspensão da campanha, e o ministro demitiu aquele que ele escolheu como “responsável’, como se uma campanha como essa pudesse ir ao ar sem seu conhecimento. Ou seja, arrebenta a corda sempre do lado mais fraco, o funcionário de baixo escalão que apenas cumpre ordens, para o senhor ministro não perder cacife político. Igual tática foi aplicada em bagunça recente em relação ao Bolsa Família, como se os milhões antecipados pudessem acontecer sem autorização prévia do superior...

Todas estas lambanças e porcarias, pode até não parecer, mas tem  muito a dizer do que seja o governo petista. Esta obsessão pela prostituição é,  no fundo,  a mola mestra de sua maneira de governar. Prostitui-se tudo que uma sociedade tem de decente, de correto, de honesto, de civilizatório para o império do caos.
Os petistas sabem bem que o povo brasileiro tem um forte laço com os valores da cristandade e, por conta disto, são conservadores. Assim, de todas as formas e por todos os meios, tentam como “livrar” a sociedade destes valores, disseminando a discórdia, a divisão de classes, os ódios raciais, a fragmentação em “comunidades” em toda a nação, fracionando o tecido social onde irão professar suas apologias de subversão à ordem. 

Reparem no que a sociedade brasileira está se transformando, o tal “nós” contra “eles”. Quem não aceita o outro lado que eles pregam são caretas, homofóbicos, reacionários, direitistas, preconceituosos, golpistas, dentre outras adjetivações menos nobres. 

Assim, insufla-se a disseminação da criminalidade, a descriminação do aborto e das drogas, a perseguição e ódios religiosos, e, como não poderia faltar, a “santificação das prostitutas e o gayzismo engajado”.

Os costumes,  seja no campo social, ou no político e até na economia,  vão sendo vilipendiados e em seu lugar vaõ se enraizando os ódios, os preconceitos, a degradação, o império da anarquia, ferramentas que se empregam em nome de um projeto de poder. Por aqui, a cidadania que conta é a que não contesta o poder. A liberdade de expressão que é valorizada (e bem remunerada) é a expressão do elogio a favor. O pensamento vencedor é o que aplaude fácil e vota sem reflexão. Quando se chega a tal ponto, o que se vê é um imenso país fragmentado em múltiplas nações, que se confrontam entre si entre os que são a favor e os que são contra os princípios fomentados pelo poder dominante e ditatorial. 

Neste sentido, já não se tem mais um povo, já se perdeu a noção civilizada de se conviver harmonicamente entre diferentes. E se nada for feito, se não houver enorme reação movida pela voz da indignação, muito pouco faltará para que o estado de direito e democrático sucumba de forma inapelável. O saldo final é uma imensa horda de zumbis, uns se alimentando do ódio contra os outros, ódio este tornado o valor condutor das relações sociais.

Os conflitos que ora se vê por  algumas tribos indígenas contra o “não índio”, a exemplo do que já acontecera com os tais ativistas do MST, afora os ecoterroristas, tentam, a qualquer preço, derrubar a única excelência que nos resta que é a atividade agropecuária, a âncora sobre a qual se sustenta a nossa aparente estabilidade. 

Na economia, não apenas já se observa a enorme perda das oportunidades preciosas desperdiçadas na linha do tempo. Dia após dias, descemos um pouco mais, perdemos um pedaço a mais das nossas virtudes e acertos. No plano institucional,  a guerra que se trava é na busca desenfreada de cada uma das partes, e mais e mais privilégios exclusivos para si,  a custa da miserabilidade do restante do país. No plano político, esta ganância inescrupulosa já se tornou a razão de ser e fazer de cada um dos atores. E, no plano social, o processo de decomposição, apesar das resistências, segue a marcha da delinquência generalizada.  

Portanto, a campanha que busca glamourizar a prostituição, a exemplo do que se faz com a ignorância, esta conduzida à condição suprema de superioridade civilizatória, não se trata de uma mera ação eventual. É um método de privatização do Estado, de apropriação do poder em favor de um grupo único e permanente.  Nosso futuro só pode ser um: a indigência social, política e econômica. A isso eles dão o pomposo nome de “progressismo”.  Como se vê, o progresso deles é no sentido oposto da evolução humana.  Assim, e daí o nome da campanha ser tão adequado, eles se declararem felizes em serem prostitutas, por venderem seu atraso a qualquer preço,  fazendo boquete com a ignorância e a degradação de toda a nação, da qual se tornaram seus cafetões em tempo integral. 

Os donos da bola

 Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Dilma Rousseff tem apoio maciço no Congresso. Apoio? A Medida Provisória da Energia não passou, a MP dos Portos passou por um favor pessoal do senador Renan Calheiros. Dilma tem apoio, desde que não precise dele. Na hora em que precisa, a conversa é outra, o custo é outro. E a culpa é dela.

O PMDB é o maior aliado da presidente. Mas Moreira Franco, da Agência Nacional de Aviação Civil, não teve autonomia para escolher sua equipe. Romero Jucá foi afastado por Dilma, asperamente, da liderança do Governo no Senado. Renan Calheiros se recusou a receber ordens, que considerou grosseiras, da ministra Gleisi Hoffmann, que considerou prepotente. E nenhum deles leva a sério a coordenadora política do Governo, a senadora Ideli Salvatti. 

Dentro do próprio PT há resistências a Dilma. Se Lula tiver disposição para sair candidato em 2014, conseguirá apoio total não só dos petistas, mas também da base aliada. Se Dilma for a candidata, a coisa é diferente. O governador de Pernambuco, Eduardo Campos, PSB, ganha pontos contra Dilma; contra Lula, provavelmente nem candidato seria. O governador de Minas, o tucano Aécio Neves, acaba de receber o apoio dos diretórios mineiros de oito partidos, sendo cinco - PDT, PR, PSD, PP e PTB - da base de Dilma. Todos se dizem unidos em torno de Aécio para presidente e de seu candidato ao Governo mineiro.

Em política, isso quer dizer que Dilma não recompensa seus aliados nem lhes oferece boas perspectivas de poder no futuro. 

Lula é diferente. Mas Dilma não é. 

Lembranças
Dois presidentes não tiveram maioria no Congresso: Jânio Quadros e Collor.

O grande recorde
De janeiro a abril de 2013, o déficit da balança de petróleo atingiu US$ 6 bilhões (mantendo-se o ritmo, serão US$ 18 bilhões no ano). É recorde para um país que, segundo informou o Governo, alcançou a autossuficiência em petróleo.

Barbosa, não
Dilma viaja a Portugal nos dias 10 e 11. Seus sucessores diretos, o vice Michel Temer, o presidente da Câmara, Henrique Alves, e o presidente do Senado, Renan Calheiros, estão com viagem marcada. Tudo bem: na ausência dos quatro, deveria assumir o presidente do Supremo, Joaquim Barbosa. 

Pois não é que o presidente da Câmara, um peemedebista típico, desistiu de uma viagem oficial à Rússia, com comitiva e boas diárias, para assumir o posto de Dilma? Diz ele que não é para evitar que Joaquim Barbosa assuma o cargo. Então, tá.

Brasil de batom
Como é de rigor no Brasil de hoje, o papa Francisco visitará uma favela (desculpe: comunidade) no Rio, a Varginha. Irá a pé da igreja de São Jerônimo Emilliani até o campo de futebol onde falará aos fiéis. A rua Carlos Chagas, por onde passará, está sendo maquiada pela Prefeitura: limpeza, remoção de carcaças de carros roubados, poste de luz no campinho, reconstrução do muro da escola, asfaltamento. Nas outras ruas da favela, obra nenhuma. Sem papa, sem obra.

A tática é antiga: quando Catarina, a Grande, era czarina da Rússia, no século 18, resolveu um dia viajar pelo império. Seu primeiro-ministro, príncipe Grigory Potemkin, maquiou toda a região por onde passaria a comitiva, pintando casas, limpando aldeias, tirando pedintes das ruas e obrigando os moradores a usar as melhores roupas para aclamar a czarina. 

A maquiagem urbana ficou conhecida como "Aldeias Potemkin". O príncipe virou nome de famoso navio de guerra. A czarina ficou feliz ao ver que seu povo era feliz. E até hoje a história se repete. 

Tira, põe
Guiherme Afif pede demissão do Ministério nesta semana, volta a ser vice e assume o Governo paulista, vago por viagem de Alckmin. Fica até quinta. E volta a ser ministro, até que tenha de ser exonerado de novo pelo mesmo motivo.

Inválido trabalhando
O presidente da Câmara Municipal do Recife, Vicente Gomes, PSB, conseguiu sua segunda aposentadoria no serviço público, como médico da Prefeitura. Só que sua primeira aposentadoria foi por invalidez, na Câmara dos Deputados. Se era inválido (e por isso está aposentado desde 1999, com salário de R$ 26.700 mensais, teto do funcionalismo), como é que trabalhava na Prefeitura? Ou é inválido ou não é; se é, não deveria estar trabalhando, nem pedindo nova aposentadoria; se não é, não deveria estar aposentado por invalidez. 

Mais: se ganha pelo teto, como pode receber nova aposentadoria? Se conseguir seu objetivo, receberá R$ 32.300 - bem mais que o teto. Fora, é claro, o salário como vereador. Será que óleo de peroba está custando tão caro?

Boa notícia
O troféu do Festival de Cinema dos Cinco Continentes (realizado na França e na Suíça) foi desenhado e produzido por uma artista brasileira: Renata Barros. O troféu, em vidro, resina e cimento, simboliza uma visita do personagem Cândido, de Voltaire, aos cinco continentes. Esta é a oitava edição do festival e a primeira em que o vencedor recebe um troféu.

