segunda-feira, março 01, 2021

Moleque ignorante e irresponsável.

  Comentando A Noticia: 

 


Com múltiplas declarações estúpidas, Bolsonaro fez sua escolha, entre a vida e o emprego. Para ele, parece insignificante a estatística desastrosa que a pandemia provocou até aqui no Brasil. São mais de 250 mil mortes e maias de 10 milhões de infectados. Dentre os que conseguiram se recuperar, da infecção não é pequeno o número dos que ficaram  com sequelas variadas provocadas pelo vírus.

 Além de negar a gravidade da epidemia, sabotou seu combate o quanto pode. E agora lava as mãos em relação à obrigação do governo federal assistir sua população, principalmente os mais vulneráveis. E esta assistência deveria se dar no plano sanitário colaborando para o aumento no número de leitos disponíveis, na urgência de aquisição de insumos para tratamento dos infectados e na prioridade máxima para adquirir o máximo de vacinas que pudesse para que o plano de imunização não sofresse interrupção. 

Como o isolamento, uso de máscaras e álcool em gel são os meios ao nosso alcance para evitar a propagação da pandemia, se isto provocar desemprego como ocorre, compete ao governo federal estender auxílios financeiros o máximo que puder, seja para pessoas ou para empresas. Só que Bolsonaro se omite covarde e criminosamente de cumprir sua obrigação de governar com responsabilidade, inteligência, humanidade e dedicação para que o Brasil suporte o quanto puder e consiga atravessar esta crise sanitária com o menor custo econômico e de vidas possível. 

Gosta de bancar o machão, o valentão contra a imprensa e adversários políticos. Mas é um negligente completo por faltar-lhe qualificação, senso de responsabilidade e a coragem de um verdadeiro estadista, coisa que nunca conseguirá se tornar por lhe faltar todos os atributos que se exige de genuíno líder. Consegue se impor pelo cargo que ocupa e muito, muito pelos berros, desrespeito e asneiras que produz. Suas armas prediletas são a desinformação, a ignorância, o mau caráter e a mentira. Se estivesse realmente preocupado com o emprego/desemprego Bolsonaro não demoraria e nem enrolaria tanto para conceder extensão do auxílio. 

Começa que pelo fato de negar a realidade e afrontar a ciência diuturnamente, ele colabora diretamente para o aumento do contágio o que implicará em maior atraso para a retomada das atividades econômicas. Com esta demora, acaba o próprio presidente colaborando para o aumento do desemprego. Como ainda se nega em conceder um plano de emergência  para pequenas e médias empresas, estas se obrigam ou em fechar definitivamente as portas, ou em reduzir suas operações, acabando por desempregar  alguns de seus funcionários. Nunca é demais lembrar que, a interrupção do programa emergencial, devolveu à pobreza e miséria mais de 40 milhões de brasileiros.

A economia brasileira  em 2020 só não sofreu queda maior graças ao consumo incentivado pelo auxilio emergencial. Se o programa não tivesse sofrido interrupção, o país não estaria aumentando suas dificuldades. Havendo consumo, o país não para e a economia não fica estagnada. Como se vê, a fala do presidente não passa de pura demagogia, hipocrisia e cretinice.

É, simplesmente, constrangedor ver um presidente ser tão negligente, tão negacionista que, a esta altura e após tantas provas e descobertas da ciência, Bolsonaro está atestando para si mesmo o tamanho de uma ignorância descomunal. Ao criticar as ferramentas capazes de evitar que a tragédia se torne pior, como o uso da máscara, o isolamento social, o presidente se comporta como um moleque delinquente. 

Veja-se o comportamento deste governo em relação ao programa de vacinação. Completo desastre. Poderíamos estar vacinando muitos milhares a mais de brasileiros diariamente, mas estamos travados pelas compras diminutas feitas por Bolsonaro, e ainda assim de última hora. O presidente Biden, dos Estados Unidos, mostrou como se faz um governo devotado ao bem estar de sua população: Em apenas 34 dias, já foram vacinados 54 milhões. Enquanto isso, no Brasil, fica-se discutindo irrelevâncias contratuais com a Pfizer que tenta vender ao país, desde agosto de 2020, cerca de 70 milhões de doses. E os mortos vão se acumulando em números cada dia mais crescentes,  

Toda esta irresponsabilidade ainda vai nos cobrar um alto preço junto a comunidade mundial.  Hoje, já nos tornamos párias, isolando-nos e nos distanciando cada vez mais do mundo civilizado. Bolsonaro tem lá em sua cabeça aloprada, a ideia estúpida de que o país não precisa de ninguém. Segundo ele, podemos andar com as próprias pernas, temos riqueza suficiente para bancar nosso crescimento e que somos habitados por uma imensa maioria de letrados e doutores. Vimos nesta edição, estudo que aponta nosso imenso atraso na educação básica. E dependemos muito do mercado chinês para o crescimento de nossas exportações. Mas não só da China, a União Europeia também se tornou um parceiro indispensável, assim como a Argentina.   E estes são justamente nossos parceiros mais valiosos e contra os quais Bolsonaro torce seu nariz.

Só esperamos que o povo brasileiro tenha aprendido a dura lição com a reeleição de Dilma Rousseff, a Medíocre: Gente da laia de Bolsonaro, ignorante, irresponsável, desqualificada, negligente e mau caráter jamais devem receber uma segunda chance. Eles conseguem ser piores no segundo mandato do que foram no primeiro. E a herança que deixam é bem mais do que maldita. 

Prioridades tortas – 

Para o Legislativo brasileiro votar às pressas a independência do Banco Central , a lei que facilita a aquisição  de vacinas e a Pec da Impunidade é bem mais urgente do que aprovar o auxílio emergencial. Para eles votar leis que os livrem da cadeia em caso de cometerem  crimes previstos em lei, é mais urgente e prioritário do que mitigar a fome de mais de 60 milhões de compatriotas.

Um Presidente fora do prumo – 

Na semana que passou, quando foi questionado sobre a falta de leitos para atendimento ao acometidos pela covid-19, Bolsonaro declarou: “A saúde sempre teve problemas”. Nem diga!

Pois é,  mas foi preciso que a ministra Rosa Weber, do STF,  determinasse ao Ministério da Saúde  que a União retomasse  o custeio de UTIs (unidades de tratamento intensivo) para pacientes de Covid-19 nos estados da Bahia, do Maranhão e de São Paulo. Os governadores dos três estados recorreram ao Supremo para a retomada do repasse, suspenso gradativamente em 2021 pelo governo federal.

Como se vê, o problema da saúde no Brasil é a saúde mental de alguns governantes...

Bolsa de fome -

 Sem reajuste no Bolsa Família, inflação corrói poder de compra de beneficiários. Valor da transferência não é reajustado desde o governo Michel Temer. Alta dos alimentos de 15,53% em 2020 afetou os mais pobres. 

Isto significa que não apenas a miséria vai sendo estendida ano a ano, como também Bolsonaro, com mais de dois anos de mandato, sequer repôs o valor de compra sugado pela inflação. 

É o governo brasileiro aumentando ainda mais, pela inércia e descaso, a desigualdade social no Brasil que já é imensa. Mas para todos os erros que ele tem cometido, prefere culpar os outros. Tá faltando espelho em casa, Bolsavírus?



Um ano de pandemia, mais de dois de desgoverno

 Rolf Kuntz, 

O Estado de S.Paulo

Covid já matou mais de 250 mil e o risco permanece num país emperrado e sem rumo

O Brasil completa um ano de pandemia e dois anos e dois meses de desgoverno, com a economia emperrada, o maior desemprego em oito anos, mais de 250 mil mortos pela covid-19 e um processo de vacinação confuso. Mas confusão é a regra. O ministro da Saúde acaba de mandar para o Amapá vacinas destinadas ao Amazonas e vice-versa. O presidente da República anunciou a demissão do presidente da Petrobrás, depois de ameaçá-lo por haver ignorado seus aliados caminhoneiros. Fevereiro termina com hospitais lotados na maior parte das capitais e recordes de mortes pelo coronavírus. Nos últimos dias houve de novo aglomeração no Palácio do Planalto. O setor público está superendividado e seus financiadores mostram-se nervosos. Há alguma perspectiva de melhora a partir desse balanço?

Apesar de lenta e mal planejada, a vacinação é o fato mais promissor, neste momento. Favorecida pela negligência federal e pela inconsequência de irresponsáveis, a pandemia continuará matando quase sem freio por muito tempo. Mas o avanço da imunização poderá trazer alguma segurança para os negócios. A normalização, no entanto, será o retorno à submediocridade anterior à pandemia. A economia poderá crescer 3% ou pouco mais em 2021, segundo as projeções do mercado. Depois, se nada atrapalhar, ficará limitada a um potencial de crescimento em torno de 2,5% ao ano. Mas nada disso está assegurado.

Março vai começar com o governo central ainda sem Orçamento aprovado. O projeto continua no Congresso, à espera de votação, mas esse nem é o maior problema. A meta fiscal deste ano é um déficit primário limitado a R$ 247,1 bilhões. Nos 12 meses terminados em janeiro o resultado foi um buraco de R$ 776,44 bilhões. As condições econômicas e sanitárias deste ano devem permitir, espera-se, um saldo muito melhor, mas a evolução da epidemia continua incerta, assim como o ritmo da atividade.

O ministro da Saúde virou tema de piadas, há muito tempo, e a sustentação da retomada vai depender, em primeiro lugar, de um consumo mais vigoroso. Para isso – e para evitar uma catástrofe social – será preciso ressuscitar, embora em escala menor, a ajuda emergencial encerrada em dezembro. Isso custará uns R$ 30 bilhões, talvez mais, e o governo terá de pensar numa contrapartida, de preferência algum corte de gasto.

