terça-feira, fevereiro 09, 2021

O teto não é o vilão

 Editorial

O Estado de S.Paulo

A suposta dificuldade de encontrar recursos para o auxílio emergencial tem alimentado um discurso irresponsável para justificar a ruptura do teto de gastos

Não há dúvida de que o poder público deve se mobilizar para encontrar espaço no Orçamento para atender os milhões de brasileiros que perderam renda em razão da pandemia de covid-19. Junto com a vacinação em massa, a retomada do auxílio emergencial deve estar no topo das prioridades dos políticos e das autoridades em todas as esferas administrativas.

Não foi por outra razão, aliás, que os novos comandantes do Congresso manifestaram que a imunização e o socorro financeiro são suas únicas preocupações no momento. Já o governo de Jair Bolsonaro expressou reticências sobre uma nova rodada de auxílio emergencial, mas é questão de tempo até que suas reservas sejam superadas pela perspectiva de potenciais ganhos eleitorais, única motivação do presidente.

Assim, a volta do auxílio emergencial é apenas uma questão de tempo – e depende, sobretudo, da formulação de uma arquitetura financeira que não agrave a periclitante situação fiscal do País. Nesse aspecto, a suposta dificuldade de encontrar recursos em razão das limitações constitucionais, em especial o teto de gastos públicos, tem alimentado um discurso irresponsável que justifica a ruptura desse teto como um imperativo moral, ante a inegável necessidade de amparar milhões de cidadãos sob ameaça de fome.

Não é à toa que muitos dos que advogam essa ruptura são os mesmos que tudo fizeram e fazem – há tempos, desde antes da pandemia – para desacreditar o teto de gastos, atribuindo a essa restrição todos os males sociais do País. Trata-se de uma questão absolutamente falsa.

É perfeitamente possível encontrar recursos, respeitando-se o teto, para atender os brasileiros ora necessitados. O presidente do Centro de Liderança Pública, Luiz Felipe D’Ávila, disse ao site Poder360 que a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 147/2019, que elimina os chamados “penduricalhos” agregados aos vencimentos de funcionários públicos, por exemplo, já seria suficiente para implementar um auxílio de até R$ 250. “Temos que aprovar a PEC dos Penduricalhos, que é o fim de privilégios absurdos da elite do funcionalismo público. Isso tem um custo absurdo para a Nação. Com esse superávit, podemos financiar o programa de auxílio emergencial”, disse D’Ávila.

Essa seria apenas uma das várias maneiras possíveis de manejar o Orçamento para o socorro aos necessitados sem desrespeitar o teto de gastos. O economista Marcos Mendes, em artigo no site Brazil Journal, apresentou nada menos que oito propostas. Uma delas seria direcionar parte das emendas parlamentares excepcionalmente para o pagamento do auxílio.

Soluções como essas, contudo, exigem habilidade e vontade política, pois seria necessário enfrentar a poderosa corporação do funcionalismo e também convencer os parlamentares a mudar a destinação de parte das bilionárias verbas a que têm direito para investir em seus redutos eleitorais. Como se vê, o obstáculo não é o teto de gastos, mas a acomodação da elite política em seus feudos de poder.

É preciso lembrar, sempre, que a responsabilidade fiscal é a garantia da preservação da maior conquista econômica brasileira desde a redemocratização: o controle da inflação, cuja manutenção em patamares civilizados estimula investimentos de longo prazo, mantém o poder de compra da moeda, permite a redução dos juros e, assim, ajuda a conservar o endividamento público em nível administrável – o que, por sua vez, mantém os preços comportados, num círculo virtuoso. Sem o teto de gastos, tudo isso desmorona.

Ademais, o teto de gastos é fundamental para o debate democrático sobre as prioridades do País. Ao estabelecer um limite para a despesa pública, o instrumento obriga os brasileiros a discutirem, por meio de seus representantes políticos, qual deve ser a destinação dos impostos arrecadados, com a consciência de que os recursos são finitos. Aqueles que não gostam de controle, que preferem manter os privilégios de quem se julga dono do Orçamento e que estão somente preocupados com o atendimento de seus interesses paroquiais imediatos continuarão a vilanizar o teto de gastos. Para esses, na prática, o teto só se aplica aos pobres.


Futuro, ano zero

 Marc Bassets

El Pais

Depois de meses fora de órbita, em 2021 é hora de pôr os pés no chão. Empreenderemos a recuperação da crise sanitária e econômica? Lutaremos seriamente contra a mudança climática? Especialistas fazem suas apostas

 EL PAÍS



Pode ser uma aterrissagem suave ou forçada. Depois de um 2020 de morte, doença, confinamento e recessão em que o mundo flutuou em uma estranha irrealidade, o ano de 2021 começa entre a promessa de vacinas que acabem com tudo isso e a angústia por novas ondas que nos devolvam à linha de largada. A humanidade está fora de órbita há um ano e se aproxima o momento de pôr os pés no chão.

“As coisas não voltarão a ser como antes. Começamos a ter consciência de que foi a civilização que criou e espalhou o vírus: os aviões e os carros, as concentrações multitudinárias e os estádios de futebol”, diz o neuropsiquiatra Boris Cyrulnik, uma das 10 pessoas consultadas ― todas especialistas em áreas que vão da história ao pensamento, da economia à geopolítica ― para preparar este artigo. “Se restabelecermos as mesmas condições de consumo e de transporte, em dois ou três anos haverá outro vírus e será preciso recomeçar.”

Nada está escrito. O ano de 2021 pode ser o momento de decisões ― sobre a organização das relações internacionais, sobre a economia, sobre o meio ambiente, sobre os valores democráticos ― que marquem as próximas décadas. Um ano zero.

“A história sempre está radicalmente aberta. Sempre pode ir por um lado ou por outro. A crença de que haverá um progresso simplesmente porque queremos que o bem vença é um erro”, diz a historiadora Anne Applebaum, autora de Twilight of Democracy (“Crepúsculo da democracia”), ensaio que narra em primeira pessoa o conflito no mundo ocidental entre liberais e autoritários. “Também é um erro acreditar que, inevitavelmente, fracassaremos. Não sou declinista, mas também não acho que tudo sairá bem sem fazer nada para conseguir isso.”

O historiador marxista Eric Hobsbawm falava de um século XX curto, entre 1914, ano do início da Primeira Guerra Mundial, e 1991, ano do fim da Guerra Fria, com o desaparecimento da URSS. E se também houvesse um século XXI curto? E se sua data inaugural não tivessem sido os atentados de 11 de setembro de 2001, ou a quebra do banco Lehman Brothers em setembro de 2008, e sim o surgimento do vírus SARS-CoV-2 na cidade chinesa de Wuhan no final de 2019? Ou, melhor, a esperada derrota do vírus em 2021 ou 2022, do mesmo modo que 1991 marcou a vitória do campo ocidental contra o bloco soviético?

“O momento em que se proclama que uma pandemia terminou é arbitrário”, avisa Laura Spinney, autora de Pale Rider: The Spanish Flu of 1918 and How it Changed the World (”cavaleiro pálido: a gripe espanhola de 1918 e como ela mudou o mundo), livro de referência sobre a mal denominada gripe espanhola, que matou entre 50 e 100 milhões de pessoas entre 1918 e 1920. “Suponho que isso ocorrerá quando os Governos, de maneira escalonada pelo mundo, levantarem as restrições, quando as pessoas tiverem um certificado atestando que estão vacinadas e sentirem confiança para retomar sua vida anterior.”

Spinney assinala que a diferença entre a pandemia de agora e a gripe de 1918 é a existência de uma vacina. “Até alguns dias atrás, enfrentávamos a pandemia da mesma forma que isso foi feito ao longo da história, com as velhas técnicas de distanciamento social: afastar-nos uns dos outros, fechar espaços públicos, impedir encontros em massa, usar máscaras. Lutávamos com armas antigas e agora lutamos com a arma mais moderna possível.”

A dúvida é o que ocorrerá depois da vitória, se esta chegar. “Imaginemos que no verão [boreal, inverno no Hemisfério Sul] as vacinas permitam acabar com o distanciamento social. Passaremos uma boa parte do resto do ano nos acostumando a viver no novo mundo, que não será igual ao antigo”, diz George Friedman, presidente da Geopolitical Futures, empresa especializada em previsões geopolíticas. “A questão é superar com sucesso a transição de uma realidade, uma economia e uma sociedade baseadas na covid-19 para algo mais estável”.

Friedman, que vive no Texas, acredita que a situação atual é insustentável, e não só por razões econômicas. Cita como exemplo seu neto de quatro anos e a possibilidade de que, se as vacinas não funcionarem, ele não vá à escola em um futuro próximo. “Você vai à escola para quê? Para aprender? Não. Para brigar. Para discutir. Para se entender com outras crianças”, diz. O perigo é que a excepcionalidade de 2020 acabe se prolongando, algo que ele descarta. “Teríamos uma geração deformada. Isto não é a realidade”, diz. É preciso aterrissar, e quanto antes, melhor.

O filósofo Bruno Latour, autor de um ensaio titulado precisamente Où Atterrir? (“Onde aterrissar?”), argumenta, ao contrário de Friedman, que a pandemia significou um banho de realidade, uma tomada de consciência sobre nossos limites e nossa dependência da natureza, do clima até os micróbios. “Vivemos uma mudança cosmológica ou cosmográfica que tem a mesma importância que as grandes mudanças do século XVI. Naquela época foi descoberto o infinito do mundo. Agora passamos de um mundo que acreditávamos ser global e universal para um mundo relocalizado, no qual é preciso prestar atenção a cada gesto, a cada sopro que damos”, afirma. Ao pensar no que 2021 nos reserva, Latour fala da mudança climática ― a “mutação ecológica”, diz ―, “tão próxima que sabemos que passaremos de uma crise a outra, de um confinamento a outro”. Com a diferença de que o futuro confinamento não será em casa, mas em uma terra convulsionada.