O premiado foi Beasts of the Southern Wild, de Benh Zeitlin, com Quvenzhané Wallys, Dwight Henry e Levy Easterly.

carlos@brickmann.com.br 
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Quem diria: nova arma chinesa é a privatização

Editorial
O Globo

Outrora mais autárquica e fechada que a própria União Soviética, a ex-maoísta China se reinventa mais uma vez e dá lição a países capitalistas como o Brasil

A frase creditada a Deng Xiaoping de que “não importa a cor do gato, contanto que coma o rato” é batida, virou chavão, mas poucas resumem com tanta precisão a capacidade da China de se reinventar, tão logo, sob o comando de Deng, após a morte de Mao, decidiu incorporar características infalíveis da economia capitalista.

A medida do sucesso da ousadia é conhecida: a China se tornou a segunda economia do mundo em menos de uma geração. E se prepara para fazer outra “revolução”, ao constatar o esgotamento do modelo de “economia socialista de mercado”, de ainda grande intervencionismo estatal.

O curioso, e até irônico, é que, ao contrário de países capitalistas como o Brasil, constatada a limitação do modelo, a China não insiste no mais do mesmo, e conclui, com acerto, que a saída está em menos Estado, não em dobrar a aposta no estatismo. Herdeiros do maoismo ensinam aos seguidores do capitalismo de estado.

Há poucos dias, foram divulgadas novas estatísticas que confirmam a desaceleração chinesa: em maio, completaram-se, pela primeira vez, sete meses consecutivos de queda da produção industrial.

Na crise mundial deflagrada em 2008, a China desembrulhou um grande pacote de estímulos oficiais, e deu certo. Agora, a decisão de se abrir novos espaços para o setor privado e reduzir o intervencionismo, algo bem mais radical, se deve à constatação de que o país se encontra diante de limitações estruturais: a população está mais velha, a mão de obra passa a ser mais bem remunerada — deixa, então, de ser decisiva como fator de impulso às exportações — e , diante de tudo isso, a China necessita de um novo salto, impossível de ser dado sem o capital privado e mais liberdade às às leis de mercado.

A inflexão, considerada a mais importante em uma década, marca a chegada ao poder de um novo grupo dirigente, à frente dele o presidente Xi Jiping e o primeiro-ministro Li Keqiang, assessorados, segundo o “New York Times”, por uma equipe de tecnocratas pró-mercado.

A nova elite chinesa entende, com acerto, que sem aprofundar a desregulamentação, privatizar setores será impossível alocar com eficiência os recursos necessários para um novo ciclo de crescimento, cujas características, entre outras, será de uma produção mais voltada ao mercado interno e um sistema produtivo mais eficiente, para compensar a tendência de valorização da moeda nacional.

O anúncio das mudanças, feito no mês passado pelo primeiro ministro Li, para todos os filiados ao Partido Comunista, por teleconferência, é considerado o pronunciamento mais importante em dez anos de uma alta autoridade.

Serve de exemplo ao Brasil, tímido, ainda, para atrair o setor privado a áreas em que faltam capital e capacidade administrativa. Os comunistas chineses parecem mais espertos que os nossos.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Enquanto na China privatização é sinônimo de desenvolvimento, no Brasil, com a mentalidade retrógrada que dirige o país, é arma usada contra os adversários do PT para ganhar eleição... Firmamos contrato com o atraso e a ignorância, sem dúvida!

Beijar a cruz

Fernando Henrique Cardoso 
 O Estado de S.Paulo

Já passou da hora de o governo do PT beijar a cruz. Afinal, muito do que ele renegou no passado e criticou no governo do PSDB passou a ser o pão nosso de cada dia da atual administração. A começar pelos leilões de concessão para os aeroportos e para a remodelação de umas poucas estradas.

No início procuravam mostrar as diferenças entre "nós" e "eles", em seu habitual maniqueísmo. "Nossos leilões", diziam, visam a obter a menor tarifa para os pedágios. Ou, então, afirmavam: nossos leilões mantêm a Infraero na administração dos aeroportos. Dessas "inovações" resultou que as empresas vencedoras nem sempre foram as melhores ou não fizeram as obras prometidas. Pouco a pouco estão sendo obrigados a voltar à racionalidade, como terão de fazer no caso dos leilões para a construção de estradas de ferro, cuja proposta inicial assustou muita gente, principalmente os contribuintes. Neles se troca a vantagem de a privatização desonerar o Tesouro pela obsessão "generosa" de atrair investimentos privados com o pagamento antecipado pelo governo da carga a ser transportada no futuro...

Ainda que renitente em rever acusações feitas no passado (alguns insistem em repeti-las), a morosidade no avanço das obras de infraestrutura acabará por levar o governo petista a deixar de tentar descobrir a pólvora. Já perdemos anos e anos por miopia ideológica. O PT não conseguiu ver que os governos do PSDB simplesmente ajustaram a máquina pública e as políticas econômicas à realidade contemporânea, que é a da economia globalizada. Tomaram a nuvem por Juno e atacaram a modernização que fizemos como se fosse motivada por ideologias neoliberais, e não pela necessidade de engajar o Brasil no mundo da internet e das redes, das cadeias produtivas globais e de uma relação renovada entre os recursos estatais e o capital privado.

Sem coragem para fazer autocrítica, o petismo foi pouco a pouco assumindo o programa do PSDB e agora os críticos do mais variado espectro cobram deste o suposto fato de não ter propostas para o Brasil... Entretanto, a versão modernizadora do PT é "envergonhada". Fazem mal feito, como quem não está gostando, o que o PSDB fez e faria bem feito, se estivesse no comando.

Agora chegou a vez dos portos. Alberto Tamer - e presto homenagem a quem faleceu deixando um legado de lucidez em suas colunas semanais -, na última crônica que fez no jornal O Estado de S. Paulo, Foi FHC que abriu os portos (17/2), recordava o esforço, ainda no governo Itamar Franco, quando Alberto Goldman era ministro dos Transportes, para dinamizar a administração portuária, abrindo-a à cooperação com o setor privado, pela Lei 8.630, de 1993. Caro custou tornar viável aquela primeira abertura quando eu assumi a Presidência. Foi graças aos esforços do contra-almirante José Ribamar Miranda Dias, com o Programa Integrado de Modernização Portuária, que se conseguiu avançar.

Chegou a hora para novos passos adiante, até porque o Decreto 6.620 do governo Lula aumentou a confusão na matéria, determinando que os terminais privados só embarcassem "carga própria". Modernizar é o que está tentando fazer com atraso o governo Dilma Rousseff. Mas aos trancos e barrancos, sem negociar direito com as partes interessadas, trabalhadores e investidores, sem criar boas regras de controle público nem assumir claramente que está privatizando para aumentar a eficiência e diminuir as barreiras burocráticas. Corre-se o risco de repetir o que já está ocorrendo nos aeroportos e estradas: atrasos, obras mal feitas e mais caras, etc. No futuro ainda dirão que a culpa foi "da privatização"... Isso sem falar do triste episódio das votações confusas, tisnadas de suspeição, e de resultado final incerto no caso da última Lei dos Portos.

A demora em perceber que o Brasil estava e está desafiado a dar saltos para acompanhar o ritmo das transformações globais tem sido um empecilho monumental para as administrações petistas. No caso do petróleo, foram cinco anos de paralisação dos leilões. Quanto à energia em geral, a súbita sacralização do pré-sal (e, correspondentemente, a transformação da Petrobrás em executora geral dos projetos) levou ao descaso no apoio à energia renovável, de biomassa (como o etanol da cana-de-açúcar) e eólica. Mais ainda, não houve preocupação alguma com programas de poupança no uso da energia. Enfim, parecem ter assumido que, já que temos um mar de petróleo no pré-sal, para que olhar para alternativas?

Acontece, entretanto, que a economia norte-americana parece estar saindo da crise iniciada em 2007-2008 com uma revolução tecnológica (de discutíveis efeitos ambientais, é certo) que barateará o custo da extração dos hidrocarburetos e colocará novos desafios ao Brasil. A incapacidade de visão estratégica, derivada da mesma nuvem ideológica a que me referi, acrescida de um ufanismo mal colocado, dificulta redefinir rumos e atacar com precisão os gargalos que atam nossas potencialidades econômicas ao passado.

Não é diferente do que ocorre com a indústria manufatureira, quando, em vez de perceber que a questão é reengajar nossa produção nas cadeias produtivas globais e fazer as reformas que permitam isso, se faz uma política de benefícios esporádicos, ora diminuindo impostos para alguns setores, ora dando subsídios ocultos a outros, quando não culpando o desalinhamento da taxa de câmbio ou os juros altos (os quais tiveram sua dose de culpa) pela falta de competitividade de nossos produtos.

As dificuldades crescentes do governo em ver mais longe e administrar corretamente o dia a dia para ajustar a economia à nova fase do desenvolvimento capitalista global (como o PSDB fez na década de 1990) indicam que é tarde para beijar a cruz, até porque o petismo não parece arrependido. Melhor mudar os oficiantes nas eleições de 2014.   

Um governo "estratégico"

Elio Gaspari
O Globo

Ganha uma viagem a Havana quem souber o que essa palavra significa e outra a Paris quem mostrar um resultado

Madame Natasha tem horror ao uso de expressões que não querem dizer nada e, com um significado vago, destinam-se a empulhar a plateia, complicando a conversa. Dor de cabeça vira cefaleia.

