domingo, junho 10, 2012

Brasil precisa parar de insultar investidores estrangeiros, diz economista de fundo inglês


Thais Herédia
Portal G1

A presidente Dilma Rousseff quer mais investimentos no Brasil. Preocupada com a lentidão da economia do país, a presidente convoca ministros para encontrarem formas de gastar mais e discursa defendendo o país como uma ilha de prosperidade e segurança.

Na prática, lá no fundo, nas estatísticas nacionais, a disposição de investir no Brasil não mudou nem cresceu nos últimos dez anos. Mesmo com toda a melhora nos fundamentos da nossa economia, na percepção dos investidores e na quantidade de dinheiro que eles trouxeram para cá, a taxa média de investimento no país de 2003 até hoje está em cerca de 17% ao ano.

Com essa taxa não conseguimos crescer mais do que 4% sem gerar inflação. Pelo cálculo de consenso entre economistas brasileiros, para crescermos mais sem pressão nos preços, deveríamos alcançar 22% de investimentos em proporção ao nosso PIB. Poucas vezes na história recente chegamos perto de 20%. Segundo o IBGE, no primeiro trimestre deste ano a taxa ficou em 18,4%.

“O Brasil precisa de 1 trilhão de dólares de investimentos em infraestrutura. E onde ele vai achar esse dinheiro? Ele pode vir de investidores domésticos, mas a maioria deve vir de estrangeiros. Parem de fingir que vocês não querem esse dinheiro. O Brasil tem capacidade de crescer muito mais, mas não insultando o investidor estrangeiro dizendo que são especuladores, falando de guerra cambial”, diz o economista Jerome Booth, chefe de pesquisa do fundo de investimentos Ashmore, focado em mercados emergentes.

Em entrevista ao G1, o economista, que trabalha na sede da Ashmore em Londres, faz um alerta sobre os arranhões na credibilidade do Brasil, sofridos depois das decisões recentes do governo de taxar investimentos estrangeiros e intervir na taxa de câmbio para depreciar o real.

“Parem de brincar com as expectativas do mercado com os novos impostos (IOF), dêem as boas vindas aos investidores estrangeiros e usem esse dinheiro para investir na infraestrutura. Parem de culpar seus problemas em outros países. Esse é  um problema de credibilidade do Brasil. O governo precisa parecer ‘querer” tomar as decisões difíceis agora para chegar a um crescimento de 7% sustentável. Você não vai conseguir isso culpando seus problemas nos Estados Unidos ou na liquidez internacional e fechar as portas para o mundo”, diz Jerome Booth.

O executivo brasileiro de uma grande empresa nacional de commodities, que está sempre em contato com investidores, corrobora o que diz o economista da Ashmore.

“O mercado quer acreditar no Brasil, mas os investidores estão sem previsibilidade, o que eles não gostam. O governo precisa mostrar que, no longo prazo, será mais previsível, com menos intervenção na economia. Hoje, eu gasto 90% do meu tempo defendendo o governo. Antes eu falava mais do negócio. Eu defendo com convicção, mas é decepcionante ter que defender o que seria óbvio, a capacidade do Brasil de crescer e gerar retorno”, diz o executivo, que também esteve muitos anos no mercado financeiro.

O fundo Ashmore administra cerca de US$ 65 bilhões aplicados em mercados emergentes. Ao economista Jerome Booth, perguntou-se:  Que sinal é esse que esperam tanto receber do Brasil?

“Colocar barreiras para o capital estrangeiro é a última coisa que se quer fazer. É preciso melhorar a disciplina fiscal (gastos públicos) no longo prazo, nem precisa ser muito. Mas o suficiente para que o país possa realmente baixar suas taxas de juros. Até você fazer isso o país vai continuar tendo uma ‘troca’ entre inflação e crescimento. O Brasil tem capacidade de crescer muito mais, mas não insultando o investidor estrangeiro dizendo a eles que não são bem-vindos no país”, conclui o economista.

O Brasil saiu de moda?


Cristiane Mano 
Revista Exame

O agravamento da crise europeia e a crescente aversão a risco de investidores expõem fraquezas da economia brasileira — os sinais já aparecem

Gianluigi Guercia/AFP
A mineradora Vale, um ícone da bolsa: 
o investidor estrangeiro foge da BM&F Bovespa

Nova York - Não faltou otimismo, um recurso cada vez mais escasso no mundo, para atrair a atenção — e bilhões dólares — para o Brasil nos últimos anos. O B do Bric, o grupo de elite entre os países emergentes, passou a figurar como um eldorado diante da turbulência nos países ricos. 

Já há sinais, porém, de que a euforia — pelo menos como se viu até agora — pode perder fôlego. Um deles é a acelerada fuga de investidores estrangeiros na Bovespa, com saldo negativo de 2,5 bilhões de reais entre os dias 1o e 18 de maio. Desde janeiro, a bolsa desvalorizou mais de 10%.

Analistas começam a mudar a perspectiva para o Brasil. Em maio, o Morgan Stanley reduziu a recomendação de investimento no país, diante do fraco crescimento econômico. Em dezembro, o Credit Suisse fez o mesmo.

“Está cada vez mais claro que a economia do país se baseia em premissas instáveis, como o preço de commodities”, diz Ruchir Sharma, diretor do Morgan Stanley para mercados emergentes.

A mudança de percepção não se deve a uma alteração repentina nas bases da economia. Ao contrário. Alguns indicadores demonstram que, sob vários ângulos, o Brasil continua numa situa¬ção bem mais confortável que boa parte do mundo. A taxa de desemprego é uma das mais baixas da história.

O investimento estrangeiro direto bateu recorde e chegou a 67 bilhões de dólares em 2011. O ambiente político é tido como o melhor entre os pares do Bric — Rússia, China e Índia. O que parece ter mudado é a aversão a risco dos investidores — sobretudo com o agravamento da crise europeia.

Nesse contexto, o baixo crescimento econômico do país é um sintoma capaz de ofuscar o brilho do país aos olhos dos investidores. Em 2011, o país apresentou a menor expansão entre os pares no Bric,  com uma taxa de 2,7%. As projeções indicam que o mesmo acontecerá em 2012.

Medidas tomadas recentemente para acelerar o crescimento, como a desvalorização do real e a redução dos juros, também não animaram os estrangeiros — sobretudo os investidores da bolsa, cujas aplicações em reais automaticamente perderam valor equivalente na moeda americana.

Em dólares, a queda na Bovespa chegou a 15% apenas em maio. “Com a desvalorização do real, os investidores estrangeiros tendem a ser mais cautelosos com o Brasil”, afirmou em relatório Michael Simpson, chefe de investimento para a América Latina do Barings, com sede em Dublin.

Neste ano, o fundo reduziu o investimento em ações brasileiras de 63% para 56% de sua carteira — um número, diga-se, ainda para lá de expressivo. 

Economistas defendem que a desvalorização do real e o corte de juros também não vão — sozinhos — impulsionar para valer o crescimento da economia. “As mudanças devem ter efeito marginal na expansão do país”, diz Carlos Langoni, diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro e ex-presidente do Banco Central.

“Diferentemente do que aconteceu até pouco tempo atrás, o endividamento dos brasileiros já está grande e a disposição de concessão de crédito dos bancos deve se retrair com o agravamento da crise financeira na Europa.” Se depender do contexto externo, é uma situação que não vai melhorar tão cedo.
“A situação deve se manter crítica pelos próximos dois anos”, afirma Cam Harvey, professor de economia da escola de negócios da Universidade Duke.

Custo Brasil
É inevitável que, com o baixo crescimento interno e um contexto internacional desfavorável, projetos de expansão das empresas também sejam repensados. Recentemente, o grupo siderúrgico francês ArcelorMittal anunciou o adiamento da expansão de duas obras avaliadas em cerca de 1,5 bilhão de reais — previstas inicialmente para este ano.

Sem o atrativo de rápida expansão, os problemas de competitividade no Brasil tornam-se mais evidentes”, diz Langoni. De acordo com a empresa de pesquisa de mercados emergentes Frontier Strategy Group, com sede em Washington, a margem de lucro das empresas no Brasil é metade da registrada em outros países da América Latina.

Num relatório, a consultoria cita o depoimento de um cliente: “O Brasil é fundamental para nosso crescimento, mas, para cada ponto percentual de crescimento no país, perdemos rentabilidade na América Latina”.

Há o consenso de que o país tem uma lição de casa a ser feita para a economia deslanchar. Nem mesmo prognósticos otimistas ignoram a necessidade de tornar o ambiente de negócios menos burocrático e caro. Segundo relatório recente da OCDE, o PIB brasileiro deve crescer 3,2% neste ano e 4,2% no ano que vem.

Mas o documento deixa claro que, para combater o fraco desempenho da indústria, deveria haver simplificação tributária e investimento em infraestrutura. “Se o Brasil quiser crescer, terá de fazer reformas”, diz o economista Ken Rogoff, professor de Harvard. Otimismo, claro, sempre ajuda. Mas, daqui para a frente, será preciso muito mais do que isso para garantir prosperidade.

