quarta-feira, outubro 13, 2010

Lula: distante das grandes causas, mas aliado ao terror.

Adelson Elias Vasconcellos

Vejam esta foto abaixo. Nela, identificamos o emocionado abraço do presidente chileno a Florencio Ávalos, primeiro mineiro resgatado dentre os 33 que estão soterrados há mais de 60 dias. Durante as horas que antecederam o início do procedimento de resgate, ele se manteve junto com sua esposa em meio ao acampamento dos familiares dos mineiros e não arredou pé até que se completasse a primeira missão de resgate real. Ainda era resgatado o quarto mineiro, o boliviano Carlos Mamani, e o presidente não saíra do acampamento. A cada novo resgatado, o mesmo abraço emocionado, o mesmo sentimento de sóbria e sensível solidariedade. Isso é sentimento de fraternidade, obrigatória quando se trata do chefe da nação. 

Florencio Ávalos, o primeiro dos mineiros soterrados a ser resgatado,
abraça o presidente do Chile, Sebastián Piñera

Há poucos dias, escrevemos um artigo no qual listamos alguns dos grandes eventos nos quais o senhor Lula da Silva se mostrou um eterno grande ausente. Foi por ocasião do discurso de Dilma na noite de 03 passado, à noite, após a confirmação pelo TSE de que haveria segundo turno para a eleição presidencial. Logo ele, mais protagonista durante a campanha do que a própria candidata.

Em todos os países, independente da ideologia do governante, a sua presença em momentos de comoção nacional é indispensável e, como disse acima, obrigatória. Ele ali não representa apenas o governo ou o seu partido político, mas toda a sociedade. No caso de Lula, é justamente no momento em que sua presença mais se faz necessária que ele dá as costas e se esconde, se omite, como se, ser solidário, lhe causasse algum tipo de repugnância e imenso constrangimento.

No plano internacional, o comportamento do governo Lula chega a ser repulsivo e vergonhoso, no plano da solidariedade humana. Lembram-se do caso dos pugilistas cubanos durante os jogos Pan-Americanos no Rio de Janeiro? Lula e seu ministro da Justiça não tiveram dúvidas em empurrá-los de volta para as mãos do tirano ditador cubano Fidel Castro, contudo, insiste em abrigar no país gente da laia de um Cesare Battisti, assassino e terrorista italiano, ou Oliverio Medina, representante no Brasil da narcoguerrilha FARC. Recentemente, quis intrometer-se na questão interna de Honduras, abrigando na embaixada brasileira um golpista que quis fraudar a constituição de seu país para se impor no poder. Lula insiste em manter-se amigo e aliado de um clube restrito dos piores ditadores e sanguinários ao redor do mundo. Enquanto a comunidade internacional cobra do Irã maior transparência de seu programa nuclear , permitindo inspeção da Agência Internacional para comprovação de que o seu programa, de fato, se desenvolve para fins pacíficos, Lula monta um circo ridículo que só reduz a significância do Brasil nas principais questões internacionais.

No caso chileno, e da mesma forma, no caso do dissidente chinês vencedor do Prêmio Nobel da Paz, o silêncio e a omissão do governo Lula, convenhamos, é injustificável. Aliás, é até compreensível quando se olha para a maneira como este governo trata das questões internacionais, sempre pela lente da ideologia política, nunca pelo lado da solidariedade humana.

Veja-se, internamente, o caso das famílias dos brasileiros mortos no Haiti, por exemplo. Dez meses após a cerimônia fúnebre na Base Aérea de Brasília, de 21 de janeiro, quando o presidente elogiou em discurso os “destemidos brasileiros” mortos durante o terremoto do Haiti, as famílias dos dezoito militares ainda não receberam um só centavo da prometida indenização de R$ 500 mil para cada uma delas, tampouco a bolsa-educação de R$ 510,00 para dependentes em idade escolar.

Lula prometeu em janeiro amparar as famílias, mas só em 5 de agosto enviou projeto ao Congresso, e não medida provisória, como anunciou.

Os familiares de nove dos heróis mortos, precisaram – veja-se a que absurdo que se chegou - acionar na 15ª Vara Federal, em Brasília, a seguradora e a Fundação Habitacional do Exército.

Em contrapartida, Lula estende sua mão amiga com doações em dinheiro para Cuba, Bolívia, Equador e Paraguai. E mandou US$ 25 milhões aos palestinos. E registre-se: nenhuma destas “caridades” foram para alcançar alguma ajuda humanitária em casos de desastres como o que ocorreu no Chile. Para entornar o caldo de vez, Lula criticou a greve de fome dos presos políticos cubanos, os quais igualou aos criminosos comuns do Brasil – santo Deus! - e se voltou contra a revolta da oposição na eleição iraniana, após a reeleição fraudada de Ahmadinejad. No muro, ofereceu asilo à “adúltera” Sakineh. E agora, cala-se, com o Nobel da Paz a um chinês preso.

A lembrar ainda um caso doméstico: tem município catarinense que, depois de dois anos das tragédias ocasionadas pelas chuvas torrenciais que devastaram parte daquele estado, sequer viram a cor do dinheiro, apesar das promessas. Em campanha, foi ao estado catarinense pedir para extirparem um partido de oposição.

É de se esperar que, quem o vier suceder na presidência da República, resgate um pouco da decência na área das relações exteriores, e, internamente, não se comporte de forma tão repulsiva diante de acontecimentos nos quais, a solidariedade não só é necessária, mas se impõem como obrigatória para a maior autoridade política do país. Para Lula é mais importante financiar, com dinheiro público, a manutenção de regimes totalitários comandados por tiranos assassinos de seu próprio povo e acolher no Brasil a escória, do que se mostrar como pessoa dotada de sentimentos mais nobres, dentre os quais a solidariedade humana, que está acima de qualquer cunho ideológico. Não sei se Lula entende que, mostrar-se mais humano e sensível, pode transparecer para seu público um sinal de fraqueza mas, se pensa assim, e os fatos demonstram que assim seja, equivoca-se solenemente, porque é justamente isso que o faria denotar ter algum traço de caráter... E, neste sentido, Lula permanece como o eterno grande ausente das principais grandes causas, estejam elas localizadas no Brasil ou fora daqui.

Infelizmente, a foto que se guardará de Lula está muito longe de aparentar alguma humanidade como a do presidente chileno que se vê lá no alto. Ela está mais próxima do cachorro louco, conforme se vê abaixo, vociferando contra adversários políticos ou reclamando da imprensa pelos palanques e circos espalhados pelo país afora.


Lula, em discurso de cachorro louco, num comício de campanha, em Campinas, no primeiro turno.

As privatizações e o bem que fizeram ao Brasil voltam ao debate — e isto é muito bom

Ricardo Setti, Veja online

Ex-governador Mário Covas e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso

Poucas vezes o eleitorado de São Paulo foi submetido a uma dose tão maciça de demagogia quanto a que lhe aplicou em 2002 o então candidato do PPB ao governo estadual, Paulo Maluf. A peça-chave da propaganda malufista de então consistia numa guerra contra os pedágios cobrados nas rodovias estaduais geridas pela iniciativa privada, graças a um programa de concessões iniciado no primeiro mandato (1995-1999) do falecido governador tucano Mário Covas.

COVAS E FHC PERDERAM A BATALHA DA COMUNICAÇÃO – O programa teve resultados extraordinários, mas Covas, mesmo sendo um excepcional quadro da política brasileira, não venceu plenamente junto à opinião pública a batalha da comunicação nessa questão, como em outras ligadas à concessão de serviços ou à privatização de empresas.

Não venceu porque nunca se deixou convencer de que isso era fundamental para o sucesso, a longo prazo, dos programas.

Com o presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2003) ocorreu o mesmo. Isso fez desaparecer a questão da privatização da campanha presidencial de 2002, na qual José Serra (PSDB), no confronto com Lula (PT), fugia dela como o vampiro da luz do sol, da mesma forma como procedeu o tucano Geraldo Alckmin contra o então presidente Lula, quatro anos depois.

Agora, graças à coragem do ex-governador e senador eleito por Minas Gerais Aécio Neves, o tema está recolocado na mesa.

A demagogia petista, que demoniza as privatizações como “venda a preço de banana do patrimônio público”, continua. Mas Serra já não foge mais do assunto: conseguiu até falar no progresso espetacular alçado pela telefonia — graças à privatização — em seu debate de domingo com a presidenciável Dilma Rousseff (PT). Isso é bom para o país.

PREJUÍZOS NA COSIPA, FARRA NA PETROBRÁS – Ele poderia ter ido muito mais longe. Lembrar exemplos tenebrosos, como o da Companhia Siderúrgica Paulista (Cosipa), estatal federal situada em Cubatão (SP), que em 1993, um ano antes da primeira eleição do presidente Fernando Henrique Cardoso, dava um prejuízo diário de 1 milhão de dólares aos cofres públicos.

Ou da farra que havia na Petrobrás, que, também nessa época, chegava a recolher mensalmente ao fundo de pensão de seus funcionários, o famoso Petros, dez vezes mais do que a contribuição do próprio funcionário.

A empresa estava, então, voltada antes de mais nada para os interesses dos próprios funcionários, num processo de corporativismo em que seu Conselho de Administração era composto por quadros da própria empresa, sem autonomia alguma em relação a ela – a raposa tomando conta do galinheiro.

Deixou de falar no setor siderúrgico, que, desestatizado, é um dos mais competitivos do mundo, deixou de dar prejuízos, cria empregos, projetou-se para o exterior – empresas brasileiras possuem siderúrgicas até nos Estados Unidos –, engorda os cofres públicos com impostos generosos e a balança comercial brasileira com um enorme volume de exportações.