Na sexta-feira essa contrapartida era ainda incerta. Um dia antes o secretário do Tesouro, Bruno Funchal, havia advertido: sem a compensação, poderá diminuir a confiança no compromisso de recuperação fiscal, com piora da avaliação de risco, aumento dos juros e novos entraves à recuperação da economia e do emprego.

Credibilidade ganha importância extraordinária quando se tem de administrar um débito enorme. Em janeiro, a dívida bruta do governo geral – da União, dos Estados e dos municípios, somados ao INSS – chegou a R$ 6,67 trilhões, 89,7% do produto interno bruto (PIB) estimado pelo Banco Central (BC). Nos países emergentes e de renda média, a relação dívida/PIB deve andar em torno de 62%, de acordo com o Fundo Monetário Internacional. No Brasil, o governo central é responsável pela maior parte do endividamento e isso torna crucialmente importante a sua confiabilidade.

Mas falta saber qual pode ser a contrapartida. A PEC emergencial em exame no Senado autoriza a retomada do auxílio sem a limitação do teto de gastos. A compensação poderia vir de uma contenção das despesas com pessoal e/ou do fim da vinculação constitucional de verbas para educação e saúde. Houve resistência, entre senadores, às duas soluções e o relator desistiu da segunda.

A desvinculação é debatida há mais de 20 anos, como forma de conferir maior flexibilidade ao Orçamento. Mas é preciso muito cuidado ao tratar de educação e saúde. A cautela é ainda mais necessária quando o governo tem uma folha corrida tão desastrosa nas duas áreas. Não houve, desde janeiro de 2019, um ministro da Educação digno desse título e deve ser muito difícil encontrar, na História republicana, um ministro da Saúde tão inepto quanto Eduardo Pazuello. Mas o responsável principal pelos desastres nos dois setores é mesmo o presidente Jair Bolsonaro.

Até o caminho da retomada neste ano, portanto, continua enevoado. O ministro da Economia, submetido ao regime de humilhações e afagos por seu chefe, foi incapaz, até agora, de apontar soluções para a sustentação do crescimento e de manejar os instrumentos necessários para combinar a reanimação econômica e o ajuste das contas públicas.

Enquanto o governo derrapa, o mercado financeiro oscila, o dólar continua muito mais caro do que seria possível se houvesse menos incerteza e o câmbio segue pressionando a inflação. Os preços por atacado, com alta de 3,28% em fevereiro e 40,11% em 12 meses, segundo o IGPM-FGV, permanecem como um sinal de alerta para o perigo inflacionário. Se o risco se agravar, o BC poderá ser forçado a elevar a taxa básica de juros, o único estímulo ainda mantido por um órgão federal. Anarquistas podem ter alguma razão, mas de vez em quando um pouco de governo é indispensável.


JORNALISTA


Bolsonaro, o rei do asfalto

 Philipp Lichterbeck

Deutsche Welle

Bolsonaro quebrou suas promessas de campanha. O que sobra a seu movimento então, além de cloroquina, fake news e armas? O asfalto. O bolsonarismo está se tornando um culto de adoradores da construção de estradas.

  

"O bolsonarismo está se tornando um culto de estradas"

Viajei pelo Brasil nas últimas semanas. Estive no Rio Grande do Sul e em Mato Grosso, mas também em lugares exóticos do Rio, como Gávea e Leblon, redutos dos muito ricos. Durante as viagens acabou sendo inevitável encontrar apoiadores do presidente Jair Bolsonaro. Fiz um grande esforço para não iniciar discussões extenuantes com eles ou até brigas. Queria escutá-los, aprender algo com eles. Porque ainda é um mistério para mim como os brasileiros puderam votar em um homem que disse que 30 mil deles deveriam ser mortos.

Nesses encontros, uma coisa continuou chamando minha atenção. Um fenômeno que eu também já havia observado nos grupos ultraconservadores de Whatsapp que eu acompanho por interesse profissional (e sociológico).

O bolsonarismo está se tornando um culto de estradas. Sempre que perguntei aos bolsonaristas o que o governo fez nos últimos dois anos, recebi uma resposta: construiu estradas! Disseram que ele consertou, completou ou construiu essa ou aquela BR. E, todos pareciam ter certeza, sem corrupção nenhuma.

Nos grupos bolsonaristas de Whatsapp, fotos de projetos de construção de estradas são frequentemente compartilhadas (claro, quando não há assuntos mais urgentes que são suprimidos pela grande mídia e que todos os membros do grupo devem compartilhar em massa – por exemplo, que os cristãos na Venezuela estão sendo forçados a comer Bíblias).

A inspiração para o fã-clube das estradas vem do mais alto nível. O presidente frequentemente compartilha nas mídias sociais fotos do início ou da conclusão de qualquer projeto de infraestrutura regional.

De fato, não há nada de errado com estradas boas e seguras (embora novas linhas de trem fossem preferíveis). Mas também é verdade que elas são a arma polivalente e tradicional de governos populistas em todo o mundo. Porque construir uma estrada é mais rápido e fácil do que construir um bom sistema de educação ou saúde. E traz um efeito imediato. Ao fim e ao cabo, todo mundo prefere dirigir em bom asfalto do que constantemente batendo em buracos.

Também não deve ser esquecido que estradas, como todos os grandes projetos de infraestrutura, são uma ótima maneira de desviar dinheiro público para bolsos privados da forma mais discreta possível.

Seja como for, a coisa mais surpreendente sobre o tema vai além. Porque eu não me lembro de Bolsonaro ter concorrido a presidente como candidato das estradas. Lembro que ele falou em erradicar a corrupção no país e fortalecer a Operação Lava Jato. Dizia que queria cuidar da segurança pública. Também prometeu privatizar as rígidas empresas estatais, bem como soltar algumas das amarras de uma burocracia kafkiana que trava a economia. (Houve um quarto ponto – Deus, família e pátria – mas foi apenas uma brincadeira de um homem que aprova a tortura, é casado pela terceira vez e entende por pátria que, como presidente, você não precisa dizer uma palavra de empatia sobre a morte de 250 mil compatriotas pelo coronavírus).

É clara a razão pela qual a construção de estradas gera tanta euforia entre os bolsonaristas. Não há mais nada. O herói deles quebrou as suas promessas. A luta pela corrupção efetivamente terminou – possivelmente porque é bem provável que pelo menos um de seus filhos seja corrupto. A péssima situação da segurança pública no Brasil não mudou e vai piorar com os decretos de Bolsonaro para simplificar a posse de armas. E a promessa de liberalização da economia foi reduzida ao absurdo o mais tardar com a intervenção de Bolsonaro na Petrobras.

Então o que resta para este movimento, além da hidroxicloroquina, das fake news e das armas? O glorioso asfalto.

Embora eu deteste estragar a festa, é necessário mencionar um estudo feito pela plataforma de verificação de informações "Aos Fatos". Ela descobriu em 2019 que 54% das ações celebradas por Bolsonaro no Twitter são herança de governos anteriores. No ano passado, Bolsonaro inaugurou orgulhosamente a conclusão da BR-163. Mas a verdade é que entre 2007 e 2014 foram investidos R$ 1,5 bilhão pelos governos do PT. Em 2018 ao redor de 75% das obras já haviam sido concluídas e restavam apenas 51 quilômetros. Foi isso que Bolsonaro inaugurou. Parabéns!


Todo dia ele faz tudo sempre igual.

 Carlos Brickmann


Já teve o chilique, já botou mais um fardado dentro do Governo, já pisou no Paulo Guedes mais uma vez (e nenhum dos dois se cansa!), já prometeu aos caminhoneiros que agora vai, que não precisam fazer greve – mas, por via das dúvidas, já fizeram a greve em Belo Horizonte, tumultuando a vida da cidade. Agora, é aquela questão matemática: pegue o preço da gasolina e do Diesel antes dessa confusão toda, some o chilique, some a promoção do fardado, multiplique pela humilhação do Superministro da Economia, e a conta vai dar exatamente o preço da gasolina e do Diesel antes da confusão.

Por que a vida dos caminhoneiros está tão difícil? Comecemos lembrando que Dilma, para agradar a categoria, financiou caminhões a juros de BNDES, estimulando os autônomos a trocar seus veículos. Perfeito: só que, embora baixos, os juros têm de ser pagos. Com mais caminhões do que o necessário, a tendência dos fretes é cair. O presidente já é Temer: para evitar uma greve, fixou um piso para o frete. Temer sabia, claro, que isso é impossível: se um cliente vai pagar cem e um caminhoneiro sem carga se oferece por 80, quem irá atrapalhar os dois? Mas Temer sabia também que seu mandato estava no fim, e o problema ficaria para o presidente seguinte. E Bolsonaro, para evitar uma greve, teve então seu chilique, disse que ia fazer e acontecer.

Mas não vai, não: as raízes desta crise estão fora de seu alcance. Não tem como reduzir o número de caminhões, nem de lotá-los. É jogo jogado.

 O Real e o real

Mas por que Diesel e gasolina subiram tanto? Por dois motivos: primeiro, a desvalorização do Real – que vem se enfraquecendo dramaticamente. Das 30 moedas mais negociadas do mundo, o Real foi a que mais valor perdeu em 2020 – já no Governo Bolsonaro. Foram 28%. Lembra do dólar a R$ 4? Pois hoje oscila perto de R$ 5,50. São mais reais para pagar o mesmo barril de petróleo. O barril de petróleo também já não é o mesmo: faz frio nos EUA, o que aumenta muito o uso de combustíveis para aquecimento. O preço do fim de 2020 oscilava perto de US$ 50. Hoje, oscila em torno de US$ 65.