Discurso não resolve crises


O Estado de S.Paulo

Quando mais se espera que, não podendo mais deixar de reconhecer o tamanho dos problemas, o governo Dilma adote um plano articulado para debelar os efeitos mais nocivos da crise mundial sobre a economia brasileira, o que se vê é a repetição do que tem feito até agora, sem resultados concretos: vender otimismo, ameaçar os pessimistas e construir um cenário cada vez mais distante da realidade. Utilizam-se promessas para enfrentar problemas.

Embora tivesse demonstrado, no início da semana, grande preocupação com a situação - sobretudo depois da constatação, pelo IBGE, da estagnação da economia no primeiro trimestre -, a ponto de convocar uma reunião de emergência com os principais ministros e auxiliares da área econômica para decidir ações imediatas, na terça-feira a presidente Dilma Rousseff parecia ter descoberto um novo quadro econômico. Na sua avaliação, a expansão da economia em 2012 não será menor do que a registrada no ano passado (quando o PIB cresceu 2,7%), como está sendo previsto pela maioria dos economistas do setor privado, porque o governo vai lançar mão dos instrumentos necessários para estimular os investimentos e sustentar o crescimento do consumo.

"Quem aposta na crise, como (fez) há quatro anos, vai perder de novo", profetizou Dilma, na solenidade do Dia Mundial do Meio Ambiente. Repetiu a bravata feita pelo presidente Lula em 2009, que disse que quem apostasse que a crise internacional iniciada no ano anterior quebraria o Brasil acabaria "quebrando a cara". O País, disse Dilma, tem um "arsenal de providências" que podem ser colocadas em prática. "Sistematicamente, tomaremos medidas para expandir o investimento público, estimular o investimento privado e o consumo das famílias."

É o que se espera que seja feito, mas de maneira eficiente. Em tese, esse tripé sustentará a atividade econômica e propiciará o crescimento mais rápido dentro de algum tempo. Mas, na prática, há superdimensionamento de um dos pés e atrofia dos outros dois. O que o governo tem feito com grande insistência é estimular o consumo, por meio da ampla oferta do crédito, a juros menores. É uma política cuja eficácia está limitada pela capacidade de endividamento das famílias e pela disposição dos bancos de emprestar. O aumento do comprometimento da renda das famílias com despesas financeiras e o crescimento dos índices de inadimplência indicam que essa política terá efeitos cada vez menores.
As incertezas do cenário internacional e os impactos da crise na economia brasileira paralisaram os investimentos privados. Por isso, é o momento adequado para o governo utilizar seu "arsenal de providências" e acelerar os investimentos públicos. Até agora, porém, o governo Dilma mostrou pouca aptidão para isso. Os investimentos federais neste ano são os menores dos últimos três anos (para o período janeiro-maio), como mostrou o Estado, ontem.

Demonstrando despreocupação com o quadro econômico, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que a economia registrará em maio e junho índices de crescimento "muito maiores" do que em abril e o resultado do segundo trimestre será melhor do que o do primeiro. Na sua avaliação, a economia superou a fase de estagnação e entrou numa rota positiva. "Teremos crescimento do PIB e da produção industrial", destacou, referindo-se ao setor que, em abril, apresentou resultados decepcionantes. Citou a indústria automobilística, que tem grande peso na composição do PIB, e que, na sua opinião, "agora vai crescer mais do que outros setores".

Igualmente sem demonstrar preocupação com o cenário, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, defendeu as medidas adotadas pelo governo para estimular o crédito e o consumo das famílias. Num momento em que caberia à autoridade monetária no mínimo apontar os riscos do contínuo estímulo aos financiamentos quando diminui a capacidade financeira do consumidor e cresce a inadimplência, Tombini tem-se limitado a defender as ações do governo - com o qual mostrou perfeito alinhamento durante a audiência pública na Câmara dos Deputados.

A Economia vai mal


Marco Antonio Villa (*)
Alerta Total 

A questão central no país é a precária situação econômica. Como de hábito não é o foco principal do debate político. Vale a pena listar algumas questões:

1. a situação difícil dos pequenos bancos. O caso do Cruzeiro do Sul é somente mais um e não é o único;

2. o setor da construção civil mostra sinais de esgotamento;

3. o endividamento das famílias não para de crescer;

4. problemas estruturais da economia não se resolvem com medidas tributárias (aumentando ou baixando impostos temporariamente);

5. a tal "classe C" como instrumento de puxar o consumo para cima não passa de ficção;

6. a falta de uma política industrial é evidente;

7. os velhos gargalos da infra-estrutura se mantem apesar de dez anos de consulado petista;

8. a baixa produtividade dos trabalhadores;

9. a poupança interna é irrelevante;

10. o governo não consegue planejar nada (apesar dos dois ministérios dedicados à esta função);

11. o "modelo" de desenvolvimento criado nos anos 90 está fazendo água - e não é de hoje;

12. governo trata a economia com descaso, acha que a palavra substitui a ação.

13. a situação econômica internacional deve se manter neste patamar (ruim) por um bom tempo (especialmente a Europa e os EUA);

14. temerosa de alguma medida impopular (mas necessária) para reequilibrar a economia a médio prazo, Dilma opta pela fraseologia vazia (com tinturas do velho populismo) e com medo de algum reflexo negativo nos índices de popularidade.

15, a taxa de investimento é ridícula.

O mais terrível é que o Congresso Nacional sequer passa perto de qualquer destas questões.

(*) Marco Antonio Villa é Historiador. Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos. Bacharel e Licenciado em História, Mestre em Sociologia e Doutor em História.  

MEC deve R$ 11 milhões a programa de educação. Mais um pedaço da herança maldita de Haddad!


Veja online
Com Agência Estado

Ao todo, 281 grupos estão sem receber verbas anuais de custeio desde 2011 e nenhum dos 780 grupos recebeu em 2012

 (Agência Brasil)
Aloizio Mercadante, ministro da educação (5/06) 

Uma das iniciativas do Ministério da Educação (MEC) de fortalecimento dos cursos de graduação, o Programa de Educação Tutorial (PET) está com verbas atrasadas em todo país. Ao todo, 281 grupos estão sem receber as verbas anuais de custeio desde 2011 e nenhum dos 780 grupos recebeu em 2012 - um valor total de quase 11 milhões de reais. Professores ainda reclamam que não conseguem submeter relatórios de atividades desde 2010.

Os atrasos das verbas de custeio de 2011 atingem 36% dos grupos do PET. Esse recurso, calculado por bolsista, gira em torno de 8.000 reais por ano por grupo. É necessário para gastos de manutenção dos estudos e pesquisas (desde manter vivos ratinhos de laboratório até a participação de alunos em congressos).

Apesar de não ser muito conhecido, o PET tem mais de 30 anos e envolve quase 10.000 alunos. São grupos de até 12 alunos por curso ou tema, coordenados por um professor tutor. Estudantes têm bolsas de 360 reais e tutores, de 1.800 reais, o que resulta em um custo anual de cerca de 57 milhões de reais. Atualmente, o PET é mais voltado para a formação cidadã e para o exercício da tríade ensino, pesquisa, extensão, mantendo um foco de melhora na graduação.

Segundo o MEC, entraves burocráticos causaram os atrasos das verbas de 2011 e deste ano. Entretanto, vários tutores dizem que não recebem a verba desde 2009. "Não recebi em 2010, 2011 nem em 2012", afirma Maria José Martinelli Calixto, tutora do PET de Geografia da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), em Mato Grosso do Sul. Sem o dinheiro, alunos não puderam participar do encontro nacional do PET, previsto pelo programa.

Um grupo da Universidade de São Paulo (USP) também não recebe desde 2009. "Comprei materiais com meu dinheiro. E, sem a verba para atividades como congressos, os alunos se desmotivam e vários abandonaram o programa", diz o professor, que pediu anonimato.

A manutenção dos alunos também é um desafio para o tutor Marcos Danhoni, do PET de Física da Universidade Estadual de Maringá (PR). "Em 2011 não recebi nada. Ainda consegui manter os bolsistas, mas teve gente que não conseguiu." Ele é um dos que criticam os novos rumos do programa. "Mudaram o programa sem ouvir os tutores, as bases ficaram afetadas e a avaliação pluralista e interdisciplinar saiu", afirma Danhoni.

O professor Luciano da Silva Alonso, que lidera o PET de Veterinária da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), reclama que o MEC exige que as verbas sejam gastas a toque de caixa. "Em setembro de 2011, recebemos a de 2010. Tivemos de finalizar o orçamento em janeiro", diz ele. "Também não fui avaliado, trabalho às escuras. É desrespeito com recurso público, poderia acontecer de um grupo não fazer nada."

O MEC promete pagar os atrasados neste ano, junto com os valores referentes a 2012. Cerca de 300 grupos receberão, segundo a pasta, até 30 de junho e, o restante, 480 grupos, até 30 de agosto. "Está claro para o governo que a atual sistemática de pagamento do custeio não é adequada. Melhorias precisam e estão sendo feitas", cita nota.


