quarta-feira, outubro 13, 2010

Complexo de vira-latas

José Paulo Kupfer, Estadão.com

O velho e insepulto complexo de vira-latas ronda o debate das estratégias para enfrentar, no Brasil, a guerra cambial. Ele é subjacente à ideia de que há contradição entre atrair recursos externos para os grandes projetos em andamento e barrá-los com restrições fiscais ou administrativas a seu ingresso no País.

Alguém precisa explicar melhor por que restrições, independentemente do grau, afugentariam, de modo automático e inapelável qualquer tipo de capital externo. Esse mesmo alguém poderia ajudar, calculando a taxa de retorno de investimentos em infraestrutura, pré-sal, Copa do Mundo e Olimpíadas – alguns dos grandes projetos para os quais não podemos prescindir dos capitais externos –, considerando diversos graus de barreiras ao ingresso e/ou permanência. Sem isso, é conversa jogada fora ou erupção do complexo de vira-latas – talvez os dois.

Investimentos são atraídos, de um lado, por mercados domésticos pujantes e com perspectivas de expansão e, de outro, pelas taxas internas de retorno que oferecem. Restrições ao ingresso de capitais afetam diretamente as taxas de retornos, mas não a pujança dos mercados.

Qualquer dúvida, favor observar o que ocorre na China. A economia chinesa é aquela que mais atrai capitais externos, mas é também aquela que mais impõe restrições a eles.

Agora mesmo, a nossa Embraer anuncia que deu com os burros n´água na China. A empresa brasileira montou um negócio na China, em associação com uma estatal chinesa (restrição generalizada no país). Os sócios investiram US$ 25 milhões numa fábrica. A empresa negocia manter a fábrica chinesa, mas o processo está muito complicado.

Dirigentes da Embraer chegaram a anunciar que a empresa fecharia a fábrica de Harbin, no Nordeste da China, com 4,5 milhões de habitantes. O maior contrato de venda, com a também chinesa Hainan Airlines, revelou-se um pastel de vento.

O acerto previa a entrega de 50 aviões para 50 passageiros, de fabricação local, e outros 50 aviões de 100 lugares, importados do Brasil. Mas a Hainan cortou pela metade a encomenda dos aviões fabricados na China e o governo chinês começou a impor dificuldades para a concessão das licenças de importação do modelo maios. Revela-se agora que a China decidiu fazer sua própria empresa fabricante de aviões, considerando a parceria sino-brasileira como concorrente.

Não pensem que a história chinesa da Embraer seja um caso incomum na economia chinesa. É muito mais a regra.

Nem por isso os capitais deixam de afluir, com grande sofreguidão, diga-se de passagem, para o mercado chinês.