sábado, julho 21, 2007

TRAPOS & FARRAPOS...

FALOU MUITO E NÃO DISSE NADA.
Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia

Vamos tratar da fala de Lula que, em cadeia de rádio e televisão, tentou fazer seu costumeiro proselitismo, tentou armar seu circo, mas, quero crer, não conseguiu ocupar o espaço que o povo brasileiro esperava que ele ocupasse. No vazio, além da dor e da comoção nacional, fica o sentimento intrigante de que, apesar de já acumular 350 cadáveres, Lula parece não haver aprendido a lição.

Esperou-se 73 horas para que o presidente da nação desse o ar de sua graça, e falasse aos brasileiros sobre a comoção que atingiu o país de norte a sul.

O presidente americano, no dia seguinte ao assassinato de dezenas de alunos numa universidade, compareceu ao campus para um ato in memoriam. Da mesma forma Jacques Chirac fez na França quando milhares de jovens promoveram um quebra-quebra danado por causa da lei do primeiro emprego. Na Espanha não foi diferente. Quando Madri foi atingida por um atentado terrorista, o primeiro-ministro dirigiu-se ao povo pela TV, e o rei e a rainha foram no dia seguinte visitar os feridos.

Isto representa dizer que um governante realmente preocupado não apenas com sua imagem política, mas principalmente com o bem estar dos cidadãos do país que governa, não se esconde atrás de boletins e comunicados oficiais lidos por auxiliares próximos. Demonstrar sentimentos não é uma coisa que se faça por procuração delegada a alguém. Se faz pessoalmente, dando a cara a tapa se for preciso, mas nunca por intermediários. Ao aparecer na noite de sexta feira, Lula sequer conseguiu demonstrar algo espontâneo. Reservou-se em ler um discurso preparado de antemão por assessores de imprensa. As palavras tinham um sentido, a expressão e o tom da voz outro, totalmente diferentes. O homem acostumado a ser espirituoso em cima de um palanque em véspera de eleição, não soube ser convincente ao externar uma emoção de dor. Ali estava apenas para cumprir um papel do protocolo oficial.

Não conseguiu ser convincente em atribuir ao seu governo os desmandos que fizerem a crise aérea a crise da morte, da dor, da humilhação, do constrangimento. Passou ao largo da crise, anunciando medidas vazias, que ainda demandarão tempo para serem consumadas, porque será preciso atender outros interesses, interesses financeiros das companhias aéreas, pondo de lado, como tem sido praxe até aqui, a segurança dos passageiros, a excelência no serviço de atendimento. Em artigo anterior postado mais abaixo, falamos longamente que a crise não começou na queda do avião da Gol, mas na morte da empresa que servia como ponto de referência na aviação comercial do país, a VARIG, e que impunha às demais, como forma de atrair clientes, atendimentos melhores, pontualidade em partidas e chegadas, em aeronaves que, mesmo antigas, face ao serviço de manutenção de primeira qualidade, lhes davam a segurança necessária para a viagem se consumar sem sustos ou percalços.

A tentativa de Lula de falar à nação encontrou problemas sérios. Primeiro, não veio a São Paulo para visitar o local do acidente, tentar consolar familiares dos passageiros vitimados com medo da vaia, síndrome do Maracanã na abertura do Pan. Depois, vinte e quatro horas antes de seu discurso, seu aspone protagonizou uma das mais deprimentes cenas a que se poderia permitir um servidor público, eleito ou não, concursado ou não, mas lá está por imposição do Presidente, em um prédio público festejando uma notícia que poderia aliviar a carga de culpabilidade sobre a atual crise aérea. Deveria ser demitido no dia seguinte. Não foi e não será, será ainda abençoado, e até conta com a simpatia de alguns “colegas” de cretinice que gostariam de ter esboçado o mesmo gesto. Fazem-no apenas simbolicamente, e para toda a nação.

Na mesma de sexta-feira, em solenidade ridícula e dantesca, o Ministério da Aeronáutica medalhou quatro diretores da ANAC/INFRAERO por relevantes serviços prestados na área da aviação. Que o digam os 350 cadáveres vítimas deste “relevantes” serviços. Que a solenidade fosse cancelada, adiada, empurrada mais para frente. Mas faze-lo apenas três dias depois do maior acidente aéreo ocorrido na história do país, medalhando parte da corte responsável pelo caos instalado é um escárnio...

Das medidas anunciadas, uma em especial me chama a atenção: vão fazer uma PPP para a construção de um novo aeroporto. Quanto isto custará e de onde sairá a fortuna ? Com 7,0 bilhões se reformariam os três principais aeroportos paulistas, dando uma vida útil maior e melhorando sensivelmente o afogado tráfego aéreo em São Paulo. E isto poderia ser feito num período de tempo relativamente curto. Até poderiam ir construindo um novo, como calma e sem atropelos, com melhor planejamento, uma vez que ele obrigatoriamente ficará distante do centro da cidade, e necessitará de uma infra-estrutura de transportes complementares inexistente hoje. E isto demanda tempo e dinheiro, tempo que já não temos, e dinheiro que não se sabe de onde virá. Apenas para ver o tamanho da encrenca: no tal PAC, há uma previsão de gastos de R$ 3,0 bilhões de reais para modernização de 20 aeroporto até 2010. Porcaria, não é mesmo? Apenas os três de São Paulo, como dissemos acima, custariam R$ 7,0 bilhões, o que comprova que o PAC é todo aquele pacotinho de enrolação de que estamos falando desde que foi anunciado e lançado por Lula.

As medidas anunciadas para desafogar Congonhas não são nenhuma novidade: há muito tempo que especialistas reclamam por elas. Precisou de uma tragédia para o governo acordar e agir.

Lula disse que outras medidas serão anunciadas nos próximos dias, mas pelo conjunto da obra deste governo, pelo histórico de como tem-se comportado em crises anteriores, provavelmente não se irá muito longe.

