terça-feira, outubro 08, 2013

Governo medíocre para um país selvagem

Adelson Elias Vasconcellos

As manifestações dos professores no Rio de Janeiro, já afirmei aqui, fazem parte da estratégia dos partidos alinhados à Lindenberg  Farias que tentam,  com sua política do quanto pior melhor, ganhar terreno rumo ao Palácio Guanabara, em 2014. A penetração e influência que exercem, sobre o sindicato dos professores, partidos merrecas com o PSOL, PSTU, PC do B, todos iluminados pelo comando decrépito do PT,  pode ser avaliado pelos resultados que esta triste influência produziu na educação brasileira. Estamos entre as 35 piores nações em termos de qualidade de ensino. 

Esta influência dos partidos de esquerda vem de longa data e, pelo que se percebe, quanto mais forte esta influência, mais a educação decaiu em qualidade, e mais ainda os professores foram sendo desvalorizados. Só não percebe esta  decrepitude quem não quer ou está tomado pela má fé, fruto do mau caráter.

Em São Paulo, o quadro, infelizmente, não é diferente. É uma aberração ver o quanto boa parte imprensa insiste com um discurso que, até aqui, apenas serviu como motivação para  ações violentas se repetirem com uma frequência cada vez maior. As imagens desta selvageria impõem uma questão que permanece em aberto: cadê a justiça brasileira, que insiste em manter fora da cadeia, estes bandidos urbanos que querem apregoar como direito sua índole bandida?  Bem, por enquanto, esqueça-se o Judiciário, mais preocupado em erguer bilionários e faraônicos palacetes,  além de cuidar do próprio umbigo, isto é, em refestelar-se em um número cada vez maior de privilégios indecentes. 

Qualquer manifestação que sirva como polo de atração à bandidagem perde seu foco,  perde sua pretensão de ser legítima, de ser pacífica. A simples aproximação destes vagabundos mascarados, (o que revela o quanto são covardes), já deveria servir como pretexto para a manifestação desfazer-se. Mas, qual, quanto mais baderna, mais a turba se alvoroça!!!

Nenhuma educação se qualificará se não tomar o caminho do mérito. O Brasil, em tempos de governos petistas, está jogando no lixo este indispensável valor, o esforço individual, para premiar o vagabundismo sem vergonha, sem esforço, sem trabalho. Todas as tais bolsas criadas pelo governo federal petista se encaminham nesta direção. Várias vezes, comentando e dissecando estes “programas”,  questionei: trabalhar para quê? 

O caso específico que se debate no Rio de Janeiro é exemplo típico de uma classe que, infelizmente, vendeu sua alma ao diabo e perdeu a noção do ridículo e jogou o bom senso na lata do lixo. Sequer esta maioria de “manifestantes” se deu ao trabalho de ler o projeto de cargos e salários que foi aprovado pela Câmara.  Seguem o toque do flautista, conduzidos feito manadas, sem ter a menor noção para aonde pretendem  ir. 

O doloroso é que, mesmo que a ignorância tome conta do pensamento da categoria, tais manifestações de protestos, que deveriam ter o tom de “democráticas” tem se transformado, regra geral, em motivações para a anarquia, baderna, violência, quebra-quebra, vandalismo, banditismo.  Em razão disto tudo, tais “manifestações” há muito deixaram de ser democráticas, direitos e garantias dos indivíduos que a Constituição garante. Democracia nunca rimou nem fez par com anarquia. E é com anarquia que  tais movimentos tentam no grito,  fazer valer sua voz. Ao invés de direitos constitucionais, mais se enquadram em crimes previstos no código penal. 

Só que tal quadro de pura selvageria revela a brutal ausência de valores num país que vai perdendo o senso de civilidade, conduzido que tem sido pelo bastião da ignorância, da baderna, da mediocridade.  O governo Lula e, principalmente, o  de Dilma, tem sido  medíocres ao extremo, e se algum progresso o país tem conseguido obter o é muito mais por razões externas do que domésticas.

Voltem no tempo e tentem recapturar e comparar a qualidade dos serviços públicos de agora com os de 10 anos atrás.  No campo da segurança pública, por exemplo, é impressionante a escalada da violência em todas as regiões do país, principalmente na região nordeste. A saúde pública decaiu a níveis indignos. A infraestrutura sumiu faz tempo. E a educação, apesar das bilionárias cifras que dizem empregar, não consegue avançar e, em alguns casos, até piorou. Basta ver  que 38% dos universitários são semi-alfabetizados. Criar a esmo universidades  pelo país, sem que se dê atenção à qualidade do que se vai ministrar, sem se ter uma atenção mínima às necessidades do país em termos de profissionais de alto nível, é jogar dinheiro público no lixo, servindo apenas para colorir o discurso populista e demagógico.

Não é de hoje que a educação brasileira é maltratada em  toda a sua extensão, tanto pelo poder público (que, de fato, não tem o menor interesse em formar um povo culto), como pelos profissionais de ensino, como ainda pela própria sociedade que acha que, qualquer malandro com certo dom de esperteza, pode vencer na vida, quanto mais se ele descambar para a vida pública.

Desde as manifestações de junho, venho afirmando que não será estranhável a reeleição de Dilma Rousseff em 2014. Num país de bárbaros e selvagens, não pode surpreender que se reeleja um governo medíocre  como o da senhora Rousseff.  Por conta deste ciclo petista, de prováveis 16 anos de poder, o Brasil demandará ao menos duas a três gerações para expurgar as porcarias incrustadas tanto na vida privada quanta na atividade pública. E assim mesmo, exigirá de todos enormes sacrifícios para vencer a estupidez estabelecida.   

Infelizmente, as alternativas são fracas demais, com influência menor ainda para vencer as barreiras que o  pensamento refratário ao modernismo se instalou, seja na intelectualidade, seja na própria imprensa, seja  até no meio artístico. 

Marina, comentando suas dificuldades para o registro de seu partido na semana passada, citou o bolivarianismo petista na política brasileira, implementada pelo PT. Deveria ter reclamado deste processo quando esteve no governo,  e foi coadjuvante deste processo.  Seu discurso, em que tenta se apartar do processo político do qual fez parte durante anos, soa insípido, indecoroso, falso, demagógico.  Até porque, apenas criticar o processo do qual fez parte e atuou a favor, sem apresentar um projeto alternativo que restitua ao país e à vida nacional boa parte dos valores que se destruiu, é oferecer nada à coisa alguma. 

O Brasil, impossível não reconhecer,  não apenas está mergulhado num festival de insensatez, como dorme e acorda abraçado aos progressistas do atraso. O sonho de um país melhor, mais civilizado, mais moderno e até mais justo torna-se, a cada dia, um futuro cada vez mais distante.  É o preço a pagar por um povo selvagem haver escolhido, como governo,  o pensamento medíocre de que se alimenta.

Imaginem se a gente for tentar compreender o que se passa na velha política brasileira! Reina ali o império da promiscuidade mais imoral e abjeta que se possa imaginar. O interesse público sumiu de vez. Ali se vendem votos, consciência, até a própria dignidade. São seres completamente distantes de seu verdadeiro papel. Independência de poderes? Só rindo da piada!!!! Aqui, república abriga apenas o clube privilegiado dos cafajestes que fazem politicagem mercantilista.  São os gigolôs da Nação.

Numa democracia, os meios jornalísticos tem o sagrado direito de informar, de mostrar os fatos, de exibir os acontecimentos, tanto faz se bons ou ruins. Porém, a atividade fica um pouquinho maculada quanto desvia a rota para a pilantragem. É o que se vê de parte de muitos em relação à bandidagem correndo solta em São Paulo e Rio. Trata os bandidos, no caso os baderneiros e vândalos,  que não respeitam a propriedade, seja ela pública ou privada, como poetas da democracia e as forças de segurança, a quem cabe, por definição, guardar a paz e a ordem de todos os cidadãos, como estafetas do mal, corporação que deveria ser varrida da face da terra.  Aí, já adentramos no campo da pilantragem jornalística e é ela, precisamente, com tamanho desvio, quem mais dá incentivo para que as “manifestações” possam acontecer cada vez com mais violência.       

O governo da senhora Rousseff tem se incomodado com atividades de bisbilhotagem estrangeira sobre nosso país. Porém,  faz a leitura errada duplamente: de um lado, deveria era tomar medidas para precaver-se para evitar que intrusos vasculhem “nossas políticas estratégicas”. E de outro, deveria saber que, lá fora, estão preocupados  não com nossas virtudes e riquezas, e sim com a nossa abissal incompetência. Ninguém consegue entender como um país tão rico, com tantas e infinitas possibilidades para progredir e avançar,  faz opção pelo caminho inverso e,  ainda assim, com tamanho retrocesso, consegue convencer seu povo de que a estupidez é melhor do que a civilidade.  Sem dúvida, eles querem é descobrir o segredo da nossa incompetência!!!!  

Só não consigo definir o que é maior, se minha indignação com o Brasil que temos inversamente proporcional ao que poderíamos  ter, ou a vergonha de sentir os descaminhos que teimamos em trilhar.  Talvez uma seja mera consequência da outra.

Cazaquistão à parte, o inferno são os outros

Rolf  Kuntz
O Estado de S.Paulo

O Corinthians e o governo brasileiro puderam, enfim, comemorar pelo menos uma vitória na primeira semana de outubro. O Itamaraty conseguiu a adesão da Chancelaria cazaque à campanha pela regulamentação da espionagem. Em visita a Brasília, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Cazaquistão, Erlan Idrissov, foi persuadido a assinar uma declaração contra "as práticas de interceptação ilegal de comunicações e dados de cidadãos, empresas e membros de governos por governos e empresas estrangeiras". Ele se dispôs também a cooperar em foros multilaterais para o "desenvolvimento de governança internacional apropriada para a segurança cibernética". Esse compromisso aparece no 18.º dos 21 itens da declaração conjunta divulgada na quarta-feira, várias horas antes dos 2 a 0 do Timão contra o Bahia. Na maior parte da semana, no entanto, a presidente Dilma Rousseff e sua equipe tiveram maior dificuldade nos esforços para conquistar confiança em seus planos e realizações.

