quarta-feira, abril 03, 2013

O Engenhão interditado é bem a cara do Brasil

Adelson Elias Vasconcellos 


Se, dentre patifaria que acontece no Brasil de uns anos para cá, pudéssemos pinçar uma que, pelo emaranhado de  fatos interligados representasse o lado mais obscuro  da vida brasileira, por certo o estádio João Havelange, o famoso Engenhão,  no Rio Janeiro, reúne um cardápio bem ao gosto do que se procura.

A começar pelo fato de ser ele, junto com Copa das Confederações, Copa do Mundo e Jogos Olímpicos, a jogada política para a construção de uma hegemonia de poder. Não há limites para torrar dinheiro público na realização destes  eventos. Contudo, apesar de esportivos, olhando para a montagem dos cenários, do palco, do circo armado em torno destes eventos, não se consegue detectar como objetivo maior a busca pela qualificação destes esportes    no Brasil. Não há e nunca houve projetos neste sentido. 

A construção de parques esportivos que ficariam como legado, no caso do Pan de 2007, é uma falácia que agora se revela em seu completo esplendor. O Engenhão era o último monumento deste legado que restava em pé. E, como se vê, se uma perícia técnica detectar que os problemas estruturais são muito mais graves do que aqueles que afetam a cobertura do estádio, é bem provável  que deva ser demolido. Foram mais de 3 bilhões bancados nesta aventura, literalmente transformados em pó. Vexame total. Perda completa de tempo e dinheiro.

Sabemos que a construtora vencedora da licitação para a construção do Engenhão, foi a famosa Delta. Uma fama às avessas, diga-se em tempo. Ora, a licitação previa não apenas a confecção do projeto, mas sua realização e, neste ínterim,  incluía-se a cobertura.  Quando a construção iniciaria a colocação da cobertura, eis que a Delta se declara inapta para aquele serviço e rescinde o contrato firmado. Neste momento, devido aos atrasos, o Comitê Organizador, junto coma Prefeitura, tiveram que, às pressas encontrar desse conta do recado. Porém, dado a situação emergencial, Odebrechet e OAS se comprometeram em concluir aquilo que a Delta, apesar de contratada, se negou em executar, porém, com ressalva de que não se responsabilizariam por eventuais problemas estruturais, apenas com aqueles relativos à construção em si. Dado a premência dos prazos, a Prefeitura resolveu assumir o ônus. 

Se formos vasculhar o histórico da construção do Engenhão, o que não faltaram são problemas de toda a ordem. Para que o leitor se atualize com este histórico escabroso, seguem quatro vídeos que dizem bem como não se deve fazer algo tão grandioso. Demonstram, no fundo, a total falta de seriedade, a total irresponsabilidade, omissão e negligência com que o poder público brasileiro, no seu geral, trata o dinheiro que retira de forma abusiva da sociedade.  

A seguir, assistam aos vídeos, disponibilizados pelo comentarista esportivo Lucio de Castro, da ESPN, no site da emissora. Ao final, retornaremos para concluir.

Estádio João Havelange-O Engenhão(1/4)




Estádio João Havelange-O Engenhão(2/4)




Estádio João Havelange-O Engenhão(3/4)




Estádio João Havelange-O Engenhão(4/4)





No arquivo recente do blog, os leitores acessam várias reportagens e artigos sobre o mesmo tema. Ao fim e ao cabo fica claro que não havia meios desta obra terminar bem. Estes problemas estruturais, que agora se detecta na cobertura, também eram visíveis em outras partes do estádio. E também foram denunciadas. E, quanto mais denúncias se faziam, mais o custo final da obra encarecia e se atrasava em seu cronograma.  Como, também, fica mais do que visível que a tal licitação foi um joguinho de cartas marcadas num jogo político que reuniu governos federal, estadual e municipal.  Aqui, a única coisa que não se encontrará serão anjos, gente inocente, a não ser o próprio contribuinte que é, afinal, quem arcou com a lambança toda. 

Agora, se diz que a prefeitura assumirá a responsabilidade em consertar a patifaria. Talvez até o governador Sérgio Cabral queira tirar uma lasquinha canalha desta desgraça.  O fato é que a conta mais uma vez será paga pelo contribuinte. E aí reside o grande erro. Quem deveria pagar e indenizar o prejuízo monumental deveria ser a Delta, responsável pelo projeto, a Prefeitura pela falta de fiscalização e, juntamente com o governo do Estado, pela falta de seriedade na licitação inicial. Pelas construtoras Odebrechet  e OAS que jamais deveriam dar continuidade numa obra sem ao menos analisar a adequação do projeto com o que seria construído. E, claro, o COB, responsável direto pela lambança toda. 

De todos estes atores é que a grana para o conserto – se é que existe conserto – deveria ser extraída, nunca dos cofres públicos. Esta tropa deveria, também, ser responsabilizada não apenas em ressarcir mas também em indenizar pesadamente face o prejuízo causado.  Há farta munição para o TCU e o Ministério Público acionarem, judicialmente, os responsáveis irresponsáveis, sejam empresas ou mesmo pessoas físicas. 

Se nada acontecer , e situações como esta, no Brasil, sabemos que tudo tem pra nada acontecer, continuaremos andando para trás, alimentando a negligência, o roubo descarado, a irresponsabilidade, os superfaturamentos imotivados, sem que os responsáveis sejam punidos exemplarmente, para que sirvam de exemplo para um país já repleto e devastado pela cultura da impunidade. 

O Brasil deve, urgentemente, fazer a opção pela civilidade, pelo regramento, pela obediência às leis, e não só isso: para que os seus detratores  e infratores não mais saiam lisos, lesos e livres por sua ação criminosa e delinquente. 

Sequer o senhor Eduardo Paes poderá ser aliviado neste rol de irresponsáveis. Tinha em seu poder, desde 2010, um relatório pormenorizado das irregularidades, e somente passadas as eleições de sua reeleição é que veio a público para divulgá-las. Seu crime não é apenas a omissão, mas a conivência e, em última instância, a cumplicidade. 

Nenhuma civilização progrediu e saiu das trevas sem que sua sociedade se determinasse em seguir códigos de conduta, leis, regras, ordenamento jurídico.  Nenhum país se tornou desenvolvido sem permear a conduta de seus cidadãos dentro dos limites de responsabilidade e seriedade. O Brasil não sairá deste atoleiro em que vem sendo enfiado, se tentar seguir o caminho inverso. Pelo contrário. A tendência é enlamear-se mais e mais. 

Assim, que a política se restrinja ao seu canto macabro e obscuro e deixe aos técnicos os cuidados que a boa técnica exige. Chega de aprendizes de feiticeiros, de salvadores da pátria, de vigaristas e mistificadores deleitando-se na ignorância e desinformação do povo. Neste rumo, chegaremos mais rápidos à barbárie, de onde não cansam de brotar a elite política que viceja ao derredor.   

Para encerrar: os engenheiros responsáveis pela vistoria técnica que determinou a interdição temporária do Engenhão, como informa o site da Veja, afirmaram ainda não saberem com o consertar os defeitos estruturais que o estádio apresenta. Bem, neste caso, é preciso ter equilíbrio e não por os pés pelas mãos. O adequado seria fazer uma varredura completa em todos os aspectos tocantes ao estádio, com o objetivo de diagnosticar, corretamente, até aonde o comprometimento da estrutura se estende, porque, se sabe, que os problemas não se restringem apenas à cobertura. Assim, conhecer a exata dimensão dos erros de projeto e até construtivos, evita que, no futuro, novas interdições e novos consertos precisem ser feitos.   

Mas é preciso que fique claro: apesar dos problemas que os times cariocas enfrentarão doravante pela falta de estádios – o Maracanã não se sabe quando finalmente será concluído – a questão agora é puramente técnica. Política, nesta altura, é a pior das conselheiras e, em consequência, a escolha  mais inadequada.

Dentre 18 estádios, 15 não estão adequados para o futebol. Mas isto é um problema menor. O que importa agora, é esquecer a pressa em encontrar uma solução  no campo esportivo, priorizando, antes de mais nada, a máxima segurança para os torcedores. Tragédias causadas pela inépcia de dirigentes e autoridades acho que o país já teve o que chega em tão curto espaço de tempo. Tem vítimas de Santa Maria que ainda permanecem no hospital, nunca é demais lembrar. 

