Adelson Elias Vasconcellos
Não foi o rolo compressor que Lula imaginava. Dilma vai amargar um segundo turno que, até alguns dias atrás, era impensável. Em São Paulo, não apenas a oposição mantém o governo estadual como ainda surpreendeu com a eleição de Aloysio Nunes para o Senado. Em Minas e em Santa Catarina a oposição fez barba,cabelo e bigode.
Lula se imaginava tão glorificado que se achava no lugar do povo brasileiro e por ele poderia escolher. Não pôde, e o povo disse que ainda é senhor de sua vontade, não aceita cabresto e não admite que ninguém ocupe seu lugar.
Quanto aos institutos de pesquisas, dizer o quê? Para eles, a eleição presidencial estava decidida, selada, sacramentada. Alguns se aventuravam a traçar até uma futura composição do ministério. Alguns como Vox Populi e Sensus precisarão aprender que, pesquisa eleitoral, deve aferir o mais amplo espectro de pessoas para uma avaliação parcial de uma vontade que pode ser ampliada como um pensamento maior. Mas jamais pode servir como bandeira partidária, como slogan de torcida organizada.
Venceu o eleitor lógico. Ainda bem para a democracia.
Quem vencerá, Serra ou Dilma? Não sei, mas é fato que a oposição ao governo que está aí, é forte e não pode ser desprezada. Dilma teve um respeitável percentual que pode ou não se confirmar. Dependerá dela, do seu discurso e de suas propostas. Falo dela porque agora não adiantará ela se esconder mais, ou deixar que Lula, seu padrinho, seja protagonista como foi no primeiro turno. Será Dilma por ela mesma e em tempos e condições iguais. Claro que o governo se utilizará não apenas da máquina para emplacar sua candidata, mas também daqueles recursos de dossiês, mentiras, calúnias, notinhas plantadas em jornais para desestabilizar e desqualificar junto ao eleitorado o candidato José Serra.
Mas o tucano também terá seus trunfos. Aécio Neves, Beto Richa e Geraldo Alckmin, todos eleitos e livres para uma união de forças. Serra terá ainda a companhia de Gabeira, derrotado no Rio de Janeiro, mas com considerável prestígio . O candidato tucano ainda poderá contar também com Santa Catarina e em estados como Acre onde venceu com folga. Não, a oposição não foi aniquilada como desejava Lula. Ela está muito viva, enfraquecida em algumas unidades da federação, mas fortalecida e vigorosa em estados do peso de São Paulo, Minas, Paraná e Santa Catarina. Não é pouco não. E há ainda estados como Pará e Goiás cujo segundo turno poderá dar à oposição um peso ainda maior e uma representatividade ainda mais expressiva.
Claro que o novo desenho da Câmara e Senado até pode, neste momento, sintonizar uma folgada maioria para Dilma. Porém, se Serra for eleito, não será difícil atrair o PMDB sempre pronto a conjugar o seu apetite por cargos em troca de algum apoio parlamentar. É fato que o PT cresceu, não poderia ser diferente quando se tem um presidente com a popularidade que Lula desfruta.
Mas é notável saber que, não apenas o eleitor venceu as pesquisas, mas a democracia venceu a arrogância. Talvez esta tenha sido a nossa maior conquista.