Excetuado o Cazaquistão, é preciso dar razão a Sartre. O inferno são os outros, a começar, nos últimos dias, pela agência Moody's de classificação de riscos. Mas, pensando bem, nem o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com seus péssimos indicadores de desempenho econômico, tem sido muito cooperativo. Na Argentina, os Kirchners tiveram problema semelhante com o Indec, mas cuidaram do assunto à sua maneira, recauchutando o sistema público de estatísticas e proibindo a divulgação de números menos favoráveis por instituições privadas.

No Brasil, é bem mais simples a vida dos analistas econômicos dos mercados, da imprensa e das agências de classificação de riscos. Os números oficiais são em geral confiáveis e até as lambanças, como a maquiagem das contas públicas, são identificáveis sem muita dor de cabeça. No caso da inflação, também é fácil apontar as tentativas de administrar os índices - práticas sem mistério, como controlar os preços dos combustíveis e reduzir politicamente as tarifas de eletricidade e de transporte público. No fim, os truques e problemas acabam convergindo. O Tesouro foi autorizado a emitir mais títulos da dívida, no valor de R$ 2,3 bilhões, para cobrir os custos do voluntarismo na área da energia elétrica. É mais um acréscimo a um endividamento de escassa utilidade para o fortalecimento e a expansão da economia, como a maior parte do dinheiro transferido pelo Tesouro aos bancos federais desde o começo da crise - estimado em torno de R$ 400 bilhões.

Bem conhecidos, todos esses dados afetam a credibilidade do governo e prejudicam as apostas na economia nacional. Essas e outras informações foram mencionadas, nesta semana, quando a Moody's anunciou a mudança da perspectiva da dívida soberana de positiva para estável - na prática, uma espécie de advertência, embora o vice-presidente da agência, Mauro Leos, tivesse rejeitado essa interpretação. Sem melhora significativa, no entanto, será difícil evitar um rebaixamento, admitiu o economista.

As justificativas divulgadas pela Moody's são um bom resumo das avaliações correntes fora do governo, sustentadas por muitos analistas e classificadas pela presidente Dilma Rousseff na categoria do "pessimismo adversativo". A economia cresce pouco, o governo usa a contabilidade criativa, o investimento é insuficiente, as contas externas pioram e a dívida bruta é muito maior que a encontrada em outras economias emergentes: cerca de 60% do produto interno bruto (PIB) no Brasil, enquanto permanece em torno de 35% em países de desenvolvimento semelhante.

No mesmo dia, em Washington, a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, apresentou um panorama da transição da crise para o pós-crise em todos os grandes grupos de economias. Sem mencionar muitos detalhes, chamou a atenção para as pressões inflacionárias no Brasil, na Indonésia e na Rússia e mencionou o pouco espaço para estímulos fiscais em muitos emergentes. Além disso, apontou o Brasil e a Índia como países necessitados de mais investimentos em infraestrutura e maior abertura comercial.

Não adiantaria, diante do noticiário da semana, denunciar essa fala como mais uma prova da perversidade do FMI. Os jornais continuam mostrando as dificuldades e os tropeços da política de infraestrutura, o IBGE informou crescimento nulo da produção industrial em agosto, depois de uma queda de 2,4% em julho, e o Banco Central (BC) cortou de US$ 7 bilhões para US$ 2 bilhões o superávit comercial projetado para o ano. Além disso, as novas projeções indicaram crescimento anual do PIB de apenas 2,5% até o segundo trimestre de 2014 e inflação de 5,5% até o terceiro de 2015. Mas, segundo disse em Londres o presidente do BC, Alexandre Tombini, a inflação está controlada e converge para a meta, 4,5%. Há algum prazo para essa convergência?

Não se pode cobrar do PT, dizia o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a correção de problemas acumulados desde o Descobrimento. Em outras ocasiões, sua referência foi a História da República. Gente do governo tem citado, recentemente, a escassez de investimentos em infraestrutura nos últimos 40 anos. Pessoas mais moderadas mencionam três décadas.

Mas o partido está no poder há 11 anos e seu balanço de realizações é abaixo de pífio, quando se trata de reformas complicadas (a tributária, por exemplo), de qualidade da gestão e de medidas para tornar a economia mais eficiente e com maior potencial de crescimento.

Fidelíssima a seu criador, a presidente Dilma Rousseff manteve as piores práticas do período Lula, incluídos o loteamento e o aparelhamento da administração federal e as intervenções voluntaristas. O rebaixamento da classificação da dívida de longo prazo da Petrobrás, outra decisão da Moody's, é uma das consequências. Ninguém, na equipe do Planalto, havia notado esse risco?

São coisas nossas.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Os magistrados votaram contra Marina Silva e lamentaram o voto que tinham acabado de dar. Pediram desculpas porque, sabe como é, tinham de cumprir a lei. 

Marina Silva disse que seu partido, apesar da derrota, venceu: "Se não temos o registro legal, temos registro moral perante a sociedade brasileira". Lembra Cláudio Coutinho, técnico da Seleção que perdeu a Copa da Argentina e proclamou o Brasil campeão moral. Mas a taça ficou com los hermanos.

Enfim, é verdade que a Rede de Marina, mesmo derrotada, é um fato político real; é verdade, também, que os juízes, apesar das desculpas, cumpriram rigorosamente a lei. Nem Marina nem os juízes estão errados. Errada está a lei.

Só há um motivo para que tribunais decidam se um partido pode ou não ser criado: o dinheiro público. O Tesouro paga aos partidos para que existam, dá-lhes de presente horários caríssimos, em todo o país, na TV e no rádio; em troca, o Estado impõe leis que disciplinam a organização partidária. Imaginemos que se inverta a equação: que os partidos surjam livremente, reunindo quantas pessoas quiserem formá-los (uma? Que seja uma!), e paguem suas próprias despesas, sem nada de dinheiro público. O filtro caberá ao eleitor, que escolherá quem deve ou não ocupar cargos eletivos. E que haja uma cláusula de barreira - como o que existe em outros países do mundo, normalmente de 5% dos votos - para impedir que legendas que só servem para atrapalhar se aboletem no Parlamento.

Funciona assim em outros países. Mas quem quer desistir das tetas oficiais?

Os sonhos
Marina e sua equipe não conseguiram cumprir as formalidades burocráticas porque confundiram declarações de apoio com fichas regularmente assinadas e corretamente encaminhadas. É como achar que amigo do Facebook é amigo. 

É como pensar que quem ganha no Banco Imobiliário fica rico na vida real.

A realidade
Já a turma do trabalho duro e obscuro montou o Pros e o Solidariedade. Trabalharam na letra da lei. E seus sonhos, convenhamos, não são os de Marina.

O comentário
O deputado federal Domingos Dutra, do PT maranhense, saiu do partido porque não aguentava mais o suplício de conviver com a família Sarney. Entrou no Solidariedade, de Paulinho da Força. 

Um dia Domingos Dutra irá descobrir que realizar seu sonho nem sempre é a melhor coisa que lhe pode acontecer.

A primeira vez
O prefeito petista de São Paulo, Fernando Haddad, disse que foi ao trabalho de ônibus, na quinta. Louve-se a discrição do prefeito: ninguém viu, ninguém comentou, não houve fotos, se ele não contasse ninguém ficaria sabendo. E a linha que disse ter tomado não existe. 

Mas, tirando isso, vale a pena imaginar como Sua Excelência, sempre tão engomado, viveu sua primeira experiência no nosso transporte coletivo. Observou que a criadagem de seus companheiros de ônibus é muito mal treinada: as roupas estavam muito mal passadas. Alfaiates e costureiros também não eram dos melhores: o caimento e o ajuste dos trajes deixavam a desejar. O serviço era insatisfatório: o chofer não usava luvas nem paletó, e sequer se deu ao trabalho de descer para abrir-lhe a porta. O garçom que fica perto da catraca, além de não ir até ele para levar-lhe a conta, resmungou ao receber a nota de cem. Cartão de crédito internacional, nem pensar!

Muita novidade. Mas com algo ele estava habituado: o veículo era Mercedes.

O cordão de sempre
Antônio Ferreira Pinto, ex-secretário da Segurança do governador paulista Geraldo Alckmin, filiou-se ao PMDB, que se opõe ao tucano Alckmin. Mas tudo se encaixa: após deixar o Governo, Pinto foi contratado pela Fiesp. O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, seu novo patrão, é o candidato do PMDB ao Governo. 

Mais coisas nossas
Na última coluna lembramos o caso da menina de 15 anos, do Pará, enfiada numa cela com 20 homens e lá deixada por 26 dias, durante os quais foi estuprada mais de cem vezes. Veja a coincidência: por pouco a juíza que mandou prendê-la numa cela cheia de homens não virou chefe da Vara de Crimes contra Crianças e Adolescentes em Belém do Pará. A nomeação chegou a ser publicada no Diário Oficial, na quinta; mas, alertado pela Comissão de Direitos Humanos da OAB paraense, o Tribunal de Justiça cancelou a promoção da juíza. Escapamos!

Mais coisas nossas
O Brasil tem jabuticaba, tem Justiça Eleitoral, tem réu condenado julgando o tribunal que o condenou, tem sistema de TV colorida que é único no mundo, tem um tipo de tomada que, diria o poema, só existe mesmo por cá. E tem o Ministério da Fazenda ensinando emissoras de TV a promover sorteios. 

Por exemplo, as tevês precisam comprovar que os prêmios têm sustentabilidade, seja lá isso o que for. Se os sorteios forem vinculados a marcas (como o Avião do Faustão), precisarão por algum motivo ser autorizados pela Caixa. E as cartas de concorrentes ao sorteio só poderão participar se o envelope for pardo ou branco e medir entre 9 e 14 cm de largura, e entre 14 e 23 cm de comprimento. 

Por que? Porque sim. 

carlos@brickmann.com.br 
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O que as pessoas querem

Carlos Alberto Sardenberg
O Globo

Esses médicos podem não resolver, mas também não fazem piorar o sistema. O problema é ficar nisso

Três coisas mudaram profundamente o Brasil, e para muito melhor: a Unidade Real de Valor, estranha criação de economistas, que preparou a introdução do Real; as privatizações (telecomunicações, siderurgia, mineração, petróleo, estradas); e a Lei de Responsabilidade Fiscal, com regras e limites ao gasto público.