Bem longe do Brasilzão


J.R. Guzzo
Revista EXAME

O motivo do desastre com a soja é o mesmo que estava aí dez anos atrás, quando Lula e Dilma descobriram o Brasil pela segunda vez

É uma ironia que a presidente Dilma Rousseff esteja falando do Ministério dos Transportes agora. Nas conversas sobre a reforma ministerial, a última coisa em que os políticos estão pensando é em melhorar os transportes

Os brasileiros tiveram oportunidade de viver nestes últimos dias um dos grandes momentos de uma disciplina que poderia muito bem entrar nos currículos das nossas faculdades de economia e administração. Título: “O Brasil segundo o governo e o Brasil que existe para quem vive no mundo das realidades”. No Brasil oficial, a presidente Dilma Rousseff, o copresidente Lula e a tropa toda que prospera em volta deles estavam envolvidos na tarefa, altamente estratégica, de mexer daqui para lá nos ministérios. Seus labores, nessa questão, parecem incluir a criação de mais um – isso mesmo, mais um – ministério, o que nos leva a um total de 39, pelas últimas contas, e reforça a perspectiva de atingir o sonho dourado de Dilma e da companheirada: 50 ministérios ao todo, ainda em nosso tempo. 

No Brasil das realidades, enquanto isso, o maior comprador de soja da China, o grupo Sunrise, anunciou o cancelamento da compra de 2 milhões de toneladas de soja brasileira (valor: 1,1 bilhão de dólares) porque dos 12 navios que deveriam entregar a soja em janeiro e fevereiro só dois chegaram à China até agora. E, em português claro, o que se chama de quebra de contrato – e, por causa disso, a Sunrise pretende cancelar o negócio inteiro.

É exatamente esse o Brasil que existe para os brasileiros. O motivo do desastre com a soja é o mesmo que estava aí dez anos atrás, quando Lula e Dilma descobriram o Brasil pela segunda vez – pura, simples e grosseira incompetência na ação do governo na área de transportes. A presidente, há algum tempo, desafiou tudo e todos: “Não herdamos nada”, disse ela. Parece que também não vão legar coisa nenhuma.

Em matéria de transporte, é certo que não fizeram nada de útil se nosso ritmo de entrega de grãos está na base de dois navios atracados no porto de chegada, ante 12 que foram contratados. O Brasil de verdade não consegue, simplesmente, levar a soja colhida até os portos – principalmente o de Santos, o maior de todos eles. Há imensas quantidades de soja perdidas em Mato Grosso, pois não se sabe como tirá-las de lá. Os caminhões levam nove dias para percorrer uma distância de 2 200 quilômetros, e não há a alternativa de utilizar linhas ferroviárias – invento que está para completar 200 anos de existência, mas não foi bem entendido até hoje pelos governos brasileiros. Os caminhões que conseguem chegar ao destino formam filas apavorantes, pois a capacidade de escoamento dos portos é uma piada. A possibilidade de armazenar a soja é outra: para 180 milhões de toneladas de grãos colhidas, a capacidade atual dos silos brasileiros não chega a 150 milhões.

E uma notável ironia que justo neste momento a presidente da República esteja falando muito a respeito do Ministério dos Transportes, dentro das conversas sobre “reforma” ministerial – mas a última coisa em que ela, Lula e os políticos à sua volta estão pensando é em melhorar o que quer que seja nos transportes brasileiros. Nem sabem (e não querem ficar sabendo) que há filas de caminhões nos portos, que mais de 1 bilhão de dólares foi jogado fora nas operações de exportação de soja para a China ou que há grãos apodrecendo no pé nas áreas produtoras. Seu único e exclusivo interesse é decidir quem vai para o emprego de ministro; o tema “transporte”, para todos eles, começa e acaba aí. O resto do mundo em que vivem não é melhor. O deputado Valdemar Costa Neto, atualmente condenado a sete anos e dez meses de cadeia por corrupção, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro, terá voz na “reforma” de Dilma, na sua condição de grão-comendador do PR? 

O ex-ministro do Trabalho Carlos Lupi, demitido por suspeitas de ladroagem, parece que está mandando de novo no pedaço. Anuncia-se a criação do Ministério das Pequenas Empresas, a última coisa neste mundo que pode servir a uma pequena empresa – seu problema não é a falta de um ministério, e sim o excesso de fiscais de todos os tipos que a extorquem dia após dia.

Este, sim, é o nosso Brasilzão.

Usando o Seu santo nome


Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Sexta-feira da Paixão, como o nome indica,é sexta-feira. Mas a Justiça Federal já fechou na quarta - o que inclui o Superior Tribunal de Justiça e o Supremo Tribunal Federal. As Justiças estaduais e fóruns fecharam na quinta. Os milhares de processos à espera de decisão tratam de casos terrenos, que podem esperar. 

Na quarta, os desavisados imaginavam que o Congresso estivesse em pleno funcionamento. Na Câmara, 368 deputados marcaram presença e garantiram seus jetons (aquela diária que parlamentar recebe quando aparece no serviço), mas presentes mesmo, às 17h, havia oito no plenário. Os demais, certamente, estavam em seus gabinetes, trabalhando ou preparando-se, em retiro espiritual, para a Sexta-Feira Santa. No Senado, 63 excelências marcaram presença, mas só seis deles se materializavam no plenário às cinco da tarde. A grande maioria dos nobres parlamentares chegaria à Sexta-Feira da Paixão, ao Sábado de Aleluia e ao Domingo de Páscoa com o espírito revigorado pelo exercício do retiro (e o corpo mais revigorado ainda pela falta de exercício proporcionada pelo descanso).

O repousante fervor espiritual de Legislativo e Judiciário talvez não deva ser criticado. Certa vez, perguntaram ao governador mineiro Hélio Garcia por que ficava mais tempo em sua fazenda do que no gabinete. Ele explicou: cada medida que deixava de tomar representava boa economia para Minas. Vale o exemplo. Dos 21 deputados que presidem comissões permanentes na Câmara, oito respondem a inquéritos e ações penais. 

É até bom que trabalhem pouco.

Pegando no batente
De acordo com as melhores informações, todo o pessoal que antecipou os feriados religiosos volta amanhã ao trabalho. Sim, segunda-feira. Dia 1º de abril.

A hora do Mensalão
O ministro-revisor do processo do Mensalão, Ricardo Lewandowski, já concluiu sua parte no acórdão do julgamento. É provável que o acórdão seja publicado nesta semana, o mais tardar na próxima, abrindo-se então o prazo para recursos. Encerrado o julgamento dos recursos, cumprem-se as sentenças.

Engenhoso Engenhão
A melhor maneira de esconder um escândalo é arranjar outro escândalo com maior poder de escandalizar. Vale a pena ler a nota de um profundo conhecedor do Rio, o excelente colunista Aziz Ahmed, do jornal O Povo: "A divulgação que a prefeitura do Rio está dando à lambança que resultou na interdição do Engenhão tem um componente político articulado pela dupla Eduardo Paes - Sérgio Cabral. 

Aproveitando a paixão do povo pelo futebol, os dois peemedebistas conseguiram apagar do noticiário uma trapalhada de maior gravidade, porque esconde suspeitas de conluios com empreiteiras, malfeitos e corrupção. 

Trata-se do programa Minha Casa Minha Vida. Em Duque de Caxias, construíram um conjunto dentro de um charco. Em Niterói, o conjunto para o pessoal do Morro do Bumba está sendo demolido antes de ser ocupado. Em Itambi (Itaboraí), começaram a construir um conjunto com vários blocos e a obra foi abandonada".

Alguém tem dúvida de que o problema do Engenhão sirva mesmo para isso?

As boas intenções
O senador mineiro Aécio Neves, provável candidato do PSDB à Presidência da República, conversou com a bancada federal do partido e pediu foco nas propostas tucanas. Tem razão. Só falta descobrir quais são as propostas tucanas.

Chega de intermediários
O PSDB já contratou um conselheiro político das campanhas de Barack Obama, David Axelrod, para trabalhar com seu candidato Aécio Neves. Outro americano, Antonio Villaraigosa, prefeito de Los Angeles em fim de mandato, que comandou a campanha de Hillary Clinton para ser candidata à Presidência (foi batida por Obama), também vem sendo procurado pelos tucanos. 

Do marketing o PSDB está cuidando. Agora é só convencer o partido a apoiar o candidato.

A verba voa
A Prefeitura paulistana, com o petista Fernando Haddad, está demonstrando grande disposição de torrar dinheiro com propaganda. Em rádio e TV, no horário nobre (o mais caro), anunciou maciçamente a doação de um terreno para um novo campus da Universidade Federal de São Paulo. Não era verdade: o terreno existe, um dia, dizem, será doado, mas a doação ainda não foi aprovada pela Câmara. O Ministério Público Estadual decidiu abrir inquérito sobre o caso. A Prefeitura explicou que houve um engano, uma troca de anúncios: deveria ter saído um sobre saúde. Mas alguém aprovou a veiculação. Quem? Como? Silêncio.