O Dnit continua parado


O Estado de S.Paulo

É flagrante o contraste entre a rapidez com que o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) aprovou a celebração de novos contratos e liberou novas verbas que beneficiam diretamente a construtora Delta - empresa cuja atuação está sendo investigada pela CPI do Cachoeira e que, por isso, pode ser declarada inidônea pela Controladoria-Geral da União (CGU) - e a exasperante lentidão com que o mesmo Dnit trata da recuperação de cerca de metade da malha rodoviária de mais de 50 mil quilômetros sob sua responsabilidade, boa parte em situação crítica.

Envolvido em denúncias de irregularidades que levaram à substituição do ministro dos Transportes e à mudança radical na composição e nos métodos de sua diretoria em 2011, o Dnit parece ter mudado muito pouco, pelo menos no que se refere a resultados práticos, a obras e a critérios de contratação e pagamentos de serviços. O tratamento preferencial à Delta, relatado pelo Estado no domingo, e a completa paralisia, descrita pelo jornal Valor (4/6), do plano de recuperação de cerca de 30 mil quilômetros anunciado há quatro anos mostram que, apesar da indignação da nova direção do Dnit com o que encontrou quando assumiu suas funções em setembro do ano passado, os resultados ainda demoram.

Enquanto a Delta - pouco antes de pedir concordata - teve homologado o resultado de concorrência que venceu no mês passado e voltou a ser aquinhoada com termos aditivos a contratos antigos que lhe asseguram mais verbas por obras públicas, a situação da maioria das estradas federais, que já era ruim, torna-se cada vez mais ameaçadora para milhares de brasileiros que as utilizam. A paralisia do programa de recuperação da malha federal é mais um retrato do estilo de governo do PT, marcado por discursos grandiloquentes e ação tímida, quando existe.

Diante dos seguidos relatórios de entidades do setor de transportes de cargas mostrando o péssimo estado de boa parte das estradas federais - em flagrante contraste com as estaduais cuja operação e cuja manutenção foram transferidas para empresas privadas -, o governo Lula anunciou, em 2008, a contratação de projetos básicos para a recuperação de mais de 30 mil quilômetros de rodovias.

O prazo era de seis meses para a contratação dos estudos que balizariam os editais. Desde sua concepção, o plano de recuperação da malha previa contratos de cinco anos para cada trecho licitado. Nos primeiros três anos, seriam executadas todas as obras necessárias. Nos dois anos seguintes, seriam feitas obras de manutenção.

Chegaram a ser assinados cerca de 50 contratos para a elaboração de projetos. Alguns venceram, outros foram barrados pelo TCU e outros, ainda, simplesmente foram abandonados.

"O que encontrei aqui foram 30 mil quilômetros de confusão", disse ao jornal Valor o general Jorge Fraxe, que comandava a Divisão de Obras do Exército e foi escolhido para sanear o Dnit administrativa e financeiramente e dar-lhe competência técnica. "Tudo está sendo totalmente revisto porque 100% dos projetos têm problemas. Está tudo errado."

A diretoria do Dnit está convocando as empresas de projetos para rever os contratos. Depois de advertidas sobre as imprecisões dos projetos originais, elas têm prazo de 20 dias para a revisão. Se o projeto voltar com erros, além de não receber pelo trabalho, a empresa será multada. "O Dnit nunca tinha punido empresa nenhuma", afirmou o diretor-geral do órgão, depois de informar que uma empresa de projetos foi multada em R$ 100 mil. "Outras multas virão por aí e teremos até processo de inidoneidade contra empresas projetista."

Os novos contratos terão que se basear em projetos executivos de engenharia, exigência que não havia no modelo que o Dnit utilizou até 2011. Outra mudança é a alteração do prazo de vigência, que não será mais, obrigatoriamente, de cinco anos para todos os contratos e, sim, fixado de acordo com as especificidades da obra. O diretor-geral do Dnit diz que, até o fim do ano, boa parte da malha já terá contratos assinados.

Desaceleração econômica estoura 'bolha' de entusiasmo com o Brasil no exterior


Ruth Costas
BBC Brasil 

Custo Brasil gera preocupação com a estabilidade econômica do país

"É um país que desperta carinho, mas não respeito." - Simon Anholt, consultor britânico


A desaceleração da economia brasileira estourou o que muitos analistas acreditam ter sido uma "bolha" de entusiasmo pelo Brasil no exterior.

Esse ritmo mais lento da economia brasileira foi confirmado nesta sexta-feira com a divulgação dos dados do Produto Interno Bruto (PIB) pelo IBGE. Segundo os números, no primeiro trimestre deste ano, o Brasil cresceu apenas 0,2% em relação aos três últimos meses de 2011.

Na segunda metade dos anos 2000, quando o Brasil ganhou a preferência de investidores estrangeiros, os holofotes da mídia internacional e, de quebra, o direito de sediar uma Olimpíada e uma Copa do Mundo, o termo "Brasilmania" passou a ser usado para referir-se ao crescente interesse internacional pelo país.

Agora, não só o fenômeno parece estar perdendo força como já há especialistas denunciando "exagero" nas análises negativas sobre a economia brasileira.

Um desses analistas é Jim O'Neill, economista do Goldman Sachs conhecido por criar o termo Bric (Brasil, Rússia, Índia e China)."Os mercados financeiros costumam ir de um extremo a outro quando suas expectativas sobre um país não são confirmadas", disse O'Neill à BBC Brasil.

"As previsões para o crescimento brasileiro eram muito elevadas, principalmente depois da alta de 7,5% do PIB em 2010, e ajustes eram necessários. Mas agora há análises que estão exagerando problemas e riscos para o Brasil."

Exagero
Richard Lapper, diretor do Brazil Confidential, o serviço de análises sobre o Brasil do jornal britânico Financial Times, concorda. "No mercado, o clima é de que a festa brasileira acabou", relata Lapper. "É como se de repente alguns analistas tivessem descoberto que o Brasil tem problemas."

Entre os "exageros" segundo Lapper, estariam a análise de Ruchir Sharma, do Morgan Stanley, que defendeu, na revista Foreign Affairs, que da mesma forma como o Brasil subiu com os preços das commodities, pode cair com uma eventual desvalorização dos mesmos provocada pela desaceleração da economia chinesa.

Nouriel Roubini, economista conhecido por prever o colapso do mercado imobiliário americano, também voltou de uma viagem pelos Brics, em fevereiro, recomendando um "choque de realidade" em relação ao Brasil.

Desaceleração brasileira assustaria investidores 
de curto prazo, segundo especialistas

Para Neil Shearing, da consultoria Capital Economics, em Londres, um dos analistas "decepcionados" com o Brasil, o problema é que o crescimento brasileiro ficou atrás não só dos outros Brics, mas também de outros latino-americanos, como o México: "Havia uma bolha de entusiasmo pelo Brasil - e agora ela estourou", diz.

Cobertura negativa
A mudança nas percepções em relação ao Brasil é evidente no tom da cobertura sobre o país em alguns veículos da imprensa internacional.

Em um artigo recente para a Foreign Policy, por exemplo, o escritor e jornalista Bill Hinchberger defendeu que o crescimento de 2,7% do PIB em 2011, fez o Brasil "acordar em uma quarta-feira de cinzas" de ressaca da euforia do crescimento da década passada. "O carnaval acabou", anunciou Hichberger.

No fim de 2009, uma capa da revista britânica The Economist trazia o Cristo Redentor alçando voo nos céus do Rio de Janeiro. "O Brasil decola", anunciava. No mês passado, a mesma revista ilustrava um artigo sobre as "fraquezas" da economia brasileira com uma imagem bem menos grandiosa: um boi debatendo-se para tentar sair de um pântano.

As incertezas em relação ao Brasil são alimentadas tanto por fatores internos quanto externos.

Além de o país estar crescendo menos que outros emergentes, há preocupações com as baixas taxas de poupança e investimento, o chamado Custo Brasil (excesso de burocracia, déficit de infraestrutura, etc) e a relativa falta de crescimento na produtividade da indústria.

Como escreveu Marcos Troyjo, da Universidade de Columbia, em um artigo para a BBC Brasil, apesar de a Brasilmania ter feito muitos acreditarem que o PIB do Brasil "estava destinado a um ascensão irresistível e sem escalas", o país não aumentou muito sua fatia da economia global na última década e só consegui tornar-se a sexta economia do mundo por causa do real valorizado.

No plano internacional, o foco das preocupações hoje são as incertezas sobre a zona do euro e a as perspectivas de um desaquecimento da China – cenário que levaria a uma redução das exportações brasileiras e desvalorização das commodities.

Para Lapper esses fatores e a desaceleração brasileira podem assustar investidores de curto prazo, mas para os de médio e longo prazo as perspectivas ainda são muito boas. "O mercado consumidor do país é forte e setores como agronegócio, gás e petróleo continuarão a oferecer ótimas oportunidades de negócio."

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Ainda não está claro quanto esse ajuste de expectativas sobre a economia brasileira no mercado e imprensa internacionais pode alterar a imagem do país com a opinião pública em geral em países estrangeiros.