A doutora Dilma louvou duas operações militares e policiais que fazem parte do "Plano Estratégico de Fronteiras". Outro dia, ao justificar o perdão de uma dívida de US$ 900 milhões de cleptocratas africanos disse que "o engajamento com a África tem um sentido estratégico.". A Presidência da República, assim como diversos governos estaduais, tem uma Secretaria de Assuntos Estratégicos. Quase todos os ministérios têm programas de "gestão estratégica" e o do Planejamento oferece o software Geplanes, destinado a "monitorar o desempenho dos objetivos estratégicos."

Trata-se de puro blábláblá, destinado a confeitar promessas ou, na melhor das hipóteses, desejos. Dizer que a economia brasileira crescerá 4% num determinado ano nada tem de enunciado estratégico. É apenas um objetivo, quando não, pura mentira. A empolação destina-se apenas a envernizar o comissário que anuncia o rio de mel.

Em 1812, o marechal russo Kutusov enfureceu seus generais porque a certa altura deixou Napoleão Bonaparte escapulir com suas tropas. Por mais que detestasse o Corso, achava que a destruição de seu exército e sua eventual captura favoreceriam os interesses da Inglaterra. Preferiu fritá-lo, deixando que chegasse a Paris, onde os franceses forçaram-no a abdicar e um príncipe russo ocupou a cidade. Kutusov tomou uma decisão estratégica.

Não se pode confundir esse tipo de conduta com coisas mais imediatistas. Por exemplo: quando ocupava uma diretoria da Caixa Econômica, o doutor Moreira Franco queria ser ministro e aceitou a Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência. Pensava em coisa melhor. Em março passado tornou-se Secretário de Aviação Civil. Foi apenas astucioso.

Juscelino Kubitschek jamais anunciou estratégias. O que ele apresentou ao país foi um "Plano de Metas". Eram trinta. Duplicou a produção de energia, aumentou em 70% o número de leitos em hospitais e, onde foi mal, incrementou em apenas 40% a produção agrícola. JK nunca disse que o apoio de seu governo ao colonialismo português na África era uma estratégia, pois era só oportunismo.

A diferença entre uma meta e um estratégia está no fato de que uma pode ser cobrada e a outra pode ser transferida para o próximo governo, a quem se acusará de ter abandonado um plano que tinha tudo para dar certo. O Trem-Bala Rio-São Paulo da doutora Dilma é considerado um projeto estratégico. Deveria ficar pronto para a Copa do Mundo, talvez um pouco depois. Seria inteiramente financiado pela iniciativa privada e custaria US$ 9 bilhões. Já custou à Viúva R$ 63,5 milhões, ainda não saiu do papel, mas já pariu uma estatal e terá os Correios como "sócio estratégico". Indo até Campinas, há transportecas que estimam seu custo em US$ 17,5 bilhões. Não há empreiteiro que fale em menos de US$ 25 bilhões. A conta? Irá quase toda para a Viúva. "Estratégia"? Apenas uma falsa promessa.

Madame Natasha não espera que se cumpram as promessas. Pede apenas que deixem o idioma em paz.

Governo se apoia nas concessões para tentar reverter frustração com o PIB

Lu Aiko Otta e Vera Rosa 
O Estado de S.Paulo

Infraestrutura. Está previsto uma concentração de licitações em setembro e outubro, com a mobilização de investimentos de R$ 489 bilhões; Planalto avalia que sucesso da campanha pela reeleição da presidente Dilma agora depende da economia

Pressionado pelo decepcionante Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre, o governo Dilma deixou de lado a estratégia de crescer pelo consumo, uma estratégia que se esgotou, e luta agora para devolver a tarefa aos investimentos. Com isso, a ordem é não mais admitir atrasos no programa de concessões, que deveria ter começado em dezembro e, numa estimativa otimista, terá início em setembro.

Responsáveis pelos principais planos de investimento do governo, o presidente da Empresa de Planejamento e Logística (EPL), Bernardo Figueiredo, e a ministra do Planejamento, Miriam Belchior, vão enfrentar pressão adicional por resultados. Nas palavras de um auxiliar da presidente Dilma Rousseff, os dois serão "chicoteados" para acelerar a execução dos programas. As concessões já anunciadas mobilizarão investimentos de R$ 489 bilhões.

O Palácio do Planalto avalia que o sucesso da campanha pela reeleição de Dilma, em 2014, depende agora da economia. Tudo será feito para que o "pibinho" seja vitaminado e impulsione o crescimento. Além disso, o Planalto busca uma tática para evitar que o problema da inflação contamine as expectativas dos eleitores.

Pesquisas em poder do governo e do PT indicam que a alta do custo de vida está na memória da população e pode influenciar o voto. Não sem motivo o senador Aécio Neves (MG), possível candidato do PSDB à Presidência, adotou o combate à inflação como mote de sua campanha. "País rico é país sem inflação", diz o slogan da propaganda tucana, ironizando o "País rico é país sem pobreza", marca do governo Dilma.

Quando soube que o PIB do primeiro trimestre atingira apenas 0,6%, Dilma ficou furiosa. Apesar de saber que a recuperação seria lenta, ela se surpreendeu com o pífio desempenho da economia e engrossou as cobranças ao ministro da Fazenda, Guido Mantega.

Ajustes. 
Para sair da armadilha do baixo crescimento com inflação alta, Dilma quer acelerar os investimentos. Não é simples. As concessões poderão sofrer novos atrasos ou, como diz Bernardo Figueiredo, "ajustes necessários" por causa do Tribunal de Contas da União (TCU).

É preciso, ainda, convencer o setor privado a investir. O governo tem falhado nessa tarefa. Além disso, surge outra dificuldade: um verdadeiro "congestionamento" de leilões em setembro e outubro.

Depois de divulgar vários pacotes de estímulo, a ordem do Planalto, agora, é tirar do papel o que já foi lançado. Há, porém, duas novidades no forno. Na terça-feira, Dilma anunciará um ambicioso plano de financiamento da safra agrícola, de aproximadamente R$ 140 bilhões. Mais: também pretende divulgar, no dia 18, o novo Código de Mineração, com um projeto de lei a ser enviado ao Congresso.

Apesar da alta da Selic, o PT pretende ancorar a campanha de Dilma, no ano que vem, em um tripé de apelo popular, "traduzido" como "energia/comida/juros". Os petistas estão confiantes na queda dos juros no segundo semestre.

Diante desse diagnóstico, se tudo correr como prevê o script, cortes de impostos, dos juros e redução da conta de luz vão embalar a campanha de Dilma. A estratégia é mostrar que a desoneração da cesta básica e a redução do preço da energia, por exemplo, fazem parte de um pacote para distribuir a renda e transformar o Brasil em um país de classe média.

Na base da gambiarra

Dora Kramer
O Estado de SPaulo 

O descompromisso do governo com os princípios republicanos de fato, não os usados como figuras de retórica para efeito de disfarce, assume uma nitidez espantosa quando o presidente do Senado, Renan Calheiros, é quem dá à presidente da República lições sobre o funcionamento das instituições. Nesse ponto a gente vê que há mais que “algo errado”, para usar a expressão do presidente da Câmara, Henrique Alves (correligionário de Calheiros), na concepção de República dos atuais locatários do poder. Está certíssimo o senador quando informa à ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, que o Executivo não dá ao Legislativo a sua devida dimensão e que, embora desafine, não é assim que a banda toca na ordem natural das coisas. Pura verdade.

Mas é fato também que o limite não foi ultrapassado à força. O Planalto não arrombou; simplesmente avançou por uma porta que o Congresso deixou aberta. Comportou-se como armazém de secos e molhados; o governo, em seu desapreço aos parceiros e na certeza de que o PT tem o monopólio da virtude e o respaldo eterno das pesquisas e opinião, sen¬tiu-se à vontade para tratar o Parlamento como objeto de sua propriedade com salvo-conduto para qualquer tipo de uso.

Pior: assim continuaria sendo se a presidente Dilma Rousseff soubesse pilotar com habilidade a sua maioria e tivesse noção do que seja diá¬logo. É necessário, portanto, dar o devido peso à altivez temporã assegurada ao Senado pelo presidente da Casa. A atitude é consequência do estilo da chefe da nação: rude e crente de que é a mais sabida de todos. Em sua presumida sapiência, conseguiu transformar uma imensa base aliada em enorme e inesgotável fonte de problemas. Talvez para surpresa da presidente, não se resolvem com liberação de emendas ao orçamento nem com gestos de intimidação.

Vamos ver agora se o Senado fica firme em sua posição, se a Câmara acompanha ou se tudo não passou de um soluço. Muito em breve, nesta semana mesmo, já vai ser possível perceber. É quando se confirma, ou não, uma das hipóteses aventadas pelo governo para contornar as dificuldades decorrentes da tramitação das MPs. Assim como se fosse coisa mais natural do mundo, fa¬la-se em transferir o conteúdo de uma medida com prazo de validade vencido para outra que versa sobre assunto diferente. A prática é conhecida como “contrabando” no Congresso. É ilegal, mas sempre foi aceita.

No ano passado, porém, quando o Supremo Tribunal Federal determinou que o Legislativo cumprisse a Constituição e passasse a examinar todas as medidas em comissão mista, o então presidente da Câmara, Marco Maia, anunciou que não poderiam mais ser incluídos itens estranhos ao objeto original da MP em plenário, depois da passagem pela comissão.

Caso aceite o estratagema do “contrabando”, o Congresso estará dando aval a que o governo continue atuando por intermédio da mão do gato. Na base da gambiarra.