Outros anúncios, mais baratos, são até ofensivos: apontam novos pontos de ônibus como um presente da Prefeitura para a cidade. 

Quem imaginava que instalar pontos de ônibus fosse obrigação da Prefeitura certamente estava enganado. 

Onde está Chávez? 
O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, informou oficialmente, há dias, que não seria possível embalsamar o corpo de Hugo Chávez, porque o tratamento teria de se ter iniciado logo após a morte. Não houve enterro oficial. Onde está o corpo de Chávez? Ficará no Museu Histórico Militar, sem sepultamento?

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Os Três Porquinhos Reaças


Felipe Melo 
Mídia Sem Máscara


Era uma vez três porquinhos: Cícero, Heitor e Prático. Um belo dia, os três porquinhos decidiram sair da casa de sua mãe e construir as próprias casas. Cícero construiu para si uma casa de palha, Heitor, uma casa de madeira, e Prático, uma casa de tijolos. Cícero e Heitor construíram rapidamente suas casas, enquanto Prático demorou mais para construir a sua, já que era mais difícil erguer paredes de tijolos do que de palha ou de madeira.

Certa vez, apareceu um lobo nas redondezas. Movido por sua natureza predatória, o lobo quis devorar os porquinhos. Indo à casa de Cícero, o lobo bateu à porta. Cícero se escondeu, mas o lobo derrubou a casa com seu poderoso sopro, fazendo Cícero fugir. Em seguida, o lobo foi à casa de Heitor, que também se escondeu quando o lobo bateu à porta. Novamente, o lobo usou seu sopro poderoso, derrubando a casa do segundo porquinho, que fugiu para a casa de seu irmão Prático – onde encontrou Cícero, que fugira para lá antes.

O lobo, então, foi à casa de Prático. Tentou derrubar a casa, mas não conseguiu, pois a casa de tijolos era bem forte. Então, o lobo empreendeu uma nova tática e, vendo que a casa tinha uma chaminé, tentou usá-la para entrar na casa. No entanto, Prático acendeu o fogo e pôs sobre ele uma panela, que começou a queimar a cauda do lobo. O lobo fugiu, machucado, e os porquinhos ficaram a salvo. Mas não por muito tempo.

Dias depois, todos os jornais noticiaram que o pobre lobo havia sido discriminado pelos três porquinhos, que haviam adotado uma postura conservadora e reacionária contra o lobo por não quererem entender a sua natureza. O lobo entrou com uma representação na Secretaria Especial da Igualdade Animal da Presidência da República, que encaminhou o caso ao Ministério Público Animal. O Ministério Público Animal, após alguns dias de investigação, encaminhou denúncia à Justiça Animal contra os três porquinhos por especismo (preconceito contra uma espécie) e tentativa de lupicídio. Diversas ONGs do movimento lupino promoveram “esculachos” na frente da casa dos porquinhos, denunciando o inaceitável conservadorismo suíno. O Conselho Lupinista Missionário publicou uma carta-aberta do lobo, denunciando que o ato cometido contra ele pelos porquinhos representava o genocídio que a nação lupina sofria nas mãos da elite suína.

A comoção nacional foi geral. Passeatas foram convocadas nas redes sociais contra o genocídio lupino, com os revoltados acrescentando em seus nomes o termo Loboni-Uivoá em homenagem ao pobre lobo. Personalidades animais manifestaram-se no Twitter, deram declarações a jornais e revistas, e até um vídeo foi elaborado com atores de uma prestigiosa emissora de televisão para sensibilizar as pessoas. O Executivo criou a Campanha do Despanelamento com a justificativa de recolher as panelas clandestinas para reduzir os índices de violência e promover uma cultura de paz. 

As ONGs do movimento lupino entraram com uma ação de expropriação contra os porquinhos com base em estudos que apontavam que aquela região pertencia originalmente aos ancestrais lupinos, expulsos dali pelo agronegócio suíno muitas décadas antes. A Justiça Animal considerou a ação procedente, acatou o pedido e despejou os porquinhos, ordem que foi cumprida pela Força de Segurança Animal, dando a casa para o lobo. Presos, os porquinhos foram condenados pela Justiça Animal pelos crimes de tentativa de lupicídio e especismo, o que rendeu a eles uma pena bastante pesada. Importantes apoiadores da causa lupina, como o Frei Lobonardo Boff, disseram que aquele era um dia especial para todas as vítimas do especismo reacionário dos porcos brancos de olhos azuis, e outros aplaudiram a decisão da Justiça Animal, que certamente representava a valorização das lutas históricas dos povos lupinos.

Em tempo: esta é uma adaptação livre de um conto infantil, e se trata apenas de uma pequena obra de ficção. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.



Recaída franciscana


Editorial
Folha de São Paulo

A deletéria antecipação da corrida eleitoral de 2014 leva a presidente Dilma Rousseff a reciclar o jogo fisiológico e o loteamento de ministérios

Embora contenha um fundo de verdade, a declaração da presidente Dilma Rousseff de que "nenhuma força política sozinha é capaz de dirigir um país com esta complexidade" não justifica o pragmatismo desenfreado do PT em busca de alianças eleitorais para perpetuar seu projeto de poder.

Se o mensalão é um exemplo acabado do abandono de princípios éticos em troca de apoio político, a proliferação e o loteamento de ministérios atestam, por seu turno, o triunfo da fisiologia sobre a responsabilidade administrativa e a boa gestão do Estado.

Depois de compelida, no primeiro ano de mandato, a promover o que se convencionou chamar de "faxina" ministerial para conter o gangsterismo de aliados, Dilma volta ao credo do "é dando que se recebe" -cínica apropriação politiqueira da oração franciscana.

Os movimentos da presidente pautam-se pela antecipação deletéria do jogo eleitoral de 2014, com as virtuais candidaturas de Aécio Neves (PSDB), Marina Silva (Rede Sustentabilidade) e Eduardo Campos (PSB) na praça.

As escaramuças já haviam propiciado, há duas semanas, a reabilitação do pedetista Carlos Lupi, que deixou o Ministério do Trabalho sob acusações de corrupção. Agora, a mandatária reforça a posição do PR e cria um espantoso 39º cargo de primeiro escalão para contemplar o PSD, do ex-prefeito paulistano Gilberto Kassab.

É verdade que a escolha do ex-governador da Bahia César Borges (PR) para a pasta dos Transportes -de onde foi varrido, em 2011, seu correligionário Alfredo Nascimento- se cercou de precauções. Com efeito, a presidente contrariou propostas e optou por um nome com menos chance de expor o governo, conforme se noticiou, nas páginas policiais.

Com perfil técnico e experiência política, Borges não era o preferido por Anthony Garotinho, líder do PR na Câmara, mas teria sido chancelado pelo senador Nascimento. Por esse caminho, a presidente procura evitar o surgimento de novos escândalos e deixa para outro momento a opção de "fazer o diabo" -como disse.

Quanto ao descalabro de mais um ministério, a Secretaria da Micro e Pequena Empresa, o provável indicado deverá ser o vice-governador paulista, Guilherme Afif Domingos (PSD). A proximidade do candidato com o governo tucano de São Paulo -oponente histórico do PT- já não causa surpresa. Como de hábito, vai para a conta do chamado presidencialismo de coalizão, justificativa padronizada para toda aliança oportunista.

A explicação, embora tenha alguma pertinência, é na realidade bastante conveniente para acobertar a ausência de espinha dorsal nos partidos e representantes políticos, que se entregam sem escrúpulos ao vale-tudo eleitoral.

O exercício da tolerância na democracia


Editorial
O Globo

Com 25 anos de vigência da Constituição que sepultou a ditadura, o Brasil já deveria saber praticar a convivência civilizada entre contrários

Há dias no centro de acirrado conflito político-ideológico na Comissão dos Direitos Humanos da Câmara, o deputado Marco Feliciano (PSC-SP), diante de mais uma manifestação de grupos organizados contra sua eleição para presidente da comissão, mandou prender um dos manifestantes.

Mais um motivo para aumentar a pressão de representantes das chamadas minorias contra o deputado, conhecido por defender posições conservadoras e, em alguns casos, condenáveis, como é a homofobia. Feliciano, no entanto, agiu de maneira correta.

A manifestação ultrapassou limites não só da urbanidade, mas da própria lei. Tentativas de agressão e de invasão do ambiente privado do escritório do deputado precisavam, mesmo, ser reprimidas com os instrumentos de que dispõe o Estado para garantir a segurança pública e de qualquer pessoa.

Nas últimas semanas, observa-se uma perigosa tendência de militantes, das mais diversas causas, ultrapassar limites, com o uso da violência em atos públicos. Espera-se que as autoridades, de todas as instâncias administrativas, estejam atentas e passem a agir para desestimular esta escalada de agressividade.

