domingo, julho 29, 2018

Guerra comercial: a crise que o próximo presidente não poderá ignorar

Gabriela Ruic
Exame.com

Pesquisa da Amcham, cedida com exclusividade para EXAME, revela que as empresas no Brasil estão em alerta para os efeitos da disputa entre EUA e China

(andriano_cz/Thinkstock)
Guerra comercial entre Estados Unidos e China: próximo presidente brasileiro 
será pressionado por esse tema, mostra pesquisa da Amcham 

São Paulo – A guerra comercial entre os Estados Unidos e a China promete trazer uma grande pressão para o próximo governo do Brasil, independentemente de quem será o candidato vencedor após as eleições, em outubro. É o que indica uma pesquisa da Câmara Americana para o Comércio no Brasil (Amcham) com 130 executivos de grandes empresas brasileiras ou multinacionais, a que EXAME teve acesso com exclusividade.

O levantamento mostra que os executivos estão cautelosos em razão das recentes turbulências comerciais globais. A maioria deles (66%) diz que já trabalha com um cenário de risco, levando em conta um impacto econômico e comercial negativo nos negócios no Brasil. Ainda de acordo com os entrevistados, o diálogo bilateral entre os Estados Unidos e a China, os maiores parceiros comerciais do Brasil, deve ser um dos temas prioritários na agenda do presidente eleito.

O tema é ainda mais urgente num momento em que as previsões de crescimento econômico para o Brasil são mornas, influenciadas por fatores como alta do dólar e a disputa comercial entre as potências. A expectativa do governo federal para o crescimento do PIB em 2018 recuou de 3%, no começo do ano, para 1,6% em julho.

Sobre a relação com os Estados Unidos, especificamente, os executivos entrevistados na pesquisa dizem querer ver um governo brasileiro com postura “ativa” (56%). Eles também acreditam que conversas com os Estados Unidos e a China deveria começar de imediato, numa tentativa de evitar a imposição de novas sobretaxas (33%).

Os entrevistados também acreditam que o comércio exterior é um dos maiores desafios que a próxima gestão irá enfrentar (53%) e apontam que o governo também precisará simplificar e desburocratizar as operações de importação e exportação (51%).

Mercosul e UE: a esperança não morre

Com um cenário internacional turbulento e incerto, os empresários ouvidos pela Amcham acreditam que o risco trazido à tona pela desglobalização, fenômeno que prevê a redução da interdependência e integração no espectro global, pode acelerar o tão sonhado acordo entre União Europeia e o Mercosul, há anos em negociação.

Para muitos dos entrevistados (53%), contudo, mais que uma tratativa com o bloco europeu, uma aproximação maior com outros países da América Latina, como a Aliança do Pacífico (México, Colômbia, Peru e Chile) traria maiores ganhos comerciais. Uma parcela dos executivos (35%) considera que a melhor opção seria aumentar o comércio com a China.

Baixa participação brasileira no comércio exterior

Deborah Vieitas, presidente da Amcham, nota que a experiência em lugares do mundo — como Japão, Alemanha, Coreia do Sul, Singapura, Hong Kong, Chile e Espanha — mostra que as exportações são uma ferramenta importante para crescimento econômico, o que reforça a necessidade de o Brasil aumentar a participação do comércio exterior na economia. “Os países que realmente conseguiram mudar de patamar nos últimos 70 anos têm entre 40% e 50% do PIB ligados às exportações e às importações. No Brasil, é difícil encontrar momentos da economia em que o comércio exterior representasse mais do que 25% do nosso PIB”, diz Deborah Vieitas.

(Mário Miranda/AMCHAM/)
Deborah Vieitas, presidente da Amcham Brasil 

Ainda de acordo com ela, o próximo presidente do Brasil precisará ter uma postura mais ativa em relação ao comércio exterior e na atração de investimentos. “Precisamos escolher um líder que priorize uma politica internacional com estratégia para o médio e longo prazo e, a desburocratização do comércio. Observamos que, apesar dos riscos evidentes e crescentes, esses temas ainda aparecem de forma tímida nas discussões da nossa politica interna”, avalia.




Ideias? Ora, as ideias

Carlos Alberto Sardenberg
O Globo

O setor público está quebrado. Estão na pauta questões cruciais para o futuro próximo, entre as quais a Previdência

Pelo andar das negociações, o vice de Geraldo Alckmin tanto pode ser o comunista Aldo Rebelo — ex-PCdoB, hoje no Solidariedade — como o empresário Josué Gomes — dono de 15 fábricas no Brasil, cinco nos EUA, uma na Argentina e outra no México, líder da confecção de cama, mesa e banho nas Américas. Pode parecer estranho, mas no meio político isso é dado como absolutamente normal. Tanto que o empresário também é cogitado como vice na chapa do petista Fernando Pimentel, governador candidato à reeleição em Minas.

O mesmo empresário também esteve em conversas para compor chapa com Ciro Gomes, cujo objetivo é fisgar os votos da esquerda, na ausência de Lula. E isso nem é novidade, pois o pai de Josué, José Alencar, fundador do império têxtil, foi vice de Lula, e os dois se deram muito bem.

Os partidos do centrão negociaram com Ciro e Bolsonaro, antes de fechar com Alckmin. Também cogitaram acertar com Henrique Meirelles. Aliás, o comunista Aldo Rebelo, como membro do Solidariedade, integra o centrão, um catado de populistas de direita ou de coisa nenhuma, com vários líderes envolvidos na Lava-Jato.

O deputado Jair Bolsonaro, com um histórico de votos na linha estatizante e corporativa, chamou para seu economista o ultraliberal Paulo Guedes. Marina, que fez campanha mais pelo lado liberal na última eleição, dá uma guinada à esquerda, também de olho nos votos de Lula.

Se o Brasil estivesse em um momento muito favorável, com economia e política funcionando tudo certinho, essas incoerências poderiam até ser toleradas. Quer dizer, seriam negativas, mas se não houvesse nada de importante a resolver, qual o problema? Um comunista e um capitalista podem se entender sobre, digamos, os limites de velocidade nas estradas federais.

Mas o setor público está quebrado. Estão na pauta questões cruciais para o futuro próximo do país, entre as quais: a reforma da Previdência, a privatização (ou não) de estatais, a reforma tributária (quais setores da sociedade serão mais tributados?), a legislação trabalhista, a derrubada da taxa de juros, saúde mais estatal ou mais privada. São escolhas políticas de caráter ideológico, que exigem definições firmes.

A esquerda não quer privatizar a Eletrobras porque considera que integra um setor estratégico, a ser gerido pelo Estado. Pessoal do centrão é contra a privatização porque estatais são um paraíso para nomeações e obras. Por essa via transversa, PT e centrão se entenderam muito bem. Mas e se for eleito um presidente favorável à privatização, com o apoio do centrão ou de esquerdistas ou dos dois grupos ao mesmo tempo?

Candidatos, individualmente, podem até manifestar posições mais ou menos claras, mas o problema é como implementá-las no Congresso Nacional.

Tem mais. Todos os candidatos falam em alguma mudança na Constituição, o que exige o voto de 3/5 dos deputados (308) e senadores (49). Nessa geleia política, como formar essa maioria com alguma coerência?

Eis o cenário: o país precisa de muitas respostas para questões que apareceram justamente por falta de decisões firmes. Há quanto tempo estamos enrolando com a reforma da Previdência ou com privatizações? E estamos muito próximos de eleger governos — federal e estaduais — com um jeitão muito parecido com o que tivemos recentemente.

Mais leis?

Se faltam escolhas firmes, sobram leis no país.

A Constituição tem 250 artigos, 114 disposições transitórias e 99 emendas.