O consultor britânico Simon Anholt, que faz um ranking com as nações mais admiradas do globo diz que as mudanças ocorrem lentamente nessa área e nem sempre acompanham questões ligadas a desempenho econômico.

"O Brasil era em 2011 o único país em desenvolvimento entre os 20 mais admirados", explica. "Mas curiosamente a sua imagem mudou pouco mesmo nos anos de bonança, estando fundamentalmente ligada a chavões como futebol e carnaval. É um país que desperta carinho, mas não respeito."

Resultado do fluxo cambial em maio merece atenção


O Estado de S.Paulo

A desvalorização do real ante o dólar foi certamente o fator que mais contribuiu para que o fluxo cambial ficasse negativo em US$ 2,691 bilhões, em maio. Mas não foi o único fator. O Brasil, por diversas razões, perdeu a atratividade internacional de que desfrutou nos últimos meses.

É importante frisar que o segmento comercial do fluxo cambial, que abrange operações ligadas ao comércio exterior (inclusive os financiamentos dessas operações), ficou positivo em US$ 3,636 bilhões, com exportações que alcançaram US$ 22,180 bilhões e importações de US$ 18,544 bilhões. Pode-se dizer que aí a desvalorização do real teve efeito positivo, pois permitiu aumentar as exportações e reduzir as importações. No entanto, não se pode menosprezar neste resultado a alta do preço das commodities, como assinalou o índice do Banco Central.

Entretanto, a saída, em maio, de US$ 34,784 bilhões, ante uma entrada de US$ 28,457 bilhões, representa um fato altamente negativo, merecedor de uma análise que, na ausência de dados detalhados, por enquanto, não pode ser completa.

As saídas de dólares, quando por vias normais, referem-se à venda de ações e títulos de renda fixa, remessa de lucros e dividendos, amortizações de empréstimos, retorno de investimentos produtivos. Certamente, a queda contínua das ações na Bolsa favoreceu a venda desses papéis, o que mostra que não podemos ser indiferentes à evolução das operações bolsistas muito dependentes de capital estrangeiro. A desvalorização do real acabou com o interesse dos especuladores nas operações de arbitragem. Mas, sem dúvida, o fato mais negativo foi a queda dos Investimentos Estrangeiros Diretos (IEDs). Alguns desses investimentos foram retirados do Brasil em função da queda de ritmo do crescimento econômico, que afetou também a vinda desses capitais. Não foi só essa, entretanto, a razão da parada do ingresso de investimentos. As novas orientações da política econômica estão atemorizando investidores que tinham total confiança na política seguida quando Henrique Meirelles era presidente do Instituto de Emissão. Considera-se no exterior que estamos indo depressa demais na redução do custo do dinheiro, e também cria certo mal estar a adoção de uma política creditícia diferenciada conforme os setores de atividade.

Não podemos, finalmente, esquecer de que o Brasil não escapa das consequências do atual clima internacional, em que a captação de recursos externos se tornou mais difícil e mais custosa.

PF investiga desvio de R$ 100 milhões do Banco do Nordeste


O Globo

Instituição foi investigada no episódio dos "dólares na cueca", no auge do mensalão

SÃO PAULO - Após ser investigado, no auge do mensalão, por envolvimento no caso dos “dólares na cueca”, o Banco do Nordeste protagoniza um novo escândalo. Reportagem da revista "Época" informa que a Polícia Federal apura o desvio de mais de R$ 100 milhões da instituição financeira. As empresas dos cunhados do atual chefe de gabinete do Banco do Nordeste, Robério Gress do Vale, receberam em torno de R$ 12 milhões.

As irregularidades foram apontadas em relatório da Controladoria-Geral da União (CGU). O chefe de gabinete foi o quarto maior doador, como pessoa física, para a campanha eleitoral do deputado federal José Guimarães (PT-CE). Foi um assessor do parlamentar petista, quando exercia o cargo de deputado estadual, que foi detido, em 2005, com US$ 100 mil escondidos nas roupas de baixo, dinheiro que tinha origem em esquema de propina.

Um levantamento feito pela revista mostra que, entre os nomes envolvidos nas investigações da Polícia Federal, há pelo menos dez filiados ao PT. O promotor do Ministério Público Estadual (MPE), Ricardo Rocha, vê indícios de esquema de caixa dois para campanhas eleitorais. Segundo a publicação, a maioria das operações fraudulentas ocorreu entre 2009 e 2011. Segundo a publicação, uma auditoria realizada pelo Banco do Nordeste mostra uma lista de vinte e quatro empresas que obtiveram empréstimos com notas fiscais falsas, com indícios de uso de “laranjas” ou fraudes em assinaturas. O Ministério Público ainda não recebeu a auditoria interna do Banco do Nordeste ou o relatório da Controladoria-Geral da União.

A revista aponta ainda que o atual presidente do Banco do Nordeste, Jurandir Vieira Santiago, é alvo em relação ao período em que esteve à frente da Secretaria das Cidades do Ceará. O Tribunal de Contas do Estado investiga esquema de superfaturamento na construção de banheiros em comunidades carentes no estado, em episódio que ficou conhecido como “escândalos dos banheiros”.

Para a revista, o deputado federal José Guimarães (PT-CE) negou ter conhecimento das irregularidades e o Banco do Nordeste informou nunca ter sido omisso quanto às irregularidades e afirmou que alguns dos envolvidos foram demitidos.

Subsídio do Tesouro para BNDES atinge R$ 28 bi em três anos


Folha online

A estratégia adotada pelo governo para reforçar os cofres do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e dar impulso aos investimentos custou aos contribuintes R$ 28 bilhões nos últimos três anos, informa reportagem de Lorenna Rodrigues, publicada na Folha desta sexta-feira.

O valor foi calculado pelo próprio governo e foi revelado por um relatório do TCU (Tribunal de Contas da União) divulgado no fim de maio.

Ele representa a primeira estimativa oficial sobre os custos da acelerada expansão que o BNDES teve nos últimos anos.

Para combater os efeitos da crise financeira internacional em 2008, o governo decidiu emprestar recursos do Tesouro para o BNDES, ampliando sua capacidade de oferecer crédito barato às empresas.

Editoria de arte/Folhapress



Crise evidencia problemas domésticos da economia brasileira


Luís Guilherme Barrucho
BBC Brasil 

Setor produtivo ainda tem infraestrutura precária


A deterioração econômica nos países desenvolvidos e a desaceleração da China revelam com maior nitidez fragilidades antigas da economia brasileira, como a falta de investimentos em infraestrutura e baixa competitividade industrial.

Aliados, esses fatores atravancam uma retomada mais robusta do crescimento, segundo especialistas ouvidos pela BBC Brasil.

De acordo com a pesquisa Focus, divulgada nesta segunda-feira pelo Banco Central, os agentes do mercado financeiro revisaram para baixo as previsões de crescimento do PIB em 2012, de 3,09% para 2,99%.

Para os economistas, o Brasil não está imune ao revés causado pela piora da crise financeira internacional. O seu impacto nas contas do país, no entanto, deve ter efeito apenas "comedido".

Para os especialistas, a baixa produtividade e competitividade aliadas a deficiências de infraestrutura constituem alguns dos principais empecilhos para um crescimento mais robusto.

"É nesse momento que nossos pontos fracos, como uma taxa de investimentos em relação ao PIB ainda baixa, que não foram totalmente mitigados, acabam atravancando nosso crescimento", disse à BBC Brasil Francisco Lopreato, professor de economia da Unicamp, em São Paulo.

"A lógica é simples. Sem estradas de boa qualidade e uma baixa produtividade do trabalhador, o preço dos produtos brasileiros tende a ficar mais caro, perdendo espaço para os importados internamente e sofrendo concorrência acirrada no exterior, o que acaba por afetar nosso crescimento", afirmou Sílvio Campos Neto, economista da Tendências Consultoria.

"A crise internacional tem sua parcela de culpa, mas se tornou um álibi do governo para explicar a letargia da economia”, disse.

Reformas
Para os economistas, o Brasil "desperdiçou a oportunidade" de realizar reformas essenciais em meio à bonança econômica durante o último governo. Na ocasião, a economia cresceu a patamares elevados, desafogando, por exemplo, o setor produtivo, que ainda sofre com uma infraestrutura precária.

"Com gargalos logísticos ainda não solucionados, além de problemas crônicos estruturais, como uma elevada carga tributária e uma poupança baixa, o Brasil dificilmente conseguirá manter um crescimento sustentável de sua economia", disse Campos Neto.

Na opinião dos analistas, o país precisa de reformas para aumentar o nível de produtividade e reduzir custos operacionais e no momento atual, de crise nos países desenvolvidos, deverá fazer isso com um fluxo de capital externo agora menor, o que torna o processo mais difícil.

O cenário estaria levando investidores a "pisar no freio" com relação aos aportes no país.

Por isso, segundo os especialistas ouvidos pela reportagem, o Brasil encontra-se num patamar diferente do que há quatro anos, quando atravessou, sem grandes sobressaltos, o início da crise financeira internacional.