Tempo quente
No dia seguinte à confirmação de que a MP das tarifas de energia não seria examinada pelo Senado foi ouvida com clareza a expressão “partido de mercadores”, no segundo gabinete mais poderoso do Palácio do Planalto. O assunto era o PMDB.

Má diplomacia, mau comércio

O Estado de S.Paulo

Pressionados pela concorrência e perdendo espaço até na América do Sul e no protegido mercado nacional, industriais brasileiros passaram a cobrar do governo mais acordos de comércio para evitar um isolamento cada vez maior e mais danoso. A decisão dos empresários de mudar o jogo e os números da balança comercial de janeiro a maio, os piores da série histórica, foram divulgados pelo Estado na edição de ontem. No mesmo dia a Confederação Nacional da Indústria (CNI) reforçou a campanha, divulgando nota a favor da negociação de novas e mais ambiciosas parcerias. Segundo a nota, os empresários veem com preocupação os acordos postos à mesa, enquanto "o governo brasileiro assiste às discussões distanciado da realidade".

A acusação ao governo é bem fundada, mas parte da responsabilidade cabe aos industriais, com sua pouca disposição para se aventurar na troca de concessões dos acordos comerciais mais relevantes. Baixo poder de competição, horizontes comerciais limitados e perda de relevância nas transações externas caracterizam há algum tempo a indústria brasileira. O superávit comercial de US$ 760 milhões em maio foi 74,3% inferior ao de um ano antes.

O resultado teria sido bem pior, se só dependesse das vendas de manufaturados e semimanufaturados, 0,9% e 13,5% inferiores às de um ano antes. Só as exportações de produtos básicos superaram - pela margem de 1,7% - as de maio de 2012.

De janeiro a maio o País acumulou um déficit comercial de US$ 5,4 bilhões, com exportações de US$ 93,3 bilhões, 2,8% menores que as de igual período do ano passado, e importações 9,8% maiores. As vendas de manufaturados (US$ 36,2 bilhões) representaram apenas 36,9% do total embarcado. A receita dos básicos correspondeu a 47,6% do total e a dos semimanufaturados, a 31,2%. Em 2007, os manufaturados ainda proporcionaram 52,2% do valor vendido. A partir do ano seguinte, sua participação ficou sempre bem abaixo de 50%. O País acomodou-se na condição de exportador de commodities, beneficiado pela alta das cotações internacionais e, de modo especial, pela expansão chinesa.

A conversão do Brasil em fornecedor de insumos para a China e para o mundo desenvolvido resultou da combinação de vários erros de política. O primeiro foi o torpedeamento da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), por iniciativa dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Néstor Kirchner.

O terceiro-mundismo do governo petista deu prioridade às relações com países emergentes e até em estágios iniciais de desenvolvimento. A negociação de um acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia logo empacou, em boa parte por causa da resistência argentina a concessões comerciais. Assim, o Brasil fugiu de relações mais amplas com o mundo rico. A indústria pode ter achado confortável a opção, mas só até os estrangeiros começarem a tomar espaço até no mercado interno.

A maior parte dos erros é atribuível à política petista. O mercado interno cresceu com a transferência de renda e os aumentos reais do salário mínimo. Mas faltaram investimentos em infraestrutura, os tributos continuaram onerando a produção e a exportação, a política educacional negligenciou a formação básica e o governo esbanjou dinheiro e tolerou inflação alta. Os empresários deram sua contribuição, criticando principalmente o câmbio e os juros e dando menos atenção, durante anos, aos problemas estruturais de competitividade.

Como complemento do desastre, a Rodada Doha fracassou, outros países continuaram negociando acordos bilaterais, regionais e intrarregionais e o Brasil ficou cada vez mais isolado. Tem hoje 22 acordos de acesso preferencial, "a maioria pouco relevante", segundo a CNI. Enquanto isso, vizinhos já beneficiados por um número maior de acordos montam novas associações, como a Aliança do Pacífico, e os EUA acertam com potências grandes e médias uma Parceria Transatlântica e uma Transpacífica. Pelo menos a indústria acordou, mas com enorme atraso.

Murro em ponta de faca

Eliane Cantanhêde 
Folha de S. Paulo 

BRASÍLIA - Poderia até ser engraçado, mas é apenas um dado de análise: a situação política de Eduardo Campos, governador de Pernambuco, tem lá suas semelhanças com a de Getúlio Vargas, então governador do Rio Grande do Sul, em 1929.

Ambos governadores. Ambos aliados ao governo federal, Campos ao de Dilma, Getúlio ao de Washington Luís. Ambos candidatos à Presidência da República à revelia dos palácios (Planalto hoje, Catete antes). Ambos numa luta infernal para atrair apoios e evitar que potenciais aliados escorreguem pelos dedos.

A campanha de Eduardo Campos repete até a montanha-russa das emoções da de Getúlio, na base do "cada dia sua agonia". Ora avança firmemente, ora recua estrategicamente. Ora parece arregimentar apoios inusitados, ora perde apoios considerados óbvios, naturais.

Ao longo do processo, é claro que o humor vai e volta, o coração dispara, as surpresas se acumulam e a dúvida persegue a candidatura do início ao fim: seria Getúlio realmente candidato? Irá Eduardo Campos subir mesmo nos palanques?

A primeira providência de Campos, como fez Getúlio, é tentar cimentar uma aliança sólida no próprio Estado. Até por isso seu vice troca o PDT pelo PSB e o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB) engoliu em seco, superando velhas divergências para apoiá-lo em 2014.

A segunda providência é se tornar a opção do próprio partido e a terceira é extrapolar alianças e apoios para além de Pernambuco. Mas nada disso é fácil. Getúlio viu os presidentes estaduais (ou governadores) pularem no barco governista, um a um, sem ter meios para impedir. Chegou ao final com o RS, Paraíba e Minas -- que, aliás, não entregou a mercadoria, ou seja, os votos.

Hoje, dos seis governadores do PSB (incluindo Campos), pelo menos três são a favor da reeleição da presidente Dilma. E, se nem os do PSB vêm com ele, por que outros viriam? Só se a economia empurrar.

Por que os brasileiros gastam tanto no exterior?

Edmar Bacha
O Globo

O Brasil se tornou um país caro. Quem pode, gasta lá fora. Quem fica por aqui são os pobres, para quem estão reservados os produtos mais caros

Deu nos jornais que o déficit das transações correntes do Brasil com o resto do mundo atingiu níveis recordes no mês passado. Entre as razões para esse déficit, sobressaem os gastos de turistas brasileiros no exterior. Segundo pesquisa do governo americano, os turistas brasileiros estão entre os que mais gastam em compras nos Estados Unidos, só perdendo para os japoneses e os britânicos. A situação parece preocupar o governo brasileiro que, segundo os jornais, estuda aumentar os impostos e adotar outras medidas para restringir os gastos dos brasileiros no exterior.

Antes de o governo adotar mais medidas protecionistas, talvez seja bom se perguntar por que é mesmo que, em vez de desfrutarem mais das belezas desse país tropical bonito por natureza, os brasileiros preferem gastar dólares em navios-cruzeiros ou em compras nos shoppings de Miami?

A resposta parece óbvia, se considerarmos que os turistas brasileiros não parecem estar atrás de bens culturais inexistentes no país. Numa enquete do governo americano, 95% dos turistas brasileiros dizem que vão lá para comprar. O que os brasileiros compram nessas viagens aos Estados Unidos está em geral disponível no Brasil. Só que custa até o dobro ou o triplo do preço, e a qualidade é com frequência inferior. Por isso, vale a pena pagar o custo da passagem aérea internacional, mesmo porque ela também é bem mais barata por quilômetro voado do que a nacional.

A resposta à pergunta por que os brasileiros gastam tanto no exterior é que o Brasil se tornou um país caro. Quem pode, gasta lá fora — os ricos sempre puderam e sempre o fizeram; agora a classe média ascendente vai atrás e por isso cresce o déficit nas transações correntes. Quem fica por aqui são os pobres, para quem estão reservados os produtos mais caros, a não ser quando descolam um contrabando paraguaio de qualidade duvidosa no comércio informal.

Por que o Brasil se tornou tão caro? Por muitas razões, mas uma das principais delas é o protecionismo — os altos impostos sobre bens e serviços importados, as taxas alfandegárias e os custos portuários, as regras de conteúdo nacional, os padrões diferentes de nossas tomadas elétricas e bens duráveis de consumo, e por aí a lista vai. Tudo isso faz com que os bens e serviços vendidos no país, tanto importados como nacionais, sejam caros.

Se o problema é o protecionismo, não é com mais protecionismo que o governo devia tentar resolvê-lo. É verdade que mais impostos e restrições às compras externas podem tirar a classe média de Miami. Mas isso somente faria agravar o apartheid social brasileiro, contra o qual a ascensão dessa classe média é o melhor antídoto. Que tal pensar em como produzir bens e serviços melhores e mais baratos para todos os brasileiros?

O mundo não é culpado

Míriam Leitão  
O Globo

Esta semana se soube que Brasil e Estados Unidos cresceram no mesmo ritmo no primeiro trimestre de 2013. Nós, 0,6%, e eles, 2,4%. É a mesma coisa. A diferença é apenas a forma como se calcula: eles apresentam o índice de forma anualizada e nós temos o hábito de olhar o dado do trimestre em relação ao anterior. Mas ficou claro que o que é bom para os Estados Unidos não é bom para o Brasil.