“Houve passeatas pedindo isso? Nenhuma. As pesquisas apontavam para isso? Não. O que houve foi liderança, uma capacidade de apontar rumos e uma articulação eficiente para aprovar o que tinha que ser aprovado no Congresso e implementar o que dependia da ação de uma tecnocracia eficiente”.

Essa é a observação muito pertinente do economista Fábio Giambiagi, em entrevista publicada no jornal “Estado de S.Paulo”, no último domingo. Aponta para um problema crucial nos dias de hoje: a falta de lideranças que… liderem, ou seja que não se guiem apenas pelo que os marqueteiros propõem a partir de pesquisas de opinião. Ou de manifestações populares.

Claro que pesquisas e manifestações são sinalizações importantes. Mas elas não conduzem diretamente a políticas. E, não raro, pedem providências contraditórias. Por exemplo: todo mundo reclama dos impostos que pagamos e todo mundo pede mais e melhores serviços públicos, que exigem mais gastos.

A maior bronca da população, indicada em pesquisas e nas redes, está nos serviços de saúde, especialmente os públicos. Há reclamações, e muitas, contra os planos e seguros privados, mas parece claro que a população absorveu aquilo que a Constituição diz — saúde é direito de todos e dever do Estado. Resumindo: que todo brasileiro tem o direito de ser atendido a tempo, de graça, por bons médicos, em bons hospitais e postos de saúde ou em casa mesmo.

Não é fácil entregar isso. Estudos abundantes mostram as dificuldades do setor, que estão, sim, na falta de mais dinheiro, mas, principalmente, na baixa produtividade. Com o dinheiro atual, daria para fazer mais e melhor.

Mas isso exige, por exemplo, regras de gestão baseadas no mérito, na avaliação frequente da eficiência, prêmios para os competentes e punições, incluindo demissões, para quem não cumpre as metas. Dá para medir a eficiência de um hospital e seus funcionários? Dá e é bastante fácil, seja o hospital público ou privado.

Difícil, no setor público, é introduzir sistema e metas. Sindicatos de funcionários certamente vão reclamar — como sempre reclamaram — de modo que há um custo político nessa mudança.

Mas será que os funcionários são todos vagabundos e incompetentes? Está claro que não.

É verdade que muita gente prefere um emprego mediano, com salários medianos, sem ganhos expressivos, mas também sem risco de demissão ou de cobrança. Para os líderes sindicais, é mais fácil defender um sistema que iguale todos, ainda que por baixo, do que um modelo de ganhos e riscos. É nesse quadro que os sindicatos se dedicam basicamente a pedir reajustes salariais, sempre limitados dada a restrição dos recursos. O resultado é um médico e um enfermeiro competentes e que trabalham pesado — e ganham a mesma coisa que aqueles que mal aparecem no serviço.

Coloque aqui professores, policiais, funcionários em geral — e vai-se encontrar um quadro parecido.

Quer dizer, então, que não tem jeito? Tem. Experiências diversas, aqui e lá fora, e o simples bom senso sugerem que a maioria dos trabalhadores, no setor público ou privado, topa um sistema de meritocracia, desde que explicado e implantado com argumentação e num ambiente pacífico. Só que dá trabalho e exige verdadeira liderança, inclusive uma que corra riscos.

É mais fácil inventar o Mais Médicos. Quem pode ser contra a colocação de médicos em lugares que não tinham esse profissional? É claro, porém, que um punhado de médicos — dez mil que sejam — não vai fazer diferença num universo de mais de 350 mil, o número desses profissionais atualmente trabalhando no Brasil. E nem que sejam altamente capacitados serão capazes de superar a falta de estrutura e de recursos verificada nos lugares mais necessitados.

Mas dá para fazer uma festa na chegada de 150 cubanos, com uns bons pontinhos na pesquisa. Parece que o governo está fazendo alguma coisa. Digamos que tudo bem. Um pouquinho de marketing não faz mal, não é mesmo? Esses médicos podem não resolver, mas também não fazem piorar o sistema.

O problema é ficar nisso. Assim como congelar tarifas é a reação mais fácil e mais popular — e a menos eficiente diante da bronca com os serviços de transporte. Assim como eliminar pedágios é a resposta mais demagógica e marqueteira, no mau sentido, quando as pessoas reclamam do estado das vias públicas.

Eis o ponto: protesto, já temos, ainda bem. Faltam-nos lideranças, à esquerda e à direita, que saibam responder mesmo a broncas ocultas.

‘Ciudadanos de segunda’

 Percival Puggina

Quando foi anunciada a importação de médicos cubanos pelo Brasil eu escrevi um artigo antecipando as condições do negócio. Fui prontamente contestado por jornalistas e leitores palpiteiros que me recomendavam a leitura esclarecedora da Medida Provisória que instituiu o programa Mais Médicos (MP do MM). Como se eu não a tivesse lido! No entanto, toda pessoa bem informada sobre como se passam as coisas por lá sabe que os irmãos Castro impõem aos nativos a condição de “ciudadanos de segunda”, como eles mesmos se lamentam. Portanto, os cubanos seriam os únicos aos quais não teriam validade as disposições relativas a remuneração e benefícios.

A vinda dos médicos serviu para mostrar, então, a inteira malignidade do sistema aplicado em Cuba. E evidenciou o quanto é intelectualmente desonesta aquela parcela da esquerda brasileira que, aconteça o que acontecer, se apresenta sempre disposta a defender a involução cubana (involução, sim, porque nada restou de revolucionário no cotidiano do povo, exceto a mão grande e o braço pesado do Estado).

Tratados como cidadãos de segunda, os cubanos não podem trazer suas famílias. Alegoricamente, a MP do MM permite a vinda de cônjuges e filhos dos médicos que aderem ao programa. É o que todos farão, se quiserem. Mas os cubanos não o farão mesmo que queiram porque os Castro não deixam. Os demais conservarão consigo os próprios passaportes. Os cubanos certamente só os tiveram em mãos para passar nos guichês da imigração, e permanecerão reclusos nos locais onde foram designados, submetidos a uma chefia própria, não oficial, mas com enorme poder de constrangimento. Todos os demais receberão seus R$ 10 mil mensais e deles disporão como bem entenderem. Mas o valor relativo aos cubanos irá para a tesouraria dos Castro.

Os infelizes ficarão com cerca de 10% porque esse é o valor adotado pelo patrão comunista em suas locações de recursos humanos. Noventa por cento para os donos! É uma partilha tão gananciosa que as autoridades brasileiras, indagadas sobre quanto os cubanos efetivamente iriam receber, mesmo cientes de estarem mentindo, tentavam esconder o próprio constrangimento e falavam em algo entre 25% e 40% dos tais R$ 10 mil. Só o fato de não saberem já é caso de polícia. Que raio de negócio é esse, excelentíssimas autoridades da República?

Escrevo este artigo porque acabo de receber mensagem de um cubano exilado no Brasil que confirma tudo que venho dizendo. Em Cuba, esses médicos receberiam o equivalente a US$ 30 por mês. No Brasil, receberão US$ 300 para suas despesas pessoais. Dessas contas, meu correspondente conclui que o governo brasileiro ganha muito com o efeito eleitoral da medida. E o governo cubano lucra muito, em espécie, para financiar a repressão sobre a Ilha com dinheiro tomado dos médicos. Vítimas e vigaristas perfeitamente identificados. Caso de polícia.

Meu correspondente, o periodista de Cuba Libre Digital Jorge Hernández Fonseca, afirma que o Brasil está substituindo a Venezuela como financiadora da ditadura cubana enquanto Cuba favorece o projeto petista de reeleição em 2014 com o envio de seus médicos para locais desassistidos do território brasileiro. É tudo política e geopolítica. Se fosse zelo para com a saúde pública esse programa deveria ter nascido 10 anos antes. E o governo teria estimulado o surgimento de escolas de Medicina há muito mais tempo.

Por fim, creio indispensável abordar outra questão a respeito da qual, até agora, não se tratou. Todos os cubanos que estão entrando no Brasil são médicos e vêm para o programa Mais Médicos? Não tenho como provar, mas o simples uso da razão aplicado ao que sei sobre a realidade cubana me permite perguntar se são realmente médicos todos os que nesses dias passam pela imigração como participantes do MM. Não haverá, entre eles, pagos por nós, agentes cubanos enviados com outras finalidades? Uma como feitores (para usar a palavra adequada), incumbidos de controlar a atividade profissional e a conduta dos infelizes e discriminados cubanos? E outra como agentes políticos, para colocar os médicos a serviço das pautas do Foro de São Paulo em nosso país?

A praga

Denis Lerrer Rosenfield
O Estado de S.Paulo

A burocracia é uma verdadeira praga na vida do brasileiro. Até morrer se torna difícil, dados os trâmites burocráticos que envolvem o falecimento de uma pessoa. Um cidadão, quando comparece a um guichê público, enfrenta filas, frequentemente descaso, e deve preencher um monte de requisitos, alguns simplesmente duplicados, porque outro órgão público já tem a informação. Uma prefeitura, por exemplo, exige do cidadão uma informação que outro departamento da mesma prefeitura já detém. Isso vale igualmente para as esferas estaduais e federal.

Perde-se, assim, a noção, absolutamente central, de que a burocracia deveria ser um instrumento de atendimento a reivindicações e demandas dos cidadãos, ajudando-os a dar conta de trâmites administrativos. Por definição, estes deveriam ser simples, precisamente para simplificar a vida de todos. Burocracia é meio, instrumento, não um fim em si mesma. Há aqui envolvido todo um conceito de cidadania e de relação da sociedade com o Estado. Não se trata de algo trivial, mera questão secundária, mas de algo que se situa como central na vida de cada um. No melhor sentido da palavra, a questão é política, por dizer respeito ao modo de relacionamento da pessoa com a coisa pública.