Os bons exemplos do sucesso das privatizações dos ex-presidentes Itamar Franco (1992-1995) e Fernando Henrique são incontáveis.

Rodovia dos Imigrantes, em São Paulo

PEDÁGIOS, SIM, MAS ESTRADAS DE PRIMEIRO MUNDO – Em São Paulo, o processo de concessões de rodovias que Maluf atacava como o símbolo do Mal não se realizou na escuridão nem em gabinetes fechados. Antes de entrar em vigor, foi longamente discutido com diferentes setores e devidamente aprovado pelos representantes eleitos pelo povo na Assembléia Legislativa. Depois, os respectivos contratos, válidos por 20 anos, foram regularmente aprovados pelo Tribunal de Contas.

O resultado foi que o estado de São Paulo, que já dispunha da melhor malha viária do país, passou a oferecer aos cidadãos, com as estradas sob concessão, rodovias ainda melhores, com padrão de Primeiro Mundo: pistas seguras, sinalização perfeita, manutenção permanente e de boa qualidade, socorro gratuito aos motoristas.

Quem ainda não conhece e percorrer a nova pista da Rodovia dos Imigrantes, que já tem oito anos de uso, por exemplo, pode julgar que está sonhando – que viaja em uma estrada da Alemanha ou do Canadá.

PAGA QUEM USA – Os contratos que os governos Covas (1995-2001) e depois Alckmin (2001-2007) assinaram com as empresas privadas foram rigorosos quanto a prazos, exigências de novas obras e impacto ambiental.

Além disso, desde que o programa começou, o governo deixou de investir nas estradas privatizadas algo como 12 bilhões de reais, que puderam ser alocados para áreas fundamentais para a vida da população, como segurança pública, educação e saúde.

Evidente e inevitavelmente, o programa não alcançou a perfeição divina: empresas concessionárias ergueram mais rapidamente praças de pedágio do que passarelas de pedestres, por exemplo. Nada que não possa ser resolvido, e vem sendo, pela agência reguladora paulista.

Mesmo assim, Maluf, no desespero de chegar a um governo que antes só alcançara pela via biônica, prometia horários com pedágio livre e, contraditoriamente para alguém que se diz favorável à iniciativa privada, concentrava suas baterias num programa que teve, no nascedouro, uma lógica simples e justa: quem paga pelas estradas, via pedágio, é quem delas se utiliza, e não a sociedade inteira, via impostos.

Maluf: a peça-chave da sua propaganda consistia numa guerra
 contra os pedágios das rodovias estaduais

ATÉ A CHINA E O VIETNÃ FAZEM – O eleitorado durante um tempo se sensibilizou com as promessas de Maluf já que, como mencionei, Covas não dedicou energia suficente para explicar as concessões de estradas e privatizações propriamente ditas que empreendeu, como a da Companhia Energética de São Paulo (CESP). Na campanha eleitoral, seu sucessor, o governador Geraldo Alckmin, teve que correr atrás do prejuízo – e acabou vencendo as eleições.

Com o governo de FHC não foi diferente – foi, na verdade, até pior. A privatização, um poderoso instrumento gerador de riquezas e de transformação econômica e social, que tornou dinâmicas e competitivas economias que caíam pelas tabelas nos anos 70, como as da Itália e do Reino Unido, e lançou no século XXI países que chochilavam à margem da modernidade, como a Espanha, tornou-se, pela propaganda dos adversários, um crime de lesa-pátria.

Quanto até países comunistas como a China e o Vietnã haviam descoberto a privatização como maneira de gerar riqueza, crescimento econômico, modernidade tecnológica e empregos – fora o aumento na arrecadação de impostos –, aqui vivíamos um clima pré-queda do Muro de Berlim.

SEM “CAPITALISMO POPULAR” – Cada leilão nas bolsas de valores virou uma batalha campal, com a polícia precisando conter manifestantes e baderneiros agredindo empresários e executivos. O processo, além do mais, tropeçou em erros graves.

Houve suspeitas de favorecimento, não comprovadas na Justiça mas que municiaram e ainda municiam os críticos. (Por falar nisso, no governo do ultracrítico PT de Lula, mudou-se uma lei séria, a Lei Geral das Telecomunicações –lei nº 9.472, de 16 de julho de 1997 –, unicamente para favorecer uma fusão, que a legislação, até então, sabiamente impedia, de dois gigantes do setor).

 Margaret Thatcher na capa da revista Time, em 1979

O erro principal talvez tenha sido a prioridade que se deu à transferência dos serviços ou empresas do estado para grandes grupos, especialmente estrangeiros, com capital e capacidade gerencial e tecnológica inquestionáveis, mas com isso abandonando a possibilidade de pulverizar as ações entre os consumidores e criar, assim, um embrião de “capitalismo popular” como fez Margaret Thatcher a partir do final dos anos 70 no Reino Unido.

Outro foi o momento escolhido para destinar ao abatimento da dívida pública os enormes recursos obtidos – destinação correta, tecnicamente, mas que se deu num período de explosão da taxa de juros, que terminaram por devorar rapidamente a dinheirama.

ACUSAÇÕES COMO A UM CRIMINOSO – Não é de estranhar, pois, que uma vez mais na atual campanha a privatização tenha virado anátema para os candidatos da oposição, de Serra aos aspirantes a governos estaduais. No debate da Band, Dilma “acusava” Serra de haver participado de privatizações altamente benéficas para o país com o tom de quem ataca um criminoso.

Graças à coragem do senador Aécio Neves, contudo, o tema que o PT conseguiu amaldiçoar durante oito anos voltou ao palco dos debates.

Isso, repito, é muito bom.

Buraco é mais em cima

Dora Kramer - O Estado de São Paulo

Pesquisa do Datafolha mostrou a quase irrelevância da questão do aborto sobre o comportamento do público em geral na hora de votar.

Pode ter tido importância crucial no voto pautado pelas igrejas, mas no eleitorado como um todo o que pesou mesmo foi o caso Erenice Guerra e o que o episódio invoca em matéria de escândalos nos últimos anos.

Segundo o instituto, três em cada quatro pessoas deixaram de votar na candidata do PT por causa das denúncias de tráfico de influência na Casa Civil e apenas uma em cada quatro teria sido influenciada pela religião.

De onde, duas conclusões: primeira, perdeu-se tempo com o assunto errado; segunda, o apreço à moralidade pública não é uma ligeireza das elites bem informadas nem uma manifestação tardia de "moralismo udenista", mas é um dos tópicos importantes na escala de valores do País.

Em tese, portanto, para a campanha de Dilma Rousseff seria melhor que a discussão ficasse no campo religioso do que se estendesse para o terreno da ética e dos bons costumes.

Isso na teoria e no cenário referente ao primeiro turno. A importância dada ao tema do aborto fez com que na campanha do segundo turno ele assumisse a posição de destaque que não teve ao longo da primeira etapa.

E, por paradoxal que pareça, justamente por causa das análises que equivocadamente atribuíam ao aborto a transferência de uma boa parcela de votos de Dilma para Marina Silva.

Isso fez com que o debate saísse do âmbito das igrejas e do subterrâneo difamatório da internet e sentasse praça ao centro da campanha, ao ponto de a candidata do PT ter escolhido enfrentar o tema de forma "assertiva" já no primeiro embate mano a mano com o adversário.

O assunto saiu da clandestinidade. Ontem, dia da Padroeira do Brasil, distribuíram-se panfletos em missa campal de Contagem (MG) e do lado de fora da Basílica de Aparecida recomendando votos apenas em candidatos contrários à descriminalização do aborto.

Não eram apócrifos nem se dirigiam a Dilma ou a Serra: estavam assinados pela Regional Sul 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e se referiam a uma posição bem especificada.

Um problema que a campanha do PT não resolve acusando o PSDB de caluniador nem chamando de retrógrados e medievais os brasileiros e brasileiras contrários - por razão religiosa ou não - à descriminalização do aborto.

Papel da crítica. O resultado do primeiro turno da eleição presidencial encerrou várias lições, várias amplamente comentadas nos últimos 10 dias. Uma, porém, não recebeu ainda o merecido destaque: o desmentido da tese defendida até por setores da oposição de que o contraditório era mercadoria em extinção.

Algo se move. Na próxima eleição é bem possível que os marqueteiros já não tenham mais tanto poder. Poder, aliás, distorcido, pois pressupõe a substituição da política pela propaganda.

O que indica essa tendência? As reclamações nas hostes tucanas e petistas e a exigência - apoiada por eleitores de parte a parte - de que Dilma seja "mais Dilma" e Serra "mais Serra".

Rumo.
Passada a eleição presidencial o DEM abrirá discussões internas a respeito do destino do partido, notadamente no que tange à sua direção. A aposta "jovem" de entregar a legenda nas mãos dos herdeiros de maduros líderes, não deu certo.

Os experientes preferem esperar o resultado da eleição porque a correlação interna de forças se altera dependendo do presidente eleito.

Troféu.
A piada entre tucanos é que Aécio Neves adorou a multa que recebeu por propaganda antecipada em favor do candidato do partido: só assim pode apresentar prova material do engajamento pró-Serra.

O pescoço do Lulismo

Sebastião Nery

PARIS – Dali de cima, Maria Antonieta disse que se o povo não tinha pão comesse brioche. Também não havia brioche para comer. Comeram o reino dela, o pescoço dela, do marido dela, da família dela. Só restou o rei sobre seu cavalo, na frente do palácio. E a nevoa desmanchando a tarde e compondo a noite, como o tempo que desmanchou a eternidade deles.