Lula demonstraria real interesse em ver solucionada a crise aérea se, dentre as medidas que anunciou, provocasse a substituição da turma que comanda a INFRAERO, ANAC e Ministério da Defesa. Achar que vai solucionar por osmose é pueril. Não vai. Com este gente incompetente que lá se encontra, principalmente os medalhados pela Aeronáutica, a coisa tende a ficar pior. Não basta ter uma boa estratégia de ação se, a equipe encarregada de executa-la for do nível de incompetência e irresponsabilidade que lá se encontra.
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Portanto, a fala de Lula tende a ser inútil e vazia, como sendo costume desde janeiro de 2003. Não é com circo armado em palanque de espetáculos de marketing político que Lula vencerá esta crise. Enquanto a festa se dá somente com pessoas vivas, a hipocrisia e o cinismo até acabam vingando. Mas os cadáveres de 350 inocentes, vítimas do descalabro administrativo, fazem com que esta festa já não tenha o mesmo foguetório festivo.
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Ontem aqui afirmamos que, desta crise, três personagens acrescentaram em definitivo em suas biografias, marcas que jamais se apagarão: Marta Suplicy, politicamente se enterrou com seu relaxa e goza, Marco Aurélio Garcia, com seu top-top-top deverá viajar doravante em jatinhos da FAB. Duvido que tenha coragem de aparecer em algum aeroporto brasileiro. Vai sentir de perto a repulsa do povo brasileiro ao seu gesto obsceno, leviano e canalha. E Lula, tanto no primeiro, quanto no segundo mandato, terá duas tragédias aéreas, filhas da crise, para marcá-lo em definitivo. Em sua fala presidencial, Lula disse que fará o impossível para debelar a crise. Quem vai acreditar nisto, se o que era possível, dentro do tempo exato que era possível, o que era possível não foi feito ? Agora, na pressa, premido pelas circunstância, pressionado pela opinião pública, fazer o impossível ? Impossível. Se já fizesse o que é possível, e não é pouco, já estaria de bom tamanho. Por exemplo, por que não demitiu seu assessor Marco Aurélio pela deselegância, desrespeito e obscenidade ? Por não demitiu os Zuanazzis, Denises e Waldires ? Fizesse isto, e estaria dando um recado certo para a nação de que realmente está interessado em acabar com a crise.

Deste modo, como dissemos no início, nos cinco minutos que esteve em cadeia de rádio e televisão, acabou falando muito e não dizendo absolutamente nada, o que, em se tratando de Lula e seu governo, não nos é nenhuma surpresa. Este governo adora soltar foguetes em dias de festa. Mas adora se acovardar quando deve enfrentar crises: quando a competência e a responsabilidade se acham ausentes, não há marqueteiro que dê jeito na pilantragem, principalmente por sobre os escombros de uma tragédia com dezenas de mortos ...

Para além da tragédia de Congonhas

Pedro Porfírio, Tribuna da Imprensa

"Com relação à segurança de vôo, eu não me preocupo. Até porque os aviões estão retidos no solo e todo mundo sabe que a melhor proteção para um avião não cair é ele não decolar". (José Carlos Pereira, brigadeiro e presidente da Infraero, em entrevista à Band News, durante o "apagão aéreo")

Bem que eu já havia me programado para falar sobre nossa aviltada aviação comercial brasileira. Hoje, 20 de julho, é o dia do nascimento de Santos Dumont, motivo de festa; mas é também o primeiro aniversário do fatídico leilão que reduziu a Varig a uma miniatura, deixou milhares de profissionais altamente qualificados a ver navios e a colocou nas mãos de aventureiros de um fundo abutre de investimento, produzindo um brutal corte epistemológico nos nossos transportes aéreos.

Mas antes que me desse à lembrança do erro fatal e de conseqüências irreversíveis do governo, que deixou correr solto o processo de amputação da Varig, levando todo seu sistema ao caos, inclusive o fundo de pensão, aconteceu esse acidente com o Airbus da TAM.

Se todos coincidem em apontar essa como uma "tragédia anunciada", aliás ensaiada na véspera, com a derrapagem do avião da Pantanal, poucos se deram ao trabalho de comparar a incidência de acidentes aéreos nos últimos anos.

A tragédia do vôo 3054 se deu há exatos 9 meses e 20 dias desde o estranho choque que abateu o Boeing da Gol nos céus de Mato Grosso. Isto é, os dois acidentes com maiores vítimas no Brasil aconteceram, por coincidência, nesse espaço em que se consumou de forma perversa e irresponsável o abandono da Varig à própria (má) sorte e já sob o "império" da Anac.

Além dessas duas traumáticas tragédias, o Aeroporto de Congonhas registrou pequenos acidentes. Em 7 de agosto do ano passado, um Fokker 100 da TAM interrompeu o vôo depois que uma porta se soltou ao decolar com destino ao Rio.

Tragédia de erros
Antes da Anac, em maio de 2004, um Embraer 125 da Rico Linias Aéreas caiu na Amazônia, causando a morte de 33 ocupantes, e lá em outubro de 1996 um Fokker da TAM chocou-se contra um prédio no bairro de Jabaquara, depois de levantar vôo de Congonhas, matando 97 pessoas.

Como pano de fundo dessas tragédias fatais, o chamado "apagão aéreo".

E em pleno clima de indignação de milhares de passageiros retidos por horas nos aeroportos, a ministra Marta Suplicy, do Turismo, brindou o País com uma frase emblemática que, diante da sua impunidade, passou a ser aos olhos do povo uma proposta do governo.

Toda discussão sobre o acidente desta terça-feira só aportará especulações dirigidas. Ninguém vai querer se responsabilizar por uma tragédia que chocou o País. Portanto, todos incriminam todos: só falta aparecer alguém para culpar as rádios "piratas", que entrariam na história como o mordomo nos romances de Agatha Christie.

