segunda-feira, outubro 11, 2021

O País que queremos ser

 Editorial

O Estado de S.Paulo

O Brasil estará condenado a um período de mediocridade caso o próximo governo não seja capaz de oferecer melhores perspectivas para 47,8 milhões de jovens

O Brasil estará condenado a um longo período de mediocridade caso o próximo governo não seja capaz de oferecer melhores perspectivas de vida para os 47,8 milhões de jovens na faixa entre 15 e 29 anos. O mais recente Atlas das Juventudes, realizado pelas redes de organizações Em Movimento e Pacto das Juventudes pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, em parceria com a FGV Social, revela que quase a metade deste contingente populacional (47%) sairia do Brasil hoje caso tivesse oportunidade. É muito grave que tantos jovens não enxerguem seu futuro atrelado ao do País. Mais ainda, que não se sintam motivados a tomar parte da construção deste destino.

O desalento de segmento tão expressivo da juventude brasileira é ainda mais preocupante porque o País vive agora o chamado “bônus demográfico”: nunca a população entre 15 e 29 anos foi tão grande em nossa história. A tendência é que, daqui em diante, esta faixa populacional fique cada vez menor. As gerações em plena efervescência criativa e produtiva são o dínamo capaz de levar qualquer país do mundo aonde sua sociedade queira chegar.

Portanto, é muito triste constatar que muitos milhões desses jovens brasileiros sintam como se o país em que nasceram lhes tenha virado as costas. “Não há melhor previsor do futuro do País que o universo dos jovens de hoje”, bem lembraram os pesquisadores da FGV Social, a propósito da publicação da pesquisa Jovens: Projeções Populacionais, Percepções e Políticas Públicas, há poucos dias (ver editorial Retrato da juventude brasileira, publicado em 12/6/2021).

A tempestade perfeita gerada pela confluência das crises econômica e sanitária foi particularmente cruel para a população mais jovem. Do total de jovens entre 15 e 29 anos, nada menos do que 70% afirmam ter dificuldade para encontrar trabalho. O porcentual de “nem-nem”, ou seja, de jovens que nem estudam nem trabalham, nunca foi tão alto: 27,1% dos quase 50 milhões naquela faixa etária, de acordo com o Atlas das Juventudes. Os jovens também foram os que mais perderam renda na pandemia – 11%, de 25 a 29 anos; 17%, de 20 a 24 anos; e 26%, de 15 a 19 anos. Também é o contingente que apresenta a maior involução do índice de Gini, que mede a desigualdade – aumento de 3,8% da desigualdade entre jovens, ante 2,7% do conjunto da população até 2019.

O quadro que se apresenta é o de um país incapaz de instilar esperança. Os jovens brasileiros são os que menos acreditam na progressão de vida por meio do trabalho (70%) na América Latina. Nos vizinhos Argentina e Uruguai, o grau de confiança é de 85% e 84%, respectivamente. Na Bolívia, 91%. Na Colômbia, 89%. No Chile, 87%.

O Atlas das Juventudes também afere a percepção dos jovens sobre a maneira como o presidente da República governa. No período compreendido entre 2011 e 2014, a aprovação foi de 60,6% (57,5% no mundo). Já no período entre 2015 e 2019, a aprovação do governo entre a juventude despencou para 12,1%, enquanto se manteve estável, em média, nos outros países (57,4%). Resta absolutamente claro, portanto, que uma das principais missões do próximo presidente da República será resgatar a confiança dos jovens brasileiros no País. E isto só será possível por meio de políticas públicas responsáveis e muito bem elaboradas e implementadas, especialmente na área econômica, com vistas ao aumento da geração de emprego e renda, e, não menos importante, na área de educação, especialmente afetada pela pandemia e chave para a qualificação desses jovens e para o desenvolvimento do País.

O impacto do descaso do governo Jair Bolsonaro pela educação pode ser sentido até mesmo pelos jovens mais qualificados, que não veem condições de permanecer no Brasil (ver editorial Fuga de cérebros, publicado em 9/6/2021).

“As juventudes têm potencial para protagonizar agendas globais e locais de desenvolvimento social, mas, para isso, precisam do apoio de governos e de outros parceiros”, diz trecho do Atlas das Juventudes. Descuidar deste apoio é um crime contra o futuro do Brasil.


Políticos precisam de projeto transformador para o Brasil, sem olhar para o próprio umbigo

 Juan Arias

El Pais

É preciso revolucionar toda a política, começando pela economia, para não transformar o Brasil rico em recursos naturais em um país de famintos e miseráveis

JOÉDSON ALVES (EFE)

Imagem de arquivo de julho de 2021 durante manifestação 

contra o presidente Jair Bolsonaro.

O Brasil atravessa uma das maiores crises políticas desde a democratização. As próximas eleições ainda são uma grande incógnita e poderiam evocar novamente a ameaça de um golpe se Jair Bolsonaro visse que poderia perder a reeleição, principalmente se as pesquisas continuarem apontando Lula como vencedor. Qual poderia ser, nesse caso, a reação do Exército?

Enquanto isso, os partidos e políticos do arco democrático, diante do deserto de ideias novas para recriar a imagem desgastada de um país cada vez mais cético e desiludido, ainda não conseguiram surpreender a nação com um projeto realista e esperançoso para reconstruir uma nova sociedade que consiga reconquistar a confiança em si mesma.

Para isso, o novo projeto de nação precisaria revolucionar toda a política, começando pela economia, para não transformar o Brasil rico em recursos naturais em um país de famintos e miseráveis. Precisa também repensar toda a questão da educação, já que continua sendo um dos países onde o ensino é desprezado e onde os professores seguem sendo os mais mal pagos e os menos respeitados do mundo moderno. A educação precisa de uma revolução que leve em conta todas as iniciativas de inovação já em andamento nas democracias.

O Brasil precisa urgentemente de uma revolução copernicana na política ambiental, hoje destroçada pelo Governo bolsonarista, algo que preocupa e deixa em alarme até os outros países do mundo.

O Brasil precisa repensar urgentemente uma nova política sanitária após a catástrofe e os escândalos que estão aparecendo no Ministério da Saúde, que ficou em má situação com a política de corrupção engendrada durante a pandemia.

Também é preciso resgatar dos escombros a maltratada e desprezada cultura, reduzida a um deserto que envergonha até os menos cultos.

E a política externa, que já foi louvada como uma das mais dinâmicas do mundo? Com quais países queremos andar de mãos dadas em busca do lugar que o Brasil merece por sua importância planetária? Queremos continuar olhando pelo retrovisor ou queremos caminhar olhando para a frente para não perder o passo dos países que já estão vivendo no futuro?

E a ciência? O Brasil continua sem ter nenhum Nobel e, como temos visto na política negacionista da pandemia, a ciência tem sido desprezada até extremos inconcebíveis.

O Brasil ainda caminha aos tropeções, sem um rumo seguro e original, caindo nos mesmos pecados de sempre. Enquanto isso, os partidos − da esquerda à direita ou ao centro − que pretendem substituir um Governo que empobreceu o país em todos os aspectos ainda não conseguiram apresentar, nem individual nem coletivamente, um projeto de nação inovador e confiável para os eleitores.

A única grande preocupação que mais uma vez aparece é como conquistar votos sem explicar o que fazer com eles. Continuam olhando para o próprio umbigo. O que parece lhes importar não é tanto a nação em si nem como retirá-la das ruínas em que a loucura do bolsonarismo destrutivo a transformou. Em vez de os partidos se preocuparem em ver quem apresenta um projeto mais inovador de país, eles parecem interessados em ver quantos senadores ou deputados ou governadores poderão conseguir nas próximas eleições.

É a velha e desgastada política dos interesses próprios, pessoais ou partidários. O interesse do país como nação lhes interessa pouco. O que mais lhes interessa é continuar tirando proveito da política com “p” minúsculo, que se confirma com a visão estreita de quem só sabe olhar para o próprio umbigo.

Nem mesmo o PT de Lula, apontado pelas pesquisas pré-eleitorais como vitorioso contra qualquer outro candidato, apresentou até agora um programa que surja como uma nova visão do país, algo revolucionário para lançar o navio em alto mar rumo à conquista de novos horizontes.

Ao que parece, o próprio Lula, apesar de contar com milhões de votos e em vez de ele e seu partido já terem, juntamente com os outros partidos progressistas, apresentado um projeto revolucionário e transformador, está dedicando suas forças à política pequena de sempre, procurando garantir possíveis candidatos para aumentar suas fileiras no Congresso e nos Estados. Essa é a velha política, que tanto contribuiu para a chegada do novo fascismo bolsonarista.

