Se, dentre patifaria que acontece no Brasil de uns anos para cá, pudéssemos pinçar uma que, pelo emaranhado de fatos interligados representasse o lado mais obscuro da vida brasileira, por certo o estádio João Havelange, o famoso Engenhão, no Rio Janeiro, reúne um cardápio bem ao gosto do que se procura.
A começar pelo fato de ser ele, junto com Copa das Confederações, Copa do Mundo e Jogos Olímpicos, a jogada política para a construção de uma hegemonia de poder. Não há limites para torrar dinheiro público na realização destes eventos. Contudo, apesar de esportivos, olhando para a montagem dos cenários, do palco, do circo armado em torno destes eventos, não se consegue detectar como objetivo maior a busca pela qualificação destes esportes no Brasil. Não há e nunca houve projetos neste sentido.
A construção de parques esportivos que ficariam como legado, no caso do Pan de 2007, é uma falácia que agora se revela em seu completo esplendor. O Engenhão era o último monumento deste legado que restava em pé. E, como se vê, se uma perícia técnica detectar que os problemas estruturais são muito mais graves do que aqueles que afetam a cobertura do estádio, é bem provável que deva ser demolido. Foram mais de 3 bilhões bancados nesta aventura, literalmente transformados em pó. Vexame total. Perda completa de tempo e dinheiro.
Sabemos que a construtora vencedora da licitação para a construção do Engenhão, foi a famosa Delta. Uma fama às avessas, diga-se em tempo. Ora, a licitação previa não apenas a confecção do projeto, mas sua realização e, neste ínterim, incluía-se a cobertura. Quando a construção iniciaria a colocação da cobertura, eis que a Delta se declara inapta para aquele serviço e rescinde o contrato firmado. Neste momento, devido aos atrasos, o Comitê Organizador, junto coma Prefeitura, tiveram que, às pressas encontrar desse conta do recado. Porém, dado a situação emergencial, Odebrechet e OAS se comprometeram em concluir aquilo que a Delta, apesar de contratada, se negou em executar, porém, com ressalva de que não se responsabilizariam por eventuais problemas estruturais, apenas com aqueles relativos à construção em si. Dado a premência dos prazos, a Prefeitura resolveu assumir o ônus.
Se formos vasculhar o histórico da construção do Engenhão, o que não faltaram são problemas de toda a ordem. Para que o leitor se atualize com este histórico escabroso, seguem quatro vídeos que dizem bem como não se deve fazer algo tão grandioso. Demonstram, no fundo, a total falta de seriedade, a total irresponsabilidade, omissão e negligência com que o poder público brasileiro, no seu geral, trata o dinheiro que retira de forma abusiva da sociedade.
A seguir, assistam aos vídeos, disponibilizados pelo comentarista esportivo Lucio de Castro, da ESPN, no site da emissora. Ao final, retornaremos para concluir.
Estádio João Havelange-O Engenhão(2/4)
Estádio João Havelange-O Engenhão(3/4)
Estádio João Havelange-O Engenhão(4/4)
No arquivo recente do blog, os leitores acessam várias reportagens e artigos sobre o mesmo tema. Ao fim e ao cabo fica claro que não havia meios desta obra terminar bem. Estes problemas estruturais, que agora se detecta na cobertura, também eram visíveis em outras partes do estádio. E também foram denunciadas. E, quanto mais denúncias se faziam, mais o custo final da obra encarecia e se atrasava em seu cronograma. Como, também, fica mais do que visível que a tal licitação foi um joguinho de cartas marcadas num jogo político que reuniu governos federal, estadual e municipal. Aqui, a única coisa que não se encontrará serão anjos, gente inocente, a não ser o próprio contribuinte que é, afinal, quem arcou com a lambança toda.
Agora, se diz que a prefeitura assumirá a responsabilidade em consertar a patifaria. Talvez até o governador Sérgio Cabral queira tirar uma lasquinha canalha desta desgraça. O fato é que a conta mais uma vez será paga pelo contribuinte. E aí reside o grande erro. Quem deveria pagar e indenizar o prejuízo monumental deveria ser a Delta, responsável pelo projeto, a Prefeitura pela falta de fiscalização e, juntamente com o governo do Estado, pela falta de seriedade na licitação inicial. Pelas construtoras Odebrechet e OAS que jamais deveriam dar continuidade numa obra sem ao menos analisar a adequação do projeto com o que seria construído. E, claro, o COB, responsável direto pela lambança toda.