Estão em vigor 180 mil leis federais. Há 5,5 milhões de normas federais, estaduais e municipais. No Congresso, há 25 mil projetos de lei em andamento e nada menos que 1,1 mil propostas de emenda à Constituição.

Uma regra sagrada do Direito diz que ninguém pode alegar ignorância da lei. Por aqui, bem pode ser outra norma que não pegou.

Carlos Alberto Sardenberg é jornalista

Por que e como renovar em 7 de outubro

Percival Puggina (*) 

 Subindo na ponta dos pés, o horizonte brasileiro que podemos discernir além das águas agitadas do córrego eleitoral, ali adiante, não é de causar entusiasmo sequer ao mais otimista dos cidadãos.

A maioria dos partidos políticos brasileiros me faz lembrar as opium dens, as covas de ópio onde chineses viciados se recolhiam, em nichos e catres, para longas jornadas de narcotização assistida. Não dão a mínima para os anseios por renovação, tão perceptíveis na sociedade brasileira. Seus principais agentes estão viciados. Vegetam na dormente modorra de práticas que as pessoas de bem reputam como intoleráveis.

O conhecimento dessa realidade borra o quadro eleitoral e desqualifica o que ainda chamamos democracia. As grandes siglas se conformam na mesmice, viciadas e acomodadas nos nichos e catres do poder. Jamais se renovam, pois são avessas a toda mudança que ponha em risco as posições de seus líderes. As pequenas, se têm apreço por suas ideias, precisam de tempo, muito trabalho e apoio para se tornarem significativas. Semeiam nas escarpas das dificuldades enquanto as demais colhem na várzea fertilizada com os recursos tomados da sociedade. Ainda assim, como escrevi há alguns meses aos esperançosos da intervenção militar: “Não haverá intervenção; haverá eleição”. E é preciso renovar o que der, levando ao Congresso Nacional gente nova, não contaminada pelas práticas vigentes – e mais do que isso: avessa a tais práticas.

Muitos leitores me perguntam: “Fala-se em renovar, mas devem os bons que hoje têm mandato ser jogados fora com a água desse banho”? Claro que não! Se forem bons, se não forem corruptos, nem coniventes, nem omissos (provavelmente não sobrarão muitos) devem ter seus mandatos preservados por uma questão de racionalidade e justiça. Para certificar-se disso, ou para votar em candidatos novos, consulte os sites e aplicativos que disponibilizarão avaliações completas dos candidatos, como os do Vem Pra Rua e o RenovaBR, fale com quem os conheça, informe-se, não se fie em lero-lero publicitário.

Procure saber o que os candidatos realmente pensam sobre segurança pública, legislação penal, progressão de regime, foro privilegiado, Lava Jato, STF, escola sem partido, ideologia de gênero, educação, Paulo Freire, tamanho do Estado, carga tributária, corporativismo, reforma da Previdência, reforma institucional, meritocracia, privatizações. Dá trabalho? Claro que dá trabalho! Mas votar errado custa muito mais caro. E não há como corrigir um voto mal dado a não ser a duras penas, longo prazo e grande custo.

Com eleições dentro de pouco mais de dois meses, é inútil continuar questionando a confiabilidade das urnas porque essa atitude só afasta os bons eleitores. Retomemos essa pauta no ano que vem. Os que afundaram o Brasil e os que por eles torcem estarão todos na fila de votação do dia 7 de outubro. Então, vote; não os deixemos sozinhos como donos das urnas. Do jeito que o Brasil está, considero moralmente inaceitável a omissão do cidadão consciente.

*Especial para a Gazeta do Povo.

Todos sem vice. E para que vice?

Carlos Brickmann


Alckmin anunciou Josué Alencar como vice. Pagou alto para tê-lo. Foi obrigado a curvar-se diante de Valdemar Costa Neto. Mas valia a pena: vice que paga a própria campanha é joia rara. Mas não o teve: Josué desistiu. Alckmin está entre o paranaense Álvaro Dias, que ainda não o quis, Aldo Rebelo e “uma mulher do Nordeste”. Por que não Kátia Abreu? Ela, que era ruralista e virou ministra de Dilma, por que rejeitaria Alckmin?

Bolsonaro tentou Magno Malta, anunciou o general Augusto Heleno, anunciou o general Mourão, anunciou Janaína Pascoal e continua sem vice. Vai tentar Janaína de novo, mas o que ela defende não é o que ele defende. E daí? Alguém precisa preencher a vaga – por que não ela? Pensa ainda em Marcos Pontes – aquele que foi ao espaço com passagem comprada pelo Tesouro e, na volta, aposentou-se, para ganhar a vida falando da viagem.

Ciro, Marina, O Poste de Lula, nenhum tem vice (e não há sequer vices disputando o posto). Por que não aproveitar a oportunidade e extinguir esse cargo que, além de não servir para nada, exige palácios, seguranças, verbas imensas? Se o presidente viaja, não precisa de vice: hoje há ótimos meios de comunicação. Se por qualquer motivo estiver incapacitado para o cargo, pode ser substituído, sem custos, pelo presidente da Câmara, ou do Senado, ou do STF. Elimina-se a necessidade do Palácio do Jaburu, com toda a sua criadagem, mais a estrutura de mordomias.

Chega de gastar o que é nosso!

Quem é quem

Imagine se Marcos Pontes, por exemplo, for o vice da chapa vitoriosa. Há alguns anos, o Governo brasileiro, numa iniciativa da NASA, pagou US$ 10 milhões para que um astronauta brasileiro participasse de um voo espacial americano. Pontes foi o escolhido e teve seus dias no espaço. O que se esperava é que Pontes transmitisse à equipe do programa espacial brasileiro sua experiência cósmica. Preferiu reformar-se. Transmissão de sua experiência à equipe do programa espacial brasileiro? Excluiu-se.


Sua Excelência, a TV

De acordo com a pesquisa IDEIA Big Data, para Veja, Bolsonaro só perderia hoje para Lula – e, como Lula não pode ser candidato, pela Lei da Ficha Limpa, Bolsonaro é o favorito. Mas todos olham com muita atenção para Alckmin: ele terá quase metade do horário eleitoral gratuito, enquanto Bolsonaro mal terá tempo de dizer “Meu nome é Jair”. Bolsonaro e outros candidatos tentam compensar essa desvantagem com o uso da Internet.

OK, as redes sociais têm alguma força – mas não se comparam à TV. Há uma ótima ferramenta de WhatsApp que impressionou este colunista: permite enviar centenas de milhares de mensagens com índice zero de falhas. Todas as mensagens chegam a seu destino.

É uma compensação – mas até agora a TV foi a principal arma. Bem usada, é decisiva. Mal usada, porém, é fatal.


Quem é quem

Antes de votar, conheça bem seu candidato. Zeina Latif, a brilhante economista-chefe da XP Investimentos, analisa dois candidatos que podem chegar ao segundo turno, Haddad e Bolsonaro, cujo pensamento sobre Estado e Economia é pouco conhecido. Zeina faz uma análise serena, sem paixões. Em http://www.chumbogordo.com.br/20094-corrida-maluca-por-zeina-latif/


Agora vai

Juros do cartão de crédito caíram: eram de pouco mais de 300% ao ano, estão em pouco menos de 300% ao ano. De boa notícia, é o que temos.

Velha verdade

Do jornalista e escritor Ruy Castro: “Idoso tem direito a andar de graça em ônibus, pagar meia-entrada no teatro e o dobro do preço no plano de saúde”. Citado por Cláudio Humberto em www.diariodopoder.com.br

Yes, it’s Portuguese!