A pressão até física contra a blogueira cubana Yoani Sanchez, em visita ao Brasil, foi demonstração clara da intolerância de grupelhos radicais de organizações de esquerda. A escritora teve de ser protegida por seguranças. Outro avanço de sinal ocorreu na inauguração do Museu de Arte do Rio(MAR), quando Merval Pereira, colunista de O GLOBO, quase foi agredido por uma dessas turbas, e teve o carro atacado, numa reedição tropical da ação de bandos nazifascistas contra judeus, comunistas, ciganos etc. nos tempos de Hitler e Mussolini.

Há um indubitável mau entendimento do que é democracia, regime de liberdades, em que todos têm o direito de expressar opiniões, defender suas visões de mundo, mas com respeito às posições divergentes e aos direitos alheios. Democracia não se confunde com anarquia, anomia, ausência de normas, falta do próprio Estado.

Há pouco, grupo de índios e manifestantes foram desalojados pela Polícia do Museu do Índio, no Rio. Alguns tentaram bloquear a Radial Oeste, uma grande via de ligação entre a Zona Norte e o Centro. Foram devidamente reprimidos. A força policial cumpria determinação da Justiça, e não havia outra alternativa diante da tentativa de paralisar uma avenida estratégica.

Outra coisa não aconteceria se fosse na Quinta Avenida ou na Champs-Elysées, em Nova York e Paris, cidades de duas das mais sólidas democracias do mundo. Completados 25 anos ininterruptos sob a Constituição que restabeleceu o estado de direito democrático, o Brasil já deveria praticar sem desvios a convivência civilizada entre contrários, marca registrada do regime.

O Conselho Federal De Medicina ... quem diria!


Percival Puggina

Não é que o CFM decidiu recomendar ao Senado Federal a ampliação dos casos em que o abortamento não é punido? Tais excepcionalidades, propôs o Conselho, passariam a abranger, também, os realizados em gestações que não tenham alcançado o 12º semana. 

Quer dizer, doutores, que até o 12º semana o feto é coisa descartável, que se extrai como uma verruga ou um fecaloma? Sabiam que o anteprojeto para o novo Código Penal, que os senhores querem estragar ainda mais, pretende pôr na cadeia por até quatro anos quem modificar um ninho de ave? Sabiam que existem leis no Brasil que impõem sanções a quem meter a mão no ambiente natural onde determinadas espécies se reproduzem ou cuidam de seus filhotes? Um canto de mato, uma beira de lagoa, um trecho de praia, funcionam como úteros da natureza e ganham proteção legal. Em contrapartida, na ótica dos médicos do CFM, o nascituro, o humano nascituro porque outra natureza jamais lhe advirá, este pode ser, no útero materno, objeto de suas tesouras e aspiradores. Foram necessários, segundo li, dois anos de doutas confabulações para que os membros do CFM chegassem a tamanho despropósito. 

Certa feita, num programa de tevê, debatia-se sobre legalização do aborto. Participava do debate um conhecido médico de Porto Alegre que defendia a tese ora aprovada pelo Conselho de sua categoria. Num dado momento, pedi ao mediador que exibisse as fotos da menina Amillia Taylor, nascida com 284 gramas de peso num aborto espontâneo. Perguntei então ao médico se ele seria capaz de arrancar aquele ser aos pedaços do útero da mãe. O médico olhou-me com constrangimento e, diante das câmaras, viu-se obrigado a ser sincero - "Eu não!". 

O que mais me estarreceu, nesta manifestação do CFM, foi que, pelas palavras do seu presidente, o órgão "defende a plena autonomia da mulher de levar uma gestação adiante". Credo! Essa sequer é uma lógica médica, mas jusfilosófica, e de péssima vertente. Lógica de lobo. Quero porque quero. Atribuíram à mulher uma concepção abusiva do direito de propriedade - "faço o que bem me apraz com o que me pertence, doa em quem doer". Raros liberais afirmariam isso com igual convicção porque contradiz elementares noções de justiça. No caso do abortamento voluntário, o que antes era precária filosofia, vira puro sofisma: se o corpo da mulher a ela pertence, o do feto pertence ao feto porque ele é um inteiramente outro. E na maior parte dos casos até nome próprio já tem. 

"O sistema nervoso central ainda não se formou, na 12ª semana de gravidez", prosseguiu o doutor presidente procurando justificar o injustificável. É verdade, doutor, o sistema nervoso central não se formou, mas outros órgãos já funcionam, o coração já bate há muito tempo e está na natureza do feto que todos os demais venham a aparecer. Uma semana depois, na 13ª, já se pode saber se ele é do sexo masculino ou feminino. 

Remover do CD player, aos primeiros acordes da 9ª Sinfonia de Beethoven, o CD que em que foi gravada, não autoriza afirmar que a fascinante composição não esteja ali, inteira e bela, até os últimos acordes. 

Produção industrial em fevereiro tem pior número em 4 anos


Exame.com
Rodrigo Viga Gaier e Camila Moreira, Reuters

Na comparação com fevereiro de 2012, houve uma contração de 3,2 %, segundo o IBGE

Paulo Whitaker / Reuters


Automóveis: a produção industrial brasileira recuou 2,5 % em fevereiro, 
o pior resultado mensal em pouco mais de quatro anos, afetada pelo mau 
desempenho do setor de bens de consumo e colocando em risco a 
recuperação da atividade econômica do país.

São Paulo - A produção industrial brasileira recuou 2,5 % em fevereiro afetada pela queda dos bens de consumo, no pior resultado mensal em pouco mais de quatro anos, mostrando as dificuldades para a recuperação da atividade econômica do país.

Na comparação com fevereiro de 2012, houve uma contração de 3,2 %, informou nesta terça-feira o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Pesquisa da Reuters previa queda de 2,05 % na medição mensal e de 2,40 % na anual, segundo a mediana das projeções de 20 analistas.

O desempenho de fevereiro acabou praticamente anulando a expansão de 2,6 % de janeiro (dado revisado do crescimento de 2,5 % divulgado anteriormente), e foi o pior número mensal desde dezembro de 2008, quando a produção teve contração de 12,2 %.

"O setor deve continuar a ter uma performance pior em relação a outros setores da economia, particularmente serviços, dado um real ainda sobrevalorizado, questões de custos de competitividade e demanda externa baixa", avaliou o diretor de pesquisa econômica do Goldman Sachs para América Latina, Alberto Ramos, em nota.

Pelas categoria de uso, o destaque foi a queda de 4,2 % da produção de Bens de consumo, sendo 6,8 % entre os duráveis e 2,1 % entre os semiduráveis e não duráveis. O recuo dos duráveis foi o mais forte desde setembro de 2011 (-8,2 %), causado pela queda dos automóveis.

Em fevereiro, houve queda mensal de 9,1 % na produção do setor de veículos automotores, eliminando o avanço de 6,2 % verificado em janeiro último.

"Do lado dos bens duráveis, há um menor dinamismo para carros e mobiliário por conta do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) voltando ao normal até o fechamento da pesquisa. Houve também perdas na linha branca e marrom", disse o economista André Macedo, do IBGE. Mobiliário caiu 9,9 %.


Gráfico da produção industrial

No final de semana passado, o Ministério da Fazenda anunciou a prorrogação até 31 de dezembro das atuais alíquotas menores do IPI para automóveis e caminhões, que deveriam subir a partir de 1º de abril, medida que se junta aos estímulos que o governo vem adotando para incentivar a indústria.

"A surpresa negativa, juntamente com os indicadores de março, conhecidos até então, sugere expansão da indústria inferior a 1 % no primeiro trimestre", escreveu o diretor de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco, Octavio de Barros.

A produção de Bens intermediários caiu 1,3 % sobre janeiro.

Entre os ramos de atividade, além de veículos automotores e de mobiliário, outros 13 dos 27 pesquisados mostraram queda de produção. Também foram destaques negativos os ramos farmacêutico (10,8 %) e refino de petróleo e produção de álcool (5,8 %).

Investimentos
O dado positivo de fevereiro foi o crescimento de 1,6 % dos Bens de Capital, ligados aos investimentos, levando o acumulado no ano a uma alta de 13,3 %.

O IBGE explicou que o crescimento em 2013 está relacionado a uma base de comparação depreciada no ano passado, incentivos tributários do governo e produção mais forte no segmentos agrícola e de caminhões.

"Bens de capital começam a recuperar a queda apresentada ao longo do ano passado, e isso mostra que o nível de investimento está aumentando, o que é importante dada a nossa necessidade de ampliação da formação bruta de capital fixo", destacou o economista da Austin Rating Felipe Queiroz.

