domingo, outubro 03, 2010

Na guerra das pesquisas quem venceu foi eleitor.

Adelson Elias Vasconcellos

Não foi o rolo compressor que Lula imaginava. Dilma vai amargar um segundo turno que, até alguns dias atrás, era impensável. Em São Paulo, não apenas a oposição mantém o governo estadual como ainda surpreendeu com a eleição de Aloysio Nunes para o Senado. Em Minas e em Santa Catarina a oposição fez barba,cabelo e bigode.

Lula se imaginava tão glorificado que se achava no lugar do povo brasileiro e por ele poderia escolher. Não pôde, e o povo disse que ainda é senhor de sua vontade, não aceita cabresto e não admite que ninguém ocupe seu lugar.

Quanto aos institutos de pesquisas, dizer o quê? Para eles, a eleição presidencial estava decidida, selada, sacramentada. Alguns se aventuravam a traçar até uma futura composição do ministério. Alguns como Vox Populi e Sensus precisarão aprender que, pesquisa eleitoral, deve aferir o mais amplo espectro de pessoas para uma avaliação parcial de uma vontade que pode ser ampliada como um pensamento maior. Mas jamais pode servir como bandeira partidária, como slogan de torcida organizada.

Venceu o eleitor lógico. Ainda bem para a democracia.

Quem vencerá, Serra ou Dilma? Não sei, mas é fato que a oposição ao governo que está aí, é forte e não pode ser desprezada. Dilma teve um respeitável percentual que pode ou não se confirmar. Dependerá dela, do seu discurso e de suas propostas. Falo dela porque agora não adiantará ela se esconder mais, ou deixar que Lula, seu padrinho, seja protagonista como foi no primeiro turno. Será Dilma por ela mesma e em tempos e condições iguais. Claro que o governo se utilizará não apenas da máquina para emplacar sua candidata, mas também daqueles recursos de dossiês, mentiras, calúnias, notinhas plantadas em jornais para desestabilizar e desqualificar junto ao eleitorado o candidato José Serra.

Mas o tucano também terá seus trunfos. Aécio Neves, Beto Richa e Geraldo Alckmin, todos eleitos e livres para uma união de forças. Serra terá ainda a companhia de Gabeira, derrotado no Rio de Janeiro, mas com considerável prestígio . O candidato tucano ainda poderá contar também com Santa Catarina e em estados como Acre onde venceu com folga. Não, a oposição não foi aniquilada como desejava Lula. Ela está muito viva, enfraquecida em algumas unidades da federação, mas fortalecida e vigorosa em estados do peso de São Paulo, Minas, Paraná e Santa Catarina. Não é pouco não. E há ainda estados como Pará e Goiás cujo segundo turno poderá dar à oposição um peso ainda maior e uma representatividade ainda mais expressiva.

Claro que o novo desenho da Câmara e Senado até pode, neste momento, sintonizar uma folgada maioria para Dilma. Porém, se Serra for eleito, não será difícil atrair o PMDB sempre pronto a conjugar o seu apetite por cargos em troca de algum apoio parlamentar. É fato que o PT cresceu, não poderia ser diferente quando se tem um presidente com a popularidade que Lula desfruta.

Mas é notável saber que, não apenas o eleitor venceu as pesquisas, mas a democracia venceu a arrogância. Talvez esta tenha sido a nossa maior conquista.

Cidadania supérflua...

Adelson Elias Vasconcellos

Já que transformaram nosso título eleitoral em souvenir, que saibamos, ao menos hoje, não nos transformarmos em massa de manobra, porque o rei de plantão, esquecendo que quem vota somos nós, resolveu por sua vontade única, nos transferir para o mando e comando de outro senhor. Não somos escravos, nem tampouco mercadoria para sermos trocados como coisa ordinária.

Vamos mostrar, ainda, que nossa dignidade não está a venda por bolsas caça votos, como também nos indignamos com os péssimos e humilhantes serviços públicos com que nos brindaram após oito anos de desmandos.

Como, também, não nos esquecemos dos Waldomiro Diniz, José Dirceu, Fernando Collor, José Sarney, Renan Calheiros, Jader Barbalho, dentre tantos outros picaretas reunidos em torno de um mesmo capone, a nos extorquir cinco meses de trabalho em troca de coisa nenhuma, apenas para alimentarem seus mensalões, dossiês e erenices.

Nosso voto pede moralidade, decência, respeito. Nossa opinião é pública e não tem dono. Somos escravos apenas de nossa própria dignidade. Nossas famílias, filhos e netos merecem viver num país onde a EDUCAÇÃO seja prioridade e de qualidade máxima, e não apenas um indicador vergonhoso a nos colocar na rabeira da estatística mundial.

Queremos um país com valores elevados, acima de tudo com respeito à vida, à nossa história, e não aceitamos nem admitimos o descaso com quem sequer pode defender-se porque se trata de uma ainda em gestação, como queremos que os nossos valores religiosos sejam sagrados, e nossas vozes, mesmo que de oposição, sejam ouvidas com respeieto porque também somos brasileiros.

Não queremos nem canalhas nem oportunistas a tentarem reecresver nosso passado com as cores e letras da demagogia sórdida e barata.

O Brasil merece mais? Sim, mas o povo brasileiro merece bem mais do que o pão e circo dos últimos oito anos. Queremos olhar para a constituição do país e nos orgulharmos da sua redação nobre, que reconhece além da nossa cidadania natural, as garantias e os direitos individuais comuns a todos os povos livres e democráticos, e não que seja aviltada nem por tribunais de quinta categoria nem por totalitários forjados no submundo da política rasteira. Queremos olhar para o futuro sem medo de expressar nosso pensamento, e sem temor de sermos atacados e agredidos pelo discurso raivoso e odioso de tiranos desequilibrados. 

Que os políticos escolhidos saibam que eles lá estão por nossa vontade suprema mas que o país que governarão, e o farão por um mandato provisório apenas, não lhes pertence.   Lugar de bandido é na cadeia, e não nos palácios do poder. Que saibam distinguir que lá estão a serviço da sociedade e não para dela servir-se impunemente.

Que seja feita a vontade do povo decente deste país, hoje e sempre. Que assim seja!


Que, bem ou mal, falem as urnas

O Estado de S.Paulo

Nesta manhã, ao se abrirem as seções eleitorais para mais uma festa da democracia, estará se encerrando mais um episódio memorável da série do "nunca antes na história deste país": dois mandatos presidenciais sucessivos obstinada e precipuamente focados no projeto político de manter no poder Lula e associados. Com grande habilidade e total desembaraço na manipulação do varejo político, com um carisma capaz de seduzir até os que se julgam mais esclarecidos e ainda com o respaldo de um trabalho bem-feito na aceleração do desenvolvimento econômico e na incorporação de milhões de brasileiros ao mercado de consumo, Lula jamais perdeu de vista o projeto de poder a serviço do qual colocou tudo e todos, inclusive e principalmente as ações de governo. Menos mal que a perseguição desse objetivo transite, pelo menos por enquanto, pela via eleitoral, embora não necessariamente por convicção democrática, mas pela verificação de que, até onde a vista alcança, não existem condições objetivas mínimas para nova aventura escancaradamente autocrática no Brasil.

Quando se têm olhos para enxergar, os fatos demonstram claramente que Lula e o PT não têm projeto de governo, apenas de poder. Foi a opção que assumiram quando se cansaram de ser derrotados nas urnas. Passaram então a fazer tudo, o que quer que seja, passando por cima, se necessário, dos valores éticos que até então defendiam, e até mesmo sobre as instituições da República, para garantir vitórias nas urnas. Primeiro, houve a guinada radical nas principais proposições programáticas do PT com a Carta aos brasileiros, em 2002. Depois, a manipulação da opinião pública, especialmente dos segmentos menos instruídos e por essa razão mais vulneráveis à demagogia, com a massificação de inverdades como a de que o governo Fernando Henrique legou ao País uma "herança maldita". A partir daí, aprendida a lição, Lula e seu partido passaram a defender e praticar, sem constrangimentos, exatamente o contrário do que originalmente pregavam. Se antes, na oposição, o Plano Real tinha que ser combatido, agora, para manter o poder, é bom continuar aplicando seus princípios (sem admitir isso publicamente, é claro); se antes, na oposição, as oligarquias políticas do Norte e Nordeste eram duramente condenadas, agora, para manter o poder, é melhor a elas se associar; se antes, na oposição, qualquer deslize dos administradores públicos era implacavelmente denunciado, agora, para manter o poder, melhor fingir que isso não é nada, coisa pouca, meros desvios.

É impressionante, aliás, a mudança de atitude do inspirador e principal operador desse projeto de poder. Lula, que antes de chegar ao Palácio do Planalto tinha ataques de virtuosa indignação diante de atos de corrupção no governo, uma vez no poder varreu para debaixo do tapete os "erros" cometidos por seus aliados e colaboradores, frequentemente sob suas barbas, quando não lhes passou a mão na cabeça. Não há registro no noticiário, durante toda a era Lula, de uma vez sequer que o presidente tenha vindo a público para condenar explicitamente a corrupção no seu governo ou em sua base partidária - e não foi por falta de escândalos. O máximo a que se permitiu foi a tentativa de desqualificar acusados com o debochado apodo de "aloprados". Toda sua teatral indignação, todo o ímpeto de sua revolta, Lula reservou para atacar quem, por dever de ofício, tem denunciado a falência ética de seu governo: a imprensa.