Há muitos anos, já lá se vão mais de 50, todo ano volto a Paris e vou a Versailles.Foi ali que tudo começou. Foi ali que a revolução francesa fez com sangue o parto da democracia. O mundo deve muito ao pescoço da Antonieta.

Do alto daquelas janelas que veem o infinito sobre jardins desenhados e lagos mansos, bosques de pé e campos deitados, Luis XVI e Maria Antonieta jamais imaginaram que tudo aquilo ia se acabar levando seus divinos pescoços.

Versailles
Em frente ao palácio, dois prédios solenes : um era a estrebaria do rei o outro a estrebaria da rainha. Lá ficavam seus cavalos e éguas. O povo, longe.

Versailles era o “chateau” onde o rei e a rainha passavam fins de semana, férias, e, quando começou a revolução, se escondiam da fúria do povo. Nos outonos, sempre um sol envergonhado chega e vai logo embora. As tardes ficam cobertas por uma bruma fria que desce sobre as arvores secas. As folhas vão caindo devagar, como nobres e tontas lagrimas douradas.

Hoje,alamedas enevoadas cheias de faróis acesos e turistas encapotados. Só faltam mesmo, ali, nos salões, quartos, pátios e corredores imensos, eles, os reis e seus nobres de roupas complicadas e cabelos encaracolados.

Robespierre
Aquilo ali é uma Universidade do poder. Ninguém, por mais poderoso, é divino e eterno. Quem derrubou o rei também pensou que era.

Robespierre, 30 anos, furioso à frente das multidões, proclamou-se “Pontífice do Ser Supremo”, vestiu uma bata longa, cintilante, pôs um barrete frígio, de cardeal, e desfilou em Paris à frente de todos. Nas mãos, rosas e espigas, como em um “gala-gay”. E de 24 de outubro de 1793 a 27 de junho de 1794, oito meses, Robespierre cortou a cabeça, na guilhotina, de 2.596 pessoas. Só em Paris.No interior, outro tanto.Até que cortaram a dele também.

Tiranias
Engano pensar que só nas tiranias nascem tiranos. Também nas democracias. O grego Sófocles, 500 anos antes de Cristo, avisou, no Édipo Rei, que “o tirano nasce do ventre da insolência e não sai do poder pela própria vontade”. O russo Dostoievski, que sofreu a tirania nos grilhões da “Casa dos Mortos”, a prisão da Sibéria onde esteve preso e estive visitando-a, ensinou que “a tirania a tal ponto se dilata que acaba virando doença”.

Herói da unidade sul-americana, Bolívar avisou:-“Nada tão perigoso como deixar alguém permanecer no poder por muito tempo.O povo acostuma-se a obedecer e ele a mandar, de onde se originam a usurpação e a tirania”.

Singer
É assustador quando a principal matéria da bem feita revista de banqueiros, por banqueiros, para banqueiros, a “Piauí” (numero 49, de outubro de 2010), em longo texto do jornalista, “cientista político” (?) e professor da Universidade de São Paulo, André Singer, durante quatro anos (2003 a 2007) Secretario de Imprensa e porta-voz do presidente Lula,anuncia (ameaça) :

- “O Futuro do Lulismo – Por Que Ele Veio Para Ficar” .

Todos sempre pensaram a mesma coisa. Maria Antonieta também. E onde estão o Salazarismo, o Franquismo, o Getulismo, o Peronismo, o Fidelismo, o Chavismo? Uns já enterrados, outros à beira do IML da Historia.

Globonews
Domingo, 3 de outubro, em Paris, 22 horas (17 no Brasil) alguns amigos brasileiros, professores, jornalistas, estudantes, acompanhavam o resultado das eleições através da GloboNews, a melhor coisa da televisão brasileira. E foi um espetáculo patético, que ninguém sabia se eram edições extraordinárias do “Big Brother”, “Casseta e Planeta”, “Pânico na TV”, CQC ou coisas piores.

A “GloboNews” escalou alguns de seus mais experientes jornalistas, como Merval Pereira, Cristiana Lobo, Monica Waldvogel, Sidney Rezende para apresentarem e comentarem a pesquisa de “Boca de Urna” do Ibope e os números apurados do Tribunal Superior Eleitoral. Acabou numa patacoada.

Pesquisas
Como o Ibope é sócio da Globo, a palavra do Ibope, Datafolha, Clesio sem Senso e até do ridículo Vox Populi é mais sagrada do que a de Bento 16 para a Igreja Católica. Tomaram dinheiro de governos e candidatos oficiais e, com a conivência da Justiça Eleitoral, acabaram com os comícios e fizeram uma aliança entre as “pesquisas” e as TVs, revistas e grandes jornais. Os comícios eram as “pesquisas” nas televisões toda noite e de manhã nos jornais.

Dilma já estava eleita e a apuração confirmaria tudo. Os números oficiais começaram a aparecer e eles se abobalharam, porque as “pesquisas” se desmoralizaram. Quando a “Boca de Urna” saiu, a apuração oficial perto da metade e o Ibope e eles jurando que Dilma passaria dos 51%. E ela logo encroou nos 46%. Como nos tempos de Etelvino e dos velhos coronéis, eles mandavam “esperar a Zona da Mata” e a “água do monte”. E veio o 2º turno

Outra vez com sentimento

Arnaldo Jabor - O Estado de São Paulo

"Muito bonito, hein, madame? A senhora me apronta uma dessas, justamente depois de tudo que eu fiz? Pusemos uma equipe de técnicos em make-over, em embelezamento, a bicha te fez um penteado de galo imperial, gastamos um granão em botox, em treinamentos de sorrisos, em ritmo de falas e a senhora me apronta uma dessas, sem ao menos me avisar de que havia o perigo na área daquela caricatura de burocrata que a senhora me empurrou na Casa Civil? A senhora não sabia que aquela família estava aparelhada lá dentro, filhinhos, genrinhos, etc.? Aí, vem aquela lambisgoia do Acre, com sua carinha de índia aculturada, e me ganha a parada, logo depois de eu ter berrado na televisão contra os ratos da imprensa, essa cambada de mentirosos que teimam em mostrar verdades num mundo como o de hoje, dominado pelas versões? E vem aquela candanga seringueira f*&der tudo, dando chance a uma nova eleição? É justo isso comigo? Eu que sou uma vitória do proletariado, eu que tenho devotos, eu que sou quase um círio de Nazaré? E os meus 80 % de Ibope, é merda, isso? Não vale nada? E a senhora levanta para ela cortar com aquele papo na TV dizendo há uns meses que é a favor do aborto? Você está pensando que fala com quem? Com aqueles babacas intelectuais que te acham uma "revolucionária"? Não. A senhora tem de falar como eu, para idiotas, para gente que acha que dossiê é um doce, para gente que me obedece, e você abre para os padres te esculacharem porque você é a favor do aborto? Tá tudo no YouTube, não adianta desmentir não, que é pior. Lembra quando aquela minha ex-mulher disse que eu tinha tentado obrigar ela a abortar? Perdi tudo, e aí tu me dá uma dessas? Eu só te escolhi porque a senhora é mulher e era obediente, "tarefeira", tipo: "Vai pichar parede!..." Você ia. "Vai panfletar!" Obedecia... Eu devia estar no Irã beijando o aiatolá, se não a senhora não falava aquilo!

Outra coisa: como vocês, comunistas, são incompetentes!... Oito anos e o PAC está essa bosta, com apenas 15 % feito? Sou obrigado a inaugurar placas e aeroportos duas vezes?

Olhe-se no espelho... a senhora pensa que algum jovem vai achar que a senhora é leve e solta, descolada, legal? Tem que sorrir, juvenilmente, como eu... Vamos lá, sorria! Não é assim, não. Olha aqui; eu sou um grande ator e alquimista, ah, ah, pois eu transformo merda em ouro... A senhora não tem minhas covinhas, meu riso franco e puro... Tem de melhorar muito; a senhora tem de ficar mais "riponga", mais moderna... Muda essas roupas caretas; por que não compra aquelas batas que a Mercedes Sosa usava? Batas indianas, de batik... E quando falar para os jovens, use umas palavras mais "da hora", pode fazer uns trejeitos meio punks e falar moderninho assim: "Aí, galera jovem, vamos fazer um governo "irado", na boa, f*&..dão!" Se a senhora pudesse emagrecer... Mas, não dá mais tempo...E não ponha mais botox! Veja o que aconteceu com minha mulher...

Chama aquele babaca do seu marqueteiro pra te treinar direito... e não diz que adora música brega não - só no sertão, no Nordeste... Diga aos jovens - como é o nome? - ah... diga: "Nos anos 90, eu adorava o Clash!" Isso.

Outra coisa: não faça carinhas de cristã, entre evangélicos e católicos. Não dá uma de Madre Tereza de Calcutá que nego saca que é chinfra... Todo mundo sabe que você acha a religião "o ópio do povo", não é isso que o teu mestre falou?... E mais: se o adversário diz que vai aumentar o mínimo para R$ 600, diz que joga para mil, porra! Pode dizer que depois se vê...

Aprenda o meu truque, sua canastrona; a senhora tem de fazer uma carinha de "vítima", como eu faço, não importa por quê. O povão adora que a gente reclame "daszelites", como o Jânio fazia - "vítima" de algo... Até o Hitler fingia que era vítima do mundo todo...

Por sua causa e desses marqueteiros de araque, eu vou ter de ficar de molho uns dias, feito um tatu no Alvorada, até esquecerem o que eu disse... Aprende comigo, porra! Povão gosta de sinceridade, mesmo falsa. Mas tem de fazer direito, se não, percebem... Eles pensam que eu é que fiz o Plano Real, que eu mandei a economia mundial vir para cá, eles pensam que você é minha mulher. Deixa pensar... pode dizer que é minha mulher mesmo - (a outra até ficou com ciúme...)