Cansado de pedir tuna fish quando quer sanduíche de atum? Ou chamar notícias falsas de fake news? De, para fazer compras, ter de entender o que significam off, ou sale, e descobrir que delivery é o mesmo que “entrega”?

É um problema antigo: Lamartine Babo já tratava disso na década de 30, na divertida Canção para inglês ver, em https://youtu.be/USCS_EWv30g.


Jade, the Cat

Nossa analista sênior, a Gata Jade, está de volta, após merecidas férias, com a língua ainda mais afiada  Em http://www.chumbogordo.com.br/20089-com-bolsonaro-o-buraco-e-sempre-mais-embaixo-miau-da-jade-a-gata-sincera/

Cultura de volta

Depois de muitos anos de índices baixos, a Rede Cultura volta a atrair o público. Mas o carro-chefe de suas atrações é diferente dos habituais shows e Roda Viva: o Programa Papo de Mãe está próximo de 5 pontos no Ibope, muito acima de Roda Viva. O programa é apresentado por suas criadoras, Mariana Kotscho e Roberta Manreza, de segunda a sexta, em dois horários: 11h45 e 17h45. Aos sábados, entra em horário único, às 11h30.


carlos@brickmann.com.br
Twitter: @CarlosBrickmann
www.brickmann.com.br

Coisa de lunático

Eliane Cantanhêde
O Estado de S.Paulo

No mundo político, só se fala em vices; no mundo real, nem se fala nos presidenciáveis

Os eleitores demonstram profunda indiferença pela eleição e não estão nem aí para os próprios candidatos à Presidência da República, quanto mais para aqueles que disputam as vagas de vice. Mas, no mundo político, só se fala nisso, freneticamente: quem vai ser vice de quem? 

As pesquisas em São Paulo – São Paulo! – mostram que muita gente ainda nem sabe que Geraldo Alckmin, ex-governador do Estado por três vezes, é candidato novamente à Presidência. E elas vão se preocupar com o vice? Sem Josué Gomes da Silva, que nove entre dez presidenciáveis disputavam, está aberta a disputa entre PP, PR, DEM, Solidariedade e PRB para indicar o (ou a) vice. Sem esquecer o PSD.

Já o caso do PT de Lula e do PSL de Jair Bolsonaro é ainda pior. Oficialmente, o PT nem candidato a presidente tem, com Lula preso em Curitiba e Fernando Haddad rouco de tanto dar entrevistas, mas só como “coordenador do programa”. As opções para vice dependem do cabeça de chapa e de alianças que, até agora, não vieram.

Já Bolsonaro convive com uma profusão de nomes para a vice, um mais engraçado do que o outro. Os últimos são o do “príncipe” Luiz Philippe de Orleans e Bragança e do astronauta Marcos Pontes. Os marechais Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto devem estar se remoendo no céu, ou na cova, diante desse namoro de um capitão reformado do Exército com a monarquia, derrubada a duras penas. E o que dizer de um astronauta na vice? É piada pronta, ou coisa de lunático.

Bolsonaro já pensou em ter na vice o senador Magno Malta, pastor evangélico, e dois generais reformados, Augusto Heleno e Hamilton Mourão, mas a preferida é a professora Janaina Paschoal, uma das autoras do impeachment de Dilma Rousseff – e que chorou quando o próprio pedido deu certo.

Se Bolsonaro tem essa profusão de opções, Ciro Gomes está no lado oposto: rejeitado pela esquerda e pelo Centrão, não consegue fechar alianças e chega à reta final sem nenhum nome forte para a vice. Vai depender das negociações do PDT com o PSB – que está dividido entre apoiar Ciro, agarrar-se a Lula ou liberar geral para cada um fazer o que bem quiser.

E Marina Silva, que era vice de Eduardo Campos e assumiu a cabeça de chapa com a morte dele, só acena com nomes da própria Rede, o que equivale a chover no molhado. Chapas puro-sangue (com candidato a presidente e a vice do mesmo partido) são próprias de siglas fortes, com estrutura, boas bancadas e tempo de TV. Não para pequenos partidos isolados, sem nenhuma dessas condições ou vantagens.

Mas, afinal, por que esse frenesi pela definição da vice, se nem os próprios candidatos a presidente empolgam? Primeiro, por uma questão prática: vice consolida alianças, traz tempo de TV, “agrega valor” regional, ou de gênero, ou financeiro, às campanhas. Segundo, por uma questão mais simbólica, hipotética: a história registra que José Sarney, Itamar Franco e Michel Temer só viraram presidentes por impedimento dos titulares. Um golpe de sorte? Só tem sorte quem está bem colocado, no lugar certo e na hora certa.

Os próprios eleitores já encamparam a ideia de que impeachments não são bichos de sete cabeças e podem muito bem acontecer. São parte do jogo. Aliás, pesquisa estimulada Record-Real Time detectou que 33% se declaram “muito preocupados” e 17% “razoavelmente preocupados” com a possibilidade de o futuro presidente seguir a trajetória de Collor e Dilma e sofrer impeachment. E lá viria mais um vice.

A advertência do juiz Sérgio Moro no Fórum Estadão de quarta cai como uma luva nesse contexto: o resultado da eleição não pode pôr em risco a Lava Jato. Senão, o pau vai comer e o vice é que vai se dar bem.


Redondamente enganados

 Dora Kramer
Revista VEJA

Atordoados, candidatos se apoiam em crenças infundadas

 (Weberson Santiago/VEJA)

Jair Bolsonaro desdenha de alianças, manifesta indiferença quanto a fontes de financiamento de campanha, dá de ombros a espaço no horário eleitoral, faz da ignorância de forma e conteúdo um ativo. O isolamento político ele busca tornar uma vantagem comparativa junto ao eleitorado cansado da tradicional guerra entre profissionais do ramo.

Parece convencido de que está, assim, capacitado a repetir o candidato que em 1989 saiu do nada e chegou ao Planalto a bordo de um partido insignificante e de um discurso tão inflamado quanto simplista o suficiente para fazer o eleitor acreditar na figura do heroico salvador. Além do malfadado desfecho, conviria a Bolsonaro prestar atenção em outros detalhes antes de se espelhar no exemplo de Fernando Collor de Mello.

Dois, em especial: o marketing e o dinheiro. Collor praticamente inaugurou uma nova fase nesse quesito. Durante todo o tempo, dos preparativos da candidatura à eleição, foi totalmente orientado pelo cientista político Marcos Coimbra, cujo instituto Vox Populi media as demandas do eleitorado para que Collor se adequasse passo a passo a elas. Do dinheiro cuidava desde os tempos do governo de Alagoas o notório tesoureiro Paulo César Farias, de habilidades conhecidas.

Donde, se Bolsonaro acredita que história e farsa possam se repetir, esteja ciente de que essa crença é fluida e pode se desmanchar no ar. Não é o único a transitar pelo terreno da ilusão, de mãos atadas ao autoengano. Henrique Meirelles, homem do mundo de vasta experiência no campo árido das finanças, talvez tenha um plano imperceptível a olho nu. Do contrário, anda acreditando no inacreditável: o apoio de seu partido. Se não for rechaçado na convenção, será abandonado na campanha.

E Marina Silva que acredita no poder da omissão sobranceira? Passou o período entre a atual campanha e a anterior “fazendo a egípcia”. Nada era com ela. Agora parece esperar que o eleitorado a acolha por força da lei da gravidade. Difícil. Política é habilidade, mas exige muita vocação para a estiva. No exercício de arregaçar as mangas, Geraldo Alckmin não faz feio, embora o faça à sorrelfa, de um jeito antigo baseado na crença de que um bom arco de alianças é meio caminho andado. O problema (e disso dão notícias várias coligações gigantescas que resultaram em amazônicos fracassos) é que nem sempre elas levam ao destino pretendido em matéria de votos.