A burocracia não deveria ser um instrumento alienante, que afasta o indivíduo do cumprimento de suas obrigações, em boa parte dos casos por absoluta falta de possibilidade de atendê-las. Não espanta, pois, que a informalidade seja tão grande em nosso país. E isso se deve a que a formalização para muitos é um verdadeiro calvário.

Nesse sentido, deve ser muito bem-vindo o projeto em curso da Secretaria da Micro e Pequena Empresa, conduzida pelo ministro Guilherme Afif Domingos, de levar para esse setor do empresariado todo um processo de simplificação de sua vida. O Simples, sendo redundante, deveria ser simplificado! Normalmente, dever-se-ia simplificar o complexo, mas essa não é a realidade para esses empresários - e para o empresariado em geral. O aparente paradoxo não deixa de ser significativo.

Observe-se, preliminarmente, que esse setor da economia nacional abrange 7 milhões de unidades de negócio. Se a modernização administrativa for introduzida para os pequenos e microempresários, liberando-os das pesadas cargas burocráticas, poderia ser criado um emprego por empresa, impactando em torno de 22% a taxa de emprego privado no País. Considerando, ademais, que o emprego de uma pessoa envolve toda uma família, digamos, quatro pessoas, tal iniciativa poderia atingir 28 milhões de pessoas, transformando a vida delas.

No estágio atual, vigora nesse setor um tipo de economia mercantilista, com as pessoas tendo seus pés amarrados aos grilhões da regulamentação burocrática. O avanço a ser feito consiste numa liberação rumo à economia de mercado propriamente dita e, mais precisamente ainda, uma economia de tipo digital.

O artigo 179 da Constituição federal já prevê a simplificação para esse setor nos domínios administrativo, tributário, previdenciário e creditício, garantindo-lhe tratamento diferenciado. Mas no momento de fazer valer a Lei Magna com frequência depara com leis e regulamentações administrativas que terminam invalidando ou criando sérios obstáculos ao que é constitucionalmente garantido.

Há mesmo casos em que governos estaduais, para abastecerem seus cofres, fazem normas complementares que impedem que valha o que uma lei federal assegura, caso da substituição tributária. Ou seja, os benefícios do Simples Nacional são praticamente anulados na esfera burocrática estadual. Há uma espécie de lei aqui envolvida: a toda desburocratização sucede uma nova burocratização, como se o ganho da livre-iniciativa devesse ser contrabalançado com sua anulação. É a lei brasileira da gravitação burocrática!

Outra proposta que está sendo apresentada trata da efetiva universalização do Simples, que passaria a valer não só para um tipo de atividade, mas para todas as atividades econômicas, sendo limitado apenas pelo porte das empresas. O setor de serviços, no caso, passaria também a ser contemplado, fazendo justiça a todo um setor importante e dinâmico da economia nacional. Se um empresário fatura até R$ 3,6 milhões, estaria imediatamente incluído no Simples, pois o que conta é o tamanho.

Outro ponto igualmente relevante consiste na concessão de crédito para bens de produção, poderoso instrumento de alavancagem de empresas. Sem investimentos uma empresa não cresce nem pode modernizar-se, numa economia mundial concorrencial e em constante mutação tecnológica. Acontece que, em nosso país, o crédito é privilegiadamente direcionado para bens de consumo. Um carro, uma televisão e um fogão, por exemplo, contam com condições de crédito que se podem estender por vários anos. Agora, investir numa máquina, nova ou usada, exige pagamento à vista. Não há economia que possa avançar, com força e progressivamente, com esse tipo de contrassenso.

A abertura e o fechamento de empresas, fundamentais numa economia dinâmica, não poderiam estar submetidos às vicissitudes de uma teia burocrática que tudo captura e imobiliza. Se um empresário informal procura formalizar-se, acaba caindo numa rede de cartórios e certidões, onerando sua atividade e fazendo-o perder um tempo precioso. Surge, então, o medo da formalização, sentimento contrário ao de um verdadeiro empreendedorismo. Trâmites poderiam, por exemplo, ser centralizados na Junta Comercial, em processo transparente e digital, válido para todos os órgãos públicos. O cidadão seria contemplado e a economia nacional se beneficiaria.

O que está em questão é se o Brasil vai ou não se dirigir rumo à efetiva concretização de uma economia de mercado, da livre-iniciativa e da liberdade de escolha, ou se prefere continuar refém de sua tradição cartorial.

As campeãs nacionais de desastres

Elio Gaspari
O Globo

Em 2007, o BNDES ressuscitou o zumbi da anabolização de empresários amigos e anunciou que o governo queria criar um núcleo de “campeões nacionais”, inserindo-o no mundo das grandes empresas mundiais. Nesse lance, botou perto de R$ 20 bilhões em empresas companheiras.

Numa mesma semana, dois fatos mostraram o tamanho do fracasso dessa política. O conglomerado da OGX, produção megalomaníaca de Eike Batista na qual o BNDES financiou R$ 10,4 bilhões, está no chão. A “supertele” Oi, produto da fusão pra lá de esquisita e paternal da Telemar com a Brasil Telecom, tornou-se uma campeã nacional portuguesa, fundindo-se com a Portugal Telecom. Em 2010, o BNDES e os fundos de pensão tinham 49% da empresa. A nova “supertele” nasce com uma dívida de R$ 45,6 bilhões. Novamente, receberá recursos do BNDES e dos fundos companheiros. O ministro Paulo Bernardo, das Comunicações, garante que essa fusão é uma “estratégia”. Vá lá, desde que ele acredite que o Unibanco fundiu-se com o Itaú.

A carteira de ações do BNDESPar caiu de R$ 89,7 bilhões em 2011 para R$ 72,8 bilhões em 2012. A campeã do ramo de laticínios chamava-se LBR e quebrou. A Fibria, resultante da fusão da Aracruz (chumbada) com a Votorantim, atolou. O frigorífico Marfrig tomou R$ 3,6 bilhões no banco e acabou comido pela JBS, cujos controladores movem-se num perigoso mundo onde convivem a finança internacional e a política goiana. Já o Bertin teve que ser vendido logo depois de o BNDES entrar na empresa. (Até 2013, esse setor recebeu a maior parte dos investimentos do BNDES.)

O BNDES anunciou há meses que abandonou a estratégia da criação dos campeões nacionais. Falta só explicar quanto custou, quanto custará e que forças alavancaram os afortunados. Essa tarefa será fácil para alguns petistas e para o doutor Luciano Coutinho. Eles conhecem a história do banco.

A Viúva na farra da feira de Frankfurt
Sempre é o caso de se repetir a lição do embaixador Azeredo da Silveira: “Tem gente que atravessa a rua para escorregar na casca de banana que está na outra calçada.” O Ministério da Cultura e a Biblioteca Nacional meteram-se com uma farra na feira de livros de Frankfurt e comprometeram R$ 18,9 milhões da Viúva para custear a homenagem que o país receberá. Trata-se de um evento de negócios que começa quarta-feira, dura uma semana, mas estará aberto ao público por apenas dois dias. Para ele convidaram 70 escritores, à custa da Boa Senhora. Ganha uma viagem a Cuba quem souber a importância de uma homenagem na Feira de Frankfurt para quem paga imposto em Pindorama, onde a Biblioteca Nacional, arruinada, não abre aos domingos e nela é vedado o uso de canetas. Recarga para o laptop, só num restaurante próximo.

Em 2000, quando o governo de FH torrou R$ 14 milhões na Feira de Hannover, comemorando os 500 anos do Descobrimento, o procurador Luiz Francisco de Souza acusou a empresa que montou o pavilhão brasileiro de improbidade. Se os empresários do mercado editorial brasileiro precisassem da homenagem da feira, poderiam recebê-la, com o dinheiro deles. O setor está grandinho. Faturou R$ 5 bilhões em 2012, e nele há administradores sagazes. Em 2012, o Brasil importou 13,5 mil toneladas de livros mandados imprimir na China. Afinal, custam a metade. Dão emprego a chineses e, com o dinheiro dos brasileiros, festejam-se na Alemanha.

Às vésperas da feira, viu-se que foram contratados serviços sem as devidas licitações, e um jornal alemão lembrou que, entre os 70 escritores convidados, há apenas um negro, Paulo Lins. Apesar disso, o Brasil é apresentado como “um país que se reinventa”. Na sexta-feira, o escritor Paulo Coelho detonou a comitiva da reinvenção.

Tudo bem com Thor
Eike Batista não pagou os 45 milhões de dólares que devia aos seus credores, mas ninguém deve temer que seus dependentes entrem para o cadastro do Bolsa Família. Seu filho Thor, que estava em Miami com a mãe, a atriz Luma de Oliveira, veio para o Rio. Mesmo tendo prestado serviços despiciendos ao grupo OGX, recolheu aquilo a que julgava ter direito.

Tiradentes
Quarenta anos depois do aparecimento do esplêndido “Devassa da devassa”, que recontou a história da Inconfidência Mineira, o professor Kenneth Maxwell voltou às Minas Gerais do século XVIII. Num texto de 57 páginas que serve de introdução à história de um livro que pertenceu a Tiradentes, Maxwell coloca no seu devido contexto a aproximação de inconfidentes com os “americanos ingleses”, notadamente Thomas Jefferson, que era embaixador na França.

Coisa de quem leu tudo e é capaz de ver na articulação dos mineiros não só uma busca de ajuda junto aos subversivos da época, mas um desejo de aproximar os brasileiros do pensamento político e econômico da Revolução Industrial nascente.

Tiradentes e seus pares eram perigosos porque iam atrás das ideias do americanos. Tanto era assim que ele tinha um livro com os textos da Declaração da Independência e as constituições de seis das 13 ex-colônias americanas.

Pela primeira vez, o “Livro de Tiradentes” tem sua íntegra publicada e comentada no Brasil. Até 1860, ele ficou dentro de um saco verde nos arquivos brasileiros. Passou por Santa Catarina e só voltou a Ouro Preto em 1989.

Eremildo, o idiota
Eremildo é um idiota e acha que alguém está com saudade das manifestações de junho.