E agora? Como é que a senhora ainda me deixa aparecer outra "erenicezinha", como? Quem é essa moça que você chama de "tupamara" que era sua amiga, que você contratou e que logo, logo entregou R$ 14 milhões para uma firma sem licitação? Já está aí nas revistas desses canalhas da imprensa que teimam em mostrar roubalheiras... Será que vou ter de sumir de novo, para não me confundirem com vocês? Será possível que vocês "aloprados" não podem ficar quietos nunca? Porra!

- Mas, presidente, o senhor também pisou na bola berrando demais contra a imprensa...

- Cale-se! Não fala assim comigo! Eu não erro... Eu estava me esgoelando na TV para tapar as cag**das que vocês fizeram!

Ai, que saudades da rainha Elizabeth... Beijei a mão dela, lembro do cheiro da mão... Eu até segredei para minha mulher: "Viu só, mãezinha? Êta nós aqui, hein?" Os europeus todos me puxando o saco, mas até isso acabou, porque fui obedecer vocês comunas burros e acabei beijando aquela bicha do Irã... Agora, não sou mais o cara do Obama, que nem quer ver a minha cara... Pode?

Eu estava curtindo tanto o poder. Chegava a dormir abraçado comigo mesmo, sonhando e beijando-me a mim mesmo: "Eu me amo, eu me amo..."

Agora, só tenho pesadelos - sonho que estou de volta ao ABC, num torno mecânico... Vocês cortaram minha onda!...

- Mas, e eu, presidente, eu, quem sou eu?

- Você?

- Sim, por favor; diga: quem sou eu?

- Você de antes ou de agora?

- Agora, presidente!

- Bem, você era uma soviética como esses aí... Agora, tem de começar sendo atriz...

Vamos lá... De novo: sorria mais descoladamente... Não. De novo... Mais uma vez, com sentimento, diz: "Nunca antes no Brasil..." Repete."

Dilma (quase) não mente

Klauber Cristofen Pires, Opinião Livre

No Jornal Nacional que foi ao ar no dia 05/10/2010, pude acompanhar as declarações da candidata Dilma Roussef.

Ainda que com o que hei de afirmar adiante possam restar alguns leitores indignados, incrédulos ou atônitos, venho oferecer o meu testemunho de que suas declarações são fidedignas e correspondem à verdade...

Não se trata de um engano. Vamos à análise? A íntegra de sua fala, para conforto, a extraí já pronta do site do jornalista Reinaldo Azevedo:

“Sou de uma família católica. Eu sou, SEMPRE FUI, a favor da vida, senão eu não tinha (sic), inclusive, colocado a minha vida em risco em determinado momento.

Porque só quem é a favor da vida tem condições e a generosidade suficiente para saber que a gente deve, em todas as circunstâncias, afirmar a vida”.

De fato e inegavelmente, a escolhida de Lula tem como origem uma família católica. Quem há de contestar esta máxima verdade?

Será que Dilma, entretanto, é contra o aborto? Ora, ela nunca disse ser favorável ao aborto, pelo menos não que eu me lembre.

Pelo contrário, em diversas vezes tenho flagrado a candidata biônica ter afirmado peremptoriamente que nenhuma mulher deveria abortar e que isto é terrível.

Destarte, em outras colocações a que já assisti pela tv, também ouvi de sua própria boca que o seu projeto "é de vida". Não poderia ser de outra forma: os vivos governam somente para os vivos, não para os mortos. Ponto para Estela.

Será que, enfim, com um pouco de esforço poderíamos acatar o seu pronunciamento de que se não fosse a favor da vida, não teria colocado a sua própria em risco, em determinado momento, e nem ao menos teria "condições e generosidade suficientes" para afirmá-la?

Bom, com um tanto de catchup, acho que dá sim pra engolir. Quem não colocou a sua vida em risco em algum momento?

Eu também sou a favor da vida e já coloquei a minha própria em risco, por navegado em alto mar, em travessias por mares infestados de piratas, como é o estreito de Málaca, ou tormentosos, como o cabo Horn, e ainda ou por isto mesmo, creio que eu tenha condições e generosidade suficientes para afirmar a vida.

Claro, estamos a nos divertir aqui com a chamada linguagem muçum*, a especialidade número 1 dos políticos. Com ela, qualquer um diz ou oculta o que quer sem necessariamente ter de proferir uma escancarada mentira. Quem não se lembra, por exemplo, das respostas de Lula às suas pretensões de disputar um terceiro mandato? " - Com a democracia não se brinca..." frase cujo complemento oculto poderíamos vislumbrar da seguinte forma: "- há de se destruí-la, antes que me destrua..."

Com efeito, Dilma pode à vontade ser contra o aborto, a favor da vida, ter condições e ser generosa o suficiente para afirmar a vida, sem que nada disso a impeça de sancionar a lei do aborto escorando-se em outras premissas sobre as quais se omite hoje, tais quais o argumento de que se trata de uma questão de saúde pública, ou de que se trata de uma demanda originada no seio da sociedade organizada ou ainda, de que a sua opinião pessoal não pode prevalecer sobre as suas responsabilidades como mandatária da nação.

Deixem-se cair no auto-engano os eleitores mais idiotizados, os eremildos do Sr Gaspari e os leitores e telespectadores da mídia cachorrinha, mas o voto nesta cujo visual novo criado pelas equipes de marketing destoa um tanto do seu andar e trejeitos de orangotango com o seu falar de um misturador de vozes, não significa outra coisa que não a concretização da legalização do aborto. Vamos apostar?

(*) Muçum é um peixe brasileiro famoso por ter a sua pele revestida de uma substância bastante escorregadia.

A dilma das muitas caras




#01- Aborto
09/10/2010 - Dilma diz que é contra o aborto
04/10/2007 - Dilma diz que é a favor da legalização do aborto

#02 - Marina Silva
03/10/2010 - Dilma afirma ter poucas divergências com Marina
12/05/2008 - Marina sai do PT e deixa governo por divergências com Dilma

#03 - Erenice Guerra
12/09/2010 - Dilma diz não haver provas contra Erenice
16/09/2010 - Erenice Guerra deixa governo após novas denúncias

#04 - Relacionamento com a Imprensa
19/08/2010 - Dilma afirma que prefere críticas à censura em evento na ANJ
20/09/2010 - Dilma se irrita com imprensa e ameaça processar jornal

#05 - Carga Tributária
08/07/2010 - Dilma promete "zerar"carga tributária sobre investimentos
19/12/2010 - Dilma faz apelo pela manutenção da carga tributária

#06 - Aeroportos
20/07/2007 - Dilma afirma que detrminou a construção de novo aeroporto em SP
23/06/2010 - Dilma afirma que não será construído um novo aeroporto em SP

#07 - Farc
23/07/2010 - Dilma critica quem diz que o PT tem relação com as Farc
23/11/2006 - Dilma contrata funcionária ligada às Farc para o Ministério da Pesca

#08 - Espionagem e dossiês
29/06/2010 - Dilma diz que não há provas da ligação de petistas em espionagem
17/07/2010 - Ex-delegado confirma a participação de petistas e, meses depois, investigações comprovam a participação de petistas na quebra ilegal de sigilo fiscal

#09 - Controle de Imprensa
29/06/2010 - Dilma diz ser contra projeto de controle de imprensa
05/07/2010 - Dilma entrega ao TSE plano de governo propondo controle de imprensa

#10 - MST
20/04/2010 - Dilma diz que "não é cabível" usar boné do MST
24/06/2010 - Dilma discursa usando boné do MST

#11 - Obras
09/03/2009 - Dilma participa de inauguração no RJ
09/03/2010 - Obra inaugurada já existia e não contou com recursos federais

#12 - Apagão
29/10/2009 - Dilma afirma que não haverá apagão
10/11/2009 - Apagão atinge 18 Estados Brasileiros

#13 - Lina Vieira
11/08/2009 - Dilma afirma que não ocorreu o encontro com ex-secretária da Receita Federal
23/09/2009 - Lina Vieira reitera encontro e mais tarde apresenta agenda com o registro do encontro.

Nova denúncia envolve turma de Erenice nos Correios

Veja online

Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, direção indicada por ela aprovou um contrato com uma empresa aérea superfaturado em 2,8 milhões de reais

O presidente dos Correios, David José de Matos, e a diretoria da estatal aprovaram um contrato superfaturado em 2,8 milhões de reais para favorecer uma empresa de carga aérea. A contratação, feita pela nova direção da estatal nomeada pela então ministra-chefe da Casa Civil, Erenice Guerra, manobrou para ressuscitar, em agosto, uma licitação que havia sido cancelada três meses antes pelo comando demitido da estatal. Os documentos que registram a transação foram obtidos pelo jornal O Estado de S.Paulo e estão publicados em sua edição deste domingo.

Os documentos obtidos pelo jornal paulista mostram que a nova diretoria, empossada no dia 2 de agosto, entregou para a Total Linhas Aéreas um contrato de R$ 44,3 milhões. E concluiu o negócio em apenas duas semanas, em meio à crise que derrubou Erenice da Casa Civil da Casa Civil depois das revelações feitas por VEJA de que um esquema de tráfico de influência operava dentro do ministério.

A licitação nos Correios foi assinada pelo presidente Davi de Matos e seus diretores aprovarem no dia 15 de setembro. Um dia depois, Erenice foi forçada pelo Palácio do Planalto a pedir demissão. O contrato foi publicado no Diário Oficial da União de 4 de outubro, um dia depois do primeiro turno da eleições. No período de um ano, a Total vai transportar cargas dos Correios no trecho Fortaleza-Salvador-São Paulo-Belo Horizonte.