Mas uma coisa é certa: o governo vai mal das pernas em matéria de transportes aéreos e isso poderá lhe custar muito caro, porque uma tragédia como essa de Congonhas não choca apenas a "classe média" que pega avião e que é apontada pelos bambas do Planalto como única insatisfeita com o presidente Luiz Inácio.

Se considerarmos a política governamental no setor, vamos nos deparar com um desastre em cadeia. Essa política errada, a bem da verdade, não é especialidade dos atuais governantes, embora o maior golpe contra a saúde do sistema - a amputação na Varig, a empresa-mãe, coluna vertebral da rede aérea - tenha ocorrido sob o governo Lula e para o gáudio de seus "cabeças de área".

A decadência e desestruturação da nossa aviação comercial teve nos responsáveis pela Agência Nacional de Aviação Civil, militantes partidários de discutível preparo técnico, sua definitiva cristalização. Não há um só ato desse pessoal que não tenha sido infeliz e causado transtornos.

Mas, a ser preciso, há todo um espectro de "autoridades" sem condições mínimas de permanecerem à frente dos órgãos gestores de um setor tão estratégico e vulnerável. Não basta ao presidente da República mandar a Polícia Federal investigar a obra da pista, decorrente de uma ação do Ministério Público Federal.

Se estiver no pleno exercício de suas responsabilidades, caberá ao presidente Luiz Inácio promover uma devassa e fazer rolar cabeças nesses órgãos, em todos os escalões, porque, como todo mundo sabe, ali o predomínio de práticas imorais passou dos limites, se é que essas práticas são admissíveis em algum limite.

Nessas horas, vale lembrar as decisões emblemáticas de Leonel Brizola. No seu segundo governo, diante de denúncias sobre corrupção no Detran, ele chamou alguns procuradores do Ministério Público e entregou o órgão para que o administrassem com toda liberdade.

Aí, tem razão o jornalista Josias de Souza, da "Folha": "Tome-se, porque é mais recente, o exemplo do descalabro de Congonhas. A pista onde se realizam os pousos e as decolagens mede exíguos 1.900 metros. Desde a década de 80, pilotos e especialistas se queixam das deficiências desse naco de concreto. O que fez o governo? Na última década, torrou algo como R$ 530 milhões no embelezamento interno do terminal de passageiros".

O que aconteceu agora em Congonhas é um verdadeiro atestado de óbito da política do governo para os transportes aéreos, mais voltada para obras cosméticas do que para a segurança. Os pilotos lembram que muitos deles já haviam advertido sobre as condições de Congonhas, mas as autoridades sempre preferiram se curvar às pressões das empresas, infladas por um aumento de demanda de 12% ao ano.

Além do acidente de véspera, somente entre março de 2006 e janeiro deste ano quatro derrapagens foram registradas no maior aeroporto da América Latina, que em 2005 somou 228 mil operações de pousos e decolagens (dois terços deles pela pista principal), superior ao número indicado pela Organização de Aviação Civil Internacional (Oaci), que é de 195 mil. Em uma das derrapagens, um avião da BRA quase atingiu a Avenida Washington Luís. Em janeiro, a Varig afirmou que uma lâmina d'água obrigou o piloto de um Boeing 737 a realizar uma freada mais brusca durante a aterrissagem.

Com o desastre fatal desta terça-feira, a sociedade espera mais do que providências simbólicas. Exige ações determinadas e definitivas.

A responsabilidade da Anac
A Anac é, legalmente, responsável pela gestão dos transportes aéreos, conforme estabelece seu regulamento:

"Art. 4º - Cabe à Anac adotar medidas para o atendimento do interesse público e para o desenvolvimento e fomento da aviação civil, da infra-estrutura aeronáutica e aeroportuária do País, atuando com independência, legalidade, impessoalidade e publicidade, competindo-lhe:

XXIX - aprovar e fiscalizar a construção, a reforma e a ampliação de aeródromos e sua abertura ao tráfego, observadas a legislação e as normas pertinentes e após prévia análise pelo comando da Aeronáutica, sob o ponto de vista da segurança da navegação.

XXXI - expedir normas e estabelecer padrões mínimos de segurança de vôo, de desempenho e eficiência, a serem cumpridos pelas prestadoras de serviços aéreos e de infra-estruturas aeronáutica e aeroportuária, inclusive quanto a equipamentos, materiais, produtos e processos que utilizarem e serviços que prestarem;

Art. 5º - Constitui infra-estrutura aeronáutica e aeroportuária, para efeito de orientação, coordenação, regulação e fiscalização da Anac, o conjunto de órgãos, instalações ou estruturas terrestres de apoio à aviação civil, para promover-lhe a segurança, a regularidade e a eficiência, compreendendo, nos termos do art. 25 da Lei nº 7.565, de 19 de dezembro de 1986".

Obra priorizou estética, diz especialista

SÃO PAULO - As obras no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, foram mal pensadas. Cenário na terça-feira da maior tragédia aérea do País, envolvendo a aeronave da TAM, Congonhas teve primeiro realizadas as reformas internas, para depois iniciar as obras nas pistas. "Ter dado prioridade à estética em vez da segurança parece um equívoco, para não dizer um erro." A avaliação é do docente do Departamento de Transportes da Poli/USP, Jorge Eduardo Leal Medeiros, para quem as prioridades são alvo de questionamentos.

"Por quê fizeram essa obra nas pistas depois de fazer o terminal de passageiros? Ou seja, você pensa primeiro no conforto dos passageiros ou no conforto da segurança?", disparou o especialista. E emendou: "Com certeza se reclamava muito mais da pista anteriormente. Ou seja, nós demos condições boas de segurança a Congonhas no passado, ou estamos dando só agora (com a reforma)?".

Para Medeiros, numa lista de prioridades, no momento de se efetuar uma reforma a segurança certamente deve estar em primeiro lugar. "A ordem de fazer uma reforma se começa pelo conforto da segurança, ou ela pode ser questionada. Eu acho que poderia ter feito as duas coisas simultaneamente, mas o fato é que as obras das pistas tinham que estar na frente", ressaltou o especialista da USP.