Ciro é outro que põe a mão na massa. Só que, para infortúnio dele, o faz com a boca em trombones lesivos à civilidade. Havia prometido mudar, mas segue o mesmo, provavelmente fiel ao estilo “aonde vai o valente?”, que pode, de novo, não o levar à linha de frente.

Para concluir, o campeão no quesito crenças infundadas: o PT. Acreditou que poderia se safar sem autocrítica, continua acreditando na fantasia da candidatura-fantasma de Lula, na versão da perseguição política, na eficácia do aval do chefe a um candidato procurador, na quimera de uma recuperação sem dor, na esperança de que seu dom de iludir o salve da derrocada. À espera de um milagre, enfim.

Publicado em VEJA de 1º de agosto de 2018, edição nº 2593

João Pedro Caleiro
Exame.com

A queda acumulada do PIB brasileiro no período de 2015 e 2016 foi de 6,9%, mas passou dos 9% em 8 unidades da federação

(Ricardo Moraes/Reuters)
Barragem se rompeu em MG, mas lama atingiu em cheio o estado vizinho 

São Paulo – Nenhum estado sofreu tanto quanto o Espírito Santo durante a crise econômica brasileira, enquanto Roraima e Pará foram os menos afetados.

Os cálculos são da consultoria Tendências com base em dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

A queda acumulada do Produto Interno Bruto (PIB) no Brasil no período de 2015 e 2016 foi de 6,9%, mas passou dos 9% em 8 unidades da federação. Veja quais são elas:

Queda acumulada 2015/2016
Espírito Santo
12,3%
Sergipe
11,8%
Maranhão
11,5%
Amapá
11,1%
Pernambuco
10,5%
Amazonas
10,2%
Bahia
9,9%
Piauí
9,3%

O líder em queda foi o Espírito Santo. Segundo Camila Saito, economista da Tendências, a economia do estado é muito dependente da indústria extrativa, afetada em cheio pelo desastre da mineradora Samarco.

A barragem de Fundão que se rompeu é em Mariana, no estado de Minas Gerais, mas o efeito da lama atingiu em cheio o estado vizinho.

“Ainda há muita incerteza, mas a previsão é que a produção da empresa comece a mostrar uma retomada mais forte mais só para o final de 2019”, diz ela.

Chama a atenção o contraste entre dois estados vizinhos: de um lado, o Pará foi o segundo estado brasileiro menos afetado pela recessão, com queda acumulada de apenas 1,2%. Segundo Camila, a explicação está na maturação de vários projetos de mineração da Vale no estado.

Do outro lado, o Amazonas apresentou queda de dois dígitos. Um dos motivos é que grande parte da atividade do estado está concentrada na Zona Franca de Manaus, um pólo de produção de eletroeletrônicos, muito sensível ao ciclo econômico.

“A indústria em geral foi uma das mais prejudicadas no país. O mapa mostra que sofreram mais as regiões onde é maior o peso dos setores mais afetados, como automotivo, construção civil e bens de capital”, diz Camila.

As menores quedas de PIB estaduais foram de Roraima (-0,4%), do já citado Pará (-1,3%), do Distrito Federal (-4,2%) e do Acre (-4,6%).

Perto da média nacional (-6,9%) estão as duas maiores economias estaduais: São Paulo, com queda de 7%, e Rio de Janeiro, com queda de 6,6%.

O Rio compartilha com outros estados da federação, como Rio Grande do Sul e Rio Grande do Norte, outro fator que é ao mesmo tempo causa e consequência da recessão: a crise fiscal.

“Isso prejudicou o desempenho. Em casos extremos como o carioca, por exemplo, o atraso no pagamentos de servidor afeta diretamente o consumo das famílias e a massa de renda”, diz Camila.
O corte dos investimentos públicos, que atingiram em 2017 seu menor nível em 50 anos como proporção do PIB, também teve o seu papel.

A região Nordeste, mais dependente deste tipo de recurso, tem vários estados entre as maiores quedas de PIB e a previsão de Tendências é que a recuperação deve ser demorada.

Os estados de Maranhão, Piauí e Bahia, especificamente, também sofreram com uma “quebra severa da safra agrícola” no período em questão, segundo a consultoria.

Veja no mapa qual foi a perda acumulada de cada um dos estados brasileiros em 2015 e 2016:




 
 

Uma potência agrícola onde falta comida

André Vargas
Revista ISTOÉ

A pobreza extrema cresce 128% em três anos e recoloca o País no Mapa da Fome das Nações Unidas. O que alimenta cerca de 11,7 milhões de brasileiros por dia é insuficiente para atender às necessidades básicas de nutrição e saúde

(Crédito: Marcia Foletto / Agencia O Globo)
PARADOXO 
A subnutrição em um país recordista na exportação
 de alimentos é uma contradição vergonhosa 

Quando a Constituição de um país determina que não pode haver desigualdade e que nenhum cidadão deve levar uma vida indigna, é muito provável que já exista gente demais nessas condições. No Brasil de hoje, uma em cada vinte pessoas termina o dia sem ter conseguido comer o mínimo necessário. Vão dormir com fome e acordar sem qualquer esperança de uma refeição satisfatória. Esse cenário assustador devolve o Brasil ao Mapa da Fome, elaborado desde 1990 pela FAO, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação. A entidade faz análises por países e regiões, propondo soluções ao problema da insegurança alimentar. Desde 2014, o Brasil estava fora desse mapa. A fome foi vencida com muito esforço, graças a uma combinação de programas sociais e de uma economia em forte expansão. O resultado permitiu que menos de 5% da população ficasse abaixo da linha da extrema miséria. Dados recentes divulgados pelas ONGs ActionAid Brasil e Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas), a partir de índices do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), indicam que a fome voltou a crescer, atingindo 11,7 milhões de brasileiros, o que perfaz 5,6% da população.

(Crédito:Divulgação)
INFÂNCIA 
As principais vítimas da subnutrição são crianças.
 A alimentação escolar sofreu cortes drásticos 

Para entender onde o Brasil fracassou após tantos avanços e o que deve ser feito daqui para frente é preciso colocar os olhos sobre a recessão econômica que se arrasta desde 2014 e os subsequentes cortes nos programas sociais do governo em decorrência da Emenda do Teto de Gastos, que congelou o orçamento público por 20 anos. Analistas das áreas de saúde pública e de assistência social alertam que só um grande conjunto de medidas integradoras pode amenizar o quadro até a economia recomeçar a andar direito. Mesmo depois da retomada, seria preciso continuar, já que a desigualdade não se resolveria sem políticas públicas consistentes e de longo prazo.

“Uma economia voltada para o rentismo não resolverá”, afirma a antropóloga Maria Emília Pacheco, integrante da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase) e ex-presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea). Segundo dados do Governo Federal, o Bolsa Família beneficia hoje 13,7 milhões de famílias, em todos os municípios brasileiros. Mas, além do auxílio direto, que este ano foi reajustado acima da inflação acumulada de julho de 2016 a março de 2018, houve enfraquecimento de iniciativas como o Programa Merenda Escolar e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), voltados para pequenos produtores rurais de municípios do interior do Brasil. Os cortes afetam diretamente a renda dessas famílias. O PAA encolheu de R$ 839 milhões em 2012 para R$ 150 milhões em 2017. Como resultado, sobra alimento que ninguém compra. Um efeito disso foi sentido durante a Greve dos Caminhoneiros, em maio, com a elevação de preços dos alimentos mesmo em municípios de produção agrícola voltada ao consumo direto. Além desses prejuízos, a preocupação de Maria Emília é que essa discussão não entrou de vez na agenda dos presidenciáveis.

