sábado, julho 21, 2007

A explosão de aviões explode a credibilidade

Hélio Fernandes, Tribuna da Imprensa

O desastre da noite de terça, se prolongando pela madrugada de ontem, quarta, em Congonhas, é deprimente, horroroso, aviltante, emocionante por conseqüência, lamentável pelo que se previa, se admitia, sentia-se em cada análise do caos que se instalava na aviação brasileira.

Foi uma tragédia que afetou a cada um dos que perderam parentes e amigos, foi uma tragédia que prolonga o caos que se instalou na aviação brasileira. Neste momento, o mais importante não é a caça aos culpados, embora eles existam e tenham que ser afastados e eliminados.

O objetivo inicial é restabelecer a confiança nos vôos, reconquistar a segurança que sempre houve, confirmar as estatísticas que mostram e revelam que até um passeio de bicicleta causa mais mortos do que 10 ou 12 horas cruzando o mundo navegando num avião.

Mas como se conquista esses pontos, se coloca novamente a aviação na segurança e na credibilidade que sempre teve? Investigações? Indispensáveis e inúteis. Até hoje, desde 29 de setembro do ano passado, quase 1 ano transcorrido, nada se sabe de incontestável a respeito do desastre com o avião da Gol e seus 154 mortos.

Até hoje é impossível garantir se o desastre da Gol foi conseqüência da incompetência do desleixo, do equipamento ultrapassado ou se o caos existente e não pressentido se tornou público, irresponsável e irrespondível por causa desse desastre.

10 meses, nenhuma resposta, explicação, resultados de tantas investigações. Acontecerá o mesmo com o que aconteceu em Congonhas? A diferença entre os dois acontecimentos é que o do avião da Gol explodiu longe, só se soube praticamente depois.

Já o de Congonhas aconteceu diante de nós, vimos tudo, acompanhamos tudo, participamos de tudo, essa é a televisão (e o rádio), serviço público que transmite os fatos, mesmo que nos seqüestre, nos aprisione e nos estrangule na emoção. Longe de Congonhas mas ansiosos e sem palavras dentro das próprias casas, redações, escritórios, até nos carros, era o fim da tarde, início da noite, terminara um dia de trabalho. Para aquelas 200 pessoas, terminava o dia, a vida, a existência, sonhos e esperanças.

Todos rezavam, torciam ou esperavam que não houvessem mortos. À 1 hora da manhã, escrevendo estas notas, não havia como acreditar nisso. Se, como diziam todos, O AVIÃO EXPLODIU, é lógico que não se salvaria ninguém. Além do mais, de 15 para as 7 da noite de terça-feira até 2 da madrugada da quarta, ninguém sequer se aproximava do avião incendiado, o que cofirmava a certeza angustiante de que ninguém se salvara.

E agora? Nenhuma investigação ressuscitará os 200 mortos, mas poderemos evitar as mortes em série de outros 200 por dia. Já se sabia que o grande vilão (ou vilã) era o que se chamava de "ranhura" da pista de Congonhas. A Infraero e a Anac estão cheias de relatórios sobre o perigo e a insegurança dos vôos em Congonhas.

Tudo pode e deve começar por aí, com uma pergunta simples: quem autorizou o funcionamento de Congonhas, com as obras inacabadas, sem a segurança indispensável?

Choramos agora os 200 mortos, participamos da emoção de parentes e amigos, mas não podemos deixar de colocar a pergunta: quantas vezes mais teremos que chorar? Pelos mortos e pelo enterro da aviação brasileira?