HISTÓRICO – A Total havia sido desclassificada da licitação em 2 de junho, quando o pregão para o serviço estipulava o pelo preço máximo de 41,5 milhões de reais. A única empresa a se apresentar foi a Total, mas com uma oferta de 47 milhões de reais, que foi recusada pelos Correios. Como a Total não aceitou baixar o preço, a licitação foi anulada.

Já em agosto, com a ajuda do Coronel Eduardo Artur Rodrigues da Silva, então nomeado diretor de operações e um dos personagens principais na crise dos Correios, a Total conseguiu o contrato por 44,3 milhões de reais.

O artigo 48 da Lei de Licitações determina que sejam desclassificadas "propostas com valor global superior ao limite estabelecido". Já o artigo 40 veda faixas de variação em relação a preços de referência. O coronel Artur, no entanto, à frente da Diretoria de Operações, recomendou a contratação por um preço 2,8 milhões de reais acima do primeiro valor estipulado. Num relatório de 13 páginas para justificar sua posição, ele afirma que os métodos dos Correios para chegar a uma estimativa "não são absolutamente precisos". "Fato este que permite a homologação excepcional de licitações por valor acima do previamente estimado em decorrência da variação normal de mercado e desde que haja interesse público", diz.

O parecer do ex-diretor foi submetido em 15 de setembro ao comando dos Correios. David José de Matos, amigo e colega de Erenice desde os tempos em que trabalharam na Eletronorte, dirigiu a reunião que aprovou a contratação da Total por 44,3 milhões de reais, vigorando por 12 meses. O contrato foi publicado na semana passada. Na ata estão os nomes dele, do coronel Artur e dos diretores Décio Braga de Oliveira, Ronaldo Takahashi de Araújo, José Osvaldo Fontoura e Nelson Luiz de Freitas.

No dia seguinte à assinatura, Erenice Guerra pediu demissão da chefia da Casa Civil, em meio ao escândalo envolvendo assessores e parentes dentro do governo. O coronel Artur demitiu-se no dia 19 de setembro, depois de vir a público que ele era testa de ferro de um empresário argentino na empresa aérea MTA, que também mantém contratos com os Correios.

Imprensa é livre mas não é boa

Editorial Folha de São Paulo

A imprensa é livre no país, ressaltou o ministro da Comunicação Social da Presidência, Franklin Martins. “O que não quer dizer que seja boa”, apressou-se em acrescentar.

Certamente não é boa.

Não foi boa, por exemplo, para o então presidente Fernando Collor de Mello, hoje aliado do PT, quando se revelaram os escândalos que vieram a resultar no seu impeachment.

Não foi boa quando noticiou a compra de votos de alguns parlamentares para aprovar a emenda constitucional que veio a instituir o direito à reeleição, então defendido por Fernando Henrique.

Não foi boa quando revelou o esquema do mensalão, o caso dos aloprados, a trama para expor o sigilo bancário do caseiro Francenildo e as atividades da família de Erenice Guerra, entre outros casos que pontuaram o governo lulista.

Em viagem à Europa, onde afirma colher subsídios para a criação de um marco regulatório na área de comunicações, o ministro Franklin Martins tem, portanto, motivos para reclamar de uma imprensa alheia à notória parcialidade com que costuma pautar as suas avaliações.

Seu comentário merece ser catalogado junto com reclamações de teor equivalente, feitas pelos governistas de todas as épocas.

Dois aspectos, entretanto, requerem atenção. O primeiro é que, neste final de governo, ainda exista empenho em engajar o Executivo num tema que mereceria antes de tudo ser objeto de uma iniciativa do Congresso.

O segundo, e mais importante, é o que revela da reiterada disposição por parte de representantes do PT de exaltar a liberdade de imprensa para em seguida assestar novos ataques a quem publica o que o governo gostaria de ocultar.

No triunfalismo que antecedeu a divulgação dos resultados eleitorais, o presidente Lula elevava a voltagem de suas provocações à imprensa. Diminuíram com a notícia de que haveria um segundo turno. Mas o inconformismo permanece -e o ministro novamente o manifesta. Não será uma breve viagem a países europeus que irá civilizá-lo quanto a isso.

Democracia e Democratização

Luiz Carlos Bresser-Pereira

A democracia do Brasil não é a dos nossos sonhos, mas já obriga políticos a pensar nas demandas dos pobres

O primeiro turno das eleições presidenciais foi mais uma bela confirmação de que a democracia está consolidada no Brasil. Não é a democracia dos nossos sonhos, não é simplesmente o governo do povo, mas é uma democracia que já obriga os políticos a pensar nas demandas dos pobres e a procurar atendê-las.

Nem sempre com o mesmo empenho, nem sempre com a mesma competência. Mas o fato é que durante os 25 anos de nossa jovem democracia o povo foi ouvido, a desigualdade diminuiu, e os pobres melhoraram de vida.

Isto não significa que os pobres sempre ganhem com a democracia. Nos países ricos, durante os 30 Anos Neoliberais do Capitalismo (1979-2008), foram os muito ricos que ficaram ainda mais ricos.

Os pobres e a classe média viram seus rendimentos estagnar, não obstante continuassem a ocorrer progresso tecnológico e crescimento econômico.

Embora o neoliberalismo falasse sempre em nome da democracia era na verdade contra ela, como vimos no caso extremo da Guerra do Iraque e hoje vemos na Guerra do Afeganistão.

Sem dúvida, era um autoritarismo contra outro autoritarismo, mas o dos dois países invadidos ocorria dentro de sua própria casa, enquanto que o outro confundia-se com o imperialismo.

As elites econômicas sempre se opuseram à democracia. Só a aceitaram porque não puderam mais resistir à pressão dos pobres e da classe média. Mas sempre com reservas. Sempre temendo a “ditadura da maioria”, sempre temendo a expropriação pelos pobres.

Só aceitaram a democracia quando perceberam que esse perigo não existia. Que, pelo contrário, em uma sociedade que já havia realizado sua revolução capitalista e contava com uma grande classe média, a democracia era mais segura que o voto censitário do autoritarismo liberal.

O Brasil completou sua revolução capitalista em meados dos anos 1970. Desde então a apropriação do excedente econômico deixou de depender do controle direto do Estado para ocorrer no mercado.

Por isso a transição democrática foi inevitável; por isso a democracia brasileira está consolidada. Mas há ainda muito por fazer para melhorar a qualidade da democracia, para prosseguir na democratização.

Nesse campo, o principal desafio é crescer mais rapidamente, porque é o desenvolvimento econômico que abre oportunidade para a melhoria dos padrões de vida, a diminuição da desigualdade e a proteção do ambiente; a principal dificuldade é a tendência à sobreapreciação cíclica da taxa de câmbio; e a principal tarefa é sempre a da educação, porque ela é condição do próprio desenvolvimento econômico, da continuidade da democratização, e da afirmação da cidadania.

O Brasil caminhou nessa direção desde o governo Itamar Franco. Depois do Plano Real poderia ter crescido muito mais se tivesse combinado responsabilidade fiscal com cambial; se tivesse adotado a estratégia novo-desenvolvimentista baseada nessas duas responsabilidades, como fazem os países asiáticos dinâmicos.

Os dois candidatos ao segundo turno prometem que o farão. Construir em conjunto com a nação uma estratégia nacional de desenvolvimento não é tarefa fácil, mas creio que o povo brasileiro e sua democracia estão prontos para isso.

Política e moral: uma nota

Fernando de Barros e Silva, Folha de São Paulo

SÃO PAULO – Liberal na economia e conservadora nos costumes. Marina Silva ouviu essas duas críticas de boa parte da esquerda durante a campanha. Além delas, havia uma terceira ressalva: Marina teria certa dificuldade de lidar com as coisas concretas, de tocar o chão da realidade, como se pairasse acima dos problemas, “au-dessus de la mêlée”, vendo do alto o jogo sujo da política. Sua posição seria, segundo essa crítica, ingênua ou hipócrita -nos dois casos “principista”.

Mesmo pessoas simpáticas a Marina devem reconhecer que são objeções que fazem algum sentido.

Em entrevista ao jornal “Valor”, o sociólogo Gabriel Cohn, um dos grandes intelectuais uspianos, disse o seguinte: “O espantoso é que o fenômeno Marina é fundamentalmente não político. Ela disse que governaria por princípios, não faria alianças”. Marina não dizia bem isso, mas que buscava vocalizar um realinhamento histórico de corte progressista, no qual PSDB e PT pudessem atuar juntos.

Voltamos à discussão sobre moral e política. Numa perspectiva de esquerda, a “boa política” deve se colocar entre o principismo e o pragmatismo, rejeitando-os mutuamente. Presa só a princípios, a política se converte em dogma e cai no moralismo; indiferente a eles, se banaliza ou legitima o vale-tudo.

O PT, em sua história, migrou de um polo a outro. No seu início, não fazia alianças, não deu apoio a Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, recusou-se a assinar a Carta de 1988 etc. Hoje, no poder, o partido afaga mensaleiros e aloprados, passeia de mãos dadas com oligarcas etc.

O que é mais necessário no Brasil atual: atacar o principismo (inexistente) da esquerda ou criticar o vale-tudo ético a que a ela sucumbiu sem medo de ser feliz?

Como disse o filósofo Ruy Fausto: “A ideia de um partido que, embora participando do processo eleitoral, fosse diferente dos outros, se perdeu”. Para parte dos seus eleitores, Marina talvez fosse um pouco a musa viável desse elo perdido.