Ponha 30% no preço do petróleo, some mais uns 30% de desvalorização do Real, e tente manter hoje o preço do Diesel e da gasolina em 2020, já alto. Bolsonaro pode chilicar à vontade que não vai mudar a temperatura dos EUA. A desvalorização do Real é água passada, diga Guedes o que disser, tente Bolsonaro baixar o preço quanto quiser. Dilma fez isso e não deu certo.

 Hotel da sucessão

Só quem conhece a história da TV brasileira recorda este programa de sucesso de 1955, na época da eleição que levou Juscelino Kubitschek ao poder. No hotel se hospedavam os personagens da campanha. Lá circulava não muito discretamente um objeto misterioso que convencia os políticos a mudar de opinião.

 Economizar, jamais

A coluna Diário do Poder, de Cláudio Humberto, faz uma comparação impressionante entre Brasil e Estados Unidos. O Palácio do Planalto, sede do Governo brasileiro, tem 4.600 funcionários; a Casa Branca, sede do Governo americano, tem 460 funcionários. O presidente americano mora e trabalha na Casa Branca. O presidente brasileiro trabalha no Palácio do Planalto, mora no Palácio da Alvorada e dispõe da Granja do Torto; tem também à disposição o Palácio Rio Negro, em Petrópolis.

E a mania de palácios à vontade não é exclusiva dos presidentes, seja qual for seu partido: o governador de São Paulo mora e trabalha no Palácio dos Bandeirantes, tem um palácio no Horto Florestal, em São Paulo, tem outro palácio em Campos do Jordão. Para que? Para nada.

 The British way

O primeiro-ministro britânico mora e trabalha numa casa em Downing Street, 10. A casa foi um presente do rei George 2º a seu principal ministro, Robert Walpole, por bons serviços prestados. Walpole aceitou o presente, desde que não fosse algo pessoal: a casa seria utilizada por quem quer que ocupasse o cargo.

 Curiosidade

As notas Hotel da Sucessão; Economizar, Jamais; e The British Way foram publicadas originalmente em 2013, há quase oito anos. O mundo gira e o Brasil fica parado. O que acontece de novo é ainda pior: o Governo fica sossegado enquanto 250 mil pessoas morrem de Covid, mas se movimenta para, usando incontáveis e sólidos argumentos, ganhar o apoio do Centrão. Corte de despesas? Houve algum em qualquer dos três Poderes, excetuando os inúmeros cortes das 700 toneladas de picanha para a turma lá de cima?

 O esperto

Daniel Silveira só agora está descobrindo que vai pagar sozinho por sua cafajestada. Está preso, Bolsonaro está quieto, seus colegas de Câmara estão preparando uma lei pela qual deputado não possa ir para a cadeia. Só ele.

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Bolsonaro e o Brasil invertebrado

 Marco Antonio Villa

Revista ISTOÉ

Jair Bolsonaro é produto de múltiplos fatores. Passa pelo descrédito da política tradicional, pelos escândalos do mensalão e do petrolão, pelo sistema político, o voto proporcional, também pelo fracasso do processo de renovação das lideranças políticas, pela tibieza da sociedade civil, por um país invertebrado. Ao longo da história republicana tivemos apenas alguns momentos nos quais a política conseguiu ser o fio condutor das transformações econômicas e sociais. De resto, tudo foi seguindo como se a inércia caracterizasse um país sem alma, em que tudo era deixado para o dia seguinte, o mês seguinte, o ano seguinte. A pasmaceira foi, em mais de um século, eventualmente interrompida por breves momentos de lucidez, que de tão breves, não conseguiram o enraizamento necessário para se transformar em rupturas.

E assim o Brasil percorreu o século passado e adentramos o século XXI sem que concluíssemos as tarefas necessárias. Aqui, o novo — o novo de verdade — pouco após o seu nascimento logo é cooptado pelo velho. Isto acabou criando um país que combina diferentes momentos históricos na mesma conjuntura. Ou seja, o movimento da história se move de forma diferenciada e em sentidos opostos. Sendo assim não há um sentido de unidade, pois são processos tão díspares que não permitem estabelecer uma relação entre eles. Os múltiplos brasis só convivem no mesmo espaço territorial, mas são tão distintos que a cada dia vão se afastando transformando o país em um imenso arquipélago quase que autônomo.

O que poderia ser sinônimo de vitalidade é, na verdade, a mais pura tradução do caos político, econômico, sanitário e social que vivemos.

Os múltiplos brasis só convivem no mesmo espaço territorial, 
mas são tão distintos que o País parece um imenso arquipélago

Aldir Blanc escreveu, certa vez, que o Brazil não conhece o Brasil. Tinha razão. Mas além do Brazil (com “z” mesmo), daqueles que como brasileiros vivem como se fossem exilados, longe da “sua” terra, os Estados Unidos, temos a multiplicidade de brasis que não conseguem estabelecer um laço de união real, não a união formal. Inexiste o sentimento do coletivo, de que fazemos parte de um mesmo país, que temos — gostemos ou não — um destino nacional.

Jair Bolsonaro não é um acidente da política. Não! É produto da nossa história, destes múltiplos brasis que não conversam entre si, que não conseguem concertar um sólido laço de cidadania, de pertencimento. O primeiro passo na construção do Brasil é resolver constitucionalmente um obstáculo: enfrentar e vencer Jair Bolsonaro e seus extremistas. É apenas o primeiro passo de uma longa jornada.


Tome que a culpa é sua

 Rosângela Bittar, 

O Estado de S.Paulo

Bolsonaro só admite a seu lado colaboradores que vão além da subordinação formal

  Foto: Dida Sampaio/Estadão

Jair Bolsonaro, presidente da República, 

e Paulo Guedes, ministro da Economia 

Sempre se disse que só apelando a Freud era possível ter uma explicação sobre quem é Jair Bolsonaro. Principalmente a personalidade no exercício do poder. Traço marcante: só admite a permanência a seu lado de colaboradores que vão além da subordinação formal, curvando-se, invertebrados, aos seus caprichos primários. Ou amortecendo seus triplos carpados. 

Quem diria em que se transformou o ícone da campanha eleitoral, hoje exposto à condição de símbolo das frustrações com que o governo desafia seus eleitores. O ministro da Economia, Paulo Guedes, tantas vezes já esteve na situação em que se encontra agora, a do tanto faz se sai, tanto faz se fica, que perdeu todos os traços da imagem projetada um dia. 

As justificativas mais constantes são imprecisas: ora ele permanece porque interessa ao mercado financeiro ter um dos seus dentro da engrenagem; ora porque o poder o emociona. Talvez tenham razão os que avaliam o permanente dia do fico com a explicação de que o ministro aprecia um bom sapo. 

Na verdade, a Bolsonaro interessa que fique. Sem Guedes, seria dele a culpa pelo fracasso do plano liberal e mais uma penca de problemas econômicos aprofundados pela crise sanitária da pandemia. Além de não ter, à mão, outro especialista em montagem de gambiarras para conter os efeitos de suas diatribes para destruir reputações e estatais em processo de reconstrução. 

O caso de Eduardo Pazuello é ainda mais cruel. Todo o desastre que provocou se deveu à execução de ordens expressas de Bolsonaro. Da imposição da cloroquina à omissão na compra de vacinas, incluindo as mortes por falta de oxigênio. O que fez ou não fez se deve ao presidente, ele já confessou que só cumpre ordens. Como a gestão do governo Bolsonaro na pandemia é a pior do mundo, o ministro, seu agente, é o pior do mundo. Mas fica no cargo segurando a culpa e os processos judiciais. 

Uns fazem questão de assumir e ficam com prazer, como é o caso do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. Ele desperdiça o título de chanceler sem o menor constrangimento. 

Outros, como Ricardo Salles, do Meio Ambiente, são casos de mimetismo explícito. Tornou-se um campeão recordista do negativismo ambiental. 

Os governadores e prefeitos, que estão no front da crise generalizada e não podem contemporizar com o morticínio, sofrem a inexistência de uma liderança federal, mas sentem a presença da culpa transferida. 

O descalabro orçamentário é culpa do Congresso. Bem como a inexistência de reformas estruturais. Derrubar a CPI da pandemia, barrar a CPI da rede de mentiras, tirar as verbas carimbadas da Educação e da Saúde (onde estiver, pode-se imaginar o desapontamento do velho senador capixaba João Calmon) figuram entre os mais graves atentados do bolsonarismo à sociedade por intermédio do Parlamento. 

O ex-ministro da Educação Abraham Weintraub é pioneiro de ataques ao STF e vanguarda da surpreendente escalada antidemocrática do governo Bolsonaro. O modelo que a crônica internacional tipifica como terrorismo político. Tipos como este agridem a Constituição em nome da qual desfrutam o poder, sendo desproporcional a existência de apenas um preso por tais delitos. Ele não age sozinho. 

Os ex-ministros Sérgio Moro (Justiça), Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich (Saúde) deixaram os cargos quando perceberam o truque. Demitindo-se, livraram-se da culpa pela interferência política na Polícia Federal e pelas 250 mil mortes de brasileiros por infecção do coronavírus. 

A patologia freudiana em Bolsonaro leva a marca dupla do desprezo pela vida e de violentas fixações. Para quem irá a culpa pelo crescimento do crime com a irresponsável legislação armamentista? Quatro sugestões de resposta: dirigentes de clubes de tiros, fabricantes de revólveres, milícias e filhos. Jair Bolsonaro fica também fora desta. 