As medidas adotadas pelo governo, aliadas à perspectiva de obras para a Copa do Mundo de 2014 e para a Olimpíada de 2016, além da base de comparação baixa do ano passado, alimentam as expectativas entre analistas de uma leve recuperação da produção industrial ao longo deste ano.

Esse discurso também foi defendido nesta terça-feira pelo presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, em apresentação à Comissão de Assuntos Econômicos do Senado. De acordo com ele, há sinais consistentes de recuperação da indústria, com indicadores antecedentes sugerindo crescimento no primeiro trimestre.

Mas o Índice de Gerentes de Compras (PMI, na sigla em inglês) do setor, divulgado na segunda-feira, mostrou que a expansão em março foi a mais fraca em três meses em março.

Dilemas de política
A dificuldade do setor em deslanchar aprofunda o dilema do BC para a definição da política monetária, uma vez que o país enfrenta ao mesmo tempo inflação elevada e baixo crescimento. Diante disso, analistas destacam que seria improvável alta da Selic, atualmente na mínima de 7,25 %, no curto prazo.

Os contratos de juros futuros caíram nesta sessão após os dados industriais darem força ao discurso do BC de cautela na condução da política monetária.

"O nível fraco de produção acaba contribuindo para a manutenção da taxa de juros no curto prazo", disse Queiroz, da Austin Rating.

"O problema da inflação hoje não é a demanda, mas sim a oferta, e aumentar a Selic não amplia a oferta porque não temos capacidade produtiva", acrescentou Queiroz, para quem o juro básico só sobe nas duas últimas reuniões do ano, em outubro e novembro.

Pela última pesquisa Focus do Banco Central, o mercado vê a Selic fechando o ano a 8,50 %, apostando que sua primeira elevação ocorra em maio. Já as previsões para o crescimento da produção industrial e do Produto Interno Bruto (PIB) são 3,12 e 3,01 %, respectivamente.

Bacia das almas: Petrobras se desfaz de ativos


Josias de Souza



Com o caixa baixo, a Petrobras comercializa parte de seus ativos no exterior. Espera amealhar algo como US$ 10 bilhões. Para atingir a meta, vende o patrimônio na bacia das almas, como se diz. Em notícia veiculada na sua última edição, Época traz à luz alguns detalhes da operação. Um deles chama especial atenção.

Para começar do início: em 2002, a Petrobras comprou 58% da Perez Companc.. Era a maior empresa privada de petróleo da Argentina. A estatal brasileira desembolsou US$ 1,1 bilhão e assumiu dívidas de US$ 2 bilhões. Com o tempo, a Perez mudou de nome. Passou a chamar-se Pesa. A Petrobras foi injetando dinheiro novo no negócio. Até 2009, US$ 2,1 bilhões. Hoje, é dona de 67% da empresa.

Mercê dos aportes, a Pesa cresceu. Explora refinarias, distribui petróleo e gás, tem uma rede de centenas de postos de combustíveis, controla 17% da terceira maior reserva mundial de xisto. No ano passado, comprou outra petroleira argentina, a Entre Lomos. A despeito da pujança, as ações da Pesa foram roídas pela crise econômica, que apertou na Argentina há dois anos. Desde 2011, os papéis da empresa perderam 60% do seu valor.

Pois bem. Há um mês, a Petrobras celebrou um acordo confidencial no qual se compromete a vender 50% das suas ações na Pesa à empresa Indalo. Receberá US$ 900 milhões. Com mais US$ 238 milhões, a Indalo arrematará todas as refinarias, distribuidoras e petroquímicas petroleira do Brasil opera na Argentina.
Chama-se Cristóbal López o dono do grupo Indalo. Conhecido como ‘czar do jogo’, é amigo e apoiador da companheira Cristina Kirchner. Em 5 de novembro do ano passado, ele enviara uma carta à presidente da Petrobras, Graça Foster. No texto, revela-se bem informado. Diz ter ciência de que a Pesa estava sendo negociada com três de seus concorrentes. Como soube? Só Deus sabe!

Cristóbal, cujo grupo inclui uma empresa chamada Oíl Combustibles S.A., manifestou o interesse de comprar um pedaço da Pesa. Falava em 25%. Em resposta escrita, datada de 21 de novembro de 2012, a Petrobras refugou a oferta. Signatário da missiva, Ubiratan Clair, o executivo que toca o “plano de desinvestimentos” da estatal, anotou:

“Nos sentimos honrados pelo interesse manifestado na compra de 25%. No entanto, devemos indicar que as ações da Pesa não fazem parte de nossa carteira de desinvestimentos, razão pela qual não podemos iniciar qualquer negociação relativa às mesmas.”

Menos de um mês depois, em 18 de dezembro, o mesmo Ubiratan firmou com com Cristóbal, o amigão de Cristina, um “convênio de confidencialidade” para vender um pedaço da Pesa. Quer dizer: as ações da empresa estavam, sim, sobre o balcão. E foram transacionadas justamente com o comprador cuja oferta havia sido esnobada.

O que pode ter acontecido para que a Petrobras mudasse de opinião no curto intervalo de um mês? Deus sabe. A cúpula da Petrobras também sabe. Mas, procurada, preferiu não comentar. Técnicos da estatal avaliam que o caixa baixo não justifica a venda de parte da Pesa neste momento. Sustentam que o mais adequado seria aguardar pela revalorização dos ativos da empresa. Estimam que as refinarias, distribuidoras e unidades de petroquímica valem ao menos US$ 400 milhões. Mantido o acordo escrito, o argentino Cristóbal arrematará tudo por US$ 238 milhões.

- Ilustração via Orlandeli.

Tentativa de compreensão


Ferreira Gullar
Folha de São Paulo

Esse revolucionarismo retardado, na maioria dos países, foi uma fantasia passageira

Talvez que, para melhor entender o atual neopopulismo que chegou ao governo de alguns países latino-americanos, convenha lembrar o que ocorreu antes, logo após a Revolução Cubana, de 1959.

A tomada do poder pelos guerrilheiros de Fidel Castro levou alguns setores da esquerda latino-americana a embarcar na aventura da luta armada, de desastrosas consequências. Os Estados Unidos, que haviam aprendido a lição cubana, trataram de induzir os militares da região a substituir governos eleitos por ditaduras militares.

Nesse quadro, a exceção foi a chegada ao poder, pelo voto, de um partido de esquerda, elegendo Salvador Allende, no Chile, com o apoio da Democracia Cristã, que dele se afastou quando o viu refém da extrema esquerda.

O resultado disso foi o que se conhece: Allende foi deposto e morto, dando lugar à ditadura de Augusto Pinochet. Todos os movimentos guerrilheiros foram sistematicamente dizimados nos diversos países onde surgiram, e com eles a esquerda moderada.

As ditaduras militares, durante décadas, lançando mão da tortura e eliminação física dos adversários, tornaram inviável a vida democrática nesses países. Mas se desgastaram e tiveram que, finalmente, devolver o poder aos civis.

Em cada país isso ocorreu em momentos diversos e com características próprias. No Brasil, por exemplo, essa passagem se fez mediante um acordo que resultou em anistia geral e irrestrita, o que, sem dúvida, facilitou a reimplantação do regime democrático.

Não obstante, aqui como noutros países, esse retorno à democracia não significou o abandono, por todos, dos propósitos revolucionários.

Em alguns deles, os antigos guerrilheiros se reorganizaram em partidos que, implícita ou explicitamente, ainda que disputando eleições, visavam a implantação do regime socialista a que, antes, tentaram alcançar pelas armas.

Esse é um fenômeno curioso, especialmente porque se manteve mesmo após a derrocada do sistema socialista mundial e quando, com o fim da União Soviética, o regime cubano entrou em visível decadência e passou a fazer concessões ao capital norte-americano, que, então, voltou a explorar a hotelaria e o turismo, o que, para os revolucionários de 59, havia transformado Cuba num prostíbulo.

Mas esse revolucionarismo retardado, na maioria dos países, foi uma fantasia passageira, uma vez que, na disputa eleitoral, ficou provado que a maioria da opinião pública rejeitava as palavras de ordem radicais.

No Brasil, após várias derrotas, Lula exigiu que o PT abrisse mão do radicalismo, ou ele não se candidataria mais. Sem outra alternativa, o partido o atendeu e publicou uma Carta ao Povo Brasileiro, em que abria mão do revolucionarismo de palavra e, graças a isso, conseguiu ganhar as eleições de 2002.

Mas não parou aí, pois, para governar, Lula teve que aliar-se até com os evangélicos, numa total negação de seus princípios ideológicos. Claro que, para aparentar fidelidade a suas origens e satisfazer discordâncias internas, estatizou tudo o que pode, enquanto usava o dinheiro público, por meio do BNDES, para financiar grandes empresas privadas.