Para eles, o número significa a continuação da recuperação. Para nós, sinal de que estamos perto da estagflação: crescemos pouco com inflação alta. Eles são a maior economia do mundo, vivem ainda uma crise sistêmica e fizeram um forte corte de gastos públicos. Nós estamos aumentando os gastos e desidratando o superavit primário. Eles estão demonstrando dinamismo econômico. O Brasil tem perdido competitividade.

Nós sentimos os abalos da crise, mas o Brasil estava mais bem preparado do que em outros eventos de crise externa. O problema é o ponto em que estamos agora. O país não consegue sair do baixo crescimento. Os cálculos apontavam números mais robustos mas eles definharam novamente. Tem sido assim desde o começo de 2011.

Se o Brasil não é o centro da crise e se está mais forte do que em outros eventos internacionais, por que não consegue crescer? E, se não está crescendo, por que não consegue derrubar a inflação?

São as inquietações do momento. Elas é que fazem o 0,6% de crescimento no primeiro trimestre parecer pior do que é. Esperava-se mais, porque nada nos impede de crescer em ritmo maior a não ser a gestão confusa da economia.

O governo anunciou uma sequência tão grande de pacotes de estímulo que nem é necessário parar para contar. Seria perda de tempo. Todos viram a hiperatividade sem rumo com a qual o governo administrou a economia nos últimos dois anos e meio. Foram vários pacotes, desonerações, R$ 400 bilhões transferidos para o BNDES, estímulos ao consumo, bancos oficiais oferecendo dinheiro aos clientes para alavancar as compras, subsídios a vários setores industriais, subsídios ao uso da gasolina. Ao fim disso, o país colheu... PIBs pequenos e minguantes.

Talvez seja porque o governo está no rumo errado. Menos hiperatividade e mais estratégia trariam os resultados esperados. Ao intervir demais na economia, criou incertezas e distorções. O governo concedeu benefícios fiscais a setores industriais para incentivar o consumo. Conseguiu no máximo antecipar decisões de compra. Estimulou o consumo das famílias através do endividamento. Aumentou seus gastos. Desta forma, foi alimentando a inflação, que tirou capacidade de consumo das famílias.

Aos investidores, o país tem emitido sinais erráticos. A intervenção na energia descapitalizou o setor. Para cobrir o custo da decisão de reduzir o preço da energia, o governo tem inventado fórmulas que caem abruptamente sobre as empresas. Um desses aparecimentos repentinos foi a resolução do Conselho de Política Energética estabelecendo que todas as geradores, mesmo as de fontes limpas, tenham que pagar pelo custo extra do uso das térmicas. Algumas já entraram na Justiça contra a decisão estranha.

O setor de petróleo ficou cinco anos sem fazer leilão de concessão porque o governo argumentava que era necessário mudar o modelo. Acabou retomando as rodadas no modelo velho. Nesse meio tempo, a produção e área prospectada diminuíram. O governo baixou regras para privatizar os aeroportos que afastaram operadores internacionais experientes e incentivaram os grupos menores a darem grandes lances. Por uma razão nunca explicada, não incluiu o Galeão na primeira etapa da privatização. Agora, o Galeão será licitado, mas as regras já mudaram. Decidiu-se criar normas que evitem grupos com pouca experiência em administração de aeroportos. Mas os atrasos nos colocam na marca do pênalti. O governo quer que o grupo que ganhar a licitação — que ainda não feita — garanta que vai melhorar a situação do aeroporto até a Copa do Mundo. Difícil ter mudança importante em tempo tão exíguo.

Para controlar a inflação — da forma errada — subsidiou o uso da gasolina e com isso desorganizou o setor de biocombustíveis. Fez anúncios preparados por marqueteiros sobre obras e licitações na área da infraestrutura que ainda não deslancharam. Olhando bem, o baixo crescimento brasileiro tem razões internas. O mundo não tem culpa.

Um Plano Dilma

Editorial 
Folha de São Paulo

Como a presidente pode preparar a economia para retomar o crescimento e aplainar terreno do próximo governo, seja dela ou não

A decepção com o crescimento da economia brasileira no início deste ano evidenciou o impasse da política econômica do governo Dilma Rousseff. Ao final de três anos de mandato, o PIB não terá crescido mais que 2% ao ano, metade do que o Planalto por tanto tempo apontou ser o mínimo aceitável.

O Brasil poderia ter crescido os mesmos 2% destes anos sob Dilma, e ainda assim seu governo teria triunfado caso desvencilhasse o país dos excessos do governo de Luiz Inácio Lula da Silva. A economia estaria agora mais preparada para retomar o crescimento.

Até aqui os problemas se acumularam, contudo. Havia assuntos urgentes: custos de produção em alta, famílias endividadas, consumo demasiado aquecido. Na ânsia de estimular o crescimento, o governo criou novos estorvos. Passou a gastar mais, a incentivar o crédito, a alimentar mais inflação.

Frustradas as investidas, o governo recorreu a iniciativas fortuitas e atrabiliárias. Tentou controlar preços e lucros por meio de pressões políticas. Reduziu impostos de modo desorganizado. Distorceu estatísticas fiscais e acuou o Banco Central. Custos altos e insegurança deprimiram investimentos.

Perdeu-se tempo e mais tempo vai se perder com o rescaldo dessa agitação sem sentido aparente.

Como primeira tarefa, o governo deve renunciar à insensatez de tentar estimular a economia com gastos públicos enquanto o BC se dedica à missão contrária de desincentivar crédito e consumo, necessária para debelar a inflação.

O controle da alta de custos será mais rápido e menos custoso se o governo poupar mais. O compromisso não pode ser provisório nem improvisado: é preciso declarar que se cumprirá a meta fiscal na íntegra e sem truques até 2015.

Tal compromisso será ainda mais crível se o governo baixar o centro da meta de inflação para 2014 ou 2015, ainda que apenas de 4,5% ao ano para 4,25%. As expectativas estão deterioradas demais.

Tão cedo o setor público não deve recuperar sua capacidade operacional e financeira de investir. O governo deve, portanto, concentrar energias em conceder à iniciativa privada, mais rapidamente, as obras de infraestrutura. Mais que recuperar o exasperante atraso nas concessões de aeroportos e estradas já prometidas, é preciso esquadrinhar o país em busca de oportunidades para privatização.

O ânimo econômico pode ser revivido, além disso, se o Planalto se dedicar a remover empecilhos burocráticos à atividade. São reformas que não custam nada --além de trabalho e discernimento. É uma oportunidade para a presidente restaurar a fama de gerente.

Mais que gerente, porém, a presidente Dilma precisa liderar um grande esforço político de mudança, para remover outro empecilho quase feudal à operação eficiente da economia. Trata-se da cobrança de impostos interestaduais, vale dizer, da reforma do ICMS, que naufraga a olhos vistos no Congresso.

É certo que Dilma Rousseff terá de negociar com governadores de escasso espírito público, mas presidentes da República devem conduzir pessoalmente as transformações importantes, em vez de atulhar sua agenda cotidiana com a engenharia de usinas hidrelétricas ou décimos de percentual da taxa de retorno em editais de licitação de projetos de infraestrutura.

A Petrobras é a maior investidora do país, responsável por liderar o único grande novo projeto econômico nacional em quase 30 anos, o do pré-sal. Mas a empresa continua encalacrada por controles de preços, investimentos politizados e um programa de reserva de mercado para insumos nacionais que atrasa e encarece sua operação. É fundamental dar-lhe mais desenvoltura e agilidade.

Este roteiro pode ser complementado pela revisão da política comercial do país. O Brasil vai sendo aos poucos escanteado nos acordos internacionais. Corre o risco de ficar à margem das redes transnacionais de produção. Os países mais avançados ou dinâmicos contornam a falência da Organização Mundial do Comércio (OMC), enquanto o Brasil se enreda nas negociações infrutíferas do Mercosul e dos Brics.

Trata-se, enfim, de estipular e fazer cumprir um rol de metas mínimo, não tanto um plano ambicioso de reformas. Um programa factível de remoção de obstáculos mais imediatos, de restauração da racionalidade econômica elementar, da recuperação da confiança nas possibilidades da economia.

Uma verdadeira faxina, preliminar e possível, que entregaria uma casa mais arrumada para o próximo governo, com Dilma Rousseff ou outro presidente.

Guia prático para o adultério fiscal

Gustavo H. B. Franco
O Estado de S. Paulo

A dívida pública no Brasil é muito alta, e talvez a mais cara do mundo

A publicação de informações referentes às finanças públicas deveria repousar mansamente no centro do relacionamento entre o Estado e o cidadão que paga impostos, este triste personagem de poucos amigos em Brasília. Tinha de haver um protocolo internacional bem rígido para isso, como existe para a contabilidade de empresas privadas, para as quais as manipulações contábeis resultam em escândalos e prisões. Já para os Estados nacionais, a despeito de convenções, cada um faz de acordo com suas agendas locais e sua veia artística. Infelizmente, esse é um de muitos assuntos de economia que cabem na descrição “mais arte do que ciência”: o “superávit primário” brasileiro, em particular, tornou-se uma obra a meio caminho entre a arte conceitual e o neoconstrutivismo abstrato.

A névoa é espessa, mas os indícios parecem indicar que o estado das finanças públicas é muito precário, como se argumenta a seguir. E, se assim é, as autoridades traem a confiança do cidadão ao pavonear a solidez das nossas contas, sobretudo na presença conspícua de critérios oblíquos, dissimulação, meias verdades e de pequenos truques utilitários para simular o atingimento de metas que não significam coisa alguma.