O Judiciário bloqueou a Rede de Marina Silva por falta de apoio dos eleitores e criou o PROS (ganha uma viagem a Frankfurt quem souber o que ele é) e o Solidariedade (ganha outra viagem quem não souber o que ele é).

Massimo (1978-2013)
Acabou-se o restaurante Massimo, meca da comida italiana e da plutocracia paulistana nos anos 80. Massimo Ferrari, a alma da casa, deixara-a em 2006. O desfecho deu-se por causa de um litígio judicial com os proprietários do imóvel, que se arrastava há anos.

Chafurdando
Em março, aborrecido com uma pergunta do repórter Felipe Recondo, o ministro Joaquim Barbosa chamou-o de “palhaço”, mandando-o “chafurdar no lixo”. Pouco depois, sua assessoria manifestou-se: “Em nome do presidente do STF, peço desculpas aos profissionais de imprensa pelo episódio ocorrido hoje.”

Passados sete meses, Barbosa oficiou ao ministro Ricardo Lewandowski, pedindo que considerasse o defenestramento da mulher de Recondo, lotada na assessoria do colega. Reputou “antiética” a posição da servidora, mas, salvo a relação matrimonial, não apresentou um único fato que amparasse o adjetivo. A senhora é servidora pública concursada desde 2000. Casou-se com Recondo em 2006.

Lewandowski rebarbou a sugestão, e Barbosa recuou.

Tudo bem, Barbosa acha que se podem descarregar sobre as atividades profissionais das mulheres os desconfortos que se gostaria de impor aos maridos.

O que não se entende é o pedido de desculpas de março. Era brincadeira ou agora Barbosa quer um embargo infringente reverso?

Política industrial e o petróleo

Samuel Pessoa
Folha de São Paulo

Os interesses de exploração e comercialização do óleo serão submetidos aos interesses de desenvolvimento da indústria nacional

Na semana passada argumentei que a alteração do marco regulatório do petróleo promovida pela lei nº 12.351, sancionada em dezembro de 2010 e que estabeleceu as novas regras para a exploração na região estratégica do pré-sal, não teve como intenção – como muitos creem, e como chegou a ser argumentado pelo governo – o aumento da receita pública em razão das novas condições geológicas.

O motivo é que a lei antiga apresenta essencialmente os mesmos instrumentos de arrecadação que a nova legislação. Alterações mínimas, possíveis de serem implantadas por meio de decretos presidenciais, teriam sido suficientes.

Assim, fica a questão: por que motivo alterou-se algo que estava funcionando bem?

Meu entendimento é que o objetivo do governo foi dotar o Estado brasileiro de instrumentos que facilitassem políticas de substituição de importação para a maioria dos elos da cadeia da indústria petroleira. Isto se refere tanto a elos à jusante da extração do petróleo (refino, por exemplo), como a montante – toda a indústria de bens de capital ligada à produção de plataformas. Ou seja, a alteração do marco regulatório constituiu uma ação de política industrial.

Dois instrumentos foram utilizados. Primeiro, estabelecer que a Petrobras será operadora única de todos os campos do pré-sal, com 30% do investimento. Segundo, a criação de uma empresa integralmente estatal, que será responsável pela defesa dos interesses da União. Esta empresa não investirá recursos, mas terá metade dos assentos no comitê operacional do consórcio formado pelas ganhadoras do direito de exploração.

Além disso, o presidente do comitê operacional será da nova estatal, de tal sorte que ela terá voto qualificado em caso de empate.

Na prática, as demais empresas participantes do consórcio serão investidores. Entrarão com o capital além dos 30% colocados pela Petrobras, mas terão participação muito menor no conselho que determina os rumos da operação.

Entende-se os motivos das empresas cujo negócio seja extrair petróleo não terem entrado. Elas não são instituições financeiras. O negócio delas é tirar petróleo debaixo da terra ou do mar, não financiar esta atividade.

O desenho regulatório descrito acima, teoricamente, facilita a coordenação entre a exploração e a produção de óleo, de um lado, e o desenvolvimento da indústria, de outro. O fato de a Petrobras ser a operadora única ajuda a que ela celebre contratos de longo prazo com fornecedores locais. Os contratos de longo prazo dão horizonte para que esses fornecedores incorram nos custos iniciais de transferência de tecnologia para a produção local de bens e serviços, insumos da indústria até então importados.

Já o fato de a empresa pública a ser criada ter metade do conselho operacional do consórcio, com voto qualificado, garante que os interesses de exploração e comercialização do óleo serão submetidos aos interesses de desenvolvimento da indústria nacional.

Valeu a pena a alteração? Evidentemente, como dizem os ingleses, a prova do pudim é comê-lo. Teremos que esperar algumas décadas para sabermos. Os resultados iniciais são muito ruins.

A meu ver, o governo Lula, ao propor a alteração, subestimou as qualidades do marco anterior e superestimou seus defeitos. Equívoco inverso cometeu com o novo marco: subestimou os defeitos e superestimou as qualidades. Lembremos que o marco antigo foi responsável por enorme desenvolvimento da indústria nacional petrolífera.

Adicionalmente, parece-me que não se considerou outro custo – que tem que ser pago mesmo se o “status quo” for pior do que a alternativa -, que é o de transição. Estamos há diversos anos sem leilões na região do pré-sal, e, além disso, toda a alteração gerou enormes custos políticos e de gestão para o Estado brasileiro.

Dado os enormes problemas que temos de uma legislação tributária complexa, que atrasa o setor produtivo, e as dificuldades sem tamanho dos serviços públicos de saúde e educação, ter gasto tanto esforço em transformar algo que -por qualquer critério – estava funcionando bem foi péssima alocação dos recursos extremamente escassos do Estado.

'Retrato' do Brasil piorou, mas ainda é positivo. Mas até quando?

Flavia Lima e Tainara Machado
Valor

O retrato do Brasil piorou. Em 2008, ano em que o país alcançou o almejado grau de investimento conferido em abril pela Standard & Poor's, o crescimento econômico do país alcançou expressivos 5,2%, ante projeções que não passam de 2,5% tanto para este quanto para o próximo ano.

Uma olhada em outros indicadores de 2008 - como a dívida bruta próxima do nível atual, de 59% do PIB, ou a taxa Selic de 13,75% ao ano àquela época - mostram que, mais do que o retrato, foram as expectativas com relação ao Brasil que se deterioraram consistentemente, o que levou outra agência de classificação de risco, dessa vez a Moody's, a revisar a perspectiva do rating soberano na quarta-feira à noite. Ontem a agência voltou à carga, revisando a perspectiva de bancos brasileiros e rebaixando a nota de crédito da Petrobras.

O Brasil também não vai bem na comparação internacional. Dados compilados no World Factbook da CIA, de 2012, mostram que o endividamento bruto é significativamente mais alto do que o de países com nota de crédito soberano menor que a brasileira, como Índia e Colômbia. A taxa de investimento do país, que alcançou 20,5% do PIB em 2010, caiu para 18,1% no ano passado, enquanto o México investiu 20,7% do seu PIB no ano passado, a Colômbia 23,9% e o Peru 26,6%.

O significado e a importância da decisão dividem analistas e economistas, que divergem, inclusive, sobre o futuro do país. "De fato, o país não é mais igual ao Brasil de anos atrás, que contava com expectativas de expansão do crédito, da renda e de forte crescimento", reconhece Paulo Gala, estrategista da Fator Corretora. Ao mesmo tempo, diz ele, o "novo Brasil" ainda contaria com pontos a favor da manutenção do grau de investimento, como um grande volume de reservas e uma trajetória ainda declinante da dívida líquida sobre o PIB. "Tomamos um puxão de orelha, mas ainda estamos relativamente bem posicionados."



Do lado negativo, Gala avalia que um dos pontos mais importantes é perceber que a melhora das contas públicas nos últimos anos se deveu fundamentalmente à expansão do PIB e, sem esse gatilho, é possível que a fragilidade do país aumente. Ele também avalia que, olhando para trás, hoje está claro que a política de desonerações atrapalhou a arrecadação e a dinâmica da dívida pública e, mais importante, não estimulou de forma relevante os investimentos.

Diferentemente de 2008, quando o primeiro grau de investimento obtido pelo país pegou todo mundo de surpresa, a mudança feita pela Moody's já era esperada por analistas e investidores e não deve ter consequências diretas sobre a economia este ano, avalia o economista-chefe do Banco Fibra, Cristiano Oliveira. No entanto, diz ele, o mercado deve ficar ainda mais cauteloso em relação aos fatores que levaram à decisão da agência, o que exigirá uma resposta do governo, principalmente na questão fiscal.

Para Oliveira, o governo precisa não só definir uma meta de superávit primário para 2014, mas também esclarecer como será atingida. "Existe grande incerteza em relação ao cumprimento da meta, e também em relação a qual número precisamos olhar", disse o economista, lembrando que, em 2012, o Tesouro fez uso de "contabilidade criativa" para chegar ao superávit de 3,1% do PIB.

A Moody's reconhece que em seu balanço dos riscos que afetam a nota de crédito do Brasil, as preocupações com o crescimento hoje ganharam relevância em relação aos indicadores fiscais. Embora a piora da relação entre dívida bruta e PIB seja destaque entre as razões da agência, o foco mudou levemente para o crescimento. "Sempre estivemos preocupados com os indicadores fiscais, porque são os que mais destoam dos outros países com o mesmo rating. Para ser honesto, no presente, as preocupações com o crescimento são tão importantes, se não mais, quanto as com a parte fiscal", diz Mauro Leos, vice-presidente-sênior para crédito da Moody's.

Segundo Leos, a expansão da economia brasileira deve se manter ao redor de 2,5% neste e no próximo ano, o que significaria um período total de quatro anos de crescimento relativamente baixo pelos padrões locais. Leos diz, no entanto, que embora o fato não tenha sido mencionado no relatório, a expectativa é que em 2015 a economia volte a se expandir em ritmo mais próximo do visto em anos anteriores, o que significaria taxa superior a 3%, estimulada pelo programa de concessões em infraestrutura do governo.