Esse é o dilema dos neopopulistas latino-americanos: usam discurso de esquerda e governam fazendo acordos e concessões que sempre condenaram. No discurso de Hugo Chávez, por exemplo, os Estados Unidos apareciam como o capeta, mas é para eles que a Venezuela vende quase todo o seu petróleo.

Sei que é impossível fazer política sem fazer concessões. Não é isso que critico, portanto. O que pretendo mostrar é como a esquerda, que se dizia radicalmente comprometida com os princípios anticapitalistas, ao perceber a inviabilidade de seu projeto ideológico, converteu-se, na prática, em seu contrário, mantendo, não obstante, o mesmo discurso de antes.

O mais patético exemplo disso é mesmo o chavismo, que, agora sem o Chávez, deve tomar um rumo imprevisível.

É certo, também, que o neopopulismo, valendo-se do assistencialismo e do discurso esquerdista, inviabilizou a esquerda moderada, que ficou sem discurso. O Brasil é exemplo disso. Lula se apropriou dos programas sociais e econômicos do governo anterior, contra os quais lutara ferozmente, e ainda os qualificou de herança maldita.

Universidade abandonada

O Estado de S.Paulo

O estado de deterioração em que se encontram as instalações da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) - criada há mais de cem anos, quando a União estabeleceu as bases do ensino agropecuário no País - mostra como o ensino superior oficial tem sido conduzido. O segundo maior câmpus em extensão de toda a América Latina está caindo aos pedaços.

No Instituto de Tecnologia, o laboratório do Departamento de Tecnologia de Alimentos está inundado. Os demais laboratórios carecem de sistema de descarte de resíduos químicos e biológicos. As quatro piscinas do parque aquático estão fechadas, o que obriga os alunos de educação física a terem aulas práticas de natação sem cair na água. O tanque para a prática de remo está tomado por lixo. Muitos cursos não contam com infraestrutura de informática. Instalações tombadas pelo Patrimônio Histórico enfrentam problemas causados pela colocação irregular de aparelhos de ar-condicionado.

Além disso, o número excessivo de gambiarras na rede elétrica deixa prédios administrativos e alojamentos estudantis expostos a riscos de incêndio. Por falta de segurança, professores e alunos são assaltados à luz do dia. O hotel destinado ao corpo docente não tem água nem luz. A entrada do restaurante universitário não tem cobertura, deixando os usuários debaixo de sol e chuva. E o restaurante anexo está fechado, porque seus funcionários, que são terceirizados, pararam de trabalhar por problemas salariais.

"Uma palavra resume a situação da UFRRJ: insalubridade", disse o professor Humberto Kzure, coordenador do Plano Diretor Participativo da instituição. Com a colaboração de professores, alunos, servidores técnicos e estagiários, há dois anos ele iniciou um diagnóstico dos problemas do câmpus, tendo produzido um detalhado relatório com cerca de mil páginas de texto e fotografias. Com base no relatório, o jornal O Globo publicou extensa reportagem sobre o abandono do câmpus. "Não deixamos de reconhecer os problemas. Estamos tentando resolvê-los. Foram décadas de descaso com o ensino público", afirma a futura reitora da UFRRJ, Ana Maria Dantas Soares, que está na instituição há cerca de 34 anos.

As instalações da Reitoria estão ocupadas por alunos, que condicionam a saída ao atendimento de suas reivindicações, das quais uma das mais importantes é a realização de uma auditoria externa pelo Ministério Público Federal e pelo Tribunal de Contas da União. Publicados no site do Ministério da Educação (MEC), dados da execução orçamentária da UFRRJ revelam que os valores transferidos pela União para a instituição aumentaram quase 24 vezes, entre 2005 e 2012, passando de R$ 14,8 milhões para R$ 347 milhões. A direção da UFRRJ afirma que os valores foram bem menores, mas o MEC insiste em que as informações em seu site estão corretas.

Independentemente das divergências sobre o montante das transferências do governo federal, a professora Ana Maria Dantas Soares atribui os problemas da UFRRJ às limitações do Reuni - programa criado em 2007 - quando o ministro da Educação era Fernando Haddad - para ampliar o acesso ao ensino superior, por meio de aumento de vagas e criação de novos cursos. O programa é oportuno, mas em sua implementação prevaleceram os interesses eleitorais e não o bom senso. Em vez de investir em primeiro lugar nas obras físicas, o que era mais lógico, o ministro, preocupado em mostrar resultados, estimulou as universidades federais conveniadas com o Reuni a começar matriculando novos alunos. "Se tivéssemos tido a oportunidade de construir prédios, criar os cursos e só depois virem os alunos, tudo bem. Mas não foi assim, pois era um projeto de governo, e não de Estado", observa a professora Ana Maria Dantas Soares.

Infelizmente, o que vem ocorrendo com a UFRRJ não é um caso isolado. Em várias outras universidades criadas ou expandidas pelo governo do presidente Lula os cursos foram oferecidos antes que as instalações físicas estivessem prontas e a infraestrutura técnica instalada. Isso é o que acontece quando política e educação se misturam.

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Uma escola sem receita


Rosiska Darcy De Oliveira
O Globo

Mudança deu lugar a um abismo geracional que separa professores e alunos, minando as relações de admiração e respeito que, no passado, estimulavam o desejo de aprender

O aluno que inseriu na redação do Enem a receita do miojo deixou um recado claro: a receita de escola desandou.

No passado a escola era um espaço físico, dedicado à aquisição de conhecimentos certificáveis, que só os professores detinham. O professor era um profissional supostamente capaz de saber o quê e como ensinar. Os ritmos escolares balizavam o tempo desse aprendizado que se sucedia ao longo de anos. Todas essas premissas estão postas em questão.

Enquanto a escola pública tenta compensar suas imensas deficiências construindo prédios, aumentando matrículas e o número de professores em sala de aula, condição sine qua non de qualquer progresso, o que se passa dentro dos muros da escola entre alunos e professores é desolador. O episódio da receita do miojo, temperada com pitadas de deboche e altas doses de descrença, é testemunha desse descalabro.

Uma mudança de era deu lugar a um abismo geracional que separa professores e alunos, minando as relações de admiração e respeito que, no passado, estimulavam o desejo de aprender. Os professores estão hoje a cavaleiro entre dois tempos; um passado em que conteúdos eram transmitidos de uma forma que hoje chamaríamos tradicional; um presente em que os alunos, digitais nativos habitam, fascinados, o espaço virtual como vida real e são habilíssimos em tecnologias que os professores mal dominam.

Quando todos os alunos frequentarem as aulas, quando houver professores suficientes, recebendo um salário decente, ainda restará a incômoda questão do que lhes ensinar. Um livro de respeitáveis pesquisadores franceses ostenta o título inquietante: “Ainda é preciso aprender?”

A virtualidade é o meio ambiente de uma juventude portadora dessas próteses cerebrais que são os celulares, prolongamentos de seus corpos, onde trazem armazenada — Google dispensando o trabalho da memória — toda a informação do mundo. Fotografam tudo que se passa como que deixando provas tangíveis do que é vivido em tempo real, marcando o instante, sem apelo à abstração da memória, seus caprichos e brumas. Como tudo é registrado sem esforço, é o próprio esforço que se torna um comportamento raro e desvalorizado, o que representa um perigoso efeito colateral. Entre alunos e professores há distância e estranhamento. Por vezes, agressividade.

A pletora de informações que cada um acessa quando tira o celular do bolso não implica que os jovens tenham a mínima ideia do que fazer com elas ou, pior, que saibam a diferença entre informação e conhecimento. A aquisição de conhecimento depende do desenvolvimento de aptidões mentais e do domínio dos códigos culturais que permitem navegar com alguma coerência em um oceano de informações desgarradas. As informações disponíveis na internet são um tesouro literalmente incomensurável. Problemática é a exígua capacidade de processá-las e lhes dar algum sentido.

Assim como a palavra ganha seu sentido no texto e o texto ganha sentido em um contexto, a informação pede para se inserir em um patrimônio cultural que caberia à escola transmitir. A contextualização é condição da função cognitiva ao mesmo título que a consciência de ter aprendido, tão cara ao grande Jean Piaget.

É a transmissão do patrimônio cultural e de valores que dão à juventude o sentido de pertencimento à aventura humana e estabelecem os vínculos de continuidade entre as gerações que se sucedem. Tarefa essencial em tempos moldados e irrigados pela tecnologia que permite a cada um construir um mundo próprio — o que pode ser uma rica experiência se conectada a um pertencimento mais amplo — mas pode ser também o deslizamento para uma forma velada de antissociedade, um aglomerado de indivíduos autorreferentes cuja comunicação não passa por uma experiência ou memória comum e se tece apenas com os laços esgarçáveis da banalidade.