*COLUNISTA DO ‘ESTADÃO’ E ANALISTA DE ASSUNTOS POLÍTICOS


Cemitério nacional

 Dorrit Harazim

O Globo

Em seu célebre discurso de aceitação do Prêmio Nobel da Paz, em 1954, Albert Schweitzer achou necessário despertar o mundo das ilusões do pós-guerra. “Todos nós devemos nos dar conta de que somos culpados de desumanidade. Todos nós”, informou à nobilíssima plateia o humanista, médico e teólogo cuja reverência pela vida era absoluta. Alguém, hoje, lhe daria ouvidos ou aceitaria o convite à reflexão? Difícil. Estamos ao mesmo tempo paralisados e ocupados demais em não morrer de Covid-19. Quanto aos que ostentam como honraria seu desdém pela mortandade alheia, uma não menos célebre sacada de Voltaire cabe melhor: “Quem consegue convencê-lo a acreditar em absurdos é capaz de fazê-lo cometer atrocidades”.

A tragédia do Brasil atual extrapola até mesmo a máxima voltairiana: temos na Presidência alguém que não apenas acredita (ou finge acreditar) em absurdos, como ele próprio comete atrocidades em série. Seus áulicos contribuem ao cometer outros tantos, criam terreno fértil para a irresponsabilidade coletiva nacional, e o mundo digital explode num ódio de raiz. “Estão vacinando macaco antes de vacinar gente”, dizia a mensagem recebida pela primeira brasileira a tomar a vacina, Mônica Calazans. Entrevistada no “Globo Repórter” desta semana, a enfermeira negra contou que as mensagens de ódio foram múltiplas.

Impenetrável à razão e à civilização, essa turma acaba afetando os demais. Como resultado, estamos num país-cemitério que não dá conta de seus cidadãos ainda vivos e já enterrou mais de 252 mil contaminados pelo vírus. Talvez a causa mortis devesse ser atestada por inteiro: Covid-19 + falta de vacina + colapso do valente SUS + negacionismo oficial + roubalheira geral + inércia do Congresso + inadimplência moral +... A lista seria por demais extensa, se nominal. Na verdade, a desqualificação do general e titular da Saúde, Eduardo Pazuello, o torna quase inimputável, de tão aberrante. A seu abissal despreparo, soma-se uma deliberada intenção de desinformar e camuflar o pânico — como se fosse possível esconder 1 morto de Covid-19 por minuto, a cada dia. Incapaz de responder às perguntas mais gritantes da imprensa, Pazuello sobrevive à base de pronunciamentos e proclamações à nação, todas sem nexo.

Já o papel de Jair Bolsonaro na devastação humana atingiu um patamar sem volta. Será julgado pela História, o que não lhe importa. Ser condenado pelo Brasil pensante até o alimenta. E ser amaldiçoado por pais, filhos e netos, parentes e dependentes, amigos e colegas dos que não precisariam morrer parece lhe ser indiferente. O presidente é um humano esquisito. Parece feito de um material impermeável à dor alheia. “A verdade é que ninguém chega impunemente a presidente da República”, lascou o Stanislaw Ponte Preta em tempos mais inocentes. Bolsonaro consegue superar a verve de Sérgio Porto: além da sombria bagagem que trouxe para a Presidência, ensandeceu no poder.

Difícil explicar de outra forma sua live semanal da quinta-feira, 25. Naquele dia o Brasil ultrapassara a montanha de 250 mil mortos por Covid-19 em um ano e chegara ao patamar mais alto da contagem diária de óbitos: 1.582. Ouvir o presidente tagarelar sandices contra o uso de máscaras e o isolamento social, naquele seu tom informal salpicado de algo parecido com um ricto/riso, foi horrendo. Foi obsceno.

Dias atrás o crítico de arte do “New York Times” Michael Kimmelman evocou o impacto mundial de uma célebre mostra de fotografia do pós-Segunda Guerra para falar sobre a dificuldade de retratar a atual pandemia. Ele se referia à monumental exposição “The Family of Man”, inaugurada em 1955 no Museu de Arte Moderna de Nova York. Ela foi vista por 9 milhões de pessoas e circulou pelo mundo ao longo de 7 anos. O curador da mostra — ninguém menos que Edward Steichen — selecionara 503 imagens de 68 países para retratar a universalidade da experiência humana e o papel da fotografia na documentação da nossa história.

A família humana de hoje que sobreviverá à Covid-19 ainda não tem uma imagem-ícone capaz de traduzir o medo, o vazio urbano, o horror do isolamento afetivo, a falência física, a morte por asfixia, o silêncio. Não existe o instantâneo imortal do homem em queda das Torres Gêmeas em chamas, nem a foto do menino Alan Kurdi, inerte em areia estrangeira, como símbolo do drama dos refugiados. Do nosso inimigo comum, o vírus, temos apenas uma versão estilizada em forma de bola de tênis com pregos, como já escreveu Helen Lewis na revista “The Atlantic”. As máscaras e equipamento hospitalar radical das equipes médicas já faziam parte de nosso vocabulário visual como sinônimo de higiene e segurança. Não dão conta do recado. E Lewis insiste ser obrigatório encontrarmos a linguagem certa de retratar esta pandemia, porque precisamos relembrar coletivamente o que vivemos. Aguardemos.

A galeria de cúmplices do vírus, contudo, já tem seus nomes de ponta. Disporá de um farto portfólio do presidente brasileiro espalhando a morte.


A imunidade, a impunidade e a bandidagem

 Editorial

O Estado de S.Paulo

Há quem queira transformar o Congresso na toca da impunidade

Um Estado Democrático de Direito protege necessariamente os membros do Legislativo. Não há Congresso independente se os parlamentares estão expostos a pressões do Executivo ou do Judiciário. Por isso, a Constituição de 1988, em seu objetivo de restabelecer de forma plena o regime democrático no País, previu um conjunto de garantias a deputados e senadores.

Há previsão de foro privilegiado _ “deputados e senadores, desde a expedição do diploma, serão submetidos a julgamento perante o Supremo Tribunal Federal (STF)” – e de específica imunidade a proteger a liberdade de opinião e expressão dos parlamentares – “deputados e senadores são invioláveis, civil e penalmente, por quaisquer de suas opiniões, palavras e votos”.

Além disso, os membros do Congresso só podem ser presos em flagrante de crime inafiançável. E mesmo nesse caso, cabe à respectiva Casa Legislativa, pelo voto da maioria, decidir se mantém ou não a prisão.

Outro ponto especialmente relevante para a separação dos Poderes refere-se à perda do mandato parlamentar. As ditaduras gostam de cassar seus opositores. Por isso, a Constituição estabelece estritamente as hipóteses em que um deputado ou senador pode perder o mandato. Por exemplo, em caso de condenação criminal em sentença transitada em julgado ou se seu comportamento for declarado incompatível com o decoro parlamentar.

Este último caso é especialmente relevante, pois se relaciona com a responsabilidade do próprio Legislativo de zelar pela sua integridade. A imunidade parlamentar não é sinônimo de irresponsabilidade ou de impunidade. Ao prever essa hipótese de perda de mandato, a Constituição dispõe que quem quebra o decoro parlamentar não tem o direito de permanecer no Congresso.

No entanto, o que está tão claro no texto constitucional não tem produzido os devidos efeitos na vida real. Ao longo das décadas, os parlamentares vêm descumprindo acintosamente seu dever de zelar pela integridade do Congresso, com tolerâncias e omissões inteiramente incompatíveis com sua responsabilidade constitucional.

Decoro é decência, honradez, dignidade. Não respeita o decoro parlamentar quem, por exemplo, defende o fuzilamento do presidente da República, como fez o então deputado Jair Bolsonaro. Na época, este jornal pediu sua cassação. O Congresso, no entanto, manteve-o impune em seu cargo.

Também não cumpre o decoro parlamentar quem defende o Ato Institucional (AI) n.º 5, ameaça ministros do STF e incita a ruptura institucional, como fez o deputado Daniel Silveira (PSL-RJ). O plenário da Câmara entendeu o caráter criminoso da conduta do parlamentar e referendou, por ampla maioria, a prisão decretada pelo STF.

Por isso, não faz sentido – seria debochar da Constituição e do próprio plenário da Casa – que o Conselho de Ética da Câmara tente, como vem sendo noticiado, preservar o mandato do deputado bolsonarista. É caso evidente de cassação, especialmente porque a conduta de Daniel Silveira trouxe riscos à separação dos Poderes, às garantias constitucionais de todos os cidadãos e ao próprio funcionamento do Congresso. Mantê-lo no mandato transmite a inconstitucional e perigosa mensagem de que não há limites. Por expressa previsão da Constituição, os indecorosos não cabem no Congresso. 

No momento, há uma ameaça ainda mais grave ao equilíbrio do Estado Democrático de Direito. Com uma celeridade inaudita, a Câmara pôs em tramitação a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 3/21, restringindo a prisão em flagrante de parlamentar aos crimes inafiançáveis expressamente previstos na Constituição – como se os outros crimes inafiançáveis fossem compatíveis com o exercício parlamentar –, proibindo a prisão cautelar por decisão monocrática e limitando o alcance da Lei da Ficha Limpa.

Sob o pretexto de defender a imunidade parlamentar, há quem queira transformar o Congresso na toca da impunidade. É preciso rejeitar a manobra, que tanto desonra o Legislativo. Há uma pandemia a ser enfrentada, reformas a serem feitas e políticas sociais a serem implementadas. Não é hora de facilitar que criminoso se passe por parlamentar.