“Espero que 2021 seja o ano da volta à normalidade, mas a uma normalidade com consciência coletiva renovada, que permita avançar em matéria ambiental”, diz a economista Mar Reguant, professora da Northwestern University em Illinois e codiretora do grupo de trabalho sobre a mudança climática na comissão de especialistas encarregada pelo presidente francês, Emmanuel Macron, de preparar a economia para o pós-covid-19. “Na frente pessimista, será um ano de novos desastres ecológicos e humanos nos quais a mudança climática ficará evidente com mais força”, prevê Reguant. Mas ela também deseja que o fundo de recuperação europeu, aprovado em julho, “dedique-se a transformar um modelo econômico e energético obsoleto”; que o futuro presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, cumpra suas promessas de combate à mudança climática, e que as empresas petrolíferas “entendam que não terão lugar em um futuro próximo se não se reinventarem”.

Outra crise potencial é a da desigualdade. Durante 2020, os trabalhadores com menor renda empobreceram, devido aos fechamentos forçados pelos confinamentos em setores como os de restaurantes e turismo e à redução dos salários. As pessoas com maior renda, por sua vez, gastaram menos e economizaram mais. “Há uma lacuna que já existe e não vai desaparecer quando a vacina chegar e as restrições forem levantadas”, diz o economista Marc Morgan, membro do Laboratório Mundial da Desigualdade, do qual Thomas Piketty é um dos diretores. “O papel dos gastos governamentais será muito importante para voltar a criar empregos depois da chegada da vacina.”

“O que considero absolutamente urgente é que, com a crise do coronavírus ― mas não só, também com a crise climática e a crise alimentar, que sempre é esquecida, e a grande instabilidade econômica ―, sejam modificadas nossas instituições internacionais e nossas atitudes, e segurança global seja colocada à frente de nossas preocupações”, enfatiza Bertrand Badie, professor emérito do Instituto de Ciências Políticas em Paris. “A segurança global é a que afeta toda a humanidade e não só uma nação ou outra. É isso que faz com que o vírus seja mais ameaçador do que os tanques russos para a Europa.”

Badie, no entanto, acrescenta: “O que pode ocorrer é justamente o contrário: que a crise, em vez de levar a um fortalecimento da governança global, favoreça uma tensão neonacionalista no mundo todo. A eleição de novembro nos Estados Unidos mostrou uma incrível resistência do nacionalismo. O fato de 74 milhões de pessoas terem votado em Donald Trump é a prova de que o neonacionalismo já é um componente fundamental dos comportamentos políticos no mundo atual”.

“Em alguns lugares, a pandemia fortaleceu os autoritários”, assinala Anne Applebaum. “Quando as pessoas sentem medo, estão dispostas a aceitar coisas às quais, em tempos normais, fariam objeções. Não estou falando da coisa superficial dos confinamentos: todo mundo entende para que servem”, acrescenta. “Ao mesmo tempo, a pandemia foi uma prova do valor da ciência e da cooperação internacional. Finalmente sairemos desta, graças às vacinas. E de onde vêm as vacinas? São criadas por consórcios internacionais, pela cooperação germano-americana, por fábricas na Bélgica que exportam para toda a Europa. Todas as soluções para o problema envolvem cooperação internacional, cooperação científica e cooperação comercial. Deveria ser uma lição para os nacionalistas.”

Um risco em relação às vacinas são as teorias da conspiração que proliferaram durante a pandemia e atribuem aos imunizantes todos os tipos de males. Não é incomum que uma pandemia ― na qual o medo do desconhecido se soma à falta de harmonia de governantes que adotam medidas confusas e contraditórias ― seja um terreno fértil para teorias absurdas, algumas com fedor antissemita, que veem um complô para a instalação de um Governo mundial.

“A retórica antivacinas ganhou muita força. Como a palavra oficial ― da imprensa, da política, do mundo médico ― está desacreditada, muitas pessoas não vão querer ser vacinadas”, diz a historiadora Marie Peltier, autora de Obsession: Dans les Coulisses du Récit Complotiste (“obsessão: nos bastidores da narrativa conspiracionista”). “O conspiracionismo e seu impacto na realidade foram subestimados. Para acabar com uma pandemia, é necessária uma vacinação em massa. O problema não será só político, mas também sanitário.”

Sem as vacinas, não será possível reduzir o distanciamento físico nem retomar completamente as atividades. Em seu livro Les Capitalismes à l’Épreuve de la Pandémie (“os capitalismos postos à prova pela pandemia”), o veterano economista Robert Boyer alerta que quanto mais as medidas profiláticas forem prolongadas, mais difícil será restaurar a economia: “Apesar das ajudas em massa, as falências reduzirão a capacidade de produção e de emprego, empobrecerão os mais desfavorecidos, e os jovens dificilmente se integrarão à vida ativa, correm o risco de se ver penalizados de forma duradoura, sem esquecer que a queda dos investimentos hipoteca o crescimento futuro”.

“A tarefa prioritária dos Governos é restaurar até dezembro 2021 a confiança de ficar frente a frente”, diz Boyer por telefone. “A segurança sanitária é uma precondição para o reinício do crescimento. E isso ocorrerá depois de acontecimentos que podem ser dramáticos: mortalidade, incerteza, protestos pela liberdade”, acrescenta. “Uma terceira onda teria efeitos devastadores para a credibilidade dos governantes.”

Não sabemos o que encontraremos no desembarque. Em um dos cenários possíveis, deixaremos lentamente para trás a pandemia, que já matou mais de 1,7 milhão de pessoas e infectou 78 milhões. A economia voltará a andar depois da pior recessão em décadas. As democracias, depois que muitas delas administraram pessimamente a covid-19, resistirão aos ataques das forças autoritárias. Depois de recuar para as fronteiras nacionais quando o vírus ameaçou com mais força, as grandes potências e os grandes blocos econômicos buscarão novas formas de cooperação ― uma globalização com rosto humano ― e, escaldados pelo impacto que um fenômeno natural pode ter no planeta, redobrarão as medidas contra a mudança climática. A derrota de Trump nas eleições americanas de novembro anuncia o início do fim do nacionalismo populista, de sua retórica incendiária e suas teorias da conspiração.

É um cenário possível, mas não o único. No caso oposto, as campanhas de vacinação serão tão caóticas como foram a distribuição de máscaras no início da pandemia e, depois, a organização dos sistemas de rastreamento e teste. Quando os Governos suspenderem as ajudas milionárias para os trabalhadores e os setores mais afetados pela crise, as empresas quebrarão, o desemprego aumentará e as desigualdades dispararão. A volta das fronteiras para frear a expansão do vírus se tornará permanente. Os demagogos saberão aproveitar o descontentamento e darão as respostas que as democracias, transformadas em símbolo de mau governo e polarização, não terão conseguido oferecer. A resposta da China à pandemia estabelecerá as tecnocracias ditatoriais como modelo de eficácia.

Aterrissagem forçada? Ou suave? O ano de 2021 dificilmente reproduzirá ao pé da letra um dos dois cenários mencionados; é mais provável que se mova em uma zona cinzenta na qual nenhuma das duas tendências prevaleça.

Boris Cyrulnik, filho de judeus assassinados nos campos de extermínio nazistas, estuda há décadas o conceito de resiliência, a capacidade de superar a adversidade. É possível, diz ele, que a saída da pandemia signifique uma volta ao business as usual, como se nada tivesse mudado. Ou que nas ruínas da devastação sanitária e econômica surja um salvador, um ditador que agite os ressentimentos. Isso ocorreu em outras épocas de medo e caos. Mas há outra saída, diz o neuropsiquiatra e autor, entre outros, de La Nuit, j’Écrirai des Soleils (“à noite, escreverei sóis”).

“O sprint, a corrida constante, provoca estresse”, diz Cyrulnik. “É preciso redescobrir o prazer da lentidão, porque a lentidão protege, oferece o prazer de viver em paz.”


De Dilma a Bolsonaro

 William Waack, 

O Estado de S.Paulo

As questões básicas não resolvidas do País permanecem as mesmas

A década que começou com Dilma e vai terminando com Bolsonaro tem uma extraordinária constância. Nossas mazelas continuam praticamente as mesmas. Apenas mais escancaradas por uma pandemia que expôs (e também agravou) problemas que já existiam. Nesse sentido, não se pode falar de uma década que começa e termina com sinais trocados. A incompetência governamental e nossa complacência em sua essência seguem as mesmas.

Sim, Dilma foi a vítima da tortura praticada por um regime de exceção, que Bolsonaro teima em exaltar. Por mais abjetas e fracassadas as ideias que ela defendia, não há nada que justifique tortura especialmente por órgãos de Estado, como aconteceu na ditadura militar brasileira. É um aspecto que o capitão Bolsonaro ignora e que exércitos profissionais de democracias abertas, como na França (na Argélia), Estados Unidos (por último, no Iraque) e Israel (na Intifada de 1987) reconhecem como destruidor da moral da força armada e se empenham em condenar.

A sociedade brasileira segue exibindo a mesma tolerância em relação a pragas nacionais há tempos estabelecidas: injustiça social, miséria disseminada, violência endêmica, corrupção e incompetência governamental. São características com as quais se podia descrever o Brasil de 10 ou 20 anos atrás, e a onda disruptiva de 2018 não ofereceu resultados até aqui convincentes para alterar fundamentalmente esse quadro. As comparações internacionais nada proporcionam para nos orgulharmos em termos de nível de desenvolvimento humano e, especialmente, educação, que continua sendo entendida no Brasil como ferramenta e não como valor em si.

Nas comparações mais recentes estamos capengando para proteger nossa população da covid-19. Os que primeiro começaram a vacinar estão em todas as regiões do mundo. Nessa lista figuram ricos e emergentes, países gigantes e pequenos, regimes abertos, democracias liberais, monarquias absolutistas, a ditadura comunista da China, variadas etnias, as principais denominações religiosas (entre os latino-americanos, governos de esquerda e de direita).

O atraso brasileiro na questão da vacinação é uma vitrine expondo nossos limites estruturais. O sistema de governo, possivelmente o pior do mundo, mantém Executivo e Legislativo em choque constante, agravado pela insegurança jurídica emanada de um Judiciário que não foi eleito para governar, mas está governando. O podre sistema de representação política é fator preponderante para entender a falta de lideranças abrangentes e enraizadas – um grande deficit em situações de crise econômica e sanitária que se reforçam mutuamente. A força dos regionalismos e o egoísmo de suas respectivas elites – não só as geográficas, mas as de diversos segmentos sociais e econômicos nos fazem assistir à concorrência dos entes da federação.