(Crédito:Getty Images)
ALERTA DA ONU 
Países pobres não devem esperar pelo próximo ciclo de expansão global 

Desamparados

O perfil estatístico do pobre, de acordo com os dados do Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) e da Síntese dos Indicadores Sociais (SIS 2017), ambos do IBGE, indica que dois tipos de brasileiros em idade ativa estão mais sujeitos à falta crônica de alimentos. A mais emblemática é a mulher preta ou parda, entre 30 e 40 anos, com alguns filhos, moradora da zona rural de um estado do Norte ou Nordeste e cujo marido foi procurar emprego em uma grande cidade, deixando-a desamparada. O outro é o homem ou mulher, chefe de família, residente em cidade grande que convive com a falta crônica de emprego. Estes, e principalmente seus filhos, são as grandes vítimas desse quadro.

Desde o ano passado a FAO lança alertas sobre a delicada situação brasileira. Se mantidos, os programas sociais poderiam praticamente erradicar a fome até 2030, conforme anunciou a organização em outubro. Essa é uma meta da ONU. No curto prazo, contudo, os resultados da crise no País são doença e morte. A Fundação Abrinq estimou que a desnutrição infantil crônica e severa deva atingir 17,6% das crianças brasileiras. Iniciativas solidárias têm sido empreendidas para impedir que o número cresça. Após uma década, a Campanha Natal Sem Fome foi reativada pela ONG Ação da Cidadania para atender as novas levas de necessitados, arrecadando 900 toneladas de alimentos. A ONG foi criada em 1993, pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, para combater a fome e a miséria.

No ano passado a FAO alertou para a delicada situação da fome no Brasil. 
Programas sociais poderiam erradicá-la até 2030

“Precisamos de ações agudas. Uma criança sem comida em poucos dias está em sério risco”, diz o epidemiologista e pesquisador da Fiocruz Maurício Barreto. Para ele, a solução está na volta da manutenção das redes de suporte social em conjunto com avanços na economia. A ausência de qualquer um desses componentes resultaria em fracasso e contribuiria para tornar o problema cada vez maior. “Transformar o mundo não é algo simplório. Mesmo uma recuperação econômica não resolveria, dado os fatores de desigualdade da sociedade brasileira. Sem contar que é um erro acreditar que proteção social é coisa de país pobre”, disse Barreto, citando os países ricos da Europa Ocidental.

 (Crédito:AFP PHOTO/Mauricio Lima)
RETROCESSO 
Após quatro anos fora do Mapa da Fome, 
Brasil volta a ter mais de 5% da população afetada 

No passado, duas grandes estiagens castigaram o no Nordeste, Entre 1877 e 1917, houve 600 mil mortes pela fome — e as primeiras grandes migrações internas


História e literatura

Ainda que o Brasil seja uma potência agrícola, com safras recordes ano a ano, a fome é uma velha conhecida da história e da literatura nacionais. A terra do “dar-se-á nela tudo”, citada na carta de Pero Vaz de Caminha ao rei D. Manuel, de Portugal, logo no Descobrimento, era uma miragem. Por aqui, fome e a miséria geraram revoltas, como a de Canudos, relatada em “Os Sertões” (1902), de Euclides da Cunha, e êxodos coletivos e familiares, como os descritos em “O Quinze” (1930), de Rachel de Queiroz, e “Vidas Secas” (1938), de Graciliano Ramos. Duas grandes estiagens no Nordeste, entre 1877 e 1917, causaram 600 mil mortes e surgimento das primeiras grandes migrações internas. O assunto foi tratado com metodologia em “Geografia da Fome” (1946), do médico e cientista social Josué de Castro, que considerava o problema uma praga social criada pelo homem e “a mais trágica expressão do subdesenvolvimento”.



O diretor-geral da FAO José Graziano, ex-coordenador do Programa Fome Zero e ex-ministro extraordinário para o Combate à Fome, defende a adoção de um firme programa de segurança alimentar no Brasil como forma de minimizar um problema que pode ser considerado tanto crônico como estrutural. Ainda mais na nação que fez a revolução da agricultura tropical, capaz de permitir a adaptação de culturas de climas temperados ao calor do Cerrado e da Amazônia, e se tornou um dos maiores exportadores de commodities agrícolas. Com a expectativa de que os ganhos de produtividade façam com que até 2027 o País alcance safras de 300 milhões de toneladas de grãos, saber que quase 12 milhões passam fome enquanto cresce a obesidade infantil nas camadas média e alta da pirâmide social é de uma incongruência ilógica. Graziano escreveu um artigo publicado no jornal “Valor Econômico” no qual afirma que os governos, principalmente da América Latina, não podem se dar ao luxo de esperar pelo próximo ciclo de expansão global para lidar adequadamente com a fome e a desnutrição: “Seria apenas uma agenda de boas intenções, não fosse esse também um teste de sobrevivência da democracia e das lideranças da região”.

 (Crédito:Arquivo / Agência O Globo)
ECONOMIA 
Especialistas afirmam que só recuperação não bastaria para conter miséria 

Pobreza extrema sobe 11% no Brasil e atinge 7% da população

 João Pedro Caleiro
Exame.com

É considerado em extrema pobreza aquele que ganha menos de US$ 1,90 de renda domiciliar per capita por dia ou 136 reais por mês

(Cristiano Mariz/VEJA)
Piora da pobreza extrema acontece apesar do fim oficial da recessão 

São Paulo – O número de brasileiros em situação de pobreza extrema subiu 11,2% entre 2016 e 2017, passando de 13,34 milhões para 14,83 milhões.

Com isso, a porcentagem de pessoas nesta condição no país pulou de 6,5% para 7,2% de um ano para o outro.

Os dados são de um estudo da LCA Consultores com base nos microdados da Pnad Contínua divulgados nesta quarta-feira (11) pelo IBGE. 

É considerado em extrema pobreza aquele com renda domiciliar per capita de US$ 1,90 por dia ou 136 reais por mês.

A piora da pobreza extrema aconteceu apesar do fim oficial da recessão econômica, com crescimento de 1% no balanço de 2017 após quedas consecutivas de 3,5% em 2015 e em 2016.]

“Estamos falando de pessoas que em geral não são alcançadas pelo emprego formal, nas quais o mercado não consegue chegar”, diz Cosmo Donato, economista da LCA.

“Se mesmo quando a economia crescendo muito não conseguia chegar, não é agora com retomada incipiente que conseguiria”.

O desemprego teve uma ligeira queda ao longo do ano, mas puxada quase que integralmente pela informalidade e pelo emprego em conta própria.

Cosmo também vê nos dados de pobreza extrema um possível efeito da crise fiscal e da queda de dois dígitos do investimento público em 2017.

Segundo ele, o investimento em rubricas como obras públicas muitas vezes tinha efeitos multiplicadores no interior do país, mesmo quando seu custo-benefício era duvidoso.

Regiões e estados

A alta da pobreza aconteceu em todas as regiões brasileiras, indo de 2% na região Norte (1,95 milhão para 1,99 milhão de pessoas) a 24% na região Centro-Oeste (4,4 milhões para 5,5 milhões). Mas é preciso tomar cuidado com as altas relativas.

O Nordeste, por exemplo, teve uma alta de 10,8% na pobreza extrema, um pouco abaixo da média nacional, mas concentra mais da metade das pessoas nestas condições.