De todos estes atores é que a grana para o conserto – se é que existe conserto – deveria ser extraída, nunca dos cofres públicos. Esta tropa deveria, também, ser responsabilizada não apenas em ressarcir mas também em indenizar pesadamente face o prejuízo causado. Há farta munição para o TCU e o Ministério Público acionarem, judicialmente, os responsáveis irresponsáveis, sejam empresas ou mesmo pessoas físicas.
Se nada acontecer , e situações como esta, no Brasil, sabemos que tudo tem pra nada acontecer, continuaremos andando para trás, alimentando a negligência, o roubo descarado, a irresponsabilidade, os superfaturamentos imotivados, sem que os responsáveis sejam punidos exemplarmente, para que sirvam de exemplo para um país já repleto e devastado pela cultura da impunidade.
O Brasil deve, urgentemente, fazer a opção pela civilidade, pelo regramento, pela obediência às leis, e não só isso: para que os seus detratores e infratores não mais saiam lisos, lesos e livres por sua ação criminosa e delinquente.
Sequer o senhor Eduardo Paes poderá ser aliviado neste rol de irresponsáveis. Tinha em seu poder, desde 2010, um relatório pormenorizado das irregularidades, e somente passadas as eleições de sua reeleição é que veio a público para divulgá-las. Seu crime não é apenas a omissão, mas a conivência e, em última instância, a cumplicidade.
Nenhuma civilização progrediu e saiu das trevas sem que sua sociedade se determinasse em seguir códigos de conduta, leis, regras, ordenamento jurídico. Nenhum país se tornou desenvolvido sem permear a conduta de seus cidadãos dentro dos limites de responsabilidade e seriedade. O Brasil não sairá deste atoleiro em que vem sendo enfiado, se tentar seguir o caminho inverso. Pelo contrário. A tendência é enlamear-se mais e mais.
Assim, que a política se restrinja ao seu canto macabro e obscuro e deixe aos técnicos os cuidados que a boa técnica exige. Chega de aprendizes de feiticeiros, de salvadores da pátria, de vigaristas e mistificadores deleitando-se na ignorância e desinformação do povo. Neste rumo, chegaremos mais rápidos à barbárie, de onde não cansam de brotar a elite política que viceja ao derredor.
Para encerrar: os engenheiros responsáveis pela vistoria técnica que determinou a interdição temporária do Engenhão, como informa o site da Veja, afirmaram ainda não saberem com o consertar os defeitos estruturais que o estádio apresenta. Bem, neste caso, é preciso ter equilíbrio e não por os pés pelas mãos. O adequado seria fazer uma varredura completa em todos os aspectos tocantes ao estádio, com o objetivo de diagnosticar, corretamente, até aonde o comprometimento da estrutura se estende, porque, se sabe, que os problemas não se restringem apenas à cobertura. Assim, conhecer a exata dimensão dos erros de projeto e até construtivos, evita que, no futuro, novas interdições e novos consertos precisem ser feitos.
Mas é preciso que fique claro: apesar dos problemas que os times cariocas enfrentarão doravante pela falta de estádios – o Maracanã não se sabe quando finalmente será concluído – a questão agora é puramente técnica. Política, nesta altura, é a pior das conselheiras e, em consequência, a escolha mais inadequada.
Dentre 18 estádios, 15 não estão adequados para o futebol. Mas isto é um problema menor. O que importa agora, é esquecer a pressa em encontrar uma solução no campo esportivo, priorizando, antes de mais nada, a máxima segurança para os torcedores. Tragédias causadas pela inépcia de dirigentes e autoridades acho que o país já teve o que chega em tão curto espaço de tempo. Tem vítimas de Santa Maria que ainda permanecem no hospital, nunca é demais lembrar.