O que parece difícil de entender é como o PT, partido com tanta história, não consegue encontrar novos dirigentes jovens, com mentalidade de modernidade, alheios à velha política desgastada, capazes de ver o mundo pelos olhos dos o futuro. Jovens capazes de entender que a política também evoluiu e precisa de sangue novo para saber se adaptar à grande revolução mundial.

Hoje se fala também sobre os possíveis candidatos da chamada terceira via para quebrar a luta entre esquerda e extrema direita. Mas o que estamos vendo é uma guerra de egos para se candidatar à presidência, em vez de eles também proporem esse novo projeto de nação capaz não só de garantir a democracia, como de oferecer projetos concretos e críveis que sirvam para resgatar o país da desconfiança e do descrédito geral da política. Um projeto que acabe com o maldito mantra político de que “eles são todos iguais”. Não são, mas precisam ser capazes de convencer os eleitores do contrário com fatos.

Pode haver uma surpresa desagradável se, nas próximas eleições, os partidos não golpistas não conseguirem convencer os eleitores de que é possível sair do inferno e da desesperança para os quais foram arrastados pelo bolsonarismo fascista e golpista ou pelo capitão, que demonstrou que nem sabe nem tem interesse em governar em uma democracia e sonha em ter o poder absoluto dos velhos ditadores. Isso significaria perder, por muitos anos mais, a esperança de que é possível esperar algo diferente e melhor da política.

Muito pessimismo? Talvez, mas é que as misteriosas nuvens de poeira que começam a preocupar várias cidades do Brasil poderiam ser o triste simbolismo de uma involução política destinada a contaminar até mesmo as instituições que deveriam garantir a democracia e a modernização do país.

O poder da decadência

 Bolívar Lamounier, 

O Estado de S.Paulo

Poder político brasileiro é pateticamente débil, e nada autoriza a crer que logo seremos um colosso. 

Centenas de pessoas não perdem uma chance de cobrar “realismo” dos jornalistas e analistas políticos, como se a realidade política fosse uma coisa unidimensional, percebida sempre da mesma forma por toda a sociedade, hoje, amanhã e sempre.

Poucos se dão conta de que a “realidade” de hoje pode não ser a de amanhã, que por sua vez poderá diferir bastante da que teremos na próxima década. Esta observação seria inútil, se tivéssemos como superar as crises e acertar os rumos do País sem um grau razoável de convergência em nossas percepções. Sem esquecer que nossas preferências também divergem: alguns querem a democracia, outros anseiam por alguma forma de ditadura. Isso posto, peço licença para hoje escrever sobre uma realidade um tanto indefinida, que combina elementos de hoje com alguns de nosso passado histórico e outros situados no futuro, sendo que, sobre estes, é pouco o que nos é dado conhecer.

Ainda assim, atrevo-me a antecipar que o poder político brasileiro – vale dizer, nosso Estado – é pateticamente débil, uma decantação hoje virtualmente petrificada de muitos fracassos, e que nada nos autoriza a crer que logo seremos um colosso. Em 1958, Celso Furtado explorou esse tema pelo lado da história econômica, com o objetivo de demonstrar que os grandes ciclos econômicos que vivemos (cana-de-açúcar no Nordeste, mineração de ouro e diamantes em Minas e, finalmente, o café em São Paulo) não deixaram uma base sólida para um processo sustentável de industrialização, sem o qual não teríamos desenvolvimento, bem-estar e autonomia nacional. Examinando o mesmo fato pelo lado político, vemos que os resultados logrados foram ruins para a industrialização e desastrosos para a construção do Estado, uma vez que abriram espaços para um contínuo relançamento do patrimonialismo – a apropriação do poder político por setores empresariais decadentes, que se especializaram em concentrar os ganhos e socializar as perdas. Duas exceções permitem amenizar em certa medida esse argumento. A exaustão do ouro deixou alguns núcleos favoráveis à pecuária bovina; nessa área, o empresariado do Triângulo Mineiro, lixando-se para o governo federal, desencadeou um poderoso crescimento a partir da importação e aclimatação das raças zebuínas da Índia. O café, cujo legado foi mais importante, a começar pela passagem do trabalho escravo para o assalariado, não diferiu totalmente da cana-de-açúcar, uma vez que, forçado pela superprodução, teve de recorrer à generosidade estatal, trocando sua altivez política pelas mesmas bênçãos do Estado, que atuou como intermediário em mais uma reedição da “socialização das perdas”.

Essa, em grandes linhas, é a história de nosso mastodôntico Estado, cuja congênita inviabilidade se evidenciou com o experimento da industrialização em “marcha forçada” deslanchado pelo governo do general Ernesto Geisel. A “realidade” com que hoje nos deparamos é, pois, uma estrutura de poder incapaz de promover o crescimento num ritmo compatível com o aumento da população, com a superior organização de nossos competidores internacionais e com nossa dramática anemia educacional, científica e tecnológica.

Esta é a base sine qua non que precisamos levar em conta para delinear futuras realidades que podem estar à nossa espreita logo ali, ou um pouco à frente. O Brasil vive hoje uma polarização política infantil e estéril, contrapondo dois líderes populistas que bem fariam em se aposentar, dado já terem feito tudo o que ninguém os julgava capazes de fazer pelo Brasil – para o bem e para o mal. Lula, aos 77 anos, já bateu no teto, e o mesmo acontece com Bolsonaro, na pujança de seus (presumíveis) 15 anos. Sabemos todos que o clima de radicalização e turbulência é música para os ouvidos de Bolsonaro, reforçando a condutibilidade atmosférica que lhe facilita mobilizar seus fanáticos. Dá-se, no entanto, que este clima mantém o dólar valorizado e empurra a inflação para cima, a última crueldade que nossa medíocre politicagem pode perpetrar contra os 46 milhões de indivíduos que vivem em lares com zero reais de renda mensal.

Eu, com certeza, serei acoimado de irrealista se disser que ambos, Lula e Bolsonaro, poderiam fazer-nos o favor de ir para casa, para que o Brasil possa voltar à sua precária normalidade e retomar o processo de crescimento econômico. Realistas são os que tentam ver Lula não só como o imbatível antiBolsonaro, mas também como o grande estadista-pacificador que ele nunca foi e não tem condições de ser. Com lápis e papel à mão, os que insistem em enxergar a realidade por esse prisma já podem, então, pôr mãos à obra, rascunhando seu cenário para daqui a dez anos. No centro de seu idílico desenho estará – Deus seja louvado – nossa política, finalmente renovada pelo Centrão. Os 46 milhões sem renda terão subido um nível, compartilhando a felicidade dos que auferem ao menos até um salário mínimo de renda mensal. Entre os Três Poderes, reinarão a harmonia e a independência que a Constituição tão sabiamente prescreve.

*MEMBRO DAS ACADEMIAS PAULISTA DE LETRAS E BRASILEIRA DE CIÊNCIAS, SEU MAIS RECENTE LIVRO É ‘ANTES QUE ME ESQUEÇA’ (EDITORA DESCONCERTOS) 


DESESPERANÇA: Debandada de brasileiros ao exterior atinge recorde no governo Bolsonaro

 Leonardo Lellis 

Revista VEJA

A diáspora cresceu quase 20% mesmo na era de fronteiras fechadas durante a pandemia

 ./Arquivo pessoal

 

NA TERRA DO CANGURU - Doutora em química, a maranhense Adriana Pires Vieira foi contratada por uma universidade australiana para desenvolver pesquisas em energias renováveis. “Eu senti um misto de alegria e tristeza porque o país que me formou não aproveitou o conhecimento que tenho a oferecer”, afirma, ao se lembrar de quando recebeu o visto voltado a pessoas com conhecimentos excepcionais. - 

Guerras e grandes desastres naturais estão entre os principais geradores na história de grandes fluxos de imigração. No caso do Brasil, que não enfrenta nenhuma dessas catástrofes (felizmente), mas sofre no momento com duas crises agudas (sanitária e econômica), o ceticismo com relação a um futuro melhor tem levado um número recorde de pessoas a tentar a vida no exterior. A onda que vinha crescendo desde 2015 ganhou maior velocidade nos últimos dois anos, mesmo com fronteiras fechadas por um bom tempo durante a pandemia. Segundo dados recentes do Ministério das Relações Exteriores, há 4,2 milhões de brasileiros vivendo longe do país, um aumento de quase 20% sobre o número de 2018. Isso é ainda mais impressionante quando se considera que o dado não computa com precisão quem saiu daqui e se encontra em situação ilegal lá fora. Estimativas falam em até 50% a mais de gente nessa condição, o que elevaria para acima de 6 milhões o volume da diáspora.