O docente disse também que neste momento é "muito difícil" avaliar as causas do acidente com a aeronave da TAM. Mas afirmou, no entanto, que dava para colocar em pauta evidências mais imediatas. "O acidente ocorre de uma falha do piloto, da aeronave ou da pista. Disso não tem como sair", ponderou. "Supor que o equipamento quebrou ou que o piloto falhou, só poderemos dizer a partir dos dados da caixa-preta da aeronave", acrescentou.

Sobre as especulações que a falta do grooving - ranhuras transversais para drenagem da água - seria a causa do acidente, Medeiros refutou: "Dizer que a causa é a falta do grooving não dá. Dizer que ela prejudicou e atrapalhou o pouso, isso, sim, pode-se dizer, mas temos que esperar as investigações".

O especialista comentou ainda que o Aeroporto de Congonhas tem condições para atender a demanda e não descartou a hipótese de ter sido uma "fatalidade". Mas avaliou, entretanto, que existiam indícios de que algo não funcionava bem. "Tem os pilotos que estavam reclamando que ela estava escorregadia. Mas temos que ver outras alternativas. Havia indício? Havia. Se isso é fato? Temos que esperar para ver".

O acidente que envolveu o Airbus A-320 da TAM entrou para o triste ranking de tragédias aéreas como a pior do País. No total, 186 pessoas estavam a bordo, entre passageiros, funcionários da companhia e tripulantes. Em razão da explosão com o choque no prédio da TAM Express, este número aumenta, pois mais de uma dezena de pessoas estavam no imóvel, num total de vítimas que pode chegar a 200 mortos.

Uma questão de capitalismo

Reinaldo Azevedo

A crise estrutural do setor aéreo não tem saída sem investimentos pesados, e o governo não tem dinheiro para tanto. Se Lula não houvesse satanizado as privatizações, é claro que este seria o caminho, uma solução que quase chegou a ser adotada no governo FHC, com o posterior recuo. Os militares também não viam a saída com bons olhos — como sabemos, uma boa parte dos “conservadores” brasileiros também odeia o capitalismo.

O PAC — essa ficção para se referir àquilo que é obrigação do governo — prevê R$ 878 milhões para o setor aéreo neste ano. É um dinheiro ridículo. Ao longo de 4 anos, estão previstos R$ 3 bilhões. Digo “ridículos” porque se estima que só os três principais aeroportos de São Paulo — Congonhas, Cumbica e Viracopos — precisariam de R$ 7 bilhões. Considerando as necessidades do país, seriam R$ 40 bilhões. Eis o tamanho desse gargalo.

Tem dinheiro para tudo isso? Não tem. A saída seria a divisão e a privatização da Infraero, com a criação de um órgão realmente regulador.

Aliás, estamos diante de uma excelente questão. A esquerdopatia dominante acha que empresas, quando nas mãos do Estado, prestam serviços melhores e resguardam os interesses nacionais. É mesmo, é? Respondam depressa: das agências reguladoras que temos, qual é a mais servil às empresas? Qual é a que menos cumpre a sua tarefa? Qual é a que menos zela pela qualidade do serviço? Qual é a que menos multas aplica? Qual é a mais rendida aos chamados “interesses de mercado”? Bidu! É a Anac — Agência Nacional de Aviação Civil . E justamente porque a operação das empresas é privada, mas o controle do setor, por meio da Infraero, é público. Não sei se entenderam: não é prudente juntar numa mesma sala muito dinheiro e burocrata muito poderoso.

Também nesse caso, quanto mais estado,mais injunções políticas , mais safadeza, mais corrupção. Vocês acham mesmo que, fosse privado, o aeroporto de Congonhas teria aberto uma pista sem que todas as obras de segurança tivessem sido realizadas? Já sabemos que a pista foi reaberta em razão da pressão das empresas. Ora, pressionar empresa pública é a coisa mais fácil do mundo no capitalismo cartorial brasileiro.

Anotem aí: são as empresas privadas que atendem aos interesses públicos; as empresas públicas existem para atender aos interesses privados

'Economist': acidente 'destroçou' confiança no setor aéreo

BBC Brasil

A revista britânica The Economist diz na edição publicada nesta quinta-feira que a confiança dos brasileiros nos responsáveis pelo setor aéreo no país foi "destroçada" com o acidente com o avião da TAM em São Paulo.

Em um artigo intitulado Um acidente esperando para acontecer?, a revista defende uma revisão do setor para acabar com a crise.

"Toda a governança da aviação brasileira, dividida entre civis e militares, precisa de investigação e reforma", disse a revista.

O texto afirma que, desde o acidente com o avião da Gol, em setembro do ano passado, quando morreram 154 pessoas, "a indústria das empresas aéreas do país mancou de uma crise para outra, enfrentando vôos cronicamente atrasados, controles de tráfego aéreo rebeldes e vários acidentes de menor gravidade e quase acidentes".

Especulações e acusações
No caso do acidente com o avião da TAM, a Economist diz que bastou que se passassem algumas horas do ocorrido para que começassem as especulações e as acusações.

"Alguns especialistas dizem que este era um acidente esperando para acontecer. As curtas pistas de pouso de Congonhas ficam no coração de uma das maiores cidades do mundo", diz a revista.

O texto lembra que uma ordem judicial determinou o fechamento do aeroporto em fevereiro, mas foi derrubada depois de ter sido considerada "drástica demais".

A Economist diz que "pilotos e engenheiros reagem dizendo que o que conta são as condições do aeroporto, e não seu tamanho e localização".

"E sobre isso, recaem dúvidas", completa a revista, lembrando que a pista principal do aeroporto foi reaberta em 29 de junho depois de uma reforma, sem que nela fossem feitas ranhuras para ajudar na drenagem e evitar derrapagens de aeronaves.