De qualquer modo, o projeto de poder de Lula chega hoje a um ponto decisivo. O chefe do PT colherá os frutos do que plantou, por um lado, com seus acertos e, por outro, com a extraordinária esperteza que revelou para se manter imune aos efeitos negativos de qualquer tipo de desacerto, especialmente aqueles provocados pela concupiscência da companheirada. Blindado pela imagem do trabalhador de origem humilde que não se intimidou diante da perfídia das elites e logrou o feito histórico de "colocar o povo no poder", descansa agora o presidente na expectativa de sua maior recompensa. O que virá as urnas o dirão. Há que respeitá-las. Mesmo que o maior efeito dessa festa democrática venha a ser uma enorme ressaca para a consciência cívica do Brasil.

Palhaços somos nós, os eleitores

Ruth De Aquino, Revista Época

Vamos encher o bolso de parlamentares ignorantes em troca de ideia nenhuma. É para ficar tiririca da vida

Mulher laranja, humorista analfabeto e jogador de futebol aposentado são alguns ingredientes de nosso circo eleitoral. Poderíamos rir se não fôssemos coprotagonistas dessa tragédia burlesca. Porque, no fim, vamos eleger mulheres barbudas, palhaços e anões. Vamos pagar suas contas e encher mais ainda seus bolsos em troca de ideia nenhuma. No centro do picadeiro, estão os juízes do STF, que, por omissão ou indecisão, não conseguiram exigir ficha limpa dos candidatos antes da eleição. Contribuem assim para o voto inconsciente.

“Vou defender aquela corrupção”, disse Weslian, casada há meio século com o ex-governador do Distrito Federal Joaquim Roriz. Ela tropeçou nas palavras. Ou talvez tenha derrapado em seu convívio com um marido malabarista, que tudo faz para não perder a boquinha política. Primeiro, Roriz renunciou ao Senado para não ser cassado em processo por corrupção. Depois, com a aparente moralização do processo eleitoral em 2010, renunciou à candidatura porque não se enquadrava na Ficha Limpa. Botou em seu lugar a mulher. Roriz diz: vocês verão a minha foto, mas Weslian é que será a candidata. Vocês vão votar nela, mas é como se o candidato fosse eu. Elementar. Mesmo quem não cursou o ensino fundamental compreende.

Madame Roriz não é uma inocente útil. Como tampouco o é Tiririca, o palhaço que só sabe rubricar seu nome e nunca votou na vida. Na reportagem de capa de ÉPOCA da semana passada, ele disse: “Minha mulher lê pra mim”. A principal plataforma de Tiririca é “ajudar muito o lance dos nordestinos”. Mas ele não sabe como: “De cabeça, não dá pra falar”. Suas maiores credenciais são: “Venho de baixo” e “Tô entrando de coração”. Embora analfabetos sejam inelegíveis pela Constituição, a Justiça de São Paulo preferiu não colocar à prova se o palhaço sabe ler e escrever.

O craque Romário, milionário e malandro, às vezes detido por não pagar pensão alimentícia à ex-mulher e aos filhos Moniquinha e Romarinho, nem tentou driblar a galera, inventando um programa de ideias. O ídolo e goleador prometeu usar o futebol para integrar as crianças carentes. Como deputado federal, conseguirá a façanha jogando futevôlei nas praias da zona nobre do Rio?

Nenhum desses três candidatos é inocente – e como algum deles seria útil? Se Tiririca tem potencial para superar 1 milhão de votos como deputado federal apenas por sua popularidade e pelo slogan “Pior do que tá não fica”, é porque palhaços somos nós, os eleitores brasileiros. O único jeito, num país onde o voto continua sendo infelizmente obrigatório, seria uma forte campanha pelo voto consciente. Mas a quem a consciência interessa? A Câmara lançou uma radionovela, alertando para o poder do eleitor de escolher bem seus representantes e fiscalizar o trabalho dos eleitos. O detalhe é que a maioria dos brasileiros nem sequer sabe o que faz um deputado estadual, federal ou senador.

O voto consciente é solapado quando dez juízes, ganhando mais de R$ 26 mil por mês, não conseguem decidir, antes da eleição, se a Lei da Ficha Limpa já vale neste ano ou não. É imoral não exigir de candidatos a cargos públicos o mesmo passado sem nódoas, a mesma integridade que se exige de um cidadão comum. Se bem que, a julgar pelas palavras de Lula em junho do ano passado em defesa do presidente do Senado, José Sarney, alguns homens são menos comuns que outros e merecem tratamento especial.

A Lei da Ficha Limpa foi aprovada, a sociedade aplaudiu, acreditou e, agora, por uma firula jurídica, às vésperas da eleição, o presidente do STF, ministro Cezar Peluso, se diz incapaz de desempatar a indecisão do Supremo. A omissão confunde eleitores já confusos e abre caminho para processos e recursos de candidatos suspeitos de falcatruas. Para culminar o vexame, um vídeo mostra um advogado, genro do juiz do STF Carlos Ayres Britto, em negociação a peso de ouro com Roriz para livrá-lo da pecha de ficha suja. O acordo não chegou a ser firmado. Mas isso sim é um deboche, que deixa o Brasil tiririca da vida.

É o fim de um caminho

Dora Kramer - O Estado de S.Paulo

O resultado da eleição de hoje é incerto, não se sabe se amanhã a campanha recomeça ou se estará decidida a sucessão do presidente Luiz Inácio da Silva, mas uma coisa é certa: a atual campanha presidencial foi a mais esquisita, para não dizer bizarra, de todas as eleições desde a redemocratização.

Inclusive por suas contradições. Por exemplo: foi a menos politizada de todas e, no entanto, a primeira em que a sociedade interferiu concretamente para que fosse tomada uma providência contra os políticos de vida pregressa duvidosa, os chamados fichas-sujas.

Não dá para dizer que não houve avanços se gente que antes circulava de cabeça erguida a despeito do peso da folha corrida, dando de ombros e se lixando, agora está moralmente condenada em praça pública.

Uns renunciaram, outros se expuseram ao vexame de recorrer a "laranjas", muitos perderam votos com a exposição negativa e nenhum deles terá os votos computados hoje. Em princípio esses votos serão considerados nulos.

Posto o monumental ganho, vamos às constatações menos positivas a respeito da campanha que se encerra.

Verdade que, cada qual a seu modo, os candidatos desta vez eram verdadeiros breves contra a luxúria eleitoral.

José Serra, prontíssimo para o cargo, mas zero à esquerda em matéria de "appeal", carisma, borogodó, tenha o nome que for aquilo que atrai e mobiliza as pessoas.

Marina Silva fala de coisas modernas, é elegantíssima nos modos, na fala e no pensamento, põe os dedos em algumas feridas com precisão. Mas o faz com tal delicadeza e adjetivação vã que se torna inaudível e ininteligível.

Plínio de Arruda Sampaio tenta fazer o démodé transgressor, mas o personagem morreu com Leonel Brizola, que o encarnava com charme intransferível.

Dilma Rousseff por enquanto não é nada além de uma criação de Lula, dos conselheiros de forma e conteúdo, do cabeleireiro Celso Kamura. Ensaiada, quando livre parece rude.

Com esse plantel não daria mesmo para se produzir um grande espetáculo. Mas saiu pior que a encomenda. O presidente Luiz Inácio da Silva institucionalizou a transgressão. A oposição a rigor não disputou porque quando entrou em campo o jogo ia longe, e tudo isso já é bem sabido.

Um ponto a respeito do qual pouco se falou e que salta como um dos grandes fiascos da temporada são os debates de televisão. Os candidatos não ajudam? Não, mas o modelo tampouco favorece a um real embate de pensamentos, estilos e personalidades.

Os marqueteiros mandam em tudo. Impõem os interesses dos clientes que jogam com medo de errar e sem vontade de acertar (o fígado do oponente).

Em nome do bom-mocismo, os candidatos estão fingindo que debatem, as emissoras fazendo de conta que promovem debates e o eleitor/telespectador fica no "ora, veja"; feito bobo, até tarde, esperando que aconteça alguma coisa que altere aquela situação totalmente artificial.

Trata-se definitivamente de um modelo esgotado, um formato a ser repensado e remodelado, na próxima eleição, sob pena de caírem em desuso por desinteresse no uso.

Comparativo.
Segundo o TSE, 3.162 candidatos tiveram o registro negado pelos tribunais eleitorais, sendo que, destes, 1.248 ainda estão pendentes na instância superior.

Em 2006 o número de candidaturas indeferidas foi de 1.563. Outros 1.030 renunciaram à postulação, somando 2.593 candidatos.

Se todos os vetados agora forem impugnados em definitivo, terá havido aumento, mas não muito grande, de candidaturas tidas como inaptas depois da aprovação da Lei da Ficha Limpa.

Assim é.
No debate da TV Globo, quinta-feira, ao fim das considerações finais de cada candidato, as "torcidas" saudaram com palmas as manifestações dos respectivos candidatos. Menos os tucanos. Ficaram em silêncio não se sabe se por excesso de apreço ao veto a manifestações da plateia ou por escassez de entusiasmo.

O segundo turno, os futurólogos, os marqueteiros, as pesquisas e o jornalismo

Reinaldo Azevedo

Como digo há tempos aqui, eu não sei se vai haver segundo turno; havendo, não sei quem vai ganhar as eleições. As minhas “previsões” - e o arquivo está aí, pode ser acessado a qualquer momento - se voltam para o processo, para o sentido em que vai a carruagem, sempre lembrando que pode haver surpresas a cada curva e que o indeterminado exerce papel importante na história. Quem deu para fazer previsões nos últimos tempos foram os responsáveis pelos institutos de pesquisa. Como essa gente é loquaz!

A exemplo dos juízes, deveriam se manifestar só nos autos - no caso deles, os números que apuram. Mas não! Falam pelos cotovelos: dão os números - o que confere às suas opiniões o peso de uma ciência - e, em seguida, passam a fazer especulações, algumas as mais vexaminosas. E ai daquele que se aventurar a contestá-los! Afinal, eles são “especialistas”. Uma conclusão à margem neste parágrafo para voltar ao leito do pensamento: RESPONSÁVEIS POR PESQUISAS DEVERIAM SE IMPOR SILÊNCIO OBSEQUIOSO. Ou, então, parem de fingir que há ciência nos seus chutes.