A deficiência na prestação de contas, por conta dessas manipulações, revela uma deslealdade básica com relação ao cidadão, que em muito se parece com o adultério. Raramente há flagrante ou confissão nesse domínio; trabalha-se apenas com indícios ou com interpretações. Ezequiel se parece com Escobar; isso prova que Capitu traiu? O pecado, jamais admitido, se torna matéria de julgamento da parte enganada, crescentemente casmurro e hesitante diante da ausência de confirmação, por isso passando a impressão de apatia, ou de consentimento tácito, seja pelo tédio à controvérsia ou pelo medo das consequências.

Mas quais são os indícios? Vamos ao mérito, de forma bem simples.

A nação possui uma renda anual de 40 unidades (todas as quantias daqui pra frente serão medidas em porcentuais do PIB), mas deve aos bancos 65 unidades. O Brasil é o maior devedor entre os países emergentes, com exceção da Índia. Com o reconhecimento de “esqueletos”, o número pode ser bem maior.
Usando a métrica de empresas, a dívida equivale a um ano e meio de faturamento, e mais de 32 vezes a geração de caixa, que nas empresas se conhece como Ebitda ou Lajida (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortizações), e que para o governo equivale ao “superávit primário”, que está na faixa de 2 unidades. É uma alavancagem inaceitável para empresas.

O país possui reservas internacionais no valor de 26 unidades, mas em moeda estrangeira, com a qual, todavia, não é possível pagar os credores locais. Assim, a enganação começa quando as autoridades afirmam que só devem 65-26 = 39 unidades. Se o indivíduo deve 10 maçãs e possui 5 laranjas, não faz sentido dizer que possui uma dívida “líquida”, a menos que use um liquidificador para transformar tudo em suco. Se o leitor acha que estou sofismando, pergunte aos técnicos sobre o que se conhece como “o problema da transferência”, um clássico entre economistas, pelo qual se sabe que dívida interna se paga com superávit fiscal, e a externa com superávit comercial.

A dívida pública no Brasil é muito alta, e talvez a mais cara do mundo: o governo tem de pagar algo como 15 unidades de amortização e 5 unidades a título de juros a cada ano. Só aí, metade da arrecadação seria consumida, de modo que a rolagem das amortizações, e também a capitalização dos juros, se torna crítica, e há anos que é assim. Os países da periferia europeia, como Grécia, Espanha e Portugal, têm números parecidos, e quebraram por incapacidade de rolar suas dívidas. O Brasil não tem esse problema, pois sua dívida é doméstica e rolada continuamente num mercado cativo, no âmbito do qual a riqueza em moeda nacional não tem alternativas importantes. Sobretudo se as taxas de juros são as maiores do planeta.

Nos últimos anos, todavia, essa construção começa a revelar certa fadiga em razão da redução na taxa Selic. O Tesouro não tem conseguido rolar as quantias que gostaria nas condições que deseja e, por conta disso, amortiza seus títulos que vão vencendo e gerando “liquidez excessiva” que o BCB “enxuga” através das chamadas operações compromissadas. Os valores acumulados nessas operações já andam pela casa de 10 unidades. E para números assim tão altos é inequívoca a percepção de que o BCB está substituindo o Tesouro na rolagem da dívida, o que pode ser interpretado como financiamento ao Tesouro, conduta vedada pelo artigo 164 da Constituição.

O que está claro é que o tamanho da dívida impõe uma limitação muito clara à queda dos juros. O nome dessa doença é “dominância fiscal”: o governo (Tesouro e BC) precisa pagar mais caro, ou mais curto, para as pessoas carregarem dívidas e déficits elevados.

Mas, a despeito de tudo isso, as autoridades alimentam enormes ambições de investimento, compreendendo obras do PAC, prospecção de petróleo e criação de bois. A questão intrigante é como vão conseguir dinheiro para isso tudo?

Bem, a explicação é acaciana: o governo possui um banco. Aliás, vários deles. Um deles, o Central, está proibido de lhe dar crédito (mas aparentemente não de fazer montanhas de operações compromissadas de efeito semelhante), mas não os outros. É com esses que se concebeu a seguinte opereta: o governo dá ao banco um papagaio que o banco transforma em dinheiro e empresta para um amigo procurar petróleo e para outro criar bois.

Na hora de explicar à cidadania, quando lhe perguntam se a dívida aumentou, as autoridades respondem que fizeram um investimento em uns empreendedores arrojados e campeões, de tal sorte que o patrimônio nacional não se vê afetado. A dívida “líquida”, aquela formada de suco de frutas, não se move.

Usando essa via meio transversal, o governo gastou 12 unidades nos últimos anos, uma montanha de dinheiro, com os tais campeões. Quem tem bancos para usar dessa maneira não dorme no sereno. Bancos privados não podem emprestar para seus controladores, dirigentes e suas empresas. A Lei 7.492, conhecida como “lei do colarinho branco” define como crime.

O fato é que ninguém percebeu essa despesa toda e seu impacto no endividamento público. Ou será que percebeu? Por que será que de uns tempos para cá cresceram tanto as alegações de “falta de confiança” nas ações de governo? Por que os mercados estão casmurros cada dia mais um pouco? Talvez os indícios de adultério tenham passado dos limites.

O PIB e os juros

Celso Ming  
O Estado de S.Paulo

Certos analistas estranharam a decisão do Banco Central, tomada quarta-feira, de redobrar a dose dos juros básicos (Selic), mesmo após saber que o avanço do PIB do Brasil no primeiro trimestre fora uma enorme decepção.

Pareciam entender que, no caso de uma atividade econômica fraca, os juros devessem cair - não subir e, menos ainda, o dobro do que subiram no mês anterior -, como se o Banco Central estivesse obrigado a executar o que muitos no governo entendem erradamente como política anticíclica.

Os analistas aparentemente não enxergam que, neste momento, a inflação se tornou problema mais grave do que o PIB magricela. A inflação alta é uma das causas do baixo desempenho da atividade econômica.

Essa foi, aliás, a advertência feita, também na quarta-feira, horas antes da tomada de decisão do Copom, pela gerente de Coordenação de Contas Nacionais do IBGE, Rebeca Palis. Ela chamou a atenção para a corrosão do poder aquisitivo e, portanto, do consumo das famílias, importante componente do PIB, causada pela inflação.

É uma eloquente refutação prática do ponto de vista de que "um pouco de inflação sempre ajuda no crescimento". Às vezes, até funciona como dopping, mas sempre tende a atacar a saúde do organismo econômico. Segue-se que, ao combater a inflação com sua política monetária (política de juros), o Banco Central concorre para criar condições para o crescimento econômico sustentável, e não o contrário. Mas isso não é tudo.

Há os que argumentam que um banco central não pode limitar-se estrabicamente a combater a alta de preços; deve trabalhar, também, para proporcionar crescimento econômico. Este ponto de vista também é um desvio do que deve ser o regime de duplo mandato, caso do Fed, banco central dos Estados Unidos.

Antes de tudo, o segundo mandato dos bancos centrais (o primeiro é combater a inflação), quando há, não é garantir o crescimento, mas assegurar o emprego, o que não é a mesma coisa. No Brasil, por exemplo, temos um combalido crescimento com pleno emprego. Mais ainda, o excessivo aquecimento do mercado de trabalho vem sendo uma das principais causas da inflação, não só porque aumenta os custos de produção, mas, também, porque cria renda acima do aumento da produtividade da economia. Quem há meses está denunciando essa situação é o Banco Central.

Vistas as coisas por outro ângulo, o mercado de trabalho excessivamente pressionado, como hoje no Brasil, é um forte limitador da atividade econômica; derruba o chamado crescimento potencial. Quem não entende isso, que tente responder à seguinte pergunta: se mesmo com um crescimento merreca, como o de agora, há escassez de mão de obra no Brasil, especialmente a qualificada, o que não estaria acontecendo no mercado de trabalho se o PIB estivesse avançando os 4,0% ou 4,5% ao ano, como quer o governo?

Finalmente, se a política de juros fosse manobrada no sentido de aumentar ainda mais o emprego, estaria concorrendo para aumentar a inflação e, mais à frente, para prejudicar ainda mais o desempenho da atividade econômica.

Não enlouqueça com os preços

Ruth de Aquino
Revista ÉPOCA

Pesquise sempre, em qualquer cidade. Rasgar dinheiro é um atestado de loucura  

O consumidor não gosta de se sentir otário. Está na hora de boicotar quem mete a mão no nosso bolso. Quando o brasileiro médio começa a viajar ao exterior para fazer compras sem se sentir roubado, é porque nossa economia desandou. Felizmente, ainda não perdemos a referência de preços, como nossos hermanos na Argentina, onde os índices são todos maquiados, e a presidente Cristina Kirchner restringe o direito de ir e vir do cidadão. Mas tudo fica mais caro de um dia para outro – de alimentos a serviços e passagens. E bem acima dos salários.

Fiz um teste com uma lista de supermercado. Grãos, legumes, frutas, carnes, peixe, legumes, verduras, laticínios, produtos de limpeza. Mínima quantidade de cada mercadoria. No mercado Zona Sul do Leblon, paguei R$ 452. No mercado Mundial, da Barra da Tijuca, R$ 345. Mesmas marcas, mesmos pesos. E uma diferença de 30% no preço total. Só 12 quilômetros separam os dois estabelecimentos. Pesquise sempre em qualquer cidade. Rasgar dinheiro é atestado de loucura.