Influência política na liberação de Congonhas

Jornal vê influência política em decisão de abrir pista de Congonhas
BBC Brasil

Uma reportagem publicada nesta quarta-feira no jornal argentino La Nación avalia que as autoridades brasileiras podem ter autorizado a "utilização até as últimas consequências" da pista de Congonhas para evitar o custo político dos atrasos e do caos aéreo brasileiro.

Sob o título "Uma catástrofe anunciada após vários meses de caos", o jornal é um dos raros que se aventuram a especular sobre razões políticas capazes de interferir na decisão técnica da Infraero de permitir pousos e decolagens no mais movimentado aeroporto do país.

Outros jornais mundiais - entre eles os americanos New York Times e Washington Post, o espanhol El Pais e o britânico The Independent - noticiaram o acidente com o vôo 3054 da TAM apenas notando que a tragédia se desenrola em meio a um clima de tensão que já minava a confiança no setor aéreo do país.

Mas, para o La Nación, "o pior acidente na história do Brasil não é um fato isolado, mas um novo capítulo, o mais trágico, da crise".

"E o mais insólito é que a tragédia de ontem pode ter sido produzida por uma negligência fatal: a pista de aterrissagem de Congonhas não tinha as ranhuras necessárias para frear o avião em caso de chuva."

"A pista havia sido reformada em maio, mas ainda não havia sido realizado o 'grooving', marcas no chão que permitem uma maior aderência quando o solo está úmido."

"Antes da reforma (inconclusa), o Centro Nacional de Investigação e Prevenção de Acidentes havia ordenado que os pousos e decolagens fossem suspensos em caso de chuva. O custo político que estava produzindo ao governo Lula os atrasos nas últimas semanas pode ter motivado a utilização da pista até suas últimas conseqüências", diz o jornal.

'Ramificações econômicas'
Outro jornal que menciona a batalha em torno do fechamento da pista de Congonhas é o britânico The Guardian.

O Guardian afirma que um dos fatores para reabrir a pista foi o desejo de evitar "graves ramificações econômicas". Mas o jornal não detalha que tipo de "ramificações econômicas" poderiam ocorrer se a pista permanecesse fechada.

Segundo a reportagem, "críticos advertiram durante anos da possibilidade de um acidente, porque a pista do aeroporto é muito curta para que aviões grandes pousem em dias chuvosos".

Já o Clarín, da Argentina, nota que acidentes que precederam o desta terça-feira vinham indicando a possibilidade de uma tragédia: o acidente com o avião da Gol em setembro do ano passado e o incidente em que um avião da Pantanal saiu da pista de Congonhas, na segunda-feira.

"A Infraero não pôde explicar o que havia causado este 'problema'. As autoridades dessa estatal comentavam que a pista havia sido reformada recentemente para evitar precisamente este tipo de situação", disse o Clarín.

"A Força Aérea brasileira prometeu investigar que defeitos haviam causado a patinada. Chegou-se a sugerir que podia se tratar de 'falta de perícia' do piloto ou um defeito da aeronave. Entretanto, também se mencionou neste momento que podia haver deficiências na reconstrução da pista."

"Ontem, se repetiu o problema. Mas, se na segunda-feira não houve conseqüências, ontem foi uma tragédia."

Existe alternativa para Congonhas?

Carlos Sardenberg, Portal G1
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Por que se continua voando de e para Congonhas?

Primeiro, porque muita gente quer:

- os passageiros, a trabalho ou a turismo, que reclamam quando são desviados para aeroportos de Guarulhos e Campinas (assim como reclamam quando desviados do Santos Dumont para o Tom Jobim e da Pampulha para Confins);

- empresas e órgãos públicos, que ganham tempo com seus funcionários embarcando e desembarcando em aeroportos centrais;

- as companhias aéreas, já instaladas no local.

Mas é evidente que todos aceitariam e até prefeririam um outro aeroporto, mais confortável (é quase sempre tumultuada a passagem por Congonhas) e mais seguro, desde que tivessem bom acesso a ele.

Ou seja, São Paulo e o Brasil precisam de um outro aeroporto na cidade, com acesso de trem ou metrô a partir de pontos centrais. Aliás, como ocorre em metrópoles pelo mundo afora.

Se houvesse um mínimo de planejamento no setor, o novo aeroporto paulista já estaria em andamento. Assim como estariam em andamento os projetos para a construção de linhas de trens dando acesso rápido de São Paulo aos aeroportos de Guarulhos e Campinas, que comportam ampliações.

Como todas essas providências, tomadas a partir de agora, levariam anos para a conclusão, isso nos leva ao segundo motivo pelo qual se continua desafiando o destino com vôos em Congonhas: não há alternativa no momento, os outros aeroportos não comportam todo o movimento. A menos que se aceitasse uma forte redução no número de vôos, com graves prejuízos não apenas para as companhias aéreas, mas também para os passageiros.

A explosão de aviões explode a credibilidade

Hélio Fernandes, Tribuna da Imprensa

O desastre da noite de terça, se prolongando pela madrugada de ontem, quarta, em Congonhas, é deprimente, horroroso, aviltante, emocionante por conseqüência, lamentável pelo que se previa, se admitia, sentia-se em cada análise do caos que se instalava na aviação brasileira.

Foi uma tragédia que afetou a cada um dos que perderam parentes e amigos, foi uma tragédia que prolonga o caos que se instalou na aviação brasileira. Neste momento, o mais importante não é a caça aos culpados, embora eles existam e tenham que ser afastados e eliminados.

O objetivo inicial é restabelecer a confiança nos vôos, reconquistar a segurança que sempre houve, confirmar as estatísticas que mostram e revelam que até um passeio de bicicleta causa mais mortos do que 10 ou 12 horas cruzando o mundo navegando num avião.

Mas como se conquista esses pontos, se coloca novamente a aviação na segurança e na credibilidade que sempre teve? Investigações? Indispensáveis e inúteis. Até hoje, desde 29 de setembro do ano passado, quase 1 ano transcorrido, nada se sabe de incontestável a respeito do desastre com o avião da Gol e seus 154 mortos.