Com as exportações brasileiras afetadas pela queda no preço internacional das commodities e o consumo interno com menor espaço para crescer devido a níveis mais altos de endividamento das famílias e inadimplência, o país teria agora sua "capacidade de manobra" reduzida para ensaiar uma retomada da economia.

Analistas também destacam a pauta limitada de exportações brasileiras, compostas sobretudo por commodities de baixo valor agregado, como soja e carne.

Grécia e China
Além das incertezas trazidas pela crise europeia, sobretudo com o risco de saída da Grécia da zona do euro, outro fator de grande preocupação para o Brasil é a desaceleração da China.

A China é o principal parceiro comercial do Brasil e o principal comprador de commodities brasileiras. A alta nos precos e a voracidade chinesa explica, em grande parte, o crescimento registrado na economia nacional nos últimos anos.

Para contornar a baixa no comércio internacional e a queda nas exportações, o governo tem adotado várias medidas para estimular o consumo e impulsionar o crescimento.

Na última semana, foi anunciada uma redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para automóveis, em até sete pontos percentuais, dependendo do tipo e da cilindrada do veículo.

O governo também reduziu o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para o crédito ao consumo e liberou compulsórios dos bancos com vistas a estender e baratear as linhas de financiamento.

O desarranjo mundial não vai deixar o Brasil de fora


Marco Antonio Rocha
O Estado de S. Paulo

“O mundo marcha no seu habitual estado de desarranjo.” Hum! Modéstia à parte, a frase não é minha. Gay Talese, no seu magnífico livro sobre o “The New York Times”, conta que o editor de assuntos internacionais do jornal começava a reunião de pauta diária quase sempre com essa frase.

A história é totalmente verdadeira? Talese, como todo grande jornalista, gosta de procurar um “enfeite” para agarrar o leitor no início dos seus relatos. Mas é uma boa frase. E descreve bem a atualidade. Se dermos uma olhada geral no mundo a partir de um satélite – esse que uma empresa privada lançou para levar não sei o quê até a estação espacial orbital -, o que vemos são desarranjos em todos os terrenos: diplomático (Síria x ONU; Israel x palestinos; Irã x AIEA-EUA; citando só os mais visíveis); militar (Iraque, Paquistão, Afeganistão, Iêmen, etc.); político (Egito, Europa dos 27, Rússia, etc.); ecológico (Rio+20, que ameaça dar em nada); e, é claro, econômico-financeiro (Grécia, Alemanha, França, China se retraindo, bancos se afundando, etc.).

Não sou historiador, de modo que não sei se o desarranjo mundial é um estado passageiro ou permanente nem se este que enxergamos hoje do satélite é pior, mais complicado ou menos complicado do que os desarranjos dos tempos em que não havia satélites. De qualquer forma, pelo menos na área que me toca – naquilo em que minha ignorância costuma ser apenas um pouquinho menor do que em todo o resto da cultura humana -, ou seja, na economia, a coisa realmente está parecendo mais séria do que até há pouco se dizia e pior do que em outras ocasiões.

Já se disse, com ominiosa insinuação, que a crise atual é como a de 1929, e seria tão terrível e demorada quanto.

Não é verdade. É uma crise muito diferente, na sua natureza, no seu conteúdo. Mas poderá ser mais terrível e prolongada. Em primeiro lugar, pois não me parece que seja uma crise gerada pelas frustrações e desconfianças em relação à economia real, como foi a de 1929, quando o crack da bolsa de Nova York funcionou como epicentro, derrubando os valores não só dos seus papéis, mas dos ativos reais que eles representavam. A economia, então, entrou em colapso porque as coisas não valiam mais nada.

A de hoje não tem um epicentro, generalizou-se em todos os principais mercados, não nasce da atividade econômica nem dos mercados de ações, nasce de uma crença de que as dívidas não serão pagas – nem as dos bancos nem as dos governos e, é claro, nem mesmo as das pessoas físicas. Com muita gente perdendo empregos na Europa, por exemplo, quem pagará as prestações das casas, carros e outros bens que esses trabalhadores compraram com prazos dilatados?

A crise é de expectativa. E a expectativa é de inadimplência monstro e generalizada, fiscal e privada, isto é, dos governos, dos bancos e das pessoas – nesse clima, quem se propõe a investir para revigorar a economia? E, pior, quem se propõe a financiar investimentos? Hoje em dia nem os botecos de esquina conseguem se instalar apenas com o capitalzinho do botequineiro. Foi-se o tempo. Foi-se o tempo, inclusive, do velho bordão “vintém poupado é vintém ganho”. Não é. Vintém poupado, o mais provável é que se torne vintém perdido. O melhor mesmo é vintém movimentado, pois aí, sim, pode dar algum rendimento. Só que, no ambiente de desconfiança que se instalou no mundo, e por tabela começa a se instalar no Brasil, os vinténs não estão se movimentando, estão se entesourando. É só acompanhar um pouco as cotações do ouro – na sexta-feira, era de US$ 1.623 a onça, com alta de US$ 67 – e também da prata, platina, paládio, etc., em períodos como os atuais para constatar que, em vez de se movimentar, os vinténs estão se lastreando, ancorando-se… aos borbotões.

E não parece haver dúvida de que essa “aversão ao risco” mundial, que se traduziria melhor como aversão ao investimento e, mais ainda, aversão a emprestar, já bateu no Brasil. Não é por acaso que no governo brasileiro, a presidente Dilma-Quixote e o seu fiel escudeiro Sancho-Mantega pularam em seus cavalos e dispararam em todas as direções. Para o quê? Para nada? Ah, sim, para “estimular a economia”.

Pelo menos por enquanto, essa cavalgada heroica não parece estar conseguindo convencer algum investidor desavisado – nacional ou estrangeiro – a abrir a burra e derramar seus dobrões na economia.
A publicação das contas nacionais para o primeiro trimestre do ano mostrou forte queda na Formação Bruta de Capital Fixo. E, ao que tudo indica, o governo tem a maior parcela de responsabilidade nessa queda, não propriamente por falta de recursos, mas por causa da sua notória incapacidade de gerir investimentos.

Investimento público sempre foi a resposta para crises. O governo proclama a vontade de investir (o PAC está aí) e amealha um superávit primário de R$ 60,2 bilhões no primeiro trimestre do ano. Mas essa vontade e esse dinheiro só se transformam em empregos e geração de riquezas se houver bons e ágeis projetos executivos e competente engenharia de obras. É nesses desvios que o trem do Brasil Maior empaca. Sem falar na cooptação inepta e suspeita de empreiteiras “padrão Delta” para os trabalhos.

Tempos excepcionais


Paulo Rabello De Castro
Brasil Econômico

O mercado nunca reage a más notícias de modo abrupto. A primeira reação será sempre a de negação. Quando os investidores começam a dar ouvidos às advertências dos supostos “pessimistas”, ainda assim não se darão por convencidos. Mas, nesse ponto, começa o descolamento entre a verbalização e a ação.

As declarações continuarão otimistas mas o dedo do investidor passa a ficar preso ao gatilho para disparar ordens de venda ao menor sinal de agravamento dos sintomas da crise.

Já deixamos a fase inicial de negação para trás, desde que ficou claro o limitado efeito dos choques sucessivos de liquidez (os chamados afrouxamentos monetários) operados pelos governos dos principais países, na China, nos EUA e, recentemente na Europa, por meio do refinanciamento de compromissos bancários da ordem de € 1 trilhão, a três anos de prazo.

E a segunda fase também já está passando rapidamente. Os mercados operaram no campo defensivo desde meados de abril, produzindo um expressivo recuo das cotações de risco e fuga em massa para os tradicionais refúgios nos papéis de dívida alemã, americana e japonesa.

Nos últimos dias, porém, como havíamos antecipado diversas vezes nesta coluna, o cheiro do pânico substituiu o bom-mocismo de falar de recuperação e operar o agravamento da crise.

O elemento novíssimo? A chegada da Espanha ao atendimento de emergência do hospital financeiro. A Grécia saiu de moda diante do tamanho do prontuário de passivos dos bancos espanhóis. Tudo estava lá. Todos os passivos haviam sido supostamente refinanciados.

Mas o banqueiro central espanhol agiu como um piloto maluco: abandonou o comando da aeronave em pleno voo.

O ministro do Orçamento, Cristobal Montoro, vocalizando o governo espanhol, deu o aviso: “Não temos mais como nos financiar no mercado”. O jogo acabou, antes da pretendida reunião de emergência dos líderes europeus.

Estamos na terceira fase, em que o mercado não nega mais nada, aposta contra, mas apenas conserva a educação de não abandonar o salão de festas em louca debandada, por receio de ser pisoteado pela malta apavorada. Todos vão tentando sair de fininho.

A fase final se aproxima e podemos perceber os sinais de sua presença a olho nu. O recuo forte do preço do petróleo é um sintoma. O do ouro também. O aumento excepcional da rolagem dos compromissos dos bancos europeus em prazos muito curtos, de uma semana ou menos.