O desafio da educação é a formação de indivíduos aptos a pensar pela própria cabeça, capazes de transformar informações em conhecimentos, abertos à inovação e experimentação, afeitos à argumentação e escolha. O que Edgar Morin chama “uma cabeça bem feita”.

A vida em tempos de internet exige da escola uma metadisciplina, o aprender a aprender. Quem serão os professores dessa escola aberta ao desconhecido, sob forma de pesquisa, e ao inesperado, sob forma de criação?

Não há receita pronta de escola e sim ingredientes a combinar: a aquisição de conteúdos específicos com o aprendizado de competências transversais que permitam aos jovens dar sentido a si mesmos e a um mundo em que terão vida longa e as certezas curta vida.

Rendimento dos alunos de matemática piora entre o 5º e o 9º ano


Fábio Takahashi
Folha de São Paulo

O percentual de estudantes com rendimento adequado em matemática na rede pública do país cai ao longo dos anos do ensino fundamental, mostra estudo que comparou a evolução de alunos entre 2007 e 2011.

A constatação é de levantamento inédito da ONG Todos pela Educação, que detalha a evolução do rendimento dos alunos de escolas públicas do país na Prova Brasil, exame do governo federal.

O percentual de estudantes com rendimento adequado na disciplina de uma turma caiu de 22% no quinto ano, em 2007, para 12%, quando ela chegou ao último, em 2011.

Ou seja, 88% deles não sabiam calcular porcentagens ou a área de uma figura plana ou mesmo ler informações em um gráfico de colunas. E levam essa defasagem para os ensinos médio e superior.

Em língua portuguesa, o recuo entre as séries não foi tão intenso (26% para 23%).

Editoria de arte/Folhapress

Uma das explicações mais citadas por especialistas é a falta de professores na área. É na etapa final do fundamental que os alunos passam a ter aulas com docentes especialistas nas matérias.

"Um jovem com habilidade em matemática pode ter salários mais altos se for para engenharia, para bancos. Poucos querem lecionar", disse o professor Rogério Osvaldo Chaparin, do Centro de Aperfeiçoamento do Ensino da Matemática, da USP.

No último levantamento federal, matemática apareceu como a área de maior deficit de professores (65 mil).
Igor Willian, 17, ficou quase 2010 inteiro sem docente da disciplina, na zona leste da capital. "Até hoje tenho dificuldade com matemática, física e química, porque fiquei aquele ano no pátio."

Ele recorreu ao Henfil, cursinho popular, para diminuir a defasagem. "Gostaria de fazer engenharia civil, mas tenho medo dos cálculos."

Para a gerente da área técnica do Todos pela Educação, Alejandra Meraz Velasco, há dificuldades adicionais nos anos finais do fundamental.

Uma delas é que os alunos são divididos entre municípios e Estados. "O final do fundamental fica num limbo, quase sem políticas para melhoria. E em matemática o problema fica mais evidente, porque há uma sequência difícil de recuperar depois", diz.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
A soberana Dilma afirmou no Ceará, em mais um palanque mirando sua reeleição, que a prioridade do governo é a educação. Afirmação inútil e vazia.

Os resultados que se observam nos últimos anos, é fácil concluir  que a educação brasileira regride em qualidade e competência. 

Com dez anos de poder, bem que os governos petitas poderiam ter avançado e muito positivamente no campo do ensino. Ao contrário, dos primeiros anos de alfabetização até as universidades, o desempenho só tem piorado. E não que tenham faltado verbas. Faltaram vontade de fazer e competência. O resto é discurso cretino. 

Bem preparados. E agora?


Nathália Butti 
Revista  VEJA

Cientistas que se aperfeiçoaram nas melhores universidades do mundo, patrocinados pelo governo, voltam para casa e deparam com o de sempre: burocracia e falta de verbas

(Foto: Egberto Nogueira) 

LONGA ESPERA -- 
Verjovski, no laboratório de pesquisas sobre câncer da USP:
 "Nossos estudos estão sempre defasados" 

Até 2015, 100.000 estudantes brasileiros, patrocinados pelo governo federal, terão vivido a experiência de trabalhar lado a lado com os mais preeminentes cientistas do mundo, nas melhores universidades estrangeiras.

Esses jovens estão sendo garimpados entre os mais talentosos dos cursos de graduação ao pós-doutorado das universidades para fazer parte do Ciência sem Fronteiras, programa criado para preparar gente capaz de produzir conhecimento e inovação à altura dos melhores centros de pesquisa do mundo – e assim contribuir para reduzir o histórico atraso do Brasil nesse campo.

Desde 1951, quando o país passou a enviar alunos ao exterior, nunca se viu um plano tão ambicioso. Parte da primeira leva de quase 6000 bolsistas que embarcou para o exterior começa a voltar agora. E aqui começam os problemas.

Não se sabe como nem onde esses jovens cérebros – e tudo o que eles absorveram em sua temporada fora – serão aproveitados. Certo é que, como seus pares – mesmo aqueles que compõem a nata da academia -, eles terão de enfrentar obstáculos que há tempos vêm refreando os avanços científicos no país.

Um grupo de especialistas ouvidos por VEJA chama atenção para o fato de que o esforço e o dinheiro empreendidos pelo governo (o projeto deve consumir 3,4 bilhões até 2015) de pouco adiantarão se as cabeças em que ele investiu não tiverem o mínimo necessário para dar o desejado salto agora, na volta.

A maior dificuldade que espera os bolsistas é conseguir que, como eles, material e equipamentos também atravessem a nossa fronteira e cheguem aos lugares certos. “Esbarramos sempre em um problema burocrático recorrente. É preciso superá-lo de uma vez por todas para que possamos competir de igual para igual com as potências científicas do mundo”, reforça a bióloga Mayana Zatz, à frente do Centro de Estudos do Genoma Humano da Universidade de São Paulo.

Desde 2010, ela e seu grupo tentam trazer da Índia para o Brasil moléculas de DNA que permitiriam aprofundar o conhecimento de uma rara doença degenerativa do sistema nervoso, ainda sem cura. Mas a remessa já foi e voltou duas vezes sem que a alfândega brasileira a liberasse nem tampouco desse explicação alguma a respeito. A importação de reagentes é outra epopeia: leva até quatro meses, enquanto nos países da OCDE o processo se conclui em, no máximo, uma semana. “Por causa disso, nossos estudos estão sempre defasados”, lamenta Sergio Verjovski, que lidera pesquisas sobre câncer no Instituto de Química da USP.

As ideias que circulam no meio acadêmico para avançar nessa área são simples. Sugere Mayana: “Nos Estados Unidos, o país mais inovador do mundo, há um canal especial para que pesquisadores e fornecedores de reagentes negociem diretamente, usando um cartão que autoriza as compras sem imposto nem burocracia. Não seria difícil adotar um sistema parecido aqui. O governo já tem todos os dados”.

Garantir o mínimo de condições para que a ciência evolua é apenas o ponto de partida para tornar o Brasil atraente para os melhores alunos. A experiência mostra que é preciso ir muito além. É fundamental dar incentivos concretos aos pesquisadores para que permaneçam no país, como fizeram China e Coreia do Sul.
Nos anos 1960, 97% dos cientistas coreanos formados em universidades americanas se recusavam a retornar à Coreia, destroçada pela guerra civil que havia se encerrado anos antes. O governo então investiu para trazê-los de volta, oferecendo-lhes altos salários e posições de prestígio nos centros de pesquisa e tecnologia que começavam a ser criados.

As grandes empresas também fizeram movimento semelhante. Funcionou. Em vinte anos, 70% dos que haviam debandado já faziam o motor da economia coreana girar.

Um programa com a dimensão do Ciência sem Fronteiras – que promete quadruplicar o número de bolsas no exterior – impõe desafios inéditos e complexos, que não podem ser enfrentados com improviso.

Apesar da magnitude do projeto, o quadro de funcionários do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), por exemplo – as duas instituições encarregadas de selecionar os alunos, distribuir e monitorar as bolsas – continua inalterado.


Os labirintos da burocracia 

Não é surpresa, portanto, que alguns estudantes tenham recebido o dinheiro da bolsa com atraso (problema já resolvido) e que outros se queixem de não conseguir obter informações básicas nesses órgãos (ainda uma dor de cabeça).

Outro sinal de que o programa saiu do forno sem estar completamente maduro: os acordos com as universidades que encabeçam o ranking mundial, como Harvard e Stanford, ainda não haviam sequer sido selados quando a presidente Dilma Rousseff rompeu a fita inaugural.