 


Além do patamar inédito, o perfil dessa debandada tem características novas, a começar pela mudança do perfil de parte considerável dos imigrantes. O desalento com o Brasil é amplo, geral e irrestrito e o aeroporto tem sido a única saída para quem busca qualidade de vida e carreiras mais atraentes. O presidente Jair Bolsonaro, que nunca disfarçou seu desapreço pela produção de conhecimento, conseguiu a façanha de acentuar o perfil de quem vai embora para oferecer a países desenvolvidos a excelência que faz falta aqui: é cada vez maior o número de famílias com integrantes com ao menos um diploma de ensino superior indo embora, sem intenção alguma de voltar. Entre 2019 e 2020, o Brasil caiu da 63ª para a septuagésima posição no quesito retenção de talentos em um ranking global de competitividade, elaborado pela instituição Insead. Uma verdadeira “fuga de cérebros”. “É um problema de falta de perspectiva”, afirma Vanessa Cepellos, professora de gestão de pessoas da FGV. “O salário aqui acaba sendo mais baixo e o custo de vida, muito alto. A conta não fecha e os profissionais acabam buscando outras oportunidades.”

  – ./Arquivo pessoal

FRONTEIRA SUL – O engenheiro gaúcho Everton de Almeida Lucas formou-se no Rio Grande do Sul, mas mudou-se para o Uruguai atraído pela estabilidade econômica e qualidade de vida. Lá, trabalha em uma companhia de energia eólica, concluiu um mestrado e dá aulas no ensino superior. “Aqui, o setor produtivo está mais próximo das universidades e os programas de incentivo educacional não mudam conforme o governo”, compara.

Além do aumento de quase 20% entre 2018 e 2020 no número de brasileiros morando fora, os números estimados pelo Itamaraty revelam o surgimento de novos destinos de preferência. O aumento mais notável foi registrado na Irlanda, onde a comunidade brasileira mais que triplicou e, de uns anos para cá, tornou-se o lugar favorito de intercambistas atraídos por preços de cursos mais em conta do que no vizinho Reino Unido e por um visto que permite conciliar estudo e trabalho. Quem vai para o país também conta com oportunidades nas áreas de tecnologia, saúde ou finanças. “Tenho um padrão de vida aqui que não teria no Brasil”, afirma o executivo de marketing digital Matheus Teodoro, de 29 anos, que mora desde 2019 em Dublin com a esposa, também brasileira. A história é semelhante à do consultor em segurança da informação Deivid Luchi, 29, que chegou a prestar serviços para grandes bancos no Brasil trabalhando em Porto Alegre, mas trocou o país pela Austrália em busca de melhores oportunidades e hoje procura profissionais daqui para compor a equipe que lidera em Melbourne. “Os brasileiros são muito bem reconhecidos e valorizados internacionalmente”, diz.

 – ./Arquivo pessoal 

SONHO IRLANDÊS – O paulista Matheus Teodoro foi para Dublin fazer intercâmbio e, depois de dois anos trabalhando na área de tecnologia, conseguiu permissão do governo para se instalar permanentemente no país europeu. “Tenho um padrão de vida que não teria no Brasil em um emprego equivalente. O dinheiro tem mais valor”, conta ele, que ainda concilia as obrigações com passeios pelo continente. 

A Austrália, aliás, investe pesado para atrair estrangeiros qualificados. O setor educacional chega a superar o volume de receitas geradas pelo turismo no país — 38,4 bilhões de dólares no último ano. O país concorre com potências como o Canadá, que conta com mais de sessenta programas governamentais para atrair mão de obra estrangeira. No caso australiano, uma das joias de sua política de imigração é o programa de visto para talentos globais, criado em 2019 para atrair profissionais altamente qualificados em suas áreas de atuação. Foi dessa forma que a química Adriana Pires Vieira, natural de São Luís, no Maranhão, partiu para o outro lado do mundo. Após o fim de seu contrato como pesquisadora na Universidade de São Paulo, em novembro de 2018, ela embarcou levando na bagagem um doutorado na Unicamp e um pós-doutorado na USP. Hoje mora em Perth, na costa ocidental da Austrália, onde pesquisa energia renovável e vive com o namorado, também pesquisador na Universidade Curtin. “O país que me formou não aproveitou o conhecimento que eu tinha a oferecer”, lamenta Adriana.

 


A queda nos investimentos em pesquisas também tem sido determinante para o êxodo. Uma nota técnica do Instituto de Pesquisas Econômicas mostra que os gastos do governo Bolsonaro em ciência e tecnologia somaram 17 bilhões de reais em 2020, um nível inferior ao observado em 2009 (19 bilhões em valores reais). O desalento com a área de pesquisa também levou a advogada Thais Cossetti, 29, formada pela Universidade Federal de Ouro Preto a fazer o caminho inverso dos colonizadores portugueses. Desde 2019, ela fixou residência em Coimbra, que abriga uma das mais antigas universidades do mundo, onde foi aprovada para um programa de mestrado em sociologia, um doutorado em economia política e conseguiu a licença para atuar como advogada em Portugal. Um drama familiar em particular (a morte da avó) chegou a fazê-¬la repensar a escolha no início deste ano, mas o tempo que passou aqui em uma visita para se despedir ajudou a sedimentar a decisão de permanecer em Portugal. “Eu fui para ficar duas semanas, mas, com o fechamento dos aeroportos por causa da pandemia, acabei ficando quase três meses e vi os preços nos supermercados e a situação de amigos com dificuldade para conseguir emprego”, recorda. Além de não ter a barreira do idioma e oferecer processos seletivos em universidades que aceitam a nota do Enem, os portugueses estão de olho nos profissionais de tecnologia: desde julho de 2019, a concessão de vistos específicos para brasileiros dessa área aumentou mais de 400%. Ainda na Europa, a Alemanha alterou sua legislação para facilitar a entrada de imigrantes para preencher mais de 1 milhão de vagas. Na Itália, pequenos vilarejos aproveitam a difusão do home office e tentam não sumir do mapa com subsídios para atrair moradores.

Com o clima tão bucólico quanto o interior da Itália e IDH superior ao do Brasil, o Uruguai virou outro polo de atração de brasileiros. No país que se notabilizou por levar adiante pautas progressistas como a legalização das drogas e do aborto, a população de brasileiros mais que dobrou nos últimos anos. Mas foi a economia mais estável e uma oportunidade de emprego melhor que levaram o engenheiro Everton de Almeida Lucas, 31, a instalar-se em Montevidéu, onde trabalha em uma empresa de energia eólica e dá aulas na Universidade Tecnológica do Uruguai (Utec). “Aqui os programas de incentivo educacional não mudam conforme o governo”, diz.

 Raoni Arraes/Arquivo pessoal 

NA TERRINHA – A advogada Thais Cossetti, formada na Universidade Federal de Ouro Preto, rumou para Portugal e fixou residência em Coimbra, onde foi aprovada em um mestrado em sociologia e um doutorado em economia política. “Minhas áreas de pesquisa não são valorizadas no Brasil”, afirma ela, que ainda obteve a licença para atuar profissionalmente no país e presta assistência jurídica a quem quer obter a cidadania.

Mesmo com novos destinos, os Estados Unidos ainda são a referência quando se pensa em morar fora. O país abriga a maior comunidade brasileira no exterior, com 1,7 milhão de pessoas atraídas por mais segurança, educação superior de qualidade e salários mais competitivos. Recentemente, o país reduziu de 1,8 milhão para 900 000 dólares o piso para atrair investidores estrangeiros que queiram o green card, o famoso visto de permanência. A atratividade do destino gerou um efeito colateral no vizinho México. A população de brasileiros estimada lá é de 45 000 pessoas — sendo apenas 15 000 regulares. O país latino virou a principal rota terrestre para quem, por falta de informação ou puro desespero, tenta chegar aos Estados Unidos à margem dos rigorosos processos de imigração americanos e com riscos à própria vida.