As agências de risco tradicionais correm para ajustar as notas dos países malfalados e isso também é outro claro sinal de que o pior já chegou e entrou na sala sem pedir licença.

Para os brasileiros, ainda enfiados nos shoppings e fazendo fila para a próxima compra que comprometerá anos de sua renda futura com bens de alto valor, a defasagem entre percepção e reação continua dramática, para não dizer trágica.

O susto coletivo das próximas semanas no mundo poderá nos dar a chance de rever o modelo de alto consumo brasileiro, com o qual temos insistido em enfrentar os efeitos gigantescos da crise mundial, agora com contornos claros de depressão, cujo nome medonho evitamos pronunciar até hoje. Não dá mais para segurar.

Visitantes vão pagar caro para participar da Rio+20


Luís Bulcão 
Veja online

Alimentação, transporte e lazer na cidade-sede da conferência estão tão ou mais caros do que nas cidades turísticas mais visitadas no mundo

(Carlos Ivan/Agência O Globo)
Estátua de Carlos Drummond de Andrade no 
calçadão de Copacabana no Rio de Janeiro 

É possível que uma boa parte das 70 mil pessoas esperadas para a Rio+20 viva a experiência de visitar o Rio de Janeiro pela primeira vez na conferência da ONU, que ocorre entre os dias 13 e 22 de junho – com os encontros de alto nível a partir do dia 20. A conferência sobre desenvolvimento sustentável é a primeira grande reunião de estrangeiros de agora, num ciclo que deve se repetir pelo menos outras quatro vezes – na Jornada Mundial da Juventude e na Copa das Confederações, em 2013; na Copa do Mundo em 2014; e nos Jogos Olímpicos de 2016.

O que os participantes da Rio+20 vão descobrir, depois da má repercussão dos altos valores de diárias de hotel na cidade, é que visitar o Rio de Janeiro é tão ou mais caro – dependendo do programa – que as principais capitais turísticas do mundo. Além do alto custo para acomodação, gastos com alimentação, transporte e lazer fazem com que os cariocas e seus hóspeder tenham que competir diretamente com destinos consolidados, como Paris, Londres e Nova York. 

O secretário municipal de turismo do Rio, Pedro Guimarães, afirma que não foi identificada ainda uma alta demasiada nos preços da cidade por causa da conferência. E diz que a os preços cobrados no Rio são determinados pelo mercado. "O Rio está na moda. Entrou definitivamente no roteiro", diz. "A cidade sempre teve suas características maravilhosas, sempre foi um destino desejado. A tendência é que a medida que as procuras começam a aumentar, você passa a ter um fluxo maior de turistas, os hotéis ficam mais cheios e os preços aumentam. O Rio começou a competir em um outro patamar".

Alimentação – 
O real forte deixa os preços altos para o turismo em todo o país. Anualmente, a revista The Economist publica o seu Índice Big Mac, onde compara os preços do hambúrguer mais famoso da rede americana em todos os países do mundo. Na verdade, a revista quer um parâmetro para mostrar se as moedas estão valorizadas ou subvalorizadas em relação ao dólar. Ainda assim, o índice mostrou, no início de 2012, que o Brasil tinha o quarto Big Mac mais caro do mundo, custando em média 5,68 dólares. O país perde apenas para Suíça, Noruega e Suécia. Nos Estados Unidos, o preço médio do Big Mac é 4,20 dólares. Na zona do Euro, 4,43. 

A revista calculou, em janeiro, o preço do dólar a 1,81 reais. Hoje, com o dólar já passando os dois reais, o visitante da Rio+20 terá que desembolsar 5,13 dólares (10,25 reais) para ter o seu Big Mac nas lanchonetes cariocas, ainda alto em relação ao que se paga nas maiores cidades turísticas do planeta. 

No Riocentro, onde se realizará a cúpula de chefes de estado, os visitantes vão poder escolher entre 17 restaurantes. Redes como o Pão de Açúcar, Bob's, MegaMatte, Viva Orgânicos, BenkeiSushi, Les Sables Café, TerraViva e MilFrutas estarão presentes na praça de alimentação que ocupará todo o pavilhão 2. Apesar de não ter o preço dos alimentos ainda definido, a garrafa de água (500ml) custará quatro reais no Riocentro. Os refrigerantes cinco reais e sucos entre três e quatro reais. A Cúpula dos Povos também terá espaço para alimentação, mas os preços ainda não foram definidos. 

Acomodação – 
Após a polêmica nos preços e vagas de hotéis da cidade, a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Rio (ABIH-RJ) estima que os preços se estabilizem em torno de 670 reais o quarto simples em hotel quatro estrelas e 1.100 reais o quarto simples em hotel cinco estrelas. De acordo com o Índice de Preços de Hotéis do site Hotels.com, que junta informações de reservas feitas em 149 mil acomodações ao redor do mundo, independente do número de estrelas, o preço médio das diárias no Rio subiu de 414 reais para 468 reais de 2010 para 2011. Apesar de ter crescimento de 13%, ainda está abaixo da média de preços de Nova York, 519 reais, segundo o índice.

No entanto, é possível hospedar-se no tradicional hotel Plaza Athenée, no Central Park, em Manhattan, pagando a partir de 1.127 reais, segundo o site Expedia, de reservas de voos e hospedagem. O Copacabana Palace, no Rio, por valores a partir de 1.140 reais. Já, segundo o índice do hotels.com, as hospedagens em cidades como Paris, com média de 375 reais, e Londres, com média de 345 reais, são mais em conta que as cariocas. De acordo com o índice, os preços do Rio batem inclusive os de São Paulo, que tiveram média de 375 reais em 2011.

Transporte- 
Haverá transporte especial para os participantes credenciados para a Rio+20 circularem entre a zona sul e a zona oeste, onde estão o Parque dos Atletas e o Riocentro, principais locais da conferência. O Comitê Nacional de Organização da Rio+20 disponibilizará 350 ônibus divididos em nove linhas. Duas dessas linhas vão conectar os aeroportos Internacional Antônio Carlos Jobim e Santos Dumont aos hotéis. As outras sete ligarão o centro, a zona sul e a Barra da Tijuca ao Riocentro. O governo do Rio também vai pôr das ruas17 ônibus sustentáveis para transportar as delegações entre dias 13 e 22 de junho. Os coletivos serão de três tipos: diesel 100% de cana, diesel S50 (com menor teor de enxofre) e diesel e gás. 

Mas quem for recorrer aos táxis precisa estar preparado. Entre Copacabana, onde se localiza a maior parte dos hotéis, e o Riocentro, por exemplo, as corridas em dias normais custam cerca de 65 reais. Para a Cidade dos Atletas, a viagem pode sair em torno de 60 reais. Quando o destino é o Aterro do Flamengo, também na zona Sul, onde acontecerá a cúpula dos povos, o custo é menor. A corrida sai por aproximadamente 18 reais. Caso o passageiro opte pelo taxi especial, o preço aumenta. Para o Riocentro e a Cidade dos Atletas, é necessário desembolsar 110 reais e, para o Aterro, 28. 

O esquema de ônibus para os não credenciados será reforçado. A prefeitura esquematizou uma linha especial com ponto de partida do shopping Rio Sul, em Botafogo. O coletivo fará ligações com as estações de metrô Cardeal Arcoverde, em Copacabana, e General Osório, em Ipanema, com destino ao Riocentro, Parque dos Atletas e Arena da Barra. O executivo da cidade também reforçou algumas linhas de ônibus estratégicas. A linha 2018, por exemplo, que circula entre o Galeão e o Alvorada, via zona sul, terá 18 coletivos ao preço de 12 reais a passagem. 

A linha 2918, que também faz o percurso Galeão-Alvorada, mas pela Linha Amarela, terá 13 ônibus com tarifa de 12 reais. Para quem circular pela linha 332, Taquara-Castelo, via Rio Centro e orla, encontrará um reforço de 29 ônibus convencionais e pagará 5,40 reais pela viagem.

Compare o gasto com as atrações turísticas
Visitar o edifício Empire States e a Estátua da Liberdade, em Nova York, ou o Museu do Louvre e a Torre Eiffel, em Paris, sai mais barato do que visitar o Cristo Redentor e o Bondinho do Pão de Açucar, no Rio de Janeiro. Já as atrações londrinas do museu de cera Madame Tussauds, London Eye e Palácio de Buckinham saem bem mais caras.
  
Rio de Janeiro


Cristo Redentor (R$ 44,00, com o trem do Corcovado); Pão de Açúcar (R$ 53,00, valor do bondinho); Praias (Cadeira e guarda-sol na praia: 8 reais, em média); Museu de Arte Moderna (MAM) (R$ 8,00). 

Nova York


Empire State Building (US$ 19,00, aproximadamente R$ 38); Estátua da Liberdade (entrada gratuita, ferry: US$ 12 dólares, ou R$ 24); Metropolitan Museum (US$ 25, aproximadamente R$ 50).

Londres


London Eye (31,50 libras, aproximadamente 94 reais); Museu de cera Madame Tussauds (30 libras, aproximadamente R$ 90); Palácio de Buckingham (18 libras, aproximadamente R$ 54,00).