Em estados com histórico de baixas taxas de pobreza, altas absolutas menores no número de indivíduos muito pobres geraram saltos chocantes: foi o caso de Paraná (37%), Distrito Federal (61%) e Mato Grosso do Sul (70%).

Houve queda do número de pessoas em pobreza extrema em Rondônia (-18,7%), Tocantins (-14%), Santa Catarina (-9,7%), Amapá (-1,6%), Ceará (-1,5%), Mato Grosso (-1,3%) e Paraíba (-1%) de 2016 para 2017.


Critérios

O números de câmbio real são de 2011 com correção pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), que mede a inflação para as famílias de renda mais baixa.

A referência de renda que define pobreza é do Banco Mundial e usa dólar em paridade de poder de compra, uma medida que equaliza o valor de bens e serviços nos diferentes países. Saiba mais: Onde estão os pobres do Brasil? 

Foram consideradas todas as fontes efetivas de renda: trabalho, previdência ou pensão, programas sociais, etc.

No momento não é possível comparar os dados com os de anos anteriores por causa de mudanças recentes na metodologia da PNAD Contínua. A LCA está trabalhando para harmonizar os dados e criar uma série histórica.

Em 2017, desigualdade se intensificou em 4 das 5 grandes regiões do Brasil

Exame.com
Com informações  Estadão Conteúdo

De acordo com o IBGE, no ano passado, os 10% da população com os menores rendimentos detinham apenas 0,7% de toda a massa de renda do país

(Mario Tama/Getty Images)
Desigualdade: na passagem de 2016 para 2017, 
tanto o rendimento médio quanto a massa de renda diminuíram 

Rio – A desigualdade aumentou em quatro das cinco grandes regiões do Brasil, na passagem de 2016 para 2017, segundo os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O Índice de Gini – indicador mede a desigualdade de renda – referente ao rendimento médio real domiciliar per capita manteve-se em 0,549 em 2017.

A estabilidade em comparação ao ano anterior ocorreu por conta de uma queda na região Sudeste, onde o Gini passou de 0,535 em 2016 para 0,529 no ano passado. Em todas as demais regiões, porém, houve piora.

Numa escala de 0 a 1, quanto maior o indicador, pior é a distribuição dos rendimentos. No Nordeste, o Gini subiu de 0,555 em 2016 para 0,567 em 2017; no Norte, passou de 0,539 para 0,544; no Sul, de 0,473 para 0,477; e no Centro-Oeste, de 0,523 para 0,536.

No ano passado, os 10% da população com os menores rendimentos detinham apenas 0,7% de toda a massa de renda do País. Já os 10% com maior renda concentravam 43,3% de toda a riqueza, montante superior à massa detida por 80% da população com renda mais baixa.

Na passagem de 2016 para 2017, tanto o rendimento médio quanto a massa de renda diminuíram, embora a virada de ano tenha marcado o fim do período de recessão econômica no País.

A renda média mensal real per capita foi de R$ 1.271 no ano passado, ante R$ 1.285 em 2016. A massa de rendimento médio mensal real domiciliar per capita foi de R$ 263,1 bilhões em 2017, após ter alcançado R$ 263,9 bilhões no ano anterior.

Desafios demográficos

José Paulo Kupfer
O Globo

O encolhimento da população em idade ativa, ao lado do aumento da parcela de idosos, exige alongar e tornar a vida adulta mais produtiva

A atualização das projeções demográficas para a população brasileira até 2060, divulgada nesta quarta-feira pelo IBGE, reforçou a tendência de aceleração do fenômeno de envelhecimento populacional. Deixou também ainda mais evidentes os desafios sociais e econômicos derivados das atuais características da evolução demográfica. A “novidade” desse processo, observada mais recentemente no Brasil e em todo o mundo há muitas décadas, reside na contração das taxas de natalidade.

Menos nascimentos em sociedades em que as pessoas vivem mais é a fórmula que tem acelerado a redução na população em idade ativa e promovido o desafio de encontrar saídas para a sustentação das faixas não produtivas da população. Se antes os pais sustentavam os filhos e depois estes os pais idosos, a escassez de adultos produtivos tende a levar a um colapso nos mecanismos de transferência intergeracional de renda. O fim do “bônus demográfico”, aquela etapa em que a população ativa é maior do que o conjunto dos mais jovens e dos mais velhos, já vivido nas economias mais maduras, está chegando ao Brasil.

Em 2047, menos de 30 anos daqui até lá, a população brasileira, estimada hoje pelo IBGE em 208,5 milhões de pessoas, alcançará o ponto máximo de 233,2 milhões. A partir daí começará a recuar, ficando em 228,3 milhões, mesmo nível de 2034, em 2060. A população não ativa, que reúne a parcela de jovens até 14 anos e de idosos a partir dos 65 anos, passará, já em 2018, a crescer mais rápido do que a faixa da população em idade ativa, de 15 a 64 anos, basicamente em função do acúmulo de idosos. A relação de dependência, que contrapõe a população não ativa ao total, hoje de 44%, deverá chegar a 67,2% em 2060, segundo as projeções atualizadas. Em 20 anos, metade da população fará parte do grupo de dependentes.

De 2018 a 2060, a população com menos de 15 anos recuará de pouco mais de um quinto do total para pouco menos de um sétimo. Isso ocorrerá, em primeiro lugar, em função de uma consistente redução da taxa de fecundidade. Se em 2004 nasciam no Brasil 2,14 crianças por mulher, menos de uma década e meia depois a taxa já recuou para 1,77 e deverá baixar para 1,66 dentro de quatro décadas, em 2060. Têm ocorrido também alterações marcantes no padrão etário da fecundidade, expressa pelo aumento da idade média em que as mulheres têm o primeiro filho. Se hoje essa idade média é de 27,2 anos, com projeção de chegar a 28,8 anos em 2060, há apenas duas décadas era de 22,4 anos.

A economista e demógrafa Ana Amélia Camarano, pesquisadora do Ipea e referência nos estudos e análises do tema, localiza principalmente em questões comportamentais a explicação para esses novos padrões. “Ter menos filhos é hoje um valor”, resume. O fator mais lembrado na formação desse valor é o desejo das mulheres de construir e desenvolver carreiras profissionais, que leva ao adiamento da primeira gestação — decisão sancionada pelos avanços da medicina. Mas há outros fatores na base do fenômeno.

Segundo a pesquisadora, estilos de vida modernos, em que sobressaem individualismo, consumismo e temores do futuro, também estão presentes na determinação da escolha por restringir o números de filhos, ao lado da proliferação de novos arranjos familiares. Ana Amélia menciona o aumento do número de casais sem filhos por decisão existencial, conhecidos por “dink” (da sigla em inglês double income no kids — duas rendas nenhuma criança), como exemplo dessas tendências.

Não é por coincidência que, diante da evolução demográfica contemporânea, os sistemas de seguridade social, inclusive e em particular no Brasil, estão na berlinda. A Previdência, no entanto, é apenas uma parte de um problema com diversas vertentes. “A longo prazo, é preciso encontrar meios de estimular a natalidade”, diz Ana Amélia. “Mas a curto prazo”, completa, “o esforço terá de ser no sentido de alongar a vida adulta de forma produtiva”.

É um vasto rol de providências que teria de ser acionado, a partir de políticas públicas que estimulassem a busca desse objetivo, desfazendo de início o preconceito que faz com que as pessoas, a partir de certa idade, sejam consideradas novas demais para se aposentar, mas velhas demais para trabalhar. Se, no entanto, esticar a vida produtiva é algo necessário, não seria suficiente para fazer frente à tendência de encolhimento da população ativa.