 – Bill Clark/CQ-Roll Call/Getty Images

IMIGRAÇÃO ILEGAL - 

Muro na fronteira dos Estados Unidos: tentativa de conter a chegada de estrangeiros pelo México 

A tragédia mais recente foi a da técnica de enfermagem Lenilda dos Santos, 50, encontrada morta no deserto após ser abandonada pelo grupo com quem tentou atravessar a fronteira. Calcula-se que um terço dos turistas que entram no país (cerca de 400 000 em 2019, antes da pandemia) viaja com a intenção de se bandear para os Estados Unidos. “As migrações econômicas são as mais preocupantes porque as pessoas que saem do Brasil a qualquer custo acabam não tendo condições de sobreviver nos países para onde vão”, diz Angela Tsatlogiannis, especialista em direito internacional. O roteiro dos coiotes, como são conhecidos os atravessadores, que chegam a cobrar 20 000 dólares no pacote de quem quer se aventurar em uma jornada com altas chances de fracasso, inclui entradas via Cidade do México ou Cancún — aqui, o turismo é apenas um álibi para quem quer vencer a primeira barreira dos agentes de fronteira. Muito embora a chegada do democrata Joe Biden tenha servido ao “marketing” dessas quadrilhas para atrair vítimas ao esquema de imigração ilegal, nada mudou na prática: os Estados Unidos não só retomaram as deportações em massa por via aérea como a Suprema Corte determinou o restabelecimento da política “Fique no México”, instituída por Donald Trump, em que os imigrantes são devolvidos ao país vizinho e precisam aguardar em território mexicano a improvável decisão sobre um pedido de asilo.

 – ./Reprodução 

MORTE NO DESERTO - 

Lenilda dos Santos: deixada para trás na travessia 

Pródigo em crises econômicas que dão impulso à busca de uma vida melhor lá fora, não é a primeira vez que o Brasil vive um boom de imigração. Nos anos 80, a década perdida marcada pela hiperinflação, intensificou-se a mudança de pessoas (boa parte ilegais) para os Estados Unidos. Foi nesse mesmo período que descendentes de japoneses fizeram o caminho inverso de seus antepassados e rumaram ao Japão, onde os dekasséguis, incentivados pelo governo, foram para suprir a necessidade de mão de obra na indústria do país e enviar dinheiro para os familiares que aqui ficavam. “Hoje, a insegurança política juntamente com a crise econômica criam uma certeza de que o Brasil não dá certo”, afirma Sueli Siqueira, professora da Universidade Vale do Rio Doce, de Governador Valadares (MG), um dos polos exportadores de imigrantes aos Estados Unidos. A desesperança atinge hoje tanto os mais humildes quanto as pessoas com mais recursos e é o motor que produz recordes de brasileiros vivendo mundo afora.

Publicado em VEJA de 29 de setembro de 2021, edição nº 2757


LEIA TAMBÉM:

FUGA DE CÉREBROS



O naufrágio pela economia

 Marcos Strecker e Vinicius Mendes

Revista ISTOÉ

Os anos Bolsonaro são marcados pela volta da inflação, pelo desemprego recorde e pela alta da miséria. Especialistas não veem mais espaço para reverter tantos indicadores negativos, o que praticamente elimina a chance de reeleição

 (Crédito: Montagem sobre foto de Bolsonaro: Mateus Bonomi/Agif Via Afp)

SEM RUMO Pedaladas fiscais e programas populistas

 são a última chance de Bolsonaro se manter no poder 

Em política, já virou um truísmo a previsão de que o estado da economia determina o destino do governante. Se ela vai bem, ele pavimentou o caminho para continuar no poder. Se vai mal, não há força capaz de sustentá-lo. Jair Bolsonaro não é exceção, mas o caso dele é especialmente grave. A impressionante coleção de más notícias numa área tão sensível obrigará o presidente a acertar contas com sua gestão, que foi paupérrima em realizações, apesar de rica em ataques e ameaças golpistas. Ele colhe resultados decepcionantes, pois nunca se preocupou em plantar resultados.

É uma tempestade perfeita. A inflação se aproxima dos dois dígitos e já atinge níveis que não eram vistos desde que o plano real estabilizou a moeda, há mais de 20 anos. A alta de preços para os pobres já ultrapassou 10% em 12 meses. O IGP-M, que regula o reajuste dos aluguéis, subiu quase 34% em doze meses. A disparada do dólar supera 40% desde o início da gestão. Na última semana, passou a barreira dos R$ 5,50, alcançando o maior valor desde 2014. O real é a moeda que mais se desvalorizou desde o início da pandemia, segundo o FMI. E esses números acontecem na contramão do discurso oficial. Há dois anos, o ministro Paulo Guedes prometeu uma revolução de energia barata. Mas o consumidor sentiu o contrário. A gasolina também subiu mais de 40% desde janeiro de 2019, atingido o maior valor desde 2003. O preço médio do botijão de gás, igualmente, é o maior dos últimos 20 anos.

(Crédito:Roberto Parizotti )

 “BOLSOCARO” Lambe-lambe na avenida Paulista, em São Paulo,

 critica a explosão de preços dos alimentos e dos combustíveis 

Ao invés de reconhecer o problema, Bolsonaro faz o que está acostumado: transfere a responsabilidade e parte para o ataque. Desta vez, os governadores serviram de bode expiatório. Para avançar sobre seus adversários, o presidente contou com a ajuda marota do presidente da Câmara.

Ardil contra governadores

 (Crédito:VINCENT BOSSON)

NOVO ALVO A economia e a volta da inflação viraram 

os principais assuntos da manifestação de 2 de outubro, em São Paulo 

Arthur Lira sugeriu um projeto para mudar o cálculo do ICMS e diminuir o imposto arrecadado por estados e municípios com os combustíveis. Trata-se apenas de uma cortina de fumaça, uma manobra que terá pouco impacto nas bombas. Antes disso, o chefe do Executivo pressionou o presidente da Petrobras, general Joaquim Silva e Luna, para conter as altas, motivo que já havia levado à demissão de Roberto Castello Branco. Não teve sucesso, e Silva e Luna reafirmou que não vai alterar a política de reajustes, alinhada com os preços internacionais. É um mau sinal para o presidente. Com a alta do dólar e do petróleo, a defasagem nos preços da gasolina já supera 22%, calculam especialistas. Não há truque que contenha a alta dos combustíveis.

 (Crédito:Mateus Bonomi /)

SEM SAÍDA Paulo Guedes tenta viabilizar programas populistas 

Parte desse aumento é resultado da mudança no cenário internacional. Com a retomada após a pandemia, há um desequilíbrio no fornecimento de matérias-primas e commodities. A Opep decidiu, nos últimos dias, manter uma ampliação discreta na produção do petróleo, frustrando aqueles que esperavam uma reação mais forte. Com esse descompasso, o preço do dele está no nível mais alto dos últimos três anos. Há uma crise de energia nos países desenvolvidos, e a substituição de insumos poluentes, como o carvão, tem derrubado a expectativa de crescimento da China, diminuindo o preço do minério de ferro exportado pelo Brasil. Cadeias globais de produção foram impactadas, causando falta de chips e a interrupção na produção industrial – as montadoras brasileiras estão particularmente afetadas por isso. No setor de logística, a escassez de contêineres deve diminuir em US$ 1 bilhão a receita das exportações do agronegócio brasileiro, e isso só será revertido no final do próximo ano. O risco de inflação no mundo está levando os países a reverem os gigantescos estímulos monetários promovidos durante a pandemia — os EUA devem liderar esse movimento em breve.

Mas os reveses no exterior não justificam a crise no País nem a frustração com o baixo crescimento. No próximo ano, o mercado ainda projeta um crescimento de 1,57% no PIB, segundo levantamento do Banco Central. Mas instituições importantes já acreditam que ele não vai avançar além de 0,5%. Mesmo estimando que a expansão brasileira será de 1,8% em 2022, a ONU calcula que será o pior resultado entre as grandes economias, que devem subir 3,6%. O Banco Mundial diz que o Brasil terá a menor expansão de toda a América Latina.

 (Crédito:Divulgação)

TÁBUA DE SALVAÇÃO Para recuperar a popularidade, 

Bolsonaro estuda prolongar o Auxílio Emergencial 

 Isso exclusivamente pelos erros cometidos pelo presidente e pelo ministro da Economia, que subestimou a pandemia, desconsiderou a dificuldade de aprovar reformas e tem feito previsões delirantes desde o início da gestão. Como tábua de salvação para o governo, o presidente da Câmara tem proposto nos bastidores que Bolsonaro use o caixa da Petrobras para conter a alta dos preços e financiar programas eleitoreiros e obras que garantam sua reeleição. Uso tão irresponsável da companhia só aconteceu no escândalo do Petrolão. A perspectiva de um calote nos precatórios e de abandono da responsabilidade fiscal para acomodar programas populistas, como o Auxílio Brasil e o próprio subsídio aos combustíveis, tem feito crescer a incerteza econômica. O risco-país é um bom indicador dessa percepção negativa entre os investidores. O CDS de 5 anos, ativo usado como referência contra a possibilidade de calote na dívida pública, subiu mais de 40% este ano. E ainda há a crise hídrica, com a possibilidade de racionamento e apagões. Esse quadro já faz especialistas alertarem para o risco de estagflação, a perversa combinação de inflação e estagnação. “A discussão não é se vai entrar ou se já está nesse estágio, mas o quanto está indo nessa direção. E isso é inequívoco”, diz o economista Filipe Campante, professor da Universidade Johns Hopkins (EUA).