Para Leos, se o Brasil não crescer a taxas significativamente mais altas do que 3%, será difícil preservar a perspectiva estável, e mais difícil voltar à perspectiva positiva para a nota de crédito do país. Tudo, porém, vai depender do programa de concessões. "Se o programa não tiver tanto sucesso quanto o governo espera, há uma boa chance de a economia continuar registrando baixo crescimento, mesmo após 2015. "E se isso acontecer, poderá colocar pressões sobre o governo e sobre o rating do Brasil."

Carlos Kawall, economista-chefe do banco J.Safra, ressalta que o contexto de crescimento econômico mais baixo prejudica os indicadores de solvência, pois afeta as receitas do setor público. Além disso, independentemente de oscilações de um ano para o outro, a taxa de investimento muito baixa afeta o crescimento potencial da economia. Para o ex-secretário do Tesouro Nacional, o produto potencial, está atualmente entre 2,5% e 3%. "E com a taxa de investimento caindo, ele pode continuar a cair."

Mansueto Almeida, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), afirma que o Brasil corre o risco de ficar preso em um equilíbrio ruim, em que ainda é necessário realizar um superávit primário razoavelmente elevado, em torno de 2% do PIB, para manter a dívida estável, sem deixar muito espaço para aumentar o investimento público. Ele avalia que o Brasil, em relação a outros emergentes, tem pouco grau de liberdade para manobrar a política econômica. "Não há espaço para elevar o endividamento e nem a carga tributária no Brasil, o que ainda pode ser feito no México", afirma.

Segundo ele, com os sinais corretos, como maior empenho em realizar a agenda de investimentos em infraestrutura, o governo ainda pode reverter a mudança de percepção em relação ao Brasil. Os atuais indicadores, afirma, não justificam a perda de grau de investimento do país.

Na mesma linha, o economista e ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento, Delfim Netto, acredita que não há nenhum risco de perda de controle. "O que as agências estão dizendo já faz algum tempo é que a dívida bruta no Brasil é muito alta quando comparada a de outros emergentes", diz. Para Delfim, o sistema previdenciário é um dos principais fatores de risco para as contas públicas no futuro.

Para Luiz Gonzaga Belluzzo, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, a dívida bruta do governo apresentou efetivamente uma leve piora, mas que não seria suficiente para alterar a percepção do país. "Além do mais, para ser sincero, não levo essas agências a sério. Quem leva?", questiona. 

Colaboraram Arícia Martins e Francine De Lorenzo

O Estado no pico da crise

Gaudêncio Torquato
O Estado de S.Paulo

A ciência política ensina que Estado e sociedade formam um todo indivisível. A prática mostra que, ao menos entre nós, Estado e sociedade compõem uma dualidade em escancarado desnível. Nosso corpo social anda a passos mais avançados que o esqueleto do Estado.

Basta conferir os pulmões cheios de oxigênio de grupos que representam o espectro profissional ocupando ruas, acampando diante das Casas do poder, em Brasília e nos Estados, entrando em choque com aparatos policiais, expandindo uma locução focada na qualidade dos serviços públicos e na melhoria de condições de vida das comunidades. A visão é clara: a sociedade empunha aríetes para furar os bloqueios das fortalezas do Estado. Outra imagem que transparece é a de forças centrípetas saindo das margens para fustigar as forças centrífugas, simbolizadas pelos Poderes nas três instâncias federativas - União, Estados e municípios. Não se pense que a intenção é destruir os organismos que tributam, legislam e julgam, mas exigir deles mais eficiência no cumprimento de suas tarefas. Desse cenário conflituoso emerge a ideia de que a sociedade nunca esteve tão ativa, enquanto o Estado nunca foi tão reativo, lerdo, sem rumo.

Seja qual for o espaço da administração, as mostras de ineficiência e incúria se multiplicam. Após muito planejamento, o governo abriu leilão para a concessão da rodovia federal BR-262, um dos principais corredores de transporte de carga do País, num trecho de 375 km que passa por 22 municípios. A expectativa era enorme. O leilão, um fiasco para o Executivo. Ninguém se interessou, o que denota curto-circuito num dos programas-chave do governo.

"Não há Judiciário mais confuso que o nosso", vem de dizer o presidente da Corte Suprema, ministro Joaquim Barbosa. Péssimo conceito. A pendenga entre o Legislativo e o Executivo é um continuum de tensões, não apenas em decorrência de medidas provisórias que trancam pautas do Congresso, mas por causa da índole do nosso presidencialismo, sempre atento ao poder imperial, com o qual mantém sob rédea curta o conjunto parlamentar. Nas instâncias estaduais e municipais, curvas e buracos desorganizam as avenidas das administrações, adensando a insatisfação social. A conclusão é inevitável: o Estado brasileiro atinge o pico da montanha de uma crise que se arrasta há décadas. Ainda está em pé por causa de estacas e ferragens que, aqui e ali, se colocam, algumas de maneira improvisada, para sustentar os barrancos.

O que fazer para que o Estado acompanhe o andar ligeiro da sociedade? Resposta na ponta da língua: reformá-lo. Ora, se esse verbo é o mais acessado do dicionário de nossas utopias, é também o mais distante de nossa realidade. A razão é óbvia: reformar, como lembra Samuel Huntington, é mudar valores, padrões tradicionais, expandir a educação, racionalizar estruturas de autoridade, criar organizações funcionalmente específicas, substituir critérios subjetivos por elementos de desempenho e promover distribuição mais equitativa dos recursos materiais e simbólicos. Ou ainda, como dizia Maquiavel, "nada mais difícil de executar, mais duvidoso de ter êxito ou mais perigoso de manejar do que dar início a uma nova ordem de coisas". No nosso caso, as barreiras culturais, formadas lá atrás com a argamassa do patrimonialismo e seus filhotes, o clientelismo e o nepotismo, formam diques quase insuperáveis no oceano da reforma do Estado.

Reformar o Estado não é passar massa de reboco nos andares dos edifícios governativos, como se tem feito, aqui e ali, em momentos de tensão. Abriga tarefas hercúleas nos três Poderes que integram a estrutura de governo e envolvem questões estratégicas, definições que mudam até o modus operandi do regime, rotinas, práticas e costumes dos entes administrativos. Na esfera estratégica, um dos primeiros movimentos é na direção das funções do Estado, com a distinção entre suas atividades exclusivas (legislar, regular, julgar, policiar, fiscalizar, definir políticas, fomentar), os braços sociais e a produção de bens e serviços, visando a buscar novos modelos de desenvolvimento. A título de ilustração, essa questão não está clara na atual administração, pois o conceito de privatização é demonizado, apesar de o programa de concessões apontar para uma tomada de posição privatista repudiada pelo petismo. Não se trata, como ideólogos radicais enxergam, de defender o Estado mínimo ou combater o Estado máximo, mas fortalecê-lo para que consiga aperfeiçoar sua ação reguladora, a par de qualificar serviços e políticas sociais. A modelagem de cunho social-liberal é, seguramente, a mais adequada para gerar eficácia nas ações estatais e estimular a competição no campo privado. (O peso do conceito liberal, eis o busílis.)

Entre as engrenagens capazes de conferir maior velocidade ao motor do Estado, algumas são bem conhecidas. A meritocracia, por exemplo. Por que não implantar, de cima para baixo, a política do mérito, exigindo quadros profissionais qualificados, adequados às funções, treinados nas habilidades gerenciais? O atendimento político, por sua vez, deveria restringir-se às áreas específicas e, caso se levante o argumento da preservação do presidencialismo de coalizão, os partidos deveriam indicar perfis técnicos condizentes com os cargos. A gestão passaria por um banho de capacitação em todas as instâncias. Ao servidor público, mais valorizado, seria propiciada motivação profissional, a partir de remuneração condizente com o mercado de trabalho. O excesso burocrático seria contido, evitando-se a escadaria dos papéis e o retardamento das ações e decisões. Na frente da Previdência, urge consolidar uma política voltada para tampar os buracos do sistema, de forma a equilibrar as contas do Estado.

O que falta para preencher cada lacuna? Vontade política, senso de oportunidade, autoridade e liderança. Luzes que deveriam iluminar a direção do País.

A derrocada dos campeões nacionais

Raquel Landim 
Folha de São Paulo

O ano de 2013 foi catastrófico para os "campeões nacionais" eleitos pelo governo para se tornarem multinacionais verde-amarelas. O BNDES despejou quase R$ 30 bilhões nessas empresas e não está sobrando pedra sobre pedra.

O lance mais recente é a fusão entre a Oi e a Portugal Telecom. Como é típico dessas operações complexas, não é possível saber ainda quem ficou com a empresa, mas ao que tudo indica a gestão será dos portugueses.

O governo mudou as leis para permitir a fusão que criou a Oi e concedeu empréstimos vultuosos para a empresa, mas não adiantou. A "super" tele brasileira se viu atolada em dívidas e precisando desesperadamente de uma capitalização, que só foi possível com a entrada do BTG, de André Esteves.

Outra operação de "salvamento" foi a venda da marca Seara, do frigorífico Marfrig, para o JBS. Os irmãos Batista assumiram dívidas do concorrente no valor de impressionantes R$ 5,85 bilhões. Basta lembrar que o Marfrig pagou R$ 1,8 bilhão pela Seara.

Os frigoríficos estão entre os favoritos do governo e abocanharam fatias expressivas de dinheiro. O BNDESPar, braço de investimentos do BNDES, tornou-se um sócio importante dessas empresas, despejando R$ 8,1 bilhões no JBS e R$ 3,6 bilhões no Marfrig.

O inferno astral dos "campeões nacionais", no entanto, começou na virada do ano, quando a LBR, que era para ser a gigante dos lácteos, pediu recuperação judicial e o BNDES se viu obrigado a assumir um prejuízo de R$ 700 milhões.

E não dá para esquecer a derrocada espetacular do empresário Eike Batista, que já foi o queridinho de Lula e Dilma e no qual o BNDES despejou R$ 10 bilhões. Eike está vendendo suas empresas aos pedaços e deve pedir a recuperação judicial da petroleira OGX a qualquer momento.