Pandemia completa um ano no Brasil em seu pior momento

 Bruno Lupion

Deutsche Welle

País atravessa ponto sombrio da covid-19, com negacionismo, má gestão e crise econômica como pano de fundo. Perspectivas de superação são desalentadoras, e especialistas esperam 2021 ainda pior.

Uma família após o enterro de um parente em Manaus. 

Mais de 250 mil brasileiros morreram e não há perspectiva de que o pior tenha passado

Há um ano, o primeiro caso do novo coronavírus era confirmado no Brasil, em um homem de 61 anos que havia viajado à Itália. Internado no hospital Albert Einstein, em São Paulo, ele se curou pouco mais de duas semanas depois, mas o vírus continuou chegando ao país e logo se espalhou, inicialmente entre as classes mais altas e, depois, entre os mais pobres, provocando a morte até quinta-feira (25/02) de 251,5 mil pessoas, segunda maior marca mundial.

Pandemias são eventos pouco frequentes, que testam a capacidade de cientistas buscarem soluções, a coesão das sociedades e a liderança de políticos. No mundo, já há diversas vacinas eficazes aprovadas, mas com produção ainda insuficiente, e alguns países já discutem a volta à normalidade, como Israel.

Esse cenário ainda está longe do Brasil, que atravessa um momento sombrio da covid-19. O número de mortes diárias segue em patamar alto, acima do pico anterior da doença, em julho de 2020. São 36 dias seguidos com marcas acima de mil mortes em 24 horas, na média móvel de sete dias. No total, mais de 10,4 milhões de pessoas, ou 5% da população, já tiveram diagnóstico de infecção pelo vírus, número que deve ser bem maior devido à falta de exames e a subnotificação.

O SUS, além disso, enfrenta o seu pior momento desde o início da epidemia. Segundo balanço da Fiocruz publicado pelo jornal Folha de S. Paulo, as taxas de ocupação de UTIs do sistema público batem recorde - 17 capitais têm lotação de pelo menos 80%.

Enquanto isso, a vacinação caminha a passos lentos. Até esta quinta-feira, 6,2 milhões de pessoas haviam recebido ao menos a primeira dose da vacina, menos de 3% da população. O ritmo se deve à escassez estrutural do imunizante em todo o mundo, mas também a decisões do governo federal que não garantiram com antecedência um rol diversificado de fornecedores de vacinas. 


As perspectivas de superação da pandemia, afirmam especialistas, não são positivas. Pelo contrário: espera-se que 2021 será ainda pior que o ano passado. Os números de casos e mortes estão no patamar mais alto, e as recomendações científicas parecem não terem sido adotadas de forma adequada pela população. 

Efeitos políticos

A chegada e a disseminação do coronavírus ao Brasil coincidiu com o mandato de um presidente de extrema direita, Jair Bolsonaro, que negou a gravidade da doença e a importância do saber científico para lidar com a pandemia. O exemplo da sua liderança foi o oposto das recomendações de especialistas: pouco usou a máscara, incentivou as aglomerações e semeou dúvidas sobre as vacinas.

À frente do governo, demitiu dois ministros da Saúde que se recusaram a apoiar o uso de remédios sem eficácia contra a doença, e enfraqueceu a coordenação na área de saúde pública com estados e municípios.

Bolsonaro, porém, não esteve sozinho na sua forma de encarar a doença. Sua posição foi acompanhada por parte dos prefeitos e governadores, além de parcela significativa da população: durante a pandemia, o presidente manteve em média o apoio de pelo menos um terço dos brasileiros.

 

Chegada de doses da Coronavac. 

Governo federal inicialmente desprezou vacina

 promovida pelo governo de São Paulo

A estratégia de Bolsonaro de desacreditar a ciência e confrontar outros entes federados derivou de um cálculo político para reduzir sua responsabilidade pela gestão do problema e se isentar de ser punido pela população, segundo a cientista política Lorena Barberia, coordenadora científica da Rede de Pesquisa Solidária, que reuniu pesquisadores de diversas instituições para produzir estudos sobre a pandemia.

"Ele procurou responsabilizar outros agentes pelos problemas e o enfrentamento da covid para tentar ser menos afetado politicamente. Se ele fosse liderar a resposta [do país] à pandemia, seria mais responsabilizado por ela", diz. E ele teve relativo sucesso nessa estratégia, conforme mostra sua popularidade.

Um dos confrontos do presidente durante a pandemia foi com o governador João Doria, potencial adversário nas eleições presidenciais de 2022, que envolveu o Instituto Butantan em um acordo com a farmacêutica chinesa Sinovac para trazer a vacina Coronavac ao Brasil.

Bolsonaro chegou a dizer que não compraria "a vacina chinesa de Doria", mas depois voltou atrás e fechou um acordo de compra para não ficar atrás de seu adversário na guerra das vacinas. A iniciativa de Doria fortaleceu sua imagem nacionalmente, mas o governador paulista enfrenta disputas no seu partido, o PSDB, para se lançar ao Palácio do Planalto.

A popularidade do presidente também teve ajuda do auxílio emergencial, que pagou R$ 600 por mês por pessoa de abril a agosto – o dobro para mães chefes de família – e metade desse valor de setembro a dezembro. Em seu momento mais expandido, o programa chegou a 68 milhões de brasileiros, ou cerca de 40% das famílias. Inicialmente, o governo Bolsonaro propôs um auxílio mensal de apenas R$ 200, mas aceitou um valor maior após pressão do Congresso. 


Em outubro, o presidente chegou a ser avaliado como "ótimo" ou "bom" por 40% da população, segundo pesquisa do PoderData. Esse apoio reduziu-se com o fim do auxílio, mas se mantém hoje em cerca de um terço dos eleitores, um piso confortável para se proteger de eventuais processos de impeachment.

Impacto na economia

Além dos efeitos políticos, o auxílio emergencial também foi determinante no desempenho da economia na pandemia. O país já vinha em trajetória de desaceleração em janeiro, antes do vírus chegar, e afundou com a adoção de medidas de isolamento social e o medo de as pessoas saírem às ruas e se contaminarem. Em abril, o volume de vendas do varejo foi 17,2% menor do que no mês anterior, enquanto o volume de produção da indústria caiu 19,5%.

A criação do auxílio reverteu essa tendência, com efeitos positivos já em maio. A transferência mensal fez com que milhões de famílias pobres tivessem uma renda superior à de antes da pandemia, e o dinheiro foi utilizado para a compra de alimentos e bens e pequenas obras para melhorar a condição de suas residências, estimulando a economia. A alta do consumo, conjugada às medidas de distanciamento social, por sua vez, levaram a alta de preços de alguns produtos e à falta de suprimentos em alguns setores.

 


O aquecimento proporcionado pelo auxílio fez com que a queda do Produto Interno Bruto (PIB) em 2020 tenha sido abaixo da projetada no início da pandemia. O número oficial do ano passado será divulgado apenas em março, mas a última previsão de 2020 do mercado, registrada no Boletim Focus do Banco Central, estimava retração de 4,38% do PIB. No meio do ano, o mercado projetava uma queda de 6,5% do PIB, e o Fundo Monetário Internacional chegou a estimar inicialmente uma recessão de 9,1% para o Brasil.

No total, as nove parcelas do auxílio consumiram R$ 295 bilhões, ou cerca de 4% do PIB do país, gasto insustentável no longo prazo, que só foi possível pela decretação do estado de calamidade pública e o afastamento temporário dos limites de despesa e endividamento. A pressão sobre as contas públicas fez o governo reduzir o valor do benefício à metade a partir de setembro e encerrá-lo em dezembro, o que foi imediatamente sentido no desempenho da economia, que ainda sofre efeitos da pandemia. No último mês do ano, o varejo registrou retração de 6,1%. 

Bolsonaro e Pazuello. Ministro da Saúde promoveu tratamentos

 sem eficácia contra covid-19 e não conseguiu garantir vacinas suficientes

A política governamental para manutenção de empregos durante a pandemia não teve o mesmo sucesso que o auxílio emergencial e, como em outros países do mundo, houve alta do desemprego, que atingiu 14,6% no terceiro trimestre de 2020, ou 14,1 milhões de pessoas, um recorde na série histórica.

Houve também aumento no número de desalentados, pessoas que não trabalham e desistiram de procurar emprego por acharem que não irão encontrar uma vaga. No trimestre de junho a agosto, chegou a 5,9 milhões de pessoas, também um recorde.

Em janeiro e fevereiro deste ano, não houve auxílio emergencial. O governo e o Congresso discutem recriá-lo por mais alguns meses, em um valor reduzido, mas ainda não há acordo sobre o formato.

Evolução da pobreza

As circunstâncias da pandemia e a extensão do auxílio fizeram o Brasil experimentar um panorama inesperado em relação à pobreza ao longo desse ano, com alta amplitude de variação.

Em seu auge, o auxílio emergencial fez com que o número de pessoas abaixo da linha de pobreza (famílias com renda mensal per capita menor que R$ 455) e em situação de pobreza extrema (famílias com renda mensal per capita menor que R$ 155) chegasse em agosto a seu patamar mais baixo da série histórica, iniciada em 1976.

Naquele mês, a pobreza afetava 18% da população, ou 38,9 milhões de pessoas, e a pobreza extrema alcançava 2,3% da população, ou 4,8 milhões de pessoas, segundo cálculos feitos pelo economista Daniel Duque, pesquisador do Ibre/FGV, a partir das edições especiais da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, a Pnad Covid, realizadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O período de relativa segurança alimentar que beneficiou muitos brasileiros, porém, chegou ao fim com a redução do valor e, depois, com o encerramento do auxílio em plena pandemia, e os números de pobreza voltaram a crescer já a partir de setembro.