Não sei se vai haver segundo turno; havendo, não sei quem vai ganhar. O que sei é que nenhuma outra eleição foi “decidida” com tanta antecedência na imprensa. Antes que fale desse oba-oba indecoroso, cumpre fazer uma ressalva: a imprensa, mesmo a mais xucra, não é de todo culpada. Falo um pouco a respeito nos dois parágrafos seguintes.

Reféns das pesquisas
As campanhas políticas ficaram reféns de duas categorias: as pesquisas de opinião e os marqueteiros. Elas diziam que o eleitor queria continuidade, e eles passaram a oferecer continuidade aos eleitores… O confronto se deu, então, entre a “Continuidade de Exaltação” e a “Continuidade de Superação”. Dilma elevou às alturas as conquistas que seriam obra exclusiva de Lula, e Serra afirmou que é possível avançar num ritmo mais acelerado.

É claro que isso despolitizou a disputa. Essa despolitização permitiu que um discurso incompreensível como o de Marina ganhasse relevo. Não há cristão - ateu ou agnóstico - que saiba o que, afinal de contas, ela faria se eleita; a proposta sua mais concreta de que me lembro é a criação de “novos materiais” (!?!?!?). Não importa! Ela parece falar em nome de alguns valores; é fato que ninguém entendeu direito quais são. Se seu discurso, no entanto, é bem-recebido por uma fatia razoável do eleitorado, é de se supor que exista uma demanda reprimida por política - qualquer uma… Ainda que o jornalismo político quisesse fazer uma cobertura analisando propostas, a tarefa seria dura. A VEJA traz hoje uma capa emblemática: “As grandes propostas para o Brasil feitas na campanha presidencial”: uma folha em branco.

A cobertura jornalística
Mesmo num confronto que não privilegiou propostas ou idéias, a cobertura da imprensa foi, com as exceções que sempre existem, pífia. Dilma tinha ainda 5% ou 6% dos votos, e as tais pesquisas diziam que a maioria dos eleitores brasileiros votaria ou poderia votar num candidato indicado por Lula. E essa “verdade” pautou desde sempre a cobertura. Quando Dilma finalmente ultrapassou Serra nas pesquisas - o que só aconteceu em julho, embora se esperasse por isso desde o fim do ano passado -, deu-se a eleição por encerrada. Os mais óbvios nem se constrangiam em dizer: “A menos que surja um fato novo”.

Ora, o mundo só é tão antigo e conhecido por causa dos… fatos novos, entendem? Sem as invasões de sigilo, o escândalo Erenice e a polêmica do aborto, Dilma já estaria eleita ou não? Repito: não sei se vai haver segundo turno; havendo, não sei quem vai ganhar. O que sei é que tudo o que está na história é um dado que compõe a história. Tautológico? Pode ser. Mas se torna necessário declarar o óbvio nos dias que correm. No mínimo, é preciso ter um pouco mais de cuidado. Ainda que Dilma vença as eleições logo mais, isso não elimina o fato de que esta eleição foi marcada por um péssimo comportamento dos institutos de pesquisa - e, nesse caso, refiro-me àqueles que não são comprados; os de aluguel estão praticando banditismo faz tempo - e do jornalismo político.

Quem não se apressou em cravar previsões - “Dilma já ganhou no primeiro turno” - optou pela certeza decorosa, aquela a que já me referi: “Salvo fato novo…” É evidente que nada disso é irrelevante no jogo político. A história de que pesquisas são meros termômetros é mentirosa: seus números facilitam ou dificultam alianças, acabam ditando o comportamento dos palanques regionais, têm influência estupenda na arrecadação de fundos de campanha e criam marés de notícias positivas ou negativas. Ora, Dilma comia poeira, lá atrás, mas o tom do noticiário era um só: “Vai mudar”, e é claro que isso criava facilidades para a candidata. Serra tinha folgada vantagem, e o tom do noticiário era um só: “Vai mudar”, e é claro que isso criava dificuldades para o candidato. Quando mudou, bastou para que se decretasse: “Acabou!”, e isso passou a ser considerado no texto da maioria dos analistas um “dado da realidade”, coisa conhecida.

No Datafolha, Dilma chega ao dia da eleição com a mesma porcentagem de votos válidos que Lula tinha em 2006, quando a disputa foi para o segundo turno. Há uma coisa diferente: há quatro anos, o jornalismo político não chegou tão longe na “antecipação” da história como agora. E não tentou resolver a eleição sem o concurso do eleitor.

''Nós somos a opinião pública''

Miguel Reale Júnior, Alerta Total

São repetidas as queixas de Lula de que as forças de oposição, compostas pelas elites, não admitem que um peão de fábrica tenha assumido a Presidência e alcançado sucesso. Essas queixas misturam ressentimento e vaidades. Basta lembrar, por exemplo, o que Lula disse, em maio de 2006, aos moradores de palafitas em Manaus: os adversários deviam "aprender" que um metalúrgico, com o quarto ano primário e curso do Senai, é capaz de fazer "muito mais do que eles neste país", pois a sabedoria do ser humano não está na quantidade de anos na escola, mas na "capacidade do sentimento".

Em julho de 2007, em Cuiabá, Lula comparou seus opositores aos mesmos que levaram Getúlio Vargas ao suicídio, setores da "elite" cuja raiva contra seu governo deriva da ação em favor dos pobres. Em fins de agosto de 2007, no Paraná, via a "campanha da imprensa" que o atingia como fruto da soma de duas "doenças malignas", a inveja e o preconceito.

Uma das espertezas da propaganda política está em colar à figura dos adversários a marca de inimigos do povo, que, para Lula, são os partidos de oposição e a imprensa reveladora dos podres do governo.

Há poucos dias, todavia, Lula extrapolou o plano das queixas e das acusações aos adversários, que de forma já imprudente vem qualificando como inimigos do povo, ao dizer: "O que eles não se conformam é o pobre estar conseguindo enxergar com os seus olhos, não precisa do tal do formador de opinião pública. Nós somos a opinião pública e nós mesmos nos formamos."

Essa manifestação levou à imediata reação da OAB, por meio do seu presidente, Ophir Cavalcanti Filho, bem como de entidades de imprensa e de representantes da sociedade civil, que proclamaram a importância da liberdade de expressão, que compreende a de informar e a de criticar, para abertamente se formarem as convicções políticas.

Ao afirmar Lula que não são precisos os formadores de opinião, pois "nós somos a opinião pública", desfaz-se o relevo do pluralismo de ideias, da diversidade de posições a serem suscitadas pelos chamados "formadores de opinião", que só existem onde houver ampla discussão e multiplicidade de perspectivas, com exame das contraposições e reflexão. Contra o pluralismo característico dos formadores de opinião, apresenta-se então uma verdade monolítica, única, que brota espontaneamente do povo, como uma comunidade orgânica homogênea: "A opinião pública somos nós."

Assim, para Lula, o povo forma-se a si mesmo e é o seu próprio porta-voz. Lula autoproclama-se o lídimo representante do sentimento deste povo, sentimento que sabe captar, pois já dissera, com razão, que a sabedoria se faz não só com estudo, mas com sentimento. Esquece, contudo, que sabedoria também não se alcança apenas com sentimento.

Agora, no calor da disputa eleitoral, almeja traduzir a forma de sentir desse povo de pobres que enxerga com os próprios olhos e torna dispensáveis os formadores de opinião. Para Lula, a opinião pública brota por obra de uma revelação natural do povo sobre o certo e o errado e acerca dos caminhos para a consecução do bem de todos. Com essa compreensão da via política construída de modo imanente a partir do próprio povo, cria-se uma perigosa estrada para um autoritarismo populista, que o século passado revelou de modo trágico.

No nazismo entendia-se que povo engendrava uma unidade incindível, na qual os indivíduos formam uma coletividade concreta, participando de um mesmo espírito objetivo que penetra e abraça a todos. O Führer, como o condutor da comunidade, encarna o espírito objetivo, o "são sentimento do povo".

O historiador italiano Emilio Gentile descreve o fascismo como a mobilização popular por meio de um partido único e de um chefe carismático que faz do uso racional do irracional a forma de uma política de massas que visa a privar as pessoas de sua individualidade como elementos celulares de uma coletividade nacional. O fascismo, diz Michel Winock, professor do Instituto de Estudos Políticos de Paris, detém a verdade, exclusiva, inconciliável com qualquer outra perspectiva e, portanto, hostil ao pluralismo.

Com certeza Lula, cujas inteligência e sensibilidade compensam a falta de estudo, sabe usar racionalmente o irracional, mas talvez não dimensione as consequências da guerra aberta deflagrada a partir da posição de presidente da República, com menosprezo ao pensamento, ao direito de crítica, ao jornalismo investigativo denunciante de graves irregularidades de seu governo, que transforma em golpismo, para legitimar uma verdade única a brotar como força viva de uma sociedade de pobres que se forma a si mesma e da qual é a encarnação como líder populista.

A consequência ficou patente na campanha. Os blogs pró-Dilma adotam desabrido maniqueísmo ao propagar que votar no PSDB/DEM é estar "contra o País" e do lado dos inimigos que devem ser expurgados. Na mobilização contra a imprensa surgem ameaças a jornalistas e promessas de retaliação a revistas e jornais qualificados de golpistas por terem divulgado matérias contra o PT ou sua candidata. O clima é de ódio e violência.

Estão aí lançados os ingredientes de uma receita de autoritarismo populista que terá Lula como condutor e Dilma como coadjuvante, sem força para manobrar os radicalismos despertados.