Muitos bares e botequins do Rio de Janeiro e de São Paulo aprenderam a lucrar o máximo, tirando proveito da crise real e psicológica. Reduzem as porções – e o tamanho dos salgados – e cobram R$ 5 a unidade. Em botecos cariocas recomendados por guias, como Jobi ou Chico e Alaíde, os croquetes e bolinhos de aipim ficaram raquíticos, viraram umas bolinhas. E mais caros. Parece que R$ 5 passou a ser o valor mínimo de qualquer coisa. É quanto os quiosques da praia cobram por uma água de coco que pode acabar em três goles. Absurdo!

O quiosque Palaphita Kitch, com bela vista na Lagoa Rodrigo de Freitas, se define como uma “experiência mística”, onde você “entra um e sai outro” – bem mais pobre e revoltado com os preços e o serviço. Uma caipirinha de cachaça “especial” custava ali R$ 26 até pouco tempo atrás! Em Búzios, na costa norte do Rio, um picolé na Praia de Geribá chega a custar R$ 13. Não, obrigada. Vou direto ao fornecedor para satisfazer o desejo por sorvetes.

Jovens resolveram contra-atacar a carestia desenfreada lançando sites úteis. O www.riomaisbarato.com.br dá dicas de opções culturais gratuitas e lugares para comer e beber que não provoquem indigestão na hora da conta. Em São Paulo, quatro amigos criaram o www.boicotasp.com.br para alertar sobre as armadilhas. Os usuários denunciam o grau de exploração do lugar, de 0 a 5, e podem publicar foto do que consumiram com o preço ao lado.

A remarcação abusiva de preços é um duplo tiro no pé. Primeiro, afasta o cliente. O consumo das famílias brasileiras caiu drasticamente no primeiro trimestre de 2013. Todos pensam duas vezes antes de comprar. A inadimplência aumentou. Uma pesquisa da Fecomércio do Rio em nove regiões metropolitanas mostrou que os brasileiros passaram a parcelar compras de alimentos com cartão de crédito. É a primeira vez que isso acontece nos últimos sete anos.

Não somos o povo mais culto do mundo. Mas a classe média não é desinformada. Os gastos de turistas brasileiros no exterior se multiplicam. Nos Estados Unidos, o que gastamos em compras só perde para japoneses e britânicos. Em Paris, as ruas estão coalhadas de conterrâneos. Não é só porque o poder aquisitivo da classe média aumentou no Brasil. É porque nosso país está caro demais, impraticável. Gasolina, transporte, restaurante, shows.

Uma tendência atual é viajar para Nova York ou Miami para fazer o enxoval do bebê. Compra-se pela metade do preço, ou um quinto do preço às vezes, uma mercadoria de mais qualidade que a oferecida no Brasil. Nosso país e o governo Dilma não fazem o menor esforço para estimular o turismo e o consumo domésticos, com preços competitivos. Não temos ferrovias, e as passagens de avião são um escândalo no Brasil. Na Europa, há promoções incríveis com hospedagem. Barato para o padrão nacional.

No bairro de Saint-Germain, em Paris, é possível comer direito em restaurante chinês, japonês ou francês por 8 euros (entrada, prato e sobremesa). Restaurantes sofisticados oferecem menus de almoço em conta, numa relação custo-benefício inexistente no Brasil. E os vinhos? Um chileno de média para baixa qualidade custa, no Brasil, o mesmo que um bom Bordeaux em Paris. Nos Estados Unidos, compra-se um Mouton Cadet por menos de US$ 10. Resultado: turistas brasileiros têm comprado lá fora caixas de vinho.

O vilão são os impostos, as taxas? Está na hora de adequar tudo aos salários. O consumidor não é masoquista. Ninguém está disposto a enlouquecer com os preços. Esperamos que Dilma não imite a viúva Kirchner. A Argentina pune as vítimas de sua política econômica e não os malfeitores. Podemos fazer melhor. 

O dólar volta ao centro do debate econômico

O Estado de S.Paulo

O dólar comercial é um preço-chave da economia. Chegou a valer, ontem à tarde, R$ 2,11, alta de 1,8% em relação a terça-feira e de mais de 5% em relação a abril. O governo vinha se abstendo de intervir no câmbio, o que favoreceu a alta num momento em que a economia norte-americana dá sinais de vitalidade e o dólar se fortalece como moeda de reserva (apesar da instabilidade dos últimos dois dias). É usual que os países atuem no mercado de câmbio, mas apenas para evitar grandes oscilações, com expressivos ganhos - ou perdas - para bancos e empresas.

Mas, no Brasil, o governo parece tratar a taxa de câmbio como preço administrável. É um equívoco que leva a riscos desnecessários.

A escalada altista do dólar atende à atividade de exportação, cujos resultados são ruins (o déficit comercial acumulado até 24 de maio foi de US$ 4,6 bilhões). Assessores informais do governo acreditam que o valor (baixo) do dólar é o principal problema da economia brasileira. Uma desvalorização acentuada do real permitiria desestimular as importações e remover pressões imediatas sobre o balanço de contas correntes, cujo déficit já atingiu a marca crítica de 3% do PIB.

Estimulando exportações, um dólar valorizado ajudaria, ainda, a fortalecer o PIB, cujos resultados, no primeiro trimestre, foram medíocres, inclusive pela queda das exportações (na ótica da demanda, as exportações caíram 5,7% entre os primeiros trimestres de 2012 e 2013) e a alta de importações.

Mas uma valorização mais acentuada do dólar terá efeitos negativos na economia brasileira, elevando a pressão inflacionária e piorando os balanços dos devedores em dólar, além de mexer no salário real.

A política econômica poderá se tornar mais desarticulada se o governo insistir em objetivos conflitantes - política fiscal frouxa, inflação controlada por medidas administrativas, crescimento mínimo do PIB de 2,7%, benefícios tributários para categorias escolhidas e crédito farto dos bancos públicos.

A prioridade seria uma política econômica convencional, respeitando as metas fiscais e monetárias e atuando no câmbio apenas para evitar oscilações bruscas. A comunicação sobre as políticas essenciais (câmbio e juros) deve ser cuidadosa, evitando boatos que só servem para operadores financeiros. A cotação do dólar está ligada à solidez das contas externas. Não se escapa disso, por mais que se pense que o governo pode determinar o câmbio.

Conta fiscal pior reduz o espaço do governo

O Estado de S.Paulo

Em abril, houve acentuada piora das contas públicas, segundo o Banco Central. A principal consequência é que o governo federal terá menos margem de manobra para aumentar gastos, na contramão do que desejaria depois da abertura da fase eleitoral.

Nos meses de abril de 2011, de 2012 e de 2013, o superávit primário (resultado das contas públicas excluídos os juros) caiu de R$ 18 bilhões para R$ 14,2 bilhões e R$ 10,3 bilhões. Comparados os primeiros quadrimestres de cada ano, o superávit primário caiu de 4,43% do PIB para 4,33% e está em 2,7% do PIB. O enfraquecimento das contas públicas foi, além disso, generalizado.

Nas contas nominais, usadas universalmente e nas quais se incluem os juros, houve, nos primeiros quadrimestres, déficits de R$ 1,64% do PIB, em 2011, de 1,15% do PIB, em 2012, e de 2,58% do PIB, neste ano. Déficits que se deveram quase que totalmente ao governo federal.

Só no primeiro quadrimestre do ano, o déficit nominal do governo federal, de 2,9% do PIB, superou R$ 44 bilhões. Justamente num período sazonalmente mais favorável para as contas públicas. No segundo semestre, as despesas devem crescer, entre outros motivos, porque entra o pagamento do 13.º vencimento ao funcionalismo público.

A dívida pública mobiliária está deixando de cair e este é um dos problemas que se anteveem. E a dívida bruta dos governos federal, estaduais e municipais (excluídas as estatais) aumentou de 58,7% do PIB, em dezembro, para 59,2% do PIB, em abril. Já as disponibilidades desses governos diminuíram de 1,9 ponto porcentual do PIB (R$ 66 bilhões). Por ora, há recursos internos e externos suficientes para enfrentar a piora das contas públicas, mas, como as pressões políticas pelo aumento de gastos tendem a se intensificar no próximo semestre e no ano que vem, é mais que hora de uma política fiscal de contenção.

A necessidade de elevar o juro básico de 7,5% ao ano para 8% ao ano para controlar as expectativas inflacionárias agrava os custos. Nos primeiros quadrimestres de cada ano, as despesas com juros nominais caíram relativamente pouco, de 4,88% do PIB, em 2011, para 4,63%, em 2012, e 4,7% do PIB, neste ano.

O melhor para enfrentar a fragilidade fiscal é atrair recursos privados para financiar os investimentos, retirar do Estado o excesso de responsabilidades assumidas, rever as desonerações e subsídios e os financiamentos do BNDES mediante transferências da União.

Fundos de private equity trocam Brasil pela África

Exame.com
Altamiro Silva Júnior , Estadão Conteúdo

O Brasil despencou para a sexta posição em um ranking de atração de investimento que acaba de ser concluído pela Empea

Marc Tirl/AFP 
Os países da África Subsaariana, que ocupavam o quinto lugar no ano passado,
 viraram agora os queridinhos dos investidores institucionais e aparecem no topo do ranking

Nova York - O Brasil já não é mais o país preferido de investidores institucionais, como fundos de private equity (especializados em comprar participação em empresas) e fundos de pensão para aplicar seus recursos.

O País despencou para a sexta posição em um ranking de atração de investimento que acaba de ser concluído pela Empea, uma associação com sede em Washington formada por 320 fundos e gestoras que aplicam em países emergentes e administram US$ 1 trilhão em recursos.