Como resultado, em janeiro de 2021 o número de pessoas em situação de pobreza projetado foi um dos maiores da série histórica. Segundo cálculos de Duque, no primeiro mês deste ano, de 25% e 30% da população, entre 52,7 milhões a 63,3 milhões de pessoas, estavam abaixo da linha de pobreza, enquanto a pobreza extrema alcançava de 10% a 15% da população, algo entre 21 milhões e 31 milhões de pessoas.

 


Fernando Burgos, professor da FGV-EAESP e especialista em políticas sociais e desigualdade, também aponta que, apesar do relativo sucesso, a implementação do auxílio emergencial teve falhas que excluíram muitas pessoas do benefício.

"Sabemos que teve uma parcela da população que ficou de fora. Não são 'invisíveis', como o [ministro da Economia] Paulo Guedes fala. Quem está na ponta [do sistema de assistência social] sabe onde elas estavam. Era para o indicador de pobreza ter chegado a zero. Muitos se acostumam a deixar algumas famílias para trás, mas isso é tratado com uma naturalidade que não consigo absorver", diz.

Um problema, segundo Burgos, foi a necessidade de fazer o cadastro por celular, tarefa inviável para parte da população analfabeta. A "segunda crueldade", diz, é a falta de previsibilidade sobre quando o auxílio irá voltar e com qual valor.

"As pessoas hoje continuam precisando, e ninguém sabe quando ele volta. É fácil, a partir de Brasília ou da Faria Lima, usar os dados e fazer chutes, mas esquecer que, do outro lado, as pessoas estão esperando esse dinheiro, tendo que decidir se compram botijão de gás ou não", afirma.

Desafios na educação

Outro reflexo da pandemia se deu no ensino, que atingiu em cheio os brasileiros em idade escolar. Mesmo na rede privada, muitas escolas ainda não estavam preparadas para adotar aulas online, um desafio que se tornou ainda maior na rede pública.

A desigualdade no acesso à educação foi agravada pela falta de condições de milhões de estudantes, que enfrentaram carência de conexões rápidas à internet, computadores e ambiente doméstico propício para a aprendizagem à distância.

A reação do poder público, por sua vez, foi prejudicada pela falta de uma coordenação efetiva do governo federal, diz Lucia Delagnello, diretora-presidente do Centro de Inovação para a Educação Brasileira (CIEB).

"Houve uma falta de protagonismo do MEC [Ministério da Educação], fruto de várias mudanças que aconteceram na gestão da pasta. Não houve uma coordenação de esforços para ajudar as redes a fazer essa transição", afirma.

Uma das consequências foi que as unidades da federação adotaram ritmos e planos muito diversos para lidar com a transição para o ensino online. Alguns estados, como Espírito Santo, Rio Grande do Sul e Tocantins, deixaram seus alunos por mais de cem dias sem aulas à distância após o fechamento das escolas, enquanto em outros a implementação da alternativa virtual se deu de forma mais rápida, segundo dados de estudo publicado em janeiro pela Rede de Pesquisa Solidária.

 


"O impacto da pandemia na aprendizagem das crianças foi muito grande e negativo. A grande maioria delas não conseguiu, ou por não ter acesso, ou pela falta de experiência [das escolas] em trabalhar de forma remota, manter um aprendizado adequado", afirma Delagnello.

Ela diz, porém, que se 2020 foi o ano da "resposta", este será o da "consolidação" das experiências com o ensino virtual ou híbrido que tiveram sucesso. "Muita gente questionava se a tecnologia era importante para a educação. Agora o questionamento é como fazer", afirma.

Futuro

As perspectivas de superação da pandemia ainda são desalentadoras no Brasil, na opinião de Barberia, da Rede de Pesquisa Solidária. Ela receia que 2021 será "ainda pior" que o ano passado, pois o número de casos e mortes está em seu patamar mais alto e as recomendações científicas não foram absorvidas de forma adequada pela população, mesmo em questões básicas como distanciamento social e uso adequado de máscaras.

Segundo ela, o que se faz hoje, em muitos estabelecimentos comerciais que seguem abertos, é um "teatro da higiene", ineficaz para evitar a propagação do vírus pelo ar. O ritmo da vacinação está muito mais lento do que o necessário para conseguir imunizar a população com sucesso, e falta "vontade política" para adotar as medidas necessárias, como fechamento do comércio, em muitos lugares do país.

O pessimismo é compartilhado por Burgos, da FGV-EAESP. Ele diz que a situação atual é "muito grave", com parte da população "abrindo mão de uma série de precauções". No aspecto social, ele lembra que as redes de doação e distribuição de alimentos, que fizeram a diferença no começo da pandemia, hoje se enfraqueceram, e que os sinais do governo federal não indicam que ele assumirá um papel mais forte para coordenar a proteção dos mais vulneráveis.


O que diz o 'estudo' alemão sobre máscaras em crianças, tema citado em live por Bolsonaro

 BBC Brasil 

CRÉDITO,GETTY IMAGES

Presidente Jair Bolsonaro criticou o uso de máscaras mais uma vez;

 método é um dos únicos considerados eficazes contra a disseminação do coronavírus


No dia mais letal da pandemia no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro escolheu questionar mais uma vez o uso de máscaras e o isolamento social, dois métodos considerados eficazes para conter a disseminação do coronavírus.

Nesta quinta (25/2), o Brasil registrou ao menos 1.541 novas mortes por covid-19, segundo o Conass, Conselho Nacional de Secretários de Saúde (nas contas do consórcio de veículos de imprensa, o número foi ainda maior: 1.582, fazendo, segundo esse dado, o dia o mais letal da pandemia até agora). Bolsonaro, enquanto isso, citou em sua live semanal um suposto estudo de uma universidade não especificada na Alemanha que teria concluído que máscaras são "prejudiciais" às crianças, causando irritabilidade, dor de cabeça, dificuldade de concentração, entre outros.

O presidente disse que não entraria em detalhes porque "tudo deságua em crítica" sobre ele. "Eu tenho minha opinião sobre máscaras, cada um tem a sua", disse o presidente. "A gente aguarda um estudo mais aprofundado sobre isso por parte de pessoas competentes."

Estudo na Alemanha

Há um estudo preliminar feito na Alemanha sobre o efeito de uso de máscaras em crianças que foi publicado em dezembro que menciona os problemas comentados por Bolsonaro. Não está claro se foi este o estudo a que Bolsonaro se referiu.

A pesquisa, de médicos da Universidade de Witten/Herdecke, é preliminar e não foi revisada por pares, ou seja, não foi submetida ao escrutínio de um ou mais especialistas do mesmo escalão que os autores. Uma das observações na plataforma de publicação da pesquisa diz que ela "não deve ser considerada conclusiva, usada como base de práticas clínicas ou considerada uma informação válida pela imprensa".

O estudo preliminar foi feito a partir de uma enquete online preenchida por pais ou responsáveis de cerca de 25 mil crianças e adolescentes. É uma análise do custo-benefício do uso de máscaras para esse grupo específico, e não uma negação da eficácia das máscaras como proteção contra a disseminação do coronavírus, como fez parecer Bolsonaro. 


Além disso, o próprio estudo traz observações importantes, como esta: "Pais cujos filhos não apresentam efeitos colaterais têm menos probabilidade de participar desta pesquisa. Assim, há uma sobrepeso sistemático daqueles que relatam reclamações".

Diz, também, que o link para a pesquisa alcançou fóruns de redes sociais que criticavam as medidas de proteção contra o coronavírus do governo. Isso pode ter influenciado o resultado da pesquisa.

Destaca que os efeitos expressado pelos pais são "suspeitas de efeitos colaterais", e não necessariamente efeitos colaterais. Ou seja, "eventos que podem ser observado pelos pais, mas que não são necessariamente relacionados ou causados pelas máscaras". "São, portanto, inicialmente conjecturas cuja relação causal deve ser verificada." A irritabilidade, dor de cabeça, dificuldade de concentração, entre outros problemas descritos pelos pais "são sintomas que podem refletir a situação geral das crianças e não são necessariamente causados apenas pela máscara".

A organização sem fins lucrativos Health Feedback, que convida cientistas para verificar informações que afirmam ser baseadas na ciência, analisou o estudo.

Entre as críticas e observações feitas sobre a pesquisa, está a de que não é possível demonstrar uma relação causal entre os efeitos observados e o uso de máscaras. Além disso, o estudo não tem controles, ou seja, um grupo de crianças que não usou máscaras, para comparar resultados. "Por causa disso, é impossível determinar se os efeitos negativos relatados foram devido ao uso da máscara ou se teriam ocorrido mesmo se as crianças não usassem máscaras."

Outro problema da pesquisa, segundo a análise do Health Feedback, é que os autores não avaliaram potenciais fatores de confusão, como doenças ou condições pré-existentes nas crianças cujos pais responderam à pesquisa. Essas condições podem causar alguns dos efeitos relatados, como dores de cabeça e inquietação, mas não foram contabilizados no estudo.

Por fim, a população pesquisada no estudo pode não ser representativa da população em geral. Na população pesquisada, 41,7% eram a favor de medidas mais brandas para conter a disseminação do vírus. É um resultado bastante diferente de uma pesquisa de agosto de 2020 com 1.303 pessoas selecionadas aleatoriamente na Alemanha, conduzida pela emissora pública alemã ZDF. Segundo os resultados da pesquisa, a maioria dos alemães era a favor de medidas mais rígidas e apenas 10% consideravam os regulamentos atuais excessivos. "Essas características sugerem que os resultados da pesquisa tendem a ser tendenciosos com base nas crenças dos participantes sobre os efeitos do uso de máscaras faciais", diz a análise do Health Feedback.