Até hoje é impossível garantir se o desastre da Gol foi conseqüência da incompetência do desleixo, do equipamento ultrapassado ou se o caos existente e não pressentido se tornou público, irresponsável e irrespondível por causa desse desastre.

10 meses, nenhuma resposta, explicação, resultados de tantas investigações. Acontecerá o mesmo com o que aconteceu em Congonhas? A diferença entre os dois acontecimentos é que o do avião da Gol explodiu longe, só se soube praticamente depois.

Já o de Congonhas aconteceu diante de nós, vimos tudo, acompanhamos tudo, participamos de tudo, essa é a televisão (e o rádio), serviço público que transmite os fatos, mesmo que nos seqüestre, nos aprisione e nos estrangule na emoção. Longe de Congonhas mas ansiosos e sem palavras dentro das próprias casas, redações, escritórios, até nos carros, era o fim da tarde, início da noite, terminara um dia de trabalho. Para aquelas 200 pessoas, terminava o dia, a vida, a existência, sonhos e esperanças.

Todos rezavam, torciam ou esperavam que não houvessem mortos. À 1 hora da manhã, escrevendo estas notas, não havia como acreditar nisso. Se, como diziam todos, O AVIÃO EXPLODIU, é lógico que não se salvaria ninguém. Além do mais, de 15 para as 7 da noite de terça-feira até 2 da madrugada da quarta, ninguém sequer se aproximava do avião incendiado, o que cofirmava a certeza angustiante de que ninguém se salvara.

E agora? Nenhuma investigação ressuscitará os 200 mortos, mas poderemos evitar as mortes em série de outros 200 por dia. Já se sabia que o grande vilão (ou vilã) era o que se chamava de "ranhura" da pista de Congonhas. A Infraero e a Anac estão cheias de relatórios sobre o perigo e a insegurança dos vôos em Congonhas.

Tudo pode e deve começar por aí, com uma pergunta simples: quem autorizou o funcionamento de Congonhas, com as obras inacabadas, sem a segurança indispensável?

Choramos agora os 200 mortos, participamos da emoção de parentes e amigos, mas não podemos deixar de colocar a pergunta: quantas vezes mais teremos que chorar? Pelos mortos e pelo enterro da aviação brasileira?

TOQUEDEPRIMA...

***** Turismo é único ministério sem nota oficial sobre acidente da TAM
Carla Andrade, Agência JB

RIO - O trágico acidente com o avião da TAM, ocorrido na última terça-feira, no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, levou o Palácio do Planalto, os ministérios da Saúde e da Defesa, além da Infraero, Anvisa e Anac a colocarem, através de notas oficiais, mensagens de solidariedade aos parentes e amigos das vítimas do avião da TAM em seus respectivos sites.

No entanto, o ministério do Turismo, pasta que tem ligação direta com o ocorrido, foi o único a ficar de fora e não sequer mencionar a tragédia em seu site. Questionada sobre a ausência de uma mensagem da ministra Marta Suplicy, a assessoria de comunicação respondeu, através de um e-mail:

- A manifestação do Governo Federal já se fez por meio do porta-voz do presidente da República. A ministra do Turismo, assim como todos os brasileiros, está de luto e entristecida com a tragédia. No momento em que soube do ocorrido, cancelou, imediatamente, a agenda que desenvolvia em Lisboa, relativa ao vôo inaugural da TAP de Lisboa para Brasília.

***** Acidente TAM: fumaça é vapor de água

O vídeo do pouso do avião da TAM, vôo JJ 3054, divulgado ontem pela Infraero, causou espanto pela cena chocante. O avião passa rapidamente pela pista e desaparece, só então vemos um clarão, no momento do impacto do avião com o prédio de carga da TAM. No vídeo também foi vista fumaça na turbina do Airbus A320, mas o presidente da Infraero, brigadeiro José Carlos Pereira, afirmou que a fumaça é apenas vapor de água.

***** MP: Anac e Infraero são responsáveis pelo acidente
Agência Brasil

O procurador da República Márcio Schusterschitz afirmou nesta quinta-feira que o acidente com o vôo 3054 da TAM, independentemente das causas, foi uma tragédia típica do aeroporto de Congonhas. "Dentro desse contexto o Ministério Público atribui as responsabilidades do acidente a quem tem o aeroporto nas mãos, ou seja, a Anac e a Infraero".

Schusterschitz enviou ontem, junto com a procuradora da República Fernanda Taubemblatt, um pedido para o que a Justiça interdite Congonhas. Para ele, é necessário fechar o aeroporto porque o terminal tornou-se "uma aventura arriscada". Segundo ele, as causas do acidente ainda não foram determinadas e, por isso, ninguém pode predizer se elas voltarão a provocar acidentes ou não.

"Isso, dentro de um contexto muito perigoso, porque o aeroporto está localizado em uma zona urbana, que tem excesso de vôos e é vítima de falta de atitudes na resolução dos problemas que apresenta", disse.

Ele disse não poder avaliar se o acidente será um fator para que a Justiça acate o pedido do MPF e negou que o acidente seja usado pelo órgão como argumento para o pedido de fechamento do terminal.

***** TAM teve problemas no Paraguai

A notícia é do no jornal ABC, documentada com investigação da Diretoria de Aviação Ciivil (Dinac): a TAM teria sido responsável por incidentes graves no aeroporto internacional Guaraní, Alto Paraná. Outra acusação revela que dia 29 de junho um avião da companhia brasileira aterrissou e decolou sem autorização da torre de controle, quando o aeroporto estava fechado por falta de visibilidade. No primeiro incidente, um Cessna 206, prefixo ZP-TSS, que vinha de Assunção, foi autorizado a pousar no Guaraní. O avião da TAM Mercosul, que esperava para decolar, subiu sem autorização, segundo uma controladora de tráfego paraguaia, fazendo o Cessna balançar com a turbulência dos motores do Fokker 100, que não esperou o outro piloto passar para uma pista lateral. Os donos do Cessna, com sérios danos na estrutura, e o piloto, que quase perdeu o controle do aparelho, pediram reparação de danos à TAM, sem sucesso até agora, segundo o jornal. Em 29 de junho, no mesmo aeroporto, outro avião da TAM, que vinha de São Paulo, aterrissou sem autorização com " visibilidade zero no aeroporto", segundo um controlador. Os pilotos agiram irresponsavelmente, diz a Dinac.