Há aspectos peculiares na incompetência demonstrada pelo atual governo no trato da pandemia, mas incompetência em várias questões, agudas ou não, causadas pela “sabedoria” de chefes de Executivo (só lembrar o que Dilma fez com o setor elétrico, por exemplo) tem sido recorrentes. No plano mais abrangente, para um País que cultiva a imagem de ser dono de um futuro brilhante, estamos sendo extraordinariamente incompetentes em chegar lá. Nossa distância nesses dez anos em relação às economias mais avançadas aumentou – e estamos há mais tempo do que isso estagnados em matéria de produtividade e competitividade internacionais.

É confortável apontar o dedo acusador para este ou aquele governo do começo ou do fim da década. O fato é que nós os colocamos lá.

*JORNALISTA E APRESENTADOR DO JORNAL DA CNN


Para brasileiros, palavra que define 2020 é “luto”

  Carla Aranha

Exame.com

Em um ano em que quase 200 mil pessoas morreram por causa do coronavírus e milhões perderam seus empregos, população vive sentimento de perda 

(Eduardo Frazão/Exame)

Avenida do Estado, uma das principais vias de São Paulo,

 em dezembro: brasileiros definem "luto" como a palavra de 2020 

Em um ano marcado por perdas em função da covid-19, a maioria dos brasileiros elege a palavra “luto” como a melhor definição para 2020. É o que revela um levantamento inédito da CAUSE e IDEIA, instituto de pesquisa especializado em opinião pública.

A pesquisa foi realizada com 1.200 pessoas entre os dias 15 e 17 de dezembro, em todo o país. A margem de erro é de três pontos percentuais, para mais ou para menos.

O termo “luto” foi escolhido por 31% da população. Em segundo lugar, teve destaque a palavra “isolamento”, apontada por 24% dos entrevistados, e “resistência”, com 14% das preferências.

“Este foi um ano de muitas perdas, e não só de famílias e amigos enlutados por aqueles que perderam suas vidas para a covid-19”, diz Leandro Machado, cientista político e sócio da CAUSE. “Houve a perda do convívio social, e, para muitos, também do emprego e da renda, algo que é muito sério”.

Em sua quinta edição, a pesquisa da CAUSE e do IDEIA procurou capturar os sentimentos dos brasileiros em um ano marcado pela pandemia.

Os moradores do sudeste, região do país que concentrou a maior parte dos casos de coronavírus em 2020, estão entre os mais impactados pelo sentimento de luto. Cerca de 39% das pessoas que vivem no Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo disseram que o sentimento de perda definiu 2020.

Os brasileiros que escolheram a palavra “luto”também estão entre aqueles com menor grau de escolaridade (36% não concluíram o ensino médio) e renda (35% ganharam até um salário mínimo). Não por coincidência, é a faixa da população que mais foi afetada pelos efeitos dos coronavírus.

Uma pesquisa EXAME/IDEIA realizada em setembro mosta que as famílias brasileiras precisaram trocar os alimentos que estavam acostumados a comprar por similares mais baratos devido à crise econômica que veio à reboque da pandemia. “Quando a necessidade de reduzir custos chega a esse ponto, as perdas, ou lutos, são muito grandes’, diz Machado.

Em 2019, a palavra escolhida pelos brasileiros para definir o ano foi “dificuldade”. Em 2018, a população apontou o termo “mudança”. “Vamos ver qual será o sentimento que irá prevalecer em 2021”, afirma Machado.

 


2020: o ano das verdades inconvenientes

 Jamil Chade

El Pais

O ano forçou a suspensão de um cegueira coletiva e deliberada. Poderemos fechar os olhos de novo, mas não há mais como apagar do inconsciente as imagens de um mundo insustentável

  FELIX DLANGAMANDLA / GALLO IMAGES VIA GETTY IMAGES

Voluntária recebe injeção durante ensaio clínico da vacina 

da Astrazeneca em Soweto, na África do Sul

Na Alemanha, quando fronteiras em março e abril foram fechadas para conter o vírus da covid-19, rapidamente se descobriu que a primavera não seria igual às demais. Os dias eram cada vez mais longos e o desabrochar das flores não poderia ser detido. Mas, no campos de legumes da maior economia da Europa, faltava uma peça fundamental: as mãos escuras e ásperas de imigrantes para colher alimentos.

Em poucos dias, o que era impensável se transformou em um realidade: a Lufthansa organizou voos especiais para ir às margens da Europa buscar justamente aquelas populações indesejadas por uma parcela dos alemães. Com as fronteiras fechadas e sem eles, não haveria o tradicional aspargos nos pratos.

2020 marcará nossa geração. Haverá um antes e um depois na história. Mas seja qual for a forma pela qual o futuro irá narrar os acontecimentos deste período, não restam dúvidas de que 2020 foi o ano de verdades inconvenientes.

Ainda nas primeiras semanas da pandemia, a notícia de que o médico responsável por detectar o vírus pela primeira vez e alertar as autoridades tinha morrido gerou uma comoção. Não por conta apenas de sua descoberta. Mas pelos relatos de que ele foi alvo de uma repressão policial chinesa ao tentar avisar ao mundo de que um novo vírus ameaçava a humanidade. A verdade inconveniente, em 2020, é que a censura de uma ditadura é real e mata.

À medida que o vírus se espalhava, governos travavam batalhas comerciais para garantir máscaras e respiradores. Governos como o de Angela Merkel chegaram a colocar barreiras para impedir a exportação, enquanto relatos e proliferavam de operações já em pistas de decolagem para desviar carregamentos.

Não foi muito diferente quando a vacina chegou. Países ricos esvaziaram as prateleiras, ficando com bilhões de doses e um volume suficiente para imunizar várias vezes suas populações. Enquanto isso, países pobres fazem filas humilhantes em busca de garantias de que pelo menos uma parte desses avanços na pesquisa cheguem às suas populações.

A verdade inconveniente de 2020 é de que a ciência não beneficia todos ao mesmo tempo. E, uma vez mais, as inovações chegam primeiro para Margarets, e não para Marias. Chegam para Steven ou John, e não para Severinos.

Também foi o ano em que uma parcela de economistas foi confrontado por uma dura realidade que minava um discurso bem ensaiado de que o liberalismo cego, a privatização inclusive de serviços básicos e o papel apenas regulador da administração pública eram sinais de avanço e modernidade. Diante do colapso da economia mundial e da crise, se escutava por ruas escuras, corredores higienizados e manchetes: onde está o Estado?

2020 foi o ano ainda em que ouvimos do FMI um apelo aos governos: gastem o que tiverem de gastar para socorrer suas populações. Aquele mesmo que passou décadas ensinando governos as belezas de austeridade. O que está em jogo não são apenas vidas humanas. Mas a estabilidade de um sistema.

Nas periferias dos EUA, nos bairros mais pobres das grandes cidades britânicas ou nas favelas no Brasil, o vírus matou mais. A análise da Kaiser Health News, por exemplo, revelou que os negros americanos de 65 a 74 anos morreram de covid-19 cinco vezes mais do que os brancos na mesma faixa etária.

Quando as escolas fecharam e estudantes foram instruídos a usar a Internet de casa, “descobriu-se” rapidamente que aquele instrumento revolucionário da web não era universal. Dois terços das crianças em idade escolar do mundo - ou 1,3 bilhão de crianças de 3 a 17 anos de idade - não têm conexão à Internet em suas casas, de acordo com um relatório da Unicef e da União Internacional de Telecomunicações.

A verdade inconveniente é que, em 2020, a Internet não é para todos. Não há um fosso entre diferentes grupos. Há um oceano de distância entre a porção conectada do mundo e aqueles que apenas sonham com um lápis.

Quando a OMS sugeriu que todos lavassem suas mãos na esperança de frear a pandemia, descobriu que 25% dos postos de saúde pelo mundo não contavam com água. Também se descobriu que milhões de pessoas viviam no fio de uma navalha e que qualquer abalo os jogaria de volta a uma pobreza profunda. A fome voltou e o futuro ficou mais distante.

Quando governos tentaram sair ao socorro de suas populações, se depararam com a constatação de que direitos, formalidades e redes de proteção se limitavam apenas a uma minoria privilegiada.

Em 2020, mais de 2 bilhões de trabalhadores atuam na informalidade. Ou seja, 62% de todos os que trabalham no mundo. Nos países de renda baixa, essa taxa chega a 90%.

Quando bares, hotéis e restaurantes fecharam na rica e sofisticada cidade de Genebra, das sombras surgiu uma fila inesperada e inconveniente de milhares de pessoas esperando pela entrega de sacos de comida por grupos de caridade. Eram os imigrantes que, escondidos em cozinhas, lavanderias e nos bastidores do luxo, garantiam que o sistema funcionasse.

E quando, já exaustas, sociedades receberam a notícia de que uma empresa alemã havia descoberto uma vacina com uma alta chance de eficácia, a verdade inconveniente é que, de fato, tal conquista havia sido atingida por um casal de imigrantes turcos. Teriam eles conseguido entrar hoje na Europa?

Guias foram elaborados por autoridades sobre como se despedir daqueles que amamos. Mas não existe guia para a falta de um abraço, de um ombro ou de uma mão que oferece um lenço. A verdade inconveniente é de que o luto faz parte da vida.

Em 2020, um espelho foi colocado diante do mundo. E, como uma realidade que não se pode ignorar, esse mundo não teve o poder de escolher apenas os reflexos que interessavam. A imagem que despontou era intransigente. Não tolerou manipulações. Sim, ali estavam a genialidade humana, a solidariedade e a beleza. Mas também verdades inconvenientes que preferiríamos não ver.

Elas nunca estiveram escondidas e 2020 forçou a suspensão de um cegueira coletiva e deliberada.

Poderemos optar por fechar os olhos de novo. E certamente muitos escolherão esse caminho em 2021. Mas, no silêncio envergonhado de alguns, no pesadelo de noites de calor ou na reflexão íntima de nossos destinos comuns, não há mais como apagar do inconsciente as imagens de um mundo insustentável.

Jamil Chade é correspondente na Europa desde 2000, mestre em relações internacionais pelo Instituto de Altos Estudos Internacionais de Genebra e autor do romance O Caminho de Abraão (Planeta) e outros cinco livros.