Recomendação da OMS

Não é a primeira vez que Bolsonaro, apesar de recomendações das mais altas autoridades sanitárias do mundo, critica o uso de máscaras.

Desde junho, a Organização Mundial da Saúde (OMS) preconiza o uso de máscaras de tecido para todo mundo que precisa sair de casa.

O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), dos Estados Unidos, fez a mesma indicação um pouco antes, a partir do mês de abril.

No Brasil, o Ministério da Saúde reconhece que cobrir nariz e boca com tecido é uma das ações preventivas mais importantes — em seu site, a pasta até disponibiliza um guia para a confecção dessas peças em casa.

O próprio Bolsonaro, inclusive, sancionou a lei 14.019/2020, publicada no Diário Oficial da União no dia 2 de julho, que fala sobre "a obrigatoriedade do uso de máscaras de proteção individual para circulação em espaços públicos e privados acessíveis ao público, em vias públicas e em transportes públicos".Por que máscaras com válvula não são recomendadas contra covid-19?

Proteção das máscaras

Estudos observacionais e epidemiológicos indicam que as máscaras podem diminuir a possibilidade de infecção por coronavírus.

 CRÉDITO,GETTY IMAGES

Embora a N95 seja o modelo mais buscado em pesquisas no Brasil, 

é a nomenclatura dos Estados Unidos. O padrão no Brasil é a PFF2. 

Embora não sejam idênticos, esses padrões de respiradores são equivalentes

Não há testes rigorosos, com o mais elevado grau de evidência, porque seria impraticável e até antiético pedir que milhares de pessoas fiquem semanas sem usar máscaras, se expondo ao risco de contrair um vírus mortal, como grupo de controle.

O que se sabe é que as máscaras protegem quem usa e quem está por perto de um indivíduo infectado porque seu tecido funciona como uma barreira contra gotículas de saliva que saem da boca ou nariz de uma pessoa em tosses, espirros ou conversas.

Alguns países europeus, como a França, Áustria e a Alemanha, passaram a exigir o uso de máscaras cirúrgicas ou profissionais, com o argumento de que as máscaras de tecido não oferecem tanta proteção.

É porque essas máscaras profissionais são bem vedadas ao rosto, têm melhor qualidade e boa capacidade de filtração. Assim, protegem contra aerossóis, gotículas que ficam suspensas no ar por mais tempo, uma das formas de transmissão do coronavírus. No Brasil, a nomenclatura dessa máscara é PFF2. A nomenclatura nos Estados Unidos é N95. Na Europa, FFP2. A recomendação é usar os modelos sem válvulas, já que elas permitem saída de ar sem filtragem. Antes da compra, é importante verificar se as máscaras PFF2 têm o selo do Inmetro. 

Mudança de orientação

No começo de 2020 (e da disseminação do coronavírus), a orientação das autoridades era para que a população geral, sem sintomas de covid-19, não usasse máscaras. O medo era que faltassem equipamentos de proteção para profissionais de saúde e pacientes, que são os grupos que mais precisam deles.

Foi só em junho de 2020 que a OMS mudou suas orientações sobre uso de máscaras e disse que elas devem ser usadas em público para ajudar a impedir a propagação do coronavírus. Àquela altura, já havia em diversos países recomendação ou exigência de que as pessoas usem máscaras para cobrir boca e nariz em público.


Em meio a ameaça de colapso, Bolsonaro minimiza falta de leitos: 'saúde sempre teve problemas'. Cara, afinal, você foi eleito prá quê?

 Daniel Gullino

O Globo

Presidente considerou que situação não é motivo para fechar comércio; país bateu recordes de mortes por Covid-19

  Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

O presidente Jair Bolsonaro participa 

de cerimônia no Palácio do Planalto 

BRASÍLIA —  No pior momento da pandemia de Covid-19 no Brasil, com recorde de mortos e a um ameaça de colapso no sistema de saúde de diversos estados, o presidente Jair Bolsonaro minimizou neste domingo a falta de leitos, dizendo que "a saúde no Brasil sempre teve seus problemas". Para Bolsonaro, a situação não é justificativa para fechar o comércio, medida que tem sido adotada por governadores para diminuir o contágio do novo coronavírus.

Ao menos treze estados brasileiros estavam com taxas de internação por Covid-19 acima de 80% nas UTIs da rede pública na sexta -feira, segundo levantamento realizado pelo GLOBO a partir de informações das secretarias estaduais de saúde.

A situação ocorre no mesmo momento em que o Brasil registra recordes de mortos: a média móvel ficou em 1.180 mortes no sábado, a maior desde o início da pandemia. Os recordes anteriores já haviam sido batidos nessa semana, na quarta e depois na quinta-feira.

"A saúde no Brasil sempre teve seus problemas. A falta de UTIs era um deles e certamente um dos piores", escreveu Bolsonaro em sua conta no Facebook na manhã deste domingo, compartilhando uma reportagem do G1 de 2015 sobre falta de leitos no Brasil e questionando o que ocorreu naquele período.

Em seguida, o presidente acrescentou que "HOJE, ao FECHAREM O COMÉRCIO e novamente te obrigar a FICAR EM CASA, vem o DESEMPREGO EM MASSA com consequências desastrosas para todo o Brasil".

Na noite de domingo, Bolsonaro já havia compartilhado um vídeo de uma empresária do Distrito Federal criticando o fechamento do comércio determinado pelo governador Ibaneis.

Saúde pediu dinheiro para leitos

Na quarta-feira, Bolsonaro editou uma medida provisória (MP) liberando R$ 2,8 bilhões para o Ministério da Saúde. Como o GLOBO revelou no início do mês, o dinheiro será usado principalmente para aumentar a quantidade de leitos de UTI contra a Covid-19 e conseguir pagar por 11 mil unidades até março, além de outros gastos para combater a pandemia.

Primeiro, a pasta solicitou R$ 5,2 bilhões para seis meses. Depois, pediu R$ 2,8 bilhões para três meses, valor que agora foi liberado.

A maior parte dos recursos — R$ 1 bilhão — será destinada para pagar leitos de UTI contra Covid-19, de acordo com documento obtido pelo GLOBO. A intenção é ter habilitados 8.545 leitos em fevereiro e subir esse número para 11 mil leitos em março. A Saúde diz que paga R$ 1,6 mil por dia por cada leito. A pasta não explica em quais estados ou cidades essas unidades serão instaladas.

Secretários de Saúde dos estados que se vêem às voltas com alta ocupação de leitos por conta da segunda onda da pandemia no país têm reclamado nas últimas semanas que o número de leitos habilitados para a doença com custeio do governo federal vem caindo desde o fim do ano passado.

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:

Alguém precisa lembrar o Senhor Bolsonaro que o presidente é ele, que foi eleito justamente para resolver os problemas do país (pelo menos os mais graves como saúde, educação e segurança pública), e não sentar em cima deles e jogar a culpa no passado. Se não tem competência para fazê-lo, peça para sair e deixe outro governar e resolver o caos da saúde pública. Se é para ficar apenas apontando  os erros passados, podia ter ficado abraçado no Centrão lá no Congresso. 


Vacinação contra a covid-19: no ritmo atual, Brasil demoraria mais de quatro anos para alcançar imunidade de rebanho

 André Biernath

Da BBC News Brasil em São Paulo

 CRÉDITO,BUDA MENDES/GETTY IMAGES

Se considerarmos que a campanha começou no país há 12 dias 

e 1.129.885 brasileiros receberam a primeira dose, a média

é de 94.157 pessoas vacinadas por dia.


Desde que a enfermeira Mônica Calazans recebeu a primeira dose da vacina contra a covid-19 no dia 17 de janeiro, outros cerca de 1,5 milhão de brasileiros foram imunizados.

O número pode até parecer alto, mas está bem abaixo das expectativas e da capacidade de nosso sistema de saúde, de acordo com especialistas ouvidos pela BBC News Brasil.

"O ritmo de vacinação no país está simplesmente péssimo. Nós já deveríamos ter utilizado pelo menos todo esse primeiro lote de 6 milhões de doses da CoronaVac, do Instituto Butantan e da Sinovac", analisa o epidemiologista Paulo Lotufo, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Falta de planejamento, desafios de comunicação, problemas na coleta das informações e falhas no sistema do Ministério da Saúde ajudam a explicar essa lentidão.

Mas quais são as metas de vacinação? E como será possível atingir a imunidade de rebanho no país?

Vacina como bem coletivo

Por mais que todos pensemos em proteger a própria saúde quando tomamos uma vacina, o efeito dela ultrapassa as barreiras individuais.

Isso porque a imunização em larga escala permite proteger toda a comunidade, mesmo aquelas pessoas que, por um motivo ou outro, não podem tomar as doses.

Esse fenômeno é conhecido popularmente como imunidade de rebanho, embora os cientistas prefiram o termo imunidade coletiva.

De forma simplificada, para cada doença infecciosa prevenível por vacina há uma porcentagem da população que precisa ser protegida para que o vírus ou a bactéria deixe de circular naquele local.

Esse limiar de imunidade de rebanho varia de acordo com vários fatores, entre eles o quanto aquela enfermidade é contagiosa, a forma de transmissão da doença e a eficácia das vacinas disponíveis.

Vamos a alguns exemplos práticos. Para controlar o sarampo em determinada região, é necessário que mais de 95% das pessoas estejam vacinadas. Já na gripe, essa taxa fica na casa dos 50%.