O único caminho possível para superar as restrições demográficas que se apresentam é promover aumentos da produtividade — em resumo, produzir mais com menos. A má notícia é que, olhando para o nosso passado não tão remoto, esta é uma tarefa de Hércules. Com pequenas altas e baixas ao longo dos últimos 40 anos, a produtividade do trabalhador brasileiro está estacionada próxima de zero.

José Paulo Kupfer é jornalista

Reforma da previdência: idosos são 9% da população e serão 25% em 2060

Marcelo Loureiro
O Globo 


Mais um estudo reforça a urgência de atualizar as regras da aposentadoria. A Projeção de População feita pelo IBGE estima que, em 2060, um em cada quatro (25,5%) brasileiros terá mais de 65 anos. Hoje, menos de um em cada dez (9,2%) atingiu essa idade. A população ainda é nova, mas o sistema previdenciário já apresenta um tremendo desequilíbrio. Ano passado, a Previdência Social registrou déficit de R$ 268,8 bilhões.

Atualmente, não há sequer uma regra para a idade mínima. O brasileiro que se aposenta por tempo de contribuição consegue o benefício aos 55 anos, no caso dos homens, e aos 52 anos, na média entre as mulheres. Muito novos, portanto.

O IBGE estima que a população total crescerá até 2047, quando seremos 233,2 milhões. A partir daí, ela passará a cair ligeiramente e chegará a 228,3 milhões em 2060. Mas a razão de dependência continuará crescendo. 

O país terá cada vez mais gente dependente de quem está produzindo. Hoje, para cada 100 pessoas em idade de produzir, existem 44 dependentes, que são os indivíduos com menos de 15 anos de idade ou mais de 65 anos. Em 2060, a razão estará em 67,2.

As pessoas estão vivendo mais, e isso é uma ótima notícia. É preciso, contudo, atualizar as regras para que o sistema de previdência não entre em colapso e tome conta de todos os gastos do setor público.

Sul e Sudeste serão as primeiras regiões com mais idosos que crianças, diz projeção do IBGE

Roberta Jansen
O Estado de S. Paulo

Em contrapartida, Estados considerados mais jovens, como Amazonas e Roraima, continuarão com mais crianças do que idosos até o limite da projeção, em 2060

Foto: Foto: Imagem/USP
Envelhecimento da população brasileira se fará sentir inicialmente 
no Sul e no Sudeste do País, diz projeção do IBGE 

RIO - O envelhecimento da população brasileira se fará sentir inicialmente no Sul e no Sudeste do País, de acordo com a Projeção da População (revisão 2018), divulgada nesta quarta-feira, 25, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Até 2060, segundo a pesquisa, um quarto da população do Brasil (25,5%) deverá ter mais de 65 anos.

O Rio Grande do Sul é apontado como aquele que primeiro experimentará uma proporção maior de idosos do que de crianças de até 14 anos, já em 2029. Quatro anos depois, em 2033, o Rio de Janeiro e Minas Gerais também deverão ter mais idosos do que crianças. Em contrapartida, Estados considerados mais jovens, como Amazonas e Roraima, continuarão com mais crianças do que idosos até o limite da projeção, em 2060.

A idade média da população brasileira hoje é de 32,6 anos. Nove estados apresentam idade média abaixo de 30 anos (todos os Estados da região Norte, além de Alagoas e Maranhão). O Estado mais jovem do País é o Acre, com idade média de 24,9 anos. Por outro lado, os Estados da região Sul e Sudeste apresentam idade média da população acima da projetada para o Brasil, sendo o Rio Grande do Sul o mais velho, com uma media de 35,9 anos.

Atualmente, a maior expectativa de vida ao nascer é registrada em Santa Catarina (79,7 anos). Em 2060, o Estado do sul mantém o posto, chegando aos 84,5 anos. No outro extremo, o Maranhão (71,7 anos) tem hoje a menor esperança de vida, posição que deverá ser ocupada pelo Piauí, em 2060 (77 anos).

Fecundidade

Os números refletem as taxas de fecundidade. Atualmente, é de 1,77 filho por mulher. Em 2060, o número médio deverá chegar a 1,66. As maiores taxas estão em Roraima (1,95), Pará, Amapá, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul  (todos com 1,8). As menores deverão estar no Distrito Federal (1,50) e também em Goiás, Rio de Janeiro e Minas (todos com 1,55). A idade média em que as mulheres têm filhos hoje no país é de 27,2 anos, número que poderá chegar a 28,8 em 2060.

Segundo a pesquisa, a população do País continuará crescendo até 2047, quando deverá chegar a 233,2 milhões de pessoas. Nos anos seguintes, ela cairá gradualmente até chegar a  228,3 milhões em 2060.

Em 2039, Brasil terá mais idosos do que crianças

Exame.com
Com informações Agência Brasil

Com mudança no padrão demográfico, população começará a diminuir a partir do final da década de 2040

(Wilson Dias/Agência Brasil)
IBGE: população do Brasil vai continuar em crescimento 
até atingir 233,2 milhões de pessoas em 2047 

A população do Brasil vai continuar em crescimento até atingir 233,2 milhões de pessoas em 2047. A partir deste ano, entrará em declínio gradual chegando a 228,3 milhões em 2060. A expectativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), faz parte da Revisão 2018 da Projeção de População, que estima demograficamente os padrões de crescimento da população do país ano a ano, por sexo e idade para os próximos 42 anos.

Antes de 2048, 12 estados (Piauí, Bahia, Rio Grande do Sul, Alagoas, Minas Gerais, Paraíba, Rio de Janeiro, Ceará, Pernambuco, Maranhão, Paraná e Rio Grande do Norte) deverão ter redução na sua população. Segundo o IBGE, a principal característica dessas unidades da federação é o saldo migratório negativo.

No limite da projeção em 2060, oito estados (Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Santa Catarina, Amapá, Roraima, Amazonas e Acre) não terão queda nas suas populações. O IBGE explicou que eles apresentam saltos migratórios positivos e/ou têm taxas de fecundidade total mais elevadas.

Fecundidade

O órgão acrescentou que o crescimento populacional é determinado pela combinação do perfil migratório, incluindo áreas de expulsão ou atração de pessoas; com taxas de fecundidade de uma unidade da federação. Os estados do Piauí e da Bahia apresentam quedas importantes de fecundidade nos últimos anos e, segundo o instituto, perdem população para outros estados do país.

Apesar de não registrar altas quedas de fecundidade, atualmente, a situação já foi diferente para o Rio Grande do Sul, que é também um estado “emissor”. Na definição do IBGE, as três unidades da federação devem ser os primeiros a apresentar redução de população.

A taxa de fecundidade total para 2018 é 1,77 filho por mulher. Quando chegar a 2060, o número médio de filhos por mulher poderá cair para 1,66. Os estados de Roraima com 1,95; o Pará, Amapá, Maranhão, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, com 1,80, são os que deverão ter as maiores taxas de fecundidade. As menores poderão ser no Distrito Federal com 1,50; e em Goiás, no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, esses com 1,55. A idade média de 27,2 anos em que as mulheres têm filhos em 2018, aumentará para 28,8 anos, em 2060.


Idade

A média de idade da população brasileira é 32,6 anos em 2018. Os estados da Região Norte, Alagoas e Maranhão têm a média em 30 anos. A explicação é que têm taxas de fecundidade total mais elevadas e se situam mais tardiamente na transição da fecundidade. O Acre tem a menor média (24,9 anos). Ao contrário, os estados das Regiões Sul e Sudeste registram média acima da projetada para o Brasil. O mais envelhecido é o Rio Grande do Sul com 35,9 anos.