Ninguém tem o direito de matar nossas esperanças

 Juan Arias

El Pais

O Brasil grosseiro e violento capaz de zombar das leis e até da educação é minoria. A maioria é um povo que luta só para que seus direitos sejam respeitados.

ERALDO PERES / AP



Nas festas de final de ano e na chegada do novo, nas redes sociais de todo o mundo, nos milhões de mensagens trocadas, a palavra mais usada em todas as línguas da Terra foi “esperança”. Foi um clamor mundial.

Esperança de que a pandemia acabe e a vacina chegue para que se possa começar a viver a normalidade e sentir a proximidade e o calor humano do outro. E se essa esperança de um ano melhor é universal, ninguém tem o direito agora de roubá-la de nós.

No Brasil, sobretudo, a esperança tem sido mais ameaçada ainda pelo negativismo e até pela zombaria de seu presidente pela dor alheia. Por suas portas e janelas sempre fechadas ao clamor de sua gente, que viu até seus mortos serem zombados.

Zombaram da dor dos mais necessitados, que sofreram duplamente com a pandemia em que foram os que mais perderam a vida e os que mais sentiram os efeitos econômicos, tão sobrecarregados já estavam de sofrimentos e esquecimento por parte do poder.

O Brasil se desejou, de ponta a ponta de seu vasto território, que neste novo ano a esperança se imponha sobre o crônico abandono de seus cidadãos. É possível que esse clamor pela busca da esperança perdida não tenha sido escutado pelo poder político e econômico surdo e mudo aos anseios mais profundos dos brasileiros, que não renunciaram ao seu direito de viver felizes e respeitados.

Se algo novo pode chegar aos milhões de brasileiros em 2021 é que os poderes favoreçam a convivência amorosa entre os diferentes, a justiça social, para que nenhum brasileiro passe necessidades e que se sinta seguro e defendido em vez de ser deixado à margem. E ainda pior, foram tratados como “covardes” por tentarem se defender da pandemia. Não, os brasileiros não são covardes nem submissos. Podem ainda sofrer de racismo, mas o que o poder fez para combatê-lo? Pode até tê-lo agravado.

Neste duro ano da pandemia que levou forçosamente ao distanciamento, os brasileiros foram exemplares na busca de refúgio na cultura, na arte e até na sátira. Nas redes sociais, milhares de músicos e artistas animaram com suas músicas e escritos em meio à dor da separação. Não, o Brasil grosseiro e violento capaz de zombar das leis e até da educação é minoria. A maioria é um povo que luta só para que seus direitos sejam respeitados.

A maioria é gente com sentimentos nobres e com o desejo de viver em paz. Portanto, se temos algo a desejar neste 2021 é que saibamos lutar para que os poderes que têm sobre nós o direito de vida ou de morte saiam de cena, que vão embora com sua carga de negatividade e desprezo pela vida.

Que todos nós, com as forças ainda sãs da política e da justiça, demos um basta ao poder que se sente dono de nossos sentimentos. Que seja um ano de esperança e também de resistência à barbárie a que um poder sem empatia diante da dor, da morte e da miséria submeteu o país.

Lutemos juntos aqueles de nós que não perderam a esperança de um mundo mais habitável, para que os bárbaros desapareçam e partam sozinhos para desfrutarem suas armas e o seu desprezo pela dor alheia. Que vão embora se deleitar sozinhos com a sua mala de sadismo.

O velho slogan dos revolucionários gritava que “o povo unido jamais será vencido”. Hoje, no Brasil vivemos uma situação de tirania que zomba da felicidade alheia. Por isso, as forças mais sãs do país precisam se sentir unidas contra a barbárie que nos aflige.

O Brasil que nos últimos dias escreveu e pronunciou milhões de vezes a palavra esperança permanece unido nessa utopia com seu amor pela vida contra os coveiros de nossas ilusões.

Hoje vivemos no Brasil uma revolução engendrada por um poder tirano. Que todos aqueles que defendem e reivindicam seus direitos a uma vida mais digna se unam e gritem nas redes e nas ruas e praças que não permitirão que continuem zombando de seu direito à felicidade.

Digam “não” com força e unidos para aqueles que parecem se deleitar com a dor dos outros.

Que os brasileiros com suas riquezas culturais e espirituais não permitam mais que lhes roubem essa palavra mágica de esperança em uma vida mais digna para todos.

O Brasil pode porque em suas veias correm o sangue e as riquezas de tantos povos e de tantas culturas, todas de vida e não de morte.

Juan Arias é jornalista e escritor, com obras traduzidas em mais de 15 idiomas. É autor de livros como ‘Madalena’, ‘Jesus esse Grande Desconhecido’, ‘José Saramago: o Amor Possível’, entre muitos outros. Trabalha no EL PAÍS desde 1976. Foi correspondente deste jornal no Vaticano e na Itália por quase duas décadas e, desde 1999, vive e escreve no Brasil. É colunista do EL PAÍS no Brasil desde 2013, quando a edição brasileira foi lançada, onde escreve semanalmente.



O que Jairzinho não aprendeu, Jair jamais aprenderá

 Philipp Lichterbeck

 Deutsche Welle

Agora até o Fagner resolveu reclamar das "besteiras" ditas pelo presidente. Mas esperavam o quê, afinal? E essas "loucuras" nem são o pior, mas a crescente corrupção e impunidade no governo Bolsonaro.

    


O cantor Fagner concedeu entrevista ao jornal O Globo, na qual diz que se arrepende de ter votado em Jair Bolsonaro em 2018. "Votei para que tocasse o Brasil, não para falar besteira", diz ele, a certa altura. Numa outra: "A atuação do Bolsonaro é ridícula. Ninguém está precisando ouvir as loucuras que ele fala. (...) Quero que governe!"

É uma reclamação que se ouve com mais frequência de eleitores de Bolsonaro arrependidos, como o colega cantor de Fagner, Lobão, ou o deputado Alexandre Frota. Isso me surpreende por três motivos.

Em primeiro lugar, Jair Bolsonaro construiu toda sua carreira de 30 anos como político dizendo "loucuras" e "besteiras". O que Fagner e os demais esperavam? Que ele entenda aos 65 o que não entendia aos 45? Na Alemanha existe um belo ditado, que traduzido diz mais ou menos assim: "O que Hansinho não aprendeu, Hans jamais aprenderá". Pode-se dizer também que um adulto que deseja publicamente a morte de 30 mil brasileiros ("Se vai morrer alguns inocentes, tudo bem. Em tudo quanto é guerra morre inocente") não se torna um Gandhi só porque ganhou uma faixa listrada de amarelo e verde para pendurar no corpo.

Em segundo lugar, surpreende o apelo de Fagner para que Bolsonaro governe. Aparentemente, Fagner espera que ele seja competente na solução dos numerosos problemas do Brasil. Gostaria que os eleitores do presidente me dissessem quando Bolsonaro alguma vez demonstrou competência para algo em sua carreira, fora ser reeleito a cada quatro anos ou colocar seus filhos na lucrativa política brasileira. Na pandemia do coronavírus fica agora evidente de forma exemplar como o desprezo pelo ser humano e a incompetência do presidente e de seu ministro da Saúde colocaram o país numa situação catastrófica.

Em terceiro lugar, e o que mais me assombra, é que Fagner critica o presidente pelo lado completamente errado. Não são as "loucuras" que mais incomodam, mas a crescente corrupção sob o governo de Bolsonaro, com a qual o Brasil vai se acostumando. Supostamente, este governo queria restaurar a lei e a ordem e combater a corrupção.

Impunidade

Em vez disso, criminosos são apoiados, como os grileiros na Bacia Amazônica. Eles estão ocupando ilegalmente terras públicas – terras que são de todos os brasileiros, inclusive de vocês, caros leitores – e destruindo a flora e a fauna. Mas esse governo recompensa os criminosos por meio da impunidade e da isenção de multas. Não é à toa que o próprio ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, tem seus problemas com a Justiça. Em 2018, ele foi condenado em São Paulo por improbidade administrativa. Este ano, é investigado e teve o sigilo bancário quebrado pelo Ministério Público de SP. Existe suspeita de crimes de sonegação e lavagem de dinheiro. O MP divulgou que o ministro teria enriquecido R$ 7,4 milhões em cinco anos atuando no governo do estado.

Outro exemplo é o recentemente demitido ministro do Turismo, Marcelo Álvaro. A PF já o indiciara em 2019 como chefe do esquema de laranjas do PSL. A PF pediu que ele fosse condenado por três crimes. Mas ele continuou no governo até este dezembro. Foi demitido por uma briga interna no gabinete e não por corrupção. Mesmo assim, o presidente e seus seguidores repetem incansavelmente que não existe corrupção neste governo. Não existe para quem não quer ver.

Família se apodera do Estado

Basta olhar para a própria família do presidente. Parece que está tentando privatizar o Estado brasileiro para colocá-lo aos seus interesses. Nisso não é muito diferente da sempre tão criticada Venezuela, onde uma pequena elite corrupta sequestrou o Estado e o está usando para seus interesses. O caso do filho Renan Bolsonaro, o 04, que utilizou gratuitamente, em benefício da sua empresa, uma produtora que presta serviços ao governo federal, também poderia ter acontecido por lá. É coisa de republiqueta de bananas.

Assim como o caso Flávio Bolsonaro, que segundo o Ministério Público por anos roubou dinheiro público e também tinha uma proximidade surpreendente com a máfia do Rio. Para ser bem claro: Flávio Bolsonaro, filho do presidente, é acusado de ter roubado o dinheiro dos seus impostos, caros leitores! Mas o aparato estatal do Brasil (também financiado com seus impostos) agora o ajuda a se defender dessa investigação: para esse fim, foi usado o serviço secreto, a Abin. A Abin serve, segundo sua própria descrição, "para garantir a segurança da sociedade e do Estado brasileiro". Não deve resolver problemas pessoais dos filhos do presidente.

Em países normais, tudo isso daria origem a uma crise de Estado. Mas no Brasil as coisas anormais viram normais. As pessoas já se habituaram aos roubos de terras públicas e aos enormes incêndios que a cada ano destroem um pouco mais da maravilhosa natureza do Brasil. Ministros "um pouco corruptos" são considerados normais. E, obviamente, o presidente acredita que ele e sua família estão acima da lei.

Que ele toda hora fale "besteiras" é até o menor dos males.