É interessante observar que essas empresas, de ramos tão diferentes, acabaram no mesmo lugar: com pesadas dívidas, que derreteram seu valor de mercado e deixaram as companhias sem fôlego para investir.
Como essas empresas conseguiram ir tão mal, apesar do forte apoio do governo? Pior ainda: boa parte delas atua em setores promissores, nos quais o Brasil tem vantagens comparativas ou mercado interno crescente.

Mansueto de Almeida, pesquisador do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), explica que "cada caso é um caso", mas que "todas as empresas receberam subsídios para comprar concorrentes, crescendo muito num espaço de tempo curtíssimo".

Ou seja, não conseguiram capturar as famosas "sinergias", o que pode ser um eufemismo para má gestão.

Agora o governo vai tentando salvar os dedos, participando das capitalizações de forma envergonhada e conseguindo soluções de "mercado" com a ajuda de empresários "amigos". Que sirva de lição.

Ligação errada

 Míriam Leitão 
O Globo

O governo queria uma grande empresa telefônica de capital privado nacional e terá, na melhor das hipóteses, uma meio estatal luso-brasileira. O mais estratégico não era a origem do capital, mas sim a qualidade das comunicações. O governo perseguiu o primeiro objetivo e não atingiu; deveria ter mirado no outro alvo. No mundo atual, o risco é se atrasar na revolução da conexão.

Central para as autoridades regulatórias deveria ser a criação das condições para os grandes saltos tecnológicos que acontecem de forma vertiginosa. No ano de 2012, houve no mundo mais tráfego de dados do que em todos os anos anteriores. O aumento é exponencial. Para essa demanda que cresce intensamente não há aqui regulação com agilidade suficiente. Os consumidores têm uma sensação física de que estão andando para trás, com uma telefonia celular em colapso, no meio do salto da internet móvel.

Na época da privatização, o grupo empresarial mais heterogêneo foi o que comprou a então TeleNorteLeste. O governo Fernando Henrique ajudou com empréstimos, entrada do BNDES como acionista e a participação dos fundos de pensão. O temor era que não houvesse uma empresa de capital genuinamente nacional. O defeito daquela privatização foi haver Estado demais, como escrevi na época.

Ela virou Telemar e no ano de 2008 o governo Lula injetou mais Estado no processo. Foi feita uma alteração de encomenda na regulação. A lei proibia que uma das grandes empresas regionais comprasse outra. A regra havia sido feita para que houvesse mais empresas no mercado e não se formasse os quase monopólios. A barreira foi retirada por Lula porque a Telemar queria comprar a Brasil Telecom. Embrulhou-se tudo no discurso nacionalista da necessidade da supertele brasileira, que fosse como a Telefônica é para a Espanha ou o grupo Slim para o México. Com esse objetivo explícito surgiu a Oi.

A compra foi financiada em grande parte por empréstimos do governo, e mais capital do BNDES, com essa justificativa de que, no mundo atual, país grande e influente tem que ter uma empresa nacional de telecomunicação. O projeto era que ela se internacionalizasse, comprando outras empresas fora do país. Ela virou grande territorialmente, mas apenas no Brasil. O excesso de endividamento para a compra fez com que a empresa investisse pouco nos anos seguintes.

Baixo investimento nesse ramo é o pior erro. Quadro que se agrava quando acontece de o órgão regulador não liderar a busca de soluções regulatórias para as novas tecnologias e não empurrar as empresas para padrões de qualidade mais exigentes.

Fracassou a criação da supertele nacional como ela foi idealizada pelo governo petista. Agora, a Oi passa a ser uma empresa cujo maior acionista é um grupo português, que vai administrá-la. E o BNDES colocará mais capital. Ela se internacionaliza sendo comprada. Haverá um processo de simplificação acionária para reduzir as classes de ações que vai tornar mais explícito esse controle português.

O realmente importante continua fora da linha de preocupações das autoridades regulatórias para essa e outras empresas de comunicação no Brasil: como reduzir a distância que está se ampliando entre a qualidade das comunicações e o que é exigido de um país com ambições de ser primeiro mundo?

Há uma obsolescência natural de padrões e de equipamentos numa tecnologia que se move cada vez com mais rapidez em direção sempre surpreendente. O Brasil tem baixa capacidade de investimento, de uma forma geral, o governo não consegue executar o que está no orçamento, nem remove os obstáculos ao investimento privado. Pelo contrário, cria incertezas. O futuro está chegando e o Brasil sequer se preparou para o presente.

Um mês para esquecer

Everardo Maciel
O Estado de S. Paulo

É indispensável uma correção de rumos na política econômica. Sem preconizar saídas, um bom começo seria abandonar a arrogância, o voluntarismo e a fixação em surradas teses

A monarquia britânica reserva a expressão annus mirabilis para assinalar os anos de fartura e sucesso, em contraposição ao annus horribilis, no qual prevalecem as desventuras. Para a economia brasileira, setembro de 2013 pode ser tido como o mensis horribilis, pela impressionante conjunção de notícias ruins, desbancando a tradição de agosto.

A balança comercial, no período de janeiro a setembro, registrou o maior déficit desde 1998 (US$ 1,62 bilhão).

Há muito tempo o Brasil não conhecia déficit primário nas contas do setor público. Agosto nos brindou com um déficit de R$ 432 milhões, a despeito das recorrentes tentativas das autoridades fiscais de escamotear a clara tendência de deterioração das contas, desde a crise financeira de 2008, mediante discursos que pretendem desqualificar a geração de superávit primário ou práticas ridículas de “contabilidade criativa”.

A pesquisa Focus, do Banco Central, que captura previsões do mercado financeiro, elevou a projeção de inflação para 2013 de 5,81% para 5,82%, bem próximo do teto da meta inflacionária. Mais grave, para 2014 se espera uma inflação ainda maior (5,84%). Não se pode, além disso, desconhecer o represamento de vários preços de combustíveis, energia elétrica e transportes públicos. Restou evidente que o controle dos preços dos combustíveis e da energia elétrica conseguiu, tão somente, produzir danos seriíssimos à saúde financeira da Petrobrás e da Eletrobrás.

A ambígua e mal elaborada política de concessões produziu, em setembro, fracassos memoráveis: ninguém se habilitou à licitação da Rodovia BR-262, que liga Minas Gerais ao Espírito Santo; as grandes empresas norte-americanas e britânicas (Chevron, Exxon Mobil, BP e BG) não se animaram a apresentar propostas para o Campo de Libra, joia do pré-sal e primeira área a ser explorada no regime de partilha.

O Relatório de Competitividade Global do Fórum Econômico Mundial, divulgado naquele fatídico mês, mostrava que o Brasil, no cômputo geral de competitividade, caiu da 48.ª para a 56.ª posição, e, em relação à eficiência do governo, desabou da 111.ª posição para a desastrada 124.ª posição. De igual forma, a pesquisa anual do Banco Mundial sobre a facilidade para fazer negócios (Doing Business 2013) registrou que o País caiu da 128.ª para a 130.ª posição e, especificamente em relação ao pagamento de tributos, da 154.ª para uma impressionante 156.ª posição, num universo de 185 países.

O Banco Central reduziu de 2,7% para 2,5% a projeção de crescimento do PIB para 2013, mesmo considerando o pífio desempenho de 2012 (0,9%). Essa projeção é inferior à prevista para América Latina e Caribe (3%), segundo a Cepal, e somente superior à da Venezuela (1%).

Até no campo social setembro trouxe má notícia. O índice de analfabetismo, apurado em 2012 e em queda desde 1999, voltou a crescer, representando 8,7% (13,2 milhões de pessoas) da população maior de 15 anos. Ainda que esse índice tenha suscitado algumas controvérsias estatísticas, sua apuração decorre da mesma metodologia utilizada em toda a série histórica.

Tudo isso pode ser agravado com os ventos que sopram do norte. É muito provável que a política de expansão monetária dos EUA esteja chegando ao fim, implicando valorização dos juros básicos e do dólar. Para enfrentar a inflação decorrente da desvalorização do real, só restará a elevação dos juros, com repercussões na economia doméstica. Assim, o mensis horribilis pode ser o prenúncio de um annus horribilis.

É indispensável uma correção de rumos na política econômica. Sem preconizar saídas, um bom começo seria abandonar a arrogância, o voluntarismo e a fixação em surradas teses.

Martin Wolf, um dos mais abalizados economistas contemporâneos, em entrevista a O Estado de S. Paulo em 15/9/2013, observou que “expansão fiscal em países com problemas estruturais só gera inflação”. E, quanto ao Brasil, sentenciou: “O Estado brasileiro é ineficiente e corrupto”.

Os 'nós' por trás da aliança entre Campos e Marina

Laryssa Borges
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Ex-senadora terá de lidar com conflitos ideológicos em alianças estaduais e prováveis impasses com políticos que fazem parte do leque de alianças costurado por Eduardo Campos para viabilizar sua candidatura em 2014

Ueslei Marcelino/Reuters 
A ex-senadora Marina Silva confirmou o governador de Pernambuco, 
Eduardo Campos (PSB) como candidato nas eleições de 2014  

Mais nova – e célebre – aliada do governador Eduardo Campos, a ex-senadora Marina Silva terá de lidar a partir de hoje com potenciais conflitos ideológicos em alianças estaduais e prováveis impasses “programáticos” entre os militantes da Rede Sustentabilidade e políticos que fazem parte do guarda-chuva de apoio ao pré-candidato do PSB à eleição presidencial de 2014.

Embora afirme se tratar apenas uma “filiação simbólica” ao PSB, Marina passará a conviver com dilemas éticos: mais de vinte deputados da bancada do PSB na Câmara dos Deputados, por exemplo, votaram alinhados aos ruralistas nos debates sobre o Código Florestal – a posição PPS na mesma votação era apontada como um dos principais impasses para que a sigla fosse escolhida pela ex-senadora. Com ou sem Marina, o PPS continua como um dos alvos de cobiça de Eduardo Campos, o que poderia ampliar ainda mais o nó ideológico da coligação negociada pelo governador pernambucano.