Mas se Dilma, eleita, não quiser ser apenas coadjuvante? No jogo entre sentimento de inferioridade intelectual e orgulho de sua passagem pela Presidência, Lula já disse que a partir de janeiro vai estudar novamente ou ensinar a governar. Longe do Planalto, Lula poderá, talvez, confrontar-se com Dilma presidente ao pretender dar lições de como governar. Será um conflito entre presidentes: a que é e o que não deixou de ser por sua popularidade e gosto do poder. Assim, o risco de um autoritarismo populista remanesce duplicado.

(*) Miguel Reale Júnior é Advogado, Professor da Faculdade de Direito da USP e ex-ministro da Justiça. Artigo originalmente publicado no Estadão de 2 de outubro de 2010.

A Nação Tiririca

Waldo Luís Viana (*), Alerta Total

“Nesta eleição, nem mesmo cristo querendo me tira dessa vitória.” (Dilma Rousseff)

Os últimos acontecimentos da campanha presidencial demonstram a exaustão do modo petista de fazer campanha. Havia no governo e entre os partidários a convicção de que viveriam num céu de brigadeiro, com a candidata escolhida alcançando quase toda a popularidade do presidente, exibida nas pesquisas. No entanto, tal não aconteceu. Em alguns estados, ela vem caindo a olhos vistos e os petistas mais afoitos já pararam até de repartir ministérios...

Numa eleição anômala, plebiscitária, com quase todos os candidatos interpretando uma vertente do pensamento de esquerda, a equação esperta era a de que a candidata biônica iria subir exponencialmente, bastando para isso que o povo tomasse conhecimento de que era indicada pelo presidente para a sucessão. Infelizmente, essa correspondência não se expressou devidamente em pesquisas internas e qualitativas, como demonstram os institutos mais independentes.

Daí o aumento de tom nas hostes petistas, a começar pelo presidente, em Joinville, tentando reverter tendências regionais, com xingamentos a líderes da oposição e expressão do desejo fascista de extinguir pura e simplesmente um dos partidos que não reza segundo a cartilha presidencial. De outro lado, o velho, sempre útil e consagrado ex-chefe da Casa Civil, saindo das sombras, veio afirmar que a liberdade de imprensa no país é excessiva e precisa ser “domada” para não causar problemas.

Esses fatos eleitorais encobrem certa falta de cavalheirismo (fiquemos no eufemismo) de quem estaria unido e coeso em torno da certeza de vitória no primeiro turno. Outro resultado que não esse poderia ser fatal para o esquemão do governo, com cargos estatais a defender e a ideologia disfarçada (ainda) do Foro de São Paulo por continuar.

Entre os formadores de opinião, perplexos com as manifestações suspeitas de quebra de sigilo fiscal e peripécias do manjado tráfico de influência na Casa Civil e o povo mais pobre, anestesiado e agradecido ao grande chefe pelo bolsa-família e outras benesses, encontra-se a maioria silenciosa, que vem demonstrando muito dissabor com os rumos da campanha.

A perspectiva de um comediante obter 1 milhão de votos para deputado federal, em São Paulo, e eleger mais dez vagas dentro de seu partido (a chamada “bancada tiririca”), traz aos cidadãos responsáveis um sofrimento a mais que não pode mais ser disfarçado. Esse segmento sabe até que o palhaço tem razão: “pior do que tá num fica!” E o humorista não veio nem para explicar nem para confundir: apenas nos confirma que os “abestados” somos nós.

Enfim, temos o que governo sempre desejou: a burrice no poder. Quem mandará em nosso mundo serão os milhões de analfabetos funcionais, os que brevemente haverão de abocanhar as cotas nas universidades públicas. Uma inclusão de incompetência, transformada em deboche, sem qualquer premio Nobel. O povo deseducado, afinal, é o fermento das eleições petistas bem-sucedidas e da manutenção de seu poder.

No velho regime militar (eu me lembro), todo mundo tinha medo da política e só falava em futebol. Reinava uma tecnocracia, hipócrita e asséptica. Agora, infelizmente, é bem pior: se você discordar dos mandantes de plantão terá provavelmente o sigilo quebrado, a vigilância policial sobre você e até a ameaça de virar nome de parque.

Desde os tempos de Celso Daniel até Yves Hublet, longos desdobramentos históricos de suspeitas, assassinatos e cumplicidade têm sido objeto de surdo protesto de muitos cidadãos, com o correspondente descaso de nossas autoridades. Os malfeitos e as lambanças têm sido movidos para debaixo do tapete. Vide o mensalão do PT...

No Brasil, infelizmente, estamos assistindo à formação de um fascismo burro e búlgaro, baseado na continuação do culto à personalidade, com Lula e Dirceu no coração, ponto eletrônico no ouvido e gordas comissões, agora em pastas e bolsas de griffe.

Um regime típico de perseguição aos denunciantes e de blindagem dos denunciados, considerados sempre os coitadinhos. Em tal estado de coisas, o suspeito, safado e corrupto, torna-se, inexplicavelmente, vítima de calúnia e do desespero de quem denuncia.

Quem não conhece os expedientes protelatórios na Justiça para manter a garantia de que tudo no final vire mera piada de salão e motivo de distribuição de renda entre advogados ricos?

Porém – é necessário que se diga – há uma peninha: o governo, que esgotou prematuramente os coelhos da cartola e se vê acuado, precisa ganhar no primeiro turno de qualquer maneira, para não exibir sinais de fraqueza.

Não pode confessar, mas sabe, no íntimo, que a candidata-ventríloqua não tem fôlego político, nem físico, para aguentar a pressão de um segundo turno, que é outra eleição! Ao mesmo tempo, o presidente vem se expondo sem cautela e utilizando a máquina pública para defender a candidata, sem o menor pudor pelo cargo que ocupa.

E alguns de nossos juízes e procuradores também fazem parte dessa maioria silenciosa e são capazes, quem sabe!, de responder corajosa e surpreendentemente ao Estado policial em que vivemos.

A primavera vem aí, com seus encantos e sortilégios, apesar de todos os tiriricas da vida... E é cedo demais para dizer que nem Cristo tira a vitória da candidata petista. A história mostra-nos que as pretensas unanimidades são companheiras inefáveis de erros fatais. Sem contar que o último que disse ser mais popular que Jesus Cristo teve o destino que todos conhecem...

Quem sou eu para desejar ou sugerir tais vaticínios, mas sei que os que vencem são aqueles que sabem calçar verdadeira e sinceramente as sandálias da humildade. E este parece, sem dúvida, não ser o caso da candidata do governo.

Nossa nação tiririca, (in)felizmente, não é para principiantes...

(*) Waldo Luís Viana é escritor, economista, poeta e vai escrever até quando as patrulhas petistas intervierem de vez na Internet. Ele teme que o poder institua, na prática, a frase célebre do Beira-Mar: “tá tudo dominado!” e – convenhamos – não estamos longe disso... Esse artigo é uma singela homenagem à socióloga Maria Lúcia Victor Barbosa.

Segundo turno

Fernando Henrique Cardoso - O Estado de S.Paulo

A campanha eleitoral termina sua primeira fase como se estivéssemos escolhendo entre duas ou três pessoas em razão de suas diferentes psicologias, grandes feitos, pequenas fragilidades pessoais ou o que mais seja. E não porque representam caminhos diversos para o País.

O governo de Lula e do PT iniciou-se disposto a exercer o papel de renovador da política e da ética. Termina abraçado com a despolitização e o clientelismo. Ser pragmático é o que conta; ter bons índices de popularidade, aproveitar as águas calmas de um produto interno bruto (PIB) em ascensão para distribuir benesses para todos os lados, fazer discursos inconsistentes, mesmo que chulos, para agradar a cada audiência. E, sobretudo, criar muitas imagens, registrando desde o ridículo até o sublime. Lula, na Bolsa, autodefinindo-se como sumo sacerdote do capitalismo financeiro global representou o coroamento de uma trajetória. Como se de suas mãos escurecidas de petróleo brotassem ações ricas em dividendos futuros, e não do esforço árduo de gerações de trabalhadores, técnicos e políticos para viabilizar a Petrobrás como uma grande companhia, da qual todos nos orgulhamos.

Por trás das máscaras dos candidatos, contudo, existem opções reais. Se elas se apresentam desfiguradas pelas técnicas mercadológicas, nem por isso deixam de representar distintas visões do País e interesses diversos. É por isso que, diga-se ou não, o dia de hoje é marcante. Em primeiro lugar, porque, a despeito de o chefe da Nação ter-se comportado como chefe de facção, chegando a falar em extermínio de adversários; apesar da massa de recursos mobilizada em propaganda direta ou indireta, com as cornucópias públicas a jorrar rios de anúncios sobre "grandes feitos"; em que pese o personalismo imperial do presidente em sua verborreia incessante; não obstante tudo isso, com certeza pelo menos 40% dos eleitores não se dispõem a coonestar tal estado de coisas. E é pouco provável que os que ainda pendem para o outro lado alcancem hoje os 50% mais um dos votos válidos. A tentativa plebiscitária do "nós bons versus eles maus" não colou, a menos que se condene metade do País ao infortúnio de uma qualificação negativa perpétua.

Em segundo e principal lugar, o dia de hoje é importante porque abre um caminho para a convergência entre os que resistem ao rolo compressor do oficialismo - o PSDB com José Serra e o PV com Marina Silva. Temos em comum a recusa ao caminho personalista e autoritário. Rejeitamos a ideia de que esse caminho seja o único capaz de trazer progresso econômico e bem-estar social. Sabemos que, juntamente com o que de positivo possa haver sido alcançado nos últimos oito anos, houve também a penetração avassaladora de interesses partidários na administração pública. Também nela penetraram os interesses de grandes empresas, fundos de pensão e sindicatos. São esses os atores que, em aliança oportunista, dão sustentação à ideia de que é o Estado o motor do crescimento econômico. Os que resistem ao rolo compressor acreditam que o antídoto para esses males é o fortalecimento das instituições, o respeito às regras legais e a afirmação de lideranças que não dividam o País entre "eles" - os maus - e "nós" - os bons.