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Philipp Lichterbeck queria abrir um novo capítulo em sua vida quando se mudou de Berlim para o Rio, em 2012. Desde então, ele colabora com reportagens sobre o Brasil e demais países da América Latina para jornais na Alemanha, Suíça e Austria. Ele viaja frequentemente entre Alemanha, Brasil e outros países do continente americano. Siga-o no Twitter em @Lichterbeck_Rio.

 


A farra dos privilégios

 Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

A Fiocruz é merecedora do prêmio de responsabilidade social e política, ao se negar a reservar doses de vacina aos tribunais superiores

Estava pensando em dar à Fiocruz o prêmio “Republicano de 2020”. Melhor não. Republicanos é o nome do partido de Crivella/Igreja Universal, cujo comportamento não corresponde ao nome.

Assim, vamos dizer que a Fiocruz é merecedora do prêmio de responsabilidade social e política, ao se negar a reservar doses de vacina aos tribunais superiores. Inversamente, o Supremo Tribunal Federal, o Superior Tribunal de Justiça e o Tribunal Superior do Trabalho merecem o prêmio vexame do ano. Os egrégios tribunais solicitaram oficialmente à Fiocruz a reserva de doses da vacina (7 mil no caso do STF) para aplicação nos ministros e seus funcionários.

Em ofício, o diretor do STF, Edmundo Verdas dos Santos Filho, chegou a dizer que a vacinação de ministros e funcionários contribuiria “com o país” já que garantiria a “utilização dos recursos humanos e materiais disponíveis no Tribunal para ajudar a desafogar outras estruturas de saúde”.

É ridículo ter que argumentar contra isso, mas, considerada a fonte, vamos lá. Há muitas outras categorias cuja vacinação contribuiria mais com o país. E é justamente essa regra que se utiliza em qualquer lugar do mundo quando se organiza a fila da vacinação. E é óbvio que a reserva das primeiras doses vai para o pessoal da saúde e para sua turma de apoio, o que inclui maqueiros e motoristas de ambulâncias.

O diretor do STF lembrou, en passant, que muitos membros do tribunal estão no grupo de risco. Desnecessário. Os grupos de risco vão para os primeiros lugares.

Mas, na fila comum, para todos, e não para uma eventual fila exclusiva de 7 mil membros do STF, a ser vacinados em locais da Corte, especiais e separados do povão.

Dirão alguns leitores: mas por que se preocupa com questão tão pequena?

Ocorre que não é só isso. Os privilégios não se limitam a isso. São os salários acima do teto constitucional, são as férias de dois meses, sem contar os recessos, são as mordomias.

Isso se refere não apenas ao STF, mas à alta cúpula do serviço público, que acha natural ter essas vantagens.

Refere-se também a uma elite política que acha absurdo que um prefeito, um deputado, um senador ou um ministro possam ser presos.

A demanda por privilégios vai, assim, do pedido de reserva de vacinas aos esforços para abafar o combate à corrupção. Isso inclui: o engavetamento da lei de prisão em segunda instância, a decisão do ministro Nunes Marques de encurtar o tempo de inelegibilidade dos fichas-sujas, o desmantelamento da Lava Jato.

E mais: o fato de a elite política de Brasília considerar absolutamente normal que um réu por corrupção, o deputado Arthur Lira, seja candidato a presidente da Câmara dos Deputados.

O que nos traz ao tema corrupção, outro assunto movimentado nestes dias, com a prisão do prefeito Marcelo Crivella. Isso num estado em que cinco ex-governadores foram apanhados por corrupção e lavagem de dinheiro. Dinheiro público e da saúde.

Até há algum tempo, se dizia que a corrupção era pequena e apenas um problema moral. Errado. Primeiro, porque a Lava Jato mostrou o tamanho da corrupção aqui no Brasil e no exterior. Segundo, porque há uma estreita relação entre corrupção e ineficiência econômica.

Num ambiente corrupto, empresas que trabalham para governo corrupto — via contratos ou concessões — sabem que se ganha uma concorrência não por qualidade técnica, mas pelo valor da propina. Empresas sérias se afastam desses ambientes, como é o caso de muitas companhias e Organizações Sociais que desistiram de trabalhar no Rio e de muitas que simplesmente desistiram do que têm a receber, por trabalhos legítimos, porque não querem entrar na fila da propina.

Trata-se do “capitalismo de amigos”, revelado pela Lava-Jato e tão resistente a ponto de conseguir abafar a própria Lava-Jato.

Portanto, um prêmio para a Fiocruz, que deu uma lição ao STF: as vacinas vão todas para o Programa Nacional de Imunização, não podendo ser reservadas nem para os funcionários da Fiocruz.

Até o fechamento desta coluna, ontem à tarde, apenas um ministro do STF havia se manifestado, Marco Aurélio: “Peço desculpas”. E os outros?


Em dois anos desastrosos, a pandemia só surgiu no segundo

 Rolf Kuntz, 

O Estado de S.Paulo

Depois de dois anos de desgoverno, ainda resta o direito de desejar feliz ano novo

Desprezo à vida, quase um culto à morte, é a grande marca do presidente Jair Bolsonaro, afirmada e reafirmada em todo o seu desgoverno. Com a pandemia esse desprezo ficou mais escancarado, assim como seu despreparo para governar. Enquanto avança o contágio, o presidente chama de maricas quem tenta evitar a doença e cobra menos ansiedade na espera pela vacina. O descaso pela vida se reafirma, sem pausa, também na sua obsessão pelas armas. Pode-se morrer de bala ou de covid-19. E daí? Essa pergunta, um comentário sobre a mortandade, resume dois anos de Presidência bolsonariana – fiasco na economia, desastre na pandemia, constante ameaça à democracia. Será um prenúncio dos próximos dois?

Liderança, criatividade e solidariedade podem eclodir diante de grandes desafios. Diante da pandemia, Bolsonaro foi negacionista, como seu guia Donald Trump. Continuou centrado em objetivos particulares, como a reeleição e a proteção dos filhos. Além disso, frequentou manifestações golpistas, como no dia 3 de maio.

Mais de 100 mil casos de covid-19 haviam sido registrados e as mortes passavam de 7 mil, superando as da China, mas as prioridades do presidente eram outras. Na passeata, faixas pediam o fechamento do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Congresso e “intervenção militar com Bolsonaro”. O presidente apareceu sem máscara, abraçou uma criança e criticou medidas sanitárias de governadores e prefeitos.

A indisposição de Bolsonaro com o STF era notória. O ministro Alexandre de Moraes havia suspendido a nomeação de Alexandre Ramagem para a direção da Polícia Federal (PF). Sem dizer a quem se dirigia, o presidente berrou ameaças.

“Vocês sabem que o povo está conosco. As Forças Armadas, ao lado da lei, da ordem, da democracia e da liberdade, também estão ao nosso lado, e Deus acima de tudo. Vamos tocar o barco. Peço a Deus que não tenhamos problemas nesta semana, porque chegamos no limite, não tem mais conversa, tá OK? Daqui para frente não só exigiremos, faremos cumprir a Constituição. Ela será cumprida a qualquer preço.” Depois prometeu nomear no dia seguinte o novo diretor da PF.

Diante de golpistas, o presidente ameaçou agir “a qualquer preço” e tentou envolver as Forças Armadas – e para quê? Para sustentar sua pretensão de mandar na PF, denunciada como inaceitável pelo ministro Sergio Moro. Como essa pretensão nunca foi justificada, restava a hipótese muito comentada: era mais uma tentativa de proteger os filhos.

O interesse de um filho investigado, o senador Flávio Bolsonaro, seria o assunto, meses depois, de um encontro com participação de Alexandre Ramagem, chefe da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), e do general Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI). Dessa reunião resultaram, segundo a revista Época, instruções para a defesa do senador, acusado de rachadinhas durante o mandato como deputado estadual.

Ramagem e Heleno confirmaram a reunião com a defesa do senador, mas negaram ter produzido instruções. Além disso, qualificaram o encontro como legal, por ser atribuição do GSI e da Abin cuidar da segurança do presidente e de seus familiares. Mas isso inclui segurança contra investigação de rachadinha ou de outro crime?

Bolsonaro achou tempo para cuidar da reeleição. Meio por acaso, descobriu os pobres. A descoberta ocorreu quando o ministro da Economia, no começo da nova crise, propôs auxílio de R$ 200 para os mais vulneráveis. O presidente da Câmara sugeriu R$ 500 e Bolsonaro, com aparente entusiasmo pelo novo jogo, defendeu R$ 600.

Houve bons efeitos e ele decidiu propor uma Bolsa Família – antes chamada de Bolsa Farinha – com marca própria. Não deu certo, ainda, mas o presidente descobriu as possibilidades de um novo eleitorado, e logo no Nordeste.

As medidas emergenciais funcionaram, como em outros países, e atenuaram a crise, mas deixaram enorme buraco fiscal. O mercado entende as novas condições e apenas cobra um claro compromisso de seriedade nos próximos anos. Mas o comportamento errático do presidente em relação às questões fiscais, somado à sua política antiecológica, assustou o mercado, espantou investidores e resultou em enorme depreciação cambial. No fim de outubro, só as moedas de Zâmbia e do Suriname se haviam desvalorizado, em 2020, mais do que o real. Inflação maior foi um dos efeitos.

A economia já ia mal antes do novo coronavírus. Havia crescido só 1,6% em 2019, depois de avançar 1,8% em cada um dos dois anos anteriores. O produto interno bruto (PIB) do primeiro trimestre de 2020 foi 1,5% menor que o dos três meses finais do ano passado. Só um projeto importante havia sido aprovado no primeiro ano de mandato, a reforma da Previdência, já amadurecida no período do presidente Michel Temer. Nenhuma das muitas privatizações prometidas foi realizada até agora, e Bolsonaro acaba de se declarar contrário à venda da Ceagesp, antes pautada com sua autorização.

Mas todos têm o direito de pelo menos desejar feliz ano novo a todos os demais – tão feliz quanto possível no Brasil de Bolsonaro.