Em outras palavras, se 95 pessoas são efetivamente vacinadas contra o sarampo, aquelas cinco que não podem tomar suas doses ficam protegidas por tabela, pois o vírus não encontra indivíduos vulneráveis para iniciar cadeias de transmissão e um surto local.

E na pandemia atual?

Ainda não se sabe ao certo qual é a porcentagem de vacinação necessária para atingir a imunidade de rebanho contra a covid-19.

Atualmente, os cientistas calculam que essa taxa deve ficar entre 70% e 90%.

Em dezembro, o imunologista americano Anthony Fauci, líder da força-tarefa de resposta à pandemia nos Estados Unidos, admitiu que será preciso vacinar mais de 90% da população para conseguir controlar de vez os números de casos e mortes. 

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A enfermeira Mônica Calazans recebeu a primeira dose 

da vacina contra a covid-19 no dia 17 de janeiro

Esses indícios já mostram que a aplicação de doses aprovadas no Brasil precisa ser acelerada com urgência, uma vez que atingimos apenas 0,68% da população, segundo o banco de dados Our World in Data atualizados até 28 de janeiro (para efeitos comparativos, Israel, um país pequeno, mas o mais avançado na vacinação até agora em relação ao tamanho de sua população, já imunizou 4,56 milhões de pessoas).

Se considerarmos que a campanha começou no Brasil há 12 dias e, de acordo com Our World Data, 1,45 milhão de brasileiros receberam a primeira dose até quinta-feira (28), isso dá uma média de 120 mil pessoas vacinadas por dia.

Se precisarmos imunizar até 90% da população para eventualmente atingir a imunidade coletiva, no Brasil esse total corresponde a 188,5 milhões de pessoas vacinadas.

Mas, se continuarmos no ritmo atual de 94 mil doses por dia, demoraremos 1.570 dias (ou pouco mais de quatro anos) para atingir o limiar de 90%.

Lembrando que, para a maior parte das vacinas contra o coronavírus (incluindo a CoronaVac e a AstraZeneca, as duas disponíveis aqui até agora) são necessárias duas doses do imunizante.

Exemplo que vem do passado

A epidemiologista Carla Domingues foi coordenadora do Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Ministério da Saúde por quase dez anos, entre 2011 e 2019.

De acordo com sua experiência, o Brasil tem total capacidade de acelerar seu plano e vacinar um número bem maior de pessoas contra a covid-19.

"Nas campanhas de vacinação contra a gripe, que acontecem todos os anos, nós conseguimos imunizar 80 milhões de brasileiros em apenas 90 dias", compara.

Domingues acrescenta que o país tem cerca de 30 mil profissionais de saúde contratados para fazer a vacinação.

"Cada um deles consegue atender de 20 a 30 pessoas por dia. Portanto, não é exagero dizer que podemos imunizar 900 mil ou até 1 milhão de indivíduos no país diariamente", pontua.

O PNI também traz ótimas lembranças de outras campanhas de imunização que, ao longo de anos, foram capazes de controlar e até eliminar algumas doenças do país (pelo menos temporariamente), como a poliomielite, a varíola e o sarampo.

Exemplo que vem de fora

Com a aprovação das primeiras vacinas contra a covid-19, Israel logo despontou como o modelo de rapidez e eficiência na aplicação das doses.

Com o início da campanha em 19 de dezembro, o país conseguiu em pouco mais de um mês proteger metade da sua população.

Dados divulgados recentemente pelo governo israelense indicam uma queda significativa nas notificações de novos casos de infecção e na taxa de hospitalização.

É claro que as escalas são incomparáveis: Israel possui um território pequeno, com fronteiras bem controladas e apenas 8,8 milhões de habitantes.

Mas a experiência por lá sinaliza que a pandemia pode ser controlada se o planejamento for rápido e bem coordenado.

Outras nações que já avançaram bastante na vacinação são Emirados Árabes Unidos (29% da população vacinada), Reino Unido (11%) e Bahrein (8%).

Situação exige agilidade

Além da vacinação representar a única saída possível (e segura) desta pandemia, é preciso lembrar outro fator que está preocupando os cientistas: a descoberta de mutações do coronavírus.

Por ora, as três que chamaram mais atenção foram detectadas no Reino Unido, na África do Sul e no Brasil, mais precisamente em Manaus.

Com a alta circulação da doença, há o risco de aparecerem mutações que diminuem a eficácia das vacinas já testadas e aprovadas.

Por isso, é urgente agir com rapidez para quebrar as cadeias de transmissão do coronavírus e evitar que essas novas variantes se espalhem e tomem conta do pedaço.

"Também não sabemos quanto tempo de imunidade as vacinas conferem. Pode ser que, no futuro, precisaremos vacinar de novo os grupos prioritários sem ter dado a primeira dose para todo mundo", antevê o médico virologista Amilcar Tanuri, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

O que acontece na prática?

Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil apontam que a campanha de vacinação contra a covid-19 no Brasil está sofrendo com falhas nos sistemas de informação.

"Nas campanhas anteriores, os profissionais de saúde precisavam apenas transmitir os números de vacinados de cada público-alvo. Ao final do período, eles basicamente passavam às centrais municipais e estaduais informações do tipo 'hoje eu vacinei 50 idosos, 20 indivíduos com doença cardíaca, 10 com doença renal…'", exemplifica Domingues.

Na campanha contra a covid-19, esse processo se tornou bem mais complexo. Agora, é necessário preencher nome, endereço, CPF, número do cartão do SUS, dose da vacina, qual lote ela pertence, o fabricante…

Essa exigência existe porque temos duas vacinas aprovadas no país até o momento: a CoronaVac (Instituto Butantan/Sinovac) e a CoviShield (FioCruz/Universidade de Oxford/AstraZeneca).

Ambas exigem as duas doses para conferir proteção, mas o tempo entre a primeira e a segunda aplicação é diferente.

A segunda dose da CoronaVac é dada de 14 a 28 dias depois da primeira. Já na CoviShield, esse intervalo sobe para um a três meses.

Outro ponto de atenção: um indivíduo deve receber duas doses da mesma vacina. Não dá pra aplicar uma da CoronaVac e depois a outra da CoviShield, por exemplo.

Todas essas recomendações e cuidados exigem, portanto, um tipo de cadastro mais completo para que não ocorram confusões. O problema é que esse processo toma muito tempo e está sendo feito na hora da vacinação. 

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Brasil tem capacidade de vacinar 900 mil pessoas por dia

"Sabendo que a campanha iria começar e alguns grupos tomariam a vacina primeiro, o Ministério da Saúde poderia já ter começado a fazer esse cadastro com antecedência lá nos meses de setembro ou outubro", lamenta Domingues.

Além de todo o trabalho no preenchimento dos dados, técnicos e enfermeiros estão relatando falhas e lentidão do sistema informatizado do Ministério da Saúde.

Em alguns locais sem internet, os profissionais precisam preencher as informações à mão, num papel, para só depois digitar tudo num computador.

Portanto, é possível que o número real de vacinados seja maior do que as estatísticas oficiais apontam.

O outro lado

Procurado pela reportagem da BBC News Brasil, o Ministério da Saúde respondeu por meio de uma nota encaminhada pela assessoria de imprensa.

O ministério informa que o plano de vacinação é dinâmico e pode sofrer ajustes necessários nas fases de distribuição das vacinas, "considerando a indicação de uso apresentada pelo fabricante, o quantitativo de doses entregues e os públicos prioritários já definidos".

Na nota, também fica claro que o cronograma de vacinação e como será feita a convocação dos públicos-alvo depende da disponibilidade das doses da vacina, que são entregues pelas fabricantes de forma gradativa.

"Atualmente o Brasil tem 354 milhões de doses de vacinas garantidas para 2021, por meio dos acordos com a Fiocruz (212,4 milhões de doses), Butantan (100 milhões de doses) e Covax Facility (42,5 milhões de doses)."

Se esse número for realmente confirmado (uma vez que a grande maioria dessas doses sequer foi fabricada), essas 354 milhões de doses atenderiam até 177 milhões de brasileiros.

De acordo com os cálculos feitos pelo ministério, 77 milhões de brasileiros fazem parte dos 27 grupos prioritários definidos no plano de vacinação contra a covid-19.

Esses grupos são divididos por faixas etárias (acima de 80 anos, entre 75 e 79, de 70 a 74 e assim por diante), por condições (indivíduos com diabetes, doenças cardíacas, deficiências…) e por categoria laboral (profissionais da saúde, trabalhadores da educação, forças de segurança, funcionários do sistema prisional…).

"Lavajatismo vacinal"

Na opinião de Lotufo, outro fator que tem atrapalhado o andamento da campanha de vacinação contra a covid-19 é o excesso de polêmicas com as pessoas que aproveitam cargos e posições de prestígio para tomarem suas doses mesmo quando não fazem parte dos grupos prioritários.

Em algumas cidades, como Manaus, a vacinação chegou a ser paralisada para que fossem apurados desvios e o "sumiço" de doses.

"Estamos acompanhando uma espécie lavajatismo vacinal, em que se presta mais atenção nos casos dos fura-filas, que logicamente estão errados, do que no problema sistêmico da falta de dados e de informações das secretarias estaduais e municipais de saúde", diz.

O epidemiologista faz alusão à Operação Lava-Jato, o conjunto de investigações de corrupção da Polícia Federal que culminou na prisão de políticos e empresários e contou com ampla cobertura da imprensa nos últimos anos.

"Muitos secretários de Saúde só sabem tirar fotos. Eles precisam ser cobrados sobre o que estão fazendo para que mais pessoas sejam vacinadas logo", opina.