Não é pouca coisa, portanto, o que está em jogo. Segundo o mantra oficial, a disputa política estaria resumida a dois blocos. No primeiro estariam os que estão comprometidos com o interesse popular, com o bem-estar social e com a defesa dos interesses nacionais pelo Estado. No segundo, os "moralistas", que só se preocupam com o mundo das leis e com a honestidade na política porque já estão bem na vida. Vencendo o primeiro, o povo se beneficiaria com a distribuição de renda, as bolsas, emprego abundante, etc., e o País, com mais investimento e com a ação estatal para incentivar a economia. Vencendo o segundo, prevaleceriam os interesses dos que não olham para "o andar de baixo", na metáfora expressiva, embora incorreta, e podem se dar ao luxo de exigir formas corretas de conduta.

É preciso recusar essa visão distorcida do País. Na verdade, ele tem vários andares, e um ou mais elevadores que sobem e descem. Há mobilidade social e mobilidade política. O que hoje pode ser visto como "moralismo" amanhã pode tornar-se aspiração de todos os andares. É esta a batalha a ser travada. Não denunciamos a corrupção, o clientelismo e a ineficiência por "moralismo", mas, sim, para mostrar, em nome da justiça social, o quanto os andares de baixo perdem com a ineficiência, a corrupção e o clientelismo. Não aceitamos que os defensores do patrimônio público ou os que denunciam o abuso do poder político sejam, por isso, chamados de elitistas. Haverá mais, e não menos, inclusão social e desenvolvimento, quanto mais eficiência houver no governo e decência, na vida pública.

A votação de hoje provavelmente nos levará ao segundo turno. Nele será indispensável mostrar que o PSDB não apenas foi decente, como também fez muito pelo social quando foi governo. A começar pela estabilização, que é obra do nosso governo. Fez e está credenciado a fazê-lo novamente, junto com Marina, porque sabe que não há desenvolvimento de longo prazo sem sustentação ambiental.

Sem se arvorar em ser o único portador desses valores, é isto que Serra representa: a recusa da confusão entre malandragem e proximidade com o povo, entre abuso estatal no controle da economia e ação vigorosa do governo no manejo das políticas econômicas e sociais. O dia é hoje, a hora é agora, para começar a construir um futuro melhor: o País merece um segundo turno no qual o confronto aberto entre os contendores dê aos eleitores a oportunidade de ver as diferenças entre os caminhos propostos, encobertas até aqui pela rigidez das máscaras mercadológicas.

O Tiririca letrado

Guilherme Fiúza, Revista Época

Tem muita gente zangada com o palhaço Tiririca, dizendo que ele avacalha a eleição. Pode ser. Mas tem palhaçada pior.

Tiririca, que mal sabe lidar com o idioma, estaria debochando da democracia com sua ignorância. Já Plínio de Arruda Sampaio, o presidenciável do PSOL, vem espalhando por aí sua ignorância letrada. É mais nocivo.

Plínio tomou para si o papel de bobo da corte do capitalismo. Às vezes é até engraçado. O problema é que muita gente se confunde, e o leva a sério.

Como se viu no debate da TV Globo, o candidato do PSOL está se movendo numa raia, por assim dizer, sub-brizolista. Leonel Brizola ficou famoso por eleger e martelar bordões sonoros, como as famigeradas “perdas internacionais” – que viravam palavra de ordem sem significar nada.

Plínio repete a tática, propondo por exemplo que o Brasil deixe de pagar a dívida externa para resolver o déficit de saneamento básico. Uma equação economicamente analfabeta, jogada no ar com a leveza de quem não tem chances de ser eleito.

Melhor seria se plataformas malucas viessem só do Tiririca, o palhaço de verdade.

Mas Plínio de Arruda Sampaio disfarça seu embuste com o verniz intelectual que a educação burguesa lhe deu, semeando voluntarismo e ignorância nas mentes jovens que ainda se impressionam com sua retórica.

A dívida externa já foi um problema grave, quando o Brasil tinha o nome sujo na praça e os vencimentos a curto prazo bloqueavam todos os créditos. Foi um drama financeiro, que o país levou muitos anos para superar, com planejamento e responsabilidade.

A bravata irresponsável de Plínio, advogando a volta ao calote, é uma palhaçada que não tem a menor graça.

O discurso de ruptura institucional do candidato do PSOL, com sua rebeldia juvenil (sic) contra o direito de propriedade, contra a imprensa e tudo o mais que siga a “ordem capitalista”, soa pitoresco como folclore.

Para piada política de gosto duvidoso, porém, já temos o Tiririca.

Dúvidas do eleitor

Suely Caldas (*) – Agencia Estado

Os brasileiros irão hoje às urnas com uma visão turva sobre o que pretende fazer o futuro governante em ações econômicas de alcance mais abrangente para o País. Em campanha marcada pela multiplicidade de meios de comunicação engajados na eleição e o massivo e agressivo (bom e mau) uso da internet, os candidatos calaram em relação a temas fundamentais para o futuro do Brasil. Em compensação, foram pródigos em promessas. Casa própria, água e esgoto tratados para 100% dos pobres, aumentar o salário mínimo, ampliar o Bolsa-Família, criar milhares de creches, escolas e centros profissionalizantes, qualificar professores, construir hospitais e centros de atendimento à saúde em todos os municípios, eliminar prazos para consultas médicas e cirurgias, garantir segurança em favelas e áreas de risco, combater as drogas, etc... Enfim, promessas velhas para problemas velhos da parcela mais pobre, mais ingênua, mais desinformada e mais explorada por candidatos em campanha. De tão banalizadas e repetidas, são recebidas com desconfiança e ceticismo.

E sobre o que calaram os candidatos? Eles esconderam seus programas econômicos. Aqueles que, passado o pleito, são tratados com absoluta prioridade pelo vencedor, justamente porque miram diretrizes e ações mais importantes, definem prazos e cronograma de propostas ao Congresso e planejam as principais medidas do governo que será empossado em 1.º de janeiro.

O triunfo nas urnas é o que dá força política ao novo governante para executar ou fazer aprovar no Congresso propostas impopulares, mas absolutamente necessárias para fazer prosperar a economia e equilibrar as contas públicas. Convém, pois, delas tratar logo nos primeiros dias de governo. Foi assim com Fernando Henrique, em 1995, e com Lula, em 2003, embora os dois tenham recuado e conseguido muito pouco. É o caso das reformas política, tributária, previdenciária e trabalhista, que patinam há 16 anos e não são resolvidas.

A reforma política é a mais difícil, porque mexe em interesses de deputados e senadores que irão votá-la. Ao simplificar o emaranhado de impostos, a tributária é temida pelo governo federal, governadores e prefeitos que receiam perder arrecadação. A mais incompreendida, a previdenciária, enfrenta a oposição de idosos (que nem são atingidos), sindicatos de trabalhadores e funcionários públicos, todos gritando para o Congresso rejeitá-la. E a trabalhista, que poderia modernizar regras e incluir trabalhadores excluídos de direitos, é vetada por sindicatos. São todas impopulares, mas absolutamente necessárias.

Outro tema ignorado pelos candidatos na campanha é o que farão para remover os entraves que elevam o custo de produzir no Brasil. Aí sobressaem o investimento em infraestrutura, a despolitização das agências reguladoras, definição de projetos prioritários, marcos regulatórios bem construídos e regras estáveis para atrair o investimento privado. Hoje é comum navios esperarem semanas para desembarcar mercadorias, por insuficiência de portos bem equipados no País. Essa demora eleva o custo Brasil, o preço final dos produtos. A mesma carência existe em relação a rodovias, ferrovias e hidrovias. E o que fará o novo governante com a Lei de Responsabilidade Fiscal, tão enfraquecida no governo Lula? Ela ajuda a conter os gastos e equilibrar as contas do presidente, governadores e prefeitos. Haverá um programa organizado e com metas definidas para reduzir despesas públicas e redirecionar verbas para investimento em saneamento, por exemplo?

Aliás, no quesito gestão fiscal, a candidata com mais chance de vitória, Dilma Rousseff, é a que mais suscita dúvidas e preocupações. Ela acionará o freio para arrumar as finanças públicas e conter a explosão de gastos de custeio, a expansão acelerada da dívida, os aportes excessivos de dinheiro ao BNDES? Ou a busca frenética de popularidade política vai continuar alimentando ações irresponsáveis? E seu estilo intervencionista vai prevalecer para impedir o Banco Central de elevar os juros?

São dúvidas que o eleitor não teve esclarecidas para definir seu voto.

(*) Jornalista, é professora da PUC-RIO

Quem manda nesta coisa

Olavo de Carvalho, Mídia Sem Máscara

É esse o homem que hoje, diante de acusações mais que justas - e dirigidas nem mesmo a ele, mas à sua candidata -, choraminga, num show de autopiedade histérica, que levou mais chibatadas que Jesus Cristo e, ao mesmo tempo que clama pelo controle estatal da mídia.

As denúncias que hoje circulam contra o PT, e que tanto enfurecem o sr. Presidente da República, não se comparam, em número e virulência, às que o próprio PT espalhou na mídia e alardeou no Parlamento, ao longo de vinte anos, destruindo ou subjugando as lideranças políticas que pudessem se opor aos seus intentos.