Empresa sem dono

Ferreira Goulart

Há um desinteresse da parte das autoridades de saúde e dos médicos por cumprir suas obrigações

EDMILSON É um cidadão carioca que vive com dificuldade, ganhando pouco, tendo que sustentar um filho inválido de 12 anos que não fica em pé e nem mesmo consegue sentar-se. Haja força para levá-lo ao banheiro, banhá-lo e vesti-lo.

Edmilson, de poucos músculos e fumante inveterado (deixou de fumar faz pouco), não goza de boa saúde, de modo que, frequentemente, procura médico em algum hospital público e nada consegue, claro.

Faz alguns meses, sentindo dificuldade de respirar, uma dor no peito, decidiu ir a um hospital público relativamente próximo de sua casa, que fica em Anchieta, zona oeste do Rio. Entrou na fila às oito da manhã, recebeu um número e esperou pacientemente até ser chamado.

Isso ocorreu às três da tarde, ou seja sete horas depois. Informaram-lhe de que não podia ser atendido porque o médico cardiologista estava de férias. Voltou para casa assustado, certo de que sofreria um infarto a qualquer momento.

Ao tomar conhecimento disso, perguntei-me se o serviço público de saúde está entregue a sádicos que têm prazer de torturar o paciente. Do contrário, por que deixá-lo na fila de espera durante horas e horas, sabendo que não há médico para atendê-lo? Isso, de um lado; de outro, como pode o cardiologista de um hospital público entrar de férias sem que se providencie outro médico para substituí-lo?

Pois bem, isso foi há muitos meses, mas, agora, há pouco mais de uma semana, Edmilson, sentindo dor num dos ouvidos, foi aconselhado a buscar um serviço médico de emergência porque poderia ter contraído uma infecção ou até mesmo estar com um tumor no ouvido.

A opção pelo serviço de emergência veio porque, se fosse a um hospital público normal, dificilmente seria atendido, como já se viu. E o caso era urgente.

Saiu de casa bem cedo para não ter que esperar o dia todo e, de fato, não esperou muito; aliás, não esperou nada, pois logo soube que ali, naquela emergência, não havia médico otorrino. “E a senhora pode me dizer em que emergência há médico otorrino?”, perguntou à funcionária, que lhe disse desconhecer alguma emergência com esse tipo de médico. E Edmilson voltou mais uma vez para casa sem ser atendido pelo serviço médico do Estado que sustentamos com nossos impostos. E o que vai ser dele, tendo um enfisema no pulmão e um tumor no ouvido?

Edmilson é apenas um entre milhões de brasileiros que não têm atendimento médico, embora, agora mesmo, durante a campanha eleitoral, os políticos tenham dito que o Brasil tenha um dos melhores serviços de saúde pública do mundo. É muita cara de pau!

Claro que eles mesmos não acreditam nisso e não desejam tomar conhecimento do que efetivamente ocorre nessa área. Há, sem dúvida, carência de meios para atender à demanda de cem milhões de pessoas ou mais.

Não é fácil dar atendimento satisfatório a tanta gente, mas o que se observa é que, afora a carência de meios, há também um desinteresse da parte das autoridades de saúde e dos médicos mesmo por cumprir suas obrigações, o que se traduz em ausência de espírito público.

O chefe, em vez de exigir dos servidores o cumprimento de suas tarefas, dá mole, faz vista grossa para suas faltas e sua displicência.

Isso ocorre no serviço público de modo geral e também, claro, na área da saúde, em que assume maior gravidade. Fazer cumprir as normas, ao que tudo indica, é visto hoje como uma atitude autoritária e o que impera é o espírito de camaradagem, que termina por anular a autoridade dos que têm por função gerir a coisa pública.

Soube recentemente do caso de um médico que, nas noites de plantão, tranca-se num dos quartos do hospital e dorme a sono solto, morra quem morrer.

Não admite ser acordado, já que a noite foi feita para dormir. E fica por isso mesmo, já que pega mal denunciar um colega…

Isso ocorre por muitas razões e talvez a principal delas seja mesmo o fato de que o serviço público é uma empresa, cujo dono, o povo, está ausente e os que estão ali para representá-lo, os diretores e chefes de serviço, ou não têm consciência disso ou, como os demais, aproveitam a ausência do dono para usá-lo em função de seu próprio interesse. É a casa da mãe joana.

O estilo é Dom Rixem

Olavo de Carvalho, Mídia Sem Máscara

Quem quer que use a linguagem da contradição estupefaciente desqualifica-se no ato, não só como pregador da doutrina de Cristo, mas como simples interlocutor honesto e digno de crédito.

O estilo é o homem - e a distinção estilística fundamental, nos debates públicos, é entre a linguagem que apela à experiência pessoal do leitor e aquela que visa a produzir uma impressão direta, pela pura carga semântica das palavras - e dos jogos de palavras --, omitindo ou até bloqueando o acesso à experiência.

O primeiro desses estilos não faz do seu usuário a voz de Deus, mas o segundo é inconfundivelmente diabólico, já que só serve para mentir e ludibriar, inscrevendo-se portanto, de perto ou de longe, na linhagem do Pai da Mentira. Uma mas maneiras mais eficazes de praticá-lo é embutir no texto algumas contradições bem camufladas, de modo que, não as percebendo à primeira vista, o leitor acabe engolindo a pílula pela simples razão de que seu cérebro, paralisado pela dificuldade lógica mal conscientizada, não encontra por onde discordar de quem lhe diz, ao mesmo tempo, sim e não. É o que costumo chamar de "contradição estupefaciente": aquela que persuade não a despeito de ser absurda, mas precisamente porque é absurda.

Não espanta, pois, que tal seja o estilo dos sacerdotes e pregadores intoxicados de Teologia da Libertação, uma escola de pensamento que até David Horowitz, um estudioso judeu totalmente alheio ao meio católico, percebeu imediatamente ser uma seita satânica.

Todo o esforço da Teologia da Libertação resume-se em aviar a receita de Antonio Gramsci, segundo a qual a Igreja Católica não deve ser combatida, mas infiltrada, dominada desde dentro, esvaziada de seu conteúdo espiritual tradicional e usada como instrumento da política comunista.

Submetido a essa dieta por algumas semanas, você está pronto para acreditar que a doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo coincide em gênero, número e grau com a dos maiores assassinos de cristãos que já houve no mundo: Lênin, Stálin, Mao Dzedong, Pol-Pot, Ho Chi Minh, Che Guevara e Fidel Castro.

Você não aceitaria isso se viesse da boca de qualquer um, mas, proferida com a autoridade de um prelado da Santa Madre Igreja, a proposta indecente suscita no cérebro humano uma reação paradoxal: você imagina que um homem de Deus jamais pregaria coisas tão chocantes, tão manifestamente absurdas e blasfemas. Ato contínuo, você diz a si mesmo que por trás da contradição brutal deve haver alguma coerência profunda, mística, inacessível à percepção comum. Não conseguindo elaborar o enigma por meios conscientes, você transfere automaticamente o serviço para a fantasia onírica, um mundo de analogias onde há somente imagens concretas e onde não penetra a diferenca entre "sim" e "não" (um fenômeno bem conhecido dos hipnologistas), o que torna impossível apreender a distinção entre analogia direta e analogia inversa: aí já não há mais diferença entre morrer pelos seus irmãos, como ensinava Cristo, e tornar-se, como propunha Che Guevara, uma "eficiente e fria máquina de matar". Entre as névoas do sonho, não só o assassinato em massa de cristãos adquire o prestígio de um sacrifício divino, mas já não há distinção de mérito entre os que deram a vida e os que a tiraram. A vaga semelhança física entre o retrato de Che Guevara e a figura estereotipada de Jesus Cristo faz o resto.

Um exemplo didático do emprego da contradição estupefaciente vem na mensagem de Dom Eugênio Rixem, bispo de Goiás e responsável pela Comissão de Catequese da CNBB, contra os apelos de padres católicos para que seus paroquianos não votem em candidatos abortistas.

"A Igreja Católica, como já disse numa carta anterior, não apóia nenhum candidato", afirma o referido.

Linhas adiante, pontifica: "O que está em questão nestas eleições são dois projetos diferentes sobre o futuro do nosso país. Um que defende os interesses dos pobres, mais justiça social e melhor distribuição de renda nacional. Outro, quer manter os privilégios daqueles que sempre marginalizaram a classe dos excluídos."

É verdade que a Igreja não apóia nenhum candidato, mas dom Rixem apóia. O contraste maniqueísta entre os bonzinhos e os malvados, descrito nos precisos termos da propaganda petista -- e sem a mais mínima prova de que a candidata dos banqueiros seja uma digna representante dos pobres, coisa em que só um petista fanático pode acreditar --, não deixa margem a dúvidas quanto às suas preferências. Ele as expõe, novamente, na linguagem estereotipada da retórica petista, mas, em vez de fazê-lo em nome de si mesmo, apela ao plural majestático: "Queremos um país com mais justiça social, terra para os pobres, o limite de propriedade de terra, a defesa do meio ambiente, especialmente do cerrado, tão agredido pelo agronegócio." Queremos? Quem é o sujeito da frase? Evidentemente, a entidade coletiva em nome da qual dom Rixem fala: a Igreja Católica - aquela mesma que não apoiava nenhum candidato mas que, pelo milagre da contradição estupefaciente, aparece agora como adepta incondicional de Dilma Roussef.

"Sim, sim, não, não", ordenava Jesus Cristo: "O mais é conversa do demônio."

Quem quer que use a linguagem da contradição estupefaciente desqualifica-se no ato, não só como pregador da doutrina de Cristo, mas como simples interlocutor honesto e digno de crédito.