JORNALISTA


Dívida pública que vence em 2021 já chega a R$ 1,31 trilhão

 Idiana Tomazelli,

O Estado de S.Paulo

Valor equivale a 28,8% do total de débitos; só no primeiro quadrimestre, conta será de R$ 669 bilhões, segundo dados do Tesouro Nacional

  Foto: Marcelo Casal Jr/Agência Brasil

Investidores têm exigido prazos mais curtos de vencimento em títulos do governo 

O Tesouro Nacional começa 2021 com uma fatura trilionária a ser paga aos investidores. A dívida que vence este ano já somava R$ 1,31 trilhão no fim de novembro, valor que deve crescer com a incorporação de mais juros. O desafio chega num ano decisivo para ditar os rumos das reformas consideradas essenciais para o equilíbrio fiscal do País – e, consequentemente, para a capacidade de pagar toda essa dívida no futuro.

Nos últimos meses, o governo precisou se endividar mais para bancar o aumento das despesas para combater a covid-19. A combinação da maior necessidade de financiamento com a aversão ao risco dos investidores, turbinada pela desconfiança em relação à continuidade do processo de ajuste fiscal no Brasil, levou o Tesouro a concentrar boa parte das emissões em títulos de prazo mais curto.

A previsão do órgão é que, no fechamento de 2020, a dívida vencendo em 12 meses seja equivalente a 17,4% do Produto Interno Bruto (PIB), o maior patamar desde 2005. Para os próximos três anos, as simulações mostram uma proporção ainda maior, de 20,1% do PIB. Em regra, a concentração de vencimentos no curto prazo representa maior risco de financiamento, uma vez que o País precisa trocar os títulos vencidos por novos mais frequentemente, ficando sujeito às condições do mercado.

O coordenador-geral de Planejamento Estratégico da Dívida, Luiz Fernando Alves, diz que é natural que o aumento da concentração de vencimentos da dívida no curto prazo não se desfaça instantaneamente. Segundo ele, o Tesouro seguirá perseguindo uma dívida mais longa, mas o avanço nessa direção será um processo gradual que dependerá, inclusive, da velocidade na aprovação das reformas.

Por isso, a agenda de reformas fiscais é tida como essencial. Sem isso, haverá maior dificuldade em retomar a melhora na composição da dívida pública, deixando o País dependente da rolagem da dívida no curto prazo por mais tempo. A redução do endividamento, por sua vez, depende de o Brasil voltar a arrecadar mais do que gasta – o que só está previsto para ocorrer em 2027.

“A mensagem principal é que nos próximos dois, três anos é muito provável que a gente ainda siga com uma proporção de vencimentos da dívida em patamares mais altos do que as médias dos últimos anos”, afirma Alves. “Com uma dívida mais alta, a mudança no volume de vencimentos em cada ano tende a ser mais alta de maneira estrutural”, acrescenta ele.

Tesouro reforça emissões

O volume de vencimentos em 2021 equivale a 28,8% do estoque de toda a dívida pública interna e já representa quase o dobro da média de resgates nos últimos três anos. Só no primeiro quadrimestre serão R$ 669 bilhões. Depois disso, há um grande volume em setembro, com R$ 229,1 bilhões.

Uma parte dessa dívida foi contratada ainda em 2015, quando a situação das contas exigiu maiores emissões, feitas sobretudo com títulos que vencem agora em 2021. Mas a pandemia também vai cobrar sua fatura.

Para fazer frente a essas necessidades, o Tesouro reforçou as emissões no fim de 2020. Em outubro, chegou a captar R$ 173,3 bilhões, o triplo da média de um mês regular. “Vemos um novo nível do tamanho dos leilões da dívida pública, e acho que essa é uma característica que veio para ficar por algum tempo”, afirma o coordenador.

Segundo Alves, o próprio tamanho da dívida acaba gerando expectativa de que o Brasil demandará empréstimos robustos, ainda mais considerando que o País segue gastando mais do que arrecada – ou seja, registra rombos sucessivos nas contas.

O coordenador de operações da Dívida Pública, Roberto Lobarinhas, observa que, embora o maior volume de emissões tenha vindo para ficar por algum tempo e se demore para sair dessa dinâmica, os últimos leilões têm apontado melhores condições para emitir títulos de prazo maior. “Apesar de não mudar a direção do transatlântico, é um sinal muito positivo já para 2021”, afirma.

O Tesouro também tem usado as emissões maiores no fim do ano passado para reforçar o chamado colchão da dívida, uma reserva mantida pelo órgão para honrar os vencimentos em caso de excessiva volatilidade. “Já temos o suficiente para pagar os primeiros quatro meses de vencimento da dívida e mais um pouco”, diz Alves.


Mais conectado, econômico e caseiro: como o coronavírus mudou o brasileiro

Por Victor Sena

Exame.com

A pandemia do coronavírus mexeu com nossos valores e "mindsets". Uma pesquisa da McKinsey mostra por que consumidores e pessoas estão diferentes

  (Allan Carvalho/NurPhoto/Getty Images)



 Consciência na hora de comprar, fortalecimento de uma cultura de “faça você mesmo” e uma vida mais dentro de casa. Essas são algumas das tendências de comportamento que cresceram no dia a dia dos brasileiros durante a pandemia do novo coronavírus. E elas devem durar.

De olho nessas mudanças, a consultoria McKinsey & Company aposta que os novos hábitos causados pelo isolamento social são mais profundos do que parecem.

Segundo a pesquisa Consumer briefing: evolving behaviors during COVID crisis (Informações dos consumidores: comportamentos em evolução durante a crise da covid, em tradução livre), existe uma mudança de “mindset” que vai sustentar os novos comportamentos. Segundo a pesquisa, novos valores começam a emergir.

Esses novos princípios tem a ver com mais planejamento e realismo, consumo consciente e valorização do meio ambiente e do bem estar social. Tudo isso atravessado por uma forte digitalização.

A partir dessas novas crenças, a consultoria apontou os caminhos que devem orientar como as pessoas vivem e consomem.

Com a pandemia do novo coronavírus, o e-commerce cresceu e as idas aos supermercados diminuíram. No entanto, o ticket médio do que é gasto aumentou, de acordo com a pesquisa, o que indica a volta de um velho hábito dos brasileiros: a compra do mês.

Na hora de sair de casa para comprar, a higiene tem sido uma forte preocupação das pessoas. Além disso, o brasileiro está experimentando novas marcas e consumido com mais propósito.

O consumidor está menos fiel porque está em curso um “choque de lealdade”, causado principalmente pela procura por melhor custo-benefício na hora de comprar.


Para a McKinsey & Company, o choque de lealdade é uma oportunidade para que marcas valorizem os consumidores fiéis, mostrando as razões pelas quais eles devem comprar seu produto. No caso das marcas novas, a oportunidade está em captar esse consumidor menos leal, com promoções.

Esses novos hábitos refletem o que acontece no bolso da população. Antes considerado um povo otimista, o brasileiro está menos confiante sobre a economia do país conforme a pandemia permanece. As projeções do mercado apontam uma queda do PIB do Brasil em 2020 de mais de 6%.

Entre 21 e 24 de março, 25% dos brasileiros achavam que a economia do país iria se recuperar em dois ou três meses após a pandemia. 

O último levantamento da McKinsey mostra que, no fim de maio, esse percentual caiu para 16%.

Com o sentimento pessimista, o cuidado com as finanças está crescendo. De acordo com a consultoria, esse é um dos grandes destaques na mudança de “mindset” do país. 81% acreditam que devem ser cuidadosos com o dinheiro, levado em conta o momento da pandemia.

Essa também é uma mudança no paradigma do país, que em geral é conhecido pela pouca educação financeira e pelo alto nível de inadimplência. Em maio, a inadimplência das famílias atingiu seu ponto mais alto da série histórica, de acordo com a  Confederação Nacional do Comércio.

Tudo isso também deve levar a menos consumismo. De acordo com a pesquisa, 75% das pessoas está repensando seus hábitos de compra e sua necessidade de novas aquisições. Com isso, há uma mudança na hora de comprar. As pessoas analisam mais e ponderam, características que já eram percebidas em gerações de jovens, como Z (de nascidos entre 1997 e 2012).

Para 65%, a pandemia tem impedido novas compras e investimentos que, em outra situação, estariam sendo feitos. 

As influências da geração Z vão além de mais consciência na hora de comprar. Outro comportamento que tem surgido devido às dificuldades no orçamento é o reaproveitamento, prática comum dentro da geração mais nova. De acordo com a pesquisa, 41% das pessoas concordaram que estão reparando suas peças de moda mais do que antes. 

Esse cenário deve fortalecer novos modelos de negócios, como a chamada “uberização” da economia, ou economia compartilhada. Para conseguir vender, as marcas também vão precisar comunicar claramente o porquê de um produto custar determinado valor.

Em um nível menos concreto  que o das compras, as mudanças mostram uma valorização do bem estar e uma “desaceleração” do ritmo das nossas vida, com mudanças até no que é esperado das nossas casas. 

Desde o início da pandemia, o casual virou o novo normal, com o conforto das roupas ganhando relevância para as pessoas. Em outras palavras, o moletom ganhou da calça jeans. 

Esses valores, de acordo com a consultoria, também são perceptíveis na geração Z.

“Essa geração está presas em casas com os pais, está ‘educando os pais’. Tem uma diferença também de que essa geração é de mais diálogo, diferentemente da geração milennial, que era uma geração da ruptura e de confronto”, destaca a Tracy Francis, líder de Práticas de Varejo e Bens de Consumo da McKinsey na América Central e do Sul.

Quando perguntados quais são os fatores mais importantes na hora de comprar o produto de uma marca, as pessoas responderam que o conforto aparece em segundo lugar, atrás apenas do estilo da peça.

Com o isolamento social estimulado para evitar novas contaminações pelo vírus, as casas também ganharam novos significados e importância. Com o crescimento do interesse por fazer coisas dentro delas, atividades externas não devem “voltar com tudo”.

Mesmo em um cenário pós-pandemia, não são muitos os brasileiros que acreditam que seu interesse por sair para jantar vai aumentar. Cerca de 25% preveem que vão sair mais, mas 26% veem que seu interesse por comer em um restaurante deve até cair.

Isso, de acordo com a pesquisa, mostra que as lares começam a ganhar um papel mais central nas rotinas.
  
Entre os hábitos com mais força na rotina dentro da pandemia estão o consumo de conteúdo em vídeo, cozinhar e cuidar mais da casa.