Se hoje um Collor, um Sarney, um Maluf e inumeráveis líderes empresariais beijam a mão do presidente da República (como até o valentão Antônio Carlos Magalhães chegou a beijá-la pouco antes de morrer), é porque o partido dele lhes mostrou quem é o chefe, quem é que manda nesta coisa. E o mostrou a gritos e cusparadas, à força de acusações escabrosas, ameaças e escândalos fabricados, tão numerosos e persistentes que os anos 90 ficariam marcados como a década da bandalheira se depois não viessem o Mensalão, os dólares na cueca, os assassinatos dos prefeitos de Campinas e Santo André, etc. etc., reduzindo a corrupção anterior à escala de roubo de chicletes na cantina da escola.

Ao queixar-se da mídia, o sr. Presidente se esquece de que foi ela a sua principal aliada não só na destruição maciça de reputações perigosas, mas na construção da imagem do PT como paladino da justiça, sem o que jamais esse partido poderia ter chegado ao poder em 2002 nas asas da "Campanha pela Ética na Política", uma apoteose de denuncismo e moralismo hipócrita como raramente se viu.

Sem a transformação da mídia inteira em instrumento da indústria petista do escândalo, o sr. Presidente não teria chegado a ser o sr. Presidente: seria o derrotado de sempre até o momento em que seu partido, superando a repugnância da esquerda pela tradição udenista de combate à corrupção, descobriu o poder criador da difamação e da calúnia.

Longe de tratar o sr. Presidente a chicotadas, como ele se queixa, a mídia, que o criou, sempre procurou poupá-lo e afagá-lo. Vocês já se esqueceram do petismo desbragado da Globo, a mais poderosa rede de TV do País, onde até poucos anos atrás não se podia falar do "presidente operário" sem voz embargada e lágrimas mal contidas de comoção cívica?

Naquela época, o sr. Lula não falava de "mídia golpista" nem se queixava de que "oito famílias" monopolizavam a imprensa deste país. Ele deixava isso para os "radicais", para os jovens enragés que rosnavam no fundo do porão da esquerda, enquanto ele, apadrinhado e beneficiário número um do monopólio, brilhava no palco com a nova identidade tranquilizante de "Lulinha Paz e Amor", pronto a imitar mais tarde o discurso dos enfezados, quando o fim do segundo mandato lhe desse certeza de não precisar mais da ajuda dos protetores de ontem.

Em setembro de 2004 escrevi: "No tempo de Collor, a conversa vagamente suspeita entreouvida por um motorista indiscreto desencadeou a mais vasta investigação que já se fez contra um presidente. Hoje em dia, seis testemunhas mortas no caso Celso Daniel não abalam em nada a reputação de governantes ungidos pelo dom da inatacabilidade intrínseca."

Referindo-me às CPIs de 1993, quando os srs. Dirceu e Mercadante berravam acusações do alto das tribunas como se fossem reencarnações de Marat e Robespierre, prossegui: "É impossível não perceber, hoje, que tudo isso foi apenas um pretexto para aplanar a estrada para o PT, colocá-lo no poder e nunca mais fazer perguntas, aceitando dos novos patrões, com docilidade incuriosa e muda, condutas muito mais suspeitas e extravagantes que as de todos os seus antecessores."

Assim foi em todos os escândalos do governo Lula. Por mais que se revelassem os crimes dos aliados e colaboradores mais próximos do sr. Presidente, o cuidado obsessivo da mídia era um só: preservar a pessoa dele, aceitar como cláusula pétrea do jornalismo nacional a hipótese louca de que ele nunca, nunca sabia de nada.

É esse o homem que hoje, diante de acusações mais que justas - e dirigidas nem mesmo a ele, mas à sua candidata -, choraminga, num show de autopiedade histérica, que levou mais chibatadas que Jesus Cristo e, ao mesmo tempo que clama pelo controle estatal da mídia, diz que o exercício do mero direito de cobrar explicações do seu partido é "uma ameaça à liberdade de imprensa".

Vejam a enxurrada de livros investigativos que espalharam acusações temíveis contra Fernando Collor, contra os militares, contra o Congresso, contra as empreiteiras, e comparem-na ao destino do livro que ousou provar a responsabilidade do sr. Presidente no caso do Mensalão: "O Chefe", de Ivo Patarra, não encontrou um só editor com coragem para publicá-lo. Circula pela internet, como um sussurro proibido.

Liberto de adversários substantivos e elevado ao posto supremo da Nação pelos bons serviços da mídia, esse homem se acostumou de tal modo à subserviência da classe jornalística que já não suporta da parte dela a menor desobediência. E de nada adianta apelar à "opinião pública". Ele, e só ele, é a opinião pública.

Mas, afinal, quem criou as condições para isso foi a própria mídia. Invertendo o senso moral normal, que desprezava os medalhões de cabeça oca e louvava os pobres estudiosos, ela convenceu o país inteiro de que a coisa mais linda, mais louvável, mais meritória, é subir na vida permanecendo analfabeto. Se você cria um monstrengo desses, não tem muito direito de reclamar quando ele, inflado dos aplausos imerecidos com que você mesmo o alimentou, manda você calar a boca e proclama que quem manda é ele.

Segundo turno

Folha de São Paulo, Editorial

Nova rodada eleitoral propicia debate melhor e maiorias mais conscientes; teria vantagens tanto na eleição presidencial quanto no pleito paulista

O segundo turno nas eleições para a chefia do Executivo ocorre nas cidades com mais de 200 mil habitantes, nos Estados e na União quando nenhum dos candidatos obtém mais de 50 % dos votos válidos. O instituto do segundo turno foi um dos maiores acertos da Constituição de 1988.

Permite-se assim que o vitorioso tenha amplo respaldo e indiscutível legitimidade para governar. Evita-se o inconformismo que assolou, por exemplo, o início do governo Juscelino Kubitschek (1956-1960), eleito com apenas 36% dos sufrágios.

Ao mesmo tempo, tem sido o segundo turno -conjugado à evolução ideológica das últimas décadas- o motivo pelo qual as urnas vêm produzindo governos responsáveis e moderados no Brasil. Para vencer, qualquer candidatura precisa superar os limites de sua facção e atrair parcelas do majoritário centro político do eleitorado.

Nas eleições de hoje, cujo resultado, no que concerne à necessidade de segundo turno, permanece incerto, somam-se vantagens de ordem conjuntural àquelas inerentes a um novo escrutínio.

A candidata oficial, Dilma Rousseff, é franca favorita. Trata-se de personalidade pouco conhecida e jamais testada em cargo eletivo, prestes a assumir a vasta soma de poderes enfeixada pela Presidência. Sua provável vitória será robustecida pelo aspecto de aclamação em que poderá ocorrer e pela ampla maioria que decerto lhe será facultada no Congresso.

Mais uma etapa de exposição à controvérsia faria bem a uma candidata que parece chegar com demasiada facilidade, sobre os ombros da popularidade alheia, ao cargo máximo. Faria bem a um eleitorado submetido à frenética campanha movida pelo presidente Lula e à incompetência de seus oponentes para criar, nem se diga alternativa, mas real debate.

Raciocínio semelhante vale para a eleição paulista, onde a concentração de poder se dá no polo contrário, na forma de uma hegemonia tucana que perdura há mais de 15 anos. Aqui, um bom desempenho administrativo não tem sido imune a críticas fundamentadas, nem dissolve a sensação de mais do mesmo apontada no editorial abaixo.

A natureza do confronto entre dois finalistas compele a uma definição mais nítida de diferenças entre eles e permite ao eleitor consolidar sua opção ao examiná-los com mais rigor. O Tribunal Superior Eleitoral estima que o segundo turno presidencial custe R$ 50 milhões, num orçamento de R$ 480 milhões previsto para as eleições gerais deste ano. Gastá-los seria investir num resultado eleitoral mais maduro e consciente.

Se você não assina e só rubrica, vote Tiririca

Nelito Fernandes, Revista Época

Se você não assina e só rubrica, vote Tiririca

Se não sabe ler e se complica, vote Tiririca

Se a declaração do TRE você falsifica, vote Tiririca

Se fugiu da escola e não lê nadica, vote Tiririca

Se a tua fonte de conhecimento é na verdade uma bica, vote Tiririca

Mentiu pro tRE e vai dar zica? Vote Tiririca

Se a tua letra é uma titica, vote Tiririca

Se você vê um livro e se pinica, vote Tiririca

Assina com a digital e todo mundo implica? Vote Tiririca

Se o seu diploma você mesmo fabrica, vote Tiririca

Não fez o mobral, te dou a dica: vote Tiririca

Se para o mobral todo mundo Te indica, vote Tiririca

Se placa diz " siga" e você fica, vote Tiririca

Se mandam você ler e vc se trumbica, vote Tiririca

Estava escrito Congonhas mas você foi parar em Cumbica, vote Tiririca

Se na escola você não se aplica, vote Tiririca

Se te flagram na mentira e sua candidatura mica, vote Tiririca

Se a sua cultura não é rica, vote Tiririca

Trocou o livro por uma cuíca? Vote Tiririca

Só lê livro que tem figura que explica? Vote Tiririca.

(Esta notícia é fictícia e tem caráter meramente humorístico.)

Frases que marcaram a campanha de 2010

Blog do Noblat

5 de junho

“O material não era para informação apenas. Era para ser usado na campanha. Na hora, adverti que aquilo ia acabar virando um novo escândalo dos aloprados. (...)” - Onézimo Sousa, o delegado aposentado da Polícia Federal, procurado por aspirantes a aloprados do PT para espionar José Serra.

10 de junho

“É lamentável que o PT acabe refém de uma pessoa, que é o Lula. [Ele] tem os seus méritos, mas todo mundo tem algum mérito; virou caudilho no partido, manda, desmanda, decide, todo mundo obedece. Não dá!” - Sandra Starlinf, fundadora do PT, ex-deputada por Minas, ao se desfiliar do partido.