Incerteza em alta

O momento atual é comparável apenas à derrocada do governo Dilma, à crise global de 2008 e à eleição de 2002, diz a economista Anna Carolina Gouveia, do Ibre-FGV. Para ela, a incerteza por conta da pandemia deu lugar à incerteza política e à inflação. A especialista alerta que a crise política impacta a questão monetária. “Esse cenário afeta até mesmo o instrumento de combate à inflação que o BC tem usado”, diz. Para conter a corrosão do poder aquisitivo, o BC foi obrigado a interromper o ciclo de queda das taxas de juros, elevando a Selic em 4,25 pontos percentuais em sete meses, o que também conterá o crescimento em 2022.

“A escolha do governo em valorizar o câmbio sem ter base na poupança fez com que a inflação subisse muito”, critica o economista Roberto Ellery Jr., da UnB. Ele condena o atual populismo econômico. Para ele, a situação é dramática porque não há confiança na política fiscal e, ao mesmo tempo, a inflação cresce. “Esse cenário é resultado de outro populismo, o fiscal: o Banco Central manteve os juros baixos por muito tempo. A inflação só reflete essa sequência de erros”, afirma. Como outros economistas, ele critica as tentativas de driblar as regras fiscais. Lembra que o teto de gastos foi criado justamente para evitar que governos gastassem muito por objetivos questionáveis. O orçamento também está sendo atropelado pela lei, já aprovada, que permite usar receitas previstas (ainda não existentes) para bancar aumentos de gastos. É o truque concebido pelo governo para driblar a Lei de Responsabilidade Fiscal e pedalar as contas públicas sem ser acusado de praticar um crime de responsabilidade. “O governo quer quebrar qualquer limite fiscal, mas evitando deixar isso claro. O mercado, que não é bobo, já percebeu”, diz o professor da UnB.

As tentativas desesperadas da equipe econômica em encontrar soluções de última hora para tirar o presidente das cordas só piora a situação. “Todas as decisões do governo são tomadas de improviso. Os problemas vão surgindo e eles vão tentando tapar os buracos, mas daí outros vão aparecendo e eles ficam batendo cabeça. Não sabem administrar”, resume a economista Júlia Braga, da Universidade Federal Fluminense (UFF). “As decisões são sempre gambiarras, medidas de curto prazo sem prioridades ou planos. Qualquer coisa que o governo faça será ruim”, concorda Campante.

A economia e a pobreza são os maiores obstáculos para a reeleição do presidente, aponta uma pesquisa da Genial Investimentos em parceria com a consultoria Quaest. Nada menos que 69% dos entrevistados acham que a situação econômica do País piorou. A crise atinge os pobres de forma mais aguda, e é nessa faixa que a popularidade do presidente mais cai. Nos anos Bolsonaro, a proporção de famílias endividadas saltou de 59,8% para 74%. O número de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza disparou de 23,3 milhões para 34,3 milhões, alta de 47%. E o desemprego bateu recorde, chegando a cerca de 14 milhões de pessoas. O plano real na gestão FHC e o boom das commodities no governo Lula fizeram os pobres se alimentar melhor. Os anos Bolsonaro fizeram eles voltarem a disputar ossos e comer pé de galinha.

 (Crédito:Agencia Enquadrar)

CORRIDA Motoristas tentam se antecipar

 à alta dos preços da gasolina em Recife 

O descaso com a desigualdade e as manobras populistas não vão reverter um quadro que já parece irreversível. E as más notícias não param. Segundo o IBGE, as vendas no varejo recuaram 3,1% em agosto, na comparação com julho, pior resultado para o mês desde 2000. A produção industrial caiu 0,7% em agosto, a terceira queda consecutiva. O setor recuou para um patamar 2,9% abaixo do nível pré-pandemia. Um dos argumentos usados por governistas para justificar o dólar supervalorizado era exatamente impulsionar a indústria. O resultado foi mais inflação e desindustrialização.

Com esse tsunami de dados negativos, o cenário para o presidente é o pior possível, afirma o cientista político Paulo Nicolli Ramírez. Isso coloca em xeque até mesmo a possibilidade de ele se candidatar, porque quanto pior a economia estiver, mais os partidos vão se afastar. A tendência é que vá se isolando cada vez mais e chegue muito desidratado às eleições. A menos de um ano do pleito, as suas opções são cada vez mais limitadas. O fiasco na economia se soma à gestão desastrosa na pandemia. E ele saiu enfraquecido após o Sete de Setembro. “A falta de adesão dos militares e das polícias às manifestações, além da reação forte do STF e do Congresso, fizeram com ele se isolasse”, avalia Ramírez. O peso das suas propostas ficou muito menor do que era antes, o que também diminuiu seu poder de barganha. A revelação de que Paulo Guedes se beneficiou com a alta do dólar por meio de fundos em uma offshore também diminui a sua já estreita margem para negociar. A agenda de reformas do ministro virou letra morta. Com o Congresso nas mãos do Centrão, é até melhor que nenhuma mudança aconteça, dizem especialistas. É o caso da própria reforma do Imposto de Renda. “Qualquer coisa que Bolsonaro faça agora para tentar melhorar sua popularidade será em vão. Mesmo que ele faça manobras orçamentárias, isso não ajudará mais no projeto de reeleição”, diz Júlia Braga, da UFF.

 (Crédito:Michel Jesus)

MANOBRA O presidente da Câmara, Arthur Lira, propôs

 tirar impostos dos estados e municípios 

No final, comprovando a tese, é a economia que vai determinar o destino de Bolsonaro. Tem sido assim com todos os presidentes desde a redemocratização. O impeachment de Fernando Collor foi impulsionado pelo fracasso em enfrentar a hiperinflação. O de Dilma Rousseff aconteceu na maior recessão da história do País. FHC perdeu a chance de fazer o sucessor pelas crises externas que atingiram seu segundo mandato, incluindo uma maxidesvalorização do real. E Lula conseguiu se reeleger, apesar do Mensalão, porque surfou na bonança mundial dos anos 2000 (tem a seu favor o fato de ter seguido a política econômica dos criadores do real). Mas Bolsonaro terá muito mais dificuldades que seus antecessores. Entrará no último ano de mandato numa condição muito pior que eles, e pode se tornar o primeiro presidente da redemocratização a falhar em se manter no posto. Qualquer governante sabe que deve lidar com o imponderável. Para ele, esse resultado era previsível.


Estado de mal-estar

 Vera Magalhães

O Globo

 | Isac Nóbrega/Presidência da República

Bolsonaro segura criança ostentando fuzil 

Jair Bolsonaro achou por bem vetar a essência do projeto de lei que cria o Programa de Proteção e Promoção da Saúde Menstrual, uma iniciativa de um conjunto de deputados de diversos partidos de oposição. O presidente vetou justamente a razão de ser da proposta: os artigos que previam a distribuição gratuita de absorvente para meninas carentes de escolas públicas, mulheres em vulnerabilidade social e presidiárias.

Bolsonaro evocou razões fiscais para vetar o projeto. Disse que o Congresso não apontou a fonte de recursos para custeá-lo, mas não é bem assim: os parlamentares determinaram que os recursos sairiam da atenção básica à saúde do SUS e do Fundo Penitenciário.

Afirmou que a lista de medicamentos básicos que têm de ser fornecidos pelo SUS não inclui absorventes menstruais. De fato. Por isso mesmo a proposta cria um novo programa, para atender a uma demanda justa e não contemplada.

Os dados sobre a falta de recursos para adquirir absorventes, traduzida como pobreza menstrual, passaram a ser tratados recentemente, pois esse sempre foi um tema tabu, o que já diz muito quanto à mentalidade atrasada que vigora no Brasil.

Hoje se sabe que uma a cada quatro mulheres não tem dinheiro para adquirir protetores para seus períodos menstruais e que algumas meninas chegam a perder um mês e meio de aula por ano por não ter condições dignas de ir à escola. Reportagens recentes mostraram casos revoltantes de mulheres internadas com infecções graves pelo uso de materiais impróprios para conter o sangramento mensal.