***** Lula convoca reunião e deve anunciar medidas
Jeferson Ribeiro, Redação Terra

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva convocou para o final do dia uma reunião com os ministros que compõem o Conselho de Aviação Civil (Conac) para avaliar quais medidas podem ser tomadas pelo governo após o acidente com o avião da TAM que matou pelo menos 191 pessoas. Foi o segundo acidente aéreo de grandes proporções no País em 10 meses. Em setembro do ano passado, um Boeing da Gol se chocou com um jato Legacy e caiu, matando 154 pessoas.

O Conselho se reúne amanhã, a partir das 15h. Segundo interlocutores do Palácio do Planalto, há grandes possibilidades de o próprio presidente fazer o anúncio de medidas para o setor na sexta-feira.

Foram convocados os ministros do Turismo, Marta Suplicy, do Desenvolvimento, Miguel Jorge, da Fazenda, Guido Mantega, das Relações Exteriores, Celso Amorim, da Casa Civil, Dilma Rousseff, e da Defesa, Waldir Pires, além do comando da Aeronáutica. Os representantes da Infraero e da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) também podem participar da reunião, mas isso ainda não foi definido.

O Conselho é um órgão consultivo que assessora o presidente da República e indica a necessidade de adoção de novas políticas públicas para o setor aéreo. O Conac pode sugerir, por exemplo, a redução da malha aérea no País ou a diminuição de operações em Congonhas e, apesar de não ter papel deliberativo, terá força para indicar que rumos o governo deve tomar.

Além de representantes do governo, o Conac tem participação das empresas e da sociedade civil. Segundo o ministério da Defesa, a reunião servirá para dar continuidade às discussões sobre a política governamental para o setor aéreo. "Entre os itens a serem revistos, estão resoluções que tratam da infra-estrutura aeroportuária, do transporte internacional, da regulação econômica, dos fundos da aviação, entre outros", diz a nota.

***** Efeito retardado
Cláudio Humberto

Pipocam no Ministério Público do Trabalho denúncias de desvio de função de motoristas terceirizados, ganhando metade do piso salarial na hidrelétrica do São Francisco, Advocacia-Geral da União, Controladoria-Geral, Agência Nacional de Telecomunicações e Caixa Econômica Federal. A indenização será milionária e pagaremos a conta.

***** Dividido, governo Lula faz reuniões paralelas para discutir mesma crise

No olho do Furacão da crise aérea, o governo federal está "dividindo" as decisões sobre o que fará com o Aeroporto de Congonhas e sobre o caos na aviação nacional. Nesta quinta-feira, o presidente Lula convocou uma reunião com a participação de seis ministros. No entanto, o ministro da Defesa (pasta responsável pelo setor), Waldir Pires, ficou de fora. De acordo com o Palácio do Planalto, a ausência do ministro da Defesa é explicada por ele não fazer parte da coordenação de governo, formada por Tarso Genro (Justiça), Walfrido Mares Guia (Relações Institucionais), Franklin Martins (Comunicação Social), Guido Mantega (Fazenda), Dilma Rousseff (Casa Civil) e Paulo Bernardo (Planejamento).

Pires, no entanto, também tenta encontrar explicações para o acidente. Ele convocou para esta sexta uma reunião do Conac (Conselho Nacional de Aviação Civil), cujo objetivo é discutir medidas para atacar a crise aérea, agravada pelo acidente do vôo 3054, da TAM, o maior da aviação civil brasileira. O Conac foi criado em 2003 para assessorar a Presidência da República nas questões relacionadas ao tráfego aéreo. O órgão é composto pelos ministros Celso Amorim (Relações Exteriores), Guido Mantega (Fazenda), Miguel Jorge (Desenvolvimento), Marta Suplicy (Turismo), Dilma Rousseff (Casa Civil) e pelo comandante da Aeronáutica.

TRAPOS & FARRAPOS...

A CRISE NÃO É APENAS AÉREA, MAS DE FALTA DE GOVERNO
Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia

Muitos comentaristas e especialistas quando chamados a falar e opinar sobre a crise aérea brasileira, começam invariavelmente a falar e analisar sobre o acidente do Boeing da Gol, que vitimou 154 pessoas. Porém, e para quem freqüenta este espaço sabe que preferimos sempre começar a partir da hecatombe que se abateu sobre a VARIG e a forma criminosa como o governo Lula tratou esta questão.

Muitos se apressam em dizer que o governo federal não deve mesmo por dinheiro público em empresas falidas. Será ? Então não se explicam as centenas de empréstimos que o governo tem aprovado no âmbito do BNDES, muitos dos quais por até serem renovação de empréstimos contraídos e não pagos, e outros, mesmo diante da inadimplência de alguns empresários, o BNDES se apressou em conceder novos empréstimos e financiamentos. Outros, diante do calote, o BNDES resolveu socorrer os devedores com acordos pra lá de camaradas ! E isto tudo sempre noticiamos aqui, inclusive vamos tirar do arquivo e republicar um artigo do jornal O Globo e outro da Revista Exame para que vocês entendem que a omissão de socorro no caso da VARIG tem sua raiz em razão das ações nada patrióticos de um certo lobista que anda tendo muito sucesso na praça, praticando o mais deslavado e descarado tráfico de influência que se tem notícia nos últimos 20 anos, e que teve uma passagem rápida dentro do governo que lhe valeu ter o peso político do qual muitas empresas se valem e se socorrem para obter privilégios, vedado à maioria dos comuns mortais deste planeta.