6 de julho

"Os partidos estão reclamando. Querem maior participação. O Serra vai sentar a cada 15 dias com essas lideranças e discutir os rumos da campanha" - Senador Sérgio Guerra, presidente do PSDB, empenhado em tentar enquadrar José Serra.

9 de julho

“Tudo vale a pena quando a multa é pequena." - Fernando Neves, advogado, ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral.

13 de julho

"Acho que é fácil montar nosso programa de governo. É só pegar o plano que o PT registrou no TSE e fazer tudo ao contrário”. - Paulo Bornhausen (SC), líder do DEM na Câmara dos Deputados.

18 de julho

“No futebol, o Brasil ficou entre os oito melhores do mundo e todos estão tristes. Na educação é o 85º e ninguém reclama." - Cristovam Buarque, senador do PDT-DF.

2 de agosto

“Eu só peguei crises financeiras. Lula, não. Eu criei ondas. Ele é um bom surfista.” - Fernando Henrique Cardoso.

4 de agosto

“Estamos aqui partilhando o pão, e queremos partilhar com vocês o próximo governo.” - Michel Temer (PMDB), vice de Dilma, em almoço com 38 senadores de vários partidos.

12 de agosto

“O presidente Lula, a meu modo de ver, é o melhor presidente que o Brasil já teve.” - Fernando Collor, candidato do PTB ao governo de Alagoas com o apoio de Lula.

11 de setembro

“A Erenice trabalha para quem? A Erenice não existe, Erenice é a Dilma.” - Indio da Costa, deputado do DEM, candidato a vice de Serra.

16 de setembro

“Por favor, o que significa FHC?” - Ravi Singh, o guru indiano que comandou parte da campanha de Serra na internet.

18 de setembro

“Não vamos derrotar apenas adversários. Vamos derrotar alguns jornais e revistas, que se comportam como partido político e não têm coragem de dizer que não são partido. O povo pobre não precisa mais de formador de opinião. Nós somos a opinião pública”. - Lula

21 de setembro

“Lula se apodera da campanha...Lula é, na verdade, o protagonista da campanha eleitoral e faz de cada ato uma clamorosa despedida”. - Do jornal espanhol El País.

24 de setembro

"Do que me acusam? Nunca avancei sobre o patrimônio público, nunca sujei minha mão na lama onde chafurdam os corruptos que infelicitam Brasília e o Brasil." Joaquim Roriz

Singer tenta voar no tempo: de Vargas a Lula

Pedro do Coutto, Tribuna de Imprensa

Num ensaio muito bem escrito, duas páginas da Folha de São Paulo, numa edição de domingo, o jornalista André Singer, ex-porta-voz do atual presidente, tenta um vôo no tempo, uma espécie de ponte histórica entre Vargas e Lula. Interessante o estilo, fascinante a história que parece ter presenciado, Brizola levando Luis Inácio da Silva a visitar o túmulo de Vargas em São Borja, criando um diálogo hamletiano entre o passado e o presente. Deve ter ocorrido em 98 quando o ex-governador do Rio de janeiro foi candidato a vice na chapa da figura maior do PT.

André Singer em seu extenso texto tenta desenvolver uma filosofia entre os caminhos dos dois líderes. Consegue em parte encontrar uma essência comum, a do arrebatamento das grandes massas. Mas comete equívocos. Quem se propõe a comparações de épocas tão diferentes está sujeito a cair nas armadilhas da História. Sobretudo Singer, moço demais, que não viveu a era Vargas. Um dos enganos é classificar Vargas de populista.

A criação da CLT, em 1943, a lei que terminou com o trabalho semi-escravo no Brasil é populista? Ou reformista? Creio que o jornalista da FSP não leu a Consolidação das Leis do Trabalho e não analisou seu significado numa época em que o capital não admitia o progresso social de forma alguma. A criação da Petrobrás foi populismo? A transformação da Itabira Iron em Vale do Rio Doce? A criação do IBGE? A implantação da Cia. Siderúrgica Nacional? O projeto da criação da Eletrobrás, encaminhado ao Congresso em 53, e que demorou dez anos para ser transformado em lei por João Goulart? A implementação da Previdência Social, muito mais custeada pelas empresas do que pelos empregados, foi populismo? Singer necessita informar-se melhor. Vargas, um ditador que acobertou a tortura contra presos políticos, é uma de suas faces. Mas não a imagem plena.

É fundamental considerar-se que Vargas governou, de 39 a 45, em plena Segunda Guerra Mundial. De um lado Hitler e Mussolini, depois Hiroito, de outro Winston Churchill e Roosevelt, os dois maiores estadistas da história. Foram tempos difíceis – definiu o chanceler Osvaldo Aranha na última entrevista de sua vida – o presidente não podia errar, acrescentou.

André Singer quando aterrisa no aeroporto lulista cresce em seu ensaio. São ótimos os conceitos a respeito do presidente reeleito que vai eleger sua sucessora, ajudado pelo destino a partir da impopularidade de Fernando Henrique na fase final de seu segundo mandato. Motivos concretos não faltaram. Basta lembrar as crises energéticas de 2002. Foram duas seríssimas.

Lula, como sustenta Singer, encarnou a proteção aos pobres. Porém não só isso. O Bolsa Família, que Singer destaca, este sim é um programa populista, na medida em que é uma doação governamental. O crédito consignado, a juros mensais de 2,5% para aposentados do INSS e funcionários públicos, significa um alçapão para a pobreza. Não redistribui nada. Ao contrário, a concentra. Já a expansão do crédito, que tanto incentiva o consumo e, como reflexo, uma sensação de bem-estar social, decorre da adoção de uma nova moeda no país: a moeda escritural. Um saque para o futuro. Tal sistema, como na poesia de Vinicius de Moraes e Tom, precisa de vento sem parar.

A popularidade de Lula é incontestável, conseqüência de sua personalidade, sua capacidade de absorver golpes, principalmente vindos de falsos aliados e falsos amigos, de seu carisma no encontro com o povo nas ruas e nas telas da TV. Realizou entretanto coisas concretas. Assim não fosse, não haveria marketing que o sustentasse. Singer tem razão nisso. Mas está absolutamente errado quando compara agosto de 54 com a crise do mensalão de 2005. Essa não, André Singer. Não diga isso nunca mais. Por favor.

Democracia consolidada

Merval Pereira, O Globo


O Brasil que vai às urnas hoje completou 25 anos de democracia, o mais longo período consecutivo na história política do país. Passou também, nesse período, por testes de consolidação democrática, com duas alternâncias de poder na presidência da República feitas com sucesso, como definido pelo cientista político americano Samuel Huntington, e tendo todos os atores relevantes da cena política aceitado a tese de que o único modelo possível para o país é a democracia, como os cientistas políticos Juan Liz e Alfred Stepan definem um país com democracia consolidada.

Como nossa experiência política é relativamente recente, esses testes foram ultrapassados não sem alguns percalços.

A primeira alternância de poder de um presidente eleito diretamente foi feita de maneira indireta, com o vice-presidente Itamar Franco assumindo o lugar do presidente impedido Fernando Collor, e passando a faixa para seu Ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso.

E a aceitação da democracia como única escolha admissível, se por um lado é feita formalmente por todos os atores da cena política, volta e meia é posta em dúvida por tentativas de aprovação de leis autoritárias que colocam em risco a liberdade de expressão, um dos pilares da democracia.

Ou por abusos do poder político ou econômico, como no caso da quebra de sigilos fiscais e bancários de pessoas ligadas ao PSDB, uma conseqüência do aparelhamento do estado operado pelo governo petista.

O brasilianista Timothy J. Power, diretor do Centro Latino-Americano da Universidade de Oxford, na Inglaterra, em um trabalho publicado recentemente na Latin American Research Review, salienta que o país nesses 25 anos, conseguiu evitar “algumas das mais espetaculares doenças que afligem os países vizinhos, como crise financeira, colapso do sistema partidário, populismo, separatismo, e troca de presidentes por meios constitucionais dúbios”.

Para ele, o Brasil pós 1985 deve ser definido não pelo que ele é, mas o que ele “não é”. Deste ponto de vista, assim como o resultado eleitoral de hoje parece estar para ser decidido dentro da margem de erro dos institutos de pesquisa, também nossa jovem democracia caminha no fio da navalha, mostrando força em uma eleição nacional que caminha para ser mais uma grande festa cívica, mas que teve momentos em que flertou com a ilegalidade, a começar pelo próprio presidente da República que, na disposição de eleger sua candidata a qualquer custo, não hesitou em burlar a legislação eleitoral.

Entre tantos feitos “inaugurais” de que se gaba, ter sido multado várias vezes pelo Tribunal Superior Eleitoral durante a campanha por abuso de poder político será certamente uma recordação negativa no seu currículo político, fato que a provável eleição de sua escolhida hoje no primeiro turno certamente tornará irrelevante para seus critérios pragmáticos, onde o que importa é a vitória.

Também a atuação do Supremo Tribunal Federal na indefinição de regras para a eleição, deixando num limbo os votos dos candidatos Ficha-Suja e mudando a regra de procedimentos eleitorais às vésperas de sua realização mostram bem as incertezas que ainda temos que transpor para termos uma democracia sem o risco de inseguranças jurídicas e políticas.

O Supremo viu-se ainda às voltas com o episódio nebuloso de um telefonema dado pelo candidato tucano José Serra ao ministro Gilmar Mendes, supostamente para tentar manter a exigência de dois documentos para votar, o que teoricamente porejudicaria os eleitores de Dilma Rousseff. Mendes, além de negar a conversa, retrucou insinuando que o ex-Ministro da Justiça Marcio Thomaz Bastos interferiu na votação.