Para o IBGE, o avanço na idade populacional pode ser medido também com a comparação das pessoas com 65 anos ou mais e os menores de 15 anos, por meio do índice de envelhecimento da população.

Conforme o estudo, em 2060, um quarto da população (25,5%) terá mais de 65 anos. No total, para cada 100 pessoas com idade de trabalhar, que é a faixa compreendida entre 15 e 64 anos, o país teria 67,2 indivíduos acima desta idade ou abaixo de 15 anos. No nível do Brasil, o índice em 2018, indica que o país tem 43,2 crianças de até 14 anos para cada 100 idosos com 65 anos ou mais. Em 2039, a projeção aponta que o indicador vai passar de 100, o que representará mais pessoas idosas que crianças.

O estudo mostra que, em 2029, o Rio Grande do Sul deverá ser o primeiro a ter uma proporção maior de idosos do que de crianças de até 14 anos. Mas em 2033, o Rio de Janeiro e Minas Gerais deverão ter relação semelhante. Com comportamento diferente, o Amazonas e a Roraima vão continuar com mais crianças e idosos até o limite da projeção em 2060.

Expectativa de vida

Com 79,7 anos, Santa Catarina, que, atualmente, tem a maior esperança de vida ao nascer para ambos os sexos, subirá para 84,5 anos em 2060. O Maranhão, com a menor expectativa de vida ao nascer (71,1 anos) em 2018, vai perder a posição para o Piauí que em 2060, terá a taxa de 77 anos.


Dependência

O IBGE estimou também que a razão de dependência da população brasileira em 2018 é 44%. Isso significa que 44 pessoas com idades menores de 15 anos e maiores de 64 dependiam de cada 100 indivíduos em idade de trabalhar. A proporção deve subir para 67, 2% em 2060.

O instituto chamou atenção que em 2010, a razão de dependência era 47,1% e atingiu o menor patamar em 2017, quando registrou 44%. Até 2028 a expectativa é crescer alcançando 47,4%, o mesmo do que foi anotado em 2010.

Eleitores

O IBGE informou que, em 2018, o Brasil tem 160,9 milhões potenciais eleitores, ou seja, pessoas com 16 anos ou mais. Em comparação com 2016 houve uma elevação de 2,5%, quando havia 156,9 milhões nesta faixa de idade.


Imigração

A Projeção de População avaliou os movimentos de migração internacional. A estimativa é que, entre 2015 e 2022, o número de venezuelanos imigrantes no Brasil chegue a 79 mil.

Estudo

A projeção detalha a dinâmica de crescimento da população brasileira, acompanhando suas principais variáveis: fecundidade, mortalidade e migrações. Além de projetar o número de habitantes do Brasil e das 27 unidades da federação no período entre 2010 e 2060. O estudo é uma parceria do IBGE com órgãos de planejamento de quase todos os estados brasileiros e segue as recomendações da Divisão de População das Nações Unidas.

STF suspende efeitos de julgamento que obriga Petrobrás a pagar R$ 17 bi em ações trabalhistas

Teo Cury e Rafael Moraes Moura
O Estado de S.Paulo

Decisão do TST determinou que estatal pague a maior indenização trabalhista da história; empresa pediu suspensão até que esgotados os recursos na Justiça

Foto: Andre Dusek/Estadão 
O ministro Dias Toffoli é neste momento o presidente
 em exercício do Superior Tribunal Federal (STF) 

BRASÍLIA - O presidente em exercício do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Dias Toffoli, suspendeu nesta sexta-feira, 27, os efeitos do julgamento do Tribunal Superior do Trabalho (TST), que no final de junho condenou a Petrobrás na maior ação trabalhista de sua história. 

A decisão atendeu a pedido da defesa da estatal. Na terça-feira, 24, os advogados da empresa recorreram ao Supremo para que os efeitos da decisão do TST fossem suspensos até que esgotados os recursos na Justiça. A suspensão de Toffoli desta sexta-feira vale até que o Supremo delibere sobre a questão ou até que o ministro Alexandre de Moraes, que é relator do caso, se manifeste de forma diferente. Cabe recurso dos trabalhadores no próprio STF.

Processo de R$ 17 bilhões

Aberto pelos trabalhadores, o processo pedia o recálculo de um acordo coletivo de 2007 que concedeu adicionais ao salário, como trabalho noturno, por sobreaviso e confinamento. 

Os extras têm sido pagos, mas milhares de empregados querem outra conta que, grosso modo, dobra os adicionais. 

Por determinação do TST, a estatal terá de pagar R$ 17 bilhões a 51 mil funcionários e ex-funcionários em 47 ações coletivas e mais de 7 mil ações individuais. 

Advogados alegam prejuízo à saúde financeira da empresa

  Foto: Petrobrás
Aberto pelos funcionários, o maior processo trabalhista do País pede
 o recálculo de um acordo coletivo de 2007 que concedeu adicionais
 ao salário, como trabalho noturno, por sobreaviso e confinamento 

No recurso apresentado ao Supremo na terça-feira, 24, os advogados da estatal afirmam que o pagamento do valor cobrado comprometerá a saúde financeira da empresa, de sua política de investimentos previstos ao abastecimento nacional.

Em sua decisão, Toffoli afirma que, "em que pese referido acórdão ainda não tenha sido publicado, a tese sufragada naquele julgamento já começou a ser aplicada, o que se mostra açodado e deve ser obstado". 

De acordo com o ministro, "são notórios os efeitos econômicos que a implementação dessa decisão poderá acarretar aos cofres" da Petrobrás. "A justificar que se aguarde o pronunciamento desta Suprema Corte sobre a matéria, antes de proceder-se à liquidação do julgado proferido pelo TST." 

"Tenho por presente a circunstância excepcional a admitir a instauração da jurisdição desta Corte sobre a matéria, pois o TST determinou a tomada de medidas tendentes à execução de julgado cujo acórdão sequer foi publicado e, ainda, sem nem mesmo aguardar o decurso de prazo para a interposição de outros recursos, em face daquela decisão." O presidente interino da Corte determinou ainda a "suspensão nos "tribunais e juízos em que se encontrarem, as ações individuais e coletivas que discutem essa matéria, qualquer que seja a fase de sua tramitação, até final deliberação desta Suprema Corte acerca do tema, ou ulterior deliberação, em sentido contrário, do Ministro relator (Alexandre de Moraes)".


Recursos extraordinários

No despacho, o ministro cita que a CLT determina que, na hipótese de existir questão constitucional na questão julgada sob o rito dos recursos repetitivos, não se poderá obstar o conhecimento de eventuais recursos extraordinários que vierem a ser interpostos. 

"E, no presente caso, a própria certidão do julgamento faz expressa referência à norma do artigo 7º, inciso XXVI, da Constituição Federal, para aduzir que não houve vulneração a seu comando, fato esse que, aliado à escassa maioria formada quando do julgamento, torna bastante verossímil a tese de que há, efetivamente, matéria constitucional em disputa acerca da matéria, a dar trânsito a eventual e futuro recurso extraordinário a ser interposto em face do acórdão que vier a ser publicado", escreveu.
Sobre o julgamento

O plenário do TST deu razão aos trabalhadores com um placar apertado: 13 votos a favor dos petroleiros e 12 ministros a favor da Petrobrás. A decisão saiu apenas com o voto de minerva do presidente do Tribunal, ministro João Batista Brito Pereira. 

Com Pereira, o tribunal concordou com trabalhadores que pedem novo método de cálculo para benefícios previstos em acordo coletivo firmado em 2007. A mudança deve causar impacto de R$ 15 bilhões pelos pagamentos passados e ainda adicionaria R$ 2 bilhões anuais na folha de pagamento da Petrobrás.