Diante de uma questão de saúde pública e social tão evidente, Bolsonaro usa desculpas fiscais, que não resistem a uma simples comparação com gastos exorbitantes, como as famigeradas emendas do relator ou os cartões de crédito corporativos da Presidência, que, além de tudo, estão protegidos por camadas de sigilo, para dar vazão a suas arraigadas convicções ideológicas avessas a empatia, a qualquer preocupação social e à mínima compreensão das questões de gênero que cada vez mais são pauta da sociedade e dos governos do mundo todo.

Além de ser a mais perfeita tradução de sua mentalidade tacanha, reacionária e contrária aos direitos humanos em todas as suas manifestações, o veto de Bolsonaro ao projeto que promove a dignidade de mulheres e meninas pobres é de uma burrice política e eleitoral atroz, também ela típica do presidente do Brasil.

No momento em que sua popularidade sangra (ops) justamente com o eleitorado feminino e pobre, o capitão dá um tapa na cara sem luva de pelica justamente das mulheres vulneráveis, com uma mesquinharia política e fiscal.

Quando tenta se safar da berlinda nas pesquisas inflando, aí sim com bilhões ainda não contemplados no guarda-chuva fiscal, o Bolsa Família, outro projeto pelo qual sempre deixou patente sua aversão egoísta, Bolsonaro não é nem capaz de perceber que esse veto lhe causará estrago brutal junto a esse público.

Quem é de verdade sabe quem é de mentira, já disse o comediante Esse Menino no vídeo em que escancarou para o país a desídia desse mesmo presidente na compra de vacinas. Não adianta a alguém absolutamente desprovido de consciência do que é governar para todos, e sobretudo para aqueles que mais precisam, fingir que tem preocupação com a pobreza. A máscara, que Bolsonaro já insistia em não usar na pandemia, caiu também na política.

A maré política do capitão está tão braba que a possibilidade de esse veto indigno ser derrubado é grande. Que assim seja.

Mas é exaustivo viver no Estado de mal-estar de Bolsonaro. Mal-estar social, econômico, sanitário, cultural, educacional, civilizatório, político. Um mal-estar que não passa, como uma cólica fruto de uma sangria desatada.


Não é só efeito da pandemia: por que 19 milhões de brasileiros passam fome

 Laís Alegretti 

Da BBC News Brasil em Londres

 CRÉDITO,GETTY IMAGES

Aumento da fome no Brasil: 19 milhões de brasileiros estão em situação de fome

Está na Constituição: alimentação é um direito social do brasileiro. Essa previsão, que pode parecer óbvia à primeira vista, foi incluída pelo Congresso Nacional em 2010.

E de óbvia não tem nada. De lá para cá, ao mesmo tempo em que exportações do agronegócio brasileiro ganharam força, o direito à alimentação tem sido realidade para menos brasileiros.

A partir de 2020, o aumento da fome no Brasil foi impactado pela pandemia, como em outros países. Mas não é só o efeito da covid que explica a piora no nível de segurança alimentar dos brasileiros, que já vinha piorando antes do coronavírus.

O alastramento da fome no Brasil é reflexo também do fim ou esvaziamento de programas voltados para estimular a agricultura familiar e combater a fome, além de defasagem na cobertura e nos valores do Bolsa Família, segundo especialistas em segurança alimentar, políticas públicas e desigualdade ouvidos pela BBC News Brasil.

São 19 milhões de brasileiros em situação de fome no Brasil, segundo dados de 2020 da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Penssan). A comparação com 2018 (10,3 milhões) revela que são 9 milhões de pessoas a mais nessa condição.

Olhando dados mais antigos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é possível ver que em 2013 o Brasil teve o melhor nível de segurança alimentar da série histórica (Pnad), com mais de 77% dos domicílios nessa condição.

Em 2014, o Brasil inclusive deixou o chamado Mapa da Fome da ONU.

Cerca de quatro anos depois, no entanto, a Pesquisa de Orçamento Familiar (2017/2018) do IBGE mostrou que a situação de segurança alimentar era vivenciada por apenas 63,3% dos domicílios pesquisados.

Nesse intervalo, houve aumento na quantidade de domicílios em todos os níveis de insegurança alimentar — leve (preocupação com quantidade e qualidade dos alimentos disponíveis), moderada (restrição quantitativa de alimento) e grave (identificada como fome).

"A fome é consequência de uma série de erros de políticas públicas e de destruição de políticas públicas", diz Kiko Afonso, diretor executivo da ONG Ação da Cidadania, fundada por Betinho.

A socióloga Letícia Bartholo afirma que "a desestruturação das políticas públicas voltadas aos mais vulneráveis foi agravada com a pandemia, mas ela ocorre desde antes".

Antes e além da pandemia, quais fatores levaram o Brasil, segundo maior exportador de alimentos do mundo, a ver crescer a quantidade de famílias em situação de fome?

Transferência de renda defasada

 CRÉDITO,RAFAEL LAMPERT ZART/AGÊNCIA BRASIL

Maior programa de transferência de renda tem valores defasados, 

diz Bartholo, que foi secretária nacional adjunta de renda e cidadania

Parte da explicação está na cobertura e nos valores do maior programa de transferência de renda, o Bolsa Família, segundo a socióloga Letícia Bartholo, que estuda políticas públicas de combate à pobreza e à desigualdade e foi secretária nacional adjunta de renda e cidadania (2012-2016).

O primeiro problema, diz ela, é a defasagem da chamada linha de pobreza (ou seja, o corte que define quais famílias têm direito ao benefício). Hoje têm direito ao benefício famílias com renda familiar per capita de até R$ 178.

No começo do programa, esse valor era de R$ 100. Se estivesse atualizado, segundo os cálculos de Bartholo, o valor deveria estar hoje em torno de R$ 250.

"Essa desatualização é preocupante porque cria duas filas no Bolsa Família: já temos um problema da fila por falta de orçamento, das famílias que cumprem os critérios e não são atendidas, e aí tem uma outra fila — de pessoas que são pobres, passam fome, mas não são consideradas pobres administrativamente", explica.

E o auxílio emergencial? Bartholo diz que parte dessas famílias contam com o auxílio criado durante a pandemia, mas lembra que 400 mil famílias que estão na fila de espera do Bolsa Família também não recebem o auxílio emergencial, como mostrou reportagem da Folha de S.Paulo.

"A desatualização da linha de pobreza do programa cria um achatamento fictício da pobreza. O número de pobres, na realidade, é muito maior do que o número de pobres considerados do ponto de vista administrativo", diz Bartholo.

Outro ponto — que vem sendo discutido em Brasília — é a falta de reajuste nos valores do benefício, que varia em função da renda, do número de pessoas na família e idade delas.

O presidente Jair Bolsonaro disse que pretende ampliar de R$ 190 para R$ 250 o valor médio pago a beneficiários do Bolsa Família. Outros valores, inclusive mais altos, já foram levantados, mas o governo ainda não apresentou uma proposta.

O Ministério da Cidadania disse à reportagem que trabalha na reformulação do programa "para ampliar o número de famílias contempladas, além de reajustar os valores dos benefícios pagos atualmente, com maior eficiência no gasto do dinheiro público".

Disse, ainda, que o programa "tem alcançado os mais vulneráveis" e que o número de famílias atendidas segue acima de 14 milhões. De janeiro a abril deste ano, segundo o governo, mais de 600 mil novas famílias ingressaram no programa.

 CRÉDITO,ARQUIVO PESSOAL

'A desestruturação das políticas públicas voltadas aos mais vulneráveis

 foi agravada com a pandemia, mas ela ocorre desde antes', diz Bartholo


E o auxílio emergencial?

O benefício criado durante a pandemia tem sido reconhecido como importante ferramenta para combater fome e pobreza (ainda que insuficiente e apesar do período, no início de 2021, em que não foi pago).

No entanto, Bartholo lembra que ele terá um fim e que é necessário, finalmente, desenhar esta transição.

"O auxílio vai findar. A gente não pode mais empurrar o problema com a barriga. Desde o ano passado estamos pensando: e quando o auxílio acabar? Vamos continuar tendo fila no Bolsa Família? Vamos continuar com linhas de pobreza absolutamente defasadas? O auxílio é emergencial, portanto não corrige falhas estruturais das políticas públicas", diz Bartholo.

Fim ou enfraquecimento de políticas de combate à fome

 CRÉDITO,REUTERS

Bolsonaro extinguiu o Conselho Nacional de Segurança Alimentar 

e Nutricional (Consea), criado pelo governo do PT

Assim que assumiu o Palácio do Planalto, o presidente Jair Bolsonaro extinguiu o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), que tinha atribuição de propor ao governo federal diretrizes e prioridades da política de segurança alimentar e nutricional.