O processo eleitoral, assim como já acontecera em 2006, foi pontuado por críticas a supostas tentativas de golpe, acusação de que o PT e o governo se utilizam com freqüência quando acuados por denúncias de corrupção que podem influir no ânimo do eleitorado.

Mas sempre que os limites da democracia são testados por setores mais radicais da cena política, a sociedade reage de maneira vigorosa e as coisas voltam ao lugar.

A reafirmação, por parte da candidata oficial e de seu patrono, da absoluta imprescindibilidade da liberdade de imprensa marca o compromisso com a democracia que prevalece nesses 25 anos.

Como ressalta Timothy J. Power em seu estudo, um dos mais importantes destaques da democracia brasileira hoje é a ausência absoluta de atores de importância que sejam contra o sistema, e talvez o mais emblemático acontecimento recente tenha sido a promoção pelo Clube Militar do Rio de Janeiro de um painel para discutir justamente o apoio à liberdade de imprensa.

Apesar desses avanços, ressalta Power, ainda persistem problemas que podem minar nossa democracia, como a enorme desigualdade social que somente com o Plano Real começou a ser combatida efetivamente, dando margem a que os programas assistencialistas aprofundados pelo governo Lula pudessem iniciar uma lenta reversão da pobreza absoluta.

Petista volta a perder votos na nova classe C

Fernando Canzian , Folha de São Paulo

A impossibilidade de se prever se a candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, terá ou não de enfrentar um segundo turno ocorre principalmente pelas variações de intenções de voto em alguns dos estratos que concentram o maior número de eleitores.

Assim como na pesquisa Datafolha divulgada na terça passada, Dilma voltou a perder votos entre os eleitores com renda familiar mensal entre dois e cinco salários mínimos (R$ 1.020 e R$ 2.550).

Ela oscilou negativamente dois pontos nessa faixa, de 45% para 43%. É nesse estrato da população que está concentrada a maior parte da chamada nova classe C, que ascendeu economicamente durante o governo Lula.

Cerca de 30 milhões de pessoas entraram na classe C a partir de 2003, segundo cálculos do Centro de Políticas Sociais da FGV-RJ.

Pertencem à faixa de renda entre dois e cinco salários mínimos cerca de 36% dos eleitores do país.

Dilma também oscilou negativamente dois pontos entre os eleitores que frequentaram apenas o ensino fundamental. Essa faixa concentra aproximadamente 48% do eleitorado.

Enquanto Dilma oscilou dois pontos para baixo entre esses eleitores, a candidata do PV, Marina Silva, variou dois para cima.

A candidata do PV também oscilou positivamente dois pontos entre os que estudaram até o ensino médio (38% do eleitorado).

As duas oscilações positivas nessas faixas (que juntas somam 86% dos eleitores) explicam, em grande medida, o aumento das intenções de voto na candidata verde.

Ela agora tem 17% dos votos válidos (ante os 15% registrados no levantamento anterior).

O candidato José Serra (PSDB) também oscilou positivamente dois pontos entre os eleitores com ensino fundamental, mas manteve estável, em 31%, o total de suas intenções de voto.

Em termos regionais, o tucano voltou a enconstar em Dilma no Estado de São Paulo, sua base eleitoral. Serra tem 36% das intenções de voto, ante os 38% de Dilma.

Como a margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, os dois estão tecnicamente empatados.

As maiores variações pelos Estados, no entanto, ocorreram em favor de Marina.

Ela subiu três pontos em Pernambuco, Bahia e Paraná e quatro pontos em Minas. No Distrito Federal, a candidata do PV subiu cinco pontos e pela primeira vez nesta campanha passou a liderar a corrida na capital federal.

Mas o mais significativo na pesquisa é que Dilma chega à véspera da eleição com o total de intenções de votos mais baixo desde 12 de agosto. A petista passou a cair ou oscilar para baixo desde a segunda semana de setembro.

O período foi marcado pelas denúncias de quebra de sigilos fiscais de tucanos e pela queda da ex-braço direito de Dilma na Casa Civil, a ex-ministra Erenice Guerra.

O dia maior da cidadania

O Estado de S.Paulo

Não faz muito tempo, acompanhando um candidato a prefeito de São Paulo pela periferia da capital, um jornalista, ao ver um galo disparando um cocoricó, perguntou de chofre ao demagogo se ele seria capaz de fazer aquela ave cantar. A resposta veio na ponta da afiada língua: "Mas é claro." Em idos que a névoa do tempo encobre, Temístocles, o altivo ateniense, também conhecido por escolher entre dois pretendentes à mão de sua filha o mais virtuoso, em vez do mais rico, foi convidado numa festa a tocar cítara. O general declinou gentilmente do convite: "Não sei tocar música, o que sei é fazer de uma pequena vila uma grande cidade." Hoje, cerca de 135 milhões de brasileiros são convocados a comparecer às urnas e depositar seu voto em candidatos de todos os naipes: doidivanas, oportunistas, tocadores de trombone, clarineta e cítara e, pior, até imitadores de galos e galinhas. O rol de demagógicos parece ser maior que a lista dos sérios. Quem se deu ao sacrifício de olhar para o desfile de caras, bocas e onomatopeias nos programas dos candidatos às eleições proporcionais registrou o mais estapafúrdio espetáculo da história eleitoral.

Nem mesmo incontidas gargalhadas conseguiram disfarçar o constrangimento que o destampatório provocou em eleitores que ainda põem crença na política como ferramenta de transformação social. Mas ainda é possível ver nascer uma flor no pântano. Parcelas da sociedade brasileira enxergam uma pequena tocha que, mesmo bruxuleante, deixa ver perfis talhados por boa-fé e motivados a trilhar a via política defendendo a dignidade tão bem expressa por Temístocles no gesto em que mostra a diferença entre um estadista, que se submete ao crivo da História, e um populista, inebriado por aplausos das gerais. Neste dia em que se processa o evento de maior significação dos sistemas democráticos - momento em que os cidadãos escolhem livremente seus representantes -, é de esperar que eleitoras e eleitores cumpram seu direito com zelo e sabedoria, sob o axioma de que o voto é o tijolo mais sólido do edifício da cidadania.

Se tal consciência não adquire amplitude, em razão do grau de educação política do maior contingente populacional, classes e setores esclarecidos imbuem-se do dever de puxar a locomotiva de consciência cívica e exercer seu papel de fomentadores do escopo e dos quadros mais necessários ao desenvolvimento político da Nação. Não se podem omitir diante de mazelas que se acumulam nos desvãos das instituições, patrocinadas por algumas dúzias de senhores que teimam em conservar no gelo as sobras bolorentas da velha política. Nem devem execrar a moldura cultural que abriga nosso povo. Gogol ensinava: "Não é por culpa do espelho que as pessoas têm uma cara errada." O espelho apenas retrata a feição patrimonialista da administração pública. Feição que, periodicamente, passa por um exercício de lapidação, quando milhões de eleitores são chamados a redesenhar a paisagem política, selecionando os atores que frequentarão os palcos institucionais. Infelizmente, esta periódica tarefa mais se assemelha à estrada infinita, sem início nem fim, que encalacrou Zaratustra, o mestre do eterno retorno, cuja angústia era não saber se estava andando para a frente ou para trás. Não conservamos a sensação de que, a cada pleito, contemplamos a mesma velha e desbotada roupa? Ou será que, na esfera política, teremos de sofrer o castigo a que Sísifo foi condenado pelos deuses, o de tentar carregar nos ombros, por toda a eternidade, a pedra ao topo da montanha?

Esta reflexão sobre a corrente da repetição infinita se faz providencial neste dia que, por excelência, é considerado o mais importante da agenda da cidadania. Rememorar o valor do voto é argumentar que a escolha irrefletida de um representante, seja para que instância for, não ajuda um país a se transformar em Pátria e aproximar o Estado da Nação. Pátria é sincronismo de espíritos e de corações, é comunhão de esperanças, de anelos coletivos, berço de valores e tradições, do qual se devem orgulhar seus filhos. Estado é uma entidade técnico-jurídico-institucional, que vive sob pressão de conflitos e divisão de interesses. Diminuir a distância entre Estado e Nação, eis a missão basilar da política. Missão que se efetiva quando os representantes escolhidos pelo povo conseguem elevar a política ao altar em que foi plasmada e onde nasceu o ideário de defesa e bem-estar da polis. É triste constatar que a política virou profissão, abrindo caminho para legiões de oportunistas que multiplicam teatros mambembes por todos os cantos, alguns querendo iludir as massas com piruetas e truques, travestindo-se de palhaços, fantoches e bufões de antessalas palacianas.

Muitos hão de perguntar: não há quadros nobres e de caráter na política brasileira? Sim. Há grandes atores, perfis sérios. Infelizmente, por um desses efeitos mágicos que a alquimia do Estado-espetáculo consegue engendrar, não alcançam a visibilidade dos conjuntos alçados às luzes dos holofotes. Alguns ainda se salvam graças à fidelidade de um eleitorado que não se encanta com a mediocridade dos mercadores. Aos eleitores fica a sugestão de achar candidatos com ideais e nobreza no meio de espíritos obscuros e pusilânimes. Que se encontrem perfis verdadeiramente sintonizados com as demandas da população. Sintonia que não deve exprimir mera distribuição física de benefícios, mas efetivo compromisso com políticas estruturantes. Urge ter cuidado com quem brande a espada do conflito de classes, sob o bolorento discurso de tirar de uns para dar a outros. Lembremos a lição de Lincoln: "Não fortalecerás os fracos enfraquecendo os fortes, não ajudarás o assalariado se arruinares aquele que paga, não ajudarás os pobres se eliminares os ricos." A Pátria carece de paz e harmonia.

Um voto digno para todos.