Paris


Torre Eiffel (De escada, 5 euros (aproximadamente R$ 13);  Elevador até o topo, 14 euros (aproximadamente R$ 36,00); Museu do Louvre (10 euros, aproximadamente R$ 26,00, para acesso as coleções permanentes);  Centro Pompidou (10 euros, aproximadamente R$ 26,00).

Dinheiro do pré-sal some em cidade fluminense


Leslie Leitão
Revista Veja 

Reportagem de VEJA revela que, mais do que o prefeito petista, são apadrinhados de José Dirceu quem dão as cartas em Maricá, município que enriqueceu por estar na rota das novas descobertas petrolíferas

SEMPRE AMIGOS - 
Dirceu e Sereno rindo à toa em restaurante: agora, 
Sereno é maricaense desde criancinha

Com pouco menos de 130.000 habitantes, o município de Maricá, a 60 quilômetros do Rio de Janeiro, faz parte de um punhado de localidades fluminenses que enriqueceram de repente por um capricho da natureza: está na rota do pré-sal. Por obra e graça da exploração de petróleo, o orçamento municipal de 200 milhões de reais teve, só nos primeiros três meses deste ano, um acréscimo de 35 milhões relativos a sua fatia dos 100.000 barris extraídos do campo de Tupi, rebatizado de Lula. É uma pequena fração de uma bolada que, nos cálculos mais otimistas, pode beneficiar os cofres maricaenses em até 1 bilhão de reais nos próximos anos. Como prova do reposicionamento de Maricá na ordem de interesses, um dos principais caciques do PT, José Dirceu, visitou a cidade pelo menos duas vezes desde a posse do prefeito petista Washington Siqueira, o Quaquá, em 2009. Em franca preparação para a reeleição, Quaquá vem espalhando pelo município cartazes de obras milionárias. Os milhões têm saído dos cofres da prefeitura, não há dúvida, mas a cidade pouco tem se beneficiado deles. Nesses três anos e meio, Quaquá e sua turma passaram a ser alvo de 21 processos e cinquenta inquéritos. No rol de abusos, o beabá da cartilha da corrupção: improbidade administrativa, danos ao Erário, prevaricação, peculato, abuso de poder econômico, superfaturamento, contratação de empresas-fantasma - maracutaias que podem ter feito evaporar do caixa oficial cerca de 150 milhões de reais. 

Ao montar sua máquina administrativa, Quaquá convocou duas pessoas de fora. Uma é Marcelo Sereno, ex-assessor dele mesmo, José Dirceu, nos tempos em que era ministro da Casa Civil. Em 2010, Sereno assumiu a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Indústria, Comércio e Petróleo de Maricá no lugar de Aleksander Santos, político local que, por sinal, enquanto esteve no cargo, também se aproximou de Dirceu, passando a usar essa relação como cartão de visita nos contatos que fazia. Gostava até de expor em redes sociais fotos desse convívio. Sereno se afastou em abril, para concorrer a uma vaga na Câmara de Vereadores do Rio, mas seus tentáculos na política maricaense continuam firmes. Outro laço do chefão petista no município é com Maria Helena Alves Oliveira, a secretária executiva e de Administração, que tem no currículo cargos semelhantes, sempre por indicação de Dirceu, nas prefeituras de Nova Iguaçu e Manaus. Até Lurian, a filha do ex-presidente Lula, hoje funcionária da prefeitura de São José dos Campos, no interior de São Paulo, já prestigiou Maricá: esteve lá no Carnaval e, três meses depois, foi até agraciada com o título de cidadã maricaense. 


A CANETA É DELA - 
Maria Helena, a outra amiga de Dirceu em Maricá: 
sua assinatura aparece em vários dos contratos irregulares

Na cidade, todo mundo sabe: são os apadrinhados de Dirceu, muito mais do que o próprio Quaquá, que realmente dão as cartas. Várias pessoas relatam ter ouvido de Sereno, por mais de uma vez: “Quem manda lá é a gente”. Boa parte dos contratos sob investigação da Justiça leva a assinatura da secretária Maria Helena. Um deles trata dos gastos com locação de veículos - o processo em curso aponta problemas em contratos que somam 18 milhões de reais. Um terço dessa quantia destinou-se à Lumar Locadora de Transportes Ltda., que tem sede no município de Belford Roxo, na Baixada Fluminense, a 100 quilômetros de Maricá. No endereço visitado por VEJA, funciona uma pequena loja de material de construção. Quem responde pela Lumar é Rosana Francisco de Moura Correia, que por breve período foi gerente da Subsecretaria Executiva de Projetos Especiais de Maricá. A prefeitura afirma que já cancelou o negócio. Dois outros contratos suspeitos pairam sobre uma única estrada, a de Itaipuaçu. Um deles é alvo de um processo no qual a Promotoria de Tutela Coletiva de Defesa da Cidadania pede a devolução de 11 milhões aos cofres públicos. No outro contrato, a gastança foi maior: 23 milhões de reais. Quem trafega pela estrada vê que a obra não passou de maquiagem, e muito malfeita: trechos asfaltados há pouco mais de um mês já apresentam buracos e não se vê indício dos prometidos corredores de escoamento de chuvas, das calçadas e pontos de ônibus que constam do projeto. Na área da educação, o alvo de vários inquéritos por improbidade é o gasto com a construção de escolas, em valores sempre próximos de 1 milhão de reais. O projeto mais recente, da Escola Carlos Magno Legentil de Mattos, no centro da cidade, prevê que as seis salas e uma quadra poliesportiva custem 930.000 reais - o dobro, no mínimo, do orçamento para uma obra desse porte. 

Enquanto Quaquá e sua administração se enrolam nas contas públicas, Maricá, a suposta beneficiária dos milhões em royalties, continua a ter serviços públicos abaixo da crítica: 80% das casas sem água encanada, o terceiro pior município do estado na área da saúde, transporte público precário. É comum que moradores caminhem 6 quilômetros até um posto médico e não sejam atendidos. “No mês passado a pediatra estava de férias. Hoje está doente. A verdade é que nunca tem ninguém para atender”, relata Cintia Falcão, 23 anos, mãe de um menino de 1 ano e meio que precisa de uma cirurgia no pé. O dinheiro do petróleo deveria ser, mas não é, garantia de progresso. Pelos cálculos mais otimistas, as reservas do pré-sal podem alcançar 100 bilhões de barris, que, ao preço de hoje, chegariam a 600 bilhões de reais em royalties. No estado do Rio, 87 dos 92 municípios já recebem esses royalties, e em volume cada vez maior: foram 2 bilhões de reais em todo o ano de 2010 - e 1,2 bilhão só no primeiro trimestre deste ano. Mesmo assim, e apenas para ficar em dois exemplos, Guapimirim (50.000 habitantes, 20 milhões de reais em royalties no primeiro trimestre) e Rio das Ostras (105.000 habitantes e quase 80 milhões de reais) amargam, respectivamente, a última colocação e o oitavo pior lugar no indicador de qualidade do Sistema Único de Saúde do estado - um retrato irretocável do atraso. Para onde vão tantos milhões? Em Maricá, processos e inquéritos em profusão falam por si mesmos: para melhorar a vida dos cidadãos é que não é. 

Sindicatos querem fatia da desoneração na folha


Marcelo Rehder 
O Estado de S.Paulo

Para sindicalistas, medida abre espaço para aumento real dos salários e maior participação dos trabalhadores nos lucros das empresas

Sindicatos de trabalhadores vão usar os benefícios da desoneração da folha de pagamentos, que começa a valer no mês que vem, como munição para buscar a ampliação dos ganhos reais nas negociações salariais do segundo semestre. Além da contrapartida de manutenção ou ampliação do emprego, os sindicalistas acreditam que a medida pode permitir aumentos mais generosos nos salários, já que o custo de produção das empresas tende a ser menor e o lucro, maior.

Anunciada em abril, dentro do pacote de medidas do governo para aumentar a competitividade do produto brasileiro, a desoneração beneficia empresas de 15 setores intensivos em mão de obra, como plásticos, autopeças, têxtil e confecções. Elas deixarão de pagar contribuição previdenciária de 20% sobre a folha de salários, que passará a ser de 1% a 2,5% do faturamento.

A mudança vai representar redução de R$ 7,2 bilhões por ano no desembolso global das empresas incluídas no programa, estima o governo. Para 2012, a economia será de R$ 4,9 bilhões.

"Queremos um pedacinho desse bolo", diz Sérgio Luís Leite, presidente da Federação dos Químicos e Farmacêuticos do Estado de São Paulo. Ele fala em nome de 60 mil trabalhadores do setor do plástico, que têm data-base para reajuste salarial em julho e novembro.

A contribuição da indústria do material plástico para a Previdência Social foi de R$ 988,7 milhões em 2009, de acordo com o Departamento Intersindical de Estudo e Estatísticas Socioeconômicas (Dieese), Se a contribuição fosse de 1% sobre o faturamento, o montante seria bem menor, de R$ 438,9 milhões. Ou seja, as empresas teriam deixado de pagar o equivalente a R$ 549,8 milhões.