Mudanças em como as pessoas enxergam os lares devem ter impactos até na arquitetura, de acordo com a pesquisa. O escritório deve começar a fazer parte da maioria das plantas e produtos como velas aromáticas e destinados a deixar a casa mais confortável vão ganhar força.

A pandemia também deve começar a gerar mudanças no urbanismo. Com as cidades grandes liderando os casos de infecções pelo coronavírus, um sentimento de valorizar uma vida calma também parece emergir. Na pandemia, as cidades médias têm ganhado apelo. 

No Brasil, 50% das pessoas escolheram passar seus dias na pandemia longe dos grandes centros, o que é facilitado pela implementação do trabalho à distância e da tecnologia. A capital paulista, por exemplo, com seus 12,1 milhões de habitantes, é o local com mais casos no país. Até esta quinta-feira, eram mais de 100 mil pessoas infectadas.

De acordo com Tracy Francis, esse movimento já acontecia nos Estados Unidos e agora pode ser visto no Brasil. Vidas mais “sustentáveis” e longe de grandes centros urbanos ganharam mais apelo.

A junção de fatores como o custo de vida mais barato, empregadores que permitem home-office e jornada flexível devem fazer com que os brasileiros se interessem mais pelas cidades médias. “Isso, no entanto, não vai acontecer de forma homegênea. O interior de São Paulo, por exemplo, tem uma infraestrutura que não tem outras regiões do país”, explica Fernanda Hoefel.

As possíveis implicações apontadas pela pesquisa são um fortalecimento das oportunidades de negócios no interior e queda do apelo de grandes centros comerciais, como shoppings.


Digitalização

Todas essas mudanças de comportamento e nas formas de comprar do brasileiro são atravessadas por um processo forte de digitalização dos serviços, com destaque para o internet banking. Muitas delas dependem de conexão à internet, como a consolidação do trabalho remoto.

Em algumas atividades, como assistir streaming, e utilização de internet para educação, o Brasil ganha da China e Estados Unidos, como mostra o gráfico abaixo.

Com mais tempo dentro de casa, o comércio eletrônico deve crescer mais, o que deverá levar as lojas físicas a repensar a experiência de compra.

Como implicação da aceleração digital, os investimentos devem ser fortes na experiência do usuário e em mídias digitais. Cerca de 80% das pessoas que usaram canais digitais pela primeira vez durante a pandemia ficaram satisfeitas.

“Se você começa a fazer online banking, compras, isso te muda como consumidor. No Brasil, tinha uma barreira de pagar o online. Havia a necessidade de ser bancarizado e a desconfiança. Essa noção de como pagar está dando ‘pulos’ e vem de ter uma progressão mais suave. Os consumidores estão se abrindo”, explica Tracy.

Seja na hora da compra ou no estilo de vida, a pandemia acelerou a digitalização da vida do brasileiro e criou novos príncipios. Agora, o consumo consciente, o planejamento financeiro e a valorização do bem-estar no dia a dia marcam os novos comportamentos.

Nesta quinta-feira, o país atingiu cerca 960 mil casos do novo coronavírus e 46 mil mortes, mas cidades como Rio de Janeiro e São Paulo já apostam na flexibilização da quarentena e na volta das pessoas às ruas e às lojas. Vale observar se elas estão mesmo diferentes na hora de consumir — e de viver.




Sob pressão, em 2021 Bolsonaro terá que apontar soluções para desemprego, recessão e pandemia

 Jorge Vasconcelos, Correio Braziliense

Tribuna da Internet

 

Bolsonaro terá de buscar alternativa com o fim do auxílio emergencial


O presidente Jair Bolsonaro completa a primeira metade do mandato cercado de indefinições e com desafios importantes pela frente. Um cenário de desemprego, recessão econômica e recrudescimento da pandemia da covid-19 tem pressionado o governo a apontar um caminho para a recuperação do país.

O Brasil deve terminar o ano registrando uma profunda queda do PIB (Produto Interno Bruto), estimada pelo Banco Central em 4,4%, e um índice de desemprego nas alturas — segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa ficou em 14,6% no terceiro trimestre, um recorde. Isso representa 14,1 milhões de pessoas sem trabalho.

AUXÍLIO EMERGENCIAL – 

A partir de janeiro de 2021, outro fenômeno que exigirá uma reação da equipe de Bolsonaro é a piora da situação econômica e social de uma parcela significativa da população, em razão do encerramento do auxílio emergencial, neste mês de dezembro. Milhões de brasileiros ficarão sem as condições mínimas para enfrentar os impactos da pandemia.

O pagamento do benefício, embora tenha ajudado a impulsionar a popularidade do presidente, tinha prazo de validade, devido ao alto custo para os cofres públicos. Até o momento, porém, a equipe econômica não encontrou uma fonte de recursos para ampliar o Bolsa Família e, dessa forma, incorporar os beneficiários do auxílio emergencial sem descumprir o teto de gastos.

Essa indefinição, além dos impactos que terá na população, deixa Bolsonaro sem uma marca social própria para embalar seu projeto de se reeleger em 2022. O auxílio emergencial foi decisivo para o aumento da popularidade do presidente, que se manteve mesmo depois de o governo reduzir o valor do pagamento mensal, de R$ 600 para R$ 300.

DEPENDÊNCIA –

 Pesquisa recente do DataFolha mostrou que, dos quase 68 milhões de pessoas que recebem o benefício, 36% o têm como única fonte de renda. Como ilustração dessa dependência, a redução do valor mensal obrigou muitos beneficiários a buscar outras fontes de sustento, na maioria das vezes, sem sucesso.

Segundo o cientista político André Pereira César, da Hold Assessoria Legislativa, é muito pouco provável que Bolsonaro continue desfrutando do apoio dos milhões de desalentados que deixarão de receber o auxílio emergencial.

“O presidente deseja a reeleição, e isso é legítimo. Com uma, relativamente boa, aprovação popular, essa é sua principal prioridade. Porém, como se sabe, essa avaliação positiva do presidente está umbilicalmente ligada ao auxílio emergencial. Trata-se de uma base frágil, que pode se romper facilmente”, alerta.

TETO DE GASTOS – 

As limitações impostas ao governo pelo teto de gastos também afastam a possibilidade da adoção de outras medidas importantes para aquecer a economia, como a realização de obras públicas e outros investimentos capazes de gerar emprego e renda.

Uma das saídas para esse imbróglio seria a aprovação da reforma administrativa, destinada a reduzir o custo do Estado. No entanto, dificuldades na relação entre o Executivo e o Congresso têm inviabilizado o aval a mudanças no funcionalismo. Pelos mesmos motivos, também está parada a reforma tributária, considerada fundamental para destravar a economia.

Bolsonaro, agora, está focado em garantir a vitória de aliados nas eleições para as presidências da Câmara e do Senado, marcadas para 1º de fevereiro. Delas depende a decisão do chefe do Executivo sobre o partido ao qual se filiará para construir uma base de apoio no Congresso e sustentar a campanha à reeleição. Ele tem conversado com algumas legendas e deve anunciar a escolha em março, conforme prometeu. PP e PTB, siglas do Centrão, bloco de sustentação do governo, estão entre as principais opções.

ARTHUR LIRA – 

O comandante do Planalto tenta emplacar como presidente da Câmara o deputado Arthur Lira (PP-AL), líder do Centrão. O desafio é vencer o deputado Baleia Rossi (MDB-SP), escolhido como o candidato de uma frente independente de partidos criada pelo atual presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Esse bloco reúne 11 legendas e um total de 281 deputados — mais da metade dos 513 que estão em cumprimento de mandato.

Fazer o sucessor de Maia é importante para o futuro político de Bolsonaro. O ocupante da cadeira de presidente da Câmara, além de definir as pautas de votações, é responsável por dar encaminhamento a pedidos de impeachment apresentados contra presidentes da República. O chefe do governo é alvo de mais de 50 requerimentos do tipo, grande parte relacionada à atuação dele na pandemia.

A disputa pelo comando da Câmara tem deixado Bolsonaro ainda mais dependente do apoio do Centrão, um bloco tradicionalmente conhecido por se aliar a governos em troca de cargos e outras compensações.

VACINA – 

 Outra pressão exercida sobre Bolsonaro diz respeito à demora do Brasil em adquirir vacinas contra a covid-19, enquanto vários países já começaram a imunizar suas populações. Frequentemente pautando sua atuação no governo a partir do projeto de reeleição, o chefe do Executivo tem colocado a disputa política acima da prioridade de combater a crise sanitária. Um dos exemplos é a briga com o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), em torno da vacina chinesa CoronaVac.

A atuação de Bolsonaro na pandemia, criticada dentro e fora do país, certamente será cobrada durante os debates eleitorais da campanha de 2022. Além de minimizar a gravidade da covid-19, o presidente costuma ironizar o assunto, a despeito dos milhares de mortes. Interessado em manter, com discursos como esse, o apoio dos bolsonaristas mais fiéis, que representam cerca de 20% da população, o chefe do governo se expõe ao risco de perder a confiança de um percentual muito maior de brasileiros.



POLÍTICA DO ATRASO: Brasil deve ter apenas 18% de conexões 5G até 2025

 Por Karina Souza

Exame.com

Dados da GSMA mostram que o país deve ter 40 milhões de conexões até a data – resultado é puxado principalmente por empresas

 (Wang Qiming/VCG via Getty Images/Getty Images)

País tem desafios para serem superados: 

atraso do leilão e custo de espectro são alguns deles 

A polêmica sobre o 5G esteve presente durante todo o ano de 2020: permitir ou não a entrada da Huawei nos leilões e estimativas sobre o quanto a banda larga ultrarrápida deve influenciar o PIB são apenas alguns dos questionamentos que surgiram. Apesar dos esclarecimentos pontuais, uma dúvida ainda permanece: afinal, quando o 5G deve se tornar popular no Brasil? Para a GSMA, associação do setor que representa os interesses de operadoras de redes móveis, isso não deve acontecer no Brasil até 2025.

De acordo com estudos conduzidos pela associação, por meio de sua filial de inteligência de mercado (a GSMA Intelligence), o Brasil deve ter cerca de 18% de seu volume de conexões operando em 5G até 2025 – o que deve somar algo em torno de 40 milhões de conexões no país.