Só agora começam a ser firmados – e é essencial que sejam. Como lembra o economista Claudio de Moura Castro, especialista em educação e articulista de VEJA: “Não se pode baixar a régua. Para dar certo, é preciso que nossos cérebros convivam realmente com os melhores do mundo”. Investir neles – na ida e na volta – é pavimentar o futuro do Brasil.

VERGONHA: Presa, verba de R$ 70 mi sai do alcance de 2016 e ameaça Olimpíada de 2020


Danilo Vital
Portal Terra

Valor recolhido de loterias e concursos não é distribuído por falta de regulamentação, diz Confederação Brasileira Clubes; governo afirma que entidade é livre para empregar recursos

Foto: Ricardo Bufolin/ECP / Divulgação
Verba seria destinada a projetos de formação de atletas olímpicos

"Ninguém faz um atleta em menos de oito anos. Isso não existe"  -
Suzana Pasternak assessora do Pinheiros para gestão de recursos ao esporte

"O esporte olímpico no Brasil não é autossustentável. As dificuldades dos clubes são enormes" - Paulo Pradovice-presidente de esportes do Grêmio Náutico União

O prazo que o Brasil tinha para formar uma geração vencedora para os Jogos Olímpicos de 2016 já acabou: novos atletas estão se destacando, parte da elite que foi a Londres se mantém na ativa e ainda restam quatro anos de preparação, mas é improvável que alguém deixe as escolinhas de formação para conseguir a vaga. Os investimentos para a criação da próxima geração de ídolos, no entanto, estão em parte paralisados: por falta de comunicação, verba garantida por lei segue presa sem poder beneficiar clubes formadores - cerca de R$ 70 milhões que já não farão diferença para a próxima Olimpíada, mas miram os Jogos de 2020.

Promulgada em março de 2011, a Lei 12.395 alterou a Lei Pelé e determinou que 0,5% dos valores arrecadados em loterias e concursos sejam destinados a projetos de formação de atletas olímpicos e paralímpicos. A Confederação Brasileira de Clubes (CBC), que recebe a verba, não pode fazer o repasse, já que alega que é necessária uma regulamentação: é preciso definir diretrizes e critérios para que os interessados se manifestem. O valor começou a ser arrecadado no início de 2012 e já chega aos R$ 70 milhões, segundo informou ao Terrao presidente da entidade, Francisco Antônio Fraga.

 “Serão recursos auditados, fiscalizados pelo tribunal de contas e é por isso que têm que andar em linha absolutamente reta. São recursos públicos que têm que ser cuidados e muito bem fiscalizados, devem ter clareza absoluta de como podem ser aplicados”, afirmou. Não há uma definição sobre isso, no entanto. Francisco Fraga afirmou que esperava uma resolução por parte do governo para “logo”. O Terra contatou o Ministério do Esporte, que respondeu via assessoria afirmando que a entidade é livre para empregar os valores como bem entender.

"A regulamentação da “nova” Lei Pelé (alterada pela lei 12.395/2011), nos itens que expressamente determinam aplicação de acordo com regulamentação, está em análise nas instâncias competentes do governo federal. Porém, no que tange ao repasse de recursos à Confederação Brasileira de Clubes (CBC), não há necessidade de regulamentação. A Confederação pode fazer uso dos recursos que já estão disponíveis assim que julgar conveniente", informou o ministério.

A burocracia não impedirá a distribuição da verba uma vez que a questão seja resolvida, segundo o presidente da CBC. Os clubes interessados terão de elaborar projetos que serão avaliados por uma comissão mista, composta por membros da entidade, do sindicato de atletas e do Ministério do Esporte. A avaliação seguirá um regimento e contará com parecer jurídico do Tribunal de Contas da União. “Vai ser muito rápido”, disse Fraga, sob a expectativa de conter o atraso que pode desconcertar o esporte olímpico no País.

“Uma verba como essa não tem foco no imediato, mas no prazo médio e longo, que é investir na formação de atletas seguindo uma tese clássica: você investe muito na base para tirar alguns atletas de ponta. É o que fizeram todos os países que têm atletas no pódio”, complementou o Francisco Antônio Fraga. É por isso que esses R$ 70 milhões já estão fora do alcance dos Jogos de 2016. Além disso, não devem aliviar a dificuldade dos clubes ou impedir o que se repita o que aconteceu com o Flamengo, com tradição em esportes olímpicos, mas que recentemente fechou as equipes profissionais de natação, ginástica e judô.

Clubes, formação e manutenção de atletas no Brasil

Foto: Getty Images
Diego Hypólito ficou sem clube 
para treinar com fim das equipes flamenguistas

“Ninguém faz um atleta em menos de oito anos. Isso não existe”, disse ao Terra Suzana Pasternak, assessora da presidência para gestão de recursos ao esporte do Pinheiros, de São Paulo, uma das potências brasileiras no assunto. O clube arrecada recursos pela Lei de Incentivo ao Esporte e mantém atletas de alto rendimento com patrocínios, planos de carreira e outros benefícios como o bolsa-atleta, esse destinado pelo governo diretamente aos competidores. “Projetos que trabalham com planos anuais ou bianuais não vão trazer resultados. Existe toda uma programação que tem que sair da base”, apontou.

Para chegar a esse patamar, o Pinheiros teve de se profissionalizar para aproveitar ao máximo as receitas obtidas, processo pelo qual também passou o Grêmio Náutico União, de Porto Alegre, outro protagonista no cenário dos esportes olímpicos no Brasil. “O esporte olímpico no Brasil não é autossustentável. As dificuldades dos clubes são enormes”, confirmou Paulo Prado, vice-presidente de esportes da entidade. Ele relatou ao Terra problemas para obtenção de incentivos governamentais por conta de trâmites burocráticos, embora eles agora estejam abastecendo o clube.

Atualmente, o Grêmio Náutico União tem três projetos pela Lei de Incentivo ao Esporte. Um convênio firmado junto ao Ministério do Esporte, por exemplo, permitiu a captação de R$ 7 milhões para compra de equipamentos. A maior dificuldade reside na questão de patrocínios privados. “O empresariado gaúcho não investe em esportes, é muito recente em relação a isso, talvez até por culpa nossa. A gente nunca se abriu muito, agora começamos a trabalhar isso. Mas todas as tentativas foram negadas, é difícil”, disse o dirigente.
Por isso, a manutenção de atletas de alto nível é tão complicada no Brasil. A aposta na revelação de atletas é uma constante no País, mesmo em clubes como o Flamengo: encerrou o projeto de atletas de alto nível, mas mantém as escolinhas de formação. Quando se profissionalizam, os custos ficam maiores e o apoio quase sempre surge depois que os resultados apareceram. Para 2013, primeiro ano do ciclo dos Jogos de 2016 e véspera da Copa do Mundo de 2014, os problemas crescem bastante.

“No Brasil, a mentalidade é imediatista. Quando começa a chegar próximo da Olimpíada e já tem atleta se destacando, aí surgem os patrocínios”, afirmou Paulo Prado. O Grêmio Náutico União sofre para fechar a conta do esporte olímpico justamente pela dificuldade em arrecadar verba externa – a mensalidade dos associados e das escolinhas sustentam boa parte da estrutura olímpica. O Pinheiros, por sua vez, declarou não passar por dificuldades. “É questão de mostrar resultado no final. A gestão precisa ser profissional”, apontou Suzana Pasternak.

Foto: Ricardo Bufolin/ECP / Divulgação
Rafael Silva e Tiago Camilo são dois atletas de ponta do elenco do judô do Pinheiros

Há preocupação com a situação dos clubes no Brasil. O Ministério do Esporte informou ao Terra que está "em fase de gestação uma proposta de renegociação das dívidas" com a União das entidades que investem em esporte olímpico.

Uma das hipóteses que ajudaria os clubes a bancar os atletas profissionais seria usar a verba acumulada na CBC para desonerar as categorias de base, investindo o dinheiro restante nos profissionais, que custam caro: usam fisioterapeutas, departamento médico, nutricionistas, fisiologistas e psicólogos, fazem viagens para competições e treinamentos. Essa seria uma solução meramente paliativa.

“Se você já não estiver fazendo os dois (base e alto rendimento), é difícil. Não é porque vai ter um resultado a mais na base, que vai resolver. Se você não dá continuidade, não forma valores da instituição e não consegue captar recursos”, opinou Suzana Pasternak. “Esse raciocínio é possível”, admitiu Francisco Antônio Fraga. “Se o clube tiver possibilidade, pode reinvestir o dinheiro que poupar na base. Mas a verdade é que não está fácil mesmo para eles se bancarem”, complementou.