Se você quer mesmo acreditar no irracional, por favor escolha algo de mais inofensivo: acredite em duendes, acredite em discos voadores, acredite em Papai Noel, mas não acredite em Dom Rixem.

Uma 'nova' Dilma em cena

O Estado de São Paulo

A pesquisa de intenção de voto do Datafolha indicou que José Serra conseguiu reduzir para 8 pontos a vantagem de 15 com que Dilma Rousseff vencera o primeiro turno. Foi o suficiente para disseminar o pânico nas hostes petistas. O que é compreensível, considerando que desde o mais anônimo militante até o chefão Lula, todos os apoiadores da candidata oficial davam a fatura eleitoral como liquidada e alardeavam que 3 de outubro representaria apenas a formalidade de homologação de uma retumbante vitória.

Os efeitos dessa reversão de expectativa se tornaram evidentes já no primeiro debate do segundo turno, promovido pela Rede Bandeirantes. Logo em sua primeira intervenção Dilma partiu para o ataque aberto, violento, acusando Serra, sua esposa e os tucanos de modo geral de serem os responsáveis pela campanha caluniosa movida contra ela na internet. Colocou-se assim a escolhida de Lula na posição em que ele próprio, o chefe, sempre soube se instalar com muita competência, nos momentos de aperto: a da pobre vítima que jamais ataca, como é próprio dos malvados - nada disso, apenas exerce o direito de legítima defesa. Com a vantagem adicional de demonstrar que é uma mulher capaz de assumir atitudes firmes, corajosas.

Quanto a essa questão da "firmeza", que quando fora de controle, como a própria Dilma demonstrou na ocasião, descamba para a rispidez, o debate não revelou nada de novo. Dilma Rousseff sempre foi conhecida como pessoa rude e de difícil trato, especialmente com subordinados. Se a resposta não fosse evidente, seria até o caso de perguntar: se é para voltar a ser como sempre foi, por que então mudou durante o primeiro turno, fazendo o gênero "paz e amor"?

Já no que se refere às baixarias que rolam na internet, a ex-favorita absoluta à sucessão presidencial tem todo o direito de reclamar, mas é preciso colocar essa questão nos devidos termos. Em primeiro lugar, o óbvio: ataques caluniosos são desferidos de todos os lados e contra todos os candidatos e obedecem à tendência natural de se tornarem mais pesados com a polarização da campanha eleitoral. Embora em alguma medida essas baixarias possam ser manipuladas, quando não inspiradas, pelo comando das campanhas - nesse assunto certamente não se pode colocar a mão no fogo por ninguém -, é claro que a maior parte desse comportamento condenável corre por conta de uma militância incontrolável composta por indivíduos ou grupos que usam a enorme sensação de poder que lhes confere a web para fazer a catarse de suas frustrações. É o tributo que se paga às inconsistências da democracia que ainda persistem no País. Além disso, Dilma conhece o PT há tempo suficiente para saber que o ataque como melhor defesa, e sem nenhum escrúpulo, sempre foi a tática preferencial, uma autêntica marca registrada de seu atual partido - em períodos eleitorais ou fora deles.

Ademais, ainda, é risível a tentativa da candidata petista de incluir no balaio das calúnias de que se diz vítima fatos de domínio público sobre os quais não paira a menor dúvida, como o amplo noticiário sobre o tráfico de influência que a família de sua protegida Erenice Guerra promoveu a partir do Palácio do Planalto, ou sobre seu constrangido vaivém na questão do aborto.

O desempenho de Dilma Rousseff no primeiro debate do segundo turno e nos dias subsequentes deixa clara a guinada tática na campanha petista: Dilminha-paz-e-amor virou a vítima indignada de boatos, calúnias e difamação. Indignada, mas não "agressiva". Apenas "firme". Na segunda-feira, na cidade-satélite de Ceilândia, Lula e sua candidata inauguraram o primeiro palanque do segundo turno e a "nova" Dilma mostrou ter assimilado as novas instruções: "Meu adversário faz uma campanha baseada no ódio, na boataria, na calúnia, na mentira e na falsidade. Ele não acusa de frente, olho no olho, não faz a disputa justa, leal e verdadeira."

Já o chefão não perdeu a oportunidade para mais uma demonstração de suas inexcedíveis soberba e megalomania: "Eu poderia ter escolhido um deputado, um senador, um governador. Por que a Dilma? (...) A Dilma vai começar a redenção das mulheres no Brasil e no mundo (sic)." Agora é a vez de o eleitor escolher.

Abortando o debate

Bruno Pontes (*), Mídia Sem Máscara

Está tudo documentado. O aborto é parte da agenda petista (da esquerda inteira, de fato). Abortar contribui para demolir o sistema patriarcal inerente à civilização judaico-cristã e capitalista etc. A legalização do aborto é objetivo votado e aprovado em assembléias partidárias.

"Eu acho que tem de haver a descriminalização do aborto. É um absurdo que não haja a descriminalização". Dilma Rousseff disse isso em outubro de 2007, para a Folha de S. Paulo.

"Abortar não é fácil pra mulher alguma. Duvido que alguém se sinta confortável em fazer um aborto. Agora, isso não pode ser justificativa para que não haja a legalização. O aborto é uma questão de saúde pública", reiterou Dilma à revista Marie Claire, em abril do ano passado.

O Programa Nacional de Direitos Humanos 3, referendado pela Casa Civil da ministra Dilma e registrado no TSE como plano de governo da candidata, trata o aborto como "direito humano" e recomenda a aprovação de uma lei que o descriminalize, "considerando a autonomia das mulheres para decidir sobre seus corpos".

A partir dos fatos, peço licença aos leitores para tirar uma conclusão reacionária e obscurantista: acho que Dilma apóia a legalização do aborto. Por convicção e por obediência ao partido.

Em seu 3º Congresso Nacional, o PT incorporou às suas diretrizes a "defesa da autodeterminação das mulheres, da descriminalização do aborto e regulamentação do atendimento a todos os casos no serviço público".

Ouçam também Angélica Fernandes, do Coletivo Nacional de Mulheres do PT: "A defesa da descriminalização do aborto é a principal bandeira daqueles e daquelas que defendem os direitos das mulheres, não como retórica, mas como prática militante e parte integrante da superação do atual modelo político e econômico".

Está tudo documentado. O aborto é parte da agenda petista (da esquerda inteira, de fato). Abortar contribui para demolir o sistema patriarcal inerente à civilização judaico-cristã e capitalista etc. A legalização do aborto é objetivo votado e aprovado em assembléias partidárias. É motivo de expulsão dos desobedientes. Para o PT, enfim, aborto é coisa séria. Mas vejam como são graciosos os companheiros. Agora estão nos ensinando que aborto não é assunto para eleição. Somente fanáticos religiosos e outras subespécies humanas ousariam levantar a questão e exigir de uma mulher que pode vir a ser presidente da República uma posição clara a respeito.

Dilma declarou anteontem, após uma fortuita visita a uma maternidade mantida por religiosos, que "tão importante quanto a liberdade de opinião e de imprensa é a liberdade de crença e de religião". Que lindo. Liberdade de religião é boa na hora de formar eleitorado com as comunidades eclesiais de base, insuflar a luta de classes com o sermão da missa e pontificar que Jesus foi o primeiro socialista. Quando a liberdade inclui a liberdade de rejeitar uma candidatura que contraria os princípios da crença, o PT muda de conversa e aborta o debate em nome da normalidade democrática. Até porque não há o que discutir: aquela Dilma dos primeiros parágrafos já avisou que sempre foi "a favor da vida".

(*) Bruno Pontes é jornalista - Publicado no jornal O Estado com o título Abortando o debate em nome da normalidade democrática.

Quem governará?

Leôncio Martins Rodrigues (*) - O Estado de São Paulo

Uma possível eleição de Dilma Rousseff, juntamente com a maioria de cadeiras já obtidas pela chamada base aliada no Congresso Nacional, tem suscitado muitos receios em setores sociais das classes médias e altas sobre os rumos da próxima administração "esquerdista". Teme-se especialmente que o novo governo aumente a participação estatal na economia, o controle partidário da administração pública e a consolidação de um populismo que, de modo mais radical, teria algumas semelhanças com o fascismo italiano ou com uma "mexicanização". Os dois fenômenos, na verdade, são diferentes entre si e têm pouca chance de vingar no Brasil de hoje, especialmente em razão da divisão partidária e das vitórias do PSDB em Estados importantes. Acho, contudo, que os analistas de nossa política têm dado pouca atenção a um aspecto aparentemente de natureza administrativa - que não diz respeito à ideologia e aos rumos programáticos de um eventual governo de Dilma -, mas que pode complicar o funcionamento do Executivo federal.

Quem efetivamente governará a partir de 2011? Lula ou Dilma?

Quando votaram em Dilma, no primeiro turno, em 3 de outubro, os eleitores foram informados de que, na realidade, não estariam escolhendo Dilma, mas Lula. O ex-metalúrgico, aliás, explicitou claramente o sentido que teria cada voto numa candidata totalmente desconhecida da imensa maioria do eleitorado, escolhida por ele para dar continuidade ao seu governo. Por essa via, os eleitores estariam dando a Lula um terceiro mandato sem alterar a Constituição. Há, porém, outro aspecto não tão virtuoso. A ex-guerrilheira, se chegar ao Palácio do Planalto sem mérito próprio, não terá a legitimidade oriunda do efetivo apoio popular.