No processo de costura de alianças para 2014, Campos também se aproximou de políticos refratários às bandeiras levantadas por Marina. Dois deles são o ruralista Ronaldo Caiado (GO) e o atual secretário de Desenvolvimento Econômico de Santa Catarina, Paulo Bornhausen. Em agosto, Campos contemplou Paulo Bornhausen, filho do ex-senador Jorge Bornhausen, com o comando do diretório estadual do PSB como parte da estratégia para sedimentar apoios no sul do país. Mesmo com essas incoerências, Marina nega que tenha se rendido ao pragmatismo político.

A ex-senadora, que apareceu com 26% das intenções de voto no último Datafolha, não atacou diretamente os acordos políticos alinhavados pelo socialista. Preferiu exaltar a “contribuição conjunta” que estaria em curso: “Há um processo do PSB em curso e, com base no aprofundamento dessa disposição programática, caberá a eles fazer suas avaliações”, disse a ex-senadora. “O que estamos nos dispondo é fazer esse alinhamento para ter a possibilidade de aprofundar cada vez mais essa contribuição conjunta."

Confrontada diretamente com a possibilidade de dividir palanques em 2014 com Caiado ou Bornhausen, Marina novamente tergiversou. “Temos absoluta convicção de que estou coerente com a nossa determinação de continuarmos afirmando e reafirmando o programa e processo da Rede”. Ela ressaltou, entretanto, que vai conversar “com aqueles que se propõem ao diálogo programático”. “Nesse momento, há disposição da direção do PSB e de seus maiores dirigentes”, disse.

Sem mencionar os possíveis conflitos formados na construção da aliança política, Campos ressaltou que o PSB e a Rede são “partidos autônomos e com identidades diferentes”. “Mas temos princípios e valores que nos possibilitam, nesse momento, fazer essa aliança na busca de um programa que quebre a velha lógica do poder pelo poder.”

Palanques - 
Na formação dos palanques estaduais, o “dilema de Marina” não é diferente. De imediato, aliados dela garantem apoiar as decisões do PSB nas candidaturas aos governos do Ceará e de São Paulo – onde provavelmente os socialistas lançarão candidaturas próprias. Nas demais unidades da federação, os casos ainda serão negociados ou será adotada uma postura independente. “A Rede não está se fundindo com o PSB, não está dizendo que vai apoiar x ou y candidato naquele estado”, ressalvou Marina.

Pelo acordo firmado entre Rede e PSB, fica garantida a “integridade partidária” das duas siglas, ainda que a legenda de Marina Silva não exista formalmente. “Vamos preservar nossas diferenças”, observou Campos. “Há estados onde apoiamos companheiros abrigados em outras legendas e estados onde as alianças estão mais distantes. O fundamental é que possamos discutir o país”.

Na mesma cerimônia, filiaram-se ao PSB os deputados Walter Feldman, ex-PSDB, e Alfredo Sirkis, ex-PV, além do coordenador da Rede, Pedro Ivo Batista.

Aliança entre Marina e Campos força Planalto a reavaliar estratégia de Dilma

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Assessores da presidente dizem que ela apostava em um voo solo da ex-senadora pelo PPS e que aliança PSB/Rede dá carisma à chapa

 (Celso Junior/Reuters) 
Estratégia: Dilma terá de reforçar imagem
 para embate com Marina Silva e Eduardo Campos

O Palácio do Planalto já reavalia a estratégia para a sucessão presidencial de 2014 após o anúncio, no sábado, da aliança entre a ex-senadora Marina Silva e governador de Pernambuco, Eduardo Campos - ambos agora no PSB. Petistas que integram o primeiro escalão da presidente Dilma Rousseff acreditam que ela terá de reforçar a tática de construção da imagem de realizadora.

A ideia é se opor ao perfil "sonhático" da ex-ministra do Meio Ambiente, que deverá integrar a chapa presidencial do PSB com Campos. Um ministro de Dilma chega a brincar que ela terá de ser apresentada como a "realizática".

A parceria entre Marina e Campos, dois ex-ministros do governo Luiz Inácio Lula da Silva, pegou de surpresa integrantes do governo Dilma. Os assessores do Planalto dizem que a presidente apostava que, sem ter conseguido registrar a Rede Sustentabilidade na Justiça Eleitoral por falta de assinaturas de apoio, Marina sairia candidata pelo PPS.

No acordo com Campos, ainda não está claro quem será o cabeça da chapa. Apoiadores tanto de Marina quanto de Campos dizem que a ex-ministra aceitaria integrar a aliança como vice. No anúncio em Brasília, Marina afirmou que pretendia "adensar o projeto de uma candidatura já posta".

No Planalto e no PT, a avaliação é de que Marina leva para o palanque de Campos o carisma e também o problema de um discurso contra os investimentos em infraestrutura. Agora, a chapa informal PSB/Rede terá de mostrar como é possível garantir o crescimento da economia com a visão "sustentável" de Marina, diz um auxiliar da presidente.

Outro problema, segundo esse assessor, é a pressão dos aliados de uma possível candidata a vice que tem um nome mais conhecido do que o do próprio Campos - nas pesquisas de intenção de voto, Marina está logo atrás de Dilma, enquanto o governador de Pernambuco aparece bem abaixo, sem atingir dois dígitos na preferência do eleitorado.

O discurso ambiental, área de Marina, será moldado para que o governo passe a impressão de preocupação ecológica sem, no entanto, ficar paralisado. Nas avaliações feitas pelo PT, Dilma é imbatível no discurso social, mas há preocupação com a recomposição da base no Nordeste, área de Campos.

Dilma mostra preocupação com aliança Marina-Campos. Mas deveria era se preocupar em governar o Brasil.

Comentando a Notícia

Estamos há cerca de um ano das eleições presidenciais. E há pelo menos 7 a 8 meses antes que as campanhas respectivas tenham seu início. Dilma dizer que se preocupa agora com a aliança Marina-Eduardo Campos, é o mesmo que  confessar que sua preocupação jamais deixou de ser a própria reeleição.  Governar o Brasil com um projeto de país, de desenvolvimento, de aprimoramento dos serviços públicos passou a ser questão secundária.

O  triste quadro da economia brasileira que, só não é pior, porque o país é rico, tem um povo majoritariamente trabalhador, dedicado, e empresários que, se não são os “campeões nacionais” a merecerem graciosas bolsas BNDES e desonerações generosas em troca de contribuição “espontânea” para as campanhas petistas,  ao menos conseguem , a par da imensas dificuldades até para sobreviverem, ser eficientes e empreendedores.  Contudo, os indicadores de setembro e agosto revelam um quadro não só preocupante, mas também em franca deterioração.

A própria última pesquisa de avaliação, mostra a que nível decadente este governo conseguiu atingiu quando se olha pelo  lado dos serviços públicos. Dilma até pode ser reeleita, mas por seus méritos, e sim por falta de competência daqueles que se opõem a seu governo.

O longo caminho de retrocesso que o Brasil vem sendo guiado pelos governos Lula e Dilma, exigirá enorme esforço de reconstrução e reeducação do pensamento nacional  para retomarmos o caminho são do desenvolvimento e da modernidade. Não será com este obscurantista que chegaremos ao futuro. Pelo contrário. É mais fácil chegarmos ao século 19.

Portanto, Dilma deveria entregar ao seu partido a tarefa de preocupar-se com adversários prováveis para 2014, e cuidar com maior atenção dos problemas que envolvem seu desgoverno.  Mas, como o que guia seu pensamento e o de seu partido, não passa de um esbirro de poder hegemônico, eles acham que o resto do país pode sentar e esperar.

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Em reunião com líderes da base, presidente descarta tese de que Marina está enfraquecida e diz que ex-ministra ‘não é qualquer pessoa’

Tânia Monteiro e Rafael Moraes Moura  
O Estado de S. Paulo

A presidente Dilma Rousseff mostrou preocupação com a decisão de Marina Silva de se unir a Eduardo Campos durante reuniões com líderes da base aliada do Congresso realizada ontem no Palácio do Planalto. "Marina não é qualquer pessoa", disse nos encontros com deputados e senadores.

De acordo com relato de dois deputados presentes na primeira reunião, após ouvir a avaliação da maioria dos líderes de que a ida de Marina para o PSB enfraqueceria o peso eleitoral da ex-ministra em relação aos 20 milhões de votos obtidos na eleição passada, Dilma fez questão de ressalvar que "não se pode desconsiderar a importância de Marina", para emendar: "Marina não é qualquer pessoa".

O discurso dos aliados, porém, está afinado nas críticas à situação dos tucanos e de seu candidato à Presidência, senador Aécio Neves, que segundo eles foram os que mais perderam com a parceria entre Marina e Campos. Na avaliação do líder do PT na Câmara, José Guimarães, por exemplo, quanto menos candidaturas houver no ano que vem, maiores as chances de a presidente faturar a eleição.

"Havia uma discussão de José Serra, Marina, Eduardo, Aécio, todo mundo candidato, quanto menos candidaturas, as chances da presidenta se ampliam. Ela não falou, mas muitos de nós falamos no bate-papo preliminar, antes da presidenta chegar ao local da reunião", disse Guimarães. O líder petista observou ainda que não é o momento de "bater boca" com o governador de Pernambuco, porque "houve esta separação e serei o primeiro a defender, em 2014, que o Eduardo volte para o palanque da Dilma".

Na conversa com os líderes governistas, a presidente foi muito cuidadosa ao tratar do tema Marina e preferiu aproveitar o assunto para questionar a forma como ocorre hoje a criação dos partidos políticos, querendo informações de como são feitas as certificações e a aferição de assinaturas.

Repetição. 
O líder do PTB na Câmara, Jovair Arantes, lembrou que dois partidos foram criados agora e que há outros 25 na fila esperando sua vez. O líder do PDT, deputado Marcos Rogério, criticou o que chamou de "precariedade do processo de certificação dos partidos".

Em seguida, houve a reunião com os senadores. Na saída, o líder do governo na Casa, Eduardo Braga (PMDB), repetiu a frase dita aos deputados federais por Dilma a portas fechadas sobre Marina. "Marina não é uma pessoa qualquer", disse. Braga negou, no entanto, que estivesse reproduzindo uma fala da presidente da República.