Esse volume deve ser formado principalmente por empresas, direcionado especialmente à melhora de processos e à adoção de recursos como IoT em seu cotidiano. De acordo com Alejandro Adamowics, diretor de tecnologia e estratégia para a América Latina, trata-se de um comportamento similar ao dos demais países da região.

Globalmente, o volume de conexões 5G em 2025 deve ser de 1,8 bilhão, com a Ásia e Estados Unidos liderando essa corrida, com metade desse total e 48% desse volume, respectivamente. Em terceiro lugar, está a Europa (34%). A América Latina como um todo aparece somente em 7º lugar no ranking, com 7% desse volume.


É a conexão 5G. Veja o que está em jogo

 Celso Ming,

 O Estado de S.Paulo

Os trâmites para a adoção do sistema 5G seguem a passo de tartaruga no Brasil, mas alguns avanços aconteceram há algumas semanas

  Foto: Marcos Müller/Estadão

5G chega ao Brasil a passos de tartaruga 

Mesmo cercada de polêmica, vem aí a conexão 5G. Esse não é um assunto para nerds, como parece. Então, convém entender melhor do que se trata.

Essa nova tecnologia promete produzir importantes melhoras na qualidade da conexão de internet, que vão acelerar o processo de digitalização da sociedade. Os trâmites para adoção do sistema no Brasil seguem a passos de tartaruga, mas alguns avanços aconteceram há duas semanas.

Um deles é de natureza técnica. Foi a decisão da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) que reservou a faixa de 6 giga-hertz (GHz) para o uso exclusivo de conexões Wi-Fi. Essa faixa vai funcionar como auxiliar e  contribuir para que os celulares dos consumidores disponham da mesma velocidade obtida pelas operadoras de telefonia com a internet de banda larga, aquela contratada em casa. Hoje, as redes Wi-Fi podem manter conexões nas frequências de 2,4  e 5 GHz, que se encontram sobrecarregadas e tendem a prejudicar a qualidade de cobertura e de sinal pretendida com a nova geração de conexão móvel.

O 5G promete importantes vantagens para o consumidor: uma velocidade de conexão dez vezes maior do que a do 4G; continuidade de sinal e mais acesso, com diminuição das áreas de sombra (locais onde as redes apresentam ausência do sinal, como elevadores, túneis e áreas de difícil acesso); e diminuição do tempo de resposta da conexão (latência) entre um dispositivo e a rede.

A tecnologia já está em operação comercial em mais de 40 países, entre os quais Coreia do Sul, Estados Unidos,  China, Uruguai e África do Sul.

Por causa de suas características, espera-se que o 5G traga benefícios que favoreçam a economia digital e permitam avanços tecnológicos que intensifiquem a criação de cidades inteligentes por meio de soluções de IoT (Internet das Coisas, na sigla em inglês) e circulação de veículos autônomos. Para ter acesso aos avanços pretendidos pela nova geração de rede móvel, o Brasil ainda precisa fazer investimentos em infraestrutura e realizar o leilão das frequências que serão utilizadas no 5G – evento previsto para o fim do primeiro semestre de 2021.

São iniciativas que ficarão majoritariamente a cargo de capitais privados. Esses investimentos não terão capital de recuperação. Ou seja, as empresas do setor não poderão revender os equipamentos antigos para ajudar a cobrir os custos da substituição. E a incorporação do sistema no Brasil dependerá da demanda ou da oferta de serviços mais baratos, aponta Maurício Pimentel, professor e gerente de inovação da Empresa de Tecnologia da Informação e Comunicação do Município de São Paulo (Prodam).

Pimentel adverte que o poder público deve ter uma visão estratégica do desenvolvimento do 5G no Brasil  e se aliar à iniciativa privada de maneira a não restringir o acesso apenas aos centros urbanos, como acontece hoje com a conexão 4G. Nesse sentido, os avanços na economia digital a setem obtidos na agricultura poderão ajudar nesse processo de interiorização.

O outro tema vem sendo mais comentado na imprensa. Trata-se de superar a disputa geopolítica com os Estados Unidos no fornecimento de equipamentos pela China. O presidente Bolsonaro tem feito de tudo para fazer o jogo dos Estados Unidos e barrar o acesso do mercado brasileiro aos equipamentos da chinesa Huawei. O presidente Trump quer banir a Huawei sob alegação de que seus equipamentos embutem instrumentos de espionagem. A propósito, nada garante que equipamentos de outra procedência sejam isentos desse problema.

O Congresso Nacional criou recentemente grupos de trabalho para acompanhar as decisões do governo sobre o tema. O objetivo é evitar que decisões arbitrárias dificultem a competitividade nas telecomunicações, uma vez que a Huawei é responsável por parte das atuais redes móveis de 4G e 3G no Brasil. E há a questão de custos: a infraestrutura chinesa tende a ser mais barata.

Arthur Barrionuevo, ex-conselheiro do Cade e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), não vê sentido em banir a chinesa Huawei no fornecimento de equipamentos de 5G para o Brasil: “Ainda não se provou nada contra a empresa e, apesar de a discussão sobre o controle de dados e espionagem ser fator relevante, todo mercado, e não só a Huawei, deveria ser submetido aos mesmos crivos nessa questão”. / 

COM PABLO SANTANA

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA


Guedes tem pouco tempo para aprovar medidas e apresentar resultados

 Adriana Fernandes e Idiana Tomazelli, 

O Estado de S. Paulo

Lista é extensa vai do Orçamento às PECs emergencial e do pacto federativo, passando pelas reformas tributária e administrativa e as privatizações

Foto: Dida Sampaio/Estadão

 Enquanto Guedes identifica seus detratores, o Brasil padece 

com a nova onda da pandemia. 

BRASÍLIA | Cobrado por promessas não cumpridas ao longo dos primeiros dois anos de governo Bolsonaro, o ministro da Economia, Paulo Guedes, já avisou que não prometerá mais nada, mas começa 2021 com uma responsabilidade: a de convencer o Congresso a aprovar reformas estruturais antes de as eleições de 2022 contaminarem de vez o ambiente político.

O tempo não é exatamente um aliado com que o ministro possa contar. O governo terá um curto prazo, do início de fevereiro até o final de julho, para aprovar medidas e apresentar resultados. No limite, a ausência de avanços concretos até o fim do terceiro trimestre de 2021 pode esgotar a paciência e azedar de vez a relação dos investidores com o Brasil.

A lista é extensa para um tempo tão exíguo. A equipe econômica precisará primeiro desatar os nós do Orçamento de 2021, que ficou para ser votado a partir de fevereiro, após a eleição para as mesas do Congresso. A necessidade de cortar despesas com obras e custeio da máquina para compensar um reajuste maior do salário mínimo, na esteira da aceleração da inflação, promete testar não só a fidelidade da base governista recém-arregimentada por Bolsonaro, em troca de maior participação do Centrão no governo, mas também a capacidade da equipe econômica de defender o teto de gastos, regra que limita o avanço das despesas à inflação.

Há ainda as PECs emergencial e do pacto federativo, também adiadas numa tentativa de estancar o processo de intensa desidratação das propostas, que ficariam resumidas a uma parcela dos gatilhos de contenção de despesas e sem as promessas de desindexação de gastos (revogação de reajustes obrigatórios de determinadas despesas) e desvinculação (retirada dos “carimbos” sobre certos recursos do Orçamento).

Completam a lista as reformas tributária (simplificação na cobrança de impostos e unificação dos tributos) e administrativa (reestruturação do RH do Estado, com mudanças na forma como servidores são contratados, promovidos e demitidos) e as privatizações (venda de estatais) – as últimas foram um dos principais combustíveis para a frustração confessa de Guedes com o andamento de sua agenda liberal. “Esperava avançar com mais ímpeto? Sim”, admitiu em entrevista coletiva para um balanço de fim de ano.

Chances

Lucas Aragão, sócio da consultoria política Arko Advice, tem nas mãos uma lista dos projetos com mais chances de aprovação no primeiro semestre, como a autonomia formal do Banco Central, a PEC emergencial e os novos marcos legais do gás e das ferrovias. Ele inclui também a votação da reforma administrativa para o final do primeiro semestre e início do segundo. Já a reforma tributária, ele avalia que ainda é cedo para discussão. “Depende de um consenso grande”, diz. 

Aragão, que acompanha o dia a dia das negociações políticas no Congresso, faz a ressalva de que as variáveis para a aprovação dos projetos podem mudar muito a depender do nível de articulação política do próximo presidente da Câmara e de polêmicas novas ou antigas que possam surgir.

O próprio ministro da Economia já admitiu que, se todos os ministros pressionarem juntos por mais gastos, a “represa” que é a Economia pode se romper. O mesmo vale para o Congresso, cuja pauta é definida pelos presidentes do Senado e da Câmara. Na equipe econômica, a preocupação maior é com as medidas de corte de gastos e a pressão política pela prorrogação dos estímulos dados na pandemia. Guedes prometeu na semana passada, sem detalhar, que vai socorrer os invisíveis à frente.

“O cenário pode abrir uma janela de oportunidade no primeiro semestre do ano que vem para avançar na PEC emergencial, importante para blindar o arcabouço fiscal em 2022, ano eleitoral”, diz o economista-chefe da XP, Caio Megale, que prevê pressão fortes por gastos no ano que vem, principalmente no segundo semestre.

Contaminação

Além disso, uma importante liderança governista reconhece que as reformas precisam ser votadas até o final de julho, antes do recesso do meio do ano, para evitar contaminação muito grande pelas discussões eleitorais de 2022.

O cientista político Luis Felipe D’Ávila, fundador do Centro de Liderança Pública (CLP), afirma que será crucial para os candidatos às mesas do Congresso, que ficarão nesse posto até 31 de janeiro de 2023, deixar claro seu comprometimento com as reformas: “O primeiro semestre é o momento para aprovar as reformas. Se entrar alguém descomprometido com as reformas, é um desastre para o País. É essencial para saber se reformas vão andar ou parar.”

Para D’Ávila, o governo deveria abrir diálogo com todos os candidatos para tentar, desde já, acertar uma pauta mínima de votações, não só das reformas, mas também de projetos de lei. Ele cita a proposta que limita os “penduricalhos” nos salários de servidores e três textos que tratam de desmatamento, licenciamento ambiental e regularização fundiária, que são mais fáceis de aprovar do que uma mudança constitucional e já dariam uma sinalização importante a investidores.