Em 2011, o Brasil ficou em primeiro lugar no levantamento anual da Empea sobre os países mais atrativos para se investir. Em 2012, caiu para o segundo lugar. Neste ano, passou para a sexta posição.

Os países da África Subsaariana, que ocupavam o quinto lugar no ano passado, viraram agora os queridinhos dos investidores institucionais e aparecem no topo do ranking.

A diretora sênior da Empea, Nadiya Satyamurthy, diz que, apesar de não estar mais no topo do ranking, o Brasil ainda é um destino importante para os fundos de private equity e outros investidores institucionais, como seguradoras, fundos de pensão e empresas de gestão de fortuna.

Segundo ela, 40% dos gestores entrevistados na pesquisa planejam iniciar novos investimentos no Brasil ou expandir os atuais projetos nos próximos dois anos. Só 2% dos entrevistados afirmaram que planejam reduzir ou parar com suas apostas no mercado brasileiro.

"O interesse maior pela África agora é visto mais como uma forma de diversificar os investimentos", explicou Nadiya ao Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado. Ao todo, 54% dos gestores planejam aumentar ou iniciar investimento no continente africano.

Na pesquisa, os investidores apontam alguns motivos que levaram o Brasil a deixar de ser um dos países mais atrativos para investimento. Aumento da competição de fundos no mercado brasileiro, preços altos dos ativos e risco político são os três principais.

Já a África é citada como uma região com perspectiva de crescimento econômico acelerado e de maiores retornos, embora com maior instabilidade política.

Brics
O Brasil não é o único grande país emergente a perder posições no ranking, mas foi o que teve a queda mais acentuada em 2013. Este foi o primeiro ano, desde que a associação começou a fazer o ranking, há nove anos, que nenhum país da sigla Brics (Brasil, Rússia, Índia e China e África do Sul) ficou nas três primeiras posições.

Antes de o Brasil ser o líder, a China era a preferida e este ano, o país caiu para a quarta posição. O segundo lugar no levantamento é ocupado por países do Sudeste Asiático e o terceiro por América Latina, excluindo o Brasil. A Turquia também vem ganhando posições, passando do sétimo lugar para a quinta posição. Já a Índia despencou para a nona posição.

Os mercados emergentes devem continuar oferecendo maiores retornos do que os países do primeiro mundo. Dos entrevistados, 61% esperam rentabilidade líquida anual acima de 16% nos emergentes.

O Brasil, porém, é considerado um mercado caro: 26% dos gestores disseram que os preços dos ativos no País estão altos e que preferem aplicar em outros mercados da América Latina.

O encarecimento dos ativos é reflexo do aumento da competição dos fundos no mercado brasileiro. Hoje, segundo dados da Abvcap, os fundos de private equity tem aproximadamente R$ 83 bilhões em capital comprometido no País.

Prioridade ao investimento

Celso Ming
O Estado de São Paulo 

Sob o impacto do avanço decepcionante do PIB no primeiro trimestre, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou no último dia 29 que há mudança na política econômica: o governo federal não vai mais incentivar o consumo, dará prioridade ao investimento. É hora de avaliar o que é preciso fazer para garantir sucesso nessa virada.

Primeiro convém saber até que ponto há sinceridade nisso. Se é verdade, por exemplo, que o governo prepara uma prorrogação de isenção ou redução tributária para a venda de veículos e aparelhos domésticos, então já não é para levar tanto a sério o anúncio do ministro.

 (FOTO: Ed Ferreira/Estadão)
Mantega. Disposição para mudar? 

Mas, se for para dar toda força ao investimento, então muita coisa tem de mudar. É importante levar em consideração que turbinar o investimento não significa necessariamente reprimir o consumo.

Todo investimento implica uma lista enorme de contas a pagar bem antes da criação de riqueza prevista nele. Uma hidrelétrica, por exemplo, começa a gerar despesas no momento em que o primeiro técnico faz o esboço do projeto no computador. Essas despesas se multiplicam com levantamentos geológicos, engenharia, licenciamento ambiental, materiais, mão de obra. São, digamos, entre 8 e 10 anos só de despesas, sem faturamento correspondente, porque o primeiro quilowatt/hora apenas será gerado quando a primeira turbina vier a ser acionada. Ou seja, um grande programa de investimentos gera também forte demanda, que precede os resultados.

Caso seja mesmo para criar condições para a multiplicação do investimento, então é necessário propiciar regras constantes de jogo que, por sua vez, garantam remuneração adequada aos operadores dos projetos. E isso é diferente do que vem acontecendo sob coordenação de um governo que ainda não se livrou de certos preconceitos ideológicos, segundo os quais iniciativas desse tipo configuram o que alguns lá em Brasília continuam chamando de privataria.

Para assegurar regras confiáveis de jogo é preciso, também, fortalecer as agências reguladoras, para impedir desvios. Ou seja, têm de ser organismos de Estado, vacinados contra contaminações políticas e não, como são hoje, instrumentos de governo e, nessas condições, sujeitos ao jogo político.

Para abrir espaço ao investimento, será necessário também desenvolver o mercado de capitais fornecedor de financiamentos de longo prazo para que aconteçam duas coisas. Primeira, redução de sobrecarga do BNDES, que não dá conta nem do que já tem para financiar, e segunda, disponibilidade de financiamentos em volume e juros compatíveis com o custo dos projetos. Isso tudo exige mais estímulos à poupança.

As regras estáveis de jogo mencionadas, por sua vez, pressupõem estabilidade da política econômica. Um operador de projetos que não sabe qual inflação vai enfrentar, com que tipo de câmbio vai lidar, que juros vai pagar e que todos os dias está sujeito aos vaivéns do governo não pode mesmo trabalhar direito. Em outras palavras, um ambiente favorável ao investimento exige clima de confiança e este, por sua vez, firmeza e estabilidade na condução da economia. Está o governo Dilma disposto a isso?

CONFIRA:


Aí está a evolução do comércio exterior nos últimos 12 meses.

O rombo continua. Os resultados fracos nos meses anteriores eram, em parte, devidos a mudanças metodológicas nos lançamentos de importação de combustíveis que, na prática, contabilizaram em 2013 despesas que normalmente cairiam em 2012. Agora se vê que, independentemente da mudança, o rombo continua aumentando. Nos cinco primeiros meses do ano, as importações cresceram 9,8% em relação ao mesmo período de 2012. Enquanto isso, as exportações caíram 2,8%.

Indústria ainda está longe de patamar de dois anos atrás, diz IBGE

Diogo Martins
Valor


RIO - A indústria brasileira, nos quatro primeiros meses de 2013, apresentou um comportamento bem diferente do observado no fim de 2012. Mesmo assim, o setor opera abaixo do patamar recorde de produção, afirmou o gerente da coordenação da indústria do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), André Luiz Macedo, ao comentar os dados da Pesquisa Industrial Mensal – Produção Física (PIM-PF Brasil), divulgada nesta terça-feira.

“Se olharmos 2013, a indústria apresenta resultados positivos, num ritmo totalmente distinto do que terminou em 2012. Hoje, as taxas positivas são bem disseminadas”, afirmou Macedo.

A produção industrial cresceu 1,8% em abril, após alta de 0,8% em março, queda de 2,4% em fevereiro e avanço de 2,7% em janeiro, na série dessazonalizada.

Em abril, dos 27 ramos investigados pela PIM-PF, 17 tiveram alta na produção. O índice de difusão da pesquisa, que aponta o percentual de produtos que tiveram aumento de produção, ficou em 61,2% em abril (ante março), acima dos 21,6% observados em dezembro (ante novembro).

Apesar da melhora na conjuntura industrial, na avaliação de Macedo, ele pondera que o patamar da produção industrial ainda está abaixo do recorde da série, em maio de 2011. “Isso mostra que ainda há um longo caminho para a indústria percorrer”, afirmou ele.

Melhores condições de financiamento por meio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para vários setores e safra agrícola recorde influenciaram a produção de bens de capital em abril, que cresceu pelo quarto mês consecutivo. A afirmação é do gerente da coordenação da indústria do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), André Luiz Macedo.

A PIM-PF Brasil mostrou que a produção de bens de capital cresceu 3,2% em abril, depois de aumentar 0,7% em março, 1,7% em fevereiro, e 9,3% em janeiro, feitos os ajustes sazonais. Nesse período, a categoria de uso acumulou ganho de 15,5%.

Na comparação com abril de 2012, a produção de bens de capital subiu 24,4%, o melhor resultado interanual desde agosto de 2010, quando cresceu 26,5%. No acumulado do ano até abril, a produção de bens de capital cresceu 13,4%, mas, em 12 meses, caiu 4,4%.

“Uma série de incentivos governamentais foi concedida nos últimos meses a partir da redução de custos de financiamento via BNDES para diversos segmentos, como transportes. Isso vem ajudando a alavancar a produção de bens de capital. Além disso, há também a safra recorde que aumenta a demanda especificamente por bens de capital agrícolas”, afirmou Macedo. Esse crescimento de bens de capital também pode estar relacionado a uma antecipação de demanda, disse Macedo.

Contribuiu para esse crescimento os segmentos de veículos automotores, máquinas, aparelhos e materiais elétricos, máquinas e equipamentos e outros equipamentos de transpores. “Esses setores foram puxados por aumento na produção caminhões, tratores, bens de capital da indústria e agrícola, transformadores, aviões entre outros”, disse o especialista.

Na comparação com abril de 2012, a produção de bens de capital para a indústria cresceu 20,7%; para a agricultura 28,7%; para transporte 34%; para energia 18%; para construção 18,4%; e para uso misto 15,2%.