O órgão de assessoramento imediato ao Presidente da República havia sido criado no governo do PT.

Para Kiko Afonso, da ONG Ação da Cidadania, essa foi a "carta de entrada do governo".

"Já entra dizendo o seguinte: não queremos participação da sociedade civil e especialistas de fora do governo na política de segurança alimentar. Então, quando você extingue o Consea, extingue a ponte que havia com a sociedade civil — não só no sentido de dar opiniões, mas de monitorar o que o governo estava fazendo. Virou uma caixa preta."

A professora do Departamento de Nutrição da Universidade de Brasília (UnB) Elisabetta Recine, que foi a última presidente do Consea, diz que esse modelo é importante como uma fonte direta de informação para o governo e de "contato com a realidade" para ajustes de planejamento e de prioridade.

"A extinção do Consea tem um um significado muito objetivo, que é o desmantelamento da proposta do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, mas ela tem um valor simbólico também."

Procurado pela reportagem, o Ministério da Cidadania disse que as competências do Consea foram distribuídas entre diversas áreas do governo e que "com essa forma de organização administrativa, as ações governamentais tornam-se mais céleres e eficientes".

Para Recine, a justificativa não faz sentido. "É um argumento absolutamente falso, é só você olhar a lentidão com o que o governo respondeu a situação da pandemia, em todos os aspectos", opina.

 CRÉDITO,MARCELO CAMARGO/AGÊNCIA BRASIL

Ex-presidente do Consea, Recine diz que fim do 

conselho teve significados prático e simbólico

Um estudo de pesquisadores vinculados a universidades na Alemanha e no Brasil, que mostrou que a maioria (59%) dos domicílios entrevistados no fim de 2020 estavam em situação de insegurança alimentar durante a pandemia, também citou o fim do Consea como um dos "retrocessos institucionais e orçamentários na agenda da segurança alimentar e nutricional".

O estudo destaca que o Brasil passa por uma combinação de crises — política, econômica, de seguridade social e sanitária.

"A crise política também afetou a agenda da alimentação por meio do enfraquecimento da estrutura institucional e de importantes políticas e programas de promoção da produção da agricultura familiar", afirma.

Os pesquisadores destacam o fim do Ministério do Desenvolvimento Agrário (2016) e o baixo investimento no Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e no Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).

"O enfraquecimento destas políticas, reconhecidas mundialmente como ações exitosas que contribuem para a meta de erradicação da fome, sendo importantes impulsionadoras da saída do Brasil do Mapa da Fome da FAO, em 2014, dificulta que os indivíduos mais pobres tenham acesso a alimentos."

Para Recine, a mudança de orientação começou durante o governo do ex-presidente Michel Temer.

"As políticas públicas de segurança alimentar começaram a sofrer mudanças muito profundas. Logo que o Temer assumiu a presidência, ele já teve atitudes muito importantes em relação a isso, que mostravam já o caminho do retrocesso. Ele, por exemplo, extinguiu o Ministério da do Desenvolvimento Agrário, cortou radicalmente e, com isso, começou a desmantelar todas as políticas de apoio à agricultura familiar", diz a professora da UnB.

 


Os gastos federais com políticas de desenvolvimento agrário caíram 55% de 2013 (R$ 1,13 bilhão) até 2019 (R$ 510 milhões), conforme aponta artigo sobre gasto federal com políticas sociais elaborado pela pesquisadora do Ipea Fabiola Vieira.

Na mesma base de comparação, também houve perda de recursos em políticas nas áreas de cultura (-30,2%), educação (-11,1%), habitação (-74,6%), saneamento (-53,2%), trabalho e renda (-6,1%) e urbanismo (-3,0%).

Aumentos só foram verificados em políticas de assistência social (9,3%), previdência (16,5%) e saúde (16,5%), que envolvem muitas das chamadas despesas obrigatórias.

 CRÉDITO,EPA

A fome, que crescia no Brasil nos últimos anos, piorou na pandemia

Bartholo aponta que também "houve uma desestruturação de toda uma rede de políticas públicas que se articulava em torno do Cadastro Único para apoiar o desenvolvimento das famílias mais vulneráveis".

"O desenvolvimento dessa rede foi tomado, nos últimos anos, pela dimensão do controle, de evitar fraudes. É claro que a dimensão do controle é muito importante nas políticas públicas, mas é uma delas. Quando o controle consome as demais dimensões das políticas públicas, elas vão se enfraquecendo, perdendo capacidade de melhoria, inclusive."

A assessoria de imprensa do Ministério da Cidadania respondeu que o governo trabalha para aprimorar programas sociais como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). "A reestruturação dos programas do Governo Federal visa, acima de tudo, ao fortalecimento do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), com foco na emancipação do cidadão", diz a nota.

A assessoria de imprensa da pasta disse ainda que "tem trabalhado sistematicamente para fortalecer os programas sociais e estabelecer uma rede de proteção para a população em situação de vulnerabilidade" e que "é compromisso desta gestão ampliar o alcance das políticas sociais e atingir, com maior eficácia, a missão de superar a pobreza e minimizar os efeitos da desigualdade socioeconômica".

 CRÉDITO,DIVULGAÇÃO

Depois de dez anos sem distribuir cestas básicas, a ONG Ação da Cidadania

 identificou a necessidade de retomar essa distribuição em 2017

'Solução para fome não é distribuir cesta básica'

Kiko Afonso, da Ação da Cidadania, diz que é preciso combater a ideia de que a solução para a fome está na distribuição de cestas básicas, que é uma ação de emergencial.

"A gente não pode achar que a solução da fome é distribuir cesta básica, que a solução é pegar alimentos vencidos e distribuir pras pessoas ou pegar sobras de restaurantes ou de comidas de pessoas da classe média para distribuir pra população", diz.

"Isso é uma atuação de emergência, mas a solução não é essa. O governo, ao longo dos últimos anos, criou parte desse problema que a gente está hoje."

Depois de dez anos sem distribuir cestas básicas, a ONG identificou a necessidade de retomar essa distribuição em 2017. Neste ano, arrecadou mais de R$ 146 milhões e distribuiu alimentos em todos os estados e no DF.

"A gente não quer fazer isso, a gente quer que o governo assuma o seu papel e que a política pública volte a assumir o seu papel", diz Afonso.

 CRÉDITO,DIVULGAÇÃO

Rodrigo Afonso, da Ação da Cidadania: distribuir cesta básica

 'é uma atuação de emergência, mas a solução não é essa'

Como uma das ações de combate à fome, o Ministério da Cidadania citou, em resposta à BBC News Brasil, que estruturou a iniciativa Brasil Fraterno, "que incorporou todas as ações sob a responsabilidade da pasta voltadas para aquisição e distribuição de cestas de alimentos a quem mais precisa". Segundo a pasta, trata-se de uma rede de solidariedade, com participação de setores da iniciativa privada como o Sistema S e o agronegócio.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, fez uma declaração, em junho, na qual comparou o prato dos europeus ("pratos relativamente pequenos") e dos brasileiros e falou em direcionar alimentos desperdiçados a programas sociais.

Procurada depois da fala do ministro para responder às críticas feitas por especialistas em relação ao enfraquecimento de políticas de combate à fome no Brasil, a assessoria de imprensa respondeu à BBC News Brasil que o Ministério da Economia não comentaria o assunto.


Os milhões de pobres que assistiram à manifestação dentro de um botijão de gás

 Juan Arias

El Pais

Milhões de pobres famintos participaram desta vez das manifestações contra Bolsonaro em todo o Brasil. Não estavam fisicamente presentes porque estão ocupados em sobreviver

 NELSON ALMEIDA (AFP)

Em referência à fome no país, manifestantes levaram ossos de boi 

para protestar contra o Governo de Jair Bolsonaro no sábado.

Milhões de pobres famintos participaram desta vez das manifestações contra Jair Bolsonaro em todo o Brasil. Não estavam fisicamente presentes porque estão ocupados em sobreviver e não têm tempo para se dedicar à política. Mas desta vez tinham mais motivos do que nunca para gritar “Fora, Bolsonaro!”. Porque além de sofrerem o abandono atávico, sofrem também o abandono de um Governo que os esquece à própria sorte e os abandona à angústia de não ter o que dar de comer aos filhos.

Fazia anos que um motorista de caminhão que transporta ossos sem carne de um mercado para jogá-los no lixão —conforme contou dias atrás— não se via assaltado por um grupo de pessoas, todas mulheres, que disputavam aqueles restos. O caminhoneiro confessou que “deu vontade de chorar”.