Aplicando-se o mesmo cálculo para os anos de 2007 e 2008, nota-se que a economia só aumentaria a cada ano: R$ 483,7 e R$ 545,5 milhões, pela ordem.

Os empresários alegam, no entanto, que a concorrência com os produtos estrangeiros está acirrada, em meio à crise financeira mundial. A desoneração, segundo eles, serve apenas para melhorar a competitividade das empresas nacionais e evitar demissões.

A queda de braço já começou na mesa de negociações do setor de brinquedos e instrumentos musicais. O sindicato dos trabalhadores, ligado à federação dos químicos, reivindica aumento real de 5%, além da inflação. O sindicato patronal oferece apenas a reposição da inflação. A data-base da categoria é 1.º de julho.

Nas confecções de São Paulo e Osasco, a reivindicação dos trabalhadores é mais salgada. Os 80 mil trabalhadores do setor querem reajuste de 15%, incluindo aumento real e reposição da inflação. A data-base é 1.º de julho, mas as negociações ainda não começaram.

"Estivemos juntos com os empresários na campanha pela desoneração e isso dá folga para fortalecer a indústria e ao mesmo tempo dividir um pouco com o trabalhador", diz Eunice Cabral, presidente do Sindicato das Costureiras e Trabalhadores do Setor do Vestuário de São Paulo e Osasco.

Desde o início do ano, os metalúrgicos da região metropolitana de Curitiba trabalham com uma projeção de 3% de aumento real e valorização em torno de 20% da participação dos trabalhadores nos lucros ou resultados (PLR) das montadoras e autopeças da região.

"A desoneração vai dar um pouco mais de fôlego para as autopeças", diz Sérgio Butka, presidente do sindicato. "Nosso planejamento está baseado no desempenho da economia, que no Paraná não se alterou no segundo trimestre, apesar das queixas dos empresários."

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
A cretinice desta gente parece não ter limites: além de se apropriarem de parte do IMPOSTO SINDICAL, portanto, dinheiro público, foram dispensados de forma criminosa por Lula, de prestarem contas e serem fiscalizados. Repito, se o dinheiro é público, obrigatoriamente, deveriam prestar contas e serem fiscalizados sobre a forma como a  aplicam. Isto é o mínimo que se exige para tempos de transparência.

Agora, não satisfeitos de ganharem de graça algo que não lhes pertence, ainda querem avançar sobre um benefício que era pago não pelos empregados, e sim pelas empresas.   

Além disto, é bom que se diga que a desoneração foi para beneficiar as empresas, asfixiadas no limite do suportável pela carga de impostos. Portanto, sindicato não tem nada a ver com isso. 

UNE recebeu verba para construir sede, mas projeto está parado


Cássio Bruno e Jaqueline Falcão
O Globo

Governo federal depositou R$ 30 milhões em conta da entidade para fazer a obra

GLOBO / GABRIEL DE PAIVA 
Lula, então presidente da República, discursa ao entregar verba para a UNEO 

RIO - O lançamento da pedra fundamental da nova sede da UNE, no Rio, em 20 de dezembro de 2010, foi marcado por uma grande festa, com direito a palanque e discursos de políticos e estudantes. O convidado principal era o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Naquela ocasião, o próprio Lula anunciou a liberação de R$ 30 milhões — de um total de R$ 44 milhões — para a construção do prédio de 13 andares em um terreno da Praia do Flamengo, no número 132, na Zona Sul. Até hoje, porém, não há nenhum sinal de que no local será erguido o projeto desenhado e doado à entidade pelo arquiteto Oscar Niemeyer, que também estava presente ao evento.

— Não foi fácil avaliar quanto custava este prédio aqui. Chegamos a R$ 32 milhões, depois a R$ 44 milhões. Nós já depositamos R$ 30 milhões na conta da UNE. Já está depositado. Ela (a UNE) nunca esteve tão rica como agora. O que vocês estão conquistando, na verdade, é muito mais do que um espaço para fazer uma sede. Eu acho que a conquista aqui é um espaço para a consolidação do processo democrático brasileiro, para o debate político, para a formação da nossa juventude e para discutir as coisas que o movimento estudantil tem que discutir — afirmou Lula no discurso, o último dele dedicado a estudantes antes de deixar a Presidência da República.

UNE diz que obras começam em agosto
O terreno foi doado à UNE no governo Itamar Franco. E o dinheiro repassado por Lula a título de indenização pelos danos sofridos durante a ditadura militar. A antiga sede foi incendiada pelo regime, em 1964. Dos R$ 44 milhões, R$ 14 milhões que também estavam previstos para o novo prédio ainda não foram liberados. As obras deveriam ter começado no primeiro semestre do ano passado, com duração de até dois anos, incluindo salas de cinema, teatro, museu Memória do Movimento Estudantil e a administração. À época, os dirigentes também tinham planos de alugar alguns andares.

Quando a quantia foi transferida para a UNE, o presidente era Augusto Chagas. Procurado pelo GLOBO nesta sexta-feira, ele não quis comentar o caso:

— Está combinado com a UNE que só o atual presidente fala. É indelicado eu me pronunciar, não é adequado. Peço desculpas. Conversa com o Daniel (Iliescu, atual presidente).

Iliescu afirmou que a construção deverá ocorrer até 11 de agosto deste ano, quando a UNE comemora 75 anos de existência:

— Somos uma entidade privada e não há obrigação legal que define a destinação do dinheiro que recebemos. No entanto, a diretoria plena da UNE definiu que os recursos serão para a nova sede. Está no tempo absolutamente razoável. O início das obras será antes do dia 11 de agosto, quando faremos uma grande comemoração.

Iliescu não explicou o motivo da demora e destacou que a especialidade da UNE “não é construir prédios”:

— Nossa especialidade não é construir prédios e, sim, debater educação e fazer passeata. Mas temos corpo técnico que nos deixa confortável para iniciar a obra.

Segundo Iliescu, os R$ 30 milhões estão em uma “conta bancária específica”, que é auditada pelo Conselho Fiscal da UNE. O Ministério Público Federal abriu uma ação para tentar anular a doação do terreno alegando que a UNE nada fizera para construir a sede. Mas a Justiça optou por arquivar o caso, em 2006, diante do compromisso da UNE em erguer o prédio.

O Ministério do Esporte informou nesta sexta-feira que já pediu à UNE a devolução integral dos recursos repassados à entidade, em convênio relacionado à 6ª Bienal de Artes, Ciência e Cultura, realizada em 2009. Como o GLOBO mostrou, o Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (TCU) aponta a existência de indícios de irregularidades graves em convênios do governo federal com a UNE e a União Municipal dos Estudantes Secundaristas (UMES), de São Paulo. O procurador Marinus Marsico pediu ao TCU que investigue os repasses.

O convênio do Ministério do Esporte com a UNE, no valor de R$ 250 mil, foi encerrado em 28 de fevereiro de 2009. Em março de 2012, após já ter prorrogado o prazo de entrega da prestação de contas, o Ministério do Esporte incluiu a UNE na lista de inadimplentes do Siconv, sistema que gerencia os convênios da União. Segundo a pasta, a solicitação de devolução integral do dinheiro foi feita em 23 de maio, um dia antes de o procurador Marsico protocolar a representação no TCU. O valor restituído deverá ser corrigido pela inflação do período.

“Considerando que o princípio da ampla defesa e o prazo para manifestação da parte conveniada foram garantidos, o Ministério do Esporte procedeu pedido à entidade de restituição do valor integral do convênio, devidamente atualizado monetariamente nos termos da Lei”, diz nota divulgada pelo ministério.

Na representação que fez ao TCU, Marsico registrou a demora do Ministério do Esporte em tomar providências diante do atraso da UNE em prestar contas sobre o uso do dinheiro público. Segundo o procurador, a pasta só agiu depois de provocada por ele:

— Isso é muito perigoso, porque envolve uma atuação estrutural dos ministérios, que deveriam agir prontamente. Só conseguimos pegar essas coisas no tribunal de contas muito depois. E aí o prejuízo já está bem maior — disse Marsico ao GLOBO.

— Não há investigação no TCU. O que existe é um pedido de um procurador para abrir uma investigação. O TCU, por enquanto, não se posicionou. Desde 1999, fazemos convênios com o governo. Todas as prestações de contas foram aprovadas. Não há irregularidade. Estou à disposição para esclarecer. Posso dizer que não houve má-fé. Agora, se houve uma imperícia técnica, tomaremos as medidas cabíveis, como devolver os recursos — afirmou Iliescu.

Priscila Casale, presidente da União Municipal dos Estudantes Secundaristas de São Paulo (UMES), negou que a entidade tenha usado recursos do governo federal indevidamente ou entregue notas fiscais frias na prestação de contas.

— Nunca tivemos problemas com a prestação de contas. Celebramos convênio com governo federal, estadual e municipal há um bom tempo. Confiamos no nosso trabalho — afirmou Priscila.