Com respeito à VARIG, observem o seguinte: no meio do burburinho de socorre - não socorre, o governo federal foi condenado na Justiça, em ação movida pela VARIG, a pagar uma indenização calculada à época em torno de R$ 4,5 bilhões. Isto mesmo: R$ 4,5 bilhões. O governo, logicamente, se negou em pagar e se nega até agora, muito embora todo o peso que se usou para a VARIG abrir mão desta indenização juridicamente já reconhecida. Então o governo havia proposto para a VARIG que ela desistisse da ação, para conceder-lhe o financiamento que pleiteava junto ao BNDES. Vocês sabem de quanto era o financiamento que a VARIG pedia para continuar sobrevivendo e voando com sua excelência de serviços internacionalmente reconhecida e respeitada ? Menos de R$ 200,0 milhões. Ou seja, o governo liberava o financiamento, desde a VARIG desistisse dos R$ 4,5 bilhões. Indecoroso é o mínimo que se pode dizer.

Quando a VARIG já não conseguia mais levantar vôo, e entrou no regime pré-falimentar, o que se viu foi a perda não apenas da frota que ficaria em terra, mas o fechamento de 5.500 postos de trabalho de gente de altíssimo qualificação profissional. Durante anãos a fio a VARIG foi o terminal no qual as maiores e principais companhias aéreas do mundo todo faziam manutenção em suas aeronaves. Seu centro de treinamento de pilotos e o treinamento dado a comissários e comissárias de bordo era referência mundial. Tudo isto o governo Lula enterrou para afagar o lobista amigo e simpático que se favorecesse a TAM.

Vocês por certo estão acompanhando todo o noticiário dos últimos meses sobre a interminável crise aérea brasileira: e por certo, devem ter tomado conhecimento dos problemas de “aeronaves” tanto da Gol quanto da TAM apresentando problemas mecânicos a revelarem deficiências de manutenção, coisa da qual durante décadas jamais se ouviu falar no Brasil. Ao ficar com sua frota presa em terra, a VARIG deixou um vazio na aviação comercial que já vinha num crescendo na média de 10% anuais, que nenhuma outra companhia conseguiria suprir. Isto é um fato do qual o governo pouco fala, e quando o faz, é sempre um pano muito rápido para que as especulações sobre o tratamento dispensado àquela companhia não se tornem inconveniente demais. E não foi apenas em vôo dentro do país, mas principalmente os internacionais.

E o nó se dá pela falta de ótica do governo Lula da importância da aviação comercial na modernização e progresso de um país. Quem usa o espaço aéreo? São executivos de grandes empresas, investidores que viajam em busca de oportunidades para novos negócios, e claro, toda uma classe de profissionais liberais que saem a trabalho, políticos de todos os níveis e turistas, nacionais e estrangeiros. Ter uma infra-estrutura aeroportuária bem solidificada e segura, é uma porta aberta para estes novos negócios, para expansão dos já existentes, para os turismo. E tudo isto deságua em novos empregos, novos negócios, aumento de renda, numa rica combinação de fatores positivos que parece o governo não ter se apercebido. Para ele, usa avião somente a elite, aquela que faz turismo irresponsável, quando na verdade todo o turismo, em sua essência sempre teve mais de cultura do que de qualquer outra coisa.

A conjugação do assassinato imoral da VARIG, com o compadrio praticado na ANAC e INFRAERO culminou nisto que estamos assistindo: uma crise sem hora certa para acabar, porque Lula não parece ter aprendido as lições, parece não ter real interesse em resolver o problema, e não conta ao seu lado com gente minimamente competente e responsável para dar sustentação à ações necessárias e inadiáveis. Sem expulsar este gentalha relapsa e incompetente de seu lado, Lula vai empurrar o problema com a barriga sem jamais chegar a um resultado satisfatório. E não vamos descartar novos desastres. O nível da aviação comercial no Brasil baixou muito, perdeu referência, perdeu tecnologia, perdeu qualidade, e muito do que se tinha formado em décadas, hoje está ou na Europa, ou nos Estados Unidos, ou até na China. Ou seja, exportamos mão de obra de altíssima qualidade e padrão internacionais a troco de coisa alguma. O governo Lula expulsou do Brasil o seu melhor investimento em mão de obra do ramo aeronáutico civil. Fez sua opção pela mediocridade, como de resto tem sido esta sua opção em várias outras frentes.

E vamos agradecer a Deus pelo fato da EMBRAER não ser mais empresa estatal. Assim como tantas outras empresas privatizadas, graças ao que são empresas de primeira linha ocupando espaços cada vez maiores no competitivo mundo globalizado. Imaginem as empresas de telefonia nas mãos do petê, ou a siderurgia, apenas para ficarmos nestes dois exemplos. Se a aviação comercial ao governo compete apenas fiscalizar e controlar o espaço aéreo já virou a bagunça e a anarquia em que se encontram, imaginem o que não teriam feito com os demais setores privatizados. Estaríamos comemorando à volta à era da pedra lascada, com comunicações através de sinais de fumaça, andando de charrete e transportando em lombo de mulas. O atraso mental e tecnológico desta gente tacanha são de doer, mas eles se entendem como “modernosos”.

Daí porque, e falaremos disto no próximo post, a fala de Lula diz muito menos do que deveria. Ela é o sinal claro de novas emoções e novas tragédias não estão afastados do nosso dia a dia. Estamos muito mais próximos de novos apagões aéreos do que contarmos com uma moderna e eficiente infra-estrutura aeroportuária no país. Apesar dos 350 cadáveres, Lula ainda não aprendeu a lição. E o caos ainda rondará por um bom tempo os céus do Brasil. A opção feita é pelo atraso, pela mediocridade, pelo aparelhamento, pelo retrocesso, pelo relaxamento, pela omissão, pela irresponsabilidade. Com tais valores não há como avançarmos, não há como progredir. Infelizmente, o segundo mandato deste governo terminará só daqui a três anos e meio. Até lá vamos ter que suportar muito choro e ranger de dentes. Pobre Brasil !