Essas pessoas que hoje sofrem fome e desamparo do Governo nunca foram tantas no Brasil rico. Esses milhões que não sabem como sobreviver porque, dizem, “tudo está muito caro”, foram simbolicamente representados por botijões de gás que nunca custaram tanto. Botijões que os pobres não podem mais comprar e que estão obrigando as famílias, sobretudo do Interior, a buscar restos de lenha para cozinhar.

Bolsonaro havia feito piada dias atrás com aqueles que reclamam de seu fanatismo pelas armas, que ele quer que as famílias comprem, e que em vez disso pedem arroz e feijão. Zombando, ele os aconselhou que se um ladrão entrar em suas casas “atirem nele com feijões”.

A falta de empatia do presidente e seu desprezo pela dor e a pobreza de milhões de pessoas já são conhecidos até mesmo fora do Brasil. Para ele, neste momento em que seu apoio está desmoronando nas pesquisas, a única preocupação com esses milhões sem trabalho e sem comida é que eles possam negar-lhe o voto nas urnas.

As manifestações contra o genocida vão continuar. E se os milhões de pobres que estavam simbolicamente presentes escondidos nos botijões de gás decidirem participar fisicamente delas, o destino do golpista estará traçado e o capitão, com Exército e tudo estará assegurada a sua derrota, já que sua ânsia de dar um golpe vem sendo dissipada.

Ele não terá tempo para suas ameaças golpistas, pois terá que se dedicar à defesa de si mesmo e de sua família do tiroteio de graves acusações que a CPI da Covid-19 lhe está preparando e que poderá conduzi-lo a algum tribunal internacional.

Os milhões de famílias desamparadas e lançadas à própria sorte por um presidente que deixou evidente que não sabe nem quer governar estavam, embora invisíveis, gritando “Fora Bolsonaro”. São esses milhões que sofrem o esquecimento e o desprezo e que não têm esperança de melhorar enquanto o “mito” permanecer no poder. A derrota do capitão abriria caminho para alguém que possa governar este país com normalidade e sem psicopatias. Que ao invés de oferecer armas às famílias, seja capaz de levar às mesas dos mais pobres comida, alegria e dignidade. Essa dignidade que os faz se sentir gente e que não tenham que se contentar com as sobras de comida que antes eram dadas aos animais. Não foi o presidente frio de alma e coração que sugeriu que dessem a esses pobres com fome as sobras dos pratos que jogamos no lixo? O Brasil precisa sair desse inferno social para que as pessoas voltem a recuperar a esperança de serem tratadas melhor que os animais.

Que as manifestações sejam cada vez mais numerosas e que o “Fora Bolsonaro” continue a ressoar nas ruas para que acabe o pesadelo de o Brasil ser governado com essa loucura que hoje o envergonha, empobrece e apequena dentro e fora do país. 


Migração ilegal de brasileiros para os EUA bate recorde durante a pandemia

 Fernanda Simas e Renato Vasconcelos, 

O Estado de S.Paulo

Entre outubro de 2020 e agosto de 2021, 47 mil migrantes do Brasil foram detidos na fronteira com o México, mais do que nos 14 anos anteriores

  Foto: Ariana Drehsler/The New York Times

Brasileiros cruzam região desértica no Arizona, em flagrante registrado em maio;

 em setembro, 140 foram presos de uma vez e uma morreu 

Crise econômica agravada pela pandemia e expectativa de que política migratória do governo de Joe Biden fosse mais branda. Essa combinação levou um número recorde de brasileiros a tentar entrar nos EUA nos últimos nove meses. Segundo dados oficiais, entre outubro de 2020 e agosto de 2021, 47,4 mil brasileiros foram apreendidos. É mais do que a soma dos 14 anos anteriores, quando 41 mil tentaram cruzar a fronteira – os americanos fazem o controle em anos fiscais, que vão de outubro a setembro. 

Para deixar o País, os brasileiros saem principalmente do Acre, de Mato Grosso, Rondônia e Minas Gerais. A suspensão há 18 meses da emissão de vistos americanos de turista para brasileiros, também efeito da crise sanitária mundial, agravou o impacto. 

“Historicamente, 90% dos brasileiros sem documentação chegavam aos EUA com visto de turista e ficavam no país. Esse era o método de entrada, até porque a probabilidade de se conseguir a legalização assim é maior do que quando se entra pela fronteira e é pego pelos agentes”, explica Gabrielle Oliveira, professora da Faculdade de Educação de Harvard.

Sem o recurso do visto de turista, os brasileiros passaram a explorar rotas ilegais, combinando vias terrestres, aéreas e, em alguns casos, marítimas. Uma das rotas mais bem estabelecidas, segundo o professor Duval Fernandes, da PUC-MG, que há mais de 20 anos estuda o tema, é a mexicana. Nela, o migrante aproveita o fato de o México não exigir visto de entrada para brasileiros, que chegam de avião e tentam a travessia a pé ou cruzando rios.

Este é o trajeto mais estruturado, no qual os coiotes atuam. De acordo com a Polícia Federal brasileira, a atuação deles é mais forte em Minas Gerais e Rondônia – que, segundo Fernandes, fazem parte da mesma rede. “A rede em Rondônia é a mesma de Governador Valadares, em função dos laços da comunidade mineira no Estado, uma vez que muitas pessoas migraram para lá em projetos agropecuários no passado. Fazendo pesquisa, é comum ouvir relatos de pessoas com parentes que já se mudaram para os EUA, e são de Minas”, disse.

Na rede mineira de coiotes, o preço dos “pacotes” é conhecido. Em junho, cobrava-se R$ 40 mil por pessoa na modalidade “sem seguro”, e R$ 80 mil “com seguro” – mesmo preço para famílias (2 adultos e 1 criança). “Com seguro, você dá um valor de entrada e, se não conseguir entrar nos EUA, não paga mais nada. Sem seguro, independentemente do resultado, você fica com a dívida”, diz Fernandes. 

O caminho muda de acordo com o aumento da fiscalização em determinadas áreas e, desde o ano passado, com as regras impostas pela pandemia. A PF afirma que há algumas rotas usadas mais constantemente. Um dos pontos de saída é o Acre, de onde se cruza para países da América do Sul e Central, até chegar ao México. Mas há também rotas que saem do Brasil por via aérea até o Caribe, de onde os migrantes partem rumo aos EUA em barcos. 

Com o aumento da fiscalização, surgiram novas formas de cruzar para os EUA. “A intensificação da vigilância começou nos anos 90. Com isso, ficou mais difícil cruzar em San Diego e El Paso, por exemplo, e isso força as pessoas a irem mais para o deserto”, explica Adam Isacson, diretor do Washington Office on Latin America (Wola).

Há 16 anos atuando nos EUA, o advogado Walter Santos reúne depoimentos de ex-clientes que entraram no país recorrendo a coiotes. “Não há relatos felizes. Tive um cliente que estava legalizado, mas queria regularizar a mulher. Quando cruzou a fronteira, o irmão foi picado por uma cobra no deserto e morreu. Eles tiveram de deixar o corpo lá, porque não tinha como carregar. Sempre há relatos de abusos, inclusive sexuais, por parte de coiotes, contra mulheres, homens e crianças. Sem contar que o migrante chega aos EUA endividado e tem de trabalhar para pagar o coiote, enquanto a família é alvo de extorsão em seu país”, afirma.

Além disso, a entrada de Biden na presidência levou os migrantes a terem esperança de ficar nos EUA, explica Gabrielle. “O discurso do Biden era de amenizar esse processo com os migrantes, de lidar com isso de um jeito mais humano. E como o governo Trump apostou muito em restringir isso, tudo que viesse depois dele seria mais brando.” O afrouxamento não se concretizou. 

Quando um migrante cruza a fronteira e se apresenta às autoridades, passa por uma entrevista para identificar se há elementos suficientes para processar o asilo. Como a concessão é a maneira que o migrante tem para regularizar sua situação, as redes de coiotes passaram a oferecer como “parte do serviço” dicas de como enganar as autoridades americanas. 

“Muitas pessoas fazem a travessia com uma história pronta, inventada, e se entregam às autoridades na tentativa de obter asilo. Atendi pessoas que chegaram ao escritório alegando sofrer perseguição de gangues, e apresentaram como prova fotos do que seria o irmão morto, degolado. Uma semana depois, outra pessoa me procurou com a mesma história e a mesma foto”, afirmou Santos.

Para os brasileiros, historicamente, é mais difícil obter o status. “Os EUA não classificam o Brasil como país de risco. Geralmente, quando um brasileiro consegue o status é por sofrer violência doméstica ou outro tipo de perseguição”, diz Gabrielle Oliveira.