Antes da corrida presidencial, para cuidar da administração do governo Lula havia colocado na Casa Civil - e não foi por acaso - alguém que não tinha força política própria. Ou seja, Dilma Rousseff. Era uma posição na administração federal que dava a Dilma muita força e influência, que deixariam de existir, no entanto, no momento em que, por alguma razão, deixasse o cargo. Não seria o caso de um político de algum prestígio próprio que fosse chamado a ocupar algum Ministério. Estamos, pois, diante de uma estranha situação. Se Dilma vencer, e se Lula não for indicado para algum Ministério, o político mais popular do Brasil - em quem os eleitores de facto votaram ao escolherem Dilma - estará fora do governo por quatro anos. Mas ficará de fora da cena política? Pode-se acreditar que se dedicará a assar coelhinhos no seu sítio? Ou, ao contrário, terá alguma sala no Palácio do Planalto ou uma mesa no gabinete da Presidência? Quem mandará de fato?

Caso seja eleita, se Dilma passar a Lula o governo, transferindo-lhe a última palavra nas principais decisões, a ex-chefe da Casa Civil estará desmoralizada e terá sua autoridade diminuída. Mas é pouco provável que se disponha a ser uma figura de segundo ou terceiro escalão e que aceite a função de uma fiel secretária, sem vontade própria.

E, aqui, é preciso considerar que, não importando quão grata e leal Dilma possa ser a Lula, pelas regras do jogo dos regimes presidencialistas quem manda é o presidente. Geralmente, com o correr do tempo, as criaturas revoltam-se contra o criador. Na História brasileira temos muitos casos de padrinhos políticos, impedidos de disputar um novo mandato, que conseguiram eleger o que foi denominado de "poste". Lembremos dois casos.

Adhemar de Barros, então governador, em 1950 lançou o professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo Lucas Nogueira Garcez para lhe suceder. Todavia, uma vez no governo, Garcez afastou-se de Adhemar e ajudou a eleger Jânio Quadros. Celso Pitta, um desconhecido, eleito prefeito de São Paulo em 1996 com apoio integral de Paulo Maluf, logo rompeu com seu tutor. Note-se que, em ambos os casos, o chefe político dono de votos, para não se arriscar, escolheu alguém sem força eleitoral e política. Um "administrador". Mas isso não impediu que o anterior protegido declarasse a independência.

Não é que as criaturas tenham vocação para a traição, mas sim que não gostam de ser paus-mandados. Mais do que isso, não podem ocupar posições de chefia permanecendo subordinados a alguém que não tem mais poder, situação que Lula experimentará para os próximos anos. Poderia ser contemplado com algum Ministério. Mas seria uma capitus diminutio para quem terminou dois mandatos com a aprovação popular que sabemos. Atividades políticas não admitem mais do que uma grande liderança. Trotsky e Stalin que o digam.

Todos os atos importantes do próximo governo deverão trazer a assinatura de Dilma, se a indicada vencer. Um novo Ministério deverá ser formado. A quem estarão subordinados os novos ministros? Que partidos aliados e facções do PT serão mais beneficiados com Dilma na Presidência da República?

A carreira de Lula e a de seu círculo de relações mais estreito não são iguais à da candidata que ele escolheu. Dilma veio do PDT, aderiu oportunamente ao PT somente em 2001, não passou pelo sindicalismo e não disputou eleições. Se eleita, ficará todo o mandato sob as ordens de Lula?

A ex-guerrilheira está longe de ser caloura na área da política. Na realidade, foi política a vida toda. Começou antes de Lula, mas veio do movimento estudantil e da guerrilha. Ocupou posteriormente altos cargos públicos na administração pública estadual (Rio Grande do Sul) e federal que devem ter-lhe trazido experiência administrativa. Nada na sua personalidade e na sua trajetória indica que tenha vocação para secretária obediente. Se vencer, terá de governar e aprender rapidamente a navegar em águas turvas.

(*) Cientista Político

Governo totalitário

Ipojuca Pontes, Mídia Sem Máscara

Definidas as pretensões hegemônicas pelos principais interessados, resta apenas especular sobre quais seriam as "reformas importantes" propostas à nação pelo futuro Congresso Nacional dominado pela Frente Ampla Esquerdista de Lula, Dilma et caterva.

Com a possível ascensão de Dilma Rousseff à presidência da República neste segundo turno, ainda indefinido, mas tendo como certa a conquista da maioria parlamentar, pelo atual governo, nas duas Casas do Congresso Nacional, a pergunta que se torna obrigatória é a seguinte: quanto tempo vai levar para que se estabeleça no Brasil, sem disfarces, a prolongada ditadura da esquerda - radical ou não?

De início, convém lembrar que antes mesmo de saber se o PT e os partidos da base aliada comporiam a maioria no Congresso, tanto na Câmara quanto no Senado, o vosso Lula da Silva já tinha como certa a fusão das legendas do PT, PCdoB, PSB, PDT (e outros que tais) para formar uma Frente Ampla ideológica com o objetivo de não apenas dar sustentação política ao futuro governo, mas, em especial, mudar a Constituição ora vigente no país.

(No histórico, a formação de um partido único somando todas as forças e agremiações políticas de esquerda para afunilar as oposições e, depois, liquidar a democracia, foi sempre um velho programa leninista).

Na ordem prática das coisas, segundo o ex-blogueiro César Maia, um entendido em contas eleitorais e candidato derrotado a Senador pelo DEM-RJ, a partir de 2011 os partidos do bloco governista controlarão (no mínimo) 73% das cadeiras da Câmara e do Senado Federal - um percentual mais que suficiente para aprovar sem dificuldades, a partir da articulação da Frente Ampla de esquerda, uma reforma constitucional.

Como a confirmar os prognósticos da formação da Frente Ampla esquerdista, corolário do partido único, Carlos Lupi, antigo puxa-saco de Brizola e atual presidente nacional do PDT, deu a conhecer, no jornal "Estado de São Paulo", o empenho de Lula em articular a unívoca máquina parlamentar, a ser acionada em 2011: "O presidente é um líder nato e, independentemente de ser presidente da República, terá forte influência entre todas as forças populares e democráticas de esquerda".

Mais afoito, Eduardo Campos, sobrinho do comunista Miguel Arraes e atual presidente nacional do PSB, abre o jogo: "O presidente, em conversa ao longo de muitos anos, sempre falou que não compreendia porque a gente não era um partido só. Se a gente se reúne na eleição em torno de candidaturas e programas, por que não podemos discutir um programa, uma agenda de desenvolvimento sustentável e as reformas importantes que precisam ser operadas no país"?

E aqui chegamos ao cerne da questão.Definidas as pretensões hegemônicas pelos principais interessados, resta apenas especular sobre quais seriam as "reformas importantes" propostas à nação pelo futuro Congresso Nacional dominado pela Frente Ampla Esquerdista de Lula, Dilma et caterva.

Bem, se não fosse repetir o óbvio, elas simplesmente traduziriam, no âmbito de uma reforma constitucional manobrada pelas esquerdas dentro do Congresso, a inteira adoção do Programa Nacional dos Direitos Humanos - o famigerado PNDH-3, já repudiado em gênero, número e grau pelo grosso (e o fino) da sociedade brasileira.

(Como é mais do que sabido, o PNHH-3 incorpora uma série de medidas subversivas traçadas no seio do Foro de São Paulo, uma Internacional comunista da América Latina que objetiva abrir pela via parlamentar os "caminhos legais" (constitucionais) para se instaurar um governo totalitário no mais importante país do Hemisfério Sul).

Sim, amigos, é fato: para controlar constitucionalmente a nação e estabelecer o império vermelho durante longos anos, o projeto comunista da Frente Ampla parlamentar, tendo por base o PNDH-3, prevê, entre outras preciosidades, o seguinte: 1) o abastardamento das Forças Armadas, única instituição organizada capaz de enfrentar o projeto totalitário; 2) o "controle social" dos meios de comunicação a partir da instalação de comitês e conselhos para classificar, conceder canais e emissoras públicas, distribuir incentivos e punir os recalcitrantes faltosos 3) a supressão do direito de propriedade a partir da criação de comitês especiais para julgar, antes do Judiciário, a invasão de terras por parte dos chamados "movimentos sociais", notadamente pelo MST - Movimento dos Sem Terra -, de caráter maoísta.

Ademais, a reforma constitucional a ser laborada pelas esquerdas compreende, no plano educacional, a revisão dos livros escolares, efetivando uma "nova leitura" de valores e símbolos nacionais a partir de uma exclusiva visão revolucionária; a intensificação do regime de "cotas" nas universidades federais, declarado instrumento de fomento ao racismo; a liberalização do aborto, do casamento homossexual e das drogas, especialmente da maconha; a ampla estatização da cultura, com financiamento prioritário para o artefato "audiovisual", eficaz para a manipulação das massas - para não falar na entrega das terras amazônicas às ONGs internacionais, no aumento da carga tributária para ricos e pobres e no financiamento público dos fundos de campanhas eleitorais.

Os comentaristas políticos da grande mídia acreditam que o PMDB, o maior partido da base aliada do governo, não integrando as hostes da Frente Ampla esquerdista de Lula, poderia representar um forte obstáculo à formação de um governo que pretendesse atuar a partir de uma reforma radical da Constituição.

Não deixa de ser uma perversa ironia que o PMDB, partido tido como "de aluguel", mas de face mais "liberal", pudesse se tornar um obstáculo no avanço de um governo totalitário a se implantar no país.

O problema todo é que fica sempre difícil, ou quando não impossível, acreditar que o PMDB - manobrado por Zé Sarney, Michel Temer e Renan Calheiros e habituado a usufruir nacos do poder - se transforme num efetivo partido de oposição e reaja ao furor do